{"id":15431,"date":"2021-07-15T12:45:47","date_gmt":"2021-07-15T15:45:47","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15431"},"modified":"2021-07-11T19:49:26","modified_gmt":"2021-07-11T22:49:26","slug":"proust-uma-voz-contra-o-esnobismo-burgues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/07\/15\/proust-uma-voz-contra-o-esnobismo-burgues\/","title":{"rendered":"Proust, uma voz contra o esnobismo burgu\u00eas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ronaldo Tadeu de Souza <\/strong>&#8211; Para arquitetar obra vanguardista e cr\u00edtica sobre arrog\u00e2ncia das elites, da qual fazia parte, escritor franc\u00eas precisou se enclausurar. Vasculhou, ent\u00e3o, arte, inconsciente e mem\u00f3ria para recuperar, de forma profana e revolucion\u00e1ria, o tempo perdido.<\/p>\n<p>Walter Benjamin afirmava em seu ensaio\u00a0<em>A imagem de Proust<\/em>\u00a0que o escritor franc\u00eas autor do\u00a0<em>Em busca do tempo perdido\u00a0<\/em>havia demonstrado com sua nova forma de romance qual era o sentido do esnobismo da burguesia francesa de ent\u00e3o e intu\u00eda que Marcel Proust e sua monumental obra s\u00f3 seriam compreendidos no momento da luta final em que a burguesia expressaria toda sua disposi\u00e7\u00e3o distintiva de classe. O real produto est\u00e9tico que, eventualmente, emerge da narrativa de Proust \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o que para melhor desenvolver uma an\u00e1lise sobre um conjunto de fen\u00f4menos sociais e de que criam impress\u00f5es negativas e positivas na estrutura sensitiva e ps\u00edquica dos indiv\u00edduos-personagens seria um procedimento balizado por uma temporalidade hist\u00f3rica descont\u00ednua e feita por rupturas \u2013 as constru\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria e da imagina\u00e7\u00e3o, que surgem no momento das conting\u00eancias, em Proust vistas com o \u201cobjetivo\u201d de permitir a figura\u00e7\u00e3o deste \u201cm\u00e9todo\u201d de interpreta\u00e7\u00e3o. Algo deste estilo foi iniciado pelo romance hist\u00f3rico e a vida de Honor\u00e9 de Balzac.\u00a0<em>A com\u00e9dia humana<\/em>\u00a0\u00e9 a primeira tentativa de construir uma forma de \u201can\u00e1lise\u201d (e explicita\u00e7\u00e3o s\u00f3 social e da cultura) a partir de certas descontinuidades hist\u00f3rico-existenciais. Como o balzaquianismo opera? Comecemos brevemente por ele e passemos depois para o m\u00e9todo proustiano de cr\u00edtica social.<\/p>\n<p>O vigor liter\u00e1rio da obra de Balzac est\u00e1 em: possuir uma estrutura narrativa de deslocamento \u2013 em linguagem dial\u00e9tica, uma abstra\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel \u2013 das circunst\u00e2ncias imediatas para realizar seu enredo liter\u00e1rio de cr\u00edtica da sociedade francesa da \u00e9poca da restaura\u00e7\u00e3o \u2013 e fornecer para as humanidades uma das formas mais heterodoxas de compreens\u00e3o s\u00f3cio-hist\u00f3rica at\u00e9 hoje constitu\u00edda na modernidade. Balzac permanece na esfera cultural do que era origin\u00e1rio da aristocracia francesa, e n\u00e3o desce ao complexo mundo em ascens\u00e3o da moderna sociedade burguesa. Nestes termos ele n\u00e3o postula atrav\u00e9s da sua narrativa uma linearidade, intransigentemente cont\u00ednua. Seu andaime liter\u00e1rio \u00e9 o reverso do de S\u00f3focles, na medida em que como convencionalmente se dir\u00e1 que para compreender o mundo antigo e sua arquitetura moral ele, em suas trag\u00e9dias, lan\u00e7ou-se no sentir a plenitude a viv\u00eancia limitada do homem grego tendo enquanto corol\u00e1rio est\u00e9tico, obras liter\u00e1rias que compunham um sistema-explica\u00e7\u00e3o socioest\u00e9tico e sociomoral<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/proust-uma-voz-contra-o-esnobismo-burgues\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>\u00a0hist\u00f3rico da ang\u00fastia do homem da \u00e1tica enredado no cosmo compacto do ser<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/proust-uma-voz-contra-o-esnobismo-burgues\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a>\u00a0(Allan, 2014). Na\u00a0<em>Com\u00e9dia humana<\/em>\u00a0tamb\u00e9m est\u00e1 ausente a experi\u00eancia de entendimento t\u00edpica da Idade M\u00e9dia, na chave ainda do \u201caprisionamento\u201d convencional. Pois a \u00fanica disposi\u00e7\u00e3o explicativa do sistema feudal fechado e modelado pela hierarquizada conceitua\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica era a exist\u00eancia org\u00e2nico-transcendente neste mundo \u2013 ensinada nas universidades, escola de doutrina\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e mosteiros, ao qual a presen\u00e7a de Tomas de Aquino, professor nas institui\u00e7\u00f5es de ensino no per\u00edodo do medievo n\u00e3o s\u00f3 confirma a assertiva enquanto tal, como explicita o principal \u00e2mbito interpretativo do mundo da idade media e da teologia crist\u00e3. N\u00e3o \u00e9 o procedimento balzaquiano.<\/p>\n<p>A despeito de ser um frequentador da sociedade aristocrata, as formula\u00e7\u00f5es de Balzac, cr\u00edticas (e revolucion\u00e1rias) do novo mundo em surgimento, s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis porque na literatura do franc\u00eas n\u00e3o existe espelhamento e muito menos uma plasma\u00e7\u00e3o direta e fidedigna da tessitura cultural. Isto \u00e9 fact\u00edvel porque Balzac est\u00e1 desprendido (alteridade da experi\u00eancia) do movimento real-objetivo, cognitivamente, na medida em que conjura contra a nova classe ainda na esfera est\u00e9tico-social da classe derrotada, de tal modo que sua vis\u00e3o sarc\u00e1stica amplia-se sobremaneira. Honor\u00e9 de Balzac n\u00e3o est\u00e1 entrela\u00e7ado nas tramas e emula\u00e7\u00f5es do mundo social burgu\u00eas; a posi\u00e7\u00e3o aristocr\u00e1tica (que ainda \u201csubsistia\u201d nele e no seu contexto) configura, portanto e concernente a um m\u00e9todo liter\u00e1rio-cr\u00edtico \u2013 uma temporalidade hist\u00f3rica descont\u00ednua. Assim, podemos observar em\u00a0<em>As ilus\u00f5es perdidas<\/em>\u00a0Balzac narrar:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>hoje ele nos mata, assim como nos salvava h\u00e1 alguns meses enviando-nos as prim\u00edcias de seu ganho! \u2013 respondeu o bom David, que teve ao bom senso de compreender que o desespero levava sua mulher al\u00e9m dos limites e que ela em pouco tempo retornaria a seu amor por Luciano. Mercier dizia em seu Quadro de Paris, h\u00e1 cinquenta anos, que a literatura, a poesia, as letras e a ci\u00eancia, cria\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro jamais dariam de comer um homem; e Luciano na sua qualidade de poeta, n\u00e3o acreditou na experi\u00eancia de cinco s\u00e9culos (1994, p. 511).<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta s\u00edntese pol\u00eamica sobre sua sociedade implica dois momentos: primeiro, a vis\u00e3o \u201cpessimista\u201d da aristocracia quanto aos desenlaces da moderna sociedade burguesa \u2013 a cr\u00edtica revolucion\u00e1ria da escrita balzaquiana (contraditoriamente) faz-se neste quadro referencial; segundo, a configura\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria contida na obra de Balzac s\u00e3o os primeiros germes da vanguarda est\u00e9tica que ira se efetivar em Baudelaire e na constru\u00e7\u00e3o da obra de arte (aut\u00f4noma) como ideia de felicidade. Deste modo, a alteridade da escrita de Balzac tem como alicerce sua posi\u00e7\u00e3o na esfera aristocr\u00e1tica, ferida pelas confabula\u00e7\u00f5es ardilosas da nova classe<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/proust-uma-voz-contra-o-esnobismo-burgues\/#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Todo isso para dizermos que Proust intensifica a capacidade de alteridade liter\u00e1ria contida em Balzac e realiza um verdadeiro salto est\u00e9tico na constitui\u00e7\u00e3o estrutural de uma cr\u00edtica ao esnobismo de classe vigente na Fran\u00e7a de ent\u00e3o. Com efeito, a postula\u00e7\u00e3o est\u00e9tica proustiana conforma-se por meio da temporalidade hist\u00f3rica que irrompe \u2013 o complexo arcabou\u00e7o liter\u00e1rio de\u00a0<em>Em busca do tempo perdido<\/em>\u00a0\u00e9, nas mais variadas experi\u00eancias sensitivas, a corrobora\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo cr\u00edtico de vanguarda das coisas mundanas, posto em movimento por um indiv\u00edduo que passou momentos significativos de sua vida \u201cenclausurado\u201d (tentando se proteger dos infort\u00fanios e infelicidades compuls\u00f3rias pela realidade esnobista da sociedade francesa do fim do s\u00e9culo XIX e do entre guerras). Como Marcel Proust constr\u00f3i a temporalidade narrativa intermitente (seu \u201cm\u00e9todo\u201d cr\u00edtico)?<\/p>\n<p>Enquanto tal, seu \u201cenclausuramento\u201d \u00e9 o primeiro momento est\u00e9tico formulado que torna poss\u00edvel a estrutura liter\u00e1ria intermitente. Pode-se dizer que os outros elementos compositivos que Proust recorre para arquitetar as rupturas cr\u00edticas do enredo do\u00a0<em>Em busca\u2026<\/em>\u00a0e as descontinuidades vanguardistas ali presentes s\u00e3o: a obra de arte, o inconsciente e a mem\u00f3ria. Quais os motivos que fazem Proust agir literariamente mobilizando dic\u00e7\u00f5es inconstantes? E qual sua explica\u00e7\u00e3o est\u00e9tica?<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>Excurso<\/em><br \/>\n<em>Marx analisando a arte e em especial a arte grega argumentava que; \u201cem rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arte, sabe-se que certas \u00e9pocas do florescimento art\u00edstico n\u00e3o est\u00e3o de modo algum em conformidade com o desenvolvimento geral da sociedade, nem por conseguinte, com a base material que \u00e9, de certo modo, a ossatura da sua organiza\u00e7\u00e3o. Por exemplo, os gregos comparados aos modernos ou ainda Shakespeare. Em rela\u00e7\u00e3o a certas formas de arte, a epopeia, por exemplo, at\u00e9 mesmo se admite que n\u00e3o poderiam ter sido produzidas na forma cl\u00e1ssica em que fizeram \u00e9poca, quando a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica se manifesta como tal; que, portanto, no dom\u00ednio da pr\u00f3pria arte, certas de suas figuras importantes s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis num est\u00e1gio inferior do desenvolvimento art\u00edstico. Se este \u00e9 o caso em rela\u00e7\u00e3o aos diferentes g\u00eaneros art\u00edsticos no interior do dom\u00ednio da pr\u00f3pria arte, \u00e9 j\u00e1 menos surpreendente que seja igualmente o caso em rela\u00e7\u00e3o a todo dom\u00ednio art\u00edstico no desenvolvimento geral da sociedade. A dificuldade reside apenas na maneira geral de apreender estas contradi\u00e7\u00f5es. Uma vez especificadas, s\u00f3 por isso est\u00e3o explicadas. [Karl Marx \u2013 Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica. V\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es]\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Proust vivencia em seu tempo, como muitos outros intelectuais e escritores, o caso Dreyfus e toma partido na pol\u00eamica pol\u00edtica que dividiu a Fran\u00e7a ao lado do dreyfusismo; significativamente este momento na sociedade francesa n\u00e3o \u00e9 em absoluto harm\u00f4nico, ou seja, o mundo franc\u00eas est\u00e1 tensionado. Para realizar o empreendimento liter\u00e1rio e cr\u00edtico Proust tinha duas alternativas: ou lan\u00e7ar-se na cotidianidade perversa (comprometendo sua intermit\u00eancia narrativa vanguardista), ou \u201cenclausurar-se\u201d para realizar seu projeto-romance de cr\u00edtica ao esnobismo (burgu\u00eas). Proust opta incontestavelmente pelo segundo procedimento. Deste modo, no quadro de refer\u00eancia ao qual excursionamos acima, Proust e sua obra n\u00e3o est\u00e3o em conformidade com o desenvolvimento geral da sociedade francesa (e europeia de ent\u00e3o) \u2013 h\u00e1 uma dial\u00e9tica no\u00a0<em>Em busca\u2026<\/em>\u00a0na qual seu empuxo narrativo-cr\u00edtico \u00e9 intu\u00eddo por uma\u00a0<em>aufhebung<\/em>\u00a0liter\u00e1ria do cotidiano esnobista presente na sociabilidade aristocr\u00e1tico-burguesa dos sal\u00f5es e pal\u00e1cios na Fran\u00e7a e Europa na ocasi\u00e3o. O andamento do m\u00e9todo proustiano (a n\u00e3o-conformidade) na cr\u00edtica ao esnobismo se d\u00e1 no recurso de recorrer \u00e0 obra de arte, ao inconsciente e \u00e0 mem\u00f3ria como j\u00e1 dissemos. Mas \u00e9 preciso insistir neste ponto para tornar mais claro o argumento ensaiado. Estas impress\u00f5es subjetivas formam uma dimens\u00e3o imag\u00e9tica, ocasionando for\u00e7osamente em Proust e sua obra, um deslocamento cr\u00edtico na linearidade e semelhan\u00e7a social o que permite na narrativa e na estrutura\u00e7\u00e3o do enredo tecer amplas articula\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias de recusa \u00e0 sociedade esnobe. Deste modo, quando Proust faz encadear suas descri\u00e7\u00f5es sobre as paisagens francesas, monumentos hist\u00f3ricos, esculturas e a obra de arte (e os produtores dessas) com o espa\u00e7o textual mesmo do romance ele cria um n\u00facleo de subjetividade que est\u00e1 al\u00e9m do mundanismo burgu\u00eas. Isto \u00e9 plaus\u00edvel, na medida em que a obra de arte (seja a de Elstir, a de Bergotte e de Vinteuil) \u00e9 o desejo de felicidade (Baudelaire) na qual est\u00e1 inscrita a viabilidade da frui\u00e7\u00e3o prazerosa negada pela realidade objetiva de classe e a luva de ferro (Concei\u00e7\u00e3o Evaristo) da similitude social. Assim, podemos encontrar no\u00a0<em>Em busca\u2026<\/em>\u00a0a seguinte passagem<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/proust-uma-voz-contra-o-esnobismo-burgues\/#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a>:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Quando meu pai resolveu, um ano, que foss\u00eamos passar as f\u00e9rias da Pascoa em Floren\u00e7a e em Veneza, n\u00e3o tendo como fazer entrar no nome de Floren\u00e7a os elementos que habitualmente comp\u00f5em as cidades, fui obrigado a tirar uma cidade sobrenatural da fecunda\u00e7\u00e3o, por certos aromas primaveris, do que eu supunha constituir, em ess\u00eancia, o g\u00eanio de Giotto. Em suma \u2013 e visto que n\u00e3o se pode fazer com que caiba em um nome muito mais dura\u00e7\u00e3o que espa\u00e7o \u2013, como em certos quadros de Giotto que apresentam em dois momentos diversos da a\u00e7\u00e3o um mesmo personagem, aqui deitado no leito, ali preparando-se para montar o cavalo, o nome de Floren\u00e7a achava-se dividido em dois compartimentos. Num deles, sob um dossel arquitet\u00f4nico, eu comtemplava um afresco [\u2026] no outro atravessava eu rapidamente \u2013 para acorrer mais depressa ao almo\u00e7o que me esperava com frutas e vinho de Chianti \u2013 [a] Ponte-Vecchio entulha[da] de junquilhos, narcisos e an\u00eamonas (2008, p. 465).<\/p><\/blockquote>\n<p>Fica evidenciado o arroubo de prazer \u2013 uma configura\u00e7\u00e3o emocional \u201cdescomprometida\u201d com a realidade delet\u00e9ria do esnobismo, de tal modo que o andamento est\u00e9tico proustiano inaugura uma esfera cr\u00edtica para al\u00e9m do paradigma concreto da ordem estabelecida; tendo de recorrer a seu instrumento fruidor (a autodescri\u00e7\u00e3o de si travejada por impress\u00f5es proposta pela arte de Giotto) Proust estabelece para si (e para as humanidades) uma imagem-m\u00e9todo na consecu\u00e7\u00e3o cr\u00edtico-anal\u00edtica da sociedade burguesa em que vivia.<\/p>\n<p>A outra coordenada que Proust utiliza na feitura de sua descontinuidade hist\u00f3rico-narrativa como cr\u00edtica ao esnobismo, \u00e9 lan\u00e7ar-se no seu inconsciente vasculhando os movimentos contradit\u00f3rios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tessitura das rela\u00e7\u00f5es subjetivas entre os indiv\u00edduos \u2013 preserva\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o s\u00e3o dois sentimentos encontrados no procedimento proustiano de inser\u00e7\u00e3o no inconsciente tentando encontrar a\u00ed um nicho de felicidade n\u00e3o proposto pelas circunst\u00e2ncias (eternamente) limitadoras de qualquer possibilidade de vis\u00e3o perspectiva prazerosa ente as pessoas. Com efeito, diz Proust:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>de nada adiantou verificar-me de que aqueles rapazes que todas os dias cavalgavam \u00e0 frente do hotel eram filhos do n\u00e3o muito considerado propriet\u00e1rio de um magazine de novidades e que meu pai jamais consentiria em os conhecer; a vida na praia os real\u00e7ava a meus olhos, convertia-os em est\u00e1tuas equestres de semideuses, e o mais que podia esperar era que nunca dirigissem o olhar sobre o pobre rapaz que eu era (1992, p. 230).<\/p><\/blockquote>\n<p>Notemos a viv\u00eancia do pai de Proust (Marcel) colocada em suspens\u00e3o subjetiva (p\u00f5e-se aqui a ruptura do tempo linear) para em seguida (um salto vertiginoso no inconsciente \u2013 o irromper descont\u00ednuo do eu cr\u00edtico do esnobismo) deliciar-se com os corpos de \u201cest\u00e1tua equestre de semideuses\u201d: uma exist\u00eancia poss\u00edvel somente no enredo do inconsciente cr\u00edtico. A invers\u00e3o de Marcel [sabemos que Marcel Proust era homossexual], sua fragilidade diante da conviv\u00eancia linear e comprimida pela mundanidade de classe o jogou na mais rica e f\u00e9rtil narrativa do inconsciente \u2013 ao esnobismo da burguesia, demonstrado no caso Dreyfus e na Primeira Guerra Mundial o arroubo fruidor de Marcel oferece o fato met\u00f3dico-compreensivo proporcionado pelo inconsciente enquanto tal.<\/p>\n<p>Por fim a mem\u00f3ria \u00e9 a \u00faltima e mais importante coordenada na constitui\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo proustiano de cr\u00edtica \u00e0 viol\u00eancia esnobista. A reconstru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, sem d\u00favida, \u00e9 o principal artif\u00edcio liter\u00e1rio na obra de Marcel Proust objetivando a temporalidade hist\u00f3rica descont\u00ednua. Aqui o tempo \u00e9 fundamentalmente simbolizado atrav\u00e9s de impress\u00f5es variadas (algumas prazerosas outras de ang\u00fastia e sofrimento e outras ainda eivadas de esteticidade) vividas em circunst\u00e2ncias que \u201cn\u00e3o volta[m] mais\u201d, de tal maneira que a contrapartida \u2013 a presentifica\u00e7\u00e3o lembrada dos outros momentos \u2013 formada ao longo dos fios da vida de ent\u00e3o \u00e9 que nos faz escapar de nosso conv\u00edvio cercado de esnobismo (de classe). Voltar a tais feixes densos de exist\u00eancia atrav\u00e9s da mem\u00f3ria involunt\u00e1ria \u00e9 uma das mais geniais cr\u00edticas ao esnobismo das classes dominantes que lutam com viol\u00eancia extrema contra as Fran\u00e7oises e os Jupiens, que s\u00e3o o sujeito primeiro (o eixo impulsionador) da emancipa\u00e7\u00e3o material ou o tempo perdido que deve ser (profana e revolucionariamente) recuperado. Assim, a busca de tal tempo (nas palavras de Walter Benjamin um salto de tigre na hist\u00f3ria) \u00e9 o m\u00e9todo que Proust se valeu para derrogar o esnobismo da classe a qual \u201cpertencia\u201d; seu vi\u00e9s insubmisso e profano pode ser sentido em duas passagens esfuziantes do\u00a0<em>Em busca do tempo perdido<\/em>, nelas encontramos Marcel dizendo a si mesmo e \u00e0 outridade:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>somos apenas aquilo que possu\u00edmos, n\u00e3o possu\u00edmos sen\u00e3o o que nos est\u00e1 realmente presente, e tantas de nossas recorda\u00e7\u00f5es, de nossas humores, de nossas ideias partem para viagens longe de n\u00f3s mesmos em os perdemos de vista [\u2026] [por isso] somos todos obrigados para tornar a realidade suport\u00e1vel a imaginar dentro de n\u00f3s algumas pequenas loucuras (1995, p. 69).<\/p><\/blockquote>\n<p>Proust deve ser sempre lembrado nas batalhas pela emancipa\u00e7\u00e3o social e, sobretudo como disse Benjamin, no dia do conflito derradeiro contra o esnobismo de classe. Eis a\u00ed o seu e o nosso m\u00e9todo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/proust-uma-voz-contra-o-esnobismo-burgues\/#sdfootnote1anc\">1<\/a>\u00a0Ver Friedrich Nietzsche \u2013\u00a0<em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 trag\u00e9dia de S\u00f3focles<\/em>. Martins Fontes, 2014.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/proust-uma-voz-contra-o-esnobismo-burgues\/#sdfootnote2anc\">2<\/a>\u00a0Ver William Allan \u2013 Epic heroes in tragedy: genre, ethics, and the fifth-century comunity. In:\u00a0<em>G\u00eaneros Po\u00e9ticos na Gr\u00e9cia Antiga: conflu\u00eancias e fronteiras<\/em>\u00a0(Org. Christian Werner, Breno B. Sebastini, Antonio Dourado-Lopes). Humanitas, 2014.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/proust-uma-voz-contra-o-esnobismo-burgues\/#sdfootnote3anc\">3<\/a>\u00a0Ver sobre essa argumenta\u00e7\u00e3o acerca de Balzac, George Luk\u00e1cs \u2013 Balzac: L\u00eas Illusions Perdue.\u00a0<em>Ensaios sobre Literatura<\/em>. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1965 e Herbert Marcuse \u2013\u00a0<em>A Dimens\u00e3o Est\u00e9tica<\/em>. Edi\u00e7\u00f5es 70, 2007.<\/p>\n<div id=\"outra-1583159992\" class=\"outra-content\">\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrosquinhentos\"><strong>+ Quem contribui com Outras Palavras ganha 25% de desconto nos livros da editora Autonomia Liter\u00e1ria<\/strong><\/a><\/p>\n<\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/proust-uma-voz-contra-o-esnobismo-burgues\/#sdfootnote4anc\">4<\/a>\u00a0Essa, e as demais passagens, podem ser consultadas nas v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es e edi\u00e7\u00f5es do\u00a0<em>Em Busca do Tempo Perdido<\/em>\u00a0de Proust publicadas no Brasil. Aqui utilizo a edi\u00e7\u00e3o da editora Globo.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Proust, uma voz contra o esnobismo burgu\u00eas &#8211; Outras Palavras. 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