{"id":15652,"date":"2021-09-04T12:00:26","date_gmt":"2021-09-04T15:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15652"},"modified":"2021-09-01T14:03:32","modified_gmt":"2021-09-01T17:03:32","slug":"a-variedade-de-interpretacoes-filosoficas-sobre-a-pandemia-e-um-sintoma-de-vitalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/09\/04\/a-variedade-de-interpretacoes-filosoficas-sobre-a-pandemia-e-um-sintoma-de-vitalidade\/","title":{"rendered":"&#8216;A variedade de interpreta\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas sobre a pandemia \u00e9 um sintoma de vitalidade&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Maria Jo\u00e3o Cantinho &#8211; <\/strong>Jo\u00e3o Pedro Cachopo\u00a0\u00e9 music\u00f3logo e fil\u00f3sofo. Leciona na Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde integra o Centro de Estudos de Sociologia e Est\u00e9tica Musical. \u00c9 autor de\u00a0A tor\u00e7\u00e3o dos sentidos: pandemia e remedia\u00e7\u00e3o digital\u00a0(Documenta, 2020, e Elefante, 2021) e de\u00a0Verdade e Enigma: Ensaio sobre o pensamento est\u00e9tico de Adorno\u00a0(Vendaval, 2013), que recebeu o Pr\u00eamio Primeira Obra do PEN Clube Portugu\u00eas em 2014. Coeditou\u00a0Ranci\u00e8re and Music\u00a0(Edinburgh University Press, 2020),\u00a0Est\u00e9tica e Pol\u00edtica entre as Artes\u00a0(Edi\u00e7\u00f5es 70, 2017) e\u00a0Pensamento Cr\u00edtico Contempor\u00e2neo\u00a0(Edi\u00e7\u00f5es 70, 2014).<\/p>\n<p id=\"e41e\" data-selectable-paragraph=\"\"><strong>Quando lhe apareceu a necessidade de escrever sobre a pandemia? Foi a partir da leitura de outros te\u00f3ricos como Agamben, \u017di\u017eek, Byung-Chul Han, entre outros, ou veio antes disso, pela perturba\u00e7\u00e3o causada?<\/strong><\/p>\n<p id=\"eac1\" data-selectable-paragraph=\"\">Para responder a essa pergunta, tenho de voltar ao in\u00edcio de 2020. Como todo mundo, fui apanhado de surpresa pela pandemia. E essa surpresa levou-me a escrever sobre o que se passava de forma bastante espont\u00e2nea. Ao mesmo tempo, come\u00e7aram a surgir todos aqueles textos \u2014 de Agamben, de \u017di\u017eek, de Han, de Butler, de Nancy. Ler aqueles textos, em particular os que menos me convenciam, fez surgir em mim a vontade de reagir a eles.<\/p>\n<p id=\"52ce\" data-selectable-paragraph=\"\">Foi neste contexto, entre o final de mar\u00e7o e o in\u00edcio de abril de 2020, que surgiu o ensaio<a href=\"https:\/\/www.revistapunkto.com\/2020\/04\/o-que-pode-filosofia-nos-tempos-que.html\" rel=\"noopener\">\u00a0\u201cO que pode a filosofia nos tempos que correm?\u201d<\/a>, que foi publicado no\u00a0<em>Punkto<\/em>, e que acabaria por constituir, depois de uma revis\u00e3o posterior, o primeiro cap\u00edtulo do meu livro. Seja como for, n\u00e3o me passava pela cabe\u00e7a escrever um livro sobre a pandemia. Essa vontade \u2014 na verdade acho que foi mais uma tenta\u00e7\u00e3o, uma tenta\u00e7\u00e3o a que acabei por n\u00e3o resistir \u2014 s\u00f3 surgiu mais tarde, em maio. Continuaram a surgir textos que me deixavam descontentes e, junto desse descontentamento, mais ideias para outros ensaios. Aos poucos, ganhava corpo a hip\u00f3tese que acabaria por se tornar o eixo em torno do qual o meu livro est\u00e1 organizado.<\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">Portanto, a vontade de reagir ao que outros escreveram foi um fator importante. Mas n\u00e3o foi o \u00fanico, nem sequer o mais decisivo. E a sua import\u00e2ncia cruzou-se com uma s\u00e9rie de outras circunst\u00e2ncias da minha vida pessoal e acad\u00eamica. Por exemplo, o fato de ter regressado muito recentemente de Chicago, e estar ainda mentalmente entre dois continentes, tornou-me hipersens\u00edvel \u00e0 quest\u00e3o da proximidade e da dist\u00e2ncia. Outro aspecto decisivo foi o fato de ter lecionado, na Primavera de 2020, uma cadeira sobre a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica, tecnologia e modernidade \u2014 uma cadeira em que abordamos textos de Benjamin, McLuhan, Kittler, Sterne e Auslander. Estas leituras tornaram-me particularmente imune ao fervor apocal\u00edptico que se apoderou de alguns estetas e intelectuais perante o recurso a tecnologias de remedia\u00e7\u00e3o digital no campo das artes.<\/p>\n<p id=\"33b5\" data-selectable-paragraph=\"\"><strong>Precisamente um dos temas mais interessantes do seu livro \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre proximidade e dist\u00e2ncia, que aborda a partir da rela\u00e7\u00e3o benjaminiana entre aura e vest\u00edgio\u2026<\/strong><\/p>\n<p id=\"6948\" data-selectable-paragraph=\"\">De fato, esse passo do\u00a0<em>Livro das Passagens<\/em>\u00a0de Benjamin desempenha um papel importante no meu livro. \u00c9 um fragmento que me acompanha h\u00e1 muito tempo, desde que o ouvi comentado, de forma magistral, pela Maria Filomena Molder. \u00c9 um fragmento belo e dif\u00edcil, desde o ponto de vista da tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p id=\"4d49\" data-selectable-paragraph=\"\">A raz\u00e3o da sua import\u00e2ncia no meu livro \u00e9 simples. Tem a ver com esta intui\u00e7\u00e3o: a experi\u00eancia das novas m\u00eddias, a experi\u00eancia atrav\u00e9s das novas m\u00eddias, \u00e9 uma experi\u00eancia em que se pode estar na posi\u00e7\u00e3o de quem captura e de quem \u00e9 capturado, logo de quem segue vest\u00edgios ou de quem \u00e9 dominado pela aura. S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 claro em que posi\u00e7\u00e3o se est\u00e1. \u00c9 esse o drama. As novas m\u00eddias prometem a democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento, prometem o acesso ao desconhecido, prometem a imediatez da comunica\u00e7\u00e3o, e l\u00e1 vamos n\u00f3s, pela Internet, seguindo esses vest\u00edgios, supondo-nos donos e senhores do que ca\u00e7amos. Simplesmente, a cada clique, seja ele um\u00a0<em>like<\/em>\u00a0no Facebook, uma compra na Worten ou a abertura de um qualquer\u00a0<em>link<\/em>, tamb\u00e9m n\u00f3s deixamos vest\u00edgios. E esses vest\u00edgios transformam-nos, sem que disso nos apercebamos, em presas. J\u00e1 n\u00e3o somos ca\u00e7adores, mas ca\u00e7ados.<\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">Dizer isto assim soa um pouco a teoria da conspira\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 disso que se trata. Trata-se, simplesmente, de reconhecer que todas estas plataformas por cujos servi\u00e7os n\u00e3o pagamos (o Facebook, o Instagram, etc.), s\u00e3o plataformas nas quais somos n\u00e3o o cliente, mas o produto. O cliente \u00e9 quem paga pelos an\u00fancios. N\u00f3s, que os vemos, somos o que \u00e9 vendido. Este excerto de Benjamin tem essa vantagem de, por meio do conceito de vest\u00edgio, permitir pensar a ambival\u00eancia da nossa posi\u00e7\u00e3o enquanto passeantes do mundo digital.<\/p>\n<p id=\"4e45\" data-selectable-paragraph=\"\"><strong>Trata-se de um pensamento sobre o presente. N\u00e3o teve receio de n\u00e3o criar dist\u00e2ncia do seu objeto de reflex\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p id=\"beba\" data-selectable-paragraph=\"\">A quest\u00e3o n\u00e3o se me apresentou dessa maneira. Mas sim, creio que o termo \u2014 o adjetivo \u201cintempestivo\u201d \u2014 se adequa. E adequa-se porque se tratou de ir \u201ccontra\u201d<em>\u00a0<\/em>o tempo, quer no sentido de ir ao encontro do presente quer no sentido de ir a contram\u00e3o da maioria das interpreta\u00e7\u00f5es desse presente.<\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">Mas gostaria de comentar a quest\u00e3o da dist\u00e2ncia um pouco mais detidamente \u2014 a prop\u00f3sito da segunda parte da sua pergunta, sobre se n\u00e3o tive receio de n\u00e3o criar dist\u00e2ncia. Eu, na verdade, e embora me distancie de muito do que se escreveu no campo da filosofia sobre a pandemia, n\u00e3o adiro \u00e0 ret\u00f3rica do recuo. Acho, na verdade, que a variedade de interpreta\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas sobre a pandemia \u00e9 um sintoma de vitalidade. \u00c9 curioso que esta percep\u00e7\u00e3o foi algo que me aproximou, nestes debates pand\u00e9micos, do Pedro Duarte \u2014 que mora no Brasil e que escreveu um bel\u00edssimo livro sobre a experi\u00eancia pand\u00e9mica,<a href=\"https:\/\/bazardotempo.com.br\/loja\/a-pandemia-e-o-exilio-do-mundo\/\" rel=\"noopener\">\u00a0<em>A Pandemia e o Ex\u00edlio do Mundo<\/em><\/a>. Quase parece \u2014 estou a parafrase\u00e1-lo \u2014 que a filosofia \u00e9 presa por ter c\u00e3o e por n\u00e3o ter. Ora \u00e9 criticada por se refugiar numa torre de marfim, ora \u2014 e houve quem seguisse essa linha de racioc\u00ednio \u2014 por intervir demasiado cedo, por n\u00e3o criar dist\u00e2ncia do seu objeto.<\/p>\n<blockquote>\n<p id=\"0da7\" data-selectable-paragraph=\"\"><em>Eu gostaria de me posicionar da seguinte forma: reafirmando a necessidade de dist\u00e2ncia, mas reinterpretando o sentido dessa dist\u00e2ncia a fim de evitar a ret\u00f3rica da espera e do recuo. Por outras palavras, parece-me que a filosofia pode e deve ser intempestiva. E considero que essa intempestividade implica uma certa dist\u00e2ncia. Contudo, a dist\u00e2ncia da filosofia n\u00e3o \u00e9 nem espera no tempo, nem recuo no espa\u00e7o. \u00c9 desvio \u2014 e esse desvio tem um prop\u00f3sito simples: o de encontrar o melhor \u00e2ngulo para iluminar os pontos cegos de uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica ou mesmo, em certos casos, catastr\u00f3fica.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p id=\"8562\" data-selectable-paragraph=\"\"><strong>Em que consiste a tor\u00e7\u00e3o dos sentidos e de que modo ela se relaciona com aquilo que chama a \u201cremedia\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia\u201d? Ou seja, de que modo fomos, neste sentido, afetados pela pandemia?<\/strong><\/p>\n<p id=\"0637\" data-selectable-paragraph=\"\">Esta pergunta permite-me retomar o argumento de fundo do livro. E, ao mesmo tempo, obriga-me a reconhecer que \u2014 como a<a href=\"https:\/\/www.revistapunkto.com\/2021\/02\/potencia-da-imaginacao-mariana-pinto.html\" rel=\"noopener\">\u00a0Mariana Pinto dos Santos bem notou<\/a>\u00a0\u2014 quer o t\u00edtulo quer o subt\u00edtulo do livro s\u00e3o, at\u00e9 certo ponto, enganadores. O t\u00edtulo, porque os sentidos em causa na express\u00e3o \u201ca tor\u00e7\u00e3o dos sentidos\u201d n\u00e3o s\u00e3o os tradicionais cinco sentidos. T\u00eam que ver com a imagina\u00e7\u00e3o e n\u00e3o com a percep\u00e7\u00e3o. O subt\u00edtulo, porque a remedia\u00e7\u00e3o \u00e9 aqui apresentada, n\u00e3o apenas no sentido de rem\u00e9dio e remendo, mas no sentido t\u00e9cnico da palavra \u2014 enquanto representa\u00e7\u00e3o de um\u00a0<em>medium<\/em>\u00a0noutro\u00a0<em>medium<\/em>. Neste aspecto, o conceito de remedia\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia mais n\u00e3o \u00e9 do que uma forma de caracterizar uma experi\u00eancia cujos verbos do quotidiano \u2014 conversar, trabalhar, estudar, ir \u00e0s compras, assistir a um espet\u00e1culo \u2014 passaram a implicar, com uma frequ\u00eancia in\u00e9dita, o recurso a tecnologias digitais.<\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">O exacerbamento do uso de tecnologias digitais foi a principal consequ\u00eancia da pandemia \u2014 ou, melhor dizendo, das medidas tomadas para conter a pandemia. E, a par do isolamento, foi esse uso exacerbado que abalou a nossa imagina\u00e7\u00e3o, produzindo aquilo que designo por tor\u00e7\u00e3o dos sentidos. E que sentidos s\u00e3o esses? S\u00e3o modos de experi\u00eancia que nos ligam ao mundo pela imagina\u00e7\u00e3o, como o amor, a viagem, o estudo, a comunidade e a arte. E o que t\u00eam eles em comum? Muito simplesmente o facto de todos eles poderem ser vistos como exerc\u00edcios de aproxima\u00e7\u00e3o e distanciamento imagin\u00e1rios. Do \u201coutro\u201d no caso do amor. Do \u201cdesconhecido\u201d no caso do estudo. Do \u201clong\u00ednquo\u201d no caso da viagem \u2014 e assim por diante. Resta sublinhar que a lista n\u00e3o \u00e9, nem pretende ser, exaustiva.<\/p>\n<p id=\"2f20\" data-selectable-paragraph=\"\"><strong>As nossas rela\u00e7\u00f5es com o tempo e o espa\u00e7o alteraram-se. Em que medida?<\/strong><\/p>\n<p id=\"f397\" data-selectable-paragraph=\"\">Sem d\u00favida, a tor\u00e7\u00e3o dos sentidos \u2014 que mais n\u00e3o \u00e9 do que a tor\u00e7\u00e3o da nossa faculdade de imaginar \u2014 afetou as experi\u00eancia do amor, do estudo, da viagem, da comunidade e da arte, mas afetou tamb\u00e9m, desde logo e de forma concomitante, a nossa imagina\u00e7\u00e3o espa\u00e7o-temporal. Isto, no entanto, aconteceu de formas distintas.<\/p>\n<p id=\"c770\" data-selectable-paragraph=\"\">No que toca ao espa\u00e7o, sentimo-nos, pelo menos no in\u00edcio, mais pr\u00f3ximos do distante, no sentido em que nos preocupava subitamente o que acontecia noutros pontos do mundo. A pandemia foi o primeiro acontecimento verdadeiramente global. Nem as Grandes Guerras nem as crises financeiras passadas, nem o 11 de Setembro tiveram um impacto t\u00e3o imediatamente global como a pandemia da covid-19. Ao mesmo tempo, tudo pareceu a uma dist\u00e2ncia id\u00eantica. Sentimo-nos igualmente pr\u00f3ximos ou distantes de colegas ou amigos, independentemente de estes viverem na nossa cidade ou noutros continentes.<\/p>\n<p id=\"e27f\" data-selectable-paragraph=\"\">A experi\u00eancia do tempo alterou-se de um modo distinto. Tamb\u00e9m houve uma certa equaliza\u00e7\u00e3o das dist\u00e2ncias, mas essa equaliza\u00e7\u00e3o deu-se como um afastamento e n\u00e3o como uma aproxima\u00e7\u00e3o. E isto verificou-se quer em rela\u00e7\u00e3o ao passado quer em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Por outras palavras, o \u201ch\u00e1 muitos anos\u201d e o \u201cpouco tempo antes da pandemia\u201d parecem igualmente distantes\u2026 Apetece dizer: \u201caquele tempo em que n\u00e3o se usava o Zoom\u2026, lembra-se?\u201d Isto em rela\u00e7\u00e3o ao passado. Em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, \u00e9 o \u201clogo ap\u00f3s a pandemia\u201d \u2014 se \u00e9 que vai haver este \u201clogo ap\u00f3s a pandemia\u201d \u2014 e o \u201cdaqui a muitos anos\u201d que parecem pertencer a um futuro long\u00ednquo, incerto e enevoado.<\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">Poder\u00edamos ser otimistas em rela\u00e7\u00e3o a esta percep\u00e7\u00e3o. E sugerir, como fa\u00e7o a p\u00e1ginas tantas, que isso coloca um peso no presente que nos incita \u00e0 a\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p id=\"1d8f\" data-selectable-paragraph=\"\"><strong>Um dos cap\u00edtulos do seu livro \u00e9 sobre a arte. Com a pandemia a fazer tantas v\u00edtimas (em v\u00e1rios sentidos) na arte, como acha que ser\u00e1 o futuro da arte? Voltar\u00e1 tudo ao \u201cnormal\u201d? Ou nossa rela\u00e7\u00e3o com ela ser\u00e1 alterada?<\/strong><\/p>\n<p id=\"d9c4\" data-selectable-paragraph=\"\">Espero que n\u00e3o volte tudo ao normal! Ou seja, a quest\u00e3o, a meu ver, n\u00e3o \u00e9 apenas se \u00e9 prov\u00e1vel mas tamb\u00e9m se \u00e9 desej\u00e1vel que volte tudo ao normal. Isto n\u00e3o quer dizer que eu desvalorize o impacto negativo da pandemia. Diria que, no campo das artes, importa distinguir duas quest\u00f5es.<\/p>\n<p id=\"e1b4\" data-selectable-paragraph=\"\">Uma tem que ver com as consequ\u00eancias grav\u00edssimas que a pandemia tem sobre o meio art\u00edstico \u2014 desde o cancelamento de ensaios, espet\u00e1culos e exposi\u00e7\u00f5es ao fechamento de salas de cinema ou de livrarias. Desse ponto de vista, o impacto \u00e9 inequivocamente negativo e \u00e9 importante exigir mais apoios que salvaguardem todos aqueles e todas aquelas que trabalham no meio sem distinguir os seus estatutos.<\/p>\n<p id=\"ddce\" data-selectable-paragraph=\"\">Mas esta n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica quest\u00e3o. Importa tamb\u00e9m pensar esta crise na \u00f3ptica mais ampla da hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre as artes e as tecnologias \u2014 em particular as tecnologias de grava\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o do som e da imagem. Nas artes do espet\u00e1culo, os constrangimentos da pandemia constituem n\u00e3o s\u00f3 uma amea\u00e7a mas tamb\u00e9m um desafio. Os constrangimentos da quarentena e da nova normalidade obrigaram int\u00e9rpretes, encenadores e diretores art\u00edsticos a encontrarem solu\u00e7\u00f5es novas para os problemas in\u00e9ditos gerados pela necessidade de distanciamento f\u00edsico entre int\u00e9rpretes e espectadores \u2014 e muitas dessas solu\u00e7\u00f5es est\u00e3o a alargar as fronteiras do que se entende por espet\u00e1culo ao vivo e a problematizar dogmas como o da maior autenticidade do espet\u00e1culo ao vivo por contraste com o espet\u00e1culo remediado.<\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">Como trabalho muito sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a \u00f3pera e os novos media, estou particularmente atento ao que se passa neste campo. H\u00e1 coisas absolutamente extraordin\u00e1rias a acontecer, desde o<a href=\"https:\/\/michiganopera.org\/season-schedule\/twilight-gods\/\" rel=\"noopener\">\u00a0\u201cTwilight: Gods\u201d<\/a>, uma adapta\u00e7\u00e3o d\u2019<em>O Crep\u00fasculo dos Deuses\u00a0<\/em>de Wagner, que o Yuval Sharon montou \u2014 pasme-se \u2014 no parque de estacionamento do Teatro de \u00d3pera de Detroit ao v\u00eddeo-\u00f3pera de<a href=\"https:\/\/www.vopera20.com\/home\" rel=\"noopener\">\u00a0<em>L\u2019enfant et les sortil\u00e8ges<\/em><\/a>\u00a0de Ravel, realizado, em colabora\u00e7\u00e3o com int\u00e9rpretes espalhados por todo o mundo, por Rachael Heyer.<\/p>\n<p id=\"3284\" data-selectable-paragraph=\"\"><strong>Um dos cap\u00edtulos do seu livro intitula-se \u201cApocal\u00edpticos e Remediados\u201d, numa alus\u00e3o ao texto de Umberto Eco,\u00a0<em>Apocal\u00edpticos e Integrados,\u00a0<\/em>de 1964. Neste texto, definem-se \u201cduas atitudes contrastantes perante a cultura de massas\u201d. A minha pergunta \u00e9 obviamente uma provoca\u00e7\u00e3o: podemos continuar a falar do conceito de massa da mesma forma, ap\u00f3s a \u201cremedia\u00e7\u00e3o\u201d?<\/strong><\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">Apetece-me responder a esta pergunta remetendo, n\u00e3o para esse cap\u00edtulo, mas para a sec\u00e7\u00e3o sobre a comunidade. Nessa sec\u00e7\u00e3o, retomo uma ideia \u2014 que me parece justa \u2014 de Byung-Chul Han, um autor que cito bastante, quase sempre para me distanciar, mas n\u00e3o neste ponto. Prop\u00f5e ele que, em tempos t\u00e3o dominados pelos media digitais, a melhor met\u00e1fora para pensar a massa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nem o rebanho nem a matilha, mas o enxame. O enxame digital, que ele pensa em rela\u00e7\u00e3o com o uso de\u00a0<em>social media<\/em>, diz respeito a uma associa\u00e7\u00e3o vertiginosa e agressiva de indiv\u00edduos, indiv\u00edduos que, por um lado, mant\u00eam um perfil individual, mas que, por outro lado, se acham, de alguma forma, desresponsabilizados pela dist\u00e2ncia f\u00edsica. A melhor forma de compreender esta ideia \u00e9 ver ou rever um epis\u00f3dio da s\u00e9rie\u00a0<em>Black Mirror<\/em>\u00a0(<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Hated_in_the_Nation\" rel=\"noopener\">\u201cHated in the Nation\u201d<\/a>). H\u00e1 qualquer coisa de assustador, no potencial de viol\u00eancia que cont\u00e9m, na forma\u00e7\u00e3o de massas online \u2014 e isto mesmo quando os valores s\u00e3o supostamente bons, como \u00e9 o caso naquele epis\u00f3dio.<\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">Em termos mais gerais, a vantagem desta \u00eanfase no enxame digital \u00e9 esta: reconhecer que, nos tempos que correm, deixou de ser poss\u00edvel pensar a forma\u00e7\u00e3o de massas tendo como paradigma a rua. Mesmo as manifesta\u00e7\u00f5es na rua dependem hoje, para ganharem f\u00f4lego e visibilidade \u2014 quase apetece dizer para existirem \u2014 do eco que recebem nas m\u00eddias sociais, do modo como s\u00e3o remediadas. Portanto, n\u00e3o creio que possamos continuar a pensar a massa da mesma forma. O que n\u00e3o quer dizer que tudo o que se escreveu antes se tenha tornado obsoleto. O\u00a0<em>Massa e Poder<\/em>\u00a0de Canetti, uma obra de um f\u00f4lego, de uma liberdade e de uma intelig\u00eancia absolutamente not\u00e1veis, continua em muitos aspectos atual.<\/p>\n<p id=\"97b1\" data-selectable-paragraph=\"\"><strong>Qual o lugar da comunidade, em tempos de pandemia?<\/strong><\/p>\n<p id=\"1fed\" data-selectable-paragraph=\"\">Essa pergunta \u00e9 importante, mas insepar\u00e1vel de uma outra, que eu gostaria de considerar em primeiro lugar. Que papel teve a pandemia na comunidade? Ou melhor, que consequ\u00eancias teve a pandemia no modo como imaginamos, vivemos e valorizamos a comunidade? A primeira coisa que me parece evidente \u00e9 isto: a experi\u00eancia da comunidade tornou-se insepar\u00e1vel da remedia\u00e7\u00e3o, ou seja, do uso de tecnologias digitais. Ao que importa acrescentar de imediato que a remedia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica coisa da qual a comunidade \u00e9 insepar\u00e1vel. A comunidade \u00e9 \u2014 sempre foi e sempre ser\u00e1, como Benedict Anderson sublinhou em\u00a0<em>Imagined Communities<\/em>\u00a0\u2014 insepar\u00e1vel da imagina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 comunidade que n\u00e3o seja imaginada, cujo sentido n\u00e3o dependa de como as pessoas que a constituem imaginam os afetos, os entusiasmos e as esperan\u00e7as que as unem. Simplesmente, hoje em dia, a imagina\u00e7\u00e3o e a remedia\u00e7\u00e3o surgem entrela\u00e7adas. As tecnologias digitais transformaram o modo como imaginamos. Mas nem por isso as usamos de forma autom\u00e1tica ou pr\u00e9-determinada. Se a remedia\u00e7\u00e3o condiciona a imagina\u00e7\u00e3o, a imagina\u00e7\u00e3o condiciona a remedia\u00e7\u00e3o. E ambas t\u00eam de ser tidas em conta no desafio de reimaginar a comunidade.<\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">H\u00e1 um outro ponto fundamental, que tem ainda que ver com a comunidade e com o seu sentido pol\u00edtico. Um dos maiores perigos do presente consiste no fechamento da imagina\u00e7\u00e3o na esfera local e nacional. N\u00e3o estou a equiparar o local e o nacional. Nem estou a sugerir uma oposi\u00e7\u00e3o entre globaliza\u00e7\u00e3o e localiza\u00e7\u00e3o. Concordo com a ideia de que \u00e9 poss\u00edvel pensar globalmente e agir localmente. Limito-me a acrescentar que, a par do perigo da globaliza\u00e7\u00e3o, surge hoje o perigo da localiza\u00e7\u00e3o: o perigo de uma mentalidade e de uma sensibilidade que imaginam a comunidade pondo a t\u00f3nica no pr\u00f3ximo em detrimento do distante. Desconfio em absoluto da ret\u00f3rica da comunidade local. Tudo o que o Tolentino Mendon\u00e7a escreve, por mais que eu n\u00e3o duvide das suas boas inten\u00e7\u00f5es, me parece absolutamente problem\u00e1tico neste contexto.<\/p>\n<p id=\"05e3\" data-selectable-paragraph=\"\"><strong>Trata-se de um livro pol\u00edtico?<\/strong><\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">Sim, trata-se de um livro pol\u00edtico \u2014 e de esquerda, no sentido do Deleuze. Penso num passo das conversas com a Claire Parnet, em que Deleuze defende que ser de esquerda \u00e9 uma quest\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o \u2014 e n\u00e3o de valores, ideais ou palavras de ordem. A pessoa de esquerda, arrisca ele, v\u00ea primeiro o todo, o globo, e s\u00f3 depois o continente, a na\u00e7\u00e3o, a cidade, o bairro, os pr\u00f3ximos e si pr\u00f3prio. A pessoa de direita v\u00ea pela ordem inversa: v\u00ea primeiro o pr\u00f3ximo e s\u00f3 depois o distante. Sublinho que Deleuze opera esta distin\u00e7\u00e3o sem um pingo de moralismo. Trata-se de uma quest\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de moral. Ao que eu acrescentaria duas coisas: primeiro, que se trata tamb\u00e9m de uma quest\u00e3o de imagina\u00e7\u00e3o; segundo, que s\u00f3 uma comunidade capaz de se imaginar pr\u00f3xima do distante \u2014 que deseje e anseie concretamente por essa proximidade \u2014 poder\u00e1 desempenhar um papel pol\u00edtico e emancipador num mundo em que recrudescem o racismo e o nacionalismo e se agrava a crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\"><strong>Voce d\u00e1 muita (e justa) import\u00e2ncia \u00e0s quest\u00f5es clim\u00e1ticas e ambientais. Acha que, no nosso mundo digital, hoje exacerbado pela pandemia, este \u00e9 o novo desafio que se nos coloca? Como pode ajudar a remedia\u00e7\u00e3o a dar o passo nesse sentido?<\/strong><\/p>\n<p id=\"f73b\" data-selectable-paragraph=\"\">H\u00e1 mais do que um grande problema nos dias que correm. E o grande desafio do presente \u00e9 lidar com eles em simult\u00e2neo. A crise clim\u00e1tica e o recrudescimento do racismo e do nacionalismo s\u00e3o dois desses problemas. Creio, de fato, que as tecnologias digitais \u2014 que associo ao conceito de remedia\u00e7\u00e3o \u2014 t\u00eam um papel a desempenhar. No entanto, gostaria de sublinhar que estas tecnologias n\u00e3o apresentam, por si s\u00f3, quaisquer solu\u00e7\u00f5es e que, al\u00e9m disso, geram outros perigos. O meio digital, neste sentido, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas n\u00e3o suficiente, do enfrentamento daqueles problemas.<\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">Em que medida \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria? Na medida em que essas lutas \u2014 contra o racismo e o nacionalismo ou pela responsabilidade ecol\u00f3gica \u2014 n\u00e3o se fazem apenas por convic\u00e7\u00e3o. Fazem-se tamb\u00e9m por amor ao estrangeiro e ao long\u00ednquo. As convic\u00e7\u00f5es s\u00e3o importantes, mas as paix\u00f5es s\u00e3o mais fortes. Ora, nos tempos que correm, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel cultivar esses sentimentos de curiosidade, de admira\u00e7\u00e3o e de atra\u00e7\u00e3o pelo estrangeiro e pelo long\u00ednquo virando as costas \u00e0s tecnologias digitais. Deste ponto de vista, insistir na cr\u00edtica humanista ao digital \u2014 mobilizando as dicotomias entre \u201ccorporal\u201d e \u201cespectral\u201d, \u201canal\u00f3gico\u201d e \u201cdigital\u201d ou \u201cmaterial\u201d e \u201cimaterial\u201d \u2014 n\u00e3o \u00e9 apenas filosoficamente inconsistente, na medida em que implica ignorar o estatuto transcendental da revolu\u00e7\u00e3o digital, mas tamb\u00e9m politicamente irrespons\u00e1vel.<\/p>\n<p id=\"7186\" data-selectable-paragraph=\"\"><strong>Que fil\u00f3sofos dever\u00edamos ler neste momento?<\/strong><\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">Tenho uma certa dificuldade em responder a esta pergunta. N\u00e3o acho que devamos ler mais este ou aquele fil\u00f3sofo, nem sequer que devamos ler mais filosofia do que outra coisa qualquer. H\u00e1 autores e autoras, n\u00e3o s\u00f3 de hoje mas tamb\u00e9m de outros tempos, que faz sentido lermos ou relermos. Mas isto depende de cada pessoa. E n\u00e3o apenas no sentido em que cada pessoa tem os seus interesses pessoais. Mesmo considerando que h\u00e1 problemas comuns, mesmo pondo o acento agudo no presente, nem por isso h\u00e1 leituras mais convenientes em geral.<\/p>\n<p id=\"df6e\" data-selectable-paragraph=\"\"><strong>Olha para o futuro com optimismo? Deixaremos um mundo melhor aos nossos vindouros?<\/strong><\/p>\n<p id=\"42ca\" data-selectable-paragraph=\"\">N\u00e3o sei se deixaremos um mundo melhor aos vindouros. Mas nem por isso me considero um pessimista. Gramsci dizia-se um pessimista do intelecto e um otimista da vontade. Pela minha parte, aposto na imagina\u00e7\u00e3o \u2014 num otimismo da imagina\u00e7\u00e3o contra os desejos do intelecto e da vontade.<\/p>\n<p data-selectable-paragraph=\"\">Fonte da mat\u00e9ria: &#8216;A variedade de interpreta\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas sobre a pandemia \u00e9 um sintoma de vitalidade&#8217; &#8211; Editora Elefante. Link: https:\/\/elefanteeditora.com.br\/a-variedade-de-interpretacoes-filosoficas-sobre-a-pandemia-e-um-sintoma-de-vitalidade\/?ct=t%28DAREDACAO_breno%2311_Tira%2323_Retratos_20201025_COPY_%29&amp;mc_cid=eacabdc37b&amp;mc_eid=0ac7cd7efd<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Jo\u00e3o Cantinho &#8211; Jo\u00e3o Pedro Cachopo\u00a0\u00e9 music\u00f3logo e fil\u00f3sofo. 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