{"id":15437,"date":"2021-07-17T12:48:51","date_gmt":"2021-07-17T15:48:51","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15437"},"modified":"2021-07-15T18:52:18","modified_gmt":"2021-07-15T21:52:18","slug":"historia-apagou-o-quanto-os-africanos-escravizados-enriqueceram-o-brasil-diz-laurentino-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/07\/17\/historia-apagou-o-quanto-os-africanos-escravizados-enriqueceram-o-brasil-diz-laurentino-gomes\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria apagou o quanto os africanos escravizados enriqueceram o Brasil, diz Laurentino Gomes"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vin\u00edcius Pereira<\/strong> &#8211; Cerca de 2 milh\u00f5es de pessoas foram arrancadas de suas terras na \u00c1frica, marcadas a ferro quente, embarcadas em navios, e comercializadas como se fossem produtos no Brasil ao longo de 100 anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, esse movimento deixou profundas cicatrizes na sociedade brasileira at\u00e9 hoje, mas, mesmo com tamanha import\u00e2ncia, ainda \u00e9 insuficientemente discutido.<\/p>\n<p>&#8220;A escravid\u00e3o \u00e9 o assunto mais importante da hist\u00f3ria do Brasil, sem ela voc\u00ea n\u00e3o consegue entender nenhum acontecimento hist\u00f3rico&#8221;, diz Laurentino Gomes, sete vezes ganhador do Pr\u00eamio Jabuti de Literatura.<\/p>\n<p>Prestes a lan\u00e7ar a segunda edi\u00e7\u00e3o de uma trilogia sobre a escravid\u00e3o no Brasil, Gomes conversou com a BBC News Brasil sobre o tema. Para o autor, que tamb\u00e9m j\u00e1 escreveu outros tr\u00eas best sellers sobre a hist\u00f3ria do Brasil, a escravid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 assunto apenas para livros de hist\u00f3ria ou museus, mas ainda se demonstra na realidade do pa\u00eds em pleno s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>&#8220;A escravid\u00e3o est\u00e1 nos indicadores sociais at\u00e9 hoje. H\u00e1 um abismo entre n\u00fameros referentes ao Brasil branco e o Brasil negro, al\u00e9m do racismo, que \u00e9 como uma ferida que fica abrindo a toda hora&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;A contribui\u00e7\u00e3o dos africanos \u00e9 enorme, n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista econ\u00f4mico, mas na forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter, do comportamento, das cren\u00e7as religiosas, da culin\u00e1ria, da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/splash\/musica\/\">m\u00fasica<\/a>, da dan\u00e7a, do jeito de as pessoas se relacionarem umas com as outras; eu diria que a raiz disso \u00e9 africana&#8221;, conta.<\/p>\n<p>O livro &#8220;Escravid\u00e3o &#8211; Da corrida do ouro em Minas Gerais at\u00e9 a chegada da corte de Dom Jo\u00e3o ao Brasil&#8221; concentra-se entre 1700 e 1800, auge do tr\u00e1fico negreiro no Atl\u00e2ntico, motivado pela descoberta das minas de ouro e diamantes em territ\u00f3rio brasileiro e pela dissemina\u00e7\u00e3o, em outras regi\u00f5es da Am\u00e9rica, do cultivo de cana-de-a\u00e7\u00facar, arroz, tabaco, algod\u00e3o e outras lavouras e atividades de uso intensivo de m\u00e3o-de-obra africana escravizada.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas mais ricas do Brasil no final do s\u00e9culo 18 n\u00e3o eram senhores de engenho, bar\u00f5es do caf\u00e9, j\u00e1 n\u00e3o eram mais os mineradores de ouro e diamante, mas sim os traficantes de escravos. A compra e venda de pessoas se tornou o maior neg\u00f3cio do Brasil e do mundo nessa \u00e9poca&#8221;, afirma.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A escravid\u00e3o \u00e9 o assunto mais importante da hist\u00f3ria do Brasil&#8221;, afirma Laurentino Gomes<\/p><\/blockquote>\n<p>De acordo com o autor, para al\u00e9m da influ\u00eancia social marcante, os negros escravizados tamb\u00e9m auxiliaram o desenvolvimento econ\u00f4mico do pa\u00eds, contribuindo com a tecnologia necess\u00e1ria para a descoberta e explora\u00e7\u00e3o das minas de ouro e diamantes em territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p>&#8220;A pr\u00f3pria tecnologia de minera\u00e7\u00e3o de Minas Gerais aparentemente veio da \u00c1frica e n\u00e3o da Europa. Os portugueses sabiam fazer a\u00e7\u00facar, mas n\u00e3o sabiam garimpar ouro e diamante. Quem sabiam eram os africanos, que conheciam essas tecnologias muito bem&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;Isso muda bem a vis\u00e3o da escraviza\u00e7\u00e3o e da pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o do Brasil. A tecnologia e o conhecimento que permitiram a constru\u00e7\u00e3o do Brasil e de seus muitos ciclos econ\u00f4micos eram africanos.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar da import\u00e2ncia desse acontecimento hist\u00f3rico para a forma\u00e7\u00e3o do Brasil atual, a hist\u00f3ria ainda \u00e9 pouco contada pelo ponto de vista dessas pessoas escravizadas, pois h\u00e1 um processo de apagamento hist\u00f3rico da contribui\u00e7\u00e3o dos africanos ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;Esse projeto de apagamento se reflete nos livros de hist\u00f3ria, livros did\u00e1ticos, como se a constru\u00e7\u00e3o do Brasil fosse exclusivamente branca e europeia e todos os demais agentes fossem autores secund\u00e1rios. Quando voc\u00ea mergulha de fato na hist\u00f3ria da escravid\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea que, na realidade, essas pessoas escravizadas s\u00e3o protagonistas&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Segundo Gomes, a imagem de uma escravid\u00e3o mais s\u00fatil e ben\u00e9vola ao cativo por aqui, forjando uma identidade brasileira de gente pac\u00edfica, ordeira e honesta, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o imposta pelo Estado e n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade da \u00e9poca.<\/p>\n<p>&#8220;A caracter\u00edstica principal da escravid\u00e3o era a viol\u00eancia&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Confira a entrevista de Laurentino Gomes \u00e0 BBC News Brasil:<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Voc\u00ea vendeu milh\u00f5es de livros sobre a hist\u00f3ria do Brasil. Por que se dedicar agora ao recorte da escravid\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laurentino Gomes &#8211;\u00a0<\/strong>Escrever sobre escravid\u00e3o \u00e9 resultado de um aprendizado sobre o Brasil que fui acumulando ao longo da primeira trilogia. \u00c9 como se fosse um resultado natural e \u00f3bvio desse primeiro trabalho. Nos primeiros livros, eu procurei entender e descrever o Brasil em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um Estado nacional brasileiro, ou seja, como que o Brasil se organizou do ponto de vista legal, institucional, administrativo, burocr\u00e1tico, desde a chegada da corte ao Rio de Janeiro, em 1808, at\u00e9 a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1889. Ali eu consegui ter uma no\u00e7\u00e3o bastante precisa sobre as caracter\u00edsticas do Brasil. Mas me dei conta que tinha uma dimens\u00e3o mais profunda para entender o que chamamos de identidade nacional brasileira, que s\u00e3o as ra\u00edzes africanas e a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o \u00e9 o assunto mais importante da hist\u00f3ria do Brasil: voc\u00ea n\u00e3o consegue entender nenhum acontecimento hist\u00f3rico, desde a chegada de Pedro \u00c1lvares Cabral e a imediata escraviza\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, passando pelo ciclo do a\u00e7\u00facar, do ouro, do diamante, do tabaco, do algod\u00e3o, do arroz, do caf\u00e9, ou seja, a constru\u00e7\u00e3o das cidades hist\u00f3ricas, do Barroco mineiro, a marcha em dire\u00e7\u00e3o ao oeste amaz\u00f4nico, sem estudar a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>O S\u00e9rgio Buarque de Holanda defende uma tese muito curiosa, de que o Brasil n\u00e3o estava preparado para a independ\u00eancia e preferia continuar como Reino Unido de Portugal e Algarves. Mas, nesse per\u00edodo h\u00e1 um sentimento de medo que funciona como um motor do processo de independ\u00eancia, pois a elite brasileira percebeu que o Brasil poderia mergulhar em uma guerra civil republicana, como acontecia na Am\u00e9rica espanhola.<\/p>\n<p>Nessa hip\u00f3tese, como o Brasil n\u00e3o tinha for\u00e7as armadas, os caciques regionais lutariam entre si, e teriam que armar seus escravos. Esses escravos armados, imbu\u00eddos de ideias libert\u00e1rias que sopravam da Europa e EUA, poderiam reivindicar a liberdade, exatamente como ocorreu no Haiti.<\/p>\n<p>Ou seja, o Brasil poderia resultar em uma fragmenta\u00e7\u00e3o nacional e em meio a uma guerra \u00e9tnica. Isso fez com que a elite, para preservar seus interesses, se congregasse ao redor do herdeiro da Coroa portuguesa, rompesse o ciclo com Portugal, mas mantivesse a estrutura social vigente.<\/p>\n<p>A independ\u00eancia n\u00e3o acabou com o analfabetismo, com o latif\u00fandio, etc. Cito esse exemplo para mostrar que voc\u00ea n\u00e3o consegue entender o Brasil sem observar a escravid\u00e3o. A escravid\u00e3o \u00e9 um assunto presente no Brasil de hoje.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; No primeiro livro voc\u00ea se dedica a oferecer um foco sobre a \u00c1frica. Por que o segundo tem um olhar sobre o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gomes &#8211;<\/strong> Existe uma mudan\u00e7a importante de foco geogr\u00e1fico entre os dois livros. O primeiro come\u00e7a pela \u00c1frica pela raz\u00e3o \u00f3bvia que, para estudar escravid\u00e3o no Brasil, voc\u00ea precisa olhar para a \u00c1frica. Que continente era esse com milhares de l\u00ednguas, etnias e povos? Como era a pr\u00f3pria escravid\u00e3o na \u00c1frica antes da chegada dos portugueses? As rotas do tr\u00e1fico isl\u00e2mico cruzando o deserto do Saara, feiras organizadas, ou seja, qual \u00e9 a origem desses milh\u00f5es de seres humanos que foram arrancados de suas ra\u00edzes, marcados a ferro quente, embarcados em navios negreiros e leiloados em pra\u00e7a p\u00fablica? Ent\u00e3o por isso o primeiro volume tem como cen\u00e1rio a \u00c1frica.<\/p>\n<p>O segundo, que tem como recorte cronol\u00f3gico o s\u00e9culo 18 s\u00f3 poderia ter como cen\u00e1rio o Brasil. \u00c9 o auge do tr\u00e1fico negreiro no Atl\u00e2ntico, no per\u00edodo de apenas 100 anos, entram no Brasil dois milh\u00f5es de pessoas escravizadas, que \u00e9 um ter\u00e7o do total que veio ao continente americano, que compreende seis milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>No Brasil do s\u00e9culo 18 ocorrem coisas muito importantes. A primeira \u00e9 que a escravid\u00e3o se torna algo banal e corriqueiro. Gosto de um exemplo que chegou a tal a ponto que em um museu de Belo Horizonte tem balan\u00e7a de pesar queijo, farinha, boi e uma de pesar gente antes de leil\u00f5es p\u00fablicos -o que mostra o quanto a escravid\u00e3o se tornou algo corriqueiro no Brasil. Pela descoberta do ouro e diamantes veio uma onda, um tsunami negro da \u00c1frica para alimentar esse com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, a popula\u00e7\u00e3o brasileira se multiplicou por dez. H\u00e1 uma corrida de aventureiros, gente de todos os locais do mundo, e o Brasil dobra de tamanho, j\u00e1 que at\u00e9 meados do s\u00e9culo 17 o territ\u00f3rio oficial da Am\u00e9rica portuguesa estava delimitado pelo Tratado de Tordesilhas, mas o Tratado de Madri, de 1750, reconhece o tamanho efetivo do Brasil e o pa\u00eds dobra de tamanho.<\/p>\n<p>E, por isso, \u00e9 o foco do segundo e do terceiro livro, que pretendo lan\u00e7ar no ano que vem.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Como era, de forma geral, a vida dos africanos escravizados no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gomes &#8211;<\/strong>\u00a0Com a corrida do ouro e do diamante e a ocupa\u00e7\u00e3o do interior do Brasil, houve uma infla\u00e7\u00e3o no pre\u00e7o dos africanos escravizados. Ent\u00e3o, da mesma forma que houve uma corrida pelas pedras preciosas, houve uma corrida por gente escravizada na \u00c1frica, com os pre\u00e7os disparando. Oitenta por cento de todas as viagens de navios negreiros foram feitas a partir do come\u00e7o do s\u00e9culo 18 at\u00e9 o s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>A caracter\u00edstica principal da escravid\u00e3o era a viol\u00eancia. Essas pessoas eram arrancadas de suas ra\u00edzes africanas, compradas e vendidas em entrepostos, castelos e fortifica\u00e7\u00f5es que ficavam no litoral da \u00c1frica, marcadas a ferro quente, embarcadas em um por\u00e3o de um navio negreiro, leiloadas em pra\u00e7a p\u00fablica em Salvador, Recife e outros portos, e a\u00ed seguiam em comboios para as minas de ouro, fazendas e para as cidades.<\/p>\n<p>Ou seja, o principal mecanismo de controle era a viol\u00eancia. O escravo que fugisse era marcado com ferro quente, com a letra F no peito ou sobre o ombro, poderia ter a orelha cortada. Foi discutido na C\u00e2mara, em Mariana (MG), a possibilidade de cortar o tend\u00e3o de Aquiles para quem fugisse mais de uma vez.<\/p>\n<p>Muita gente morreu. O trabalho era horroroso. Na minera\u00e7\u00e3o nos leitos dos rios, os escravos passavam doze, 14 horas mergulhados em \u00e1guas geladas, muitos morriam. Depois que acabou esse tipo de garimpo, eles tinham que se enfiar em buracos na terra para achar os veios de ouro subterr\u00e2neo, e como era um espa\u00e7o muito apertado, muitas crian\u00e7as eram usadas neste trabalho devido \u00e0 baixa estatura.<\/p>\n<p>Neste trabalho, muita gente morria por desmoronamento, excesso de peso, doen\u00e7as pulmonares dos res\u00edduos, poeira e umidade. O trabalho era muito dif\u00edcil, mas em Minas Gerais tamb\u00e9m surge a chamada escravid\u00e3o urbana, ou seja, de servi\u00e7o, com\u00e9rcio, de fornecimento de alimentos, que mudou a paisagem escravista, dando mais mobilidade aos escravos.<\/p>\n<p>(Isso) deu um papel de destaque para as mulheres, favoreceu o desenvolvimento das irmandades religiosas, deu mais chances de alforria, pois o escravo em ambiente urbano poderia fazer trabalhos extras e talvez comprar a pr\u00f3pria liberdade, o que vai mudando o escravismo brasileiro, inclusive alguns participaram da constru\u00e7\u00e3o do barroco mineiro, como escultores, pintores, etc.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil -Para al\u00e9m desse contexto social, a escravid\u00e3o tamb\u00e9m era uma pol\u00edtica econ\u00f4mica. Como a economia brasileira se organizava em torno da explora\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gomes &#8211;\u00a0<\/strong>A escravid\u00e3o no s\u00e9culo 17 se consolidou como o maior neg\u00f3cio do mundo, envolvendo milhares de pessoas para al\u00e9m das pessoas escravizadas, como compradores e vendedores dos dois lados do Atl\u00e2ntico, a tripula\u00e7\u00e3o dos navios, fornecedores de cr\u00e9dito, armadores, fabricantes de mercadorias, de armas, etc, na Europa, na \u00cdndia, na Am\u00e9rica, na pr\u00f3pria \u00c1frica.<\/p>\n<p>Isso vira um neg\u00f3cio equivalente hoje \u00e0 ind\u00fastria do autom\u00f3vel ou do petr\u00f3leo, ou seja, uma coisa gigantesca. Isso valia tamb\u00e9m para o Brasil. As grandes riquezas, as pessoas mais ricas do Brasil no final do s\u00e9culo 18 n\u00e3o eram senhores de engenho, bar\u00f5es do caf\u00e9, j\u00e1 n\u00e3o eram mais os mineradores de ouro e diamante, mas sim eram os traficantes de escravos. A compra e venda de pessoas se tornou o maior neg\u00f3cio do Brasil e do mundo nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o se tornou um fato natural da vida, quase que inquestion\u00e1vel nessa \u00e9poca. O abolicionismo s\u00f3 surgiria na Inglaterra e nos EUA no final do s\u00e9culo 18. At\u00e9 ent\u00e3o, todo mundo aceitava a escravid\u00e3o, inclusive negros que, depois de alcan\u00e7ar a alforria, compravam escravos, como o caso mais famoso, a Xica da Silva, que nasceu escrava e se casou com o contratador de diamantes Jo\u00e3o Fernandes, conquistando a alforria, e se tornou uma grande dama da sociedade da atual Diamantina. No final da vida, ela era dona de um enorme plantel de escravos.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil -A religi\u00e3o tamb\u00e9m aparece como forte fator de controle sobre os cativos. Qu\u00e3o importante foi a participa\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica no processo de escravid\u00e3o dos africanos em solo brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gomes &#8211;\u00a0<\/strong>[O Brasil] era uma col\u00f4nia carola de sacristia, em que toda a vida social era regida por dias santos, feriados, prociss\u00f5es, missas, vias sacras, e \u00e9 interessante pois h\u00e1 uma grande contradi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tem uma igreja que se compromete a catequizar os negros africanos com a mensagem do evangelho da miseric\u00f3rdia, do amor, do acolhimento, mas essa mesma mensagem \u00e9 deturpada e usada para justificar a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>No primeiro volume, eu mostro como as bulas papais, os serm\u00f5es dos padres jesu\u00edtas, tratados filos\u00f3ficos a partir do s\u00e9culo 14 serviram como alicerce para essa ideologia escravista, ao dizer que os africanos eram pessoas inferiores, eram selvagens, praticantes de religi\u00f5es demon\u00edacas e, portanto, a escravid\u00e3o era boa para eles.<\/p>\n<p>H\u00e1 um serm\u00e3o famoso que diz que os escravos deveriam agradecer Nossa Senhora do Ros\u00e1rio pela oportunidade de vir ao Brasil em um navio negreiro, j\u00e1 que isso era a oportunidade de se incorporar a uma suposta sociedade mais avan\u00e7ada, que era cat\u00f3lica e europeia.<\/p>\n<p>Tem um historiador americano chamado Donald Ramos que mostra que a igreja foi um importante elemento de controle social dentro do sistema escravista, pois ela dava oportunidade ao escravo de se incorporar dentro dessa atividade social participando de irmandades religiosas das igrejas, participando de prociss\u00e3o, batizando, casando seus filhos, participando de cerim\u00f4nias f\u00fanebres, etc.<\/p>\n<p>Isso deu ao escravo um status social diferenciado dentro da sociedade portuguesa nos tr\u00f3picos, embora ele continuasse cativo, ent\u00e3o isso era um papel como se fosse uma v\u00e1lvula de escape contra a viol\u00eancia do cativeiro, do pelourinho e da senzala.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Nas cidades hist\u00f3ricas de MG, principal territ\u00f3rio onde a m\u00e3o de obra escrava foi utilizada, pouco se fala sobre a escravid\u00e3o. A hist\u00f3ria ainda \u00e9 contada pelo ponto de vista da Igreja e elite financeira. Acha que esse recorte pode mudar no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gomes &#8211;<\/strong>\u00a0Eu acho que sim. Eu fiz um cap\u00edtulo chamado de o her\u00f3i invis\u00edvel, sobre um personagem curios\u00edssimo, ningu\u00e9m sabe o nome, quem era, onde nasceu ou onde morreu. O \u00fanico registro sobre ele o descreve como um mulato vindo do Paranagu\u00e1 (PR), onde havia uma minera\u00e7\u00e3o mais rudimentar, e teria achado ouro em Minas Gerais.<\/p>\n<p>Ele salvou a gl\u00f3ria de Portugal, que estava seriamente abalada no s\u00e9culo 18, depois da guerra contra os holandeses e da Uni\u00e3o Ib\u00e9rica. Isso muda bastante a narrativa, pois pela historiografia ufanista brasileira esse protagonismo caberia aos bandeirantes, como Fern\u00e3o Dias Paes Leme, Borba Gato, que entraram pelo sert\u00e3o, alargaram fronteiras, descobriram ouro, diamantes, etc, portanto uma hist\u00f3ria branca e do colonizador.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria tecnologia de minera\u00e7\u00e3o de Minas Gerais aparentemente veio da \u00c1frica e n\u00e3o da Europa. Os portugueses sabiam fazer a\u00e7\u00facar, mas n\u00e3o sabiam garimpar ouro e diamante. Quem sabiam era os africanos, que conheciam essas tecnologias muito bem na costa do Ouro ou costa da Mina, nos atuais Togo, Costa do Marfim e Gana. Essa tecnologia de achar ouro veio da \u00c1frica.<\/p>\n<p>O tr\u00e1fico negreiro n\u00e3o era apenas o com\u00e9rcio de gente na forma de commodity, gente cujo trabalho dependia do vigor f\u00edsico &#8211; havia especializa\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o os africanos que vinham dos atuais Guin\u00e9-Bissau e Costa do Marfim sabiam muito bem a pecu\u00e1ria. Os africanos da Nig\u00e9ria entendiam de metalurgia, os de Gana conheciam a minera\u00e7\u00e3o de ouro e assim por diante.<\/p>\n<p>Os escravos que foram para o Maranh\u00e3o e para a Carolina do Norte, nos EUA, conheciam cultivo de arroz na \u00c1frica e ainda hoje essas regi\u00f5es produzem arroz.<\/p>\n<p>Isso muda bem a vis\u00e3o da escraviza\u00e7\u00e3o e da pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o do Brasil. A tecnologia e o conhecimento que permitiu a constru\u00e7\u00e3o do Brasil e de seus muitos ciclos econ\u00f4micos era africana.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o desses escravos era diferenciado na \u00c1frica de acordo com sua especializa\u00e7\u00e3o. Os traficantes e seus fornecedores n\u00e3o eram bobos, sabiam da especializa\u00e7\u00e3o e o pre\u00e7o variava de acordo com o seu conhecimento tecnol\u00f3gico na pr\u00f3pria \u00c1frica.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; A hist\u00f3ria e cultura africana sempre foram deixadas em segundo plano, quando n\u00e3o apagadas intencionalmente. Quais as principais contribui\u00e7\u00f5es dos escravos para o Brasil atual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gomes &#8211;<\/strong>\u00a0S\u00e3o muitas. Os grandes ciclos econ\u00f4micos dependeram do trabalho bra\u00e7al dos africanos, mas tamb\u00e9m do seu conhecimento tecnol\u00f3gico. Os grandes mestres construtores do Barroco mineiro, da Bahia, Pernambuco, eram negros. At\u00e9 recentemente, se julgava que o Barroco era uma forma art\u00edstica e arquitet\u00f4nica europeia. Sim, claro, a influ\u00eancia \u00e9 europeia, mas os elementos que est\u00e3o l\u00e1 s\u00e3o africanos.<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o dos africanos \u00e9 enorme n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista econ\u00f4mico, mas na forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter, do comportamento, das cren\u00e7as religiosas, da culin\u00e1ria, da m\u00fasica, da dan\u00e7a, do jeito de as pessoas se relacionarem umas com as outras, eu diria que a raiz disso \u00e9 africana.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um assunto de livro de hist\u00f3ria ou museu, \u00e9 uma realidade concreta no s\u00e9culo 21. Voc\u00ea v\u00ea a escravid\u00e3o na paisagem brasileira, voc\u00ea vai ao Rio de Janeiro e v\u00ea quem mora na zona sul e quem mora nos morros e periferias abandonadas pelo Estado, \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o majoritariamente descendente de africanos.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o est\u00e1 nos indicadores sociais at\u00e9 hoje. H\u00e1 um abismo entre n\u00fameros referentes ao Brasil branco e o Brasil negro, al\u00e9m do racismo, que \u00e9 como uma ferida que fica abrindo a toda hora, como vemos todos os dias not\u00edcias de racismo expl\u00edcito nas redes sociais, no notici\u00e1rio, etc.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o legado da escravid\u00e3o est\u00e1 nesse Brasil ruim que citei, mas est\u00e1 no Brasil bonito, plural, sorridente, generoso, da m\u00fasica, das festas, mas essa \u00c1frica infelizmente a gente despreza.<\/p>\n<p>Uma \u00c1frica que \u00e9 bonita, diferencia o Brasil do mundo, j\u00e1 que poucos pa\u00edses s\u00e3o t\u00e3o plurais, heterog\u00eaneos e diversos como o Brasil, mas n\u00e3o valorizamos essa \u00c1frica quando temos que dar moradia, renda, estudo. \u00c9 um dilema que o Brasil vive em rela\u00e7\u00e3o ao seu passado escravagista.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; E por que n\u00e3o discutimos essas heran\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gomes &#8211;\u00a0<\/strong>Eu acho que existe um projeto nacional de apagamento da mem\u00f3ria. Por que n\u00e3o h\u00e1 um grande museu da escravid\u00e3o? N\u00e3o tem um museu como o que [o ex-presidente dos EUA], Barack Obama, inaugurou em Washington, nos EUA, por exemplo.<\/p>\n<p>Esse projeto de apagamento se reflete nos livros de hist\u00f3ria, livros did\u00e1ticos, como se a constru\u00e7\u00e3o do Brasil fosse exclusivamente branca e europeia, e todos os demais agentes fossem autores secund\u00e1rios. Quando voc\u00ea mergulha de fato na hist\u00f3ria da escravid\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea que na realidade essas pessoas escravizadas s\u00e3o protagonistas.<\/p>\n<p>Mas acho que isso est\u00e1 mudando. A hist\u00f3ria \u00e9 uma ferramenta de constru\u00e7\u00e3o de identidade, olhando o passado sabemos quem somos hoje. Essa identidade, no passado, foi imposta pelo Estado brasileiro de cima para baixo, em per\u00edodos de ditadura, como a do Estado Novo, como pelos generais, e \u00e9 uma identidade que vende um Brasil de faz de conta, que teve uma escravid\u00e3o patriarcal, ben\u00e9vola, que resultou em uma democracia racial e um Brasil pacifico, ordeiro, honesto.<\/p>\n<p>Agora na democracia, que \u00e9 uma coisa quase que in\u00e9dita na hist\u00f3ria brasileira, estamos rediscutindo esses tra\u00e7os da identidade brasileira, entendendo que a imensa maioria deles era puramente mitol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Estamos fazendo uma reflex\u00e3o muito profunda. A curto prazo \u00e9 assustador o quanto somos diferentes do que imaginamos que \u00e9ramos, mas a longo prazo \u00e9 muito bom que isso ocorra, pois teremos uma consci\u00eancia mais clara a respeito do que \u00e9 o Brasil e quais as decis\u00f5es teremos que tomar ao colocar o voto na urna e termos um pa\u00eds melhor que hoje.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Laurentino: Hist\u00f3ria apagou o quanto escravizados enriqueceram Brasil. Link: https:\/\/noticias.uol.com.br\/ultimas-noticias\/bbc\/2021\/06\/27\/historia-apagou-o-quanto-africanos-escravizados-enriqueceram-o-brasil-diz-laurentino-gomes.htm<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vin\u00edcius Pereira &#8211; Cerca de 2 milh\u00f5es de pessoas foram arrancadas de suas terras na \u00c1frica, marcadas a ferro quente, embarcadas em navios, e comercializadas como se fossem produtos no Brasil ao longo de 100 anos. 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