{"id":15443,"date":"2021-07-20T12:49:58","date_gmt":"2021-07-20T15:49:58","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15443"},"modified":"2021-07-18T16:51:54","modified_gmt":"2021-07-18T19:51:54","slug":"as-estranhas-derrotas-de-uma-potencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/07\/20\/as-estranhas-derrotas-de-uma-potencia\/","title":{"rendered":"As estranhas derrotas de uma pot\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><span id=\"reader-credits\" dir=\"auto\"><strong>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori<\/strong> &#8211; Na madrugada do dia 2 de julho de 2021, as tropas norte-americanas se retiraram de forma sorrateira de sua base militar de Bragam, a \u00faltima e mais importante base dos EUA no Afeganist\u00e3o, depois de uma guerra que durou exatamente 20 anos e acabou de forma absolutamente desastrosa. No conflito morreram 240 mil afeg\u00e3os e cerca de 2.500 militares americanos; os americanos ganharam muitas batalhas, mas finalmente perderam a guerra, e seu ex\u00e9rcito deixa para tr\u00e1s um pa\u00eds destru\u00eddo e dividido, \u00e0s portas de uma nova e violenta guerra civil entre as for\u00e7as do Talib\u00e3 e do atual governo afeg\u00e3o. Neste momento, as for\u00e7as talib\u00e3s v\u00eam avan\u00e7ando por todos os lados e a perspectiva \u00e9 que assumam o governo central do pa\u00eds muito mais cedo que tarde.<\/span><\/p>\n<div id=\"readability-page-1\" class=\"page\">\n<div id=\"single-the-content\">\n<blockquote><p><em>O poder pol\u00edtico \u00e9 fluxo, mais do que estoque.<br \/>\nPara existir precisa ser exercido; precisa se reproduzir<br \/>\ne ser acumulado permanentemente.<br \/>\nE o ato de conquista \u00e9 a for\u00e7a origin\u00e1ria<br \/>\nque instaura e acumula poder.<\/em><\/p>\n<p><strong>J.L.Fiori, O poder global e a nova geopol\u00edtica das na\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Ainda mais surpreendente ou chocante \u00e9 acompanhar as conversa\u00e7\u00f5es de paz entre os dois\u00a0lados do atual conflito afeg\u00e3o, que negociam as possibilidades de um pacto de conviv\u00eancia em\u00a0Teer\u00e3, sob o patroc\u00ednio do governo iraniano arqui-inimigo dos EUA. Ao mesmo tempo, os pa\u00edses-membros da Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o de Shangai, sob a lideran\u00e7a da China e da R\u00fassia, tamb\u00e9m se mobilizam para encontrar uma f\u00f3rmula que pacifique o pa\u00eds, e sobretudo impe\u00e7a que o fundamentalismo talib\u00e3 se expanda al\u00e9m das fronteiras do Afeganist\u00e3o amea\u00e7ando seus vizinhos, incluindo a pr\u00f3pria China. Ou seja, depois dos atentados de 11 de setembro e de 20 anos de guerra, os EUA conseguiram promover uma cambalhota entregando o Afeganist\u00e3o de volta aos seus principais inimigos militares desde o primeiro minuto dos bombardeios americanos no territ\u00f3rio afeg\u00e3o, ent\u00e3o controlado pelas for\u00e7as talib\u00e3s.<\/p>\n<p>O surpreendente em tudo isso, entretanto, \u00e9 que n\u00e3o se trata de uma situa\u00e7\u00e3o excepcional, ou de uma derrota imprevista. Pelo contr\u00e1rio, esta parece ter sido a regra nas guerras americanas depois da Segunda Guerra Mundial. Os EUA lideraram as for\u00e7as da ONU na Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, e depois de tr\u00eas anos de avan\u00e7os e recuos foram obrigados a assinar uma tr\u00e9gua que j\u00e1 dura 67 anos, com as tropas do Ex\u00e9rcito Popular da Coreia e com os representantes do Ex\u00e9rcito de Volunt\u00e1rios do Povo Chin\u00eas, em 27 de agosto de 1953. Depois, os norte-americanos foram derrotados na Guerra do Vietn\u00e3, de onde tiveram que se retirar de forma quase t\u00e3o ou mais vergonhosa do que agora no Afeganist\u00e3o, culminando com a famosa cena da evacua\u00e7\u00e3o da embaixada americana em Saigon e a retirada apressada, por helic\u00f3pteros, do pessoal civil e militar que ainda estava na capital sul-vietnamita, \u00e0s v\u00e9speras de sua ocupa\u00e7\u00e3o pelas tropas comandadas pelo general Van Tien Dung, do Vietn\u00e3 do Norte, no dia 30 de abril de 1975.<\/p>\n<p>Algum tempo depois dessa humilha\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, os EUA lideraram uma nova coaliz\u00e3o das\u00a0Na\u00e7\u00f5es Unidas e venceram a Guerra do Golfo de 1991, mas ap\u00f3s matar cerca de 150 mil iraquianos, desistiram de tomar Bagd\u00e1 e depor e substituir o presidente Saddam Hussein. Este havia sido protegido e aliado militar dos americanos durante a guerra Ir\u00e3-Iraque, na d\u00e9cada de 80, e depois foi transformado no seu grande inimigo nas duas guerras dos EUA contra o Iraque. Da mesma forma, em 2003, as tropas americanas, apoiadas por soldados ingleses, voltaram a derrotar os iraquianos e desta vez mataram seu presidente, mas em seguida \u201cperderam o fio da meada\u201d e acabaram entregando o Iraque aos seus principais inimigos, os xiitas iranianos. Depois disto, os americanos se envolveram na guerra civil da L\u00edbia, ajudaram a matar seu presidente e antigo aliado, Muammar al-Gaddafi, e acabaram abandonando o pa\u00eds \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte, destru\u00eddo e dividido em estado de guerra civil cr\u00f4nica at\u00e9 hoje. E algo an\u00e1logo teria ocorrido na S\u00edria, se n\u00e3o tivesse havido a interven\u00e7\u00e3o militar russa \u2013 que sustentou o presidente Bashar al-Assad, deu uma contribui\u00e7\u00e3o decisiva para derrotar as tropas do chamado Estado Isl\u00e2mico, e agora vem liderando o esfor\u00e7o de juntar os peda\u00e7os de um pa\u00eds inteiramente destru\u00eddo, dividido e na mais absoluta mis\u00e9ria. E tudo indica que o mesmo voltar\u00e1 a acontecer em alguns meses mais, depois dos Estados Unidos retirarem seu apoio militar \u00e0 interven\u00e7\u00e3o da Ar\u00e1bia Saudita no I\u00eamen.<\/p>\n<p>Deve-se agregar a esse quadro de derrotas e fracassos sucessivos da diplomacia e das tropas norte-americanas, o distanciamento de seus antigos aliados, Paquist\u00e3o e Turquia, cada vez mais pr\u00f3ximos da zona de influ\u00eancia russa e chinesa. Uma perda de influ\u00eancia que se reflete na aus\u00eancia americana das negocia\u00e7\u00f5es que est\u00e3o em pleno curso em v\u00e1rios pontos do Oriente M\u00e9dio e da \u00c1sia Central visando pacificar o \u201cGrande M\u00e9dio Oriente\u201d, inventado pelo governo Bush e destru\u00eddo pelas sucessivas administra\u00e7\u00f5es democratas e republicanas destes \u00faltimos 30 anos. Pode-se lembrar aqui, como um verdadeiro ponto de inflex\u00e3o nesta hist\u00f3ria, a irrelev\u00e2ncia dos EUA no conflito recente entre o Azerbaij\u00e3o e a Arm\u00eania, em torno ao territ\u00f3rio disputado de Nagorno-Karabakh, e sua completa irrelev\u00e2ncia nas negocia\u00e7\u00f5es da tr\u00e9gua que foi lograda com a media\u00e7\u00e3o e tutela da R\u00fassia e da Turquia.<\/p>\n<p>No entanto, realmente dif\u00edcil de entender e explicar \u00e9 como os EUA atravessaram todas essas derrotas ou fracassos no logro de seus objetivos imediatos, sem perder seu poder global. Mais do que isso, como conseguiram aumentar seu poder a cada nova derrota? Uma pergunta muito importante para entender o passado do sistema mundial em que vivemos, mas muito mais importante ainda para pensar sobre o seu futuro. Mas, ao mesmo tempo, uma pergunta que n\u00e3o tem uma resposta imediata e conjuntural, e s\u00f3 pode encontrar ou explica\u00e7\u00e3o recorrendo-se \u00e0 hist\u00f3ria de longo prazo do sistema de Estados nacionais que nasceu na Europa entre os s\u00e9culos XVII e XVIII, e que depois se universalizou nos s\u00e9culos XIX e XX, atrav\u00e9s da expans\u00e3o e das conquistas das grandes pot\u00eancias coloniais europeias. Durante toda a hist\u00f3ria deste sistema de Estados nacionais, houve sempre Estados ganhadores e Estados perdedores, e o sistema como um todo foi sempre competitivo, b\u00e9lico e expansivo. E todos os seus \u201cmembros\u201d foram obrigados a competir e fazer guerra para sobreviver nesta verdadeira corrida pelo poder e pela conquista de uma riqueza maior do que a de seus competidores, at\u00e9 porque a acumula\u00e7\u00e3o da riqueza se transformou num pe\u00e7a fundamental da luta pelo poder.<\/p>\n<p>Como disse uma vez o grande historiador e psicanalista alem\u00e3o Norbert Elias, a regra b\u00e1sica do sistema de Estados nacionais inventado pelos europeus \u00e9: \u201cquem n\u00e3o sobe, cai\u201d \u2013uma regra v\u00e1lida mesmo para as grandes pot\u00eancias que j\u00e1 se encontram na frente desta corrida sem fim. Ou seja, mesmo as chamadas \u201cgrandes pot\u00eancias\u201d desse sistema est\u00e3o obrigadas a se expandir permanentemente, aumentando seu poder e sua riqueza, para seguir ocupando as posi\u00e7\u00f5es que j\u00e1 ocupam e necessitam preservar atrav\u00e9s de suas novas conquistas e guerras que apontam na dire\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de um imp\u00e9rio universal que conseguisse monopolizar o poder dentro do sistema internacional. S\u00f3 que esse \u201cimp\u00e9rio universal\u201d \u00e9 uma impossibilidade l\u00f3gica dentro do pr\u00f3prio sistema, porque se ele se realizasse, o sistema se desintegraria ou entraria em estado de entropia, por causa do desaparecimento da pr\u00f3pria competi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 de onde vem a energia que move todo o sistema que funciona em conjunto como se fosse uma verdadeira m\u00e1quina de cria\u00e7\u00e3o de mais poder e de mais riqueza.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, a prepara\u00e7\u00e3o para a guerra e as pr\u00f3prias guerras n\u00e3o impedem a conviv\u00eancia, a complementaridade e at\u00e9 alian\u00e7as e fus\u00f5es entre os Estados envolvidos nos conflitos. \u00c0s vezes predomina o conflito, \u00e0s vezes a complementaridade, mas \u00e9 esta \u201cdial\u00e9tica\u201d que permite a exist\u00eancia de per\u00edodos mais ou menos prolongados de paz dentro do sistema mundial, sem que se interrompam a concorr\u00eancia e o conflito latente entre seus Estados mais poderosos. A pr\u00f3pria \u201cpot\u00eancia l\u00edder\u201d ou \u201chegem\u00f4nica\u201d precisa seguir expandindo seu poder de forma cont\u00ednua, para manter sua posi\u00e7\u00e3o relativa, como j\u00e1 dissemos, mas tamb\u00e9m para manter vivo o seu poder. O poder dentro deste sistema \u00e9 fluxo, \u00e9 conquista, e ele s\u00f3 existe enquanto \u00e9 exercido, n\u00e3o importa se afinal os vencedores conseguem impor ou n\u00e3o os objetivos imediatos em cada uma de suas guerras. Por mais absurdo que possa parecer, nesse sistema \u00e9 mais importante que seus Estados l\u00edderes fa\u00e7am guerras sucessivas e demonstrem seu poder militar, do que consigam realizar os seus objetivos que s\u00e3o declarados e utilizados para justificar seu exerc\u00edcio sem fim de novas guerras. O passado confirma que a pot\u00eancia l\u00edder do sistema, fosse ela a Inglaterra, nos s\u00e9culos XVIII e XIX, ou os EUA, no s\u00e9culo XX, foram os Estados que fizeram mais guerras durante toda a hist\u00f3ria do sistema interestatal que foi inventado pelos europeus, e o n\u00famero destes conflitos iniciados por estas duas pot\u00eancias l\u00edderes aumentou com o tempo e na medida em vez de diminuir na medida em que foi aumentando o poder destas duas grandes duas pot\u00eancias anglo-sax\u00f4nicas que lideraram o sistema internacional nos \u00faltimos 300 anos.<\/p>\n<p>\u00c9 por isto mesmo, ali\u00e1s, que as grandes pot\u00eancias acabam por ser tamb\u00e9m as principais \u201cdesestabilizadoras\u201d da ordem mundial, sendo que a sua \u201cpot\u00eancia hegem\u00f4nica\u201d \u00e9 invariavelmente quem destr\u00f3i com mais frequ\u00eancia as regras e institui\u00e7\u00f5es que ela mesma construiu e tutelou num momento anterior da hist\u00f3ria. Exemplo disso \u00e9 quando, em 1973, os EUA se desfizeram do \u201cpadr\u00e3o monet\u00e1rio d\u00f3lar-ouro\u201d que eles pr\u00f3prios haviam criado em Bretton Woods em 1944. E agora mais recentemente, quando o governo de Donald Trump passou a atacar e destruir todas as regras e institui\u00e7\u00f5es criadas e tuteladas pelos EUA desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em particular ap\u00f3s o fim da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Por fim, resumindo e voltando \u00e0 discuss\u00e3o sobre as sucessivas derrotas americanas no per\u00edodo em que os Estados Unidos estiveram no epicentro do sistema mundial e do seu movimento permanente de expans\u00e3o: do nosso ponto de vista, o sistema mundial \u00e9 um \u201cuniverso em expans\u00e3o\u201d, onde todos os Estados que lutam pelo \u201cpoder global\u201d \u2013 em particular, a pot\u00eancia l\u00edder ou hegem\u00f4nica \u2013 est\u00e3o sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expans\u00e3o e crise, paz e guerra. Por essa raz\u00e3o, crises, guerras e derrotas n\u00e3o s\u00e3o, necessariamente, o an\u00fancio do \u201cfim\u201d ou do \u201ccolapso\u201d da pot\u00eancia derrotada. Pelo contr\u00e1rio, podem ser uma parte essencial e necess\u00e1ria da acumula\u00e7\u00e3o de seu poder e riqueza, e an\u00fancio de novas iniciativas, guerras e conquistas. O que passou j\u00e1 ficou para tr\u00e1s, como se fosse uma perda de estoque que n\u00e3o altera necessariamente o fluxo do seu poder dirigido para frente e para novas competi\u00e7\u00f5es e conquistas.<\/p>\n<p>E \u00e9 isto exatamente que est\u00e1 acontecendo, agora, do nosso ponto de vista, quando os Estados Unidos est\u00e3o realinhando suas for\u00e7as, suas velhas alian\u00e7as, e preparando todos os seus estados\u00a0vassalos, para a disputa de poder e riqueza que j\u00e1 em curso dentro do novo eixo asi\u00e1tico do sistema mundial. E, em particular, para enfrentar o seu novo grande desafio e motor do seu pr\u00f3prio poder: a China. E deste ponto de vista, ali\u00e1s, a pr\u00f3pria retirada americana do Oriente M\u00e9dio e da \u00c1sia Central pode ser vista como parte desta nova disputa, e como uma forma de fragilizar seu novo advers\u00e1rio, desencadeando uma explos\u00e3o fundamentalista e um grande guerra religiosa e civil no territ\u00f3rio que os Estados Unidos est\u00e3o abandonando, situado exatamente na retaguarda continental da China.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: As estranhas derrotas de uma pot\u00eancia &#8211; Outras Palavras. Link: https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/as-estranhas-derrotas-de-umapotencia\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori &#8211; Na madrugada do dia 2 de julho de 2021, as tropas norte-americanas se retiraram de forma sorrateira de sua base militar de Bragam, a \u00faltima e mais importante base dos EUA no Afeganist\u00e3o, depois de uma guerra que durou exatamente 20 anos e acabou de forma absolutamente desastrosa. 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