{"id":15523,"date":"2021-08-09T12:45:27","date_gmt":"2021-08-09T15:45:27","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15523"},"modified":"2021-08-09T12:45:27","modified_gmt":"2021-08-09T15:45:27","slug":"o-coronachoque-e-a-educacao-brasileira-um-ano-e-meio-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/08\/09\/o-coronachoque-e-a-educacao-brasileira-um-ano-e-meio-depois\/","title":{"rendered":"O CoronaChoque e a educa\u00e7\u00e3o brasileira: um ano e meio depois"},"content":{"rendered":"<p><strong>Instituto Tricontinental<\/strong> &#8211; O termo CoronaChoque refere-se \u00e0 forma como o Covid-19 atingiu o mundo com uma for\u00e7a avassaladora, revelando a incapacidade do Estado burgu\u00eas evitar uma cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria e social, em contraste com as experi\u00eancias de inspira\u00e7\u00e3o socialista que se mostraram muito mais resilientes.<\/p>\n<p><b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>O primeiro caso de Covid-19 no Brasil foi registrado oficialmente no dia 26 de fevereiro de 2020. Desde ent\u00e3o, a vida em nosso pa\u00eds se tornou mais dif\u00edcil do que j\u00e1 costumava ser. Isso n\u00e3o ocorreu somente devido aos efeitos de uma doen\u00e7a terr\u00edvel e at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida. O CoronaChoque<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote1sym\" name=\"sdfootnote1anc\"><sup>1<\/sup><\/a>\u00a0foi sobretudo social: trouxe mais austeridade, aprofundou a financeiriza\u00e7\u00e3o, agravou os efeitos nefastos do Estado neoliberal e precarizou as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, como j\u00e1 indicava o dossi\u00ea\u00a0<i>CoronaChoque: um v\u00edrus e o mundo<\/i>\u00a0(INSTITUTO TRICONTINENTAL\u2026, 2020a).<\/p>\n<p>Uma das \u00e1reas diretamente atingidas foi a educa\u00e7\u00e3o. Um ano e meio distantes do in\u00edcio da pandemia no Brasil, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel avaliar melhor alguns de seus efeitos. Certamente, o aspecto imediato mais vis\u00edvel da pandemia foi a s\u00fabita paralisa\u00e7\u00e3o das atividades presenciais, com o fechamento tempor\u00e1rio das escolas e universidades. Em decorr\u00eancia disso, foram institu\u00eddas de forma emergencial atividades de ensino remoto, em geral sem a infraestrutura tecnol\u00f3gica adequada, sem materiais did\u00e1ticos e sem uma pr\u00e9via forma\u00e7\u00e3o dos educadores. Tudo isso em um cen\u00e1rio de crise econ\u00f4mica e social em que as institui\u00e7\u00f5es de ensino vinham cumprindo um papel fundamental. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio contextualizar a multiplicidade de efeitos que o CoronaChoque teve numa realidade como a brasileira.<\/p>\n<p>Este dossi\u00ea \u00e9 resultado de uma pesquisa mais ampla intitulada\u00a0<i>CoronaChoque e financeiriza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o brasileira,<\/i>\u00a0desenvolvida pelo Front Instituto de Estudos Contempor\u00e2neos e pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social \u2013 escrit\u00f3rio do Brasil. O objetivo \u00e9 iniciar um balan\u00e7o dos efeitos do CoronaChoque sobre a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para isso, conversamos com tr\u00eas especialistas e militantes que atuam na \u00e1rea: Roberto Leher, professor titular da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o e do Programa de Po\u0301s-graduac\u0327a\u0303o em Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote2sym\" name=\"sdfootnote2anc\"><sup>2<\/sup><\/a>; Margot Johanna Capela Andras, professora de Qu\u00edmica, diretora do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro-RS)\u00a0e membra da coordena\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores de Estabelecimentos de Ensino (Fetee Sul)<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote3sym\" name=\"sdfootnote3anc\"><sup>3<\/sup><\/a>; e Bia Carvalho, formada em Pedagogia pela Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSC)<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote4sym\" name=\"sdfootnote4anc\"><sup>4<\/sup><\/a>\u00a0e militante do Levante Popular da Juventude<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote5sym\" name=\"sdfootnote5anc\"><sup>5<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Conversamos com eles sobre os diferentes efeitos da pandemia sobre a educa\u00e7\u00e3o brasileira. Em especial, procuramos compreender como se deu o avan\u00e7o da l\u00f3gica mercantil nesta atividade e como as grandes corpora\u00e7\u00f5es do setor se aproveitaram para tirar vantagens do contexto de crise. A partir disso, al\u00e9m da breve contextualiza\u00e7\u00e3o sobre o sistema de educa\u00e7\u00e3o no Brasil, mapeamos quatro grandes eixos tem\u00e1ticos que foram mais recorrentes nas falas dos entrevistados, e sistematizamos o texto nos seguintes t\u00f3picos: 1) Atua\u00e7\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es privadas; 2) Mudan\u00e7as no modelo de educa\u00e7\u00e3o; 3) Consequ\u00eancias para os trabalhadores do setor; 4) Desafio de um programa de luta.<\/p>\n<p><b>O sistema de educa\u00e7\u00e3o brasileiro<\/b><\/p>\n<p>No Brasil, os n\u00edveis de ensino envolvem uma rede complexa em que convivem institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas gratuitas e institui\u00e7\u00f5es privadas pagas. O regramento dessa rede foi consolidado pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional (LDB). A educa\u00e7\u00e3o infantil abarca os cinco primeiros anos de vida da crian\u00e7a, tendo car\u00e1ter obrigat\u00f3rio a partir dos quatro anos de idade. Ela se divide em creche (at\u00e9 os tr\u00eas anos) e pr\u00e9-escola (quatro e cinco anos) e \u00e9 de responsabilidade priorit\u00e1ria do poder municipal. Na sequ\u00eancia vem o ensino b\u00e1sico, composto por duas etapas: o ensino fundamental e o m\u00e9dio. O ensino fundamental tem car\u00e1ter obrigat\u00f3rio e universal a partir dos seis anos de idade. Ele tem um m\u00ednimo de nove anos de dura\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m \u00e9 de responsabilidade priorit\u00e1ria do poder municipal.<\/p>\n<p>Em seguida, vem o ensino m\u00e9dio, com tr\u00eas anos de dura\u00e7\u00e3o. Recentemente, em 2013, o ensino m\u00e9dio tamb\u00e9m ganhou car\u00e1ter obrigat\u00f3rio at\u00e9 pelo menos a maioridade legal (18 anos). A garantia dessa etapa \u00e9 de responsabilidade priorit\u00e1ria dos estados federados. No Brasil, junto ao ensino m\u00e9dio, \u00e9 poss\u00edvel cursar alguma modalidade de ensino t\u00e9cnico e profissionalizante. J\u00e1 o ensino superior \u00e9 de car\u00e1ter opcional e \u00e9 de responsabilidade principal do governo federal.<\/p>\n<p>As creches, escolas e universidades, especialmente as p\u00fablicas, t\u00eam m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es para os estudantes e suas fam\u00edlias: al\u00e9m do processo de aprendizagem, elas contribuem para o acesso a tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o espa\u00e7os de sociabilidade, de desenvolvimento de atividades desportivas e culturais, previnem viol\u00eancias, potencializam projetos de vida e, em muitos casos, garantem uma alimenta\u00e7\u00e3o adequada para crian\u00e7as e jovens. Mais do que qualquer outra coisa, com a pandemia ficou claro que, por mais prec\u00e1rias que possam ser, as institui\u00e7\u00f5es de ensino s\u00e3o fundamentais para a vida coletiva, especialmente para as camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em contrapartida, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a crise do sistema educacional brasileiro vem de longa data. Historicamente, a nossa realidade educacional \u00e9 marcada por graves desigualdades que incluem problemas como as dificuldades de acesso ao ensino, abandono precoce dos estudos, subfinanciamento e precariedade material das institui\u00e7\u00f5es, baixa cultura letrada e analfabetismo funcional, avan\u00e7o da mercantiliza\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a de uma estrutura dual dividida entre a rede p\u00fablica e a rede privada. Seria engano acreditar que tais problemas foram criados pela pandemia. Ao incidir sobre este cen\u00e1rio, o CoronaChoque contribuiu para agravar os problemas pr\u00e9-existentes, bem como para acentuar a desarticula\u00e7\u00e3o do sistema educacional como um todo.<\/p>\n<p><b>Atua\u00e7\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es privadas na educa\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>O Brasil tem aproximadamente 211 milh\u00f5es de habitantes. Destes, cerca de 8 milh\u00f5es s\u00e3o crian\u00e7as na educa\u00e7\u00e3o infantil, 33 milh\u00f5es s\u00e3o estudantes do ensino b\u00e1sico e 8 milh\u00f5es do ensino superior.\u00a0Uma das particularidades do nosso sistema educacional \u00e9 a presen\u00e7a de empresas privadas convivendo paralelamente ao setor p\u00fablico. Evidentemente, para o setor privado, estes milh\u00f5es de estudantes s\u00e3o vistos como um enorme potencial para crescer e lucrar.\u00a0Para se ter uma ideia, em 2019 cerca de 19% das matr\u00edculas do ensino b\u00e1sico eram em escolas privadas (INEP, 2019b), e 76% das matr\u00edculas em faculdades e universidades eram em institui\u00e7\u00f5es privadas de ensino (INEP, 2019a).<\/p>\n<p>Algumas das mais importantes empresas educacionais s\u00e3o Sociedades An\u00f4nimas com capital aberto em bolsa de valores. Um mapeamento desses grandes grupos pode ser encontrado na cartilha\u00a0<i>A educa\u00e7\u00e3o brasileira na bolsa de valores<\/i>\u00a0(INSTITUTO TRICONTINENTAL\u2026,2020b), com destaque para as corpora\u00e7\u00f5es Cogna, Yduqs, Ser Educacional, \u00c2nima e Bahema.<\/p>\n<p>Por estarem vinculadas \u00e0 din\u00e2mica financeira, tais corpora\u00e7\u00f5es reproduzem os interesses dos investidores, sejam eles pessoas ou fundos de investimentos, e submetendo a qualidade do ensino ofertado \u00e0 l\u00f3gica especulativa e \u00e0s peri\u00f3dicas crises do mercado de capitais. Essas empresas atuam em diferentes n\u00edveis, controlando escolas de ensino b\u00e1sico, faculdades e universidades, escolas de idiomas, cursos preparat\u00f3rios para concursos, vendendo m\u00e9todos e plataformas digitais de ensino, bem como comercializando livros e materiais did\u00e1ticos por meio de suas editoras.<\/p>\n<p>Com o advento da pandemia, essas corpora\u00e7\u00f5es viram uma oportunidade\u00a0excepcional para cortar custos e ampliar mercados. Evidentemente, isso se deu em grande parte devido a uma pol\u00edtica sistem\u00e1tica de precariza\u00e7\u00e3o do ensino p\u00fablico liderada pelo governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Segundo o professor Roberto Leher, ficou muito evidente que, no contexto da pandemia, o Estado brasileiro demonstrou um enorme afastamento e uma grande incapacidade de produzir respostas objetivas para um problema que, em diversos pa\u00edses, foi enfrentado pelo menos de forma satisfat\u00f3ria. Ele cita como exemplo a aus\u00eancia de uma pol\u00edtica de universaliza\u00e7\u00e3o do acesso p\u00fablico e gratuito \u00e0 internet. \u201cN\u00f3s vimos que, ao contr\u00e1rio, infelizmente, os recursos do Fundo de Universaliza\u00e7\u00e3o dos Servi\u00e7os de Telecomunica\u00e7\u00f5es (FUST), que \u00e9 um fundo muito robusto, foram vetados por Bolsonaro. Isso produziu uma desigualdade que \u00e9 de dif\u00edcil qualifica\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 brutal, \u00e9 inacredit\u00e1vel que num momento t\u00e3o \u00e1spero n\u00f3s tivemos seguramente mais da metade dos estudantes brasileiros \u2013 na ordem de 30 milh\u00f5es de estudantes nos diversos n\u00edveis \u2013 sem efetivamente ter condi\u00e7\u00f5es de acompanhar as intera\u00e7\u00f5es e os ambientes virtuais de aprendizagem\u201d.<\/p>\n<p>Leher lembra, ainda, que al\u00e9m da desigualdade e precariedade no acesso a tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o houve nenhum planejamento de retorno para as atividades presenciais assim que o controle da pandemia permitisse. Isso exigiria um investimento consider\u00e1vel na infraestrutura das escolas, o que inclui coisas b\u00e1sicas como reformas para oferecer ventila\u00e7\u00e3o adequada nas salas de aula, bebedouros e banheiros.<\/p>\n<p>Apenas para se ter uma ideia da realidade, dados do Censo Escolar de 2020 (OLIVEIRA, 2021) mostram que cerca de 20% das escolas n\u00e3o tinham internet adequada, 26% n\u00e3o tinham coleta de esgoto e 3,2% n\u00e3o tinham banheiro. Al\u00e9m de ser um problema hist\u00f3rico antigo no Brasil, o baixo investimento em educa\u00e7\u00e3o se agravou nos \u00faltimos anos com a pol\u00edtica de austeridade fiscal implementada a partir da Emenda Constitucional do Teto de Gastos aprovada em 2016, que limita os investimentos p\u00fablicos para os pr\u00f3ximos 20 anos.<\/p>\n<p>Com base neste contexto, Roberto Leher compara a resposta do Brasil com a dos Estados Unidos, que em 2020 alocou cerca de R$ 122 bilh\u00f5es para a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, enquanto no Brasil o \u00fanico projeto apresentado no Congresso por alguns deputados previa o valor de R$ 40 anuais por aluno, o que obviamente n\u00e3o permitiria a infraestrutura adequada.<\/p>\n<p>Foi neste cen\u00e1rio de esvaziamento da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica que os grupos privados viram novas oportunidades de neg\u00f3cios. De fato, a pandemia acelerou um processo que j\u00e1 estava em curso, dando continuidade \u00e0 expans\u00e3o desses grupos por meio de aquisi\u00e7\u00f5es de empresas menores.<\/p>\n<p>Margot Andras relata como isso vem ocorrendo no Estado do Rio Grande do Sul, com muitos grupos do centro do pa\u00eds chegando nessa regi\u00e3o e comprando empresas menores. Cita o exemplo do grupo Raiz Educa\u00e7\u00e3o, que comprou as escolas dos grupos Unificado e Leonardo Da Vinci, e observa que o ensino superior tamb\u00e9m d\u00e1 um retorno muito grande para essas empresas. \u201cAqui no Rio Grande do Sul, a Laureate comprou a UniRitter, ainda antes da pandemia. H\u00e1 grupos vindos do Chile, e principalmente companhias S.A. [Sociedades An\u00f4nimas] que ningu\u00e9m sabe quem s\u00e3o os donos, s\u00e3o acionistas, e isso est\u00e1 entrando fortemente na educa\u00e7\u00e3o privada\u201d.<\/p>\n<p>Margot Andras ressalta que, para quem tem dinheiro, a pandemia \u00e9 uma oportunidade para abocanhar empresas que est\u00e3o com problemas. E isso est\u00e1 acontecendo em todo o pa\u00eds. Uma das mais recentes atividades que movimentou os grandes grupos educacionais no Brasil foi a venda da rede universit\u00e1ria Laureate Brasil, at\u00e9 ent\u00e3o controlada por uma companhia estadunidense. Depois de intensas disputas com outros grupos, a \u00c2nima abocanhou a Laureate em fins de 2020, numa opera\u00e7\u00e3o que envolveu cerca de R$ 4,4 bilh\u00f5es (RYNGELBLUM, 2021).<\/p>\n<p>As chamadas Parcerias P\u00fablico-Privadas tamb\u00e9m avan\u00e7aram muito nesse per\u00edodo. Trata-se de um mecanismo em que os governos contratam servi\u00e7os de empresas particulares. Esta modalidade \u00e9 muito variada. Ela envolve acordos firmados entre estados e munic\u00edpios com empresas para a implanta\u00e7\u00e3o de projetos de aprendizagem, programas did\u00e1ticos e plataformas de ensino.<\/p>\n<p><a name=\"docs-internal-guid-7eccb181-7fff-9473-b0\"><\/a>Outra modalidade de expans\u00e3o do setor privado que se consolidou no Brasil \u00e9 a compra de vagas em institui\u00e7\u00f5es privadas por parte do poder p\u00fablico. As experi\u00eancias mais conhecidas s\u00e3o o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa Universidade Para Todos (Prouni).\u00a0Estes programas impulsionados pelos governos de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff (2011-2016) ficaram muito conhecidos\u00a0por democratizar o acesso de jovens afrodescendentes, de fam\u00edlias pobres e\/ou oriundos de escolas p\u00fablicas \u00e0s faculdades e universidades privadas, mas tamb\u00e9m s\u00e3o muito criticados por terem repassado recursos p\u00fablicos para institui\u00e7\u00f5es privadas. Neste sentido, Roberto Leher recorda que, a partir desses programas, o fundo p\u00fablico foi utilizado para lastrear a expans\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es de capital aberto na esfera financeira; foi justamente nos anos em que mais recursos p\u00fablicos foram investidos no Fies e no Prouni que essas empresas mais cresceram.<\/p>\n<p>Agora, outras propostas deste tipo avan\u00e7am tamb\u00e9m nas esferas estadual e municipal. Isso se explica, segundo Margot Andras, \u201cporque a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 o \u00fanico setor que n\u00e3o teve muita queda de receita. Por qu\u00ea? Pela obrigatoriedade de as crian\u00e7as ficarem na escola at\u00e9 o final do ensino m\u00e9dio, ou pelo menos, at\u00e9 completarem 18 anos de idade. Ent\u00e3o isso \u00e9 uma oportunidade para o empresariado. Eles acharam um nicho de mercado\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Ela se refere aos programas de\u00a0<i>voucher<\/i>, em que os governos municipais compram vagas em institui\u00e7\u00f5es privadas da educa\u00e7\u00e3o infantil e do ensino b\u00e1sico em vez de abrirem novas vagas nas escolas p\u00fablicas. Agora, o governo Bolsonaro pretende vincular legalmente a distribui\u00e7\u00e3o desses\u00a0<i>vouchers<\/i>\u00a0aos benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia, programa de distribui\u00e7\u00e3o de renda para os setores mais pobres da popula\u00e7\u00e3o brasileira (MELLO, 2021).<\/p>\n<p>Ou seja, com a deprecia\u00e7\u00e3o estrutural do ensino p\u00fablico e com sua quase paralisa\u00e7\u00e3o em decorr\u00eancia da pandemia, os grupos educacionais privados viram novas oportunidade para abocanhar uma parcela maior do mercado, intensificando processos que destroem a concep\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o como direito e a transformam em mercadoria.<\/p>\n<p><b>Mudan\u00e7as no modelo de educa\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>A ofensiva do capital sobre a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve in\u00edcio na pandemia, mas ganhou um importante impulso com ela. Um dos fatores que favoreceram os grupos corporativos foi o cancelamento das aulas presenciais e a instaura\u00e7\u00e3o das atividades remotas que s\u00e3o completamente dependentes do uso de tecnologias digitais.<\/p>\n<p>Deve-se considerar que este um ano e meio sem aulas presenciais significou um \u201capag\u00e3o\u201d na aprendizagem de um grande n\u00famero de crian\u00e7as e jovens. Um dos motivos foi a evas\u00e3o escolar. Estudo da Unicef mostra que, no final de 2020, cerca de 1,5 milh\u00f5es de crian\u00e7as e adolescentes tinham abandonado os estudos e 3,7 milh\u00f5es se encontravam formalmente matriculados, mas n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de acessarem as aulas remotas (UNICEF, 2021). Este cen\u00e1rio representa um retrocesso hist\u00f3rico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o do ensino b\u00e1sico no Brasil. \u00c9 dif\u00edcil de calcular os efeitos disso para a aprendizagem e a sociabilidade das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A possibilidade de acesso \u00e0s tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o tornou-se pe\u00e7a-chave para a democratiza\u00e7\u00e3o do ensino. Assim que iniciou a pandemia, os grupos corporativos, que j\u00e1 vinham acumulando experi\u00eancia em modalidades de ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, com o desenvolvimento de plataformas virtuais, conseguiram fazer uma convers\u00e3o mais r\u00e1pida \u00e0s atividades remotas. \u201cO setor privado, por sua vez, logrou uma log\u00edstica de aulas virtuais muito mais acentuada do que no setor p\u00fablico\u201d, afirma Roberto Leher. As aulas remotas foram muito mais rapidamente iniciadas no setor privado. No setor p\u00fablico isso foi muito mais lento e tortuoso.<\/p>\n<p>Para Bia Carvalho, h\u00e1 tamb\u00e9m raz\u00f5es econ\u00f4micas para este investimento pesado na educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia: \u201cPara esses empres\u00e1rios, a educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia \u00e9 mais lucrativa, porque permite cortar uma parte dos gastos e acessar um n\u00famero muito maior de alunos. Ent\u00e3o, do ponto de vista da educa\u00e7\u00e3o como mercadoria, em que eles v\u00e3o l\u00e1 vender aulas, a educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia faz muito mais sentido\u201d.<\/p>\n<p>Exemplo desse movimento \u00e9 o crescimento das chamadas\u00a0<i>EdTechs<\/i>, empresas que investem no desenvolvimento de ferramentas tecnol\u00f3gicas voltadas para a educa\u00e7\u00e3o. A m\u00eddia corporativa tenta passar a ideia de que essas empresas s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es originais de jovens empreendedores, com esp\u00edrito inovador e aventureiro que fundam\u00a0<i>startups<\/i>\u00a0para desenvolver plataformas virtuais de ensino, quando na verdade as grandes corpora\u00e7\u00f5es \u00e9 que est\u00e3o impulsionando esse processo.<\/p>\n<p>Ou seja, as corpora\u00e7\u00f5es do setor fazem um forte apelo ideol\u00f3gico para mostrar que a educa\u00e7\u00e3o se encontra em descompasso com o desenvolvimento tecnol\u00f3gico, e que seu futuro depende do uso intensivo de ferramentas digitais. Esse discurso passa a ideia de que a cr\u00edtica ao atual modelo de ensino \u00e0 dist\u00e2ncia \u00e9 uma postura retr\u00f3grada e conservadora.<\/p>\n<p>Nas palavras de Roberto Leher, \u201cn\u00f3s n\u00e3o podemos nos esquecer de que eles [os empres\u00e1rios] est\u00e3o fortemente lastreados numa ideologia, particularmente agu\u00e7ada na globaliza\u00e7\u00e3o, de que \u00e9 a tecnologia que move o tempo hist\u00f3rico. Ela nos remete \u00e0 ideologia do progresso, de que o porvir das na\u00e7\u00f5es est\u00e1 relacionado \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e que a educa\u00e7\u00e3o estava em descompasso com esse circuito. A grande cr\u00edtica que eles vinham fazendo \u00e9 que a educa\u00e7\u00e3o, sobretudo a p\u00fablica, mas tamb\u00e9m a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica privada, ainda adotava um modelo escolar que tem a ver com o s\u00e9culo XX, \u00e9 anal\u00f3gica, que teria que ser superada. E agora encontraram uma forma de, sendo um pouco rude, enfiar o p\u00e9 na porta das escolas\u201d.<\/p>\n<p>E acrescenta que tudo isso est\u00e1 vinculado \u00e0 perspectiva de que o conhecimento pode ser quantificado objetivamente, por meio de unidades discretas chamadas de compet\u00eancias, de car\u00e1ter cognitivo e emocional. Neste sentido, as tecnologias seriam formas de entregar essas compet\u00eancias para as crian\u00e7as e jovens, e o professor seria basicamente um operador das tecnologias.<\/p>\n<p>Se no ensino superior o modelo propagado \u00e9 o da educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, no ensino b\u00e1sico \u00e9 o modo h\u00edbrido que est\u00e1 avan\u00e7ando, combinando aulas presenciais e intera\u00e7\u00f5es virtuais. Um dos sinais desta tend\u00eancia \u00e9 a funda\u00e7\u00e3o de uma nova associa\u00e7\u00e3o empresarial no Brasil que defende a amplia\u00e7\u00e3o do modelo h\u00edbrido no ensino b\u00e1sico<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote6sym\" name=\"sdfootnote6anc\"><sup>6<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas tamb\u00e9m se tornaram um potencial mercado para o consumo das plataformas digitais. Um outro problema chocante, acentua Roberto Leher, foi n\u00e3o ter havido um apoio do Estado para que plataformas p\u00fablicas pudessem ser disponibilizadas para os sistemas de ensino, seja para prefeituras, estados ou universidades, que ficaram muito fortemente ref\u00e9ns das corpora\u00e7\u00f5es. \u201cFicou evidente que sem as plataformas privadas dessas grandes corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o seria poss\u00edvel manter intera\u00e7\u00f5es virtuais no sistema educacional brasileiro. E \u00e9 importante lembrar que isso n\u00e3o decorre de uma aus\u00eancia de conhecimento tecnol\u00f3gico, de formas de desenvolvimento de plataformas p\u00fablicas. N\u00f3s ter\u00edamos condi\u00e7\u00f5es de aperfei\u00e7oar plataformas existentes, que s\u00e3o sistemas abertos e que n\u00e3o est\u00e3o sob o controle de corpora\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo sentido, Margot Andras questiona: \u201co governo do Uruguai n\u00e3o distribuiu\u00a0<i>Tablets<\/i>? Ent\u00e3o, aqui deveriam distribuir pelo menos celulares na escola p\u00fablica para quem n\u00e3o tem acesso. Para que se possa usar essa ferramenta dentro do processo educacional\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de n\u00e3o formular nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica positiva nesse sentido, o governo de Jair Bolsonaro perseguiu ideologicamente professores, estudantes e servidores p\u00fablicos nas institui\u00e7\u00f5es de ensino. Em contrapartida, ele impulsionou um programa para colocar escolas p\u00fablicas sob a gest\u00e3o dos militares (as chamadas escolas c\u00edvico-militares) e trabalha para aprovar uma lei que regulamenta o ensino domiciliar (<i>homeschooling<\/i>) no Congresso.<\/p>\n<p>Esta combina\u00e7\u00e3o de fatores resultou num cen\u00e1rio verdadeiramente desastroso. Para al\u00e9m das dificuldades materiais e tecnol\u00f3gicas que produziram uma enorme evas\u00e3o de alunos, o cen\u00e1rio da pandemia teve impactos pedag\u00f3gicos e did\u00e1ticos de grandes propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Roberto Leher avalia que \u00e9 comum ao setor p\u00fablico e privado uma enorme dificuldade de pensar de uma forma mais altiva e menos formatada a ideia de intera\u00e7\u00e3o virtual. \u201cN\u00f3s acabamos nos adaptando a uma l\u00f3gica de transpor aulas presenciais para aulas virtuais. E evidentemente isso n\u00e3o era uma transposi\u00e7\u00e3o que pudesse ser feita de maneira simples. Foram muito poucas as escolas e universidades que tentaram intera\u00e7\u00f5es mais livres, no sentido de c\u00e1tedras livres nas grandes universidades, discuss\u00f5es de grandes problemas, grandes temas, estudos de aprofundamento, grupos de estudo etc\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo sentido, Bia Carvalho afirma que o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia carrega uma concep\u00e7\u00e3o tecnicista que tem interesse em converter escolas e universidades unicamente em espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o para o mercado de trabalho. Essa perspectiva vai ganhando for\u00e7a porque uma forma\u00e7\u00e3o mais ampla, de forma\u00e7\u00e3o de valores, de conhecimento e de troca de experi\u00eancias \u00e9 muito mais dif\u00edcil de ser colocada em pr\u00e1tica \u00e0 dist\u00e2ncia. Assim, continua Bia, a educa\u00e7\u00e3o se reduz \u00e0 aula, \u201co que \u00e9 muito ruim, pois a viv\u00eancia dentro da escola ou da universidade propicia experi\u00eancias que o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia n\u00e3o permite. Diminui muito a intera\u00e7\u00e3o com os professores, al\u00e9m de toda a perda da viv\u00eancia fora da sala de aula, que \u00e9 imensur\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Como vemos, ocorre que o ensino por plataformas digitais, que se tornou uma necessidade emergencial no contexto de pandemia, \u00e9 apresentado pelo setor empresarial como uma quimera, como se representasse uma nova etapa no desenvolvimento positivo da educa\u00e7\u00e3o. O CoronaChoque funcionou como uma esp\u00e9cie de catalisador de mudan\u00e7as que j\u00e1 estavam em curso no sentido de um tipo de educa\u00e7\u00e3o massificada e estandardizada, em conformidade com as necessidades e os valores do capitalismo dependente brasileiro.<\/p>\n<p>Apesar disso, \u00e9 curioso observar que ao longo da pandemia as corpora\u00e7\u00f5es educacionais pressionaram sistematicamente o governo brasileiro pelo retorno das aulas presenciais, ignorando os riscos \u00e0 sa\u00fade de estudantes e profissionais da educa\u00e7\u00e3o.\u00a0Isto foi feito em grande medida pelas associa\u00e7\u00f5es empresariais do setor em conformidade com os interesses pol\u00edticos do governo Bolsonaro<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote7sym\" name=\"sdfootnote7anc\"><sup>7<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>De acordo com Margot Andras, esse comportamento aparentemente contradit\u00f3rio do empresariado se explica porque, embora o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia seja apresentado como a grande salva\u00e7\u00e3o, as atividades presenciais continuam sendo a \u00fanica garantia de ganhos num contexto de crise e empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o. \u201cAcontece que muitas escolas deram descontos de mensalidade para a fam\u00edlia enquanto houvesse o ensino n\u00e3o-presencial. A\u00ed \u00e9 a quest\u00e3o do dinheiro. O interesse do empresariado \u00e9 esse: \u2018Eu preciso abrir a escola, porque esses alunos voltando eu vou poder cobrar o que eu cobrava antes\u2019\u201d.<\/p>\n<p>A esse argumento, Bia Carvalho acrescenta que mesmo com toda a propaganda, o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia n\u00e3o foi capaz de tomar completamente o lugar e as fun\u00e7\u00f5es que o ensino presencial desempenha. \u201cOs empres\u00e1rios n\u00e3o conseguiram emplacar ainda o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia como solu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe convencimento da sociedade em rela\u00e7\u00e3o a isso. Eles devem ter percebido que uma parte significativa dos estudantes estavam incomodados com o ensino remoto. Talvez tenha havido uma evas\u00e3o por causa disso e que n\u00e3o ocorreria voltando \u00e0s aulas presenciais\u201d.<\/p>\n<p>O resultado dessas press\u00f5es contradit\u00f3rias foi um movimento de idas e vindas no retorno \u00e0s atividades presenciais desde o segundo semestre de 2020. Isto foi feito de maneira descentralizada e desordenada no territ\u00f3rio nacional, ao sabor da opini\u00e3o dos governantes locais, e sem os devidos cuidados e medidas sanit\u00e1rias preventivas.<\/p>\n<p><b>Consequ\u00eancias para os trabalhadores em educa\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>O CoronaChoque tamb\u00e9m teve efeitos importantes sobre o mundo do trabalho. Como ocorreu em outras atividades, o exerc\u00edcio da doc\u00eancia passou a ser realizado em sua maioria a partir da casa dos trabalhadores, no formato\u00a0<i>home office<\/i>. Segundo dados do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese), cerca de 10% da for\u00e7a de trabalho brasileira ocupada desempenhava atividades em\u00a0<i>home office<\/i>\u00a0em julho de 2020 (DIEESE, 2020). Por\u00e9m quando observamos os dados relativos aos educadores a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bem diferente. Dados do PNAD Covid-19 (IBGE, 2020) mostram que mais de 96% dos professores trabalharam em\u00a0<i>home office\u00a0<\/i>entre maio e novembro de 2020 (IBGE, 2020).<\/p>\n<p>Margot Andras relata que a maior parte dos educadores que procura o sindicato reclama do aumento de carga de trabalho e do cansa\u00e7o. \u201cEst\u00e1 todo mundo esgotado, todo mundo esgotado. Porque a gente n\u00e3o tem mais o nosso ambiente de trabalho delimitado. Temos a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos sempre trabalhando. Acho que isso est\u00e1 acontecendo com todo mundo. A gente est\u00e1 preso no trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Ela acrescenta ainda que h\u00e1 um esgotamento f\u00edsico e emocional generalizado entre os colegas e que, em virtude disso, quem tem alguma alternativa est\u00e1 procurando outro tipo de trabalho ou mudando de profiss\u00e3o. Mas n\u00e3o se trata s\u00f3 de um efeito psicol\u00f3gico. Na verdade, isso \u00e9 parte de uma mudan\u00e7a qualitativa na forma de trabalho, porque o tempo e o espa\u00e7o do trabalho se modificaram e os trabalhadores da \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o sentiram isso fortemente.<\/p>\n<p>Margot afirma ainda que h\u00e1 um estresse generalizado: \u201co ac\u00famulo de trabalho aumentou muito, porque com o trabalho remoto os professores tiveram que disponibilizar mais tempo, entrar em grupos de\u00a0<i>whatsapp<\/i>\u00a0para responder aos alunos. E isso est\u00e1 acontecendo fora do hor\u00e1rio de trabalho. Agora, com o retorno das aulas presenciais, h\u00e1 professores trabalhando em dobro, porque al\u00e9m das aulas presenciais eles est\u00e3o tendo que acompanhar os alunos em aula remota. E a gente n\u00e3o consegue fazer com que as escolas, os patr\u00f5es, entendam que isso continua sendo trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Ou seja, o trabalho do educador deixou de estar localizado num lugar \u2013 a escola \u2013 e deixou de ter uma temporalidade delimitada \u2013 a aula. Com isso, o trabalho tornou-se difuso e quase permanente, em conson\u00e2ncia com o capitalismo de plataforma que avan\u00e7a sobre diferentes atividades sociais, dentre elas a educa\u00e7\u00e3o. Ou seja, a pandemia representou a intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, roubando parte do tempo de vida dos educadores. Esse tempo n\u00e3o contabilizado na jornada di\u00e1ria \u2013 e, portanto, n\u00e3o pago \u2013 garante um lucro extraordin\u00e1rio para os empres\u00e1rios do setor. E essa mudan\u00e7a parece que veio para ficar, pois mesmo com o retorno das aulas presenciais, as plataformas de ensino e o teletrabalho continuar\u00e3o presentes no quotidiano dos professores.<\/p>\n<p>Evidentemente, isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque os trabalhadores temem o desemprego. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) mostram que a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o cresceu acentuadamente do in\u00edcio de 2020 at\u00e9 o momento atual, batendo novos recordes na s\u00e9rie hist\u00f3rica (IBGE, 2012-2021). Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), de mar\u00e7o a setembro de 2020, cerca de 36 mil vagas de professores foram fechadas no pa\u00eds (MAZZA; AMOROZO; BUONO, 2020). Contribuiu tamb\u00e9m para isso a reforma trabalhista aprovada pelo Congresso brasileiro em 2017, durante o governo Michel Temer (MDB), que retirou direitos e flexibilizou as rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia disso, hoje muitos professores trabalham por meio de contratos tempor\u00e1rios ou contratos de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os que n\u00e3o caracterizam um v\u00ednculo de emprego formal entre o trabalhador e a empresa contratante. Nesse contexto, o trabalho geralmente \u00e9 mais intenso, a remunera\u00e7\u00e3o \u00e9 menor e n\u00e3o h\u00e1 qualquer garantia de direitos trabalhistas ou de manuten\u00e7\u00e3o do emprego.<\/p>\n<p>H\u00e1 um desespero muito grande dos professores pela manuten\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho e dos que tiveram sua renda muito reduzida, relata Margot Andras. \u201cOs professores de aulas especializadas nas escolas, aquele cara que dava no contraturno aula de futebol, por exemplo. Ele n\u00e3o tem mais escolinha de futebol. O que as escolas est\u00e3o fazendo? Reduzindo a carga hor\u00e1ria dele. A mesma coisa para o professor que dava m\u00fasica no contraturno. Os empres\u00e1rios dizem: \u2018Voc\u00ea n\u00e3o vive com isso? Sinto muito! N\u00e3o tem aluno fazendo escola de m\u00fasica\u2019. Claro, como tem um\u00a0<i>delay<\/i>\u00a0na internet, isso dificulta o ensino de m\u00fasica por meio remoto. Ent\u00e3o, eles reduzem a carga hor\u00e1ria. E, no ensino superior, que tem autoriza\u00e7\u00e3o para reduzir a carga hor\u00e1ria com o fechamento de turmas, a grande maioria das institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o juntando turmas\u201d.<\/p>\n<p>No contexto da pandemia, se tornaram comuns not\u00edcias de que grupos educacionais estavam reduzindo seu quadro de professores. Em alguns casos, como relata o professor Rodrigo Mota Amarante, com 24 anos de carreira no magist\u00e9rio, a demiss\u00e3o chegou inesperadamente como uma mensagem\u00a0<i>pop-up<\/i>\u00a0na tela do computador (OLIVEIRA, 2020).<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que fica mais claro como as grandes corpora\u00e7\u00f5es se utilizam da tecnologia para intensificar a explora\u00e7\u00e3o do trabalho. As modalidades de ensino \u00e0 dist\u00e2ncia obrigam os professores a gravarem suas aulas e as disponibilizarem nas plataformas de ensino. Bia Carvalho relata como isso est\u00e1 ocorrendo: \u201cMesmo presencialmente, essas institui\u00e7\u00f5es j\u00e1 colocavam umas 100 pessoas em sala de aula. Agora, \u00e0 dist\u00e2ncia, eles fazem uma aula com mil pessoas, do Brasil inteiro. A sala de aula se restringe basicamente a acessar um conte\u00fado\u201d.<\/p>\n<p>Esta nova forma de explora\u00e7\u00e3o vem acompanhada da expropria\u00e7\u00e3o do conhecimento. Nesse sentido, Roberto Leher alerta que quando o conhecimento est\u00e1 sob o controle pol\u00edtico-particularista de governos ou de grandes corpora\u00e7\u00f5es, \u201cn\u00f3s temos uma perda de soberania e de autonomia did\u00e1tico-cient\u00edfica, do pluralismo pedag\u00f3gico, que s\u00e3o princ\u00edpios constitucionais que est\u00e3o na raiz da liberdade de c\u00e1tedra. Com isso, n\u00f3s estamos institucionalizando a aus\u00eancia de liberdade de c\u00e1tedra\u201d.<\/p>\n<p>Um exemplo dr\u00e1stico desse tipo de expropria\u00e7\u00e3o foi denunciado em abril de 2020, pouco tempo depois do in\u00edcio da pandemia no Brasil. Professores vinculados ao grupo Laureate Brasil, companhia que controla mais de 11 institui\u00e7\u00f5es de ensino no pa\u00eds, denunciaram que a empresa tinha come\u00e7ado a operar um sistema autom\u00e1tico de corre\u00e7\u00e3o de provas. Tratava-se de um sistema de intelig\u00eancia artificial (<i>machine learning<\/i>) capaz de reconhecer padr\u00f5es de texto escrito e que estava sendo aplicado para corrigir provas dissertativas (DOMENICI, 2020). Tudo isso sem o conhecimento dos estudantes.<\/p>\n<p>Um outro tipo de restri\u00e7\u00e3o da liberdade de c\u00e1tedra tem motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Nos \u00faltimos anos, a direita brasileira vem perseguindo professores que desenvolvem um ensino cr\u00edtico por meio de movimentos conservadores como o \u201cEscola Sem Partido\u201d, ou mesmo com o uso direto do aparato repressivo policial e judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>No Brasil atual, h\u00e1 uma converg\u00eancia nefasta entre o tipo de ensino que se tornou predominante, especialmente nas institui\u00e7\u00f5es privadas, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho dos educadores e o perfil de profissional que est\u00e1 sendo formado por essas institui\u00e7\u00f5es. Na verdade, cada vez mais a fun\u00e7\u00e3o do sistema educacional brasileiro \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho barata e prec\u00e1ria para um pa\u00eds em condi\u00e7\u00e3o de subdesenvolvimento e depend\u00eancia. Ou seja, num pa\u00eds que se destaca por ser uma plataforma exportadora de\u00a0<i>commodities<\/i>\u00a0em patente processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, e onde a for\u00e7a de trabalho se tornou uma mercadoria barata, com baixa qualifica\u00e7\u00e3o e destitu\u00edda de direitos sociais e trabalhistas, faz todo o sentido uma educa\u00e7\u00e3o deste tipo.<\/p>\n<p><b>O que fazer<\/b><\/p>\n<p>A classe trabalhadora, as organiza\u00e7\u00f5es da esquerda e as for\u00e7as progressistas sofreram profundas derrotas nos \u00faltimos anos e n\u00e3o conseguiram sair da defensiva. No entanto, a luta contra o governo Bolsonaro e suas medidas impopulares, assim como a aproxima\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es nacionais de 2022, recolocam em pauta a necessidade de se construir um projeto alternativo para a educa\u00e7\u00e3o brasileira. Pensando nisso, perguntamos a nossos entrevistados quais seriam os principais pontos de um programa voltado para a transforma\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eles destacaram tr\u00eas quest\u00f5es-chave a serem enfrentadas. A primeira diz respeito \u00e0 disputa mais ampla de projeto educacional. A pandemia abriu essa disputa sobre para que serve mesmo a educa\u00e7\u00e3o, e nesse tema n\u00f3s estamos perdendo, afirma Bia Carvalho. \u201cA situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o grave que a perspectiva do que as pessoas podem alcan\u00e7ar na vida a partir da educa\u00e7\u00e3o foi diminuindo. Isso n\u00e3o \u00e9 algo que vem apenas da educa\u00e7\u00e3o, vem tamb\u00e9m da crise econ\u00f4mica que for\u00e7a as fam\u00edlias a definirem prioridade de gastos, de dedica\u00e7\u00e3o de tempo etc. Acho que a pandemia traz um impacto tamb\u00e9m no acesso ao ensino superior. A gente vai come\u00e7ar a ver faculdades e universidades muito mais elitizadas nos pr\u00f3ximos anos. E do ponto de vista do movimento estudantil, a viv\u00eancia da universidade, o envolvimento dos estudantes que t\u00eam um papel importante nas lutas e mobiliza\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o coisas que a gente vai perder. Porque tem gente que entrou na universidade faz dois anos e nunca pisou l\u00e1. S\u00e3o processos dif\u00edceis de retomar\u201d.<\/p>\n<p>Frente a isso, ela defende a import\u00e2ncia de superar um modelo educacional voltado para a forma\u00e7\u00e3o de for\u00e7a de trabalho e pensar numa forma\u00e7\u00e3o mais ampla: \u201cUm programa popular para a educa\u00e7\u00e3o parte do pressuposto do que a gente entende que deve ser a educa\u00e7\u00e3o e que papel ela deve cumprir para a sociedade. Temos que afirmar que a educa\u00e7\u00e3o vai para al\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o para o mercado de trabalho. Entender a educa\u00e7\u00e3o como um processo de forma\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e pol\u00edtica, esse \u00e9 um primeiro ponto importante\u201d.<\/p>\n<p>Um novo modelo educacional depende tamb\u00e9m de novas concep\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas. Segundo Margot Andras, um aspecto positivo dessa conjuntura \u00e9 que as dificuldades vividas durante a pandemia ajudaram a esclarecer o que funciona e o que n\u00e3o funciona na educa\u00e7\u00e3o. \u201cEssa nova escola vai ter que ter uma aula presencial mais diversificada, mais ligada \u00e0 realidade dos estudantes. Porque os professores se deram conta de que aquela aula s\u00f3 centrada no conte\u00fado n\u00e3o funciona. Quem ainda n\u00e3o tinha se dado conta disso agora viu que n\u00e3o tem outro jeito\u201d. Por isso, ela defende que um novo modelo educacional deve se abrir para outros aspectos da vida al\u00e9m dos tradicionais conte\u00fados da sala de aula, e exigir\u00e1 um maior grau de autonomia dos estudantes.<\/p>\n<p>No mesmo sentido, Roberto Leher argumenta que \u201ccada vez mais as crian\u00e7as e jovens querem estar numa escola com a vibra\u00e7\u00e3o da vida. N\u00e3o querem ter uma escola burocratizada, de ensino padronizado, \u201cMcDonaldizado\u201d, de cartilhas\u2026 Isso n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com a vida de crian\u00e7as e jovens hoje\u201d.<\/p>\n<p>O segundo aspecto mencionado \u00e9 a necessidade de recupera\u00e7\u00e3o dos investimentos na infraestrutura educacional. N\u00f3s n\u00e3o podemos naturalizar a ideia de que \u00e9 poss\u00edvel manter um sistema p\u00fablico robusto, que responda \u00e0s demandas sociais, aos problemas civilizat\u00f3rios, tecnol\u00f3gicos, cient\u00edficos, art\u00edsticos e culturais sem fazer o que outros pa\u00edses fizeram, diz Roberto Leher, ao se referir \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o de uma rede nacional p\u00fablica. Ele defende que \u00e9 preciso garantir a aloca\u00e7\u00e3o de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A meta de se alocar um investimento de 10% do PIB na educa\u00e7\u00e3o foi aprovada pelo Congresso brasileiro em 2012, e a previs\u00e3o \u00e9 que ela seja atingida em 2024. Por\u00e9m, membros do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o do governo Bolsonaro j\u00e1 manifestaram a inten\u00e7\u00e3o de reduzir essa meta (TOKARNIA, 2019).<\/p>\n<p>A disputa de projeto educacional deve incluir a atualiza\u00e7\u00e3o e a democratiza\u00e7\u00e3o da infraestrutura tecnol\u00f3gica, defende Margot Andras. Afinal, \u00e9 fundamental que os estudantes tenham internet nas escolas e possam utilizar para aprendizado as ferramentas de comunica\u00e7\u00e3o digital. Porque ficou bem claro durante a pandemia que essas ferramentas podem ajudar na educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, a valoriza\u00e7\u00e3o dos professores \u00e9 condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para a transforma\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o brasileira. Nesse ponto, \u00e9 fundamental criar regras capazes de regular as novas formas de trabalho que est\u00e3o surgindo com o uso das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o. Margot Andras insiste que \u00e9 necess\u00e1rio \u201cconsiderar \u2018trabalho\u2019 tudo o que o professor faz, e remunerar. Essa \u00e9 uma pauta desse programa. Tem que ter valoriza\u00e7\u00e3o, tem que ter todo o trabalho remunerado e tem que estabelecer o limite de utiliza\u00e7\u00e3o dessas ferramentas digitais\u201d.<\/p>\n<p>Outra parte desse processo de valoriza\u00e7\u00e3o depende da forma\u00e7\u00e3o continuada dos professores e da consolida\u00e7\u00e3o da carreira docente, especialmente no setor p\u00fablico. Na opini\u00e3o de Roberto Leher, n\u00e3o faz sentido que um professor ou uma professora que trabalha num munic\u00edpio A receba X, enquanto outra professora que trabalha no munic\u00edpio B recebe um sal\u00e1rio Y, menor que X, tendo a mesma qualifica\u00e7\u00e3o e trabalhando o mesmo tempo. Deve ser feito uma inflex\u00e3o no pa\u00eds sobre o que \u00e9 ser professor que assegure uma dignidade laboral. E isso passa pela quest\u00e3o da carreira. \u00c9 preciso que tenha uma carreira que valorize dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, com cursos de especializa\u00e7\u00e3o, de extens\u00e3o, de mestrado, de doutorado, e que valorize o profissional que fez esses cursos como um projeto de vida.<\/p>\n<p>Dessa forma, os tr\u00eas principais eixos de luta para a transforma\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o aqui apresentados s\u00e3o: a disputa por uma nova concep\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica; a retomada dos investimentos em infraestrutura; bem como a valoriza\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o dos professores. Mas avan\u00e7ar nesses eixos depende do cen\u00e1rio mais amplo da luta de classes: sem a derrota do governo Bolsonaro, ser\u00e1 imposs\u00edvel viabilizar qualquer alternativa democr\u00e1tica para a educa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote1anc\" name=\"sdfootnote1sym\">1<\/a>\u00a0O curr\u00edculo Lattes de Roberto Leher pode ser encontrado em http:\/\/lattes.cnpq.<br \/>\nbr\/6873414697016839 . Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote3anc\" name=\"sdfootnote3sym\">3<\/a>Mais informa\u00e7\u00f5es em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/www.sinprors.org.br\/\">https:\/\/www.sinprors.org.br\/<\/a><\/u><\/span>\u00a0Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote4anc\" name=\"sdfootnote4sym\">4<\/a>Mais informa\u00e7\u00f5es em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"http:\/\/www.feteesul.org.br\/\">http:\/\/www.feteesul.org.br\/<\/a><\/u><\/span>Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote5anc\" name=\"sdfootnote5sym\">5<\/a>Mais informa\u00e7\u00f5es em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/levante.org.br\/\">https:\/\/levante.org.br\/<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote6anc\" name=\"sdfootnote6sym\">6<\/a>\u00a0Fazemos refer\u00eancia \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica H\u00edbrida (ANEBHI). Mais informa\u00e7\u00f5es encontram-se em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/anebhi.org.br\/\">https:\/\/anebhi.org.br\/<\/a><\/u><\/span>\u00a0Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/#sdfootnote7anc\" name=\"sdfootnote7sym\">7<\/a>\u00a0Dentre elas destaca-se a press\u00e3o exercida pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Universidades Particulares, Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior e Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Estabelecimentos de Ensino. Mais informa\u00e7\u00f5es encontram-se em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/anup.org.br\/\">https:\/\/anup.org.br\/#<\/a><\/u><\/span>;\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/abmes.org.br\/\">https:\/\/abmes.org.br\/<\/a><\/u><\/span><span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/confenen.org.br\/\">https:\/\/confenen.org.br\/<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p>DIEESE.\u00a0<b>Ocupados em\u00a0<\/b><i><b>home office<\/b><\/i>. Jul. 2020. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/www.dieese.org.br\/outraspublicacoes\/2020\/homeOfficeBrasilRegioes.html\">https:\/\/www.dieese.org.br\/outraspublicacoes\/2020\/homeOfficeBrasilRegioes.html<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p>DOMENICI, T. Laureate usa rob\u00f4s no lugar de professores sem que alunos saibam.\u00a0<b>P\u00fablica<\/b>, 30 abr. 2020. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/apublica.org\/2020\/04\/laureate-usa-robos-no-lugar-de-professores-sem-que-alunos-saibam\/\">https:\/\/apublica.org\/2020\/04\/laureate-usa-robos-no-lugar-de-professores-sem-que-alunos-saibam\/<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p>IBGE.\u00a0<b>Taxa de desocupa\u00e7\u00e3o, jan-fev-mar 2012 \u2013 jan-fev-mar 2021<\/b>. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/sociais\/trabalho\/9173-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-trimestral.html?=&amp;t=series-historicas&amp;utm_source=landing&amp;utm_medium=explica&amp;utm_campaign=desemprego\">https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/sociais\/trabalho\/9173-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-trimestral.html?=&amp;t=series-historicas&amp;utm_source=landing&amp;utm_medium=explica&amp;utm_campaign=desemprego<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p>IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios \u2013 Covid-19. Mai.- nov. 2020. Encontrado em https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/sociais\/trabalho\/27946-divulgacao-semanal-pnadcovid1.html?=&amp;t=microdados<\/p>\n<p><a name=\"__DdeLink__7832_443932404\"><\/a><span lang=\"pt-BR\">INEP.\u00a0<\/span><span lang=\"pt-BR\"><b>Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior<\/b><\/span><span lang=\"pt-BR\"><i>.<\/i><\/span><span lang=\"pt-BR\">\u00a02020a. Encontrado em\u00a0<\/span><span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/download.inep.gov.br\/educacao_superior\/censo_superior\/documentos\/2020\/Apresentacao_Censo_da_Educacao_Superior_2019.pdf\">https:\/\/download.inep.gov.br\/educacao_superior\/censo_superior\/documentos\/2020\/Apresentacao_Censo_da_Educacao_Superior_2019.pdf<\/a><\/u><\/span>.\u00a0Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p><span lang=\"pt-BR\">INEP.\u00a0<\/span><span lang=\"pt-BR\"><b>Censo da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica 2019<\/b><\/span><span lang=\"pt-BR\">. 2020b. Encontrado em\u00a0<\/span><span lang=\"zxx\"><u><span lang=\"pt-BR\"><a href=\"http:\/\/portal.inep.gov.br\/documents\/186968\/0\/Notas+Estat%C3%ADsticas+-+Censo+da+Educa%C3%A7%C3%A3o+B%C3%A1sica+2019\/43bf4c5b-b478-4c5d-ae17-7d55ced4c37d?version=1.0\">http:\/\/portal.inep.gov.br\/documents\/186968\/0\/Notas+Estat%C3%Adsticas+-+Censo+da+Educa%C3%A7%C3%A3o+B%C3%A1sica+2019\/43bf4c5b-b478-4c5d-ae17-7d55ced4c37d?version=1.0<\/a>.<\/span><\/u><\/span>\u00a0<span lang=\"pt-BR\">Acesso em 11 jun. 2021.<\/span><\/p>\n<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL.\u00a0<b>CoronaChoque: um v\u00edrus e o mundo<\/b>, n. 28, mai. 2020a. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-28-coronavirus\/\">https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-28-coronavirus\/<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 10 jun. 2021.<\/p>\n<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL; FRONT INSTITUTO DE ESTUDOS CONTEMPOR\u00c2NEOS.\u00a0<b>A educa\u00e7\u00e3o brasileira na bolsa de valores<\/b>. 2020b. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/brasil\/cartilha-a-educacao-brasileira-na-bolsa-de-valores\/\">https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/brasil\/cartilha-a-educacao-brasileira-na-bolsa-de-valores\/<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p>MAZZA, L.; AMOROZO, M.; BUONO, R. Pandemia do desemprego.\u00a0<b>Piau\u00ed<\/b>, 9 nov. 2020. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/pandemia-do-desemprego\/\">https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/pandemia-do-desemprego\/<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p>MELLO, I. Novo Bolsa Fam\u00edlia prev\u00ea substituir verba de creches p\u00fablicas por voucher.\u00a0<b>Uol<\/b>, 16 mai. 2021. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2021\/05\/16\/novo-bolsa-familia-preve-substituir-verba-de-creches-publicas-por-voucher.htm\">https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2021\/05\/16\/novo-bolsa-familia-preve-substituir-verba-de-creches-publicas-por-voucher.htm<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11. jun. 2021.<\/p>\n<p>OLIVEIRA, E. Cresce n\u00famero de escolas p\u00fablicas sem banheiro e internet banda larga; 35,8 mil n\u00e3o t\u00eam coleta de esgoto.\u00a0<b>G1<\/b>, 21 mar. 2021. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/educacao\/volta-as-aulas\/noticia\/2021\/03\/21\/cresce-numero-de-escolas-publicas-sem-banheiro-e-internet-banda-larga-coleta-de-esgoto-nao-chega-a-358-mil-predios-escolares.ghtml\">https:\/\/g1.globo.com\/educacao\/volta-as-aulas\/noticia\/2021\/03\/21\/cresce-numero-de-escolas-publicas-sem-banheiro-e-internet-banda-larga-coleta-de-esgoto-nao-chega-a-358-mil-predios-escolares.ghtml<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11. jun. 2021.<\/p>\n<p>OLIVEIRA, E. Professor com 24 anos de carreira \u00e9 avisado da demiss\u00e3o por uma janela\u00a0<i>pop-up<\/i>: \u201cVisto como um custo\u201d.\u00a0<b>G1<\/b>. 15 out. 2020. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/educacao\/volta-as-aulas\/noticia\/2020\/10\/15\/professor-com-24-anos-de-carreira-e-avisado-da-demissao-por-uma-janela-pop-up-visto-como-um-custo.ghtml\">https:\/\/g1.globo.com\/educacao\/volta-as-aulas\/noticia\/2020\/10\/15\/professor-com-24-anos-de-carreira-e-avisado-da-demissao-por-uma-janela-pop-up-visto-como-um-custo.ghtml<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p>RYNGELBLUM, I. Cade aprova compra de ativos brasileiros da Laureate pela \u00c2nima.\u00a0<b>Seu dinheiro<\/b>, 25 abr. 2021. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/www.seudinheiro.com\/2021\/empresas\/cade-aprova-compra-de-ativos-brasileiros-da-laureate-pela-anima\/\">https:\/\/www.seudinheiro.com\/2021\/empresas\/cade-aprova-compra-de-ativos-brasileiros-da-laureate-pela-anima\/<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p>TOKARNIA, M. MEC quer alterar meta de investimento de 10% do PIB.\u00a0<b>Ag\u00eancia Brasil<\/b>, 11 jul. 2019. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2019-07\/mec-quer-alterar-meta-de-investimento-de-10-do-pib\">https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2019-07\/mec-quer-alterar-meta-de-investimento-de-10-do-pib<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p>UNICEF.\u00a0<b>Cen\u00e1rio da exclus\u00e3o escolar no Brasil<\/b>. 2021. Encontrado em\u00a0<span lang=\"zxx\"><u><a href=\"https:\/\/www.unicef.org\/brazil\/media\/14026\/file\/cenario-da-exclusao-escolar-no-brasil.pdf\">https:\/\/www.unicef.org\/brazil\/media\/14026\/file\/cenario-da-exclusao-escolar-no-brasil.pdf<\/a><\/u><\/span>. Acesso em 11 jun. 2021.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O CoronaChoque e a educa\u00e7\u00e3o brasileira: um ano e meio depois. Link: https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-43-educacao-brasileira-pandemia\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Instituto Tricontinental &#8211; O termo CoronaChoque refere-se \u00e0 forma como o Covid-19 atingiu o mundo com uma for\u00e7a avassaladora, revelando a incapacidade do Estado burgu\u00eas evitar uma cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria e social, em contraste com as experi\u00eancias de inspira\u00e7\u00e3o socialista que se mostraram muito mais resilientes. 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