{"id":15481,"date":"2021-07-31T10:57:10","date_gmt":"2021-07-31T13:57:10","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15481"},"modified":"2021-07-31T10:57:10","modified_gmt":"2021-07-31T13:57:10","slug":"o-quartinho-de-empregada-e-um-indicador-de-que-a-escravidao-continua-diz-laurentino-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/07\/31\/o-quartinho-de-empregada-e-um-indicador-de-que-a-escravidao-continua-diz-laurentino-gomes\/","title":{"rendered":"&#8216;O quartinho de empregada \u00e9 um indicador de que a escravid\u00e3o continua&#8217;, diz Laurentino Gomes"},"content":{"rendered":"<p><strong>Alisson Matos<\/strong> &#8211; \u00c0s v\u00e9speras do lan\u00e7amento do segundo volume da trilogia\u00a0<em>Escravid\u00e3o<\/em>, Laurentino Gomes v\u00ea o Brasil distante de ser uma democracia racial. \u201cO mito da suposta democracia racial \u00e9 uma balela desmentida pelos fatos cotidianos\u201d, diz. \u201cNunca chegamos e estamos muito longe de chegar. Se \u00e9 que um dia chegaremos.\u201d<\/p>\n<p>O livro\u00a0concentra-se no s\u00e9culo XVIII, auge do tr\u00e1fico negreiro no Atl\u00e2ntico, motivado pela descoberta das minas de ouro e diamantes no Pa\u00eds.\u00a0Gomes classifica o per\u00edodo como o \u00e1pice do com\u00e9rcio de seres humanos no continente americano. \u201cTalvez o tra\u00e7o mais caracter\u00edstico do Brasil do s\u00e9culo XVIII tenha sido a banalidade da escravid\u00e3o.\u00a0Mas esse \u00e9 tamb\u00e9m o per\u00edodo mais importante da constru\u00e7\u00e3o das muitas \u00c1fricas que hoje existem no cora\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>O autor faz paralelos entre esse per\u00edodo e o Brasil contempor\u00e2neo. \u201cH\u00e1 um genoc\u00eddio de pessoas negras e jovens em andamento no Brasil, tanto quanto havia na \u00e9poca da escravid\u00e3o.\u201d\u00a0No lan\u00e7amento do primeiro volume, em 2019, ganhava os jornais o caso do garoto\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/segurancas-que-chicotearam-adolescente-em-supermercado-sao-condenados-por-tortura-e-carcere-privado\/\">chicoteado por seguran\u00e7as<\/a>\u00a0de um supermercado da periferia paulistana. A finaliza\u00e7\u00e3o deste segundo ocorreu em meio \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/oab-rj-diz-que-operacao-policial-que-matou-kathlen-foi-ilegal\/\">morte da jovem Kathlen Romeu<\/a>, gr\u00e1vida, durante uma opera\u00e7\u00e3o policial no Rio.<\/p>\n<p>Alguns dos grandes abolicionistas do s\u00e9culo XIX, como o pernambucano Joaquim Nabuco e os baianos Andr\u00e9 Rebou\u00e7as e Luiz Gama, diziam que n\u00e3o bastava acabar com a escravid\u00e3o. Era preciso tamb\u00e9m enfrentar o seu legado, dando terra, trabalho, educa\u00e7\u00e3o e oportunidades aos\u202fex-cativos\u202fe seus descendentes.<\/p>\n<p>Em conversa com<strong>\u00a0CartaCapital,\u00a0<\/strong>Gomes defende que o Brasil passe agora por essa \u2018segunda aboli\u00e7\u00e3o\u2019. \u201cO famoso quartinho de empregada \u00e9 um indicador de que a escravid\u00e3o continua a existir entre n\u00f3s sob formas sutis e disfar\u00e7adas. Da mesma forma, as nossas pris\u00f5es e penitenci\u00e1rias\u201d.<\/p>\n<p>A pedido do autor, a entrevista foi feita por e-mail. Confira os destaques a seguir.<\/p>\n<h3><strong>CartaCapital:\u00a0<\/strong><strong>Da heran\u00e7a escravocrata, o que ficou de mais tr\u00e1gico para o Brasil?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>LG:\u00a0<\/strong>A viol\u00eancia e os abusos decorrentes do preconceito racial se repetem com frequ\u00eancia assustadora. Quando lancei o primeiro volume da trilogia, em setembro de 2019, por exemplo, o notici\u00e1rio era dominado por um epis\u00f3dio grotesco, em que um garoto negro acusado de furtar uma barra de chocolate tinha sido surrado com chicote nas depend\u00eancias de um supermercado.<\/p>\n<p>Chicotear pessoas negras foi uma das grandes especialidades do Brasil escravista ao longo de mais de 350 anos. Havia manuais que detalhavam como essa puni\u00e7\u00e3o deveria ser aplicada, de prefer\u00eancia em p\u00fablico, para servir de exemplo aos demais cativos, e em doses bem medidas, para n\u00e3o incapacitar o escravo para o trabalho.<\/p>\n<p>Agora, passados dois anos, no lan\u00e7amento do segundo volume, outro esc\u00e2ndalo estava na pauta dos brasileiros: a hist\u00f3ria de uma mulher jovem, designer e modelo, gr\u00e1vida de quatro meses, morta por uma bala \u201cperdida\u201d, disparada esmo em um confronto entre a pol\u00edtica e o crime organizada na guerra civil em andamento no Rio de Janeiro. H\u00e1 um genoc\u00eddio de pessoas negras e jovens em andamento no Brasil, tanto quanto havia na \u00e9poca da escravid\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>Os cativos brasileiros foram sempre tratados com viol\u00eancia. Havia, sim, espa\u00e7os para alian\u00e7as e negocia\u00e7\u00f5es, mas alforria foi geralmente mais uma conquista do que uma concess\u00e3o<\/p><\/blockquote>\n<p>O racismo produziu um sistema de castas na sociedade brasileira. Basta observar quem mora nas periferias insalubres, perigosas, dominadas pelo crime organizado, pelo tr\u00e1fico de drogas, sem qualquer assist\u00eancia do Estado brasileiro. Na maioria, s\u00e3o pessoas afrodescendentes. Enquanto isso, os chamados \u201cbairros nobres\u201d, com boa qualidade de vida, seguran\u00e7a, servi\u00e7os p\u00fablicos e educa\u00e7\u00e3o de qualidade, s\u00e3o habitados por pessoas descendentes de colonizadores europeus brancos.<\/p>\n<div id=\"beta-newsletter-cartacapital-dd6ac2e66921d93a6b0c\" role=\"main\">\n<p>N\u00e3o utilizamos seus dados para enviar nenhum tipo de spam.<\/p>\n<\/div>\n<p>Estatisticamente, a pobreza no Brasil \u00e9 sin\u00f4nimo de negritude.\u00a0No meu entender, s\u00f3 a persist\u00eancia de uma ideologia racista, que recusa oportunidades a todos os brasileiros, independentemente da cor da pele, explica essas diferen\u00e7as.<\/p>\n<h3><strong>CC: Voc\u00ea disse, certa vez, que a escravid\u00e3o \u00e9 uma trag\u00e9dia ainda em andamento.<\/strong><\/h3>\n<p><strong>LG:<\/strong>\u00a0A escravid\u00e3o acabou oficialmente no Brasil com a Lei \u00c1urea, mas os seus efeitos persistem ainda hoje. Portanto, est\u00e1 longe de ser apenas um assunto museu ou livro de hist\u00f3ria, algo congelado e acabado no passado. \u00c9\u202fuma realidade presente\u202fassustadora\u202fno\u202fBrasil\u202fdeste in\u00edcio de s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Alguns dos grandes abolicionistas do s\u00e9culo XIX, como o pernambucano Joaquim Nabuco e os baianos Andr\u00e9 Rebou\u00e7as e Luiz Gama, diziam que n\u00e3o bastava acabar com a escravid\u00e3o. Era preciso tamb\u00e9m enfrentar o seu legado, dando terra, trabalho, educa\u00e7\u00e3o e oportunidades aos\u202fex-cativos\u202fe seus descendentes. Essa segunda aboli\u00e7\u00e3o o Brasil jamais fez.<\/p>\n<p>A segunda aboli\u00e7\u00e3o preconizada por Nabuco, Rebou\u00e7as e Gama \u00e9 um dos desafios a ser enfrentado por esta e pelas pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es de brasileiros. O famoso quartinho de empregada \u00e9 um indicador de a escravid\u00e3o continua a existir entre n\u00f3s sob formas sutis e disfar\u00e7adas, que inclui o preconceito racial e regime de trabalho que, em muitos aspectos, se assemelham ao das antigas senzalas. Da mesma forma, as nossas pris\u00f5es e penitenci\u00e1rias em muito se assemelham hoje aos por\u00f5es dos navios negreiros de antigamente.<\/p>\n<div id=\"attachment_219755\">\n<p><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/entrevistas\/laurentino-gomes-o-brasil-nao-enfrentou-nem-resolveu-o-legado-da-escravidao\/attachment\/capa_escravida%cc%83o_2-1\/\" rel=\"attachment wp-att-219755\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida%CC%83o_2-1.jpg?resize=640%2C438&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida%CC%83o_2-1.jpg 1200w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida%CC%83o_2-1-300x205.jpg 300w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida%CC%83o_2-1-768x526.jpg 768w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida%CC%83o_2-1-1024x701.jpg 1024w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida%CC%83o_2-1-265x180.jpg 265w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"438\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida\u0303o_2-1.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida\u0303o_2-1.jpg 1200w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida\u0303o_2-1-300x205.jpg 300w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida\u0303o_2-1-768x526.jpg 768w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida\u0303o_2-1-1024x701.jpg 1024w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/capa_escravida\u0303o_2-1-265x180.jpg 265w\" data-sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<p data-gtm-vis-has-fired-31347205_41=\"1\" data-gtm-vis-has-fired-31347205_40=\"1\">Capa do segundo volume da trilogia<\/p>\n<\/div>\n<h3><strong>CC: A escravid\u00e3o ajuda a explicar a desigualdade regional brasileira?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>LG:<\/strong>\u00a0A escravid\u00e3o explica quase todas as desigualdades brasileiras. A prosperidade das regi\u00f5es sul e sudeste foi constru\u00edda, em grande parte, pela chegada de imigrantes estrangeiros, europeus e cat\u00f3licos em sua maioria, a partir da segunda metade do s\u00e9culo XIX. Era parte do projeto de branqueamento da popula\u00e7\u00e3o discutido e implementado durante o Segundo Reinado. Na \u00e9poca, se dizia que o sangue africano havia \u201ccorrompido\u201d a \u00edndole brasileira e que seria necess\u00e1rio oxigenar a demografia nacional pelo est\u00edmulo \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o europeia, branca e cat\u00f3lica. O governo subsidiava passagens, alojamentos e outros benef\u00edcios para os rec\u00e9m-chegados. Meus bisav\u00f3s italianos chegaram ao Brasil, em 1895, nessa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em outras regi\u00f5es do Brasil, como o Norte e o Nordeste, a imigra\u00e7\u00e3o foi inexpressiva. Salvador \u00e9 hoje a maior cidade negra do mundo fora da \u00c1frica. Ali, as desigualdades s\u00e3o assustadoras. Ao olhar o passado, conseguimos ter uma compreens\u00e3o melhor do presente. Isso inclui, al\u00e9m das desigualdades sociais e regionais, a corrup\u00e7\u00e3o, o nepotismo e o tr\u00e1fico de influ\u00eancia, o contrabando e a sonega\u00e7\u00e3o de impostos, o toma-l\u00e1-d\u00e1-c\u00e1 que tanto caracteriza as rela\u00e7\u00f5es de promiscuidade entre os interesses p\u00fablicos e privados. Tudo isso era muito forte j\u00e1 na \u00e9poca do Brasil colonial e escravista. Por isso, decidi fazer um cap\u00edtulo \u00e0 parte sobre esse tema.<\/p>\n<p>O sistema escravista portugu\u00eas e brasileiro era corrupto e corrompido, dos alicerces at\u00e9 o topo da pir\u00e2mide. Seu funcionamento dependia de suborno, extors\u00e3o, malversa\u00e7\u00e3o dos recursos p\u00fablicos, contrabando, sonega\u00e7\u00e3o de impostos, clientelismo e nepotismo, entre outras contraven\u00e7\u00f5es. Como explico na abertura desse cap\u00edtulo, obviamente havia gente honesta no Brasil colonial. Mas o exemplo que chegava de cima n\u00e3o contribu\u00eda para fixar essa imagem. Dois importantes governadores de Minas Gerais na fase inicial da corrida do ouro e dos diamantes voltaram para Lisboa muito mais ricos do que permitiam seus rendimentos. As artimanhas dos traficantes de escravos para burlar o fisco e as leis eram in\u00fameras e uma mais criativa do que a outra. O desvio de ouro, pedras preciosas e outras riquezas dominavam boa parte do com\u00e9rcio colonial.<\/p>\n<h3><strong>CC: O Brasil foi tratado, por muito tempo, como\u00a0 uma \u2018democracia racial\u2019. N\u00f3s j\u00e1 estivemos perto disso?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>LG:<\/strong>\u00a0Nunca chegamos e estamos ainda muito longe de chegar. Se \u00e9 que um dia chegaremos. Incapaz de enfrentar o legado da escravid\u00e3o, o Brasil sempre procurou disfar\u00e7\u00e1-lo construindo mitos a respeito de n\u00f3s mesmos. O mito da suposta democracia racial \u00e9 uma balela desmentida pelos fatos cotidianos. A escravid\u00e3o \u00e9, por natureza, um processo violento, repleto de dor e sofrimento, uma experi\u00eancia que se perpetua ainda hoje na forma de racismo, pobreza e desigualdade social. A vida no cativeiro no Brasil foi t\u00e3o cruel e violenta como em qualquer outro territ\u00f3rio escravista da Am\u00e9rica. A quebra da identidade e dos direitos dos escravizados era toda baseada na viol\u00eancia. Na \u00c1frica e na chegada \u00e0s Am\u00e9ricas, as pessoas eram capturadas, estocadas, marcadas a ferro quente e leiloadas como se fossem mercadorias.<\/p>\n<blockquote><p>Ao contr\u00e1rio do que, por muito tempo, sustentou a vers\u00e3o preconceituosa e excludente do colonizador, os escravizados n\u00e3o eram uma massa informe de m\u00e3o-de-obra cativa ignorante<\/p><\/blockquote>\n<p>Sua nova exist\u00eancia dependeria por completo do poder do seu dono. O simbolismo dessa nova identidade estaria nos rituais que em geral acompanhavam os processos de escraviza\u00e7\u00e3o, como marcas feitas a ferro quente no corpo do cativo, o uso de colares e pulseiras met\u00e1licas indicando quem eram seus donos, o batismo em nova religi\u00e3o, o aprendizado de uma nova l\u00edngua e de uma nova maneira de se vestir e se comportar e, por fim, a atribui\u00e7\u00e3o de um novo nome.<\/p>\n<p>Nas ilhas do Caribe, os ingleses diziam que esse era o momento de \u201ctemperar\u201d [<em>seasoning<\/em>, em ingl\u00eas] o cativo, ou seja, mostrar a ele quem, de fato, mandava, quem era o dono e senhor do seu destino. Isso envolvia uma s\u00e9rie de torturas, f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas, at\u00e9 que o escravo se \u201ccolocasse em seu lugar\u201d \u2013 ou seja, o mesmo ocupado por animais dom\u00e9sticos e de trabalho. Segundo o padre jesu\u00edta Manuel Ribeiro da Rocha, que foi mission\u00e1rio na Bahia em meados do s\u00e9culo 18, durante essa etapa, muitos senhores de engenho do Rec\u00f4ncavo Baiano tinham o h\u00e1bito deliberado de surrar os cativos. Era a primeira provid\u00eancia que tomavam depois da compra dos africanos.<\/p>\n<h3><strong>CC: H\u00e1 quem atribua essa ideia a obras como\u00a0<em>\u2018Casa Grande &amp; Senzala<\/em>\u2018, que contribuiu para a forma\u00e7\u00e3o intelectual de muitas gera\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/h3>\n<p><strong>LG:<\/strong>\u00a0Gilberto Freyre ajudou a forjar a ideia de uma escravid\u00e3o patriarcal no Brasil, na qual o negro aparece como algu\u00e9m passivo e ap\u00e1tico, bem adaptado ao mundo dos brancos e vivendo sob as ordens da casa senhorial, incapaz de reagir, protestar ou se rebelar. A t\u00e3o falada democracia racial seria resultado desse sistema peculiar do escravismo brasileiro. Essa vis\u00e3o, felizmente, est\u00e1 superada. Novos estudos apontam os escravos como agentes de seu pr\u00f3prio destino, negociando espa\u00e7os dentro da sociedade escravista,\u202forganizando irmandades religiosas, formando um sistema complexo de apadrinhamento, parentesco e alian\u00e7as que muitas vezes inclu\u00edam participar de mil\u00edcias ou bandos armados para defender os interesses do senhor contra os de um vizinho ou fazendeiro rival.<\/p>\n<blockquote><p>O sistema escravista portugu\u00eas e brasileiro era corrupto e corrompido, dos alicerces at\u00e9 o topo da pir\u00e2mide<\/p><\/blockquote>\n<p>Pequenas faltas, fugas r\u00e1pidas, corpo mole no trabalho, malfeito ou inacabado, fingir n\u00e3o dominar a l\u00edngua ou as ordens, eram todas formas de resist\u00eancia que n\u00e3o necessariamente inclu\u00edam o enfrentamento direto, como observou a historiadora Maria Helena Pereira Toledo Machado. Os escravos lutavam por coisas concretas, como o direito de constituir e manter fam\u00edlias, cultivar suas pr\u00f3prias hortas e pomares e vender seus produtos nas feiras livres, dan\u00e7ar ao som do batuque nas horas de folga e praticar seus cultos religiosos.\u202fO que nem sempre implicava em fugir, se rebelar ou pegar em armas.\u202fAinda assim, eram atos de resist\u00eancia.<\/p>\n<h3><strong>CC: A solu\u00e7\u00e3o para o Pa\u00eds se tornar, de fato, uma democracia racial passa pelo qu\u00ea?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>LG:<\/strong>\u00a0A melhor maneira de enfrentar a heran\u00e7a da escravid\u00e3o \u00e9 pela educa\u00e7\u00e3o, pela leitura e, em particular, pelo estudo da hist\u00f3ria. Precisamos entender e refletir sobre o que aconteceu. O Brasil, maior territ\u00f3rio escravista do hemisf\u00e9rio ocidental at\u00e9 meados do s\u00e9culo XIX, nunca teve um grande museu nacional da escravid\u00e3o e da cultura negra. \u00c9 uma prova do processo de apagamento da mem\u00f3ria africana.<\/p>\n<p>Acho que, oculto sob esse aparente desinteresse, existe um projeto nacional de esquecimento. O Brasil abandonou os ex-escravos e seus descendentes \u00e0 pr\u00f3pria sorte depois da Lei \u00c1urea. Abandonou tamb\u00e9m a pr\u00f3pria mem\u00f3ria da escravid\u00e3o. Temos de enfrentar de forma corajosa e decisiva o problema da desigualdade social e da viol\u00eancia decorrente do racismo no Brasil. Tamb\u00e9m por isso eu sou a favor dos programas de cotas preferenciais para afrodescendentes.<\/p>\n<h3><strong>CC: No primeiro livro, o senhor compara a escravid\u00e3o no Brasil e nos EUA e diz que aqui se alforriava mais e a expectativa de vida dos escravos era menor. Por qu\u00ea?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>LG:<\/strong>\u00a0Alguns fen\u00f4menos diferenciam o escravismo brasileiro. Um deles diz respeito ao nascimento de uma escravid\u00e3o urbana, de servi\u00e7os, de caracter\u00edsticas muito diferentes daquela observada nas antigas lavouras de cana-de-a\u00e7\u00facar que ainda predominavam na regi\u00e3o nordeste, nas ilhas do Caribe ou no sul dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o urbana deu maior mobilidade aos escravos e gerou uma nova cultura afro-brasileira com profundas influ\u00eancias em todos os aspectos da vida colonial, incluindo a culin\u00e1ria, o vestu\u00e1rio, as festas e dan\u00e7as, os rituais religiosos e o uso dos espa\u00e7os p\u00fablicos. O trabalho escravo foi respons\u00e1vel pelo surgimento de dezenas de novas vilas e cidades no interior do Brasil. Arquitetos, mestres de obra, pintores, escultores e compositores negros ou mesti\u00e7os, escravos e libertos, caso de Ant\u00f4nio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, constru\u00edram pal\u00e1cios e igrejas barrocas que ainda hoje deslumbram turistas e estudiosos do mundo inteiro em visita \u00e0s cidades hist\u00f3ricas mineiras.<\/p>\n<p>Outro fen\u00f4meno caracter\u00edstico da escravid\u00e3o brasileira foram processos de alforria. Em Minas Gerais, o aumento da popula\u00e7\u00e3o negra e mesti\u00e7a livre foi particularmente acelerado. A alta taxa de alforria \u00e9 um tra\u00e7o que diferenciou o escravismo brasileiro de todos os demais no continente americano. Havia mais possibilidades de um escravo alcan\u00e7ar a liberdade no Brasil do que no sul dos Estados Unidos ou nas col\u00f4nias europeias do Caribe.<\/p>\n<p>Essas diferen\u00e7as levaram muitos estudiosos a defender a ideia de uma escravid\u00e3o mais branda, paternalista e relaxada no Brasil, que, por sua vez, teria resultado em um Pa\u00eds com menos barreiras raciais, particularmente quando comparado aos Estados Unidos. \u00c9 uma vis\u00e3o equivocada. Os cativos brasileiros foram sempre tratados com viol\u00eancia como em qualquer outro territ\u00f3rio escravista. Havia, sim, espa\u00e7os para alian\u00e7as e negocia\u00e7\u00f5es, mas alforria foi geralmente mais uma conquista dos escravos do que uma concess\u00e3o dos escravizadores.<\/p>\n<p>Os documentos revelam que o sistema sempre cobrava um alto pre\u00e7o pela liberdade. Para compr\u00e1-la, literalmente a dinheiro, era necess\u00e1rio trabalhar muitas horas para acumular poupan\u00e7a, contar com a solidariedade de padrinhos, parentes e amigos ou de institui\u00e7\u00f5es de apoio m\u00fatuo, como as irmandades religiosas. \u00c0s vezes, o valor cobrado pela alforria era muito superior ao que os donos tinham pago pelos cativos. Entre as condi\u00e7\u00f5es impostas, estava continuar a prestar servi\u00e7os no cativeiro enquanto o senhor ou a senhora fosse vivo.<\/p>\n<h3><strong>CC: No segundo livro, o senhor se concentra entre 1700 e 1800, auge do tr\u00e1fico negreiro no Atl\u00e2ntico. Por qu\u00ea?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>LG:<\/strong>\u00a0O s\u00e9culo XVIII representa o auge da escravid\u00e3o e do com\u00e9rcio de seres humanos no continente americano, em particular no Brasil. Num intervalo de apenas cem anos, cerca de seis milh\u00f5es de homens e mulheres ficaram arrancados de suas ra\u00edzes africanas, marcados a ferro quente e transportados para o Novo Mundo acorrentados no por\u00e3o dos navios negreiros. O Brasil sozinho recebeu dois milh\u00f5es, um ter\u00e7o do total. O motor do escravismo nesse s\u00e9culo foi a descoberta de ouro e diamantes no Brasil e a dissemina\u00e7\u00e3o, em outras regi\u00f5es da Am\u00e9rica, das lavouras de monocultura, como a do a\u00e7\u00facar, do tabaco, do arroz e do algod\u00e3o, todos de uso intensivo de m\u00e3o-de-obra cativa.<\/p>\n<p>Por volta de 1750, negros escravizados eram vistos numa sucess\u00e3o ininterrupta de col\u00f4nias europeias que se desdobravam do Canad\u00e1 at\u00e9 o sul da Argentina e do Chile atuais. A despropor\u00e7\u00e3o entre brancos e negros era enorme. Na regi\u00e3o do Caribe, ocupada por franceses, ingleses, holandeses, espanh\u00f3is e dinamarqueses, os negros constitu\u00edam mais de 90% da popula\u00e7\u00e3o. Naquela \u00e9poca, Minas Gerais tinha a maior\u202fconcentra\u00e7\u00e3o\u202fde pessoas negras de todo o continente americano. Os brancos formavam uma minoria relativamente insignificante.<\/p>\n<p>Leil\u00f5es em pra\u00e7a p\u00fablica para a venda de pessoas no atacado e no varejo se tornaram cenas habituais, especialmente nos tr\u00eas principais portos de entrada dos navios negreiros \u2013 Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Nessas ocasi\u00f5es, homens e mulheres eram lavados, depilados, esfregados com sab\u00e3o, untados com \u00f3leo de coco ou dend\u00ea, pesados, medidos, examinados e apalpados em suas partes \u00edntimas, obrigados a correr, pular e exibir a l\u00edngua e os dentes.<\/p>\n<p>Ao t\u00e9rmino desse met\u00f3dico ritual, vendedores e compradores acertavam o pre\u00e7o de acordo com a idade, o sexo e o vigor f\u00edsico dos cativos que, em seguida, eram marcados a ferro quente com as iniciais da fazenda ou do nome do seu novo propriet\u00e1rio. O cultivo de grandes lavouras e a busca por novas riquezas no Brasil e no restante da Am\u00e9rica produziu uma infla\u00e7\u00e3o nos pre\u00e7os dos africanos escravizados. A procura por m\u00e3o-de-obra cativa disparou. Nada menos do que 85% das 35.000 viagens de navios negreiros para a Am\u00e9rica documentadas pelo banco de dados slavegoyages.org aconteceram depois de 1.700.<\/p>\n<p>Na \u00c1frica, o impacto do tr\u00e1fico negreiro foi enorme. A demanda cada vez maior por cativos e os pre\u00e7os crescentes pagos por eles desorganizou a economia do continente. Antigas atividades produtivas, como tecelagem, metalurgia, agricultura e pecu\u00e1ria, foram deixadas de lado sob a press\u00e3o do com\u00e9rcio escravista. Em lugar delas, instaurou-se um aumento crescente nas taxas de viol\u00eancia. Aliada aos traficantes, uma nova elite militar africana surgiu \u00e0 frente de Estados predat\u00f3rios que, apoiados com armas e recursos europeus, nasceram e se firmaram com o prop\u00f3sito de lucrar com a guerra contra seus vizinhos, vendidos como prisioneiros para capit\u00e3es de navios negreiros.<\/p>\n<h3><strong>CC: Qual Brasil o leitor encontrar\u00e1 neste segundo volume?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>LG:<\/strong>\u00a0Talvez o tra\u00e7o mais caracter\u00edstico do Brasil do s\u00e9culo XVIII tenha sido a banalidade da escravid\u00e3o. Comprar e vender gente era um fato trivial da vida cotidiana, praticado por todos os brasileiros, sem questionamentos. Mesmo irmandades religiosas de negros e mesti\u00e7os eram donas de escravos, uma vez que esse era o costume aceito por todos. Pessoas cativas almejavam a alforria, o que nem sempre era sin\u00f4nimo de abolicionismo. Uma vez conquistada a liberdade legal, in\u00fameros\u202fex-escravos\u202fse tornaram tamb\u00e9m donos de escravos. A banalidade da escravid\u00e3o me levou a fazer a introdu\u00e7\u00e3o do livro descrevendo um objeto hoje existente no Museu de Artes e Of\u00edcios de Belo Horizonte. \u00c9 uma balan\u00e7a de pesar de escravos, usada para definir o valor de seres humanos antes de leil\u00f5es de pra\u00e7a p\u00fablica, da mesma forma como, na \u00e9poca, se usavam balan\u00e7as para pesar bois, porcos, galinhos, queijos, sacos de farinha de trigo, de feij\u00e3o e de arroz.<\/p>\n<p>Mas esse \u00e9 tamb\u00e9m o per\u00edodo mais importante da constru\u00e7\u00e3o das muitas \u00c1fricas que hoje existem no cora\u00e7\u00e3o do Brasil. Como explico na abertura de um dos cap\u00edtulos desse volume da trilogia, os tra\u00e7os est\u00e3o por toda parte, na dan\u00e7a, na m\u00fasica, no vocabul\u00e1rio e na culin\u00e1ria, nas cren\u00e7as e costumes; na luta do dia-a-dia, na for\u00e7a, no semblante e no sorriso das pessoas. Est\u00e3o tamb\u00e9m na paisagem e na arquitetura, cifradas na forma de s\u00edmbolos e desenhos gravados nas paredes e fachadas das casas e casar\u00f5es, nos altares e pinturas das igrejas, nos terreiros de umbanda e candombl\u00e9.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram ou se consolidaram no s\u00e9culo XVIII alguns fen\u00f4menos que marcariam profundamente a face do escravismo brasileiro. A escravid\u00e3o urbana, de servi\u00e7os, diferente daquela observada nas antigas lavouras de cana-de-a\u00e7\u00facar na regi\u00e3o Nordeste, deu maior mobilidade aos cativos, acelerou os processos de alforria, ofereceu oportunidades \u00e0s mulheres e gerou uma nova cultura em que h\u00e1bitos de origem africana se misturaram a outros, de raiz europeia ou ind\u00edgena. Isso incluiu a dissemina\u00e7\u00e3o de festas, dan\u00e7as, rituais, irmandades e pr\u00e1ticas religiosas que ainda hoje est\u00e3o presentes no Brasil.<\/p>\n<h3>CC: De tudo apurado, o que mais te impactou?<\/h3>\n<p><strong>LC:<\/strong>\u00a0Eu me surpreendi muito ao constatar o quanto as contribui\u00e7\u00f5es africanas foram cruciais para a constru\u00e7\u00e3o do Brasil. Elas podem ser exemplificadas pela hist\u00f3ria de um homem an\u00f4nimo, negro ou mesti\u00e7o, descendente de africanos escravizados, que teria sido o respons\u00e1vel pela descoberta de ouro em Minas Gerais no final do s\u00e9culo XVII. Infelizmente, sabe-se muito pouco a seu respeito. O \u00fanico registro que dele sobrou est\u00e1 numa passagem do livro\u00a0<em>Cultura e Opul\u00eancia do Brasil<\/em>\u00a0pelas suas drogas e minas, do padre jesu\u00edta Andr\u00e9 Jo\u00e3o Antonil. At\u00e9 recentemente, uma historiografia ufanista atribu\u00eda quase que exclusivamente aos bandeirantes, todos homens supostamente brancos, a fa\u00e7anha pela descoberta de ouro e diamantes e a consequente ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio brasileiro na primeira metade do s\u00e9culo XVIII. Isso \u00e9 parcialmente verdadeiro. Embora relegados ao segundo plano nos museus, livros e salas de aula, negros e mesti\u00e7os foram, muitas vezes, protagonistas, em vez de atores secund\u00e1rios, nos grandes acontecimentos da hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>O tr\u00e1fico negreiro era menos aleat\u00f3rio e irracional do que se imagina. Ao contr\u00e1rio do que, por muito tempo, sustentou a vers\u00e3o preconceituosa e excludente do colonizador, os africanos escravizados que chegavam \u00e0 Am\u00e9rica n\u00e3o eram uma massa informe de m\u00e3o-de-obra cativa ignorante, selvagem, b\u00e1rbara, despreparada para os desafios impostos pelas diferentes atividades econ\u00f4micas desenvolvidas pelos europeus no Novo Mundo. Novos estudos t\u00eam demonstrado o oposto disso. Os africanos escravizados n\u00e3o eram apenas\u00a0<em>commodities<\/em>, mercadorias como outras quaisquer, cujo valor e pre\u00e7o dependessem somente do vigor f\u00edsico ou da for\u00e7a dos m\u00fasculos definidos pelo sexo, pela idade e pelas condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. Al\u00e9m de seres humanos acorrentados e marcados a ferro quente, os navios negreiros transportavam em seus por\u00f5es conhecimentos e habilidades tecnol\u00f3gicas da \u00c1frica que seriam cruciais na ocupa\u00e7\u00e3o europeia do continente americano. Uma dessas tecnologias era justamente a minera\u00e7\u00e3o de ouro e diamantes em Minas Gerais.<\/p>\n<p>Outra surpresa durante as pesquisas est\u00e1 relacionada ao papel das mulheres no Brasil colonial. Mulheres negras foram protagonistas de in\u00fameras hist\u00f3rias de resili\u00eancia e supera\u00e7\u00e3o que mudaram a paisagem escravista brasileira. Nessa condi\u00e7\u00e3o agiram ativamente n\u00e3o apenas para conquistar a liberdade de seus maridos e filhos, mas tamb\u00e9m para transformar a sociedade em que viviam. Ocuparam cargos importantes na dire\u00e7\u00e3o de irmandades religiosas, fundaram terreiros de candombl\u00e9, se elegeram \u201crainhas\u201d de comunidade negras, lideraram quilombos, administraram fazendas, participaram da minera\u00e7\u00e3o de ouro e diamante. O estudo do papel da mulher no Brasil escravista \u00e9 um dos temas mais fascinantes na disciplina de hist\u00f3ria. As mulheres desempenharam um papel fundamental na constru\u00e7\u00e3o da sociedade negra e mesti\u00e7a do Brasil, embora isso nem sempre seja devidamente reconhecido nos livros did\u00e1ticos.<\/p>\n<h3><strong>CC: E o terceiro volume, quando sai?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>LG:<\/strong>\u00a0O\u202fterceiro e \u00faltimo livro da trilogia, a ser lan\u00e7ado em 2022, ano do bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil, ter\u00e1 como foco principal o movimento abolicionista, o tr\u00e1fico ilegal de cativos, o fim (pelo menos do ponto de vista formal e legal) da escravid\u00e3o no s\u00e9culo XIX e ao seu legado atualmente. Pretendo mostrar como o pacto entre a aristocracia escravista e o trono brasileiro impediram que o Brasil resolvesse o problema do tr\u00e1fico negreiro e da pr\u00f3pria escravid\u00e3o ainda na \u00e9poca da Independ\u00eancia, como defendia Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrade e Silva.<\/p>\n<p>O Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds da Am\u00e9rica a acabar com o tr\u00e1fico, pela Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s, de 1850, e o \u00faltimo a abolir a pr\u00f3pria escravid\u00e3o, pela Lei \u00c1urea de Treze de Maio de 1888. Mas n\u00e3o enfrentou nem resolveu o legado da escravid\u00e3o, contrariando o que defendiam os nossos grandes abolicionistas no s\u00e9culo XIX. H\u00e1 um projeto de Brasil que ficou abortado ou interrompido naquela \u00e9poca. E isso explica muitos dos nossos problemas atuais.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: &#8216;Quartinho de empregada \u00e9 indicador de que escravid\u00e3o continua&#8217;, diz Laurentino Gomes &#8211; CartaCapital. Link: https:\/\/www.cartacapital.com.br\/entrevistas\/laurentino-gomes-o-brasil-nao-enfrentou-nem-resolveu-o-legado-da-escravidao\/?utm_campaign=novo_layout_newsletter_-_21072021&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alisson Matos &#8211; \u00c0s v\u00e9speras do lan\u00e7amento do segundo volume da trilogia\u00a0Escravid\u00e3o, Laurentino Gomes v\u00ea o Brasil distante de ser uma democracia racial. \u201cO mito da suposta democracia racial \u00e9 uma balela desmentida pelos fatos cotidianos\u201d, diz. \u201cNunca chegamos e estamos muito longe de chegar. 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