{"id":15600,"date":"2021-08-22T10:05:09","date_gmt":"2021-08-22T13:05:09","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15600"},"modified":"2021-08-21T10:11:49","modified_gmt":"2021-08-21T13:11:49","slug":"o-antropoceno-a-luz-de-bruno-latour","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/08\/22\/o-antropoceno-a-luz-de-bruno-latour\/","title":{"rendered":"O Antropoceno \u00e0 luz de Bruno Latour"},"content":{"rendered":"<p><strong>Rodrigo Petronio &#8211;\u00a0<\/strong>Bruno Latour, antrop\u00f3logo, soci\u00f3logo e fil\u00f3sofo da ci\u00eancia franc\u00eas, figura entre os chamados \u201ccolapsologistas\u201d, um grupo de bi\u00f3logos, antrop\u00f3logos, engenheiros ou climatologistas que investigam a mudan\u00e7a de \u00e9poca em curso a partir da inter-rela\u00e7\u00e3o de tr\u00eas conceitos centrais: Gaia, Antropoceno e natureza.<\/p>\n<p>Em Diante de Gaia: Oito confer\u00eancias sobre a natureza no Antropoceno, traduzido e publicado no Brasil no ano passado, o autor re\u00fane confer\u00eancias proferidas em Edimburgo. Gaia, explica Rodrigo Petronio, \u00e9 o \u201cconceito que conduz todas as confer\u00eancias\u201d e tem uma influ\u00eancia direta do pensador James Lovelock. \u201cA ideia b\u00e1sica de Lovelock na teoria Gaia \u00e9 que Gaia seria um sistema, mas um sistema que tem uma esp\u00e9cie de auto-organiza\u00e7\u00e3o extremamente sofisticada, nuan\u00e7ada e inst\u00e1vel. O primeiro ponto que temos de imaginar \u00e9 que Gaia n\u00e3o \u00e9 natureza; Gaia \u00e9 um sistema integrado de geosfera, biosfera, antroposfera e tecnosfera\u201d. A natureza, por sua vez, pontua, \u201cn\u00e3o \u00e9 algo dado, mas constru\u00eddo pelas diversas naturezas que determinam aquilo que a natureza possa vir a ser ou aquilo que ela \u00e9. Sempre que falamos de natureza, estamos falando de uma no\u00e7\u00e3o que \u00e9 s\u00f3cio-constru\u00edda e n\u00e3o algo dado. Os agentes n\u00e3o-humanos tamb\u00e9m produzem a necessidade de os humanos descreverem os seus \u2018comportamentos\u2019, \u2018atividades\u2019, \u2018propriedades\u2019, porque o humano est\u00e1 sendo convocado pelos n\u00e3o-humanos a definir isso que depois ele vai naturalizar como \u2018natureza\u2019\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 o conceito de Antropoceno, mais recente na literatura e bastante incipiente no debate cient\u00edfico, leva em conta as evid\u00eancias sobre o impacto do ser humano no planeta. \u201cEssas evid\u00eancias, \u00e9 sempre importante demarcar, n\u00e3o s\u00e3o hip\u00f3teses; elas j\u00e1 s\u00e3o comprovadas no n\u00edvel emp\u00edrico. Existe algo que Latour chama de muta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, que decorre de altera\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas, clim\u00e1ticas, nos diversos estratos da Terra, entendida como um sistema. Essas altera\u00e7\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o dadas. Reuni\u00f5es peri\u00f3dicas da sociedade estratigr\u00e1fica internacional, composta por qu\u00edmicos, bi\u00f3logos e ge\u00f3logos que fazem cruzamentos de dados, tentam aferir qual \u00e9 o impacto dessas altera\u00e7\u00f5es na Terra\u201d, explica.<\/p>\n<p>A seguir, publicamos, em formato de entrevista, a confer\u00eancia virtual de Rodrigo Petronio no Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU, durante o Ciclo de Estudos A (in)exist\u00eancia de um mundo comum. Pensamento vivo e mudan\u00e7as poss\u00edveis \u00e0 luz de Bruno Latour.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista<\/strong><\/p>\n<p><strong>Com quais autores Latour dialoga em Diante de Gaia: Oito confer\u00eancias sobre a natureza no Antropoceno e quais s\u00e3o os macroconceitos fundamentais para compreend\u00ea-la?<\/strong><\/p>\n<p>Essas s\u00e3o as\u00a0<em>lectures<\/em>\u00a0[palestras] que Latour proferiu em Edimburgo em 2013. Essas confer\u00eancias foram reunidas numa edi\u00e7\u00e3o francesa de 2015 e, depois, publicadas no Brasil aos cuidados da Editora Ubu no ano passado (2020), com tradu\u00e7\u00e3o da Maryalua Meyer e revis\u00e3o t\u00e9cnica do soci\u00f3logo Andr\u00e9 Magnelli. Apresento essas informa\u00e7\u00f5es para mostrar que este \u00e9 um debate bastante recente. E temos a oportunidade de ter essa edi\u00e7\u00e3o traduzida com poucos anos de defasagem do original franc\u00eas.<\/p>\n<p>Quando abordamos a obra de Latour, a primeira sensa\u00e7\u00e3o que temos, principalmente nas confer\u00eancias, n\u00e3o em outros livros, \u00e9 que ele \u00e9 um autor relativamente f\u00e1cil, por causa da oralidade. Mas logo o leitor percebe que essa facilidade vai se complexificando ao longo da leitura.<\/p>\n<p><strong>Conceitos<\/strong><\/p>\n<p>Vou fazer uma introdu\u00e7\u00e3o aos macroconceitos que est\u00e3o no pr\u00f3prio t\u00edtulo do livro para entendermos como Latour est\u00e1 dialogando com alguns autores e para compreendermos o cerne do livro.<\/p>\n<p>Gaia, Antropoceno e natureza s\u00e3o tr\u00eas conceitos imensos, a come\u00e7ar pelo conceito de natureza, que \u00e9 um dos mais vastos da hist\u00f3ria da filosofia. Mas Latour, como um antrop\u00f3logo e fil\u00f3sofo da ci\u00eancia, se restringe a lhe dar uma abordagem mais espec\u00edfica, dentro do campo dos estudos das ci\u00eancias (<em>science studies<\/em>), \u00e1rea na qual ele \u00e9 mundialmente conhecido.<\/p>\n<p><strong>Gaia<\/strong><\/p>\n<p>Gostaria de come\u00e7ar falando de Gaia porque este conceito conduz todas as confer\u00eancias. Na verdade, \u00e9 um conceito criado e estabilizado pelo pensador James Lovelock. Ele aparece em diversos momentos da obra e, mesmo quando Lovelock n\u00e3o \u00e9 nomeadamente referido, situa-se o tempo todo no pano de fundo das confer\u00eancias porque todas est\u00e3o trazendo quest\u00f5es sobre o humano a partir desse conceito.<\/p>\n<p><strong>Antropoceno<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/570879\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Antropoceno<\/a>\u00a0\u00e9 um conceito que est\u00e1 come\u00e7ando a ser estabilizado e conta com um debate bastante incipiente, tendo em vista a sua centralidade. Esse conceito foi cunhado pelo qu\u00edmico Paul Crutzen h\u00e1 pouco mais de uma d\u00e9cada, tendo em vista diversas evid\u00eancias cient\u00edficas sobre o impacto do ser humano no planeta. Essas evid\u00eancias, \u00e9 sempre importante demarcar, n\u00e3o s\u00e3o hip\u00f3teses; elas j\u00e1 s\u00e3o comprovadas no n\u00edvel emp\u00edrico. Existe algo que Latour chama de muta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, que decorre de altera\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas, clim\u00e1ticas, nos diversos estratos da Terra, entendida como um sistema. Essas altera\u00e7\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o dadas. Reuni\u00f5es peri\u00f3dicas da sociedade estratigr\u00e1fica internacional, composta por qu\u00edmicos, bi\u00f3logos e ge\u00f3logos que fazem cruzamentos de dados, tentam aferir qual \u00e9 o impacto dessas altera\u00e7\u00f5es na Terra. Por isso, \u00e9 sempre importante deixar claro que n\u00e3o estamos lidando com hip\u00f3teses, mas com evid\u00eancias.<\/p>\n<p>Por que o Antropoceno ainda n\u00e3o foi oficializado dentro do debate cient\u00edfico, como, de fato, uma nova \u00e9poca da Terra? Porque ainda n\u00e3o se tem uma quantidade de informa\u00e7\u00f5es para se propor qual, exatamente, \u00e9 a parcela humana nessa transforma\u00e7\u00e3o e nessa muta\u00e7\u00e3o. Mas que a muta\u00e7\u00e3o existe, existe. Entretanto, talvez a estabiliza\u00e7\u00e3o do termo Antropoceno seja apenas uma quest\u00e3o de tempo, como acredito.<\/p>\n<p>Quando falamos de \u00e9pocas humanas, estamos falando de recortes de tempo de milhares de anos. Estar\u00edamos saindo do Holoceno, uma \u00e9poca de estabiliza\u00e7\u00e3o da vida na Terra, que dura de 10 a 12 mil anos, e ingressando nessa nova \u00e9poca humana, que est\u00e1 prestes a vir e j\u00e1 est\u00e1 sendo anunciada. Para alguns, ela j\u00e1 existe e j\u00e1 estamos nessa nova \u00e9poca. A bibliografia especializada sobre o Antropoceno sempre enfatiza o aspecto de que, embora isso possa resvalar sobre o humano e tenha uma participa\u00e7\u00e3o humana, o Antropoceno \u00e9 uma muta\u00e7\u00e3o de profundas e abissais transforma\u00e7\u00f5es em todo o sistema Terra, em todas as estruturas e, principalmente, nos quatro grandes n\u00edveis: geosfera, biosfera, antroposfera e tecnosfera. \u00c9 uma muta\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas do clima e da atmosfera, mas da vida como um todo, do humano, uma altera\u00e7\u00e3o da biota, que \u00e9 a camada de vida que circunda a Terra e, tamb\u00e9m, uma altera\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica e fisioqu\u00edmica. Latour est\u00e1 tentando imaginar como podemos contornar esse conceito. Apenas assim poderemos trazer o maior n\u00famero de subs\u00eddios para compreender esse n\u00edvel de complexidade.<\/p>\n<p>Quando se fala de complexidade, tamb\u00e9m h\u00e1 um debate largo para a compreens\u00e3o do Antropoceno. No entroncamento desse debate ocorre a converg\u00eancia de duas grandes matrizes te\u00f3ricas. Uma \u00e9 a teoria dos sistemas, de meados dos anos 1940, de Ludwig von Bertalanffy,\u00a0Niklas Luhmann e outros te\u00f3ricos sist\u00eamicos, cuja prerrogativa seria uma ideia de que os sistemas poderiam ser unificados a partir do conceito de metassistema e que todos os processos vivos e n\u00e3o-vivos podem ser entendidos do ponto de vista sist\u00eamico. A ambi\u00e7\u00e3o da teoria sist\u00eamica \u00e9 praticamente correlata \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o da cibern\u00e9tica, que tamb\u00e9m se desenvolveu paralelamente, mas acabou tomando outros rumos.<\/p>\n<p>A outra \u00e9 a teoria da complexidade. Esse \u00e9 um assunto que sempre surge quando debatemos o Antropoceno. S\u00f3 que a teoria da complexidade \u00e9 referida quase sempre ao pensamento e \u00e0 obra de Edgar Morin, que \u00e9 brilhante, mas \u00e9 importante frisar que a complexidade n\u00e3o se reduz \u00e0s linhas estabelecidas por ele. Existem diversos autores que trabalham a no\u00e7\u00e3o de complexidade em diversas linhas, ou seja, existe um pluralismo do que podemos chamar de complexidade, assim como tamb\u00e9m um pluralismo sist\u00eamico.<\/p>\n<p><strong>Separa\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancias da vida e ci\u00eancias f\u00edsicas<\/strong><\/p>\n<p>Como Latour se posiciona diante disso? Para responder a esta quest\u00e3o, temos que circunscrever Gaia. Recuar e entender qual \u00e9 o horizonte conceitual com o qual Latour est\u00e1 dialogando. O horizonte conceitual \u00e9 o de Gaia, de James Lovelock. A proposta de Lovelock \u00e9 criar uma teoria que seja uma din\u00e2mica planet\u00e1ria e celular capaz de compreender a Terra como um todo. O problema tratado \u00e9 extremamente delicado e vem da teoria do conhecimento, da epistemologia, da filosofia da ci\u00eancia desde o s\u00e9culo XVIII, mas \u00e9 no s\u00e9culo XIX que ele adquiriu um contorno mais dif\u00edcil de ser delineado. O problema b\u00e1sico \u00e9 a separa\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancias da vida e ci\u00eancias f\u00edsicas. Esse problema \u00e9 posto como uma das bases da chamada ci\u00eancia contempor\u00e2nea ou ci\u00eancia da complexidade, e h\u00e1 algumas investiga\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas brilhantes, dentre as quais a de Isabelle Stengers e a do qu\u00edmico russo Ilya Prigogine, Pr\u00eamio Nobel, que tentam entender como seria poss\u00edvel a jun\u00e7\u00e3o desses dois grandes campos do conhecimento.<\/p>\n<p>Todos os crit\u00e9rios que definiram a vida desde o s\u00e9culo XIX, como teleonomia, autorreplicabilidade, toda a biologia, que ir\u00e1 culminar na biologia sint\u00e9tica, fazem uma grande demarca\u00e7\u00e3o entre org\u00e2nico e inorg\u00e2nico, entre sistema vivo e meio inorg\u00e2nico e n\u00e3o-vivo. Essa demarca\u00e7\u00e3o, a partir do s\u00e9culo XIX, come\u00e7a a sofrer alguns abalos, principalmente com a segunda lei da termodin\u00e2mica e todas as perspectivas que colocam em xeque a no\u00e7\u00e3o de que o universo \u00e9 regrado por leis absolutas, eternas e imut\u00e1veis, como est\u00e1 na premissa newtoniana e na premissa moderna einsteiniana. Seria preciso, ent\u00e3o, pensar a partir de vetores e, sobretudo, do vetor-tempo. Segundo essa perspectiva, n\u00e3o s\u00e3o apenas os sistemas dissipativos, como a vida, que est\u00e3o vetorizados. O pr\u00f3prio universo, por meio da entropia, est\u00e1 vetorizado e \u00e9 preciso um vetor temporal para compreend\u00ea-lo a contento, como proposto por Prigogine e Stengers. Essa \u00e9 uma aporia, um dilema que vai atravessar o s\u00e9culo XX, porque com a biologia sint\u00e9tica esse problema da heterogeneidade entre org\u00e2nico e inorg\u00e2nico continua sendo posto e mesmo se aprofunda. Essa quest\u00e3o continua atual porque \u00e9 preciso unificar os campos: por que a vida seria algo totalmente heterog\u00eaneo e distinto dos demais processos da natureza? E por que ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel criar uma teoria unificada?<\/p>\n<p>A teoria darwiniana tem muitas interpreta\u00e7\u00f5es, mas, majoritariamente, \u00e9 entendida como uma sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie ou uma luta da esp\u00e9cie pela adaptabilidade \u2013 sempre como uma resist\u00eancia ao meio. Esse meio \u00e9 entendido como algo dado ou previamente existente, enquanto a vida vai se diversificando em busca da sobreviv\u00eancia. Gera assim maior diversidade e um virtual potencial aumento de complexidade, sempre em confronto ou contraste com o meio. A teoria Gaia de Lovelock \u00e9 uma tentativa de dirimir essa dicotomia, esse dualismo. Do meu ponto de vista, os dualismos s\u00e3o sempre a fonte de todo o mal. Ent\u00e3o, toda teoria que tenta superar os dualismos \u00e9 uma teoria bem-vinda, mas, ao mesmo tempo, \u00e9 dif\u00edcil de ser institu\u00edda. Os motivos para essa dificuldade de institucionaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o diversos, n\u00e3o cabem nesta exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como Lovelock compreende Gaia?<\/strong><\/p>\n<p>A ideia b\u00e1sica de Lovelock na teoria Gaia \u00e9 que Gaia seria um sistema \u2013 voltamos para a teoria dos sistemas \u2013, mas um sistema que tem uma esp\u00e9cie de auto-organiza\u00e7\u00e3o extremamente sofisticada, nuan\u00e7ada e inst\u00e1vel. O primeiro ponto que temos de imaginar \u00e9 que Gaia n\u00e3o \u00e9 natureza; Gaia \u00e9 um sistema integrado de geosfera, biosfera, antroposfera e tecnosfera. Essa \u00e9 a hip\u00f3tese b\u00e1sica de Lovelock. Ali\u00e1s, como curiosidade, Lovelock tem mais de cem anos e acaba de publicar um livro [Novaceno: o advento da era da hiperintelig\u00eancia] sobre a vida artificial, que ele tem definido como \u201cNovaceno\u201d, que seria uma alternativa ao termo Antropoceno para se pensar uma nova etapa da vida e da Terra a partir da artificializa\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter muito cuidado: Gaia n\u00e3o \u00e9 natureza e n\u00e3o \u00e9 natureza entendida a partir do binarismo de g\u00eanero extremamente nefasto, segundo o qual se imagina a natureza como feminina, como uma natureza que est\u00e1 o tempo todo correndo riscos, uma natureza fr\u00e1gil. Essa associa\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria \u00e9 extremamente perniciosa. Lovelock n\u00e3o defende a natureza como algo fr\u00e1gil; ela \u00e9 potente e \u00e9 muito mais f\u00e1cil n\u00f3s nos extinguirmos do que os demais seres vivos da Terra. Quando falamos de Antropoceno, estamos falando de um paradoxo: \u00e9 uma \u00e9poca da Terra cujo protagonismo \u00e9 humano, mas que poder\u00e1 nos conduzir \u00e0 extin\u00e7\u00e3o \u2013 extin\u00e7\u00e3o dos humanos e n\u00e3o das outras formas de vida, porque elas existem h\u00e1 bilh\u00f5es de anos. Quando falamos de Gaia, tentamos pensar nesses equil\u00edbrios inst\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a leitura de Latour dessa teoria?<\/strong><\/p>\n<p>Latour\u00a0l\u00ea essa teoria Gaia e a teoria da instabilidade constante, que j\u00e1 est\u00e3o na primeira confer\u00eancia, \u201c<em>Notas sobre a instabilidade do conceito de natureza<\/em>\u201d, na qual ele est\u00e1 demarcando a quest\u00e3o da instabilidade. Como eu disse, isso vem de um problema epistemol\u00f3gico que permeia diversas ci\u00eancias desde o s\u00e9culo XIX, que \u00e9 o problema das chamadas leis lineares, causalidades lineares, que come\u00e7am a n\u00e3o dar mais conta da explica\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos termodin\u00e2micos, de fen\u00f4menos ligados a processos de calor, transforma\u00e7\u00e3o, muta\u00e7\u00e3o, antropia. Essa instabilidade come\u00e7a a ser vista em diversos pontos observacionais de diversas ci\u00eancias. Isso d\u00e1 ensejo \u00e0 tentativa de se construir os chamados sistemas n\u00e3o lineares que seriam baseados em uma l\u00f3gica causal n\u00e3o cl\u00e1ssica e, por isso, contempor\u00e2nea, ou seja, complexa, e tamb\u00e9m \u00e0 no\u00e7\u00e3o de estar fora do equil\u00edbrio \u2013 sistemas fora do equil\u00edbrio. Gaia \u00e9 um sistema fora do equil\u00edbrio ou uma tentativa de homeostase de equil\u00edbrio dos diversos atores \u2013 pensando a partir de Latour \u2013 que est\u00e3o envolvidos nesse sistema que podemos definir como a Terra em todas as suas dimens\u00f5es e n\u00e3o apenas no sentido biol\u00f3gico, f\u00edsico ou humano.<\/p>\n<p>Uma \u00faltima prerrogativa muito importante de Lovelock \u00e9 que a biologia transforma a f\u00edsica ou as propriedades geol\u00f3gicas. O sistema Terra existe at\u00e9 nas suas implica\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas, atmosf\u00e9rica e geol\u00f3gica porque a vida transforma e concorreu tamb\u00e9m para a transforma\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica do planeta. Essa \u00e9 uma tese importante porque entra na quest\u00e3o de Latour da pr\u00f3pria centralidade do conceito de a\u00e7\u00e3o e fazer ou aquilo que Latour define como \u201cfazer fazer\u201d, ou seja, o que nos faz fazer algo? Estamos dentro de uma filosofia e de um pensamento latouriano extremamente pragm\u00e1tico, que tem a ver com os agentes, com as ag\u00eancias, com os atores humanos e n\u00e3o-humanos e essa \u201cnatureza\u201d, esse sistema, ou essa rede \u2013 para usar o termo de Latour \u2013 est\u00e1 conduzindo diversos atores a fazerem algo, ou fazendo diversos atores fazerem algo. Isso parece uma tautologia porque a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de feito, de fazer, de performar, em Latour, \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o bastante espec\u00edfica, central. Pela etimologia e pelos jogos que ele estabelece acerca do fazer, do feito, o termo tem essa no\u00e7\u00e3o que \u00e9 socioconstrutivista que n\u00e3o implica apenas uma ressignifica\u00e7\u00e3o global do conceito de natureza, mas implica tamb\u00e9m uma ressignifica\u00e7\u00e3o total do conceito de cultura, de ag\u00eancia, de humanos e n\u00e3o-humanos.<\/p>\n<p><strong>Como Latour compreende a modernidade?<\/strong><\/p>\n<p>Jamais fomos modernos \u2013 que \u00e9 quase um manifesto \u2013 \u00e9 uma obra importante para compreendermos a premissa de Latour e a defini\u00e7\u00e3o dele de modernidade. A premissa dele \u00e9 a da depura\u00e7\u00e3o, da purifica\u00e7\u00e3o: os saberes s\u00e3o constantemente purificados e isso \u00e9 nocivo porque perdemos a no\u00e7\u00e3o n\u00e3o de um todo \u2013 porque na teoria Gaia n\u00e3o existe necessariamente uma totalidade, e em Latour tamb\u00e9m n\u00e3o existe uma totalidade, assim como n\u00e3o existe na obra de Peter Sloterdijk, um dos autores seminais para o livro das oito confer\u00eancias \u2013, mas isso gera uma esp\u00e9cie de rasgo ou processo de desarticula\u00e7\u00e3o da rede por meio da qual ter\u00edamos que entender todos os saberes. Essa rede n\u00e3o \u00e9 apenas um esfor\u00e7o transdisciplinar das ci\u00eancias entre si, mas \u00e9 uma teoria vasta que envolveria agentes e atores econ\u00f4micos, sociais, pol\u00edticos, cient\u00edficos, ideol\u00f3gicos, produtivos, meramente n\u00e3o-humanos, tanto no sentido tecnol\u00f3gico e tecnocient\u00edfico envolvidos nos milhares de interfaces dos humanos com os animais, os vegetais e os processos biol\u00f3gicos de um modo geral.<\/p>\n<p>A teoria do ator-rede (TAR) de Latour se desenvolve nesse horizonte de tentativa de lidar com esse impacto promovido pelos processos de purifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma cr\u00edtica \u00e0 modernidade entendida como grande agente das purifica\u00e7\u00f5es. As purifica\u00e7\u00f5es seriam o grande problema nuclear do s\u00e9culo XXI para que se possa pensar a ci\u00eancia para al\u00e9m da ci\u00eancia. Existe um debate em filosofia da ci\u00eancia sobre externalistas e internalistas, aqueles que veem a ci\u00eancia a partir de motiva\u00e7\u00f5es externas, ideol\u00f3gicas, press\u00f5es econ\u00f4micas, ou aqueles que veem a ci\u00eancia simplesmente como uma iman\u00eancia de processos laboratoriais aut\u00f4nomos. Quando nos deparamos com essa dualidade, temos que recorrer a Latour porque ele est\u00e1 tentando dissolver as dualidades.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica que Latour faz \u00e0 modernidade n\u00e3o diz respeito a uma tentativa de retomar uma \u201cci\u00eancia integral\u201d, mas simplesmente entender como o processo moderno leva a uma purifica\u00e7\u00e3o dos saberes, que v\u00e3o se separando. Nessas confer\u00eancias, o principal problema a ser superado seria a dualidade matricial que Latour identifica como natureza\/cultura. Para que definamos a natureza como um todo, \u00e9 preciso que haja uma separa\u00e7\u00e3o do humano em rela\u00e7\u00e3o a esse todo natural, porque h\u00e1 um processo de homogeneiza\u00e7\u00e3o do que chamamos de natureza.<\/p>\n<p>Uma das principais contribui\u00e7\u00f5es do bi\u00f3logo estoniano Jakob von Uexk\u00fcll, que \u00e9 importante para Latour, para a biologia existencial \u00e9 imaginar os diversos meios circundantes dos diversos seres vivos. A cr\u00edtica que ele faz \u00e0 taxonomia da biologia cl\u00e1ssica \u00e9 que ela teria homogeneizado a natureza como natureza, ou seja, como se houvesse um pano de fundo comum, comunit\u00e1rio, ou seja, um mundo comum. Para ele, n\u00e3o haveria um mundo exatamente comum dos diversos seres vivos, mas uma mundaneidade ou um processo de prolifera\u00e7\u00e3o de mundos. Justamente porque o humano se acredita como portador ou habitante de uma plataforma especial, ele consegue produzir a plataforma geral, a qual cria diversos problemas epistemol\u00f3gicos porque ela nos impede de perceber a pluralidade de mundos dentro do mundo homog\u00eaneo que chamamos de natureza. Uexk\u00fcll \u00e9 um autor que percorre essas confer\u00eancias de um modo um pouco mais sutil.<\/p>\n<p><strong>Como Latour trata o conceito de natureza a partir dessa perspectiva?<\/strong><\/p>\n<p>Latour \u00e9 um autor que parece simples, mas tem v\u00e1rios n\u00edveis de complexidade e a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de rede est\u00e1 impl\u00edcita na escrita latouriana, como uma escrita em rede, no sentido de que ele est\u00e1 mobilizando esses autores para dirimir esses problemas. Todas as alternativas infernais, como diz Stengers, todas as oposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o dissolvidas por Bruno Latour: natureza e cultura, mat\u00e9ria e mente, humano e a natureza n\u00e3o-humana que seria homog\u00eanea. Essas confer\u00eancias est\u00e3o gravitando em torno disso e por isso a insist\u00eancia de Latour em criticar o conceito de natureza. Essa \u00e9 uma cr\u00edtica que percorre todas as confer\u00eancias, e que precisa ser vista com lupa, com muitas nuances. A cr\u00edtica que ele faz ao discurso ecol\u00f3gico n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o vejamos como grande necessidade a preserva\u00e7\u00e3o de certos biomas ou certos seres vivos. A cr\u00edtica que ele faz diz respeito ao fantasma da natureza, desse conceito hegem\u00f4nico que resvala sobre certos discursos que entendem a ecologia como meramente natural. Esses discursos t\u00eam uma dupla inscri\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m promovem um problema pol\u00edtico, ideol\u00f3gico e antropoc\u00eantrico porque evitam que pensemos a partir da rede. O pr\u00f3prio discurso ecol\u00f3gico est\u00e1 dentro da modernidade purificadora, que produz a separa\u00e7\u00e3o dos diversos saberes e rasga a rede dos diversos atores e ag\u00eancias e produz esse problema.<\/p>\n<p>Na primeira confer\u00eancia, Latour menciona a instabilidade da no\u00e7\u00e3o de natureza. Ele est\u00e1 o tempo todo pensando, como desenvolve em Pol\u00edticas da Natureza, que a natureza n\u00e3o \u00e9 algo dado, mas constru\u00eddo pelas diversas naturezas que determinam aquilo que a natureza possa vir a ser ou aquilo que ela \u00e9. Sempre que falamos de natureza, estamos falando de uma no\u00e7\u00e3o que \u00e9 s\u00f3cio-constru\u00edda e n\u00e3o algo dado. Os agentes n\u00e3o-humanos tamb\u00e9m produzem a necessidade de os humanos descreverem os seus \u201ccomportamentos\u201d, \u201catividades\u201d, \u201cpropriedades\u201d, porque o humano est\u00e1 sendo convocado pelos n\u00e3o-humanos a definir isso que depois ele vai naturalizar como \u201cnatureza\u201d.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o dele \u00e9 propor uma muta\u00e7\u00e3o da nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Essa muta\u00e7\u00e3o passaria pela contempla\u00e7\u00e3o ou pela hip\u00f3tese de haver essa pluralidade de mundos poss\u00edveis. Esse pluralismo ontol\u00f3gico est\u00e1 em Uexk\u00fcll, em Gabriel Tarde, no conceito de associa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 importante para Latour porque as associa\u00e7\u00f5es podem ser humanas ou n\u00e3o-humanas \u2013 e com isso fugimos da met\u00e1fora antropoc\u00eantrica de sociedade e de como projetamos met\u00e1foras antropoc\u00eantricas de sociedades para a sociedade das abelhas, a sociedade das formigas, ou projetamos antropocentricamente o conceito de cultura. As associa\u00e7\u00f5es s\u00e3o modos pelos quais esses mundos convergem e convivem, e precisamos de uma muta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao nosso conceito e nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Isso est\u00e1 implicado numa divis\u00e3o que Latour estabelece entre os humanos e os terrestres. Os terrestres s\u00e3o aqueles que t\u00eam alguma sensibilidade para a quest\u00e3o antropoc\u00eanica, ou seja, da muta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica \u2013 Latour sempre faz quest\u00e3o de usar o termo \u201cmuta\u00e7\u00e3o\u201d porque o termo \u201ccrise\u201d, para ele, n\u00e3o serve. Crise nos d\u00e1 a impress\u00e3o de algo passageiro: estamos em crise e, depois de resolv\u00ea-la, tudo vai voltar ao que era antes. \u00c9 como pensar a pandemia como uma crise, que depois tudo vai voltar ao normal, mas n\u00e3o vai. Estamos passando por transforma\u00e7\u00f5es e a muta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a de grande envergadura, uma mudan\u00e7a de grande narrativa de, no m\u00ednimo, dez, 12 mil anos. \u00c9 isso que estamos vivendo.<\/p>\n<p>Latour faz uma desconstru\u00e7\u00e3o do conceito de natureza. Como a ecologia pode enlouquecer? Ela pode enlouquecer quando ela tenta se haver com um conceito de natureza n\u00e3o natural. Ou seja, com um conceito de redes de agentes de atores e n\u00e3o necessariamente com algo dado. Outro ponto importante \u00e9 o recurso ao mundo natural que acaba sendo uma faca de dois gumes porque ele gera reivindica\u00e7\u00f5es que podem ter uma pragm\u00e1tica espec\u00edfica e at\u00e9 uma a\u00e7\u00e3o que \u00e9 leg\u00edtima e que todos podemos endossar, mas que continua mantendo o processo de purifica\u00e7\u00e3o da modernidade, o qual \u00e9 o cerne de todo o problema porque nos inviabiliza de ver a rede e a complexidade de todos esses agentes, ag\u00eancias e processos.<\/p>\n<p><strong>Pseudocontrov\u00e9rsia contra o clima<\/strong><\/p>\n<p>Latour fala da pseudocontrov\u00e9rsia contra o clima. O que \u00e9 uma pseudocontrov\u00e9rsia? \u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o existe controv\u00e9rsia. Latour nos atenta que os ecoc\u00e9ticos acabam tendo uma vis\u00e3o bastante realista de alguns processos e isso pode dar ensejo a uma maior reflexividade por parte daqueles que est\u00e3o pensando seriamente o Antropoceno. Os ecoc\u00e9ticos n\u00e3o s\u00e3o obscurantistas, mas uma parcela de cientistas e intelectuais que participa do debate p\u00fablico e acredita que n\u00e3o existem refer\u00eancias ou ind\u00edcios suficientes para colocar o humano no protagonismo dessa muta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ele traz essa quest\u00e3o da \u201cpseudocontrov\u00e9rsia\u201d do clima. E essa \u00e9 uma quest\u00e3o que tamb\u00e9m me coloco: se temos a evid\u00eancia de que a muta\u00e7\u00e3o existe, o fato de [o protagonista] ser o humano ou o n\u00e3o-humano n\u00e3o nos evita de termos que enfrentar o problema. Ent\u00e3o, a ideia de ser uma \u201cpseudocontrov\u00e9rsia\u201d \u00e9 evidente. Se isso vai minimizar o processo desenvolvimentista, ent\u00e3o alguns cr\u00edticos do Antropoceno podem dizer que isso poderia gerar um processo de refugo e de fluxo de desenvolvimento econ\u00f4mico por diversos motivos, mas a quest\u00e3o \u00e9 que a Terra, os ativos \u201cnaturais\u201d, ou seja, o sistema Terra j\u00e1 \u00e9 um ativo econ\u00f4mico. O Antropoceno, haja vista o debate clim\u00e1tico entre todas as na\u00e7\u00f5es e pot\u00eancias do mundo, j\u00e1 \u00e9 um ativo econ\u00f4mico e isso faz parte da \u201cpseudocontrov\u00e9rsia\u201d, porque \u00e9 imposs\u00edvel imaginar que n\u00e3o se possa debater algo que j\u00e1 est\u00e1 cotizado na bolsa. Isso tamb\u00e9m traz esses contornos que Latour nos exp\u00f5e t\u00e3o bem.<\/p>\n<p><strong>No\u00e7\u00e3o de mundo<\/strong><\/p>\n<p>Uma frase dele, num dos subcap\u00edtulos, me chama aten\u00e7\u00e3o: \u201c<em>Onde se busca passar da \u2018natureza\u2019 ao mundo<\/em>\u201d. A no\u00e7\u00e3o de mundo \u00e9 mais polic\u00eantrica, o mundo n\u00e3o \u00e9 necessariamente natural, o mundo, pensando heideggerianamente, est\u00e1 o tempo todo se construindo dentro de meios circundantes e tamb\u00e9m de esferas. Por isso, \u201cnatureza\u201d est\u00e1 sempre entre aspas para que consigamos suspender a contento esse conceito; essa \u00e9 a grande luta de Latour nesse livro. Um dos tra\u00e7os estil\u00edsticos das confer\u00eancias \u00e9 a ambiguidade que ele trabalha nos conceitos. A no\u00e7\u00e3o de \u201cnatureza\u201d, como desanimar e n\u00e3o desanimar a \u201cnatureza\u201d, a figura profana da (natureza), como invocar os diferentes povos (da natureza). Esse recurso quase que fenomenol\u00f3gico e suspensivo dos conceitos \u00e9 bastante rico porque nos coloca o tempo todo o dilema, ainda que ele n\u00e3o apresente a solu\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 uma das formas mais produtivas de se pensar hoje em dia para fortalecermos a interroga\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, a filosofia n\u00e3o \u00e9 aquela que fornece respostas, mas a que formula as melhores perguntas. Ent\u00e3o, muitas vezes, \u00e9 melhor nos atermos \u00e0s perguntas, \u00e0s quest\u00f5es e multiplic\u00e1-las do que produzir falsas solu\u00e7\u00f5es, tendo em vista o solucionismo, que \u00e9 o modelo de neg\u00f3cios do Vale do Sil\u00edcio, que \u00e9 um mundo de produ\u00e7\u00e3o de milhares de solu\u00e7\u00f5es todos os dias, mas, como sabemos, esse solucionismo n\u00e3o toca o cerne do problema pelo qual estamos passando.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da religi\u00e3o, para Latour, \u00e9 bastante importante. Ele tenta entender uma nova religi\u00e3o da Terra, ou um religamento ou discursos religiosos que invoquem a \u201cnatureza\u201d e como isso tem um car\u00e1ter paradoxal e contradit\u00f3rio. No fundo, ele vai recorrer \u00e0 inviabilidade dessa religi\u00e3o da natureza. Ela produziria um impacto negativo e por isso ele coloca a quest\u00e3o: estamos indo rumo a uma \u201cnatureza\u201d que n\u00e3o seria mais uma religi\u00e3o? Ele j\u00e1 coloca de sa\u00edda o problema de defini\u00e7\u00e3o de religi\u00e3o \u2013 que \u00e9 complexo na epistemologia. Seria preciso profanar a \u201cnatureza\u201d? Isso \u00e9 paradoxal, ou seja, \u00e9 preciso profanar o conceito de \u201cnatureza\u201d para salvar os processos \u2013 incluindo a \u201cnatureza\u201d \u2013 para salvar todos os agentes da rede.<\/p>\n<p><strong>Geo-hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Um ponto que acho importante e que entra no cerne do que eu havia comentado no in\u00edcio, e que diz respeito \u00e0 confer\u00eancia tr\u00eas, na qual Latour esmi\u00fa\u00e7a um pouco mais a teoria do Lovelock, \u00e9 a analogia que ele faz entre Galileu e Lovelock. Galileu, por meio da observa\u00e7\u00e3o astron\u00f4mica, conseguiu compreender uma certa unidade dos planetas do universo. \u00c9 como se ele tirasse a centralidade da Terra, do sistema ptolomaico, e como se produzisse uma esp\u00e9cie de simetriza\u00e7\u00e3o \u2013 para usar um termo de Latour \u2013 da Terra em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais unidades astron\u00f4micas do universo. Lovelock teria feito o movimento contr\u00e1rio e, de certa forma, complementar. Ao observar a Terra de um sat\u00e9lite, a partir de Marte, ele pode definir a imensa e surpreendente singularidade da Terra em rela\u00e7\u00e3o ao universo. Latour simetriza essas duas conquistas da ci\u00eancia \u2013 e diria at\u00e9 complementares \u2013, porque cada vez mais o horizonte se expande num universo de trilh\u00f5es de gal\u00e1xias e, ao mesmo tempo, cada vez mais, compreendemos a singularidade da vida e a especificidade da vida, porque a Terra \u00e9 uma s\u00f3. Isso nos ajuda a pensar, como Latour diz, n\u00e3o a partir da p\u00f3s-hist\u00f3ria, mas de uma geo-hist\u00f3ria, ou seja, sermos convocados a pensar a hist\u00f3ria implicada nos processos geos, bios, antropos e t\u00e9cnicos. Ent\u00e3o, temos a possibilidade de coimplica\u00e7\u00e3o e de pensar a singularidade, isto \u00e9, pensar os processos como sendo cont\u00ednuos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma frase de William James que acho incr\u00edvel e que diz mais ou menos assim: para se pensar a consci\u00eancia \u00e9 preciso pensar num cont\u00ednuo da consci\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o do universo. Pensadores processuais, da filosofia processual, est\u00e3o pensando a partir de movimentos processuais, que t\u00eam uma determinada continuidade. No pragmatismo de William James, ao qual Latour tamb\u00e9m tem recorrido cada vez mais nos seus escritos, a consci\u00eancia n\u00e3o emergiu do humano; ela \u00e9 uma emerg\u00eancia cont\u00ednua e inacabada dos diversos processos c\u00f3smicos e se materializa de modos distintos em diversos seres. Esse \u00e9 um modo de pensar a consci\u00eancia distribu\u00edda, \u00e9 um modo de pensar a partir desses processos cont\u00ednuos que seriam internos ao modelo-rede, ao modelo latouriano, e ao modelo de pensamento de Lovelock, da teoria inst\u00e1vel e sist\u00eamica, cheio de explos\u00f5es e atritos e controv\u00e9rsias justamente porque a Terra, Gaia, \u00e9 isso.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 um dos eixos principais por meio do qual Latour permeia esses dois conceitos, Antropoceno e Gaia? Sobre Gaia, ele rola uma bibliografia cr\u00edtica ao Lovelock e faz um trabalho meticuloso de entender os limites e as controv\u00e9rsias. O pr\u00f3prio Lovelock, assim como Morin, assumem as cr\u00edticas e trabalham dentro da esfera cr\u00edtica \u00e0s suas pr\u00f3prias teorias \u2013 isso \u00e9 algo que sempre deveria ser feito no ambiente intelectual cient\u00edfico. Na quarta confer\u00eancia, o di\u00e1logo maior de Latour \u00e9 com Sloterdijk, para pensar o que Latour chama de imagem do globo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XXCuh5jvP4I?feature=oembed\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Em que consiste essa imagem e como ela \u00e9 utilizada por Latour em sua teoria?<\/strong><\/p>\n<p>O globo \u00e9 um conceito de Sloterdijk. A quarta confer\u00eancia se chama \u201c<em>O Antropoceno e a destrui\u00e7\u00e3o (da imagem) do globo<\/em>\u201d \u2013 de novo com esse car\u00e1ter suspensivo de interroga\u00e7\u00e3o, de indecidibilidade. Essa \u00e9 a quest\u00e3o que Latour vai trazer. Para entender um pouco essa quest\u00e3o do globo, vou fazer um discurso muito r\u00e1pido a partir da teoria das esferas, de Sloterdijk.<\/p>\n<p>Na esferologia, esse \u00e9 um projeto em tr\u00eas volumes, que contempla Bolhas, Globos e Espumas. Essas tr\u00eas morfologias est\u00e3o dentro de um conceito matricial que \u00e9 o de \u201cesfera\u201d. Ao longo desses tr\u00eas volumes, Sloterdijk d\u00e1 diversas defini\u00e7\u00f5es do que s\u00e3o as esferas, mas elas s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es sistema-meio, ou ontologias di\u00e1dicas, ou seja, ontologias de dois, e esses dois s\u00e3o inextrinc\u00e1veis, n\u00e3o s\u00e3o separ\u00e1veis, ou as esferas tamb\u00e9m s\u00e3o ontologias relacionais, dentre outras defini\u00e7\u00f5es. De um modo geral, na minha leitura, Sloterdijk cria uma esp\u00e9cie de exponencializa\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio do mundo heideggeriano fenomenol\u00f3gico e uma exponencializa\u00e7\u00e3o do meio circundante (<em>Umwelt<\/em>) do Uexk\u00fcll, dentro de uma premissa metabiol\u00f3gica. Ou seja, Sloterdijk est\u00e1 pensando os sistemas a partir dos sistemas metabiol\u00f3gicos, com o acr\u00e9scimo de se pensar na chave relacional.<\/p>\n<p>Essas tr\u00eas morfologias s\u00e3o morfologias espec\u00edficas, que decorrem das rela\u00e7\u00f5es que Sloterdijk define como interior-exterior e sistema-meio. Essas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o ontol\u00f3gicas, mas pressup\u00f5em uma esp\u00e9cie de relacionalidade com a teoria da relacionalidade infinita: todos os seres de todas as grada\u00e7\u00f5es e reinos e enquadramentos ontol\u00f3gicos que possam existir est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o. E o n\u00edvel em que essa rela\u00e7\u00e3o se d\u00e1 \u00e9 o que caracteriza essas morfologias. Estritamente na confer\u00eancia quatro, Latour est\u00e1 tratando da destrui\u00e7\u00e3o da imagem do globo \u2013 e Latour est\u00e1\u00a0<em>pari passu<\/em>\u00a0com Sloterdijk.<\/p>\n<p>As bolhas s\u00e3o o que Sloterdijk chama de sistemas imunol\u00f3gicos microesf\u00e9ricos ou rela\u00e7\u00e3o de intimidade forte desses seres que habitam o sistema e o meio. Essas rela\u00e7\u00f5es decorrem de muitas coisas que n\u00e3o vou conseguir explicar aqui, mas a primeira delas \u00e9 o que ele chama de filosofia mam\u00edfera, que \u00e9 um modo metabiol\u00f3gico de transfer\u00eancia por meio do qual os seres vivos, incluindo principalmente os mam\u00edferos, domesticam seu meio exterior, transformam esse meio exterior e s\u00e3o transformados pelo meio exterior. A base da teoria da autopoiesis, que est\u00e1 em Humberto Maturana, em Niklas Luhmann, em Sloterdijk, tamb\u00e9m paira como uma teoria base da teoria Gaia no sentido de que a vida n\u00e3o apenas se adapta e n\u00e3o apenas transforma, mas tamb\u00e9m \u00e9 transformada por aquilo que ela transforma \u2013 \u00e9 o \u201cfazer fazer\u201d de Latour. Ent\u00e3o, a transforma\u00e7\u00e3o do meio pode gerar diversas morfologias, mas quando ela est\u00e1 no n\u00edvel microesferol\u00f3gico, \u00e9 aquilo que Sloterdijk chama de bolhas. Essas bolhas podem ser exponencializ\u00e1veis e podem gerar o que Sloterdijk chama de ontologias imperiais: grandes regimes de sentido, que se exponencializam e se expandem para todas as dire\u00e7\u00f5es, e d\u00e3o ensejo a estruturas imperiais e pol\u00edticas de grande dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os globos t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o muito forte com o processo imperial, que \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o dos imp\u00e9rios desde a antiguidade: o babil\u00f4nico, o mesopot\u00e2mico, o ass\u00edrio, o chin\u00eas, o medieval crist\u00e3o, o grego, o romano, o mongol. Todos esses imperialismos est\u00e3o \u201cglobalizando\u201d a Terra. Estou usando \u201cglobalizando\u201d entre aspas porque a acep\u00e7\u00e3o de globo de Sloterdijk \u00e9 totalmente contraintuitiva. Ela \u00e9 praticamente o oposto do que chamamos de globaliza\u00e7\u00e3o. A globaliza\u00e7\u00e3o no sentido corrente \u00e9 aquilo que as sociedades e as tecnologias produziram, aquilo que o capitalismo produziu, uma certa uniformidade comunicativa, que uniu todos os pontos da Terra e produziu a hegemonia e expans\u00e3o do capitalismo. A globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o modo de ser do capital, do fluxo de dinheiro e da informa\u00e7\u00e3o no mundo a partir dos anos 1980 e 1990.<\/p>\n<p>Para Sloterdijk, o globo forma um princ\u00edpio imunol\u00f3gico, ou seja, \u00e9 a maneira pela qual pequenas bolhas, grupos, cren\u00e7as, tribos, fam\u00edlias, etnias e religi\u00f5es, conseguem exponencializar seus sistemas de cren\u00e7as e dominar, quase sempre com viol\u00eancia, outras bolhas e construir uma imagem do mundo. Ter\u00edamos muito que discorrer sobre isso, porque s\u00f3 o volume de Sloterdijk sobre o globo tem mais de 800 p\u00e1ginas. Ele faz uma grande cartografia da forma\u00e7\u00e3o do planeta Terra a partir dos mapas-m\u00fandi, que s\u00e3o muito curiosos de serem analisados do ponto de vista morfol\u00f3gico. O globo \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma totalidade hipot\u00e9tica, feita por uma n\u00e3o totalidade dominante de uma bolha ou mais bolhas que est\u00e3o domesticando determinado territ\u00f3rio, cren\u00e7as, no sentido de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562007\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Gilles Deleuze e F\u00e9lix Guattari<\/a>. Essas bolhas que chegam ao poder come\u00e7am a desterritorializar as diversas cren\u00e7as, etnias, religi\u00f5es, popula\u00e7\u00f5es, cidades, para poder homogeneizar, de certa maneira, nessa imagem relativamente un\u00edvoca, que \u00e9 a imagem do globo.<\/p>\n<p><strong>Globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o processo da globaliza\u00e7\u00e3o, para Sloterdijk \u2013 e isso Latour segue\u00a0<em>pari passu<\/em>\u00a0\u2013, come\u00e7ou na antiguidade e a globaliza\u00e7\u00e3o terrestre, que \u00e9 como ele a define, termina no s\u00e9culo XVII e mais tardiamente no s\u00e9culo XVIII, porque \u00e9 o momento em que a cartografia da Terra \u00e9, em certa maneira, mapeada em seus escrut\u00ednios. Existe a emerg\u00eancia de uma nova morfologia a partir do s\u00e9culo XVI \u2013 que \u00e9 praticamente sin\u00f4nimo de modernidade para Sloterdijk \u2013, que \u00e9 a morfologia da \u201cespuma\u201d, que tem a ver com o que ele define como cat\u00e1strofe dos globos, colapso esferol\u00f3gico dos globos. Sloterdijk est\u00e1 trabalhando com sistemas imunol\u00f3gicos, pensando a partir de imuniza\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 a cat\u00e1strofe do globo? \u00c9 a inviabilidade de uma macro imagem capaz de produzir a imuniza\u00e7\u00e3o dos seres humanos.<\/p>\n<p>Ele l\u00ea Nietzsche, por exemplo, e a \u201cmorte de Deus\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas uma cr\u00edtica \u00e0 religi\u00e3o crist\u00e3, porque isso seria uma banalidade. A \u201cmorte de Deus\u201d \u00e9 a morte dos sistemas imunol\u00f3gicos baseados em um centro emissor de sentido e de poder, que \u00e9 o que define o globo enquanto globo. A cat\u00e1strofe dos globos gera essa nova morfologia, que n\u00e3o vai dar tempo de explicar aqui. Mas \u00e9 como se houvesse a inviabilidade da reconstru\u00e7\u00e3o dessa morfologia, porque a espuma, espuma, ou seja, ela vai multiplicar rizomaticamente todos os centros de poder, de enuncia\u00e7\u00e3o e de informa\u00e7\u00e3o, e vai capilarizar mais. \u00c9 uma morfologia em que h\u00e1 uma multiplica\u00e7\u00e3o quase que indeterminada e uma virtualiza\u00e7\u00e3o da vida a partir de sistemas org\u00e2nicos e inorg\u00e2nicos, depois informacionais, tecnol\u00f3gicos, nanotecnologia e tudo que estamos vivendo. No fundo \u00e9 uma vertigem de aprofundamento da espuma, se \u00e9 que podemos dizer que a espuma tem profundidade, ou se ela \u00e9 uma pura superf\u00edcie, como diz Vil\u00e9m Flusser em O elogio da superficialidade: O universo das imagens t\u00e9cnicas, que \u00e9 o mundo de superf\u00edcies em que n\u00f3s vivemos, \u00e9 o mundo da inviabilidade de reconstru\u00e7\u00e3o do globo. Isso \u00e9 bastante importante nessa confer\u00eancia e no livro todo, porque Latour est\u00e1 usando Sloterdijk para dizer que quando falamos de \u201cnatureza\u201d, ou quando homogeneizamos a \u201cnatureza\u201d ou a Terra, estamos tentando reconstruir um globo como se ele fosse uma unidade, mas essa unidade n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel por causa do fim do globo, da cat\u00e1strofe do mundo. Ou seja, os conceitos de globo e de globaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o defasados h\u00e1 muito tempo e n\u00e3o nos ajudam a retificar ou a articular os pontos necess\u00e1rios para evitar as muta\u00e7\u00f5es ou as cat\u00e1strofes do Antropoceno.<\/p>\n<p>No livro<strong>\u00a0<\/strong>Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno, que Latour publicou quase concomitantemente com essas confer\u00eancias, ele chega a mencionar aquelas teorias do local e do global, mas esse livro \u00e9 brilhante porque fala de todas as nuances e muta\u00e7\u00f5es de toda a b\u00fassola e de todo o norteamento ideol\u00f3gico: esquerda-direita, progressivos, reacion\u00e1rios, conservadores. O desafio que estamos tendo hoje \u2013 n\u00e3o quer dizer que essas categorias n\u00e3o existam ou n\u00e3o existam divis\u00f5es \u2013 \u00e9 que essas categorias come\u00e7am a se embaralhar justamente ou porque estamos pensando a partir do globo, ou seja, a partir de uma tentativa de unifica\u00e7\u00e3o, mas essa unifica\u00e7\u00e3o vai ser sempre abstrata, ou uma tentativa de unifica\u00e7\u00e3o a partir da \u201cnatureza\u201d. Mas o recurso \u00e0 \u201cnatureza\u201d como uma esp\u00e9cie de bote salva-vidas mais ajuda a afogar do que a salvar.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma imagem nas confer\u00eancias da qual gosto muito, que \u00e9 do pintor rom\u00e2ntico alem\u00e3o Caspar Friedrich. Latour faz quest\u00e3o de transcrever essa imagem. Caspar Friedrich era muito conhecido por representa\u00e7\u00e3o de paisagens, s\u00f3 que ele traz uma coisa que \u00e9 muito interessante para a teoria dos sistemas, que \u00e9 uma recorr\u00eancia de personagens de costas para o espectador e que observam a paisagem natural, a \u201cnatureza\u201d: grandes landscapes, paisagens, tomadas a\u00e9reas de montanhas, paisagens buc\u00f3licas. O meu querido mestre Hans Ulrich Gumbrecht, no livro chamado Atmosfera, Stimmung, faz uma an\u00e1lise do conceito de atmosfera desde a literatura medieval at\u00e9 Thomas Mann e, em um dos cap\u00edtulos, ele analisa Caspar Friedrich como um precursor da teoria sist\u00eamica, porque temos ali, materializado na pintura, a no\u00e7\u00e3o de observador de segunda ordem.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos vendo a paisagem junto com aquele que v\u00ea a paisagem \u2013 estamos vendo algu\u00e9m ver a paisagem. Essa estrutura metassist\u00eamica, ou seja, a no\u00e7\u00e3o de observadores metassist\u00eamicos de segunda ordem que v\u00e3o se proliferando \u00e9 central para se entender a teoria do ator-rede de Latour e para entendermos esse pintor de modo geral. Essa pintura que Latour descreve \u00e9 uma paisagem em que no ch\u00e3o parecem existir po\u00e7as d\u2019\u00e1gua ou pequenos filamentos de \u00e1gua de um rio, mas vemos, na verdade, a imagem de um globo terrestre.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese latouriana \u00e9: o globo est\u00e1 enterrado na terra. A met\u00e1fora do globo explodiu e n\u00e3o existe unidade global poss\u00edvel. A cr\u00edtica \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o, independentemente do espectro ideol\u00f3gico, \u00e9 eficiente porque tamb\u00e9m est\u00e1 mostrando as contradi\u00e7\u00f5es do modelo global de se pensar o mundo. Essas costuras entre o glo-cal (global e local) s\u00e3o totalmente insuficientes, segundo Latour. Ent\u00e3o, para fechar, eu termino com esta imagem de Caspar Friedrich: como \u00e9 poss\u00edvel pensar a Terra para al\u00e9m da imagem da unifica\u00e7\u00e3o da \u201cnatureza\u201d e para al\u00e9m da imagem da unifica\u00e7\u00e3o do globo? Talvez pensar assim seja fornecer uma sa\u00edda para os impasses e para o problema gigante que est\u00e1 batendo \u00e0 porta: o problema do Antropoceno. Um dos meios \u00e9 pensar esferologicamente, outro meio \u00e9 pensar a partir de Gaia e das teorias de Gaia e das teorias da complexidade.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O Antropoceno \u00e0 luz de Bruno Latour &#8211; Outras Palavras. 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