{"id":15680,"date":"2021-09-11T12:43:55","date_gmt":"2021-09-11T15:43:55","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15680"},"modified":"2021-09-08T20:09:04","modified_gmt":"2021-09-08T23:09:04","slug":"fetichismo-e-dinamica-autodestrutiva-do-capitalismo-entrevista-com-anselm-jappe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/09\/11\/fetichismo-e-dinamica-autodestrutiva-do-capitalismo-entrevista-com-anselm-jappe\/","title":{"rendered":"Fetichismo e din\u00e2mica autodestrutiva do capitalismo, entrevista com Anselm Jappe"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jean-Marie Harribey &#8211; <\/strong><i>Voc\u00ea acaba de publicar\u00a0<\/i><a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/produto\/a-sociedade-autofagica\/\"><strong>A sociedade autof\u00e1gica: capitalismo, desmesura e autodestrui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a><i>, no qual apoia-se na \u201ccr\u00edtica do valor\u201d, tema de seus livros precedentes, para analisar como a sociedade capitalista produz um tipo de subjetividade dos indiv\u00edduos que os integra \u00e0 sua din\u00e2mica autodestrutiva.<\/i><\/p>\n<p><i>Comecemos pelo in\u00edcio. A tese central da \u201ccorrente cr\u00edtica do valor\u201d, que voc\u00ea representa com Kurz, Postone, e talvez Gorz (voltaremos a falar dele), \u00e9 considerar que o trabalho, o valor e a mercadoria s\u00e3o categorias do capitalismo e somente dele. Desta hip\u00f3tese resulta uma proposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: para se desvencilhar do capitalismo, \u00e9 preciso desvencilhar-se do trabalho, do valor etc.<\/i><\/p>\n<p><i>Se se trata de um problema sem\u00e2ntico, quer dizer, se est\u00e1 decidido desde o in\u00edcio chamar de \u201ctrabalho\u201d o trabalho prolet\u00e1rio assalariado e dizer que o valor \u00e9 o valor para o capital, a discuss\u00e3o est\u00e1 encerrada, basta encontrar outros conceitos para dar conta de outras realidades fora do capitalismo ou que subsistem (ou se desenvolvem) em seu seio. Mas a minha quest\u00e3o \u00e9 a seguinte: Marx sempre distinguiu o que ele chamava de processo de trabalho em geral do processo de trabalho capitalista. Fazer do trabalho e do valor categorias exclusivamente ligadas ao capitalismo n\u00e3o \u00e9 recusar essa distin\u00e7\u00e3o marxiana?<\/i><\/p>\n<p><i>Dito de outro modo, aceitando totalmente a ideia de que as formas do trabalho, sua organiza\u00e7\u00e3o, os objetivos que lhe s\u00e3o atribu\u00eddos, s\u00e3o produto de rela\u00e7\u00f5es sociais, e s\u00e3o, portanto, constru\u00e7\u00f5es sociais e hist\u00f3ricas, pode-se eliminar toda dimens\u00e3o que ultrapassa tal quadro, e que teria um car\u00e1ter antropol\u00f3gico relativo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana (n\u00e3o \u00e0 \u201cnatureza\u201d humana)? O que \u00e9 feito, para a corrente cr\u00edtica do valor, do ser humano que produz, por meio do seu trabalho, suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia, e tamb\u00e9m produzindo-se a si mesmo? O conceito de \u201ctrabalho vivo\u201d n\u00e3o carrega consigo a ideia de \u201creprodu\u00e7\u00e3o da vida social\u201d, tanto no plano material quanto no cultural e simb\u00f3lico, quer dizer, a ideia da centralidade do trabalho vivo, e isto para al\u00e9m da conting\u00eancia hist\u00f3rica do capitalismo? O que \u00e9 feito do ser humano na sua rela\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica com a natureza, que sempre existe, no \u00e2mbito de rela\u00e7\u00f5es sociais, \u00e9 claro?<\/i><\/p>\n<p><i>Se esta discuss\u00e3o \u00e9 de natureza metodol\u00f3gica, at\u00e9 mesmo epistemol\u00f3gica, n\u00e3o seria poss\u00edvel considerar que \u00e9 porque o capitalismo tende a fazer do trabalho um dado homogeneizado, indiferenciado, abstrato que se pode ser levado a ver nele apenas um conceito hist\u00f3rico ligado ao capitalismo?<\/i><\/p>\n<p><i>Seu livro inscreve-se no cruzamento de v\u00e1rias filia\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, notadamente o marxismo e a psican\u00e1lise. Mas, para al\u00e9m das figuras de Marx, de Freud e de alguns outros, ele se inscreve no cruzamento de v\u00e1rias disciplinas no seio das ci\u00eancias sociais e humanas. Como levar em conta, ent\u00e3o, o aporte da antropologia, [\u00e1rea] na qual diversos autores importantes sublinharam, depois dos numerosos estudos de campo sobre sociedades pr\u00e9-modernas, que se o trabalho n\u00e3o tomava as formas que n\u00f3s conhecemos, [mesmo] se seus membros n\u00e3o tinham as mesmas representa\u00e7\u00f5es de suas atividades produtivas, [ainda assim] estas eram trabalho?<\/i><\/p>\n<p><i>Eu penso em Godelier, Descola e Deranty, quanto a autores de l\u00edngua francesa, e em Sahlins,<\/i><i>\u00a0para quem os povos ca\u00e7adores-coletores trabalhavam menos que n\u00f3s, mas trabalhavam, mesmo que a fronteira com as outras atividades fosse t\u00eanue. E Polanyi cita Malinowski, que analisa \u201co trabalho no meio ind\u00edgena\u201d como dissociado da ideia de seu pagamento; ele cita tamb\u00e9m Firth: \u201cO trabalho por ele mesmo \u00e9 uma caracter\u00edstica constante da ind\u00fastria Maori\u201d.<\/i><i>\u00a0Todos parecem assim conservar essa dualidade do trabalho, sublinhada por Marx, com uma dimens\u00e3o antropol\u00f3gica e uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica estreitamente misturadas.\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>Pode-se estender a discuss\u00e3o a duas outras categorias cujo status \u00e9 talvez incerto em Marx. Sabe-se, hoje, que o mercado e a moeda s\u00e3o duas institui\u00e7\u00f5es sociais bem anteriores ao capitalismo e que, se este lhes deu um desenvolvimento particular para servir \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o do capital, elas n\u00e3o podem ser reduzidas a esta \u00faltima. Deparamo-nos, mais uma vez, com a discuss\u00e3o a respeito da produ\u00e7\u00e3o na esfera monet\u00e1ria n\u00e3o mercantil. Novamente, a discuss\u00e3o te\u00f3rica tem prolongamentos pol\u00edticos e estrat\u00e9gicos: uma sociedade que ultrapasse o capitalismo n\u00e3o manteria a moeda, colocada a servi\u00e7o do interesse geral? A mesma quest\u00e3o n\u00e3o valeria tamb\u00e9m para o mercado?<\/i><\/p>\n<p><strong>Anselm Jappe:<\/strong>\u00a0\u00c0s vezes tem-se a impress\u00e3o de que numerosas discuss\u00f5es \u2013 em todos os campos e em todos os meios \u2013 giram em torno de palavras e s\u00e3o amplamente reduzidas ao fato de que os participantes associam sentidos muito diferentes \u00e0s mesmas palavras. Entretanto, seria um equ\u00edvoco caso se dissesse ent\u00e3o que as diverg\u00eancias s\u00e3o apenas sem\u00e2nticas e que no fundo aqueles que se op\u00f5em nos debates est\u00e3o mais pr\u00f3ximos do que acreditam. Alguns regozijar-se-iam de poder dissolver, dessa maneira, a realidade nos discursos. Mas eles\u00a0se\u00a0equivocam,\u00a0porque, na verdade, as diferen\u00e7as sem\u00e2nticas cobrem geralmente diferen\u00e7as bastante \u201cessenciais\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 assim para uma palavra que est\u00e1 entre as mais difundidas no mundo e entre as mais carregadas de significado: \u201ctrabalho\u201d. Ter-se-ia a maior dificuldade para explicar essa palavra no sentido que a empregamos \u2013 eu j\u00e1 n\u00e3o digo a um ind\u00edgena de uma aldeia amaz\u00f4nica, mas simplesmente a C\u00edcero ou a Tom\u00e1s de Aquino. Mas, desde alguns s\u00e9culos \u2013 meio mil\u00eanio no m\u00e1ximo, em v\u00e1rias regi\u00f5es do mundo \u2013, per\u00edodo que tem durado a sociedade do trabalho, esse conceito est\u00e1 t\u00e3o profundamente arraigado nas nossas cabe\u00e7as que parece imposs\u00edvel n\u00e3o utiliz\u00e1-lo. Aceita-se, ent\u00e3o, discutir suas mil formas particulares, mas negar sua exist\u00eancia pr\u00e9-hist\u00f3rica parece t\u00e3o insensato quanto negar a necessidade universal de respirar.<\/p>\n<p>Evidentemente, uma precis\u00e3o \u201csem\u00e2ntica\u201d imp\u00f5e-se: o trabalho cujo car\u00e1ter universalmente humano n\u00f3s colocamos em d\u00favida n\u00e3o pode ser id\u00eantico ao que Marx chama \u201co metabolismo com a natureza\u201d ou \u00e0s atividades produtivas em geral. Aqui, n\u00f3s n\u00e3o discutimos sen\u00e3o a\u00a0<i>forma social<\/i>\u00a0que assumiram historicamente estas atividades. Dizer que a forma social capitalista do metabolismo com a natureza \u00e9 apenas uma forma espec\u00edfica da necessidade eterna de assegurar esse metabolismo \u00e9 um tru\u00edsmo vazio de sentido: \u00e9 como dizer que a agricultura capitalista \u00e9 um desenvolvimento da necessidade humana de ter uma ingest\u00e3o di\u00e1ria de calorias. \u00c9 indubitavelmente verdadeiro, mas n\u00e3o significa nada. Essa base comum de toda exist\u00eancia humana n\u00e3o tem nenhum poder\u00a0<i>espec\u00edfico<\/i>\u00a0de explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9, portanto, saber se, em toda sociedade humana, os seres se ocupam para retirar da natureza aquilo de que t\u00eam necessidade, mas se eles sempre operaram no interior de suas atividades uma ruptura entre o \u201ctrabalho\u201d, de um lado, e o resto (jogo, aventura, reprodu\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, ritual, guerra, etc.). E eu penso que se pode dizer \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Contudo, uma vez institu\u00eddo o \u201ccampo\u201d do trabalho, a partir do s\u00e9culo XIV, e definitivamente a partir do s\u00e9culo XVIII, tornou-se dif\u00edcil representar a atividade produtiva de outro modo que n\u00e3o sob a forma de \u201ctrabalho\u201d, qualquer que seja a \u00e9poca ou a sociedade considerada. At\u00e9 mesmo os esp\u00edritos mais cr\u00edticos sofrem influ\u00eancia disso. Assim, Marx oscilou durante toda sua vida entre uma concep\u00e7\u00e3o trans-hist\u00f3rica do trabalho e uma concep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e historicamente espec\u00edfica, quando ele analisa o \u201ctrabalho abstrato\u201d. \u00c9 preciso dizer que n\u00e3o existe trabalho que n\u00e3o tenha um \u201clado abstrato\u201d, pois o trabalho, desde que ele apareceu historicamente, possui uma \u201cdupla natureza\u201d, abstrata e concreta. Portanto, todo trabalho \u00e9 \u201ctrabalho abstrato\u201d; n\u00e3o existe inicialmente um trabalho concreto que teria se tornado \u201cabstrato\u201d em seguida.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica do valor distingue, com efeito, entre um \u201cMarx esot\u00e9rico\u201d e um \u201cMarx exot\u00e9rico\u201d. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de \u201cfases\u201d do seu pensamento, mas de diferentes n\u00edveis de consci\u00eancia que se misturam e se entrela\u00e7am em toda sua produ\u00e7\u00e3o. De um lado, Marx pertencia, apesar de tudo, ao pensamento \u201cmoderno\u201d que saiu do Iluminismo, e mais particularmente \u00e0 sua vers\u00e3o protestante com a famosa \u201c\u00e9tica do trabalho\u201d. Enquanto \u201cdissidente do liberalismo\u201d, segundo Robert Kurz, Marx carrega muitos dos seus pressupostos, notadamente utilitaristas.<\/p>\n<p>De outro lado, em Marx aparece um discurso diferente, mais fundamentalmente cr\u00edtico, mais avan\u00e7ado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua \u00e9poca, mas tamb\u00e9m mais dif\u00edcil de apreender, mesmo para o pr\u00f3prio Marx: esse discurso, que aparece na sua forma mais concentrada no primeiro cap\u00edtulo d\u2019<i>O Capital<\/i>, mas que est\u00e1 disperso em fragmentos por toda sua cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, n\u00e3o considera o valor e o trabalho abstrato, o dinheiro e a mercadoria como fatores eternos de todo modo de produ\u00e7\u00e3o um pouco mais \u201cdesenvolvido\u201d, em rela\u00e7\u00e3o ao que pode-se discutir a distribui\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Ele os analisa, em vez disso, como sendo a base, e ao mesmo tempo o resultado, de apenas uma forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, o capitalismo, e, segundo elemento essencial, ele demonstra seu car\u00e1ter destrutivo, situado no n\u00edvel l\u00f3gico mais profundo do que as rela\u00e7\u00f5es de classe com a explora\u00e7\u00e3o e a domina\u00e7\u00e3o que elas implicam. \u00c9 o fato de que o concreto \u2013 o valor de uso, o lado concreto do trabalho \u2013 reduz-se a ser o \u201cportador\u201d, a \u201cforma fenom\u00eanica\u201d do abstrato, quer dizer, do valor criado pelo lado abstrato do trabalho: o simples disp\u00eandio de energia, medido em tempo.<\/p>\n<p>Todavia, mesmo no interior do primeiro cap\u00edtulo d\u2019<i>O capital<\/i>, Marx parece hesitar, \u00e0s vezes de uma linha para outra, entre essa concep\u00e7\u00e3o do trabalho e uma outra, que v\u00ea no trabalho \u201cuma necessidade eterna\u201d. A grande maioria de seus sucessores, os marxistas, escamotearam completamente a sua cr\u00edtica do trabalho e constru\u00edram um \u201cmarxismo\u201d que \u00e9 uma verdadeira ontologia do trabalho e faz do trabalhador o representante privilegiado dessa base de toda a vida humana, diante da qual os outros grupos sociais s\u00e3o apenas parasitas. Foi mais atrav\u00e9s das vanguardas art\u00edsticas que certa cr\u00edtica do trabalho fez sua apari\u00e7\u00e3o em algumas formas de marxismo heterodoxo, sejam os situacionistas, sejam certas p\u00e1ginas de Adorno, de Marcuse e de Horkheimer. Outras formas de cr\u00edtica do trabalho, e que baseiam-se em pr\u00e1ticas reais, apareceram com o opera\u00edsmo italiano. Mas essas cr\u00edticas permaneceram geralmente ligadas a um n\u00edvel subjetivo ou \u201cfenom\u00eanico\u201d: a recusa (muito compreens\u00edvel!) de submeter sua vida a um trabalho alienado e imposto. O que permanecia ausente era uma cr\u00edtica \u201ccategorial\u201d do trabalho, que reconhece sobretudo a identidade entre capital e trabalho enquanto duas formas da mesma \u201csubst\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo os esp\u00edritos mais cr\u00edticos tiveram dificuldades para apreender o car\u00e1ter hist\u00f3rico do trabalho. Em\u00a0<i>As aventuras da mercadoria<\/i>\u00a0eu critico justamente Marshall Sahlins que, depois da sua tentativa muito merit\u00f3ria de mostrar o pouco tempo que as sociedades ditas \u201cprimitivas\u201d consagram \u00e0s atividades produtivas, n\u00e3o renuncia a classificar a ca\u00e7a com a categoria \u201ctrabalho\u201d, enquanto trata-se provavelmente de uma das atividades mais desej\u00e1veis em uma sociedade de ca\u00e7adores.<\/p>\n<p>Em outro contexto de reflex\u00e3o, Moishe Postone, que elaborou uma interpreta\u00e7\u00e3o de Marx muito importante e, no geral, bastante pr\u00f3xima daquela apresentada por Robert Kurz e o \u201cramo alem\u00e3o\u201d da cr\u00edtica do valor, cai no mesmo erro: ele demonstra muito bem que apenas no capitalismo o trabalho \u00e9 a base da vida social e torna-se uma inst\u00e2ncia que se automediatiza, em que \u00e9 o trabalho que cria a ordem social, enquanto em outras formas de sociedade era a ordem social que distribu\u00eda o trabalho. Postone indica que o trabalho desempenhava um papel social totalmente diferente nas sociedades n\u00e3o capitalistas, mas ele n\u00e3o chega \u00e0 conclus\u00e3o de que a pr\u00f3pria categoria trabalho n\u00e3o existia nestas sociedades.<\/p>\n<p>Eu sublinho no meu livro, no entanto, que antrop\u00f3logos e historiadores como J. P. Vernant ou M. Finley mostraram, para al\u00e9m de qualquer preconceito ideol\u00f3gico, a impossibilidade de aplicar o conceito de trabalho \u00e0s sociedades antigas. Isto n\u00e3o significa, de toda maneira, que os seres humanos n\u00e3o devam fazer esfor\u00e7os \u2013 \u00e0s vezes muito grandes \u2013 para satisfazer suas necessidades, reais ou simb\u00f3licas. Mas esses esfor\u00e7os estariam sempre ligados aos resultados esperados. Eles seriam o pre\u00e7o a pagar para obter o que se deseja. \u00c9 somente no capitalismo que uma parte das atividades foi destacada de todo conte\u00fado concreto e resumida em apenas uma categoria, o trabalho, como disp\u00eandio de energia que cria os objetos (ou servi\u00e7os) sem nenhum plano preestabelecido, colocando em rela\u00e7\u00e3o\u00a0<i>post festum<\/i>\u00a0os produtores no mercado an\u00f4nimo. Isto \u00e9 o que se chama \u201ctrabalho\u201d. Caso se queira, ao contr\u00e1rio, aplicar esse termo a toda atividade humana, ele perde todo poder de distin\u00e7\u00e3o, toda capacidade heur\u00edstica.<\/p>\n<p>Podem-se fazer considera\u00e7\u00f5es paralelas a respeito do dinheiro. O fato de as moedas existirem em muitas sociedades pr\u00e9-capitalistas n\u00e3o prova seu car\u00e1ter \u201cnatural\u201d: neste contexto, o dinheiro n\u00e3o era a representa\u00e7\u00e3o de um equivalente geral que iguala todas as atividades produtivas e todos os produtos, ele n\u00e3o era acumul\u00e1vel al\u00e9m de um certo n\u00edvel, ele n\u00e3o era o verdadeiro objetivo da produ\u00e7\u00e3o, e ele encontrava-se sempre \u201cencrustado\u201d em outras formas de troca, geralmente em um contexto sagrado. O dinheiro e o trabalho andam juntos. O trabalho como v\u00ednculo social n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem a presen\u00e7a do dinheiro, e o dinheiro n\u00e3o \u00e9 \u201cdinheiro\u201d onde o trabalho n\u00e3o constitui o v\u00ednculo social. N\u00f3s pensamos espontaneamente que os gregos teriam uma \u201ceconomia\u201d. Mas o grande historiador da Antiguidade Moses Finley come\u00e7a seu livro cl\u00e1ssico\u00a0<i>A economia antiga<\/i>\u00a0(1973) mostrando que\u00a0<i>n\u00e3o<\/i>\u00a0existia economia. N\u00e3o se pode ver, ent\u00e3o, de nenhuma maneira, como \u2013 e por que \u2013 continuar com a moeda em uma sociedade p\u00f3s-capitalista, que n\u00e3o pode s\u00ea-lo sen\u00e3o ao abolir o equivalente geral e a homologa\u00e7\u00e3o destrutiva que ele opera.<\/p>\n<p><strong>JMH:\u00a0<\/strong><i>Em\u00a0<\/i><a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/produto\/a-sociedade-autofagica\/\"><strong>A sociedade autof\u00e1gica<\/strong><\/a><i>, que come\u00e7a com a apresenta\u00e7\u00e3o do mito de Eris\u00edcton, esse insaci\u00e1vel \u201crei que se autodevora\u201d, voc\u00ea analisa a crise do capitalismo como uma crise do valor e n\u00e3o como uma degeneresc\u00eancia da lei do valor, com o que eu estou plenamente de acordo. Da mesma forma, em\u00a0<\/i>As aventuras da mercadoria<i>,<\/i><i>\u00a0voc\u00ea escrevia: \u201cMarx \u00e9 muitas vezes acusado de tudo reduzir \u00e0 vida econ\u00f4mica e de negligenciar o sujeito, o indiv\u00edduo, a imagina\u00e7\u00e3o ou os sentimentos. Na verdade, por\u00e9m, o que Marx fez foi simplesmente fornecer uma descri\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel da realidade capitalista. \u00c9 a sociedade mercantil que constitui ela mesma o maior \u2018reducionismo\u2019 alguma vez visto. Para sair desse \u2018reducionismo\u2019 \u00e9 preciso sair do capitalismo, n\u00e3o da cr\u00edtica do capitalismo. N\u00e3o \u00e9 a teoria do valor concebida por Marx que se encontra ultrapassada, mas sim o pr\u00f3prio valor\u201d. Mas voc\u00ea poderia precisar em que a corrente cr\u00edtica do valor se distingue das teses dos te\u00f3ricos do capitalismo cognitivo nesse ponto, e sem d\u00favida tamb\u00e9m de Gorz, porque at\u00e9 mesmo Marx, na c\u00e9lebre passagem dos\u00a0<\/i>Grundrisse<i>\u00a0abundantemente citada, passa curiosamente da ideia de que o trabalho n\u00e3o \u00e9 mais o produtor essencial da riqueza para a de que o trabalho n\u00e3o \u00e9 mais o produtor do valor, [sendo isso] o que o faz dizer que a lei do valor est\u00e1 \u201csuspensa\u201d?\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>Precisar isto \u00e9 importante pois implica uma caracteriza\u00e7\u00e3o da crise atual. Estamos n\u00f3s, como voc\u00ea escreve, \u201cna \u00e9poca de decomposi\u00e7\u00e3o do capitalismo\u201d ou no fim de um ciclo deste, marcado pela impossibilidade de fazer da finan\u00e7a um substituto do trabalho produtivo de mais-valor, mas que n\u00e3o implica necessariamente a impossibilidade de um novo ciclo? \u00c9 poss\u00edvel saber alguma coisa do futuro? O que nos remete a uma quest\u00e3o pol\u00edtica: o lugar da luta de classes nos avan\u00e7os em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do capitalismo. Pode-se considerar, como voc\u00ea e Postone, que, at\u00e9 aqui, o movimento oper\u00e1rio est\u00e1 preso \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o do produto do trabalho em vez de atacar a rela\u00e7\u00e3o social capitalista, e que ele \u201cdesempenhou bem a sua verdadeira tarefa: a de assegurar a integra\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios na sociedade burguesa\u201d? Quando Marx disseca a jornada de trabalho e mostra que a luta em torno de sua dura\u00e7\u00e3o e pagamento s\u00e3o uma e mesma coisa, ele n\u00e3o liga a cr\u00edtica da domina\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e0quela da domina\u00e7\u00e3o no trabalho? \u00c9 obrigat\u00f3rio escolher entre libertar o trabalho e se libertar do trabalho, se esses dois problemas s\u00e3o indissoci\u00e1veis? Caso contr\u00e1rio, em que e como \u00e9 poss\u00edvel dissoci\u00e1-los, para incentivar uma reivindica\u00e7\u00e3o que fa\u00e7a sentido nas lutas sociais, mais concretamente do que \u201cvamos abolir o trabalho\u201d?<\/i><\/p>\n<p><strong>A.J.:<\/strong>\u00a0No que concerne ao \u201cFragmento sobre as m\u00e1quinas\u201d de Marx, ele recebeu interpreta\u00e7\u00f5es divergentes nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Os defensores do p\u00f3s-opera\u00edsmo e do seu prolongamento na teoria do \u201ccapitalismo cognitivo\u201d afirmam que Marx previu a \u201csupera\u00e7\u00e3o\u201d progressiva do valor como base da riqueza social enquanto o \u201cintelecto geral\u201d torna-se a for\u00e7a produtiva principal, que n\u00f3s chegamos com a microinform\u00e1tica nesse ponto e que n\u00e3o falta sen\u00e3o sua tradu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Para a \u201ccr\u00edtica do valor\u201d essas p\u00e1ginas dos\u00a0<i>Grundrisse<\/i>\u00a0evocam mais propriamente uma das ra\u00edzes da crise fundamental do capitalismo: a diverg\u00eancia sempre crescente \u2013 devido ao aumento do n\u00edvel de produtividade \u2013 entre a riqueza concreta, que aumenta, e sua representa\u00e7\u00e3o no valor, sempre em baixa por causa da diminui\u00e7\u00e3o do trabalho vivo, \u00fanica fonte do valor. Entretanto, a l\u00f3gica do valor (pode-se dizer \u201clei do valor\u201d se n\u00f3s entendemos com essa palavra n\u00e3o uma \u201clei\u201d trans-hist\u00f3rica, mas um dado fetichista v\u00e1lido apenas para o capitalismo) n\u00e3o desapareceu at\u00e9 agora, mas continua a exercer sua domina\u00e7\u00e3o e fazer o concreto entrar na camisa de for\u00e7a do valor abstrato. Para obter sucesso, essa l\u00f3gica deve (sempre como processo fetichista inconsciente regido pelo \u201csujeito autom\u00e1tico\u201d, n\u00e3o como decis\u00e3o consciente de alguns \u201cdominantes\u201d) cada vez mais trapacear a si mesma. Assim, compensar a falta de dinheiro \u201creal\u201d (sa\u00eddo de uma verdadeira valoriza\u00e7\u00e3o do valor inicial atrav\u00e9s de uma utiliza\u00e7\u00e3o produtiva do trabalho vivo) com o dinheiro a cr\u00e9dito, o \u201ccapital fict\u00edcio\u201d, permite continuar ainda um pouco a vida sob perfus\u00e3o do capitalismo, enquanto \u201csuspende\u201d na pr\u00e1tica uma parte de suas leis de funcionamento. Isso n\u00e3o constitui, no entanto, uma sa\u00edda do capitalismo, mas somente uma refer\u00eancia ao\u00a0<i>redde rationem<\/i>.<\/p>\n<p>Toda a cr\u00edtica do valor \u00e9 uma teoria da crise fundamental do capitalismo. Ele se choca agora contra seus limites internos: o principal sendo a diminui\u00e7\u00e3o da sua subst\u00e2ncia criada pelo trabalho vivo. As massas crescentes de homens que se tornam \u201csup\u00e9rfluos\u201d s\u00e3o a consequ\u00eancia mais vis\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 lugar aqui de repetir todas nossas an\u00e1lises. Lembro somente que, desde o fim do ciclo fordista, por volta de 1970, anuncia-se continuamente novos ciclos baseados em novos modelos de acumula\u00e7\u00e3o. Mas eles jamais chegaram. E com raz\u00e3o: cada novo produto, cada novo m\u00e9todo de produ\u00e7\u00e3o se apresenta desde o in\u00edcio com muita tecnologia e muito pouco trabalho vivo. Desde quase meio s\u00e9culo, o capitalismo sobrevive, e subsiste, gra\u00e7as \u00e0 simula\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 obrigat\u00f3rio escolher entre libertar o trabalho e se libertar do trabalho, se esses dois problemas s\u00e3o indissoci\u00e1veis?\u201d O problema n\u00e3o se coloca verdadeiramente, e menos do que nunca, nos termos de uma alternativa entre reforma e revolu\u00e7\u00e3o, maximalismo e pragmatismo, curto e longo prazo. A aboli\u00e7\u00e3o do trabalho e do dinheiro n\u00e3o \u00e9 mais um programa ut\u00f3pico e extremista, mas \u00e9 realizada dia ap\u00f3s dia pela crise capitalista. Existe cada vez menos trabalho e menos dinheiro \u201cverdadeiro\u201d. Sair do capitalismo significa, ent\u00e3o, fazer face a essa situa\u00e7\u00e3o e inventar novas formas de atividade e de circula\u00e7\u00e3o. O que implica evidentemente reorientar as \u201clutas sociais\u201d. Se \u00e0s vezes pode ser justificado, no curto prazo, defender um posto de trabalho ou um servi\u00e7o do Estado, no m\u00e9dio e longo prazo n\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel, nem realista apostar nessas formas fetichistas que sempre foram desastrosas e que, al\u00e9m disso, hoje n\u00e3o funcionam mais.<\/p>\n<p><strong>JMH:\u00a0<\/strong><i>Se o m\u00e9todo da corrente cr\u00edtica do valor \u00e9 contido, ou seja, recusa a utiliza\u00e7\u00e3o de conceitos \u201cplenamente desenvolvidos\u201d no capitalismo (<\/i><a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/produto\/a-sociedade-autofagica\/\"><strong>A sociedade autof\u00e1gica<\/strong><\/a><i>) para outros contextos, como ocorre que esse m\u00e9todo seja, se n\u00e3o abandonado, ao menos relaxado quando voc\u00ea integra na sua an\u00e1lise o aporte da psican\u00e1lise? Por exemplo, voc\u00ea escreve (p.186): \u201cAssim como Marcuse, que levou a s\u00e9rio a \u2018puls\u00e3o de morte\u2019 e construiu sobre essa no\u00e7\u00e3o uma cr\u00edtica do capitalismo, pensamos que \u00e9 necess\u00e1rio admitir que uma parte das puls\u00f5es destrutivas est\u00e3o bastante presentes nos seres humanos desde o come\u00e7o e n\u00e3o prov\u00eam somente da corrup\u00e7\u00e3o da natureza humana que anteriormente teria sido virgem. O capitalismo n\u00e3o inventou tais puls\u00f5es, mas ele rompeu as barreiras que as continham, e favoreceu sua express\u00e3o, geralmente para explor\u00e1-las\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>Se aceitamos esse \u201c\u00e9 necess\u00e1rio admitir\u2026\u201d \u2013 de natureza (se eu posso dizer) antropol\u00f3gica \u2013 no dom\u00ednio da psican\u00e1lise, por que ele n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel no socioecon\u00f4mico? Uma coisa \u00e9 dizer, como Postone e como voc\u00ea, que \u201cconforme Marx, a forma mercadoria e a lei do valor\u00a0<\/i>se desenvolvem plenamente<i>\u00a0apenas no capitalismo e elas s\u00e3o suas determina\u00e7\u00f5es essenciais\u201d,<\/i><i>\u00a0outra coisa \u00e9 concluir que elas\u00a0<\/i>existem apenas no capitalismo<i>\u00a0e que no seio deste existe o valor somente para o capital. Isto significa que o trabalho produtivo definido como aquele que produz o valor para o capital representa o ideal-tipo do capitalismo. Mas e quanto ao capitalismo concreto no qual as for\u00e7as de trabalho produzem o valor monet\u00e1rio mas n\u00e3o mercantil\u00a0<\/i>[sic]\u00a0<i>para a sociedade na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade, que n\u00e3o se pode considerar como financiado pela produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, a n\u00e3o ser que caiamos na cren\u00e7a liberal?<\/i><\/p>\n<p><strong>A.J.:<\/strong>\u00a0\u00c9 um dos aspectos centrais do meu livro, e espero um dos mais inovadores: sair da falsa alternativa entre a proje\u00e7\u00e3o das categorias modernas sobre toda a exist\u00eancia humana, at\u00e9 mesmo a passada e a futura, para fazer destas categorias uma \u201cnatureza humana\u201d (base da vis\u00e3o burguesa desde Hobbes), e, no polo oposto, a recusa, tipicamente p\u00f3s-moderna e \u201cdesconstrutivista\u201d, de toda base natural ao humano e de toda continuidade hist\u00f3rica. Eu parto do princ\u00edpio de que existem tra\u00e7os recorrentes em quase todas as sociedades e que, se eles n\u00e3o s\u00e3o estritamente biol\u00f3gicos, s\u00e3o seguramente formados antes da \u201chist\u00f3ria\u201d. Por exemplo, os tra\u00e7os que dependem do nascimento prematuro e da depend\u00eancia prolongada do beb\u00ea, e de sua ang\u00fastia da separa\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. Por outro lado, eu sublinho a grande variedade de formas que os elementos de base assumiram ao longo da hist\u00f3ria, e isto em uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica (n\u00e3o unilateral segundo um \u201cdeterminismo econ\u00f4mico\u201d, nem, vice-versa, como autonomia do simb\u00f3lico) com a evolu\u00e7\u00e3o das sociedades. O capitalismo n\u00e3o inventou as inclina\u00e7\u00f5es ruins do ser humano, tal como o narcisismo, mas ele as explora para seus fins e as faz prosperar ao inv\u00e9s de barr\u00e1-las. A l\u00f3gica da mercadoria desmantelou as estruturas tradicionais que permitiram durante muito tempo frear as \u201cpaix\u00f5es ruins\u201d, como o ego\u00edsmo. Sair do capitalismo n\u00e3o significa, portanto, construir um \u201chomem novo\u201d a partir do zero, nem aceitar o homem contempor\u00e2neo como a \u00faltima palavra da hist\u00f3ria. Trata-se mais de revalorizar certas estruturas do passado e de inventar outras.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o se situa, ent\u00e3o, entre os tru\u00edsmos vazios do g\u00eanero \u201co homem deve sempre procurar uma subsist\u00eancia, se reproduzir, relacionar-se com seus semelhantes\u201d, etc., demasiado gerais, e a retroproje\u00e7\u00e3o de categorias modernas como economia, mercado, moeda, trabalho e Estado em outras sociedades.<\/p>\n<p>\u00c9 absolutamente necess\u00e1rio manter a distin\u00e7\u00e3o entre trabalho produtivo (produtivo de capital, certamente, o que n\u00e3o tem nada a ver com a \u201cprodutividade\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao uso humano) e trabalho n\u00e3o-produtivo. Para a acumula\u00e7\u00e3o do capital global (no n\u00edvel do capital particular, a coisa pode se apresentar diferentemente, mas isto n\u00e3o tem import\u00e2ncia para uma an\u00e1lise sist\u00eamica), a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, etc., s\u00e3o \u201cn\u00e3o produtivas\u201d e constituem uma simples dedu\u00e7\u00e3o do lucro industrial, uma dedu\u00e7\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1rio reduzir tanto quanto poss\u00edvel. \u00c0 sua maneira, a ideologia liberal constata esse fato, mas evidentemente sem nenhuma compreens\u00e3o das causas. \u00c9 um dos grandes paradoxos do capitalismo que as atividades mais \u00fateis e agrad\u00e1veis apare\u00e7am geralmente como \u201cn\u00e3o produtivas\u201d, enquanto que a produ\u00e7\u00e3o de Roundup ou de um smartphone s\u00e3o \u201cprodutivas\u201d (de capital). Entretanto, querer valorizar \u2013 em termos de mercado, como dinheiro \u2013 as atividades verdadeiramente \u201c\u00fateis\u201d, ao passo que se permanece no interior do contexto de mercado, n\u00e3o \u00e9 um perspectiva desej\u00e1vel nem realista.<\/p>\n<p><strong>JMH:\u00a0<\/strong><i>Um lugar muito importante no seu livro \u00e9 ocupado pelo fetichismo, este conceito de Marx pelo qual ele nomeia a transforma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo em \u201csujeito autom\u00e1tico\u201d (p. 20 e seguintes). Voc\u00ea tira desse conceito a ideia de ir buscar em Freud as ferramentas para \u201cchegar a uma hist\u00f3ria \u2018materialista\u2019 da alma humana; \u2018materialista\u2019 n\u00e3o no sentido em que se pressup\u00f5e uma proemin\u00eancia ontol\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o material ou do \u2018trabalho\u2019, mas no sentido em que n\u00e3o se concebe a esfera simb\u00f3lica nem como autossuficiente nem como autorreferencial\u201d (p. 25). Voc\u00ea pode explicar por que a constitui\u00e7\u00e3o desse sujeito autom\u00e1tico \u00e9 insepar\u00e1vel, na sociedade moderna, do fortalecimento do narcisismo? Dito de outro modo, em que o fetichismo se identifica com o narcisismo, n\u00e3o por um v\u00ednculo de causa e efeito de um em rela\u00e7\u00e3o ao outro ou inversamente, mas como um \u201cdesenvolvimento paralelo\u201d ou como as \u201cduas faces da mesma forma social\u201d (p. 26)? Caso se defina o narcisismo como \u201cuma fraqueza do eu: o indiv\u00edduo permanece confinado em um est\u00e1gio arcaico do desenvolvimento ps\u00edquico\u201d (p. 27), compreende-se bem que esse arca\u00edsmo pode em certas condi\u00e7\u00f5es engendrar formas de viol\u00eancia que voc\u00ea analisa na sequ\u00eancia, mas de que modo esse narcisismo forma um par com o fetichismo da mercadoria? Se o conflito edipiano n\u00e3o \u00e9 superado nem mesmo atingido, as coisas n\u00e3o se d\u00e3o antes mesmo que o indiv\u00edduo esteja preso em alguma rela\u00e7\u00e3o comercial, antes mesmo que ele esteja preocupado com o trabalho enquanto mediador social que \u201cfaz de cada indiv\u00edduo um membro da sociedade que partilha com os outros membros uma ess\u00eancia comum, permitindo-lhe participar da circula\u00e7\u00e3o de seus produtos\u201d?<\/i><\/p>\n<p><strong>A.J.:\u00a0<\/strong>De acordo com Marx, \u00e9 preciso ter em conta que o capitalismo n\u00e3o \u00e9 somente uma quest\u00e3o da opress\u00e3o exercida por uma classe identific\u00e1vel, mas que ele se reproduz tamb\u00e9m nas cabe\u00e7as e nas almas. Em um primeiro momento, a aten\u00e7\u00e3o se concentrou no v\u00ednculo entre as estruturas autorit\u00e1rias do capitalismo e as tend\u00eancias autorit\u00e1rias dos indiv\u00edduos, e se retra\u00e7ou a origem da fam\u00edlia pequeno-burguesa e o papel do complexo de \u00c9dipo para sua forma\u00e7\u00e3o. Contudo, essa an\u00e1lise \u2013 proposta sobretudo pelo \u201cfreudomarxismo\u201d \u2013 era exata apenas para um per\u00edodo hist\u00f3rico particular. Em seguida, outras estruturas da personalidade, e notadamente o narcisismo secund\u00e1rio, acabaram por dominar. Chistopher Lasch foi um dos primeiros a evocar isso no seu livro\u00a0<i>A cultura do narcisismo<\/i>\u00a0(1979). Sua explica\u00e7\u00e3o das origens hist\u00f3ricas do narcisismo permanece, todavia, bastante redutora e n\u00e3o estabelece verdadeiros v\u00ednculos com a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Em\u00a0<a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/produto\/a-sociedade-autofagica\/\"><strong><i>A sociedade autof\u00e1gica<\/i><\/strong><\/a>\u00a0eu tento determinar \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma primeira incurs\u00e3o \u2013 o v\u00ednculo entre o narcisismo e o \u201csujeito autom\u00e1tico\u201d criado pelo fetichismo da mercadoria. O fetichismo aplaina o mundo, ele reduz todo elemento concreto a ser apenas o \u201cportador\u201d de uma por\u00e7\u00e3o de trabalho abstrato. Ele nega ent\u00e3o as especificidades de todo objeto e finalmente nega o pr\u00f3prio mundo. Tudo reduz-se ao mesmo. O narc\u00edsico faz a mesma coisa: ele percebe o mundo somente atrav\u00e9s suas proje\u00e7\u00f5es que devem satisfazer seu desejo de onipot\u00eancia, que \u00e9, por sua parte, uma compensa\u00e7\u00e3o \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia total que \u00e9 aquela do beb\u00ea. Em vez de chegar a um dom\u00ednio limitado mas real sobre o mundo, atrav\u00e9s do reconhecimento do Outro no complexo de \u00c9dipo, o narc\u00edsico se satisfaz, geralmente sem saber, com proje\u00e7\u00f5es e fantasmas. Essa rela\u00e7\u00e3o com o mundo \u00e9 formada muito cedo, a partir da primeira inf\u00e2ncia, muito antes de qualquer entrada na vida social ou econ\u00f4mica. Ela seria, no entanto, revers\u00edvel \u2013 cur\u00e1vel \u2013 se o sujeito contempor\u00e2neo n\u00e3o se deparasse em seguida, a cada passo da sua exist\u00eancia, com fatores que refor\u00e7am esse narcisismo e o exploram, da publicidade \u00e0s tecnologias comunicativas, da concorr\u00eancia permanente ao\u00a0<i>quantified self<\/i>\u2026 Esse narcisismo n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio de uma classe ou de um segmento da sociedade, mas encontra-se, em taxas vari\u00e1veis, na maior parte dos sujeitos contempor\u00e2neos. Mas nisso reside tamb\u00e9m uma esperan\u00e7a: cada um pode come\u00e7ar, aqui e agora, a se libertar, at\u00e9 mesmo com pequenos gestos.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Fetichismo e din\u00e2mica autodestrutiva do capitalismo, entrevista com Anselm Jappe &#8211; Editora Elefante. Link: https:\/\/elefanteeditora.com.br\/fetichismo-e-dinamica-autodestrutiva-do-capitalismo-entrevista-com-anselm-jappe\/?mc_cid=044d197dc8&amp;mc_eid=0ac7cd7efd<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jean-Marie Harribey &#8211; Voc\u00ea acaba de publicar\u00a0A sociedade autof\u00e1gica: capitalismo, desmesura e autodestrui\u00e7\u00e3o, no qual apoia-se na \u201ccr\u00edtica do valor\u201d, tema de seus livros precedentes, para analisar como a sociedade capitalista produz um tipo de subjetividade dos indiv\u00edduos que os integra \u00e0 sua din\u00e2mica autodestrutiva. Comecemos pelo in\u00edcio. 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