{"id":15414,"date":"2021-07-10T14:28:38","date_gmt":"2021-07-10T17:28:38","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15414"},"modified":"2021-07-07T14:31:30","modified_gmt":"2021-07-07T17:31:30","slug":"meritocracia-desmonte-de-um-engodo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/07\/10\/meritocracia-desmonte-de-um-engodo\/","title":{"rendered":"Meritocracia, desmonte de um engodo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ellen Engelstad &#8211;\u00a0<\/strong>A meritocracia consiste na ideia de que os mais capazes deveriam governar \u2014 e que, portanto, os mais capazes s\u00e3o os que devem chegar ao topo, independentemente de sua origem social. A primeira afirma\u00e7\u00e3o parece razo\u00e1vel para muitos, a \u00faltima obviamente justa. O mundo \u00e9 complexo e, numa ampla gama de \u00e1reas, desde os tribunais at\u00e9 \u00e0s cabines de avi\u00e3o, a habilidade parece n\u00e3o apenas desej\u00e1vel, mas necess\u00e1ria. E se realmente quisermos encontrar os melhores talentos, ent\u00e3o, n\u00e3o dever\u00edamos garantir que todos tivessem as mesmas oportunidades de provar o seu valor?<\/p>\n<p>Numa tentativa de \u201cdourar a p\u00edlula\u201d, muitos liberais bem-intencionados pregam o evangelho da igualdade de oportunidades. Todas as crian\u00e7as devem ter acesso a boas escolas, a um sistema de sa\u00fade e a modelos de comportamento seguros, afim de que os talentos ocultos possam ser detectados e aprimorados. Trata-se, basicamente, do famoso sonho americano de trabalhar duro para vencer na vida \u2014 embora, \u00e0 medida que o trabalho manual foi sendo rebaixado, a parte do \u201ctrabalho duro\u201d tenha sido substitu\u00eddo pelo foco no \u201ctalento\u201d, seja este inato ou aprendido.<\/p>\n<p>Mas, originalmente, a \u201cmeritocracia\u201d nem pretendia ser uma coisa boa: o termo foi cunhado pelo soci\u00f3logo Michael Young para criticar governos que desistiram do objetivo de uma verdadeira igualdade social. Revisitar seu livro The Rise of the Meritocracy (\u201cA ascens\u00e3o da meritocracia\u201d) nos ajuda a entender por que a \u201cigualdade de oportunidades\u201d empobrece o valor da igualdade \u2014 e por que nosso direito de termos uma exist\u00eancia digna n\u00e3o deveria depender de nossos supostos \u201ctalentos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tinha um emprego<\/strong><\/p>\n<p>Membro do Partido Trabalhista Brit\u00e2nico, Young foi co-autor de<em>\u00a0Let Us Face the Future<\/em>\u00a0(\u201cDeixe-nos encarar o Futuro\u201d), manifesto que os ajudou a vencer a hist\u00f3rica elei\u00e7\u00e3o de 1945. Embora esse governo tenha sido importante para a funda\u00e7\u00e3o do Estado de Bem-Estar Social da Gr\u00e3-Bretanha, Young percebeu que a administra\u00e7\u00e3o de Clement Attlee come\u00e7ava a se transformar: de uma ideia de dignidade de trabalho e igualdade para todos, para um conceito de \u201cigualdade de oportunidades\u201d. J\u00e1 em 1944, o exame\u00a0<em>eleven-plus<\/em>\u00a0[esp\u00e9cie de vestibular ao ensino prim\u00e1rio] foi introduzido para determinar que tipo de escola secund\u00e1ria as crian\u00e7as iriam frequentar (a partir dos onze anos de idade), muitas vezes definindo seu curso de vida. Ao mesmo tempo, an\u00e1lises recentes da ascens\u00e3o da \u201cclasse gerencial\u201d v\u00eam anunciando uma nova era de especialistas e de hierarquia social com base no comando da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1958, Young p\u00f4s-se a escrever sua resposta \u2014 uma hist\u00f3ria dist\u00f3pica de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, com um olhar que viria do futuro de 2033 para o seu pr\u00f3prio presente. O narrador, um soci\u00f3logo ficcional, tra\u00e7a o desenvolvimento de uma nova ordem social, a partir da d\u00e9cada de 1870. Ele conta como a nobreza e os privil\u00e9gios associados (heredit\u00e1rios) que ela trouxe, foram lentamente derrubados, especialmente gra\u00e7as aos esfor\u00e7os do movimento oper\u00e1rio. Mas depois da vit\u00f3ria do Partido Trabalhista em meados do s\u00e9culo XX (ou seja, na \u00e9poca de Young), a igualdade alcan\u00e7ada foi sendo revertida e substitu\u00edda aos poucos por uma nova divis\u00e3o de classes. Agora n\u00e3o eram mais as pessoas com pais ricos que terminavam automaticamente no topo, mas os inteligentes \u2014 aqueles que, com a ajuda de seu poder intelectual, mereciam governar. Mesmo assim, por volta de 2033, nosso soci\u00f3logo j\u00e1 poderia falar de uma onda de greves e tumultos contra esse sistema, instigada pelos chamados populistas.<\/p>\n<p>O estilo do livro assemelha-se ao de 1984, de George Orwell. E, assim como o livro de Orwell cunhou novos termos que mais tarde seriam amplamente utilizados, como\u00a0<em>Novil\u00edngua<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Big Brother<\/em>, Young introduziu o termo meritocracia, composta por\u00a0<em>m\u00e9rito<\/em>\u00a0(do latim\u00a0<em>meritus<\/em>, \u201cmerecido\u201d) e\u00a0<em>krati<\/em>\u00a0(do grego\u00a0<em>kratein<\/em>, \u201cgovernar\u201d). A grande diferen\u00e7a encontra-se na maneira como essas palavras rec\u00e9m-cunhadas foram usadas. Embora associar um oponente pol\u00edtico ao mundo de 1984 seja obviamente pejorativo, os social-democratas e os pol\u00edticos liberais abra\u00e7aram a \u201cmeritocracia\u201d como se fosse uma boa ideia. Apesar de, na verdade, a leitura do livro de Young expor essa ideia sob uma luz muito mais sombria.<\/p>\n<p>Na sociedade que Young retrata, todos est\u00e3o sujeitos a testes de intelig\u00eancia ao longo de suas vidas \u2014 ent\u00e3o, mesmo come\u00e7ando tarde, voc\u00ea sempre ter\u00e1 a chance de subir na pir\u00e2mide social, desde que o teste demonstre isso. Mas n\u00e3o existem motivos para reclamar de seus baixos sal\u00e1rios ou status se o teste demonstrar que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 inteligente o suficiente \u2014 ou seja, a pessoa sempre estaria exatamente onde deve estar. Esta n\u00e3o era a sociedade \u00e0 qual o movimento trabalhista aspirava quando lutou por uma educa\u00e7\u00e3o melhor, ou para abolir um sistema de privil\u00e9gios n\u00e3o merecidos. Mas suas vit\u00f3rias foram cooptadas e voltadas para fins diferentes quando os chamados fabianos ganharam poder no movimento trabalhista. Efetivamente, voltando para a realidade, a\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Sociedad_Fabiana\">Sociedade Fabiana<\/a>\u00a0foi fundada em 1884 como uma organiza\u00e7\u00e3o socialista que buscava n\u00e3o a igualdade total, mas \u201cuma nova ordem social, constru\u00edda sobre as capacidades humanas, para ser formada a partir do caos da velha sociedade sem planos.\u201d Em outras palavras: uma meritocracia.<\/p>\n<p>\u201cAs diferen\u00e7as de renda tornaram-se muito maiores e, no entanto, h\u00e1 muito menos conflitos do que antes\u201d, escreve nosso soci\u00f3logo fict\u00edcio em 2033. A raz\u00e3o para isso \u00e9 que, por um lado, a riqueza e os benef\u00edcios para os qualificados e talentosos parecem ser justos porque eles trabalharam por isso, n\u00e3o foi herdado; e, por outro lado, as novas diferen\u00e7as entre ricos e pobres v\u00eam na forma de benef\u00edcios para os ricos, e n\u00e3o apenas de sal\u00e1rios mais altos. Paralelamente a isso, o parlamento eleito \u00e9 enfraquecido em favor dos \u201ct\u00e9cnicos\u201d, burocratas profissionais da administra\u00e7\u00e3o estadual. O Partido Trabalhista e os sindicatos concordam de maneira lenta, por\u00e9m segura, com este compromisso.<\/p>\n<p>No entanto, um pequeno grupo de pessoas ainda se apega ao princ\u00edpio da igualdade, seja em termos de renda como de influ\u00eancia: um grupo conhecido como os \u201cpopulistas\u201d. As mulheres l\u00edderes desempenham um papel especialmente relevante na revolta: j\u00e1 que mesmo as inteligentes que alcan\u00e7am um status elevado s\u00e3o, ainda, v\u00edtimas do patriarcado. Pois, nessa ordem social supostamente harmoniosa, elas continuam sob grande press\u00e3o para criar seus pr\u00f3prios filhos \u201cinteligentes\u201d e n\u00e3o apenas entreg\u00e1-los \u00e0 vida feito servos \u201cest\u00fapidos\u201d. Assim, mulheres que apenas iniciam suas carreiras s\u00e3o convidadas a desistir de tudo pelo que trabalharam e se concentrar em seus pap\u00e9is de m\u00e3es. O soci\u00f3logo fict\u00edcio de Young conclui que essa nova alian\u00e7a entre l\u00edderes feministas inteligentes e as oper\u00e1rias de esquerda n\u00e3o vai durar \u2014 afinal de contas, elas t\u00eam interesses de classe diferentes.<\/p>\n<p>Embora o autor reconhe\u00e7a que vive em tempos turbulentos, ele prev\u00ea que a rebeli\u00e3o populista em curso ir\u00e1 esfriar, ser\u00e1 esquecida: a sociedade est\u00e1 focada demais em seus objetivos, e a classe trabalhadora carece de lideran\u00e7a. Ele conclui a disserta\u00e7\u00e3o sugerindo que sua previs\u00e3o provavelmente ser\u00e1 confirmada pelo congresso populista marcado para ser realizado em Peterloo no ano seguinte, ao qual ele pretende comparecer como espectador. Na nota de rodap\u00e9 final do livro, conta aos leitores que ele estava errado. Peterloo causou tanto tumulto que o autor foi morto \u2014 e esta tese foi publicada postumamente.<\/p>\n<p><strong>O monstro que Young criou<\/strong><\/p>\n<p>Analisando-o neste ano de 2021, o livro de Young demonstra uma rara habilidade de previs\u00e3o. Ele antecipou que a aboli\u00e7\u00e3o de uma elite heredit\u00e1ria, baseada no poder e na riqueza heredit\u00e1rios, poderia facilmente levar \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de outra elite, que se sentiria ainda mais legitimada para desfrutar de seus privil\u00e9gios por t\u00ea-los merecido. Young tamb\u00e9m previu que as d\u00e9cadas de 1960 e 1970 assistiriam a um aumento do radicalismo, um momento hist\u00f3rico para o avan\u00e7o da esquerda. Mas ela n\u00e3o venceu e a sociedade ficou ainda mais dividida depois da contrarrevolu\u00e7\u00e3o neoliberal que corroeu o bem-estar universal e o substituiu por solu\u00e7\u00f5es privatizantes que aprofundaram a divis\u00e3o entre as classes.<\/p>\n<p>Young previu toda uma s\u00e9rie de consequ\u00eancias negativas do dogma da meritocracia: a guinada \u00e0 direita do movimento oper\u00e1rio, o impar\u00e1vel aumento do prest\u00edgio social do conhecimento e da intelig\u00eancia, a crescente desigualdade, a press\u00e3o do tempo para as mulheres que pretendessem estudar e tamb\u00e9m ter filhos e os privil\u00e9gios de que a classe criativa teria, mesmo fora do trabalho assalariado. No final das contas, Young previa que a maioria das pessoas acabaria se cansando de ouvir que s\u00e3o burras; e considerando que estariam interessadas na igualdade, se posicionariam do lado dos populistas. Mas o que Young n\u00e3o previu foi o papel desempenhado por sua distopia nesse processo. De forma contr\u00e1ria \u00e0s suas inten\u00e7\u00f5es, a meritocracia seria assumida tanto por pol\u00edticos conservadores como por social-democratas no mundo inteiro, concebida como uma vis\u00e3o positiva \u00e0 qual a sociedade deveria aspirar.<\/p>\n<p>Tony Blair e Gordon Brown, dois fabianos famosos fora do mundo da fic\u00e7\u00e3o, levaram a meritocracia particularmente a s\u00e9rio. Para Blair, oportunidades iguais para todos \u2014 uma verdadeira meritocracia \u2014 era sua grande proposta quando foi eleito primeiro-ministro em 1997, resumida no slogan \u201ceduca\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o\u201d. Isso frustrou Young e, em um artigo de opini\u00e3o de 2001, intitulado\u00a0<em>Down With Meritocracy<\/em>\u00a0(\u201cAbaixo a Meritocracia\u201d), ele expressou sua frustra\u00e7\u00e3o com a interpreta\u00e7\u00e3o incorreta de seu livro. Ele pediu a Blair que parasse de usar o termo: \u201c\u00c9 altamente improv\u00e1vel que o primeiro-ministro tenha lido o livro, mas ele se apegou ao termo sem perceber os perigos de sua proposta\u201d. Young argumentou que n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em permitir que pessoas de certo m\u00e9rito prosperem; o problema surge quando os ditos inteligentes e qualificados formam sua pr\u00f3pria classe alta e fecham a porta para todas as outras.<\/p>\n<p>Bem como ele previu, o ensino superior tornou-se perversamente o auge do sucesso, n\u00e3o apenas prometendo \u00e0s pessoas inteligentes uma vida boa, mas tamb\u00e9m rotulando como perdedores aqueles que n\u00e3o cursam uma faculdade. \u201c[A classe trabalhadora] pode facilmente ficar desmoralizada quando se v\u00ea desprezada de forma t\u00e3o dolorosa por pessoas que se sa\u00edram bem. Na verdade, em uma sociedade que elogia tanto o m\u00e9rito, \u00e9 muito duro que joguem na sua cara que voc\u00ea n\u00e3o tem nenhum. Nenhuma classe subalterna tinha sido moralmente despojada at\u00e9 este ponto\u201d, escreve Young.<\/p>\n<p><strong>O\u00a0governo\u00a0dos\u00a0especialistas<\/strong><\/p>\n<p>A maioria das pessoas de mentalidade democr\u00e1tica argumentar\u00e1 que prefere que representantes eleitos decidam sobre grande parte das quest\u00f5es importantes da sociedade. Ainda assim, obter conselhos de pessoas com expertise em uma determinada \u00e1rea, por exemplo obter ajuda de advogados para fabricar novas leis, n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 democracia em si. Ouvir pessoas que sabem muito sobre determinado assunto \u00e9 uma decis\u00e3o inteligente, mas os socialistas argumentar\u00e3o que a expertise pertence a muito mais pessoas do que apenas \u00e0quelas detentoras de um diploma universit\u00e1rio. Existe muito conhecimento perto das m\u00e1quinas da f\u00e1brica ou nos corredores dos hospitais, por exemplo. Embora seja poss\u00edvel concordarmos em que \u00e9 necess\u00e1rio haver alguma divis\u00e3o de trabalho no governo e na sociedade, nas \u00faltimas d\u00e9cadas assistimos a um fortalecimento muito mais profundo dos argumentos tecnocr\u00e1ticos para o \u201cgoverno dos especialistas\u201d.<\/p>\n<p>A margem de manobra dos Estados-na\u00e7\u00e3o se viu reduzido por tratados internacionais, a jurisprud\u00eancia tem cada vez mais espa\u00e7o na pol\u00edtica e, cada vez mais, \u00e9 dito aos partidos que seus programas s\u00e3o imposs\u00edveis de implementar porque violam regras que est\u00e3o fora do espa\u00e7o da tomada de decis\u00f5es democr\u00e1tica. Como consequ\u00eancia, as diferen\u00e7as entre direita e esquerda diminu\u00edram e, em muitos pa\u00edses, social-democratas e conservadores que antes eram inimigos, hoje formam uma coaliz\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o positivismo voltou a ganhar terreno intelectualmente, transformando dilemas pol\u00edticos e econ\u00f4micos em problemas de resposta \u201ccerta\u201d e calcul\u00e1vel, em vez de quest\u00f5es de debate com diversas respostas, dependendo da posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de cada um. Verifica\u00e7\u00f5es de fatos supostamente neutras e a busca pela \u201cverdade\u201d assumiram parcialmente o que costumava ser o campo de debate p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong>Mobilidade\u00a0social<\/strong><\/p>\n<p>A elite profissional est\u00e1 solidamente ligada \u00e0 meritocracia, por acreditar que esta garante a todos uma chance de chegar ao topo \u2014 e faz com que os melhores cheguem aonde pertencem. Mas eles continuam preocupados com o fato de um sistema meritocr\u00e1tico ser minado por velhas ressacas \u2014 e, portanto, se esfor\u00e7am para melhor\u00e1-lo. Avan\u00e7os como a inclus\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho e no ensino superior, bem como medidas para coibir a discrimina\u00e7\u00e3o racial e homof\u00f3bica expl\u00edcita, s\u00e3o, segundo o jornalista\u00a0<a href=\"https:\/\/www.google.com\/books\/edition\/Listen_Liberal\/yj1BCgAAQBAJ?hl=en&amp;gbpv=1&amp;dq=Listen,+Liberal+thomas+frank&amp;printsec=frontcover\">Chris Hayes<\/a>, vit\u00f3rias que ajudam a tornar a meritocracia mais meritocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O fato de um homem negro ter se tornado presidente dos Estados Unidos (e uma mulher quase ter conquistado esse lugar tamb\u00e9m) mostra o qu\u00e3o longe esse desenvolvimento foi nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Os liberais afirmam que isso tamb\u00e9m vai inspirar outros a fazerem o mesmo. \u00c9 verdade que a elei\u00e7\u00e3o de Barack Obama foi uma vit\u00f3ria importante e simb\u00f3lica. Mas o grande foco em Obama e Hillary Clinton, mais do que em mudan\u00e7as estruturais para grandes grupos de comunidades negras e mulheres, tamb\u00e9m mostra a fraqueza dessa estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Como Thomas Frank escreve em seu livro\u00a0<em>Listen, Liberal<\/em>\u00a0(\u201cOu\u00e7am, Liberais\u201d): \u201cHillary tende a gravitar em torno de uma vers\u00e3o do feminismo que \u00e9 sin\u00f4nimo de meritocracia, no sentido de que ela est\u00e1 preocupada quase exclusivamente com as lutas de mulheres altamente educadas para irem t\u00e3o longe quanto seu talento permite\u201d. Na verdade, ela estava muito menos interessada na universaliza\u00e7\u00e3o de bens e riquezas pelos quais Bernie Sanders lutava, como o aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo e a licen\u00e7a parental remunerada. Ela afirmava que tamb\u00e9m era a favor deste \u00faltimo ponto, mas acrescentando: \u201cn\u00e3o acho que seja poss\u00edvel, politicamente, conseguirmos isso agora.\u201d<\/p>\n<p>O foco n\u00e3o era reduzir as desigualdades, mas garantir que todos tivessem a chance de chegar ao topo. E isso tamb\u00e9m levanta outra quest\u00e3o: em uma meritocracia, os melhores \u2014 especialistas, profissionais \u2014 chegam longe para o benef\u00edcio de todos, mas quem decide quais qualidades devem ser recompensadas em uma sociedade? E aqueles que j\u00e1 se beneficiam da meritocracia n\u00e3o ser\u00e3o tentados a recompensar as qualidades que possuem? Tudo indica que eles fazem exatamente isso, dado que, entre outras coisas, o poder desse grupo aumentou paralelamente ao acentuado aprofundamento da desigualdade geral.<\/p>\n<p>Se a elite dominante realmente tomasse decis\u00f5es neutras e apol\u00edticas para o bem da popula\u00e7\u00e3o como um todo, ent\u00e3o por que somente os super-ricos dos EUA t\u00eam se beneficiado com o aumento da produtividade da sociedade desde os anos 1970? Se eles se pretendem \u201cservos do povo\u201d que zelam pelos interesses de todos os cidad\u00e3os, como \u00e9 que sua lideran\u00e7a levou a uma situa\u00e7\u00e3o em que os b\u00f4nus pagos em Wall Street em 2014 duplicaram a soma total dos pagamentos de toda a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora em tempo integral que ganha um sal\u00e1rio m\u00ednimo nos Estados Unidos? Os n\u00fameros n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o contrastantes em meu pa\u00eds, a Noruega, nem em outros pa\u00edses que t\u00eam um movimento sindical forte. Mas aqui tamb\u00e9m, partidos, empresas e especialistas classificam certas pol\u00edticas que favorecem a desigualdade, como cortes de impostos para os ricos e cortes nas licen\u00e7as por doen\u00e7a, como neutras e \u201cbaseadas em crit\u00e9rios cient\u00edficos\u201d.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o queremos uma meritocracia real<\/strong><\/p>\n<p>O sonho de uma elite seleta e altamente educada para governar a sociedade \u00e9 muito mais antigo do que o livro de Young. Por exemplo, Plat\u00e3o acreditava que a democracia levaria idiotas ao poder e, em vez disso, prop\u00f4s uma esp\u00e9cie de ditadura dos fil\u00f3sofos. Hoje, os eleitores de muitos pa\u00edses come\u00e7aram a optar pelos chamados populistas, como Donald Trump, Rodrigo Duterte, Marine Le Pen e Jair Bolsonaro. Isso tem levantado quest\u00f5es crescentes sobre se a democracia ainda \u00e9 a melhor forma de governo ou se chegou a hora de adotarmos\u00a0<em>uma meritocracia real.<\/em><\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significaria apenas dar mais poder aos burocratas e advogados, mas tamb\u00e9m, e em particular, restringir a democracia. \u00c9 o que prop\u00f5e o livro\u00a0<em>Contra a Democracia<\/em>, publicado em 2016 e escrito pelo influente fil\u00f3sofo neoliberal Jason Brennan. Nele, afirma que o eleitorado nas sociedades democr\u00e1ticas desconhece completamente as quest\u00f5es pol\u00edticas e muitas vezes \u00e9 incapaz de responsabilizar os pol\u00edticos. Portanto, as elei\u00e7\u00f5es livres constituem um ataque moral \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, cujo destino deveria ser confiado a uma\u00a0<em>epistocracia<\/em>\u00a0dos melhores e mais brilhantes. As mesmas ideias s\u00e3o levantadas em livros como\u00a0<em>Democracy for Realists<\/em>\u00a0(\u201cDemocracia para Realistas\u201d) de 2016, e\u00a0<em>The Myth of the Rational Voter<\/em>\u00a0(\u201cO Mito do Eleitor Racional\u201d) de 2007.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o conhecimento assume um status cada vez mais alto e o retorno do positivismo apresenta a pol\u00edtica cada vez mais como uma ci\u00eancia de respostas certas e erradas, a quest\u00e3o dos meritocratas \u00e9: ser\u00e1 que a maioria das pessoas tem conhecimento suficiente para tomar decis\u00f5es sobre nossas sociedades complexas? Eles leram os programas eleitorais de cada partido? E, se n\u00e3o, por que permitimos que decidam o nosso destino? O fil\u00f3sofo noruegu\u00eas Morten Langfeldt Dahlback diz que a meritocracia n\u00e3o tem porqu\u00ea \u201cprejudicar o bem-estar dos menos informados\u201d porque \u201ca maioria dos eleitores [vota] com base no que eles acham que vai favorecer o bem comum, e as pessoas com um alto n\u00edvel educacional costumam ter uma preocupa\u00e7\u00e3o maior com a justi\u00e7a social do que as outras\u201d.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma perspectiva extremamente perigosa, que carece de base na experi\u00eancia hist\u00f3rica. Pelo contr\u00e1rio, sempre que uma pequena elite assume o controle sem prestar contas \u00e0 maioria, as desigualdades aumentam dramaticamente. \u00c9 por este motivo que na Inglaterra, em 1819, as pessoas se reuniram em St. Peter\u2019s Field, Manchester, para exigir o sufr\u00e1gio universal, no que entrou para a hist\u00f3ria como o Massacre de Peterloo. Da\u00ed vieram a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa e todas as outras batalhas travadas pelas massas contra as elites dominantes. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que essas elites eram mais iluminadas culturalmente do que a maioria dos rebeldes, mas de forma alguma isso levou a uma maior justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>Quando hoje em dia as pessoas se re\u00fanem em torno do que \u00e9 descrito com desprezo como\u00a0<em>populismo<\/em>, \u00e9 porque elas parecem levar essa justi\u00e7a social a s\u00e9rio, pelo menos falam da desigualdade que sofrem, ao inv\u00e9s de descartar a a\u00e7\u00e3o como imposs\u00edvel. Se a resposta a esse movimento for nos privar do direito de voto por n\u00e3o sermos \u201cbem informados\u201d, o resultado certamente ser\u00e1 dram\u00e1tico, mas n\u00e3o trar\u00e1 maior igualdade como resultado.<\/p>\n<p>Em um artigo de 1872, o anarquista russo Mikhail Bakunin j\u00e1 alertava contra a obsess\u00e3o por uma meritocracia real, um \u201creinado de intelig\u00eancia cient\u00edfica, o mais aristocr\u00e1tico, desp\u00f3tico, arrogante e elitista de todos os regimes\u201d. Se aqueles com um alto n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o tivessem as r\u00e9dea solta para governar em virtude de suas qualidades superiores, de acordo com Bakunin, eles criariam \u201cuma nova classe, uma nova hierarquia de cientistas e acad\u00eamicos reais e falsos, e o mundo seria dividido entre uma minoria que governa em nome do saber e uma imensa maioria ignorante\u201d. E ent\u00e3o, ele acrescentou: \u201cAi da multid\u00e3o ignorante!\u201d. Essa ser\u00e1 nossa sina, se aceitarmos a afirma\u00e7\u00e3o dos poderosos de que eles est\u00e3o ali porque s\u00e3o os que\u00a0<em>sabem fazer as coisas de um jeito melhor.<\/em><\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Meritocracia, desmonte de um engodo &#8211; Outras Palavras. Link: https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/meritocracia-desmonte-de-um-engodo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ellen Engelstad &#8211;\u00a0A meritocracia consiste na ideia de que os mais capazes deveriam governar \u2014 e que, portanto, os mais capazes s\u00e3o os que devem chegar ao topo, independentemente de sua origem social. A primeira afirma\u00e7\u00e3o parece razo\u00e1vel para muitos, a \u00faltima obviamente justa. 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