{"id":15484,"date":"2021-08-01T12:00:51","date_gmt":"2021-08-01T15:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15484"},"modified":"2021-07-31T11:03:56","modified_gmt":"2021-07-31T14:03:56","slug":"covid-doenca-do-capitalismo-em-chamas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/08\/01\/covid-doenca-do-capitalismo-em-chamas\/","title":{"rendered":"Covid, doen\u00e7a do capitalismo em chamas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Murray Smith,\u00a0Jonah Butovsky\u00a0e\u00a0Josh Watterton<\/strong> &#8211; Dos cortes na Sa\u00fade \u00e0s periferias aglomeradas e ao apartheid global das vacinas \u2014 tudo na pandemia exp\u00f5e morbidez atual do sistema. E este, em emerg\u00eancia, tentou salvar primeiro os especuladores. Um novo livro sugere: n\u00e3o dar\u00e1 certo\u2026<\/p>\n<p>Este texto \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o do primeiro cap\u00edtulo de<br \/>\n<strong>Twilight Capitalism: Karl Marx and the Decay of the Profit System\u00a0<\/strong>[\u201cCapitalismo em Crep\u00fasculo: Karl Marx e o decl\u00ednio do sistema de lucros\u201d]<br \/>\nFernwood Publishing, Halifax-Canad\u00e1, 2021<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3051342\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/210722-TwilightCapitalism.jpg?resize=200%2C300&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/210722-TwilightCapitalism.jpg 333w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/210722-TwilightCapitalism-200x300.jpg 200w\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p>A convuls\u00e3o social de 2020-21 pode muito bem marcar uma virada importante na hist\u00f3ria mundial. A emerg\u00eancia global de sa\u00fade p\u00fablica trazida pela covid-19 e a crise econ\u00f4mica associada produziram efeitos sociais e pol\u00edticos extremamente disruptivos e de longo alcance. Mesmo antes do in\u00edcio da pandemia \u2013 note-se \u2013, a economia mundial j\u00e1 estava \u00e0 beira de uma recess\u00e3o severa, titubeando ap\u00f3s uma prolongada \u2013 e notavelmente morna \u2013 recupera\u00e7\u00e3o da Grande Recess\u00e3o de 2008-09. Foi s\u00f3 isso o que era capaz de apresentar ap\u00f3s v\u00e1rias d\u00e9cadas de crescimento lento, austeridade e problemas persistentes de lucratividade na esfera do capital industrial, em que se produz o valor e o mais-valor. A recess\u00e3o, ent\u00e3o, foi grandemente ampliada por bloqueios (totais ou parciais) impostos pelos Estados nacionais \u00e0s ind\u00fastrias, servi\u00e7os governamentais e pequenas empresas. Como resultado desse processo, chegou-se a n\u00edveis de desemprego e de contra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que rivalizam com aqueles observados na Grande Depress\u00e3o da d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p>Como se deve encarar essa crise global \u201ccombinada\u201d ocorrida entre 2020 e 2021? Com poucas exce\u00e7\u00f5es, as respostas da m\u00eddia corporativa, dos estratos gerenciais profissionais, das elites pol\u00edticas e de muitos economistas s\u00e3o notavelmente uniformes. Consistente com a maioria das avalia\u00e7\u00f5es convencionais sobre os atuais problemas da humanidade, v\u00ea-se essa ocorr\u00eancia como um\u00a0<em>fen\u00f4meno natural: eis que, s\u00fabita e \u201cmisteriosamente\u201d,\u00a0<\/em>surgiu um v\u00edrus invulgarmente infeccioso e furtivo\u2026 Diante dessa emerg\u00eancia, fala-se muito das decis\u00f5es\u00a0<em>consciente<\/em><em>s<\/em><em>\u00a0e das a\u00e7\u00f5es de indiv\u00edduos<\/em>\u00a0(profissionais de sa\u00fade, pol\u00edticos, l\u00edderes empresariais e jornalistas da grande m\u00eddia) em rea\u00e7\u00e3o a ele. Assim, minimiza-se o papel decisivo desempenhado por poderosas for\u00e7as<em>\u00a0sociais estruturais que<\/em>\u00a0instigam, exploram e determinam a forma e a magnitude da crise.<\/p>\n<p>Contra esta abordagem superficial e deliberadamente simplista, uma explica\u00e7\u00e3o s\u00e9ria da crise deve envolver uma cr\u00edtica cient\u00edfica das condi\u00e7\u00f5es sociais que permitiram o surgimento do v\u00edrus e do desenvolvimento da pandemia tal como esta ocorreu. A emerg\u00eancia sanit\u00e1ria da covid-19 aprofundou a desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em que a economia mundial j\u00e1 entrava em 2020 e lhe deu uma forma definida. Ademais, as rela\u00e7\u00f5es sociais fundamentalmente antag\u00f4nicas que definem o capitalismo contribu\u00edram decisivamente para a origem, o curso e as consequ\u00eancias da pandemia.<\/p>\n<p>De acordo com as principais autoridades m\u00e9dicas e epidemiologistas, a mortalidade devida ao Covid-19 \u2013 medida como \u201cexcesso de \u00f3bitos\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e9dias observadas nos \u00faltimos anos \u2013 foi estimulada pela presen\u00e7a em parte da popula\u00e7\u00e3o de certas \u201ccomorbidades\u201d ou \u201ccondi\u00e7\u00f5es subjacentes\u201d, tais como doen\u00e7a pulmonar, imunidade prejudicada, doen\u00e7a cardiovascular, diabetes, hipertens\u00e3o e c\u00e2ncer. E esta, com certeza, parece ser uma evid\u00eancia perfeitamente razo\u00e1vel. Mas tais morbidades clinicamente diagnostic\u00e1veis n\u00e3o s\u00e3o de forma alguma as\u00a0<em>\u00fanicas<\/em>\u00a0\u201ccondi\u00e7\u00f5es subjacentes\u201d que precisam ser consideradas para que se entenda bem as ra\u00edzes da pandemia, sua propaga\u00e7\u00e3o desigual, assim como a contra\u00e7\u00e3o na economia global que desencadeou. Aten\u00e7\u00e3o s\u00e9ria deve ser dada, acima de tudo, aos\u00a0<em>determinantes sociais da doen\u00e7a<\/em>: \u00e0s condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas, aos contextos em que acontecem os comportamentos individuais, \u00e0s amea\u00e7as \u00e0 sa\u00fade e ao bem-estar de popula\u00e7\u00f5es inteiras.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso de in\u00edcio considerar os determinantes da sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito destacados pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) e por uma legi\u00e3o de outros especialistas. Os seguintes podem ser mencionados como aqueles que mais contribuem para o surgimento de morbidades humanas em geral (definidas estas como doen\u00e7as ou como defici\u00eancias que afastam as pessoas do \u201cestado normal\u201d). Foram eles que criaram as condi\u00e7\u00f5es que impulsionaram a propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus SARS-CoV-2:<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/11\/svg\/25aa.svg\" alt=\"&#x25aa;\" \/>\u00a0aumento da desigualdade de renda e riqueza;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/11\/svg\/25aa.svg\" alt=\"&#x25aa;\" \/>\u00a0investimento inadequado em sa\u00fade p\u00fablica universal;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/11\/svg\/25aa.svg\" alt=\"&#x25aa;\" \/>\u00a0a escassez e o custo de alimentos nutritivos e a preval\u00eancia associada de fome e obesidade;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/11\/svg\/25aa.svg\" alt=\"&#x25aa;\" \/>\u00a0infraestrutura social decadente ou inadequada (incluindo hospitais, cl\u00ednicas comunit\u00e1rias, instala\u00e7\u00f5es de cuidados de longo prazo e unidades de terapia intensiva);<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/11\/svg\/25aa.svg\" alt=\"&#x25aa;\" \/>\u00a0ambientes urbanos insalubres (incluindo habita\u00e7\u00f5es degradadas e infestadas de pragas, escassez de mercados de alimentos frescos e escassez de espa\u00e7os verdes e \u00e1reas de recrea\u00e7\u00e3o p\u00fablicas);<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/11\/svg\/25aa.svg\" alt=\"&#x25aa;\" \/>\u00a0locais de trabalho que imp\u00f5em estresses f\u00edsicos e mentais debilitantes aos trabalhadores (escolher, por exemplo, entre comparecer ao trabalho quando doente ou perder parte de uma renda essencial);<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/11\/svg\/25aa.svg\" alt=\"&#x25aa;\" \/>\u00a0governan\u00e7a pol\u00edtica orientada para maximizar os lucros corporativos, em vez de promover a sa\u00fade e o bem-estar dos trabalhadores (por exemplo, as fat\u00eddicas decis\u00f5es dos governos dos EUA e do Reino Unido em fevereiro-mar\u00e7o de 2020 para priorizar o movimento ascendente cont\u00ednuo dos mercados de a\u00e7\u00f5es sobre a necessidade de agir com rapidez para conter a propaga\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus por meio de extensos testes, rastreamento, quarentena e confinamento);<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/11\/svg\/25aa.svg\" alt=\"&#x25aa;\" \/>\u00a0opress\u00e3o racial sist\u00eamica e tratamento discriminat\u00f3rio de migrantes; conflitos entre Estados-na\u00e7\u00f5es que impedem uma coopera\u00e7\u00e3o internacional genu\u00edna no combate dos problemas globais;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/11\/svg\/25aa.svg\" alt=\"&#x25aa;\" \/>\u00a0guerras \u2013 eventos dilaceradores que s\u00e3o imediatamente destrutivos para todos aqueles que portam morbidades sociais;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/11\/svg\/25aa.svg\" alt=\"&#x25aa;\" \/>\u00a0a rela\u00e7\u00e3o ruinosa que existe entre o processo implac\u00e1vel de acumula\u00e7\u00e3o de capital e os ecossistemas naturais dos quais a humanidade depende;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/11\/svg\/25aa.svg\" alt=\"&#x25aa;\" \/>\u00a0E, finalmente, as prioridades voltadas para o lucro e muitas vezes grotescamente distorcidas das empresas que comp\u00f5em a ind\u00fastria farmac\u00eautica e a medicina privada.<\/p>\n<p>Deve ser \u00f3bvio que essas \u201cmorbidades sociais\u201d subjacentes tornaram a tarefa de derrotar o flagelo da Covid-19 (e, inclusive, a elimina\u00e7\u00e3o efetiva do v\u00edrus) muito mais dif\u00edcil do que precisava ser. O que talvez n\u00e3o seja t\u00e3o \u00f3bvio \u00e9 que, ao longo da era capitalista, as ricas elites governantes quase sempre se\u00a0<em>opuseram<\/em>\u00a0\u00e0 aloca\u00e7\u00e3o de recursos suficientes para a cria\u00e7\u00e3o de \u201cbens p\u00fablicos\u201d e servi\u00e7os sociais necess\u00e1rios para melhorar a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as pesquisas e os investimentos regularmente feitos por empresas farmac\u00eauticas com fins lucrativos n\u00e3o conseguem afetar decisivamente alguns dos piores riscos para a sa\u00fade e para o bem-estar humanos. Escrevendo durante os primeiros dias da pandemia, o socialista norte-americano Mike Davis observou num artigo,\u00a0<em>A Big Pharma abdicou da pesquisa e desenvolvimento de novos antibi\u00f3ticos e antivirais<\/em>, o seguinte:<\/p>\n<p>\u201cDas 18 maiores empresas farmac\u00eauticas, 15 abandonaram totalmente esse campo de pesquisa. Rem\u00e9dios para o cora\u00e7\u00e3o, tranquilizantes viciantes e tratamentos para a impot\u00eancia dos homens s\u00e3o l\u00edderes de lucro, n\u00e3o as defesas contra infec\u00e7\u00f5es hospitalares, doen\u00e7as emergentes e os v\u00edrus tropicais que s\u00e3o considerados como assassinos tradicionais. Uma vacina universal contra a gripe \u2013 ou seja, uma vacina que tem como alvo as partes imut\u00e1veis das prote\u00ednas de superf\u00edcie do v\u00edrus \u2013 tem sido uma possibilidade h\u00e1 d\u00e9cadas, mas que nunca foi uma prioridade lucrativa\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, foi somente ap\u00f3s a eclos\u00e3o da pandemia SARS-CoV-2 que as empresas farmac\u00eauticas come\u00e7aram novamente uma corrida competitiva para desenvolver uma vacina para combater esse tipo de v\u00edrus. Notavelmente, a pesquisa empresarial sobre SARS-CoV-1, iniciada no passado por um breve per\u00edodo, ap\u00f3s a conten\u00e7\u00e3o bem-sucedida de seu surto em 2003, foi interrompida por n\u00e3o ser considerada lucrativa.<\/p>\n<p>\u00c0 luz da emerg\u00eancia SARS de 2003, bem como surtos de outros v\u00edrus \u201cnovos\u201d nas \u00faltimas d\u00e9cadas (como MERS e Ebola), cientistas e funcion\u00e1rios da sa\u00fade p\u00fablica h\u00e1 muito alertavam que uma pandemia de propor\u00e7\u00f5es potencialmente catastr\u00f3ficas era quase inevit\u00e1vel e que, portanto, era urgentemente necess\u00e1rio desenvolver uma gama de novas capacidades de preven\u00e7\u00e3o e tratamento. Ou seja, medicamentos antivirais e vacinas, abundantes estoques de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual para linha de frente dos trabalhadores de sa\u00fade, leitos hospitalares e unidades de terapia intensiva bem equipadas. Sob press\u00e3o implac\u00e1vel do \u201csetor privado\u201d (leia-se: da classe capitalista), no entanto, a maioria dos governos ocidentais ignorou esses avisos e persistiu com pol\u00edticas que pioraram a maior parte das morbidades citadas acima, mesmo quando a pandemia j\u00e1 se aproximava.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria<em>\u00a0exist\u00eancia<\/em>\u00a0de condi\u00e7\u00f5es sociais favor\u00e1veis \u00e0 ocorr\u00eancia de morbidades deve ser focada e explicada. Infelizmente, isso est\u00e1 sendo feito de modo completamente inadequado por pesquisadores acad\u00eamicos (bem como por ag\u00eancias como a OMS); eis que se omitiram e se omitem de criticar o sistema socioecon\u00f4mico mais amplo que \u00e9 respons\u00e1vel por tudo. Deve-se perguntar: por que h\u00e1 uma tend\u00eancia pronunciada para a eleva\u00e7\u00e3o da desigualdade social? Por que o lucro privado \u00e9 sistematicamente priorizado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas? Por que \u00e9 gasto tanto em or\u00e7amentos militares quando muito mais precisa ser gasto pelos governos em sa\u00fade e assist\u00eancia m\u00e9dica sem fins lucrativos? Por que uma ruptura crescente, de fato uma desarmonia desastrosa, est\u00e1 se desenvolvendo entre a sociedade humana e o mundo natural? E por que, apesar dos muitos avan\u00e7os not\u00e1veis que foram feitos pelas ci\u00eancias naturais ao longo do s\u00e9culo passado, houve uma falta de progresso t\u00e3o clara na cria\u00e7\u00e3o de uma ordem social mais harmoniosa, cooperativa, pr\u00f3spera e ecologicamente sustent\u00e1vel para toda a humanidade?<\/p>\n<p>Essas perguntas raramente s\u00e3o apresentadas e, muito menos ainda, respondidas em discursos \u201cconvencionais\u201d. Sem surpresa, isso ocorre porque as respostas adequadas envolvem uma cr\u00edtica completa do capitalismo contempor\u00e2neo \u2013 um modo de produ\u00e7\u00e3o e um sistema social cujas contradi\u00e7\u00f5es, crises tendenciais e irracionalidade fundamental foram postas, excepcionalmente, em relevo pelos eventos do ano passado.<\/p>\n<p><strong>Lucro capitalista versus necessidades humanas<\/strong><\/p>\n<p>A perda potencial de dezenas de milh\u00f5es de vidas humanas devido \u00e0 praga da Covid-19 (assim como, de outras pandemias que possam vir no futuro) \u00e9 um acontecimento desastroso; contudo, como se sabe, o n\u00famero catastr\u00f3fico de mortes nunca foi inevit\u00e1vel. A humanidade possui o conhecimento cient\u00edfico e os recursos para evit\u00e1-lo. E ainda assim o mesmo pode ser dito para muitas outras mortes facilmente evit\u00e1veis \u200b\u200bresultantes das patologias do capitalismo. As Na\u00e7\u00f5es Unidas estimam que cerca de 40 milh\u00f5es de pessoas morrem a cada ano como resultado de fome, conflitos violentos e cuidados de sa\u00fade inadequados. Conclui-se que nos \u00faltimos trinta anos \u2013 desde o muito celebrado \u201ctriunfo do capitalismo sobre o comunismo sovi\u00e9tico\u201d \u2013 mais de\u00a0<em>um bilh\u00e3o\u00a0<\/em>vidas humanas foram devoradas pelas opera\u00e7\u00f5es do sistema socioecon\u00f4mico globalmente dominante \u2013 vidas brutalmente sacrificadas no altar do lucro capitalista.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 j\u00e1 a barb\u00e1rie! Por que, ent\u00e3o, os governos, a m\u00eddia de massa e a profiss\u00e3o m\u00e9dica n\u00e3o pedem uma a\u00e7\u00e3o imediata para parar o curso do flagelo capitalista? Por que eles n\u00e3o acompanham de perto o n\u00famero de mortos por todas essas causas, visando esclarecer o p\u00fablico diariamente? A raz\u00e3o, claro, \u00e9 simples: a maioria deles est\u00e1 emprenhada na continua\u00e7\u00e3o \u2013 na verdade, na expans\u00e3o \u2013 do capitalismo. A classe capitalista, os pol\u00edticos do sistema, assim como os jornalistas-propagandistas, a elite acad\u00eamica \u2013 assim como as principais estrelas da profiss\u00e3o m\u00e9dica \u2013 h\u00e1 muito mostram sua disposi\u00e7\u00e3o de sacrificar dezenas de milh\u00f5es \u00e0 fome, doen\u00e7as e guerra para que o capitalismo possa florescer em escala global.<\/p>\n<p>Tudo isso levanta uma quest\u00e3o interessante e importante: por que as poderosas redes sociais, essas for\u00e7as e esses atores, reagiram \u00e0 pandemia de SARS-CoV-2 de um modo que parece causar danos \u00e0 m\u00e1quina de obter lucro nos pa\u00edses capitalistas desenvolvidos do Norte Global? Uma boa resposta n\u00e3o pode ser fornecida aqui, mas alguns de seus elementos podem ser resumidos brevemente.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a pandemia de coronav\u00edrus n\u00e3o se limitou \u00e0s na\u00e7\u00f5es mais pobres do Sul Global \u2013 isto \u00e9, elas n\u00e3o afetaram apenas as pessoas com pele negra ou parda que morrem em grande n\u00famero de mal\u00e1ria e outras doen\u00e7as tropicais. Pelo contr\u00e1rio, parecia claro desde o in\u00edcio que o maior impacto da pandemia, pelo menos inicialmente, seria em pa\u00edses comparativamente ricos que t\u00eam grande n\u00famero de idosos e pessoas brancas em suas popula\u00e7\u00f5es. A nacionalidade e a ra\u00e7a (se n\u00e3o a idade) de muitas de suas principais v\u00edtimas foram importantes para for\u00e7ar os poderes constitu\u00eddos a aceitar que tinham uma s\u00e9ria emerg\u00eancia de sa\u00fade em suas m\u00e3os e que tinham de se comprometer a combat\u00ea-la (pelo menos por um tempo) de forma extraordin\u00e1ria e por formas economicamente disruptivas.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, mesmo os pol\u00edticos capitalistas mais reacion\u00e1rios como Trump e Johnson perceberam que enfrentariam uma oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito forte se agissem agressivamente segundo o impulso darwinista-cum-malthusiano de \u201cdeixar o v\u00edrus seguir seu curso\u201d. Mais significativamente, uma forte resist\u00eancia teria emanado das profiss\u00f5es mais reverenciados nas sociedades ocidentais: os profissionais de sa\u00fade. Basta lembrar como os profissionais m\u00e9dicos ficaram chocados nos primeiros dias da pandemia sobre o n\u00famero de m\u00e9dicos, enfermeiras e param\u00e9dicos que estavam adoecendo \u2013 e \u00e0s vezes morrendo \u2013 devido \u00e0 covid-19. Crescia no in\u00edcio da pandemia de forma avassaladora o n\u00famero de pacientes nos hospitais mal equipados em Mil\u00e3o, Madri e Nova York. O imperativo de\u00a0<em>achatar a curva \u2013\u00a0<\/em>por qualquer meio que fosse necess\u00e1rio \u2013 era acima de tudo um imperativo para salvar os hospitais, as UTIs e o pessoal das ambul\u00e2ncias de se tornarem v\u00edtimas da pandemia.<\/p>\n<p>Terceiro, grandes segmentos da for\u00e7a de trabalho foram capazes de realizar seu trabalho\u00a0<em>on-line<\/em>\u00a0sob o regime de distanciamento social, apesar dos bloqueios, que geralmente eram apenas\u00a0<em>parciais<\/em>\u00a0no mundo ocidental. Ao mesmo tempo, muitas empresas \u201cessenciais\u201d (acima de tudo, as de processamento de alimentos, de medicamentos etc.) ficaram fora dos bloqueios desde o in\u00edcio, assim como a maioria dos pontos de venda de alimentos e medicamentos. O dano econ\u00f4mico foi extenso, mas o dano \u00e0 lucratividade permaneceu em grande parte confinado a empresas menores, bem como aos setores de avia\u00e7\u00e3o, de turismo e de hotelaria.<\/p>\n<p>Quarto, enquanto a massa de lucros gerados por meio da atividade especificamente produtiva na economia global como um todo caiu significativamente durante todo o primeiro semestre de 2020, os aportes dos bancos centrais e dos governos aos mercados financeiros e \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es permitiram que as camadas superiores da classe capitalista pudessem obter grandes ganhos em seus portf\u00f3lios e em suas fortunas pessoais.<\/p>\n<p>Em 18 de junho, o\u00a0<em>Institute for Policy Studies<\/em>\u00a0informou que, nos tr\u00eas meses anteriores, os cinco bilion\u00e1rios mais ricos dos EUA (Bezos, Gates, Zuckerberg, Buffett e Ellison) viram um aumento em sua riqueza combinada de mais de 101,7 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, ou seja, de 26%. Este ganho representou 17,4% do crescimento total da riqueza dos 643 bilion\u00e1rios dos Estados Unidos, que naquela \u00e9poca controlavam US$ 3,5 trilh\u00f5es por meio de suas fortunas. Em 20 de agosto de 2020, Collins e Ocampo relataram no\u00a0<em>Counterpunch<\/em>\u00a0que os doze bilion\u00e1rios mais ricos dos EUA acumularam uma riqueza combinada de mais de 1 trilh\u00e3o de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>A onda de fal\u00eancias de empresas menos lucrativas abriu oportunidades para os maiores operadores expandirem suas participa\u00e7\u00f5es de mercado, adquirindo ativos valiosos a pre\u00e7os de pechincha, enquanto que a cria\u00e7\u00e3o de um \u201cex\u00e9rcito de reserva\u201d muito ampliado fez do mercado de for\u00e7a de trabalho mais abundante do que antes o fora. Tudo isso era um bom press\u00e1gio para a restaura\u00e7\u00e3o da lucratividade no longo prazo para as economias capitalistas ocidentais que enfrentavam perspectivas sombrias no in\u00edcio de 2020.<\/p>\n<p>Juntas, essas considera\u00e7\u00f5es apontam para a conclus\u00e3o de que as elites capitalistas foram capazes de transformar, rapidamente, a queda desencadeada pela pandemia em seu pr\u00f3prio favor. Al\u00e9m do mais, sacrificando certos setores econ\u00f4micos e pequenas empresas a bloqueios ruinosos, enquanto lideravam um coro do \u201cestamos todos no mesmo barco\u201d, eles foram capazes de preservar uma apar\u00eancia de legitimidade imerecida aos olhos de muitos, ao mesmo tempo que aumentavam maci\u00e7amente sua pr\u00f3pria riqueza e poder.<\/p>\n<p>\u00c0 luz de tudo isso, uma outra quest\u00e3o vale a pena ponderar. Dado que uma grave crise financeira e a contra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica j\u00e1 estava ocorrendo no final de 2019, teria sido poss\u00edvel, na aus\u00eancia da emerg\u00eancia sanit\u00e1ria Covid-19, ter convencido o p\u00fablico sobre a necessidade de um enorme inje\u00e7\u00e3o de fundos de bancos centrais e de governos em bancos, empresas e mercado de a\u00e7\u00f5es? Achamos que a resposta \u00e9 simplesmente n\u00e3o. Uma simples repeti\u00e7\u00e3o dos resgates extremamente impopulares de 2008-09 teria se deparado com uma torrente de indigna\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Do ponto de vista de certos interesses extremamente poderosos da elite, a pandemia pode muito bem ser vista como um desenvolvimento estranhamente bem-vindo \u2013 e at\u00e9 mesmo uma \u201cb\u00ean\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada\u201d. Em qualquer caso, o princ\u00edpio orientador dos \u201cpoderes constitu\u00eddos\u201d capitalistas em sua resposta \u00e0 crise sempre foi inequivocamente claro: os lucros (a for\u00e7a vital do capitalismo) devem ter prioridade sobre tudo o mais.<\/p>\n<p><strong>Explora\u00e7\u00e3o, crise de valoriza\u00e7\u00e3o e morbidez capitalista<\/strong><\/p>\n<p>Como Karl Marx observou, \u201ctoda crian\u00e7a sabe\u201d que as comunidades humanas dependem do trabalho para atender \u00e0s suas necessidades e que todos devem desenvolver pr\u00e1ticas de distribui\u00e7\u00e3o do trabalho social visando atender uma enorme variedade de tarefas economicamente vitais. Al\u00e9m disso, \u00e0 medida que as sociedades se dividem em distintas classes sociais, a distribui\u00e7\u00e3o cooperativa do trabalho social assume necessariamente uma forma antag\u00f4nica. Eis que os produtores diretos e os apropriadores do excedente social t\u00eam interesses opostos.<\/p>\n<p>No entanto, nem toda ordem social criada pelos seres humanos foi t\u00e3o decisivamente voltada para a produ\u00e7\u00e3o mercantil quanto o capitalismo. Nesse modo de produ\u00e7\u00e3o produz-se para o mercado, ou seja, para a troca monet\u00e1ria e para a obten\u00e7\u00e3o de lucro em dinheiro. O que distingue o capitalismo \u00e9 que a produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>mercadorias<\/em>\u00a0(definidas como produtos do trabalho destinado \u00e0 venda no mercado) se torna um fen\u00f4meno\u00a0<em>generalizado.<\/em><\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que todo produto, efeito ou resultado do trabalho humano seja comercializado; no entanto, significa que a grande maioria dele o \u00e9. As mercadorias se tornam, de longe, os produtos economicamente mais significativos da trabalho humano; mais crucialmente, a pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho (a capacidade de trabalhar) torna-se uma mercadoria que \u00e9 comprada na esfera de troca de mercado com o objetivo de extrair o\u00a0<em>excedente de valor<\/em>\u00a0dos trabalhadores assalariados produtivos.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente sob essas condi\u00e7\u00f5es que o processo de vida econ\u00f4mica fica sob o dom\u00ednio da \u201clei do valor\u201d, algo espec\u00edfico do capitalismo \u2013 uma lei que requer a medi\u00e7\u00e3o do valor de todos os bens e servi\u00e7os comercializados em termos de \u201ctrabalho social abstrato\u201d, cuja \u201cforma de apar\u00eancia\u201d mais importante \u00e9 o dinheiro.<\/p>\n<p>Nas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e troca de mercadorias capitalistas, os produtores diretos s\u00e3o separados da propriedade e do controle dos principais meios de produ\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o, agora, propriedade privada dos capitalistas. O monop\u00f3lio de classe das f\u00e1bricas, minas e at\u00e9 mesmo da terra \u2013 na verdade, de todos os principais ativos econ\u00f4micos da sociedade \u2013 capacita os capitalistas a explorar sistematicamente a classe trabalhadora, ou seja, a extrair o trabalho excedente que gera valor excedente, que \u00e9 a \u201csubst\u00e2ncia social\u201d do lucro e da renda capitalista.<\/p>\n<p>Assim, os fen\u00f4menos da coopera\u00e7\u00e3o e da divis\u00e3o de trabalho, encontr\u00e1veis em todas as sociedades humanas, decorrem de uma lei natural que exige, conforme Marx, \u201ca distribui\u00e7\u00e3o do trabalho social em propor\u00e7\u00f5es definidas\u201d. Mas agora isso assume uma forma especialmente antag\u00f4nica e anti-igualit\u00e1ria na sociedade voltada para a competi\u00e7\u00e3o e para a explora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de um classe de produtores diretos por uma classe de grandes propriet\u00e1rios. Nesse contexto, deve ser \u00f3bvio que o slogan \u201cestamos todos no mesmo barco\u201d constitui um fato particularmente absurdo e uma falsidade ultrajante. Pois a realidade \u00e9 que diferentes classes sociais (e at\u00e9 mesmo fra\u00e7\u00f5es de classe) ir\u00e3o necessariamente experimentar eventos como a pandemia do coronav\u00edrus de maneiras muito diferentes.<\/p>\n<p>Para ter uma avalia\u00e7\u00e3o completa da crise de 2020-21, no entanto, devemos tamb\u00e9m analisar o que \u00e9\u00a0<em>distintivo<\/em>\u00a0sobre o capitalismo do s\u00e9culo XXI: as manifesta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de uma crise sist\u00eamica que come\u00e7ou a tomar forma em resposta aos graves problemas de lucratividade da d\u00e9cada de 1970 e como isso se desenvolveu e se intensificou nos \u00faltimos quarenta anos. Essas quest\u00f5es dizem respeito principalmente \u00e0 crise<em>\u00a0de produ\u00e7\u00e3o de mais-valor<\/em>\u00a0(ou \u201ccrise de valoriza\u00e7\u00e3o\u201d) discutida longamente em\u00a0<em>Twilight Capitalism\u00a0<\/em>(\u201cCapitalismo em crep\u00fasculo\u201d)<em>\u00a0\u2013\u00a0<\/em>uma crise fundamentalmente enraizada no deslocamento de trabalho assalariado vivo (a \u00fanica fonte de excedente valor) pela tecnologia economizadora de trabalho e assim, em consequ\u00eancia, a produ\u00e7\u00e3o insuficiente de mais-valor em rela\u00e7\u00e3o aos custos globais de produ\u00e7\u00e3o e da reprodu\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Os acontecimentos preliminares \u00e0 cat\u00e1strofe de 2020-21 foram marcados pelos resultados de uma dupla e peculiar estrat\u00e9gia da classe capitalista para sustentar a lucratividade em decl\u00ednio: por um lado, extrair o m\u00e1ximo de mais-valor poss\u00edvel do trabalho assalariado, do trabalho vivo e produtivo, por meio de um conjunto de mecanismos e de medidas neoliberais, incluindo a pilhagem temer\u00e1ria das \u201cd\u00e1divas da natureza\u201d; e por outro lado, para manipular os mercados de a\u00e7\u00f5es para sustentar valores patrimoniais tanto altos como irrealistas (ou seja, por meio de \u201clucros fict\u00edcios\u201d) enquanto compele governos e bancos centrais complacentes a minimizar regulamentos sobre a atividade empresarial, reduzir os impostos corporativos e imprimir dinheiro conforme necess\u00e1rio para manter \u201cestabilidade financeira\u201d.<\/p>\n<p>O resultado foi a distribui\u00e7\u00e3o de enormes volumes de dinheiro f\u00e1cil para os escal\u00f5es superiores da classe capitalista, mas tamb\u00e9m crescimento lento do PIB, fraca forma\u00e7\u00e3o de capital no setor produtivo da economia e o ac\u00famulo de empresas, consumidores, governos e estudantes fortemente endividados \u2013 em outras palavras, foram criadas enormes reivindica\u00e7\u00f5es de valor que ainda n\u00e3o haviam sido previamente criados. O capitalismo, mesmo em seus pr\u00f3prios termos, n\u00e3o pode mais funcionar adequadamente. As crises econ\u00f4micas peri\u00f3dicas parecem agora mais profundas e mais amea\u00e7adoras do que nunca. Este sistema decr\u00e9pito voltado para o lucro tamb\u00e9m est\u00e1 revelando um incapacidade constitutiva de assegurar \u00e0 humanidade um mundo sem guerras e sem devasta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Para aqueles que se recusam a olhar para a realidade social atrav\u00e9s dos prismas distorcidos das ideologias e dos interesses capitalistas, acolhendo a complac\u00eancia da classe m\u00e9dia alta, a ignor\u00e2ncia intencional ou os preconceitos malignos, deve ficar claro no per\u00edodo que se segue que a ordem mundial existente \u2013 orientada acima de tudo para a perpetua\u00e7\u00e3o da riqueza, do poder e do privil\u00e9gio da classe capitalista \u2013 est\u00e1 se tornando cada vez mais irracional, insustent\u00e1vel e moralmente repugnante.<\/p>\n<p>A humanidade\u00a0<em>n\u00e3o pode mais<\/em> tolerar um sistema socioecon\u00f4mico que subordina os interesses humanos mais fundamentais aos interesses ef\u00eameros de uma min\u00fascula classe dominante capitalista que se arroga o direito de possuir e controlar os principais ativos produtivos do mundo e de tomar todas as decis\u00f5es importantes que afetam vidas de oito bilh\u00f5es de pessoas \u2013 quase sempre para pior.<\/p>\n<p>O livro\u00a0<em>Twilight Capitalism<\/em>\u00a0chama a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade urgente de transcender \u2013 e n\u00e3o simplesmente reformar \u2013 este sistema obsoleto. Para a humanidade sobreviver e seguir em frente, a propriedade privada da classe capitalista dos meios de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e troca deve ser expropriado e colocado sob a propriedade e controle coletivo dos trabalhadores em uma sociedade socialista racionalmente planejada e administrada democraticamente. A meta \u00e9 formar uma comunidade global comprometida fundamentalmente com a sa\u00fade, com o bem-estar e o desenvolvimento livre de cada indiv\u00edduo humano.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Covid, doen\u00e7a do capitalismo em chamas &#8211; Outras Palavras. Link: https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/covid-doenca-do-capitalismo-em-chamas\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Murray Smith,\u00a0Jonah Butovsky\u00a0e\u00a0Josh Watterton &#8211; Dos cortes na Sa\u00fade \u00e0s periferias aglomeradas e ao apartheid global das vacinas \u2014 tudo na pandemia exp\u00f5e morbidez atual do sistema. 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