{"id":15671,"date":"2021-09-07T12:30:57","date_gmt":"2021-09-07T15:30:57","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15671"},"modified":"2021-09-06T09:33:23","modified_gmt":"2021-09-06T12:33:23","slug":"a-tirania-das-organizacoes-sem-estrutura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/09\/07\/a-tirania-das-organizacoes-sem-estrutura\/","title":{"rendered":"A tirania das organiza\u00e7\u00f5es sem estrutura"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo Freeman<\/strong> &#8211; Ao longo do recente renascimento das pol\u00edticas socialistas, feministas socialistas t\u00eam trabalhado para garantir que suas ideias estejam no centro do movimento ascendente \u2013 enfatizando, por exemplo, a dimens\u00e3o econ\u00f4mica do acesso ao aborto e o papel crucial dos sindicatos no combate a viol\u00eancia sexual. Mas, com frequ\u00eancia h\u00e1 o desconhecimento sobre a hist\u00f3ria de como as feministas se organizaram e quais foram suas li\u00e7\u00f5es para transformar explos\u00f5es de energia radical em organiza\u00e7\u00f5es dur\u00e1veis. Como ativista e pensadora no cora\u00e7\u00e3o do movimento de liberta\u00e7\u00e3o feminina dos anos de 1960 e 1970, Jo Freeman \u2013 autora do cl\u00e1ssico ensaio do in\u00edcio dos anos 1970 \u201cA tirania das organiza\u00e7\u00f5es sem estrutura\u201d, que \u00e9 republicado abaixo \u2013 representa uma importante voz para preencher esta lacuna.<\/p>\n<p>Freeman era ativa nos movimentos anti-nuclear, pela liberdade de express\u00e3o e direitos civis antes de cofundar a Uni\u00e3o de Liberta\u00e7\u00e3o das Mulheres de Chicago e outros grupos feministas. Nos inebriantes primeiros dias do movimento floresceram pequenos grupos radicais com fortes la\u00e7os internos, cheios de veteranas do movimento que realizavam a\u00e7\u00f5es diretas criativas e estavam envolvidas em trabalhos ideol\u00f3gicos inovadores. Foi deste fermento que o termo \u201cconscientiza\u00e7\u00e3o\u201d emergiu. Cunhado por Kathie Sarachild, ele se referia a pr\u00e1tica na qual mulheres falavam sobre certos aspectos da sua vida (digamos, ter se tornado uma dona de casa ao inv\u00e9s de uma cientista) e ent\u00e3o discutiam tanto os contextos pol\u00edticos que deram forma a estas experi\u00eancias quanto as solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para a sua opress\u00e3o.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 1970, quando Freeman escreveu o ensaio, milhares de grupos de conscientiza\u00e7\u00e3o haviam surgido em todo o pa\u00eds, muitos compostos por mulheres sem nenhuma experi\u00eancia pol\u00edtica anterior. Neste sentido, eles foram muito bem-sucedidos, transformando vidas e sendo a parte mais vis\u00edvel e acess\u00edvel do movimento em muitos lugares.<\/p>\n<p>Mas, como Freeman detalha no ensaio, muitos grupos de conscientiza\u00e7\u00e3o tiveram dificuldades para transformar vis\u00e3o em a\u00e7\u00e3o por causa da forma em que se organizavam. Enquanto pequenos grupos com fortes la\u00e7os internos funcionavam bem para construir comunidades e um senso compartilhado de identidade, sem estruturas formais elas tinham dificuldade em formular e levar a cabo planos para a\u00e7\u00e3o. Hierarquias tamb\u00e9m se mostraram dif\u00edceis de superar. Ao inv\u00e9s de nivelar as coisas, o ideal de aus\u00eancia de estrutura gerou hierarquias informais que n\u00e3o respondiam a ningu\u00e9m e que eram dif\u00edceis de serem compreendidas por outros \u2013 especialmente se eles n\u00e3o podiam participar de reuni\u00f5es intermin\u00e1veis para entender o que realmente estava se passando.<\/p>\n<p>No pior dos casos, a aus\u00eancia de estruturas acabou produzindo n\u00e3o apenas l\u00edderes ocultos, mas tamb\u00e9m facilitando o abuso. Freeman descreve em seu ensaio de 1976 \u201cTrashing\u201d (existe uma tradu\u00e7\u00e3o: https:\/\/passapalavra.info\/2014\/12\/101362\/) sobre as mulheres que foram afastadas de grupos e movimentos simplesmente por mostrarem independ\u00eancia ou um talento para organiza\u00e7\u00e3o. Realizado sob o pretexto de anti-elitismo, a pr\u00e1tica da detona\u00e7\u00e3o e linchamento resultou em uma enorme perda de capacidades do movimento, para n\u00e3o falar nos devastadores efeitos pessoais.<\/p>\n<p>Os efeitos tr\u00e1gicos da \u201caus\u00eancia de estruturas\u201d podem nos levar a buscar f\u00f3rmulas simples para modelos organizacionais que s\u00e3o tanto efetivos quanto \u00e0 prova de babacas. E claramente n\u00f3s devemos abandonar qualquer avers\u00e3o ing\u00eanua a organiza\u00e7\u00f5es e estruturas. Democratizar o poder, e n\u00e3o se livrar dele, deve ser o nosso objetivo.<\/p>\n<p>Mas \u201cA tirania das organiza\u00e7\u00f5es sem estrutura\u201d tamb\u00e9m deixa claro que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00eddas f\u00e1ceis: se estrutura \u00e9 inevit\u00e1vel e necess\u00e1ria, o tipo de estruturas que uma organiza\u00e7\u00e3o escolhe depende da sua composi\u00e7\u00e3o, da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e dos objetivos do movimento. \u00c0s vezes, h\u00e1 a necessidade leg\u00edtima de se realizar uma tarefa rapidamente ao inv\u00e9s de se fomentar a participa\u00e7\u00e3o que pode expandir a organiza\u00e7\u00e3o e aprofundar os la\u00e7os das pessoas com ela. Como Freeman nos lembra no final do ensaio, o que se faz necess\u00e1rio \u00e9 experimentar com o que sabemos que pode funcionar \u2013 e, acima de tudo, entrar nesta discuss\u00e3o de forma honesta e aberta.<\/p>\n<p>Durante os anos em que o movimento feminista se formava, dava-se grande \u00eanfase ao que se chamava de grupos sem lideran\u00e7a e sem estrutura como a principal \u2013 se n\u00e3o a \u00fanica \u2013 forma organizacional do movimento. Essa ideia tinha origem numa rea\u00e7\u00e3o natural contra a sociedade superestruturada na qual a maioria de n\u00f3s se encontrava, no controle inevit\u00e1vel que isso dava a outros sobre nossas vidas e no elitismo persistente na esquerda e em grupos similares que supostamente combatiam essa superestrutura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideia da \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d, no entanto, passou de uma oposi\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel a essas tend\u00eancias a um dogma. A ideia \u00e9 t\u00e3o pouco examinada quanto o termo \u00e9 utilizado, mas tornou-se uma parte intr\u00ednseca e inquestion\u00e1vel da ideologia de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres. Para o desenvolvimento inicial do movimento, isso n\u00e3o importava muito. Ele definiu inicialmente seu objetivo e m\u00e9todo principal como a conscientiza\u00e7\u00e3o e o grupo de discuss\u00e3o \u201csem estrutura\u201d era um meio excelente para esse fim. Sua flexibilidade e informalidade encorajavam a participa\u00e7\u00e3o na discuss\u00e3o e o ambiente frequentemente receptivo promovia a compreens\u00e3o pessoal. Se nada de mais concreto do que a compreens\u00e3o pessoal resultasse desses grupos, isso n\u00e3o importava muito, porque seu prop\u00f3sito, na verdade, n\u00e3o ia al\u00e9m disso.<\/p>\n<p>Os problemas b\u00e1sicos n\u00e3o apareceram at\u00e9 que grupos de discuss\u00e3o individuais exauriram as potencialidades da conscientiza\u00e7\u00e3o e decidiram que queriam fazer algo mais espec\u00edfico. Neste ponto, eles normalmente falhavam porque a maioria dos grupos n\u00e3o estava disposta a mudar sua estrutura quando mudava sua tarefa. As mulheres tinham aceito completamente a ideia de \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d sem perceber as limita\u00e7\u00f5es de seus usos. As pessoas tentavam usar o grupo \u201csem estrutura\u201d e a reuni\u00e3o informal para fins aos quais n\u00e3o eram apropriados, acreditando cegamente que quaisquer outros meios seriam simplesmente opressivos.<\/p>\n<p>Se o movimento quiser avan\u00e7ar al\u00e9m desses est\u00e1gios elementares de desenvolvimento, ele dever\u00e1 livrar-se de alguns de seus preconceitos sobre organiza\u00e7\u00e3o e estrutura. N\u00e3o h\u00e1 nada de intrinsecamente ruim em nenhum dos dois. Eles podem e frequentemente s\u00e3o mal-usados, mas rejeit\u00e1-los de antem\u00e3o porque s\u00e3o mal-usados \u00e9 nos negar as ferramentas necess\u00e1rias ao nosso desenvolvimento posterior. Precisamos entender porque a \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p><strong>Estruturas formais e informais<\/strong><br \/>\nAo contr\u00e1rio do que gostar\u00edamos de acreditar, n\u00e3o existe algo como um grupo \u201csem estrutura\u201d. Qualquer grupo de pessoas, de qualquer natureza, reunindo-se por qualquer per\u00edodo de tempo, para qualquer prop\u00f3sito, inevitavelmente se estruturar\u00e1 de alguma forma. A estrutura pode ser flex\u00edvel, pode variar com o tempo, pode distribuir de forma igual ou desigual entre os membros do grupo as tarefas, o poder e os recursos. Mas ela ser\u00e1 formada a despeito das habilidades, personalidades e inten\u00e7\u00f5es das pessoas envolvidas. O simples fato de que somos indiv\u00edduos com aptid\u00f5es, predisposi\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias diferentes torna isso inevit\u00e1vel. Apenas se nos recusamos a nos relacionar ou interagir em qualquer base poderemos nos aproximar da \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d \u2013 e essa n\u00e3o \u00e9 a natureza de um grupo humano.<\/p>\n<p>Isso significa que lutar por um grupo \u201csem estrutura\u201d \u00e9 t\u00e3o \u00fatil e t\u00e3o ilus\u00f3rio quanto almejar uma reportagem \u201cobjetiva\u201d, uma ci\u00eancia social \u201cdesprovida de valores\u201d ou uma economia \u201clivre\u201d. Um grupo de \u201claissez-faire\u201d \u00e9 quase t\u00e3o realista quanto uma sociedade de \u201claissez-faire\u201d; a ideia se torna uma dissimula\u00e7\u00e3o para que os fortes ou os afortunados estabele\u00e7am uma hegemonia inquestion\u00e1vel sobre os outros. Essa hegemonia pode facilmente ser estabelecida porque a ideia de \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d n\u00e3o impede a forma\u00e7\u00e3o de estruturas informais, apenas das formais. Da mesma forma, a filosofia do \u201claissez-faire\u201d n\u00e3o impedia os economicamente poderosos de estabelecerem o controle sobre os sal\u00e1rios, pre\u00e7os e a distribui\u00e7\u00e3o dos bens; ela apenas impedia o governo de faz\u00ea-lo. Assim, a \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d torna-se uma forma de mascarar o poder e no movimento feminista \u00e9 normalmente defendida com mais vigor pelas mais poderosas (estejam elas conscientes de seu poder ou n\u00e3o). Na medida em que a estrutura do grupo permanece informal, as regras sobre como as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas s\u00e3o conhecidas apenas por poucas e, a consci\u00eancia do poder \u00e9 limitada a \u00e0quelas que conhecem as regras. Quem n\u00e3o conhece as regras e n\u00e3o \u00e9 escolhido para inicia\u00e7\u00e3o deve permanecer confusa ou sofrer de desilus\u00f5es paranoicas de que algo que n\u00e3o sabe bem o que \u00e9 est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>Para que todas as pessoas tenham a oportunidade de se envolver num dado grupo e participar de suas atividades, \u00e9 preciso que a estrutura seja expl\u00edcita e n\u00e3o impl\u00edcita. As regras de delibera\u00e7\u00e3o devem ser abertas e dispon\u00edveis a todos e isso s\u00f3 pode acontecer se elas forem formalizadas. Isto n\u00e3o significa que a formaliza\u00e7\u00e3o da estrutura de um grupo ir\u00e1 destruir a estrutura informal. Ela normalmente n\u00e3o destr\u00f3i. Mas impede a estrutura informal de ter o controle predominante e torna dispon\u00edvel alguns meios para atac\u00e1-la se as pessoas envolvidas n\u00e3o est\u00e3o ao menos comprometidas com as necessidades do grupo em geral. A \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d \u00e9 organizacionalmente imposs\u00edvel. N\u00f3s n\u00e3o podemos decidir se teremos um grupo estruturado ou sem estrutura, apenas se teremos ou n\u00e3o um grupo formalmente estruturado. Assim, a express\u00e3o \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d n\u00e3o ser\u00e1 mais usada, a n\u00e3o ser para referir-se \u00e0 ideia que representa. O termo \u201csem estrutura\u201d ir\u00e1 ser usado para referir-se \u00e0queles grupos que n\u00e3o foram deliberadamente estruturados em uma forma particular. O termo \u201cestruturado\u201d ir\u00e1 referir-se \u00e0queles que o foram. Um grupo estruturado tem sempre uma estrutura formal e pode tamb\u00e9m ter uma estrutura informal ou encoberta. \u00c9 esta estrutura informal, particularmente em grupos sem estrutura, que fornece o fundamento para as elites.<\/p>\n<p><strong>A natureza das elites<\/strong><br \/>\n\u201cElite\u201d \u00e9, provavelmente, a palavra mais abusada no movimento de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres. \u00c9 usada com frequ\u00eancia, e pelas mesmas raz\u00f5es que \u201cvermelho\u201d [\u201cpinko\u201d] era usado nos anos de 1950. E raramente \u00e9 usada de forma correta. No movimento, ela normalmente se refere a indiv\u00edduos, ainda que suas atividades e caracter\u00edsticas pessoais divirjam enormemente. Um indiv\u00edduo, enquanto indiv\u00edduo, nunca pode ser uma \u201celite\u201d porque o termo \u201celite\u201d s\u00f3 se aplica adequadamente a grupos. Nenhum indiv\u00edduo, independente de qu\u00e3o not\u00f3rio seja, pode ser uma elite.<\/p>\n<p>De uma forma mais apropriada, uma elite refere-se a um pequeno grupo de pessoas que tem poder sobre um grupo maior do qual faz parte, normalmente sem responsabilidade direta perante ele e, frequentemente, sem seu conhecimento ou consentimento. Uma pessoa torna-se parte da elite por tomar parte ou defender o dom\u00ednio deste pequeno grupo, seja esta pessoa bem conhecida ou totalmente desconhecida. Notoriedade n\u00e3o \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o de um membro da elite. As elites mais trai\u00e7oeiras s\u00e3o normalmente comandadas por pessoas totalmente desconhecidas do grande p\u00fablico. Membros inteligentes da elite s\u00e3o, em geral, espertos o suficiente para n\u00e3o se deixarem tornar muito conhecidos. Quando eles s\u00e3o conhecidos eles s\u00e3o vigiados e a m\u00e1scara que esconde seu poder n\u00e3o fica mais presa t\u00e3o firme.<\/p>\n<p>As elites n\u00e3o s\u00e3o conspira\u00e7\u00f5es. Muito raramente um pequeno grupo de pessoas se re\u00fane e tenta tomar o grupo maior para seus pr\u00f3prios fins. As elites s\u00e3o, nada mais, nada menos, do que um grupo de amigos que coincide em participar das mesmas atividades pol\u00edticas. Eles provavelmente manteriam sua amizade, participassem ou n\u00e3o dessas atividades pol\u00edticas; e participariam das atividades, mantivessem ou n\u00e3o sua amizade. \u00c9 a coincid\u00eancia destes dois fen\u00f4menos que cria elites em qualquer grupo e as torna t\u00e3o dif\u00edceis de serem destru\u00eddas.<\/p>\n<p>Esses grupos de amigos funcionam como redes de comunica\u00e7\u00e3o \u00e0 parte de quaisquer canais regulares de comunica\u00e7\u00e3o que possam ter sido estabelecidos por um grupo. Se nenhum canal foi estabelecido, elas funcionam como as \u00fanicas redes de comunica\u00e7\u00e3o. Por serem amigas, normalmente compartilham os mesmos valores e posi\u00e7\u00f5es, conversam socialmente entre si e se consultam quando as decis\u00f5es comuns t\u00eam de ser tomadas, as pessoas que participam dessas redes t\u00eam mais poder no grupo do que aquelas que n\u00e3o participam. E s\u00e3o raros os grupos que n\u00e3o estabelecem redes de comunica\u00e7\u00e3o informal por meio das amizades que s\u00e3o feitas neles.<\/p>\n<p>Alguns grupos, dependendo de seu tamanho, podem ter mais do que uma dessas redes informais de comunica\u00e7\u00e3o. As redes podem at\u00e9 sobrepor-se. Quando apenas uma rede dessas existe, ela \u00e9 a elite de um grupo que seria de outra forma sem estrutura \u2014 queiram os seus participantes ser membros da elite ou n\u00e3o. Se ela \u00e9 a \u00fanica dessas redes num grupo estruturado, ela pode ser ou n\u00e3o uma elite, dependendo da sua composi\u00e7\u00e3o e da natureza da estrutura formal. Se existem duas ou mais dessas redes de amigos, elas podem competir pelo poder dentro do grupo, formando assim fac\u00e7\u00f5es, ou uma delas pode deliberadamente abandonar a competi\u00e7\u00e3o deixando a outra como elite. Num grupo estruturado, duas ou mais dessas redes de amizades normalmente competem entre si pelo poder formal. Essa \u00e9, em geral, a situa\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel. Os outros membros est\u00e3o na posi\u00e7\u00e3o de arbitrar entre os dois competidores pelo poder e s\u00e3o assim capazes de colocar exig\u00eancias do grupo \u00e0queles a quem deram uma confian\u00e7a tempor\u00e1ria.<\/p>\n<p>A natureza inevitavelmente elitista e excludente de redes informais de comunica\u00e7\u00e3o entre amigos n\u00e3o \u00e9 nem um novo fen\u00f4meno caracter\u00edstico do movimento de mulheres nem \u00e9 um fen\u00f4meno novo para as mulheres. Tais rela\u00e7\u00f5es informais t\u00eam impedido mulheres de participar em grupos integrados dos quais fa\u00e7am parte h\u00e1 s\u00e9culos. Em qualquer profiss\u00e3o ou organiza\u00e7\u00e3o estas redes criaram a mentalidade do \u201ccorredor\u201d e os la\u00e7os da \u201cvelha guarda\u201d que efetivamente tem impedido as mulheres enquanto grupo (assim como a alguns homens individualmente) de terem igual acesso as fontes de poder e satisfa\u00e7\u00e3o social. Muita da energia dos movimentos de mulheres no passado foi direcionada para formalizar as estruturas de tomada de decis\u00f5es e os processos de sele\u00e7\u00e3o, para que a exclus\u00e3o das mulheres pudesse ser confrontada diretamente. Como n\u00f3s bem sabemos, estes esfor\u00e7os n\u00e3o impediram que redes informais masculinas discriminassem as mulheres, mas o tornaram mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>O fato das elites serem informais n\u00e3o significa que sejam invis\u00edveis. Num encontro de um grupo pequeno, qualquer um com um olhar agu\u00e7ado e um ouvido atento sabe dizer quem est\u00e1 influenciando quem. Os membros de um grupo de amigos v\u00e3o se relacionar mais com pessoas do seu grupo do que com outras. Eles ouvem mais atentamente e interrompem menos; eles repetem os argumentos dos outros membros e cedem amigavelmente. Eles tendem a ignorar ou a enfrentar os \u201cde fora\u201d cuja aprova\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para se tomar uma decis\u00e3o. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio para os \u201cde fora\u201d manter uma boa rela\u00e7\u00e3o com os \u201cde dentro\u201d. \u00c9 claro que as linhas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o bem definidas quanto as que eu tracei. Elas t\u00eam nuances de intera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o s\u00e3o roteiros pr\u00e9-concebidos. Mas elas s\u00e3o discern\u00edveis e t\u00eam o seu efeito. Quando se sabe quem \u00e9 importante consultar antes de uma decis\u00e3o ser tomada e a aprova\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 garantia de aceita\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o se sabe quem est\u00e1 mandando.<\/p>\n<p>Uma vez que os grupos do movimento n\u00e3o decidiram concretamente quem deve exercer o poder dentro deles, diferentes crit\u00e9rios s\u00e3o usados pelo pa\u00eds. Muitos dos crit\u00e9rios est\u00e3o dentro das linhas de caracter\u00edsticas tradicionalmente femininas. Por exemplo, no in\u00edcio do movimento o casamento era normalmente um pr\u00e9-requisito para participar da elite informal. As mulheres casadas foram tradicionalmente ensinadas a se relacionarem principalmente entre si e a olharem as mulheres solteiras como muito amea\u00e7adoras para se ter como amigas \u00edntimas. Em muitas cidades o crit\u00e9rio foi ainda mais especifico, incluindo apenas aquelas mulheres casados com homens da Nova Esquerda [New Left]. No entanto, este padr\u00e3o tinha mais do que a tradi\u00e7\u00e3o por detr\u00e1s, uma vez que homens da Nova Esquerda frequentemente tinham acesso aos recursos que o movimento precisava \u2013 como listas de endere\u00e7o, gr\u00e1ficas, contatos e informa\u00e7\u00e3o \u2013 e as mulheres estavam acostumadas a conseguirem o que queriam mais atrav\u00e9s dos homens do que de forma independente. \u00c0 medida em que o movimento foi mudando com o passar do tempo, o casamento tornou-se um crit\u00e9rio menos universal para a participa\u00e7\u00e3o efetiva, embora todas as elites informais ainda estabele\u00e7am padr\u00f5es pelos quais apenas as mulheres que possuem certas caracter\u00edsticas materiais ou pessoais possam participar.<\/p>\n<p>Os padr\u00f5es frequentemente incluem: origem de classe m\u00e9dia (apesar de toda ret\u00f3rica sobre a rela\u00e7\u00e3o com a classe oper\u00e1ria); ser casada ou n\u00e3o ser casada, mas viver com algu\u00e9m; ser ou fingir ser l\u00e9sbica; ter entre 20 e 30 anos; ter forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria ou, pelo menos, alguma passagem pela universidade; ser \u201cdescolada\u201d; n\u00e3o ser muito \u201cdescolada\u201d; seguir uma certa linha pol\u00edtica ou se identificar como \u201cradical\u201d; ter filhos ou pelo menos gostar de crian\u00e7as; n\u00e3o ter filhos; possuir certos tra\u00e7os de personalidade \u201cfemininos\u201d, como ser \u201cgentil\u201d; vestir-se adequadamente (seja no estilo tradicional, seja no anti-tradicional), etc. Existem tamb\u00e9m algumas caracter\u00edsticas que quase sempre estigmatizariam a mulher como \u201cdivergente\u201d, uma pessoa com a qual n\u00e3o se deve relacionar. Elas incluem: ser velha demais, trabalhar per\u00edodo integral (principalmente se est\u00e1 ativamente dedicada \u00e0 \u201ccarreira professional\u201d), n\u00e3o ser \u201cgentil\u201d e ser declaradamente solteira (ou seja, nem ativamente heterossexual, nem homossexual).<\/p>\n<p>Outros crit\u00e9rios poderiam ser inclu\u00eddos, mas eles t\u00eam todos temas comuns. O pr\u00e9-requisito caracter\u00edstico para participar das elites informais do movimento e, portanto, para exercer o poder, diz respeito \u00e0 origem, \u00e0 personalidade e \u00e0 disponibilidade de tempo. Eles n\u00e3o incluem a compet\u00eancia, a dedica\u00e7\u00e3o ao feminismo, a posse de talentos ou a contribui\u00e7\u00e3o potencial ao movimento. Os primeiros, s\u00e3o crit\u00e9rios que normalmente se usa para escolher os amigos. Os \u00faltimos, s\u00e3o crit\u00e9rios que qualquer movimento ou organiza\u00e7\u00e3o tem de usar se pretende ser politicamente eficaz.<\/p>\n<p>Os crit\u00e9rios de participa\u00e7\u00e3o podem diferir de grupo para grupo, mas os meios para se tornar um membro da elite informal s\u00e3o basicamente os mesmos. A \u00fanica diferen\u00e7a depende de se o membro est\u00e1 no grupo desde o in\u00edcio ou se entrou depois que ele j\u00e1 existia. Se est\u00e1 envolvido desde o come\u00e7o, \u00e9 importante que o maior n\u00famero poss\u00edvel de amigos tamb\u00e9m esteja envolvido. Se ningu\u00e9m se conhece muito bem, ent\u00e3o algu\u00e9m deve deliberadamente formar amizades com um n\u00famero seleto de pessoas e estabelecer os padr\u00f5es informais de intera\u00e7\u00e3o cruciais para a cria\u00e7\u00e3o de uma estrutura informal. Uma vez que os padr\u00f5es informais est\u00e3o formados, eles agem para a sua manuten\u00e7\u00e3o e uma das t\u00e1ticas mais eficazes para se manter \u00e9 recrutar continuamente pessoas que \u201cse encaixam\u201d.<\/p>\n<p>Uma pessoa entra para uma elite do mesmo jeito que se entra para uma organiza\u00e7\u00e3o. Se \u00e9 vista como uma potencial adi\u00e7\u00e3o para a estrutura informal, a pessoa \u00e9 \u201ccapturada\u201d por um membro e eventualmente iniciada ou deixada de lado. Se a sororidade n\u00e3o \u00e9 politicamente consciente o suficiente para iniciar ativamente o processo, ele pode ser come\u00e7ado pelo membro de fora mais ou menos do mesmo jeito pelo qual se entra para um clube privado. Acha-se um mentor, isto \u00e9, um membro da elite que aparenta ser bem respeitado e cultiva-se ativamente uma amizade com ele. Eventualmente \u00e9 prov\u00e1vel que ela te leve para o grupo.<\/p>\n<p>Tudo isto toma tempo. Portanto, \u00e9 geralmente imposs\u00edvel para uma pessoa que trabalha o dia inteiro ou tem algum outro grande compromisso participar da elite simplesmente porque n\u00e3o h\u00e1 tempo livre o suficiente para ir a todas as reuni\u00f5es e para cultivar as rela\u00e7\u00f5es pessoais necess\u00e1rias para se ter uma voz na tomada de decis\u00f5es. \u00c9 por isto que estruturas formais s\u00e3o ben\u00e9ficas para pessoas atoladas de trabalho, pois ao haver um processo estabelecido para a tomada de decis\u00f5es se garante que todos possam participar em alguma medida.<\/p>\n<p>Embora essa disseca\u00e7\u00e3o do processo de forma\u00e7\u00e3o de elites em grupos pequenos tenha sido cr\u00edtica em suas perspectivas, ela n\u00e3o foi feita com a cren\u00e7a de que essas estruturas informais s\u00e3o inevitavelmente ruins, apenas de que s\u00e3o inevit\u00e1veis. Todos os grupos criam estruturas informais como resultado dos padr\u00f5es de intera\u00e7\u00e3o entre seus membros. Essas estruturas informais podem fazer coisas bastante \u00fateis. Mas apenas grupos sem estrutura s\u00e3o totalmente governados por elas. Quando elites informais est\u00e3o juntas com o mito da \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d, n\u00e3o h\u00e1 meios de p\u00f4r limites ao uso de poder. Ele se torna caprichoso.<\/p>\n<p>Isto tem duas consequ\u00eancias potencialmente negativas para as quais dever\u00edamos estar atentos. A primeira \u00e9 que a estrutura informal de delibera\u00e7\u00e3o ser\u00e1 como uma sororidade, na qual se escuta as pessoas porque se gosta delas e n\u00e3o porque dizem algo significativo. Enquanto o movimento n\u00e3o faz coisas significativas, isso n\u00e3o importa muito. Mas para que seu desenvolvimento n\u00e3o pare numa etapa preliminar, ele deve alterar essa tend\u00eancia. A segunda consequ\u00eancia \u00e9 que as estruturas informais n\u00e3o t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o de serem respons\u00e1veis perante o grupo como um todo. Seu poder n\u00e3o lhes foi dado e n\u00e3o pode ser tirado. Sua influ\u00eancia n\u00e3o se baseia no que fazem pelo grupo; portanto elas n\u00e3o podem ser diretamente influenciadas pelo grupo. Isso n\u00e3o torna as estruturas informais necessariamente irrespons\u00e1veis. Aqueles que se interessam em manter sua influ\u00eancia normalmente tentar\u00e3o ser respons\u00e1veis. O grupo apenas n\u00e3o pode obrigar a elite a ter essa responsabilidade, ela depende dos seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p><strong>O sistema de \u201cestrelas\u201d<\/strong><br \/>\nA \u201cideia\u201d da \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d criou o sistema de \u201cestrelas\u201d. Vivemos numa sociedade que espera que grupos pol\u00edticos tomem decis\u00f5es e escolham pessoas que articulem essas decis\u00f5es para o p\u00fablico em geral. A imprensa e o p\u00fablico n\u00e3o sabem como escutar seriamente as mulheres enquanto mulheres; eles querem saber como o grupo se sente. Apenas tr\u00eas t\u00e9cnicas foram desenvolvidas para estabelecer a opini\u00e3o de grandes grupos: o voto ou o referendo, o question\u00e1rio de pesquisa de opini\u00e3o p\u00fablica e a sele\u00e7\u00e3o, num encontro apropriado, de porta-vozes do grupo. O movimento de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres n\u00e3o tem usado nenhuma dessas t\u00e9cnicas para se comunicar com o p\u00fablico. Nem o movimento como um todo, nem a maioria dos in\u00fameros grupos dentro dele estabeleceram meios de explicar suas posi\u00e7\u00f5es sobre os v\u00e1rios assuntos. Mas o p\u00fablico est\u00e1 condicionado a procurar por porta-vozes.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o ter escolhido conscientemente porta-vozes, o movimento lan\u00e7ou muitas mulheres que chamaram a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico por diversas raz\u00f5es. Essas mulheres n\u00e3o representam um grupo particular ou uma opini\u00e3o estabelecida; elas sabem disso e normalmente o dizem. Mas como n\u00e3o h\u00e1 porta-vozes oficiais nem qualquer corpo deliberativo que a imprensa possa entrevistar, quando ela quer saber a posi\u00e7\u00e3o do movimento sobre um dado assunto, essas mulheres s\u00e3o tomadas como porta-vozes. Assim, queiram ou n\u00e3o, goste o movimento ou n\u00e3o, por omiss\u00e3o, as mulheres com distin\u00e7\u00e3o p\u00fablica s\u00e3o colocadas no papel de porta-vozes.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das principiais origens da ira que normalmente se sente das mulheres consideradas \u201cestrelas\u201d. J\u00e1 que elas n\u00e3o foram escolhidas pelas mulheres do movimento para representar as posi\u00e7\u00f5es do movimento, outras mulheres se indignam quando a imprensa pressup\u00f5e que elas falam pelo movimento. Mas enquanto o movimento n\u00e3o selecionar as suas pr\u00f3prias porta-vozes, tais mulheres ser\u00e3o colocadas neste papel pela imprensa e pelo p\u00fablico, independente da sua vontade. Isto tem v\u00e1rias consequ\u00eancias negativas, tanto para o movimento quanto para as mulheres que s\u00e3o consideradas \u201cestrelas\u201d. Primeiro, como o movimento n\u00e3o as colocou na posi\u00e7\u00e3o de porta-voz, o movimento n\u00e3o pode remov\u00ea-las desta posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A imprensa as colocou nesta posi\u00e7\u00e3o e somente a imprensa pode escolher n\u00e3o ouvi-las. A imprensa vai continuar a procurar as \u201cestrelas\u201d enquanto n\u00e3o houverem alternativas oficiais que possam falar pelo movimento. Enquanto acreditar que n\u00e3o precisa de nenhum representante, o movimento n\u00e3o vai ter controle sobre quem o representa perante o p\u00fablico. Segundo, mulheres que se encontram nesta posi\u00e7\u00e3o se veem violentamente atacadas pelas suas irm\u00e3s. Isto n\u00e3o leva o movimento a lugar nenhum e \u00e9 dolorosamente destrutivo para os indiv\u00edduos envolvidos. Tais ataques apenas levam a mulher a sair completamente do movimento \u2013 com frequ\u00eancia amargamente exclu\u00eddas \u2013 ou a deixar de se sentir respons\u00e1vel perante suas \u201cirm\u00e3s\u201d. Ela pode manter alguma forma vaga de lealdade com o movimento, mas ela n\u00e3o \u00e9 mais suscet\u00edvel a press\u00f5es de outras mulheres.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pode se sentir respons\u00e1vel perante pessoas que s\u00e3o a causa de tanta dor sem ser masoquista, e estas mulheres geralmente s\u00e3o muito fortes para se curvar diante deste tipo de press\u00e3o pessoal. Assim, a rea\u00e7\u00e3o \u00e0s \u201cestrelas\u201d, na verdade, encoraja precisamente o tipo de irresponsabilidade individual que o movimento condena. Ao expulsar uma irm\u00e3 sob a pecha de \u201cestrela\u201d, o movimento perde qualquer controle que possa ter tido sobre a pessoa, que se torna livre para cometer todo tipo de pecado individualista de que foi acusada.<\/p>\n<p><strong>Impot\u00eancia pol\u00edtica<\/strong><br \/>\nGrupos sem estrutura podem ser muito eficazes para fazer as mulheres falarem sobre suas vidas, mas eles n\u00e3o s\u00e3o muito bons para fazer as coisas acontecerem. A n\u00e3o ser que a natureza da opera\u00e7\u00e3o mude, os grupos derrapam quando chega o momento em que as pessoas se cansam de \u201capenas conversar\u201d e querem fazer algo mais. Ocasionalmente, a estrutura informal desenvolvida pelo grupo coincide com uma necessidade que o grupo pede preencher de uma forma tal que parece que o grupo sem estrutura \u201cfunciona\u201d. Isto \u00e9, o grupo fortuitamente desenvolveu precisamente o tipo de estrutura melhor adaptada a cumprir determinado projeto. Ainda que trabalhar em um grupo deste tipo seja uma experi\u00eancia inebriante, ele tamb\u00e9m \u00e9 muito raro e dif\u00edcil de replicar. H\u00e1 quatro condi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o quase inevitavelmente encontradas nestes grupos:<\/p>\n<p>1. Ele \u00e9 orientado para uma tarefa. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 muito estreita e espec\u00edfica, como organizar uma confer\u00eancia ou publicar um jornal. \u00c9 a tarefa que basicamente estrutura o grupo. A tarefa determina o que precisa ser feito e quando. Ela fornece um guia atrav\u00e9s do qual as pessoas podem julgar suas a\u00e7\u00f5es e fazer planos para atividades futuras.<\/p>\n<p>2. Ele \u00e9 relativamente pequeno e homog\u00eaneo. Homogeneidade \u00e9 necess\u00e1ria para assegurar que os participantes tenham uma \u201clinguagem comum\u201d para interagirem. Pessoas de contextos muito diferentes podem fornecer diversidade a um grupo de conscientiza\u00e7\u00e3o, onde podem aprender com as experi\u00eancias uns dos outros, mas uma diversidade t\u00e3o grande entre os membros de um grupo voltado para uma tarefa apenas significa que eles v\u00e3o se desentender frequentemente. Pessoas t\u00e3o diversas interpretam palavras e a\u00e7\u00f5es de formas diferentes. Elas t\u00eam expectativas diferentes sobre o comportamento de cada um e julgam os resultados de acordo com crit\u00e9rios diferentes. Se todo mundo se conhece bem o suficiente para entender as nuances, estas podem ser acomodadas. Normalmente, elas apenas levam a confus\u00e3o e a muitas horas gastas para resolver os conflitos que ningu\u00e9m sequer pensava que pudessem surgir.<\/p>\n<p>3. H\u00e1 um alto n\u00edvel de comunica\u00e7\u00e3o. Informa\u00e7\u00e3o deve ser passada para todos, opini\u00f5es checadas, trabalho dividido e a participa\u00e7\u00e3o garantida nas decis\u00f5es relevantes. Isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se o grupo \u00e9 pequeno e se as pessoas praticamente morarem juntas durante as fases mais cr\u00edticas da tarefa. \u00c9 desnecess\u00e1rio dizer que o n\u00famero de intera\u00e7\u00f5es necess\u00e1rio para envolver todo mundo aumenta geometricamente segundo o n\u00famero de participantes. Isto inevitavelmente limita o grupo a cerca de cinco participantes, ou exclui alguns de parte das decis\u00f5es. Grupos exitosos podem ter at\u00e9 dez ou quinze membros, mas apenas quando s\u00e3o na verdade formados por subgrupos menores que realizam partes especificas da tarefa, e cujos membros se sobrep\u00f5em de forma que o conhecimento sobre o que cada subgrupo est\u00e1 fazendo possa ser facilmente passado.<\/p>\n<p>4. H\u00e1 um baixo grau de especializa\u00e7\u00e3o. Nem todo mundo tem que ser capaz de fazer tudo, mas tudo deve poder ser feito por mais de uma pessoa. Assim, ningu\u00e9m \u00e9 indispens\u00e1vel. Dentro de certos limites, as pessoas se tornam partes intercambi\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ainda que estas condi\u00e7\u00f5es possam acontecer acidentalmente em pequenos grupos, isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel em grupos maiores. Consequentemente, como o movimento, na maioria das cidades, \u00e9 t\u00e3o sem estrutura quanto os grupos de discuss\u00e3o individuais, ele n\u00e3o \u00e9 muito mais eficaz em tarefas espec\u00edficas do que os grupos separados. A estrutura informal raramente est\u00e1 suficientemente junta ou suficientemente em contato com as pessoas para ser capaz de operar eficazmente. Assim, o movimento gera muita agita\u00e7\u00e3o e poucos resultados. Infelizmente, as consequ\u00eancias de toda essa agita\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o in\u00f3cuas quanto os resultados e a v\u00edtima \u00e9 o pr\u00f3prio movimento.<\/p>\n<p>Alguns grupos tornaram-se projetos de a\u00e7\u00e3o local que n\u00e3o envolvem muitas pessoas e trabalham em pequena escala. Mas essa forma restringe a atividade do movimento ao n\u00edvel local, ela n\u00e3o pode ser levada ao n\u00edvel regional ou nacional. Al\u00e9m disso, para funcionarem bem, os grupos precisam normalmente se reduzir \u00e0queles grupos informais de amigas que tocavam as coisas inicialmente. Isto impede muitas mulheres de participarem. Enquanto a \u00fanica forma de participa\u00e7\u00e3o no movimento for a filia\u00e7\u00e3o a um pequeno grupo, aquelas mulheres que n\u00e3o aderem est\u00e3o em evidente desvantagem. Enquanto os grupos de amizade forem o principal meio de atividade organizacional, as elites se tornam institucionalizadas.<\/p>\n<p>Para aqueles grupos que n\u00e3o conseguem encontrar um projeto local ao qual se dedicar, o mero ato de estar junto torna-se a raz\u00e3o para estar junto. Quando um grupo n\u00e3o tem uma tarefa espec\u00edfica (e a conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tarefa), as pessoas voltam suas energias para o controle de outras pessoas do grupo. Isto n\u00e3o \u00e9 feito tanto por um desejo maligno de manipular os outros (embora \u00e0s vezes o seja) quanto pela falta de alguma coisa melhor para fazer com seus talentos. Pessoas h\u00e1beis com tempo dispon\u00edvel e uma necessidade de justificar seus encontros se empenham no controle pessoal e gastam seu tempo criticando as personalidades dos outros membros do grupo. Disputas internas e jogos de poder pessoais tomam conta do dia. Quando um grupo est\u00e1 envolvido numa tarefa, as pessoas aprendem a conviver umas com as outras e a desprezar antipatias em benef\u00edcio de objetivos maiores. H\u00e1 limites colocados \u00e0 compuls\u00e3o de moldar cada pessoa segundo a nossa concep\u00e7\u00e3o do que elas deveriam ser.<\/p>\n<p>O fim da conscientiza\u00e7\u00e3o deixa as pessoas sem dire\u00e7\u00e3o e a falta de estrutura as deixa sem meios de chegar l\u00e1. As mulheres do movimento ou se voltam para si mesmas e suas irm\u00e3s ou buscam outras alternativas de a\u00e7\u00e3o. E h\u00e1 poucas alternativas dispon\u00edveis. Algumas mulheres simplesmente \u201cfazem suas pr\u00f3prias coisas\u201d. Isso pode levar a um grande grau de criatividade individual que pode, em grande parte, ser \u00fatil ao movimento, mas n\u00e3o \u00e9 uma alternativa vi\u00e1vel para a maioria das mulheres e certamente n\u00e3o promove um esp\u00edrito de esfor\u00e7o cooperativo de grupo. Outras mulheres abandonam inteiramente o movimento porque n\u00e3o querem desenvolver um projeto pessoal e n\u00e3o encontraram meios de descobrir, associar-se ou come\u00e7ar projetos de grupo que as interessem.<\/p>\n<p>Muitas se voltam para outras organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em busca do tipo de atividade estruturada e eficaz que elas n\u00e3o conseguiram encontrar no movimento das mulheres. Dessa forma, essas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que v\u00eam a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres como apenas uma quest\u00e3o entre outras consideram o movimento um vasto manancial para o recrutamento de novos membros. Essas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o precisam se \u201cinfiltrar\u201d (embora isso n\u00e3o exclua que o fa\u00e7am). O desejo de uma atividade pol\u00edtica significativa gerado pelas mulheres ao se tornarem parte do movimento de liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 suficiente para torn\u00e1-las ansiosas para entrarem em outras organiza\u00e7\u00f5es, quando o pr\u00f3prio movimento n\u00e3o permite nenhum tipo de vaz\u00e3o para suas novas ideias e energias.<\/p>\n<p>Aquelas mulheres que entram em outras organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e permanecem no movimento de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres ou que entram no movimento de libera\u00e7\u00e3o e permanecem em outras organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, tornam-se, por sua vez, pontos de apoio para novas estruturas informais. Essas redes de amizade se baseiam mais nas suas pol\u00edticas n\u00e3o-feministas em comum do que nas caracter\u00edsticas discutidas anteriormente; no entanto, a rede opera praticamente da mesma forma. J\u00e1 que essas mulheres partilham valores, ideias e orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas comuns, elas tamb\u00e9m se tornam elites irrespons\u00e1veis, n\u00e3o escolhidas, n\u00e3o planejadas e informais \u2014 pretendam s\u00ea-las ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas novas elites informais s\u00e3o frequentemente sentidas como amea\u00e7as pelas velhas elites informais estruturadas anteriormente a partir de outros movimentos. Trata-se de uma percep\u00e7\u00e3o correta. Essas redes politicamente orientadas dificilmente est\u00e3o dispostas a ser meras \u201csororidades\u201d, como muitas das antigas eram, e querem divulgar suas ideias pol\u00edticas e feministas. Isso \u00e9 natural, mas as implica\u00e7\u00f5es disso para o movimento de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres nunca foram adequadamente discutidas. As velhas elites dificilmente est\u00e3o dispostas a discutir abertamente essas diferen\u00e7as de opini\u00e3o porque isso implicaria em expor a natureza da estrutura informal do grupo. Muitas dessas elites informais t\u00eam se escondido sob a bandeira do \u201canti-elitismo\u201d e da \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d.<\/p>\n<p>Para combater efetivamente a competi\u00e7\u00e3o de outra estrutura informal, elas teriam que tornar-se \u201cp\u00fablicas\u201d e essa possibilidade est\u00e1 cheia de implica\u00e7\u00f5es perigosas. Assim, para manter seu pr\u00f3prio poder, torna-se mais f\u00e1cil racionalizar a exclus\u00e3o dos membros da outra estrutura informal por meios como o \u201ccombate aos vermelhos\u201d, o \u201ccombate \u00e0s l\u00e9sbicas\u201d ou o \u201ccombate \u00e0s heteros\u201d. A \u00fanica outra alternativa \u00e9 estruturar o grupo formalmente de tal maneira que o poder original seja institucionalizado. Isso nem sempre \u00e9 poss\u00edvel. Se as elites informais forem bem estruturadas e tiverem exercido uma boa quantidade de poder no passado, tal tarefa \u00e9 vi\u00e1vel. Esses grupos t\u00eam uma hist\u00f3ria de atividade pol\u00edtica relativamente eficaz, na qual a firmeza da estrutura informal se mostrou um substituto adequado \u00e0 estrutura formal. A sua estrutura\u00e7\u00e3o n\u00e3o altera muito sua opera\u00e7\u00e3o, embora a institucionaliza\u00e7\u00e3o da estrutura de poder abra espa\u00e7o para a contesta\u00e7\u00e3o formal.<\/p>\n<p>Normalmente, os grupos que mais necessitam de estrutura s\u00e3o os menos capazes de cri\u00e1-la. Suas estruturas informais n\u00e3o foram bem formadas e a ades\u00e3o \u00e0 ideologia da \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d os faz relutantes em mudar de estrat\u00e9gia. Quanto mais sem estrutura um grupo \u00e9, tanto mais carece de estruturas formais; quanto mais adere a uma ideologia de \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d, mais vulner\u00e1vel est\u00e1 a ser tomado por um grupo de companheiras oriundas de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Uma vez que o movimento como um todo \u00e9 t\u00e3o sem estrutura quanto a maioria dos grupos que o constitui, ele \u00e9 igualmente suscet\u00edvel \u00e0 influ\u00eancia indireta de outras organiza\u00e7\u00f5es. Mas o fen\u00f4meno manifesta-se diferentemente. Num n\u00edvel local, a maior parte dos grupos consegue operar autonomamente, mas apenas os grupos que conseguem organizar uma atividade no n\u00edvel nacional podem ser considerados grupos nacionalmente organizados. Assim, s\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es feministas estruturadas que em geral fornecem as dire\u00e7\u00f5es nacionais para as atividades feministas e essas dire\u00e7\u00f5es s\u00e3o determinadas pelas prioridades dessas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Grupos como a \u201cOrganiza\u00e7\u00e3o Nacional das Mulheres\u201d (NOW) e a \u201cLiga de A\u00e7\u00e3o pela Igualdade das Mulheres\u201d (WEAL) e alguns grupos [caucuses] feministas de esquerda s\u00e3o as \u00fanicas organiza\u00e7\u00f5es capazes de montar uma campanha nacional. Os in\u00fameros grupos de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres sem estrutura podem escolher se v\u00e3o apoiar ou n\u00e3o as campanhas nacionais, mas s\u00e3o incapazes de organizar uma campanha pr\u00f3pria. Dessa forma, seus membros se tornam as tropas sob a lideran\u00e7a das organiza\u00e7\u00f5es estruturadas. Grupos declaradamente sem estrutura n\u00e3o possuem maneiras de acessar os vastos recursos do movimento para apoiar suas prioridades. Eles n\u00e3o t\u00eam sequer os meios de decidir quais devem ser as prioridades.<\/p>\n<p>Quanto mais sem estrutura um movimento \u00e9, menos controle ele tem sobre as dire\u00e7\u00f5es na qual se desenvolve e sobre as a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na qual se engaja. Isso n\u00e3o significa que suas ideias n\u00e3o se espalham. Dado um certo grau de interesse dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es sociais favor\u00e1veis, as ideias ainda ser\u00e3o difundidas amplamente. Mas o fato das ideias serem difundidas n\u00e3o implica que ser\u00e3o implementadas; significa apenas que ser\u00e3o discutidas. Na medida em que podem ser aplicadas individualmente, elas podem ser realizadas, mas na medida em que requerem poder pol\u00edtico coordenado para ser implementadas, elas n\u00e3o o ser\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto o movimento de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres permanece dedicado a uma forma de organiza\u00e7\u00e3o que enfatiza os pequenos e inativos grupos de discuss\u00e3o entre amigas, os piores problemas da falta de estrutura\u00e7\u00e3o n\u00e3o se far\u00e3o sentir. Mas esse estilo de organiza\u00e7\u00e3o tem seus limites; \u00e9 politicamente ineficiente, excludente e discriminat\u00f3rio quanto \u00e0s mulheres que n\u00e3o est\u00e3o ou n\u00e3o podem estar ligadas a redes de amigas. Aquelas que n\u00e3o se enquadram no esquema existente por motivo de classe, ra\u00e7a, profiss\u00e3o, casamento, maternidade ou personalidade ser\u00e3o inevitavelmente desencorajadas de tentar participar. Aquelas que se encaixam desenvolver\u00e3o o interesse dissimulado de manter as coisas como est\u00e3o.<\/p>\n<p>Os interesses dissimulados dos grupos informais ser\u00e3o mantidos pelas estruturas informais que existem e o movimento n\u00e3o ter\u00e1 meios de determinar quem deve exercer o poder no seu interior. Se o movimento continua deliberadamente a n\u00e3o escolher quem deve exercer o poder, ele termina por n\u00e3o abolir o poder. Tudo que faz \u00e9 abdicar o direito de exigir daquele que exerce o poder e a influ\u00eancia que tenha responsabilidade por esse poder e essa influ\u00eancia. Se o movimento continua a manter o poder t\u00e3o difuso quanto poss\u00edvel porque sabe que n\u00e3o pode exigir responsabilidade daquele que o tem, ele impede qualquer grupo ou pessoa de domin\u00e1-lo totalmente. Mas, simultaneamente, ele se condena a ser t\u00e3o ineficaz quanto poss\u00edvel. Um meio-termo entre a domina\u00e7\u00e3o e a inefic\u00e1cia pode e deve ser encontrado.<\/p>\n<p>Esses problemas est\u00e3o surgindo agora porque a natureza do movimento est\u00e1 necessariamente mudando. A conscientiza\u00e7\u00e3o, como fun\u00e7\u00e3o principal do movimento de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres, est\u00e1 se tornando obsoleta. Devido \u00e0 intensa publicidade da imprensa nos \u00faltimos dois anos e aos in\u00fameros livros e artigos que circulam agora nos meios estabelecidos, a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres se tornou uma express\u00e3o conhecida. Seus temas s\u00e3o debatidos e os grupos de discuss\u00e3o informais s\u00e3o formados por pessoas que n\u00e3o t\u00eam conex\u00e3o expl\u00edcita com nenhum grupo do movimento. O movimento deve seguir para outras tarefas. Ele agora precisa estabelecer suas prioridades, determinar suas finalidades e perseguir seus objetivos de maneira coordenada. Para faz\u00ea-lo ele deve organizar-se localmente, regionalmente e nacionalmente.<\/p>\n<p><strong>Princ\u00edpios da Estrutura\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica<\/strong><br \/>\nA partir do momento em que o movimento n\u00e3o se prende mais tenazmente \u00e0 ideologia da \u201caus\u00eancia de estrutura\u201d ele estar\u00e1 livre para desenvolver aquelas formas de organiza\u00e7\u00e3o que melhor se adequam ao seu funcionamento saud\u00e1vel. Isto n\u00e3o significa que devemos ir ao outro extremo e imitar cegamente as formas tradicionais de organiza\u00e7\u00e3o. Mas n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o devemos rejeitar cegamente todas elas. Algumas das t\u00e9cnicas tradicionais v\u00e3o se mostrar \u00fateis, ainda que imperfeitas; outras nos dar\u00e3o ideias sobre o que devemos ou n\u00e3o fazer para obter certos fins com custos m\u00ednimos para as pessoas no movimento. Na maior parte dos casos, n\u00f3s teremos que experimentar com formas diferentes de estrutura\u00e7\u00e3o e desenvolver uma variedade de t\u00e9cnicas para usar em situa\u00e7\u00f5es diferentes. O \u201csistema de sorteio\u201d \u00e9 uma dessas ideias que surgiram do movimento. Ele n\u00e3o \u00e9 aplic\u00e1vel a todas situa\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 \u00fatil em algumas. Outras ideias para a estrutura\u00e7\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias. Mas antes que procedamos na experimenta\u00e7\u00e3o inteligente, devemos aceitar a ideia de que n\u00e3o h\u00e1 nada de inerentemente ruim na estrutura em si mesma \u2014 apenas no seu uso excessivo.<\/p>\n<p>Enquanto entramos nesse processo de tentativa e erro, existem alguns princ\u00edpios que podemos ter em mente que s\u00e3o essenciais para a estrutura\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e que s\u00e3o tamb\u00e9m politicamente eficazes:<\/p>\n<p>1. Delega\u00e7\u00e3o, por meios democr\u00e1ticos, de autoridade espec\u00edfica a indiv\u00edduos espec\u00edficos para tarefas espec\u00edficas. Deixar pessoas assumirem trabalhos ou tarefas por omiss\u00e3o ou neglig\u00eancia significa apenas que eles n\u00e3o ser\u00e3o feitos de forma segura. Se as pessoas s\u00e3o escolhidas para uma tarefa, preferencialmente ap\u00f3s manifestarem um interesse ou vontade de faz\u00ea-la, elas assumem um compromisso que n\u00e3o pode ser facilmente ignorado.<\/p>\n<p>2. Exig\u00eancia de que aqueles a quem a autoridade foi delegada sejam respons\u00e1veis frente aqueles que os escolheram. Essa \u00e9 a forma pela qual o grupo tem controle sobre as pessoas em posi\u00e7\u00f5es de autoridade. Indiv\u00edduos podem exercer o poder, mas \u00e9 o grupo quem tem a \u00faltima palavra sobre a forma como o poder \u00e9 exercido.<\/p>\n<p>3. Distribui\u00e7\u00e3o da autoridade entre tantas pessoas quanto possa ser razoavelmente poss\u00edvel. Isso impede o monop\u00f3lio do poder e exige daqueles em posi\u00e7\u00f5es de autoridade que consultem muitas outras pessoas no exerc\u00edcio de seu poder. Tamb\u00e9m oferece a muitas pessoas a oportunidade de ter responsabilidade por tarefas espec\u00edficas e dessa forma aprender habilidades espec\u00edficas.<\/p>\n<p>4. Rota\u00e7\u00e3o de tarefas entre as pessoas. Responsabilidades que s\u00e3o mantidas durante muito tempo por uma mesma pessoa, formalmente ou informalmente, passam a ser vistas como sua \u201cpropriedade\u201d e n\u00e3o s\u00e3o facilmente substitu\u00eddas ou controladas pelo grupo. Inversamente, se a rotatividade das tarefas \u00e9 muito frequente, as pessoas n\u00e3o t\u00eam tempo para aprender seu trabalho direito e adquirir o sentimento do trabalho bem feito.<\/p>\n<p>5. Aloca\u00e7\u00e3o de tarefas segundo crit\u00e9rios racionais. Escolher pessoas para uma posi\u00e7\u00e3o porque elas s\u00e3o queridas pelo grupo ou lhes dar um trabalho pesado porque n\u00e3o s\u00e3o queridas, prejudica, a longo prazo, o grupo e a pessoa. Habilidade, interesse e responsabilidade t\u00eam de ser as principais preocupa\u00e7\u00f5es nessa sele\u00e7\u00e3o. As pessoas devem ter a oportunidade de aprender habilidades que n\u00e3o possuem, mas isso \u00e9 melhor implementado por uma esp\u00e9cie de programa de \u201caprendizes\u201d do que pelo m\u00e9todo do \u201cnada ou afoga\u201d. Ter uma responsabilidade maior do que se aguenta pode ser desmoralizante. Inversamente, ser rejeitado naquilo que se faz bem n\u00e3o encoraja ningu\u00e9m a desenvolver suas habilidades. As mulheres t\u00eam sido punidas por serem competentes por toda hist\u00f3ria humana. O movimento n\u00e3o precisa repetir esse processo.<\/p>\n<p>6. Difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o a todos com a maior frequ\u00eancia poss\u00edvel. Informa\u00e7\u00e3o \u00e9 poder. O acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o aumenta o poder. Quando uma rede informal dissemina novas ideias e informa\u00e7\u00f5es entre si, sem passar pelo grupo, ela est\u00e1 envolvida num processo de forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o sem a participa\u00e7\u00e3o do grupo. Quanto mais se sabe como as coisas funcionam, mais politicamente eficaz se \u00e9.<\/p>\n<p>7. Acesso igualit\u00e1rio aos recursos necess\u00e1rios ao grupo. Isto nem sempre \u00e9 poss\u00edvel, mas deve se lutar para consegui-lo. Um membro que mantenha um monop\u00f3lio sobre um recurso necess\u00e1rio (por exemplo, uma gr\u00e1fica ou um laborat\u00f3rio de revela\u00e7\u00e3o do marido) pode influenciar indevidamente o uso daquele recurso. Habilidades e informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o recursos. E as habilidades e informa\u00e7\u00f5es dos membros s\u00f3 estar\u00e3o igualmente distribu\u00eddos quando os membros quiserem ensinar o que sabem para os outros.<\/p>\n<p>Quando esses princ\u00edpios s\u00e3o aplicados, eles asseguram que quaisquer estruturas que sejam desenvolvidas ser\u00e3o controladas pelo grupo e assumir\u00e3o responsabilidades frente a ele. O grupo de pessoas em posi\u00e7\u00e3o de autoridade ser\u00e1 difuso, flex\u00edvel, aberto e tempor\u00e1rio. Eles n\u00e3o estar\u00e3o numa posi\u00e7\u00e3o que facilita a institucionaliza\u00e7\u00e3o do seu poder, porque as decis\u00f5es definitivas ser\u00e3o feitas pelo grupo como um todo. O grupo ter\u00e1 assim o poder de determinar quem deve exercer a autoridade dentro dele.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A tirania das organiza\u00e7\u00f5es sem estrutura \u2013 Jacobin Brasil. 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