{"id":15570,"date":"2021-08-13T12:11:55","date_gmt":"2021-08-13T15:11:55","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15570"},"modified":"2021-08-11T22:14:07","modified_gmt":"2021-08-12T01:14:07","slug":"keynes-sua-ousadia-e-seus-limites","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/08\/13\/keynes-sua-ousadia-e-seus-limites\/","title":{"rendered":"Keynes: sua ousadia e seus limites"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eleut\u00e9rio F. S. Prado &#8211;<i> <\/i><\/strong><span style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">De modo bem sint\u00e9tico, o keynesianismo talvez possa ser exposto por meio de uma analogia atrevida que emprega o circuito do capital em geral. Pelo menos est\u00e1 assim apresentado no livro de Geoff Mann,<\/span><sup style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">[i]<\/sup><span style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">\u00a0<\/span><em style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">No longo prazo estaremos todos mortos\u00a0<\/em><span style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">(2017): \u201cAssim como a mercadoria foi posta por Marx, no circuito do capital em geral, isto \u00e9, em D \u2013 M \u2013 D\u2019, como um termo m\u00e9dio na expans\u00e3o do valor, a dial\u00e9tica keynesiana captura a din\u00e2mica central do liberalismo iliberal pondo o Estado como um termo m\u00e9dio no circuito L \u2013 E \u2013 L\u2019, o qual realmente vem existindo h\u00e1 dois s\u00e9culos\u201d (Mann, 2017, p. 386).<\/span><\/p>\n<p>Ora, como a tese contida nessa analogia se afigura bem atilada mesmo ap\u00f3s uma segunda vista, a nota que se segue visa explic\u00e1-la.<\/p>\n<p>Note-se logo que Mann caracteriza John M. Keynes como um liberal iliberal, como algu\u00e9m que atua como advogado da interven\u00e7\u00e3o do Estado para modificar e preservar o liberalismo, isto \u00e9, a liberdade for\u00e7ada e a prosperidade restritiva que o sistema econ\u00f4mico realmente existente faz existir. Mas isto, segundo ele, n\u00e3o \u00e9 novo. Pois, o capitalismo n\u00e3o tem subsistido por for\u00e7a apenas dos mercados, mas, ao contr\u00e1rio, tem sido renovado e reconstitu\u00eddo pelo Estado e pela economia pol\u00edtica intervencionista h\u00e1 muito tempo. Segundo esse autor, tem sido assim pelo menos desde o golpe de novembro de 1799, quando Napole\u00e3o Bonaparte tomou o poder em Fran\u00e7a, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de 1789.<\/p>\n<p>Keynes, portanto, foi mais um protagonista, mesmo se important\u00edssimo, num cont\u00ednuo de atua\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica estatal contra-arrestante que vem de bem longe. Tal como outros antes e depois dele, julgava de modo iliberal que as sementes de sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o est\u00e3o sempre a germinar no capitalismo. E que elas n\u00e3o se desenvolvem at\u00e9 o ponto em que isto realmente acontece porque a atua\u00e7\u00e3o do Estado protege, salva e, assim, rep\u00f5e constantemente o liberalismo.<\/p>\n<p>Eis como Mann explica o keynesianismo: \u201cA contribui\u00e7\u00e3o decisiva do keynesianismo para o liberalismo consistiu em legitimar a sua hegemonia, generalizando continua, pragm\u00e1tica e cientificamente uma vis\u00e3o do mundo na qual o bem-estar proporcionado pelo Estado e a prosperidade da sociedade civil se apresentam conceitualmente como insepar\u00e1veis. E esta \u00e9 mesmo a pr\u00f3pria\u00a0<em>defini\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d [na \u00f3tica de Keynes]. Este inescap\u00e1vel liberalismo iliberal mostrou-se essencial para a sobreviv\u00eancia mesmo do liberalismo cl\u00e1ssico, bem mais dogm\u00e1tico; pois, lhe abasteceu com uma l\u00f3gica pol\u00edtica ansiosa, sem a qual ele n\u00e3o teria sobrevivido sem um uso constante da for\u00e7a bruta. A burguesia e a classe m\u00e9dia s\u00e3o assim tanto efeito como causa da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d keynesiana\u201d. (Mann, 2017, p. 386).<\/p>\n<p>Mas por que menciona que a l\u00f3gica pol\u00edtica do keynesianismo est\u00e1 atravessada pela ansiedade? Mann sugere que um misto de esperan\u00e7a e de medo est\u00e1 subjacente ao legado desse economista que n\u00e3o endossava o liberalismo cl\u00e1ssico. E que esse composto contradit\u00f3rio se encontra impl\u00edcito na declara\u00e7\u00e3o emblem\u00e1tica de que \u201cno longo prazo estaremos todos mortos\u201d \u2013 express\u00e3o esta que, por isso mesmo, foi escolhida como t\u00edtulo do seu livro. Eis que o keynesianismo instala-se entre a promessa de sucesso econ\u00f4mico e a amea\u00e7a constante de que sobrevenham novos desastres, mesmo eventualmente grandes tais como aquele da Crise de 1929. Ele sabe que o sistema econ\u00f4mico apronta sempre novos acidentes e que, portanto, a vida dos seus gestores n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Essa express\u00e3o sugere, ademais \u2013 como ressalta Mann \u2013, que viver num certo estado de inquieta\u00e7\u00e3o quanto ao devir \u00e9 a sina inexor\u00e1vel de toda a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d poss\u00edvel. Sob essa perspectiva, n\u00e3o haveria, tamb\u00e9m, qualquer caminho para construir outro futuro melhor al\u00e9m daquele que conserva o n\u00facleo do capitalismo do melhor modo poss\u00edvel. Existiriam outras alternativas, mas todas elas, inevitavelmente, trariam de algum modo o espectro do autoritarismo e mesmo do barbarismo. Dito de outro modo, para Keynes o capitalismo seria o fim hegeliano da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, o keynesianismo \u00e9 aquilo que os economistas keynesianos fazem em termos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos ou aquilo que est\u00e1 referido a um conjunto bem definido de proposi\u00e7\u00f5es sobre o funcionamento do sistema econ\u00f4mico, as quais est\u00e3o presentes e demarcam a heran\u00e7a de Keynes, em particular na\u00a0<em>Teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro<\/em>? Ainda que a primeira alternativa possa ser aceit\u00e1vel, \u00e9 evidente que o legado de Keynes tem certas caracter\u00edsticas bem definidas: a atividade do dinheiro, a instabilidade do investimento na manuten\u00e7\u00e3o da demanda efetiva, a incerteza sist\u00eamica que envolve as decis\u00f5es empresariais, o papel contra-arrestante do Estado etc.<\/p>\n<p>H\u00e1, entretanto, um ponto fundamental. \u00c9 central observar que a sua teoria econ\u00f4mica \u00e9 estagnacionista: \u201cquanto mais rica for a comunidade, mais tender\u00e1 a ampliar a lacuna entre a sua produ\u00e7\u00e3o efetiva e a potencial; e, portanto, mais \u00f3bvios e mal\u00e9ficos os defeitos do sistema econ\u00f4mico\u201d (Keynes, 1983, p. 33). Assim como verificar que essa sua vis\u00e3o cr\u00edtica se alevanta de uma an\u00e1lise focada na circula\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, tomando estas como formas de capital (Prado, 2016). Pois, como indicou Marx ironicamente, \u201ca esfera da circula\u00e7\u00e3o ou do interc\u00e2mbio de mercadorias (\u2026) \u00e9 de fato um verdadeiro \u00e9den dos direitos naturais do homem (\u2026) liberdade, igualdade, propriedade e Bentham\u201d (Marx, 1983, p. 145).<\/p>\n<p>\u00c9, pois, na esfera da sociabilidade do mercado que se encontram as reservas de Keynes ao capitalismo. A explora\u00e7\u00e3o, a aliena\u00e7\u00e3o e o conflito entre as for\u00e7as produtivas e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o problemas para ele. Diferentemente, ele enfatiza sobretudo que a pr\u00f3pria natureza das intera\u00e7\u00f5es mercantis dificulta a concilia\u00e7\u00e3o do interesse individual com o bem-estar coletivo. E, nesse sentido, como ressalta Mann, ele n\u00e3o compartilha o otimismo c\u00ednico de Bernard Mandeville exposto em sua\u00a0<em>F\u00e1bula das abelhas<\/em>. Para ele a busca do auto interesse n\u00e3o teria sempre como consequ\u00eancia o bem-estar comum \u2013 mas um latente e permanente mal-estar. Ademais, a m\u00e1 reparti\u00e7\u00e3o da renda e o desemprego decorrentes, em \u00faltima an\u00e1lise, das intera\u00e7\u00f5es movidas pelos interesses pr\u00f3prios, costumam alimentar uma raiva de fundo na sociedade mercantil que pode minar \u2013 julga ele \u2013 o seu potencial civilizador.<\/p>\n<p>Segundo Geoff Mann, tr\u00eas caracter\u00edsticas distinguem a longa tradi\u00e7\u00e3o a qual pertence John M. Keynes. A primeira delas \u00e9 a aus\u00eancia de um humanismo universalista capaz de projetar um futuro civilizado para todos os seres humanos. Ao contr\u00e1rio, toda a sua preocupa\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria concerne apenas ao mundo euro-americano; eis que apenas o bem-estar desta fra\u00e7\u00e3o da humanidade lhe interessa: \u201co keynesianismo\u201d \u2013 diz \u2013 \u201ctem sido quase sempre n\u00e3o apenas uma cr\u00edtica elaborada no interior do capitalismo liberal dos estados-na\u00e7\u00f5es \u2018industriais\u2019 da Europa Ocidental e da Am\u00e9rica do Norte \u2013 mas tem sido sobretudo uma cr\u00edtica que ignora todo o resto\u201d. Nesse sentido, trata-se \u2013 como tamb\u00e9m diz \u2013 de uma cr\u00edtica social moderadora que \u201cespelha perfeitamente o mundo burgu\u00eas, colonialista, masculino e branco no qual e para o qual fala\u201d (Mann, 2017, p. 47).<\/p>\n<p>A doutrina liberal do keynesianismo \u00e9 geralmente denominada de \u201cliberalismo embutido\u201d para acentuar que prev\u00ea a realiza\u00e7\u00e3o da liberdade burguesa apenas no interior de uma ordem social que p\u00f5e certa unidade, certa harmonia. Keynes, em particular, \u00e9 cr\u00edtico do que tamb\u00e9m se costuma chamar de \u201cliberalismo desembutido\u201d, o qual embasara a vis\u00e3o de mundo da economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica e do imperialismo do livre-com\u00e9rcio. Em consequ\u00eancia de seu vi\u00e9s euro-americano, essa doutrina, tal como aquela que visa superar, \u00e9 plenamente consistente com a aceita\u00e7\u00e3o ativa ou passiva da falta grosseira de liberalismo na periferia do sistema global. Mais do que isso, \u00e9 consistente com a tese de que a ordem internacional pode e deve ser posta apenas pelo conjunto dos pa\u00edses ricos que se veem como mais desenvolvidos \u2013 mesmo se os pa\u00edses pobres e remediados a recusam.<\/p>\n<p>A segunda caracter\u00edstica \u00e9 a aus\u00eancia de ades\u00e3o ao dogma liberal que manda priorizar sempre a liberdade individual frente a igualdade e a justi\u00e7a social. Diferentemente, essa tradi\u00e7\u00e3o acolhe costumeiramente um individualismo mitigado, tomando a liberdade da pessoa como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas n\u00e3o exclusiva em si mesma e, assim, n\u00e3o suficiente, para realizar uma sociedade civilizada. Se \u00e9 um fim, \u00e9 tamb\u00e9m um meio para negociar a realiza\u00e7\u00e3o de um estado social em que ela pr\u00f3pria pode existir junto como o bem-estar coletivo. Segundo Mann, o projeto keynesiano cont\u00e9m no fundo uma ambi\u00e7\u00e3o para criar algo novo, um lugar, portanto, que ainda n\u00e3o existe. Eis que acredita que \u201cliberdade, solidariedade e seguran\u00e7a podem ser plenamente alcan\u00e7adas numa ordem social racional\u201d, isto \u00e9, numa ordem constru\u00edda pela vontade e pela raz\u00e3o humana (Mann, 2017, p. 49).<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 bem sabido que Keynes considerava o estado lament\u00e1vel da sociedade de seu tempo como uma confus\u00e3o colossal (<em>colossal muddle<\/em>), a qual desejava ver superada. \u00c9 sabido tamb\u00e9m que ele pr\u00f3prio estava se esfor\u00e7ando nos anos 1930 para contribuir ao m\u00e1ximo para que isso ocorresse. A sua teoria geral nunca foi um empreendimento puramente acad\u00eamico, ao contr\u00e1rio, pretendia intervir nos rumos da sociedade, isto \u00e9, da sociedade que lhe interessava.<\/p>\n<p>A terceira caracter\u00edstica do keynesianismo \u00e9 um certo otimismo pr\u00e1tico, uma cren\u00e7a forte na capacidade de resolver os problemas da sociedade por meio de interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas adequadas. \u00c9 assim que Mann explica a falsa consci\u00eancia que obra no interior dessa corrente de pensamento:<\/p>\n<p>Diante das for\u00e7as autodestrutivas produzidas pela pr\u00f3pria sociedade civil, quer mostrar que tais tend\u00eancias funestas n\u00e3o devem necessariamente levar a um fim tr\u00e1gico ou mesmo a uma ruptura tempor\u00e1ria ou ainda a uma severa penit\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, sustenta que mediante paciente e pragm\u00e1tica supervis\u00e3o, as institui\u00e7\u00f5es existentes, as ideias e as rela\u00e7\u00f5es sociais t\u00eam o potencial de produzir, sem quebras, uma transforma\u00e7\u00e3o radical da ordem social.<\/p>\n<p>Se os conservadores arguem que \u00e9 poss\u00edvel chegar ao \u2018melhor de todos os mundos poss\u00edveis\u2019 zelosamente protegendo o\u00a0<em>status quo<\/em>, se os liberais falam que \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7\u00e1-lo por meio do compromisso com um conjunto de ideais abstratos, se os radicais afirmam que isto \u00e9 poss\u00edvel por meio de uma reconstru\u00e7\u00e3o pela raiz da vida social, os keynesianos dizem que um mundo radicalmente diferente se encontra pacificamente em pot\u00eancia na ordem social existente \u2013 na ordem euro-americana, liberal e capitalista, obviamente. (Mann, 1917, p. 50).<\/p>\n<p>O keynesianismo \u00e9, portanto, autoconfiante. Propugna por um capitalismo sem capitalismo a ser alcan\u00e7ado por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o sem revolu\u00e7\u00e3o, afirmando peremptoriamente que sabe muito bem como se chega l\u00e1. Em consequ\u00eancia, afirma-se na teoria \u2013 e mais ainda na pr\u00e1tica-pol\u00edtica \u2013 com certa arrog\u00e2ncia. Quando \u00e9 chamado por uma for\u00e7a pol\u00edtica vencedora, passa a atuar para criar a boa e prospera ordem social que julga poss\u00edvel. Esta \u2013 cr\u00ea \u2013 pode ser realizada historicamente mediante o constante emprego de uma intelig\u00eancia pr\u00e1tica de administradores competentes, ou seja, de um construtivismo social capaz de p\u00f4r em pr\u00e1tica boas corre\u00e7\u00f5es e reformas em resposta aos problemas que surgem.<\/p>\n<p>\u00c9 muito claro que Keynes, o pai fundador dessa corrente de pensamento pr\u00e1tico-pol\u00edtico em sua vers\u00e3o contempor\u00e2nea, n\u00e3o acreditava nem na capacidade de autorregula\u00e7\u00e3o da sociedade nem no bom funcionamento espont\u00e2neo dos mercados. Ao contr\u00e1rio, ele pensava que a sociedade e os mercados, ao serem deixados por sua pr\u00f3pria conta, tendiam \u00e0 desordem, aos impasses e \u00e0s crises, alongar-se-iam na cria\u00e7\u00e3o de esgar\u00e7amentos e rupturas que sempre podem vir a crescer e a amea\u00e7ar a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Segundo Mann, com Hobbes, Keynes pressentia que sob o \u201ccontrato social\u201d vigente escondia-se o \u201cestado de natureza\u201d e que, portanto, ele apenas se manteria inc\u00f3lume por meio da a\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Ou seja, em resumo, L \u2013 E \u2013 L\u2019. Ou ainda \u201cn\u00e3o L \u2013 L\u201d, ou seja, o keynesianismo \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o determinada, n\u00e3o radical, do liberalismo cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>O keynesianismo tem, pois, f\u00e9 no Estado \u2013 e n\u00e3o mercado \u2013 como for\u00e7a constantemente restauradora da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d. Acredita, pois, que apenas o Estado se constitui como pot\u00eancia capaz de integrar a sociedade, de \u201charmonizar o particular e o universal, material e ideologicamente, sem sacrificar nenhum deles\u201d (Mann, 2017, p. 54). \u00c9 ele e somente ele que pode fazer existir o \u201cestado de bem-estar social\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 preciso ver que essa \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d almejada pelo imagin\u00e1rio keynesiano n\u00e3o pode advir de uma \u201cdemocracia popular\u201d ou de um \u201cdemocratismo populista\u201d ainda no \u00e2mbito do capitalismo e muito menos poderia decorrer da democracia radical que, segundo Marx, seria posta historicamente, ao seu devido tempo, pelos \u201ctrabalhadores livremente organizados\u201d. Ao contr\u00e1rio, o keynesianismo mant\u00e9m certo desapre\u00e7o pelo potencial civilizador da democracia, pois, para nele acreditar, \u00e9 preciso confiar fortemente na capacidade da sociedade de resolver os seus pr\u00f3prios problemas. Ora, tal como os marxistas secretamente hobbesianos,<sup>[ii]<\/sup>\u00a0ele nunca acreditou nisso. Nesse sentido, o keynesianismo \u2013 do mesmo modo que o neoliberalismo \u2013 quer resguardar do voto popular um espa\u00e7o crucial para certas decis\u00f5es tecnocr\u00e1ticas \u2013 aquele \u00e2mbito em que se tomam, por exemplo, as decis\u00f5es que afetam os fundamentos da economia e da seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia, ambas essas correntes t\u00eam algo em comum.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso refor\u00e7ar, para finalizar, que tamb\u00e9m o neoliberalismo pode ser sinteticamente explicado pela l\u00f3gica L \u2013 E \u2013 L\u2019, com a diferen\u00e7a de que, para ele, a tarefa central do Estado n\u00e3o \u00e9 realizar o \u201cestado de bem-estar social\u201d, mas, ao contr\u00e1rio, \u00e9 impor a concorr\u00eancia e a competi\u00e7\u00e3o como norma de vida em todas as esferas da sociedade (Dardot e Laval, 2016).<\/p>\n<p>Enquanto o keynesianismo prop\u00f5e uma metamorfose pl\u00e1stica do liberalismo por meio da media\u00e7\u00e3o do Estado, o neoliberalismo prop\u00f5e uma metamorfose c\u00ednica. Confessa que a \u201cjusti\u00e7a social\u201d n\u00e3o conv\u00e9m \u00e0 \u201cordem liberal\u201d; postula que os humanos devem ser apenas sujeitos do dinheiro; e, para chegar aos seus objetivos, quer fracionar ao m\u00e1ximo a sociedade para refor\u00e7ar o dom\u00ednio da burguesia. A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao keynesianismo, pois, n\u00e3o \u00e9 pequena \u2013 e pode mesmo ser considerada imensa \u2013, mas ela est\u00e1 posta num fundo comum de identidade. Ora, \u00e9 este \u00faltimo \u2013 o privil\u00e9gio do Estado na mudan\u00e7a social \u2013 que atualmente precisa ser superado.<\/p>\n<h2><\/h2>\n<p>Dardot, Pierre &amp; Laval, Christian. <em>A nova raz\u00e3o do mundo:Ensaio sobre a sociedade neoliberal<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016.<\/p>\n<p>Keynes, John M.\u00a0<em>Teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro<\/em>. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983.<\/p>\n<p>Mann, Geoff.\u00a0<em>In the long run we are all dead: Keynesianism, political economy, and revolution<\/em>. Londres: Verso, 2017.<\/p>\n<p>Marx, Karl.\u00a0<em>O capital. Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica<\/em>. Livro I, tomo 1. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983.<\/p>\n<p>Prado, Eleut\u00e9rio F. S. \u201cComo Marx e Keynes demarcam o campo da macroeconomia\u201d.\u00a0<em>Revista da Sociedade Brasileira de Economia Pol\u00edtica<\/em>, n\u00ba 45, outubro-dezembro de 2016.<\/p>\n<h2><strong>Notas<\/strong><\/h2>\n<hr \/>\n<p>[i] Professor da \u00e1rea de Geografia da Universidade Simon Fraser, Canada.<\/p>\n<p>[ii] A media\u00e7\u00e3o do Estado, neste caso, n\u00e3o visa repor o liberalismo, mas instalar o \u201csocialismo realmente existente\u201d, isto \u00e9, L \u2013 E \u2013 SOREX.<\/p>\n<div>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Keynes: sua ousadia e seus limites &#8211; Outras Palavras. Link: https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/keynes-sua-ousadia-e-seus-limites\/<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eleut\u00e9rio F. S. Prado &#8211; De modo bem sint\u00e9tico, o keynesianismo talvez possa ser exposto por meio de uma analogia atrevida que emprega o circuito do capital em geral. 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