{"id":15395,"date":"2021-07-06T12:18:37","date_gmt":"2021-07-06T15:18:37","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15395"},"modified":"2021-07-06T14:37:36","modified_gmt":"2021-07-06T17:37:36","slug":"so-as-ruas-podem-fazer-o-centrao-largar-o-osso-e-frear-o-processo-de-destruicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/07\/06\/so-as-ruas-podem-fazer-o-centrao-largar-o-osso-e-frear-o-processo-de-destruicao\/","title":{"rendered":"S\u00f3 as ruas podem fazer o Centr\u00e3o \u2018largar o osso\u2019 e frear o processo de destrui\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o Vitor Santos<\/strong> &#8211; Professor considera Bolsonaro como aglutinador de pontos que a transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica n\u00e3o resolveu, mantendo vivos os \u2018fantasmas da ditadura\u2019. Por isso, seu projeto \u00e9 levar a cabo o que os militares n\u00e3o conseguiram, capitaneando for\u00e7as pol\u00edticas que querem tirar proveito da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde que essas terras receberam o primeiro europeu e se tornaram uma col\u00f4nia do imp\u00e9rio extramar\u00edtimo lusitano, foram se forjando modos de viver baseados na expropria\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o e desigualdade, insuflando um sentimento desp\u00f3tico que gera uma pol\u00edtica de morte. Mas \u00e9 no per\u00edodo de ditadura civil-militar, entre 1945 e 1985 (ou 1988 como defendem alguns), que essas for\u00e7as d\u00e3o as caras. \u00c9 por isso que o professor\u00a0<strong>Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez<\/strong>\u00a0diz que no Brasil sempre houve esses sentimentos, mas que no per\u00edodo da repress\u00e3o se materializam. Para ele, \u00e9 nesse contexto que se compreende o que \u00e9 e o que representa a figura de\u00a0<strong>Jair Messias Bolsonaro<\/strong>. \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/608123-bolsonarismo-como-identidade-coletiva-a-logica-sacrificial-e-a-brutalizacao-dos-afetos-entrevista-especial-com-rodrigo-nunes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bolsonaro \u00e9 a express\u00e3o de algo que sempre esteve a\u00ed<\/a>, \u00e9 ideologicamente a express\u00e3o dos grupos dos por\u00f5es da ditadura militar\u201d, pontua, na entrevista concedida via\u00a0<strong>Zoom<\/strong>\u00a0ao\u00a0<strong>Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU<\/strong>.Essa concep\u00e7\u00e3o do professor culmina na sua tese de que \u201cele pode desaparecer politicamente, mas o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/188-noticias\/noticias-2018\/583067-bolsonaro-nao-controla-mais-o-bolsonarismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">bolsonarismo vai conseguir permanecer<\/a>, porque j\u00e1 entrou, cresceu e est\u00e1 a\u00ed, apesar de todas as crises que estamos padecendo\u201d. \u201cBolsonaro n\u00e3o se explica por Bolsonaro; se explica por sua inscri\u00e7\u00e3o nos processos hist\u00f3ricos do Brasil, onde a ditadura \u00e9, certamente, uma experi\u00eancia decisiva\u201d, observa.Assim,\u00a0<strong>G\u00f3mez<\/strong>\u00a0entende que\u00a0<strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0tem a miss\u00e3o de levar adiante o projeto de destrui\u00e7\u00e3o de pa\u00eds, uma forma de frear e acabar com o que ficou acordado l\u00e1 em 1988, quando da promulga\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>Constitui\u00e7\u00e3o Federal<\/strong>\u00a0e toda a ideia de \u2018transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica pac\u00edfica\u2019. \u00c9 como se, nesse processo, n\u00e3o tiv\u00e9ssemos enfrentado todos os nossos fantasmas soltos durante a ditadura e eles seguiram pelas sombras, voltando \u00e0 luz agora. \u201cO mais paradoxal \u00e9 que no momento \u2013 por volta de 2013, 2014 \u2013 em que parecia, do ponto de vista das pol\u00edticas de Estado, haver um desejo de repara\u00e7\u00f5es, verdade e mem\u00f3ria, n\u00e3o havia mudado nada em termos de justi\u00e7a, pois estava bloqueada por meio da\u00a0<strong>Lei da Anistia<\/strong>\u201d, chama aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso,\u00a0<strong>G\u00f3mez<\/strong>\u00a0compreende que os acordos do fim da ditadura e as tentativas de revisitar a Hist\u00f3ria e fazer realmente a mem\u00f3ria desses anos de chumbo s\u00e3o tomados como afronta. Enquanto isso,\u00a0<strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0vai emergindo na cena pol\u00edtica como um personagem aned\u00f3tico dentro dos quart\u00e9is, mas, no momento em que essas for\u00e7as, especialmente militares, se veem mais amea\u00e7adas, ele surge justamente como o sujeito que, sem qualquer pudor, \u00e9 capaz de realizar o projeto destituinte. \u201cEstava pensando em como n\u00f3s, at\u00e9 2017, subestimamos completamente a possibilidade eleitoral de Bolsonaro: pens\u00e1vamos que ele estava ocupando uma faixa da extrema direita e jamais conseguiria dar o \u2018pulo\u2019 para alargar a sua base\u201d, reconhece o professor, ao lembrar do momento hist\u00f3rico que permite a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/609020-pms-milicias-e-governo-bolsonaro-uma-relacao-de-apoio-favores-vantagens-privilegios-e-carteiradas-entrevista-especial-com-jacqueline-muniz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bolsonaro galgar apoios de diferentes fardas<\/a>\u00a0e mesmo n\u00e3o fardados.<\/p>\n<p>Tudo isso nos leva ao momento \u00edmpar na Hist\u00f3ria do Brasil hoje, uma encruzilhada que significa seguir com essa destrui\u00e7\u00e3o do Estado como conhecemos ou parar esse rolo compressor. \u201cEnt\u00e3o, se ganhar a elei\u00e7\u00e3o [em 2022], vai ser uma situa\u00e7\u00e3o extremamente grave porque, como aconteceu em outros pa\u00edses \u2013 a\u00a0<strong>Hungria<\/strong>\u00a0\u00e9 um exemplo claro \u2013, com um componente mais grave aqui porque h\u00e1 a quest\u00e3o militar, ningu\u00e9m mais vai par\u00e1-lo\u201d, projeta\u00a0<strong>G\u00f3mez.<\/strong>\u00a0\u201cSe n\u00e3o ganhar \u2013 olhando um pouco o que aconteceu no assalto ao\u00a0<strong>Capit\u00f3lio,<\/strong>\u00a0nos Estados Unidos \u2013, ele j\u00e1 anunciou que obviamente n\u00e3o vai aceitar perder e a\u00ed, sim, todos os mecanismos que ele tem ser\u00e3o mobilizados\u201d, conclui.<\/p>\n<p><strong>G\u00f3mez<\/strong>\u00a0\u00e9 enf\u00e1tico ao defender que \u201cestamos em uma situa\u00e7\u00e3o em que o\u00a0<strong>impeachment<\/strong>\u00a0tem que ser um imperativo, dado que isso n\u00e3o vai parar e vai corroendo todos os mecanismos de controle\u201d. Mas ressalta que \u00e9 importante n\u00e3o se esquecer que\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/610585-caso-covaxin-contaminacao-de-rebanho-bolsonaro-seus-filhos-e-o-centrao-frases-do-dia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bolsonaro tem dom\u00ednio sobre o Centr\u00e3o<\/a>, a potente classe pol\u00edtica que domina o Congresso. Para o professor, esse grupo que comp\u00f5e qualquer coaliz\u00e3o para se safar s\u00f3 pode romper com o presidente se sentir a intensidade e a for\u00e7a das ruas. \u201cO Centr\u00e3o s\u00f3 vai abandonar o osso quando perceber que a coisa j\u00e1 est\u00e1 cozida. E at\u00e9 l\u00e1 ele vai aproveitar o m\u00e1ximo que puder, como, ali\u00e1s, est\u00e1 aproveitando\u201d, resume.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez<\/strong>\u00a0\u00e9 argentino, chegou ao Brasil no final da d\u00e9cada de 1980 e acompanhou todo o processo da\u00a0<strong>Lei da Anistia<\/strong>\u00a0e a chamada \u201cconcilia\u00e7\u00e3o transit\u00f3ria\u201d do regime militar. Realizou p\u00f3s-doutorado em Direito no Centre de Recherches en Droits Fondametaux, na Universit\u00e9 Paris X Nanterre, na Fran\u00e7a, e em Ci\u00eancia Pol\u00edtica no Centro de Estudios de Estado y Sociedad, em Buenos Aires, na Argentina. Ainda possui doutorado em Ci\u00eancias Pol\u00edticas e Sociais pela Universit\u00e9 Catholique de Louvain, na B\u00e9lgica, e mestrado em Ci\u00eancias Pol\u00edticas e Sociais pela mesma institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 graduado em Direito pela Universidad Cat\u00f3lica de C\u00f3rdoba, na Argentina e, atualmente, \u00e9 professor Associado da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro &#8211; PUC-Rio, ainda tendo sido professor titular na Universidade Federal do Rio de Janeiro &#8211; UFRJ. Recentemente, contribuiu com\u00a0<strong>Cruzando a Linha<\/strong>, publica\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Coletivo-RJ-Mem%C3%B3ria-Verdade-e-Justi%C3%A7a-156400814520330\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Coletivo RJ Mem\u00f3ria, Verdade, Justi\u00e7a e Repara\u00e7\u00e3o<\/a>, realizado em parceria com uma equipe de pesquisa sobre\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/nucleodireitoshumanospuc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mem\u00f3ria, Verdade e Justi\u00e7a do N\u00facleo de Direitos Humanos da PUC-Rio<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como o senhor tem acompanhado a conjuntura pol\u00edtica, especialmente o que tem acontecido nesses \u00faltimos dias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez \u2013<\/strong>\u00a0Desde que o governo se instalou,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/605882-a-pandemia-decifrou-e-revelou-a-verdade-profunda-de-bolsonaro-dos-bolsonaristas-e-do-projeto-politico-que-estao-impondo-ao-brasil-entrevista-especial-com-jose-de-souza-martins\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">as crises s\u00e3o permanentes<\/a>, s\u00e3o epis\u00f3dios que v\u00e3o pautando uma din\u00e2mica enlouquecedora. Se olharmos para tr\u00e1s, nesses dois anos e meio veremos que s\u00e3o\u00a0<strong>crises atr\u00e1s de crises<\/strong>, porque \u00e9 uma estrat\u00e9gia de crise permanente que est\u00e1 animando o pr\u00f3prio governo. Mas essa crise de agora se coloca com elementos que me parecem extremamente importantes e novos. Isso na medida em que se pode colocar n\u00e3o apenas a quest\u00e3o que mais fragiliza o governo hoje, que \u00e9 justamente essa esp\u00e9cie de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597395-pandemia-no-brasil-sob-o-desgoverno-bolsonaro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desgoverno no tratamento da pol\u00edtica sanit\u00e1ria da pandemia<\/a>, mas tamb\u00e9m com essa reviravolta em torno do pr\u00f3prio\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/610533-so-uma-frente-democratica-amplissima-pode-levar-a-republica-bolsonarista-a-lona-algumas-analises\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">trabalho da CPI da Pandemia<\/a>\u00a0e sua busca por encontrar essa pontinha de corrup\u00e7\u00e3o que seria um elemento importante para desmascarar algo que \u00e9 \u00f3bvio, mas que ainda \u00e9 levantado por\u00a0<strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0e seu governo de que n\u00e3o est\u00e3o sendo atingidos pela corrup\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, o que \u00e9 uma barbaridade, porque todos os ind\u00edcios, a come\u00e7ar pela pr\u00f3pria fam\u00edlia e distintos ministros, est\u00e3o mostrando que isso \u00e9 apenas uma cortina de fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, pensar que isso abre caminho para o impeachment \u00e9 ilus\u00f3rio, at\u00e9 porque depende de muitos passos, a come\u00e7ar com o que vai fazer o procurador-geral da Rep\u00fablica [<strong>Roberto Gurgel<\/strong>], que j\u00e1 escolheu colocar tudo em banho frio. Isso at\u00e9 pelo pr\u00f3prio interesse a respeito do que vai acontecer com ele mesmo, se vai ser reconduzido ou se vai ser o candidato a ministro do\u00a0<strong>Supremo Tribunal Federal &#8211; STF<\/strong>. Agora, tudo vai depender de como e quando os avan\u00e7os na busca por ind\u00edcios v\u00e3o se acomodar ou se articular cada vez mais com o imperativo das mobiliza\u00e7\u00f5es. Mesmo que o quadro da pandemia coloque em risco qualquer aglomera\u00e7\u00e3o, \u00e9 \u00f3bvio que sem as ruas, que j\u00e1 foram tomadas h\u00e1 cinco anos pela direita e extrema direita, nada poder\u00e1 avan\u00e7ar.<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 \u00f3bvio que sem as ruas, que j\u00e1 foram tomadas h\u00e1 cinco anos pela direita e extrema direita, nada poder\u00e1 avan\u00e7ar &#8211; Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez<\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 todo um debate sobre se \u00e9 conveniente que\u00a0<strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0seja impedido, porque ent\u00e3o viria o vice-presidente, o que n\u00e3o \u00e9 garantia nenhuma de que a coisa possa avan\u00e7ar de uma forma melhor. E h\u00e1 outros que veem essa escalada de Bolsonaro, o que me parece \u00f3bvio por todos os indicadores, como uma aposta dele para ganhar a elei\u00e7\u00e3o em 2022. E, mesmo perdendo, vai fazer de tudo para contestar os resultados e precipitar esse projeto antidemocr\u00e1tico e de golpe que ele anima desde o seu primeiro dia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se ganhar a elei\u00e7\u00e3o, vai ser uma situa\u00e7\u00e3o extremamente grave porque, como aconteceu em outros pa\u00edses \u2013 a\u00a0<strong>Hungria<\/strong>\u00a0\u00e9 um exemplo claro \u2013, com um componente mais grave aqui porque h\u00e1 a quest\u00e3o militar, vai ser como um rolo compressor, ningu\u00e9m mais vai par\u00e1-lo. At\u00e9 porque ele est\u00e1 destruindo todos os mecanismos de controle. E, se n\u00e3o ganhar \u2013 olhando um pouco o que aconteceu\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/605979-apos-invasao-do-capitolio-e-preciso-responsabilizacao-arrependimento-e-acerto-de-contas-editorial-da-revista-america\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">no assalto ao Capit\u00f3lio<\/a>, nos Estados Unidos \u2013, ele j\u00e1 anunciou que obviamente n\u00e3o vai aceitar perder e a\u00ed, sim, todos os mecanismos que ele tem ser\u00e3o mobilizados.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8Xwz2Oz4i-s\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Impeachment como imperativo<\/strong><\/p>\n<p>Estamos em uma situa\u00e7\u00e3o em que o impeachment tem que ser um imperativo, dado que isso n\u00e3o vai parar e vai corroendo todos os mecanismos de controle. Por isso a mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento central a tudo isso, inclusive \u00e9 importante que desloque mais gente num arco pol\u00edtico muito mais amplo, que n\u00e3o sejam apenas os grupos mais de esquerda. Acho, tamb\u00e9m, que ele ainda tem o controle do Congresso e o Centr\u00e3o s\u00f3 vai abandonar o osso quando perceber que a coisa j\u00e1 est\u00e1 cozida. E at\u00e9 l\u00e1 ele vai aproveitar o m\u00e1ximo que puder, como, ali\u00e1s, est\u00e1 aproveitando.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O senhor ent\u00e3o, est\u00e1 acreditando no poder de mobiliza\u00e7\u00e3o das ruas e defende as mobiliza\u00e7\u00f5es desse final de semana?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez \u2013<\/strong>\u00a0Sim, eu acho que \u00e9 essencial.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 E com essa mobiliza\u00e7\u00e3o, se for grande e massiva como o senhor coloca que deveria ser, o Centr\u00e3o \u201caceita esse cozido\u201d e faz avan\u00e7ar o processo de impedimento de Bolsonaro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez \u2013<\/strong>\u00a0Sim, porque\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/603954-alianca-com-centrao-nao-atenuou-fascismo-de-bolsonaro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">eles s\u00e3o pragm\u00e1ticos<\/a>. N\u00e3o podemos esquecer que eles t\u00eam esse pragmatismo que lhes permite atravessar as d\u00e9cadas e estar sempre em qualquer coaliz\u00e3o. Por\u00e9m, acontece que Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 qualquer um, \u00e9 um projeto antidemocr\u00e1tico expl\u00edcito. Isso \u00e9 uma quest\u00e3o que coloca tudo em risco, pois \u00e9 um projeto de destrui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se tem um projeto de pa\u00eds. Esse \u00e9 um projeto destrutivo e \u00e9 a sua primeira miss\u00e3o.<\/p>\n<p>E vem sendo assim em todas as \u00e1reas, n\u00e3o sobra uma. Veja a educa\u00e7\u00e3o, cultura, meio ambiente, direitos humanos, toda a quest\u00e3o destituinte de direitos trabalhistas e sociais, enfim, \u00e9 um esc\u00e1rnio permanente e n\u00e3o h\u00e1 \u00e1rea que se salve desse projeto extremamente reacion\u00e1rio e que tem esse primeiro momento destrutivo. Por isso\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/607803-300-mil-mortos-nao-existiu-nem-existe-gestao-das-crises-vividas-no-brasil-entrevista-especial-com-rubens-ricupero-roberto-romano-e-ruda-ricci\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00e3o h\u00e1 gest\u00e3o de governo, \u00e9 uma estrat\u00e9gia de desgoverno<\/a>. O tempo passa muito r\u00e1pido, porque embora at\u00e9 2022 falte bastante tempo, estamos num quadro de crises permanentes, m\u00faltiplas e simult\u00e2neas. Veja a quest\u00e3o econ\u00f4mica e social. Ali\u00e1s, a quest\u00e3o social \u00e9 terr\u00edvel, h\u00e1 um aprofundamento de desigualdades, de exclus\u00f5es, de fome, de coisas que j\u00e1 parec\u00edamos ter resolvido h\u00e1 bastante tempo e que agora est\u00e3o todas a\u00ed.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hi36m1ZJHK0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>E a recupera\u00e7\u00e3o, se existe uma, vai ser muito fraca. Mas\u00a0<strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0vai apostar nessa recupera\u00e7\u00e3o, vai tamb\u00e9m apostar, paradoxalmente, nos efeitos da vacina\u00e7\u00e3o ao longo de todo este ano e certamente aposta que a\u00a0<strong>CPI<\/strong>, nesse momento, n\u00e3o avance muito e n\u00e3o crie uma din\u00e2mica pol\u00edtica que o obrigue a estar constantemente na defensiva. A mobiliza\u00e7\u00e3o, a\u00ed, \u00e9 sempre um fator fundamental, e foi assim nas duas situa\u00e7\u00f5es de impeachment no Brasil. E isso \u00e9 decisivo porque\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/583977-lua-de-mel-com-o-congresso-sera-curta-diz-colaborador-de-bolsonaro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0est\u00e1 controlando o Congresso<\/a>, com os dois presidentes, do\u00a0<strong>Senado<\/strong>\u00a0e da\u00a0<strong>C\u00e2mara<\/strong>; isso n\u00e3o \u00e9 qualquer elemento secund\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Os militares<\/strong><\/p>\n<p>O problema n\u00e3o acaba a\u00ed, pois\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/606976-militares-deixaram-de-ser-vistos-como-o-lado-racional-do-governo-diz-pesquisador\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o problema fundamental continua sendo os militares<\/a>, pois eles voltaram com Bolsonaro. Tinham j\u00e1 voltado com\u00a0<strong>Michel Temer<\/strong>, mas com Bolsonaro h\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o expl\u00edcita desde antes da campanha. Essa crise do m\u00eas de mar\u00e7o e esse \u00faltimo epis\u00f3dio do\u00a0<strong>Eduardo Pazuello<\/strong>\u00a0com o comando do Ex\u00e9rcito significa um quadro muito incerto e \u00e9, sem d\u00favida, um problema estrutural dos militares no poder.<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 uma base de apoio diversificada, constru\u00edda desde muito tempo atr\u00e1s, e isso \u00e9 o que muitas vezes a gente n\u00e3o via. Mas, sim, essa base foi constru\u00edda desde que Bolsonaro decidiu se lan\u00e7ar, j\u00e1 em 2014, \u00e0 presid\u00eancia, algo que parecia um del\u00edrio. E sua primeira campanha iniciou onde? Na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/585859-antiglobalistas-militares-e-liberais-disputam-o-controle-da-politica-externa-no-novo-governo-entrevista-especial-com-mauricio-santoro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Academia das Agulhas Negras<\/strong><\/a>, no estado do Rio de Janeiro, e desde ent\u00e3o a mant\u00e9m o tempo todo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O senhor nos afirmou que Bolsonaro \u00e9 um projeto de destrui\u00e7\u00e3o de pa\u00eds. Que projeto \u00e9 esse, onde ele come\u00e7a e por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez \u2013<\/strong>\u00a0H\u00e1 todo um lado que ele se encarregou de encarnar, simbolizar e anunciar explicitamente ao longo de toda a sua vida pol\u00edtica, mas que foi afunilando justamente a partir de 2011, 2012, para se precipitar em 2014 na expl\u00edcita campanha para presid\u00eancia. Ele tem declara\u00e7\u00f5es feitas, inclusive muito fortes, em 2014, em que se anuncia como a cara da nova direita que o pa\u00eds precisa. A partir da\u00ed, justamente, vai enunciando os objetivos de desmontagem, tudo o que tem que ser freado e desmontado a partir do que para ele eram os avan\u00e7os que ocorreram em nome do comunismo, da guerra cultural, de tudo que faz parte de seu linguajar e estava encarnado e explicitado em todo o processo pol\u00edtico, sobretudo depois de 1988.<\/p>\n<p>A chamada\u00a0<strong>normaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica<\/strong>, para ele, nunca foi algo sobre o qual se aceitava a regra do jogo. Desde o in\u00edcio, ele explicita que n\u00e3o \u00e9 via Congresso, que isso n\u00e3o serve para nada, e o \u00fanico que pode avan\u00e7ar \u00e9 aquele que provoca uma ruptura fundamental na regra do jogo para desmontar os perigos que est\u00e3o em todos os planos.<\/p>\n<p>E, assim, ele j\u00e1 se articula desde 2014, e se percebe essa articula\u00e7\u00e3o muita clara no esc\u00e1rnio que foi o seu voto no\u00a0<strong>impeachment da presidente Dilma Rousseff,<\/strong>\u00a0quando ele, em quatro linhas, revela tudo ao evocar a ditadura, com o torturador-mor Ustra, ao mesmo tempo reivindica [<strong>Duque de<\/strong>]\u00a0<strong>Caxias<\/strong>\u00a0e as For\u00e7as Armadas, invoca a Deus e estabelece a intencionalidade de avan\u00e7ar no seu projeto pol\u00edtico presidencial.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/h3VoCM91gu4\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, j\u00e1 vai acordando e levantando\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/603395-o-agronegocio-e-o-governo-bolsonaro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">alian\u00e7as com o agroneg\u00f3cio<\/a>\u00a0e, cada vez mais, com os neopentecostais e vai encontrando toda sua base de apoio, al\u00e9m daquela que j\u00e1 era incondicional desde 1986 e 1987, quando ele se revela reivindicando aumento de soldo, de sal\u00e1rios dos soldados, uma rea\u00e7\u00e3o das baixas patentes contra a c\u00fapula oficial e, depois, em 1987, com a tentativa de atentado, para chamar a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sm79V1TgHRM\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u00c9 fant\u00e1stico porque a conjuntura parece apagar tudo que ele foi anunciando e representando ao longo do tempo \u2013 Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Daquele per\u00edodo para frente, toda a sua carreira pol\u00edtica \u00e9 feita anunciando os seus valores mais reacion\u00e1rios e, ao mesmo tempo, invocando permanentemente a necessidade de golpear as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Se observarmos como foi se articulando a sua base social espec\u00edfica, que \u00e9 eminentemente corporativa desde o in\u00edcio \u2013 ele se representa e \u00e9 representado como portador das baixas patentes do ex\u00e9rcito \u2013, veremos que, pouco a pouco, essa base se alarga e se amplia para a pol\u00edcia militar, os bombeiros e todo o c\u00edrculo vinculado \u00e0s\u00a0<strong>For\u00e7as Armadas<\/strong>\u00a0e for\u00e7as de seguran\u00e7a. Essa \u00e9 a sua base eleitoral fundamental at\u00e9 2014, quando ele \u00e9 o candidato a deputado federal mais votado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><strong>Capitalizando apoios<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 claro que, mais a frente, ele vai se articular com o mercado, com o\u00a0<strong>apoio do capital financeiro<\/strong>, e vai encontrar todos aqueles que, com a\u00a0<strong>Lava Jato<\/strong>, levantavam as bandeiras da luta contra a corrup\u00e7\u00e3o \u2013 logo ele e sua fam\u00edlia. \u00c9 fant\u00e1stico porque a conjuntura parece apagar tudo que ele foi anunciando e representando ao longo do tempo. Ent\u00e3o, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito forte, em que percebemos como ele vai articulando seus apoios e, depois, a pr\u00f3pria conjuntura eleitoral de 2018 foi um epis\u00f3dio decisivo. Esse per\u00edodo est\u00e1 muito fresco para n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Subestimando Bolsonaro<\/strong><\/p>\n<p>Estava pensando em como n\u00f3s, at\u00e9 2017, subestimamos completamente a possibilidade eleitoral de Bolsonaro: pens\u00e1vamos que ele estava ocupando uma faixa da extrema direita e jamais conseguiria dar o \u201cpulo\u201d para alargar a sua base. Mas o que descobrimos depois \u00e9 que foram se articulando componentes essenciais em sua estrutura: o poder militar, que entra com tudo, a volta dos militares \u00e0 pol\u00edtica \u2013 os quase sete mil militares que ocupam \u00e1reas estrat\u00e9gicas do Estado e da administra\u00e7\u00e3o est\u00e3o a\u00ed para provar. Trata-se de um projeto pol\u00edtico. N\u00e3o nos enganemos: esses militares n\u00e3o entraram para correr o risco de sair no ano que vem se perderem as elei\u00e7\u00f5es. A\u00ed h\u00e1 outras coisas muito mais profundas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 H\u00e1 uma discuss\u00e3o entre os pesquisadores dessa \u00e1rea de que ou\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/610493-projeto-bolsonaro-e-finito-mas-e-preciso-ficar-atento-aos-militares-entrevista-especial-com-piero-leirner\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bolsonaro seria parte de um projeto maior dos militares<\/a>\u00a0ou ele teria captado os militares, em fun\u00e7\u00e3o da conjuntura, e os trazido para si, come\u00e7ando ent\u00e3o a constituir um projeto de poder. Afinal, Bolsonaro \u00e9 um projeto dos militares ou o contr\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez \u2013<\/strong>\u00a0Isso coloca em quest\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o entre\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/608123-bolsonarismo-como-identidade-coletiva-a-logica-sacrificial-e-a-brutalizacao-dos-afetos-entrevista-especial-com-rodrigo-nunes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bolsonaro e o bolsonarismo<\/a>.\u00a0<strong>Bolsonaro<\/strong>, sem d\u00favida, desempenha um papel-chave at\u00e9 o momento em que ele \u00e9 reconhecido e se atribui o car\u00e1ter de mito. Tudo o que ele faz at\u00e9 2010, quando entra nas redes sociais, no Twitter e, depois, a s\u00e9rie de itiner\u00e1rios que ele faz pelo pa\u00eds, passeatas e eventos p\u00fablicos, foi feito antes da campanha. Ent\u00e3o, o que est\u00e1 na base do bolsonarismo precede Bolsonaro.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, Bolsonaro \u00e9 ideologicamente a express\u00e3o dos grupos dos por\u00f5es da ditadura militar. Isso que se apresenta de maneira absolutamente escandalosa e repugnante, que \u00e9 sua vota\u00e7\u00e3o no\u00a0<strong>impeachment da Dilma<\/strong>, expressa tudo que a\u00ed est\u00e1. Mas n\u00e3o d\u00e1 para subestim\u00e1-lo, porque ele tamb\u00e9m representa muito dessa base; ele \u00e9 como a encarna\u00e7\u00e3o dessa base e, obviamente, ele pode desaparecer politicamente, mas o bolsonarismo vai conseguir permanecer porque j\u00e1 entrou, cresceu e est\u00e1 a\u00ed, apesar de todas as crises que estamos padecendo. O que n\u00e3o podemos esquecer \u00e9 que as condi\u00e7\u00f5es est\u00e3o a\u00ed.<\/p>\n<blockquote><p>O que est\u00e1 na base do bolsonarismo precede Bolsonaro &#8211; Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez<\/p><\/blockquote>\n<p>O pr\u00f3prio Bolsonaro, por outro lado, sempre fez a defesa e a celebra\u00e7\u00e3o da ditadura, da tortura e sempre questionou por que n\u00e3o mataram mais ao inv\u00e9s de torturarem, porque este era justamente o perigo: terem vencido a guerra, mas n\u00e3o terem conclu\u00eddo o trabalho. Isso foi dito explicitamente ao longo dos anos, inclusive mais recentemente, nos anos 2000. Esse v\u00ednculo dele com a ditadura e essa idealiza\u00e7\u00e3o est\u00e3o pautados. Em seu gabinete, na C\u00e2mara, estavam as fotos de todos os presidentes militares, com prefer\u00eancia por [<strong>Em\u00edlio<\/strong>]\u00a0<strong>Garrastazu M\u00e9dici<\/strong>. Para ele, o ideal da ditadura foram os anos de 1969 a 1974.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_fDS1Ew_qVI\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que ele rompa como um\u00a0<em>outsider<\/em>. N\u00e3o, ele expressa tudo isso e come\u00e7a sua carreira pol\u00edtica sendo\u00a0<strong>representante do baixo clero<\/strong>, mas tendo uma base corporativa fundamental, que \u00e9 a base das For\u00e7as Armadas e das for\u00e7as de seguran\u00e7a, sobretudo as pol\u00edcias militares, que depois foram agregando a pol\u00edcia civil e todo esse enorme segmento de seguran\u00e7a privada que h\u00e1 em toda parte.<\/p>\n<p><strong>Neopentecostais<\/strong><\/p>\n<p>Depois,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/584304-o-voto-evangelico-garantiu-a-eleicao-de-jair-bolsonaro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ele abra\u00e7ou os neopentecostais<\/a>. Sabemos que\u00a0<strong>Lula<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Dilma<\/strong>\u00a0tiveram o apoio dos neopentecostais na primeira elei\u00e7\u00e3o e tiveram voto majorit\u00e1rio nesse setor. Mas isso, a partir de 2013 e 2014, come\u00e7a a se desmanchar. E a\u00ed entra toda essa quest\u00e3o que, por outro lado, se articula com vetores que n\u00e3o s\u00e3o apenas nacionais, mas internacionais, como a guerra contra as fam\u00edlias que n\u00e3o seriam monog\u00e2micas, com todos os padr\u00f5es tradicionais e crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Isso ganha um impulso novo diante do que seria o que chamam de \u201co perigo de dissolver a fam\u00edlia tradicional\u201d contra as fam\u00edlias de novas formas e novos tipos, as quest\u00f5es de g\u00eanero etc., que s\u00e3o vistas como algo muito fundamental em setores que n\u00e3o s\u00e3o somente o dos neopentecostais, mas tamb\u00e9m o dos cat\u00f3licos e o dos setores conservadores.<\/p>\n<p><strong>Educa\u00e7\u00e3o e fatores hist\u00f3ricos<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi colocada como bandeira de defesa \u2013 o que depois seria a cr\u00edtica ao\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/585067-o-escola-sem-partido-visa-mais-a-sexualidade-do-que-o-marxismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Movimento Escola sem Partido<\/a>. Ent\u00e3o, h\u00e1 uma converg\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es e fatores hist\u00f3ricos do Brasil e que n\u00e3o v\u00eam somente da ditadura, mas v\u00e3o al\u00e9m, v\u00eam l\u00e1 de tr\u00e1s, do mito fundador, que funciona para invisibilizar as viol\u00eancias constitutivas das rela\u00e7\u00f5es sociais, de trabalho, que podem ser remontadas no tempo. Na ditadura, isso ganhou um peso muito forte, at\u00e9 porque 21 anos n\u00e3o \u00e9 pouca coisa e o Brasil foi muito transformado [depois da ditadura], mas isso [aquela vis\u00e3o de mundo] ficou l\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e feridas n\u00e3o cicatrizadas<\/strong><\/p>\n<p>Como a\u00a0<strong>transi\u00e7\u00e3o da ditadura para a democracia<\/strong>\u00a0foi feita sem um acerto de contas com os crimes da ditadura, tem a\u00ed um elemento que se mant\u00e9m, que se preserva, at\u00e9 porque a mem\u00f3ria militar transmitiu para outras gera\u00e7\u00f5es a sua vis\u00e3o do que foi a ditadura. Ela deixou legados de todo tipo, que n\u00e3o s\u00e3o apenas legais, institucionais, administrativos, de imagin\u00e1rio, de pr\u00e1tica concreta. As pol\u00edcias militares que est\u00e3o a\u00ed e s\u00e3o fundamentalmente um recurso decisivo da ditadura, passam a ter novas fun\u00e7\u00f5es a partir dos estados para, no lugar do inimigo pol\u00edtico, do subversivo e do comunista \u2013 com todas essas express\u00f5es da\u00a0<strong>Guerra Fria<\/strong>\u00a0e das experi\u00eancias ditatoriais \u2013, colocar os novos inimigos internos: jovens, negros e pobres das grandes cidades.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jzqDcYukhdk\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em termos de democracia liberal, da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/428\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Constitui\u00e7\u00e3o de 1988<\/strong><\/a>, come\u00e7a uma esp\u00e9cie de genoc\u00eddio sistem\u00e1tico em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a p\u00fablica: um Estado que prende e mata em nome da guerra contra o crime, contra as drogas. Vemos que essa democracia \u00e9 uma democracia de fragilidades constitutivas desde o in\u00edcio e a ditadura permanece em seus valores, pr\u00e1ticas e legados completos. \u00c9 fundamental entender que h\u00e1 fios diretos desse passado que n\u00e3o passa, porque jamais o Brasil acertou as contas com a ditadura e, quando come\u00e7ou a fazer algo, foi de forma lenta, tardiamente, de maneira assim\u00e9trica e truncada, porque a Justi\u00e7a estava truncada.<\/p>\n<p>Foi uma\u00a0<strong>transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sem justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0e sem constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria cr\u00edtica da ditadura militar. Prevaleceu, no plano hegem\u00f4nico da mem\u00f3ria hist\u00f3rica, aquela vis\u00e3o que encontra, na pr\u00f3pria Lei da Anistia e sua interpreta\u00e7\u00e3o dominante, o dispositivo pol\u00edtico, ideol\u00f3gico e jur\u00eddico, no qual se foi construindo uma mem\u00f3ria hegem\u00f4nica p\u00fablica de reconcilia\u00e7\u00e3o nacional via esquecimento. Depois, quando o Brasil avan\u00e7ou em mat\u00e9ria de comiss\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o, com os dois mandatos de\u00a0<strong>Fernando Henrique [Cardoso],<\/strong>\u00a0isso se deu de maneira t\u00edmida, apol\u00edtica, privatista.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/L0Pdk-5ECcM\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Mais tarde, se avan\u00e7ou muito mais nesta quest\u00e3o, durante o segundo mandato do ex-presidente\u00a0<strong>Lula<\/strong>, quando n\u00e3o apenas houve um trabalho de repara\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas e perseguidos pol\u00edticos, mas se fez isso com uma perspectiva, limitada e contraditoriamente, de projetar essa situa\u00e7\u00e3o para a sociedade, avan\u00e7ando em mat\u00e9ria de produ\u00e7\u00e3o de verdade. Essas comiss\u00f5es tiveram enormes contribui\u00e7\u00f5es nos depoimentos das v\u00edtimas e culminaram nas tr\u00eas comiss\u00f5es da verdade, entre 2007 e 2014. Esse momento catalisa a oposi\u00e7\u00e3o mais intransigente das For\u00e7as Armadas e dos grupos mais ultraconservadores da sociedade, porque eles entendem que a mem\u00f3ria \u00e9 perigosa e a mem\u00f3ria p\u00fablica, ainda mais. Essa mem\u00f3ria era sempre bloqueada pela Lei da Anistia, com a interpreta\u00e7\u00e3o que domina at\u00e9 hoje no pr\u00f3prio\u00a0<strong>Supremo Tribunal Federal &#8211; STF<\/strong>.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TRtwAU9yxnI\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Massas enormes de condicionamentos explicam muito do porqu\u00ea isso que parecia ter ficado para tr\u00e1s, n\u00e3o ficou. O avan\u00e7o que representava a mobiliza\u00e7\u00e3o em torno da pr\u00f3pria Constituinte, de um texto que, para al\u00e9m de suas contradi\u00e7\u00f5es e de seu car\u00e1ter heterog\u00eaneo e contradit\u00f3rio, teve progressos substantivos, mostra, por outro lado, que isso [aquela vis\u00e3o de mundo da ditadura] nunca desapareceu, sempre esteve\u00a0ali e conseguiu, inclusive, alargar-se para gera\u00e7\u00f5es muito jovens.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/44ZzhX12zrk\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Uma das coisas que mais me impactou foi ver a capacidade de recrutamento, inclusive em distintos setores sociais: n\u00e3o estou falando somente daqueles que sempre apoiaram a ditadura, mas dos setores mais pobres, inclusive nas favelas. Nas favelas do Rio de Janeiro os comit\u00eas de direita s\u00e3o explicitamente muito jovens. Tudo isso n\u00e3o \u00e9 linear, atravessa circuitos sinuosos e contradit\u00f3rios, que incorporam novas dimens\u00f5es, e que permitem entender por que Bolsonaro, uma pessoa tosca e do baixo clero, que s\u00f3 chamava aten\u00e7\u00e3o pelo ex\u00f3tico e absurdo, de repente, pela conjuntura criada pelas crises econ\u00f4mica e pol\u00edtica desde 2013 e 2014, chegou ao poder. Essa conjuntura precipitou uma s\u00e9rie de descontentamentos e paralisou os governos, criando condi\u00e7\u00f5es que, mais \u00e0 frente, levaram ao impeachment, que \u00e9 um ponto decisivo, e fundamentalmente, levaram ao governo\u00a0<strong>Temer.<\/strong><\/p>\n<p><strong>In\u00edcio da (re)militariza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>Temer<\/strong>\u00a0come\u00e7a a militariza\u00e7\u00e3o do governo e com ele come\u00e7a tamb\u00e9m a desmontagem de tudo que tinha se avan\u00e7ado em mat\u00e9ria de justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o, e nasce uma embrion\u00e1ria constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria p\u00fablica cr\u00edtica da ditadura, n\u00e3o a mem\u00f3ria social que sempre se teve acerca do que foi a ditadura, ou seja, uma disputa hegem\u00f4nica pela mem\u00f3ria p\u00fablica do que foi a ditadura. Nesse campo se avan\u00e7ou muito pouco e, rapidamente, aquela vis\u00e3o foi desmontada e apagada frente ao rolo compressor da extrema direita, que come\u00e7ou a ganhar as ruas e gera\u00e7\u00f5es novas a partir de 2015. Isso me parece decisivo para entender por que Bolsonaro \u00e9 Bolsonaro.<\/p>\n<p>2018 foi um ano-chave, quando tudo se precipita, mas tudo foi antecipado desde 2014, quando come\u00e7ou a desvelar-se na ocasi\u00e3o em que\u00a0<strong>A\u00e9cio Neves<\/strong>\u00a0negou o resultado das elei\u00e7\u00f5es, acusando o processo de fraude. Quando ele n\u00e3o aceitou as regras do jogo que s\u00e3o elementares em um regime liberal democr\u00e1tico, a\u00ed come\u00e7ou a se gestar, junto com a crise econ\u00f4mica, o que seria colocado nos anos seguintes.<\/p>\n<blockquote><p>Bolsonaro n\u00e3o se explica por Bolsonaro; se explica por sua inscri\u00e7\u00e3o nos processos hist\u00f3ricos do Brasil &#8211; Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0n\u00e3o se explica por Bolsonaro; se explica por sua inscri\u00e7\u00e3o nos\u00a0<strong>processos hist\u00f3ricos do Brasil<\/strong>, onde a ditadura \u00e9, certamente, uma experi\u00eancia decisiva. Fundamentalmente, o que acontece depois da ditadura, ou seja, o fato de nem a sociedade nem o pr\u00f3prio Estado acertarem as contas com a ditadura, fez com que o crime e a viol\u00eancia fossem constitu\u00eddos a partir da experi\u00eancia ditatorial. Mas insisto: Bolsonaro e a extrema direita est\u00e3o operando uma s\u00e9rie de constru\u00e7\u00f5es m\u00edticas constitu\u00eddas bem antes da ditadura, com todo o racismo estrutural, as desigualdades desastrosas de um capitalismo perif\u00e9rico que a\u00ed est\u00e1, agravando suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de origens, com todas as recrimina\u00e7\u00f5es e exclus\u00f5es que se tem.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JLc6qcoF5Dc\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Anistia e seus limites<\/strong><\/p>\n<p>O mais paradoxal \u00e9 que no momento \u2013 por volta de 2013, 2014 \u2013 em que parecia, do ponto de vista das pol\u00edticas de Estado, haver um desejo de repara\u00e7\u00f5es, verdade e mem\u00f3ria, n\u00e3o havia mudado nada em termos de justi\u00e7a, pois estava bloqueada por meio da<strong>\u00a0Lei da Anistia<\/strong>. Ao mesmo tempo no\u00a0<strong>Chile<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Uruguai,<\/strong>\u00a0mantendo as leis e a anistia, a interpreta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica mudou para colocar a responsabiliza\u00e7\u00e3o criminal em distintos repressores e figuras importantes das ditaduras uruguaia e, sobretudo, chilena. N\u00e3o se precisava mudar a\u00a0<strong>Lei da Anistia<\/strong>, mas rever o fato de que nisso n\u00e3o se podia mexer. Permitiu-se que isso durasse enquanto se incorpora um pouco de repara\u00e7\u00e3o, depois muita repara\u00e7\u00e3o, mas na pol\u00edtica p\u00fablica direta de mem\u00f3ria os grupos conservadores \u2013 a come\u00e7ar pelas\u00a0<strong>For\u00e7as Armadas<\/strong>, mas n\u00e3o somente \u2013 colocaram um veto.<\/p>\n<p>Por isso que vemos, inclusive com entrevistas, mas fundamentalmente com o livro do comandante do Ex\u00e9rcito,\u00a0<strong>[Eduardo] Villas B\u00f4as<\/strong>\u00a0[o livro a que o entrevistado se refere \u00e9\u00a0<strong>General Villas B\u00f4as: conversa com o comandante<\/strong>\u00a0(Rio de Janeiro, FGV, 2021)], que desempenhou um papel-chave em 2018 para permitir a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, excluindo e precipitando a pris\u00e3o de\u00a0<strong>Lula<\/strong>\u00a0no pleito, como justamente considerou a\u00a0<strong>Comiss\u00e3o Nacional da Verdade &#8211; CNV<\/strong>\u00a0a gota d\u2019\u00e1gua. Ali\u00e1s, n\u00e3o se acertavam desde 1995, quando\u00a0<strong>Fernando Henrique<\/strong>\u00a0implantou a primeira comiss\u00e3o de repara\u00e7\u00e3o, a comiss\u00e3o especial sobre mortos e desaparecidos pol\u00edticos. Ou seja, as\u00a0<strong>For\u00e7as Armadas<\/strong>\u00a0jamais perderam a possibilidade de que sua mem\u00f3ria fosse transformada ao longo da ditadura (1964-1985), depois dela e at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Nesse fio, desde o seio das pr\u00f3prias For\u00e7as Armadas, mas tamb\u00e9m projetando-se em distintos segmentos, p\u00fablicos e contingentes muito grandes da popula\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria se preservou tal qual. Bolsonaro \u00e9 um emergente, \u00e9 uma express\u00e3o emergente de tudo isso com as caracter\u00edsticas que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias. Ele vai encontrar uma base que representa esses ideais, os chamados \u201chomens de bem\u201d, manifestos nos homens brancos, jovens, com virilidade inconteste e que v\u00e3o \u201cacabar com tudo o que est\u00e1 a\u00ed\u201d. \u00c9 um efeito complexo que, se n\u00e3o inscrevemos isso em um processo hist\u00f3rico, com camadas distintas e impactos diferentes, n\u00e3o conseguimos compreender como Bolsonaro emerge. Nosso caldo de cultura est\u00e1 ligado \u00e0 crise que, a partir de 2014, irrompe com a\u00a0<strong>crise econ\u00f4mica<\/strong>\u00a0e implica uma s\u00e9rie de\u00a0<strong>realinhamentos pol\u00edticos<\/strong>\u00a0e evidentemente a\u00a0<strong>crise pol\u00edtica.<\/strong>\u00a0Isso vai se retroalimentando e depois vem a crise pand\u00eamica com Bolsonaro que vai sobredeterminar tudo.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois paradoxos que me parecem enormes. O primeiro \u00e9 que tudo aquilo que parecia ter sido um acerto com a experi\u00eancia ditatorial anterior, h\u00e1 60 anos, e cujo ponto culminante \u00e9 a\u00a0<strong>CNV,<\/strong>\u00a0\u00e9 um ponto importante que se abriu, n\u00e3o apenas com a multiplica\u00e7\u00e3o de outras comiss\u00f5es da verdade, setoriais e p\u00fablicas. Assim, s\u00e3o vetores de debate, de difus\u00e3o, de um avan\u00e7o do jornalismo investigativo sobre experi\u00eancias da ditadura, as corrup\u00e7\u00f5es que existiram ali, persegui\u00e7\u00f5es de grupos econ\u00f4micos que v\u00e3o emergindo, e, lentamente, essa mem\u00f3ria social, que sempre foi muito recalcada e ficou muito subterr\u00e2nea, aparece.<\/p>\n<p>Mas esse tempo em que esteve no subterr\u00e2neo dificultou que se emergisse uma\u00a0<strong>vis\u00e3o cr\u00edtica da ditadura<\/strong>. Estes s\u00e3o elementos que v\u00e3o se costurando, em uma perspectiva de plasticidade enorme que em toda crise grave, ainda mais quando s\u00e3o v\u00e1rias crises simult\u00e2neas, se estabelece no pa\u00eds. Da\u00ed essa sensa\u00e7\u00e3o que temos de vertigem, inclusive com Bolsonaro, que faz da crise um elemento fundamental de sua estrat\u00e9gia pol\u00edtica. Ele vai promovendo constantemente crises e, por outro lado, prossegue na destrui\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que havia avan\u00e7ado de 1988 at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p><strong>A resist\u00eancia do bolsonarismo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0\u00e9 um pouco tudo isso, mas se Bolsonaro desaparece politicamente,\u00a0<strong>o \u201cbolsonarismo\u201d est\u00e1 a\u00ed<\/strong>\u00a0e isto \u00e9 o mais grave, porque n\u00e3o \u00e9 qualquer coisa e \u00e9 um contingente muito grande, sobretudo com uma base social muito corporativa que ele constantemente celebra, que \u00e9 justamente a for\u00e7a policial, as baixas patentes das For\u00e7as Armadas, aqueles que constituem sua base incondicional. H\u00e1 ainda a estrat\u00e9gia clara e aberta de armamento da popula\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 simplesmente um direito individual de autodefesa. Ao mesmo tempo sabemos que se trata de um projeto antidemocr\u00e1tico e ele mesmo diz que \u201cn\u00e3o haver\u00e1 um golpe porque o povo est\u00e1 armado\u201d. Mas um povo na concep\u00e7\u00e3o de Bolsonaro \u00e9 uma ideia de \u201cpovo\u201d muito restrita, recortada, em termos de g\u00eanero, ra\u00e7a, mentalidade e imagin\u00e1rio violento.<\/p>\n<p>Essa pergunta que voc\u00ea coloca sobre o que, afinal, representa e constitui Bolsonaro, sintetiza, de uma maneira tr\u00e1gica para o Brasil, esse personagem que nunca poderia ter ascendido n\u00e3o fossem todas essas condi\u00e7\u00f5es sociais, hist\u00f3ricas, econ\u00f4micas e ideol\u00f3gicas que criaram essa possibilidade de exist\u00eancia. Por isso Bolsonaro pode acabar, mas o fantasma do bolsonarismo est\u00e1 a\u00ed. Esta \u00e9 a amea\u00e7a maior, sobretudo porque tem conseguido capturar muita gente jovem e gera\u00e7\u00f5es jovens.<\/p>\n<blockquote><p>Bolsonaro pode acabar, mas o fantasma do bolsonarismo est\u00e1 a\u00ed. Esta \u00e9 a amea\u00e7a maior, sobretudo porque tem conseguido capturar muita gente jovem e gera\u00e7\u00f5es jovens &#8211; Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00f3s vivemos com tantas crises e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/607836-quando-o-brasil-superara-sua-grande-crise-entrevista-especial-com-renato-janine-ribeiro-e-luiz-carlos-bresser-pereira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">crises simult\u00e2neas<\/a>, bem como com enormes amea\u00e7as de todo o tipo, que o pr\u00f3prio governo expressa, cada vez mais sob a vertigem que gera esquecimento do passado imediato, de um m\u00eas atr\u00e1s. A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/609503-cpi-as-digitais-de-bolsonaro-na-tragedia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>CPI<\/strong><\/a>, que h\u00e1 dois meses n\u00e3o t\u00ednhamos ideia de como seria e ach\u00e1vamos que o trabalho seria muito dif\u00edcil, tamb\u00e9m pela composi\u00e7\u00e3o, vai gerando uma din\u00e2mica de crises internas, que por sua vez est\u00e1 dentro de uma din\u00e2mica maior de crise pol\u00edtica. Mas n\u00e3o temos nenhuma certeza do que vai acontecer daqui para frente, nos pr\u00f3ximos dois meses. Estamos sempre esperando o amanh\u00e3, um amanh\u00e3 incerto e que vai nos surpreender dentro da \u201cn\u00e3o surpresa\u201d deste conv\u00edvio permanente de dois anos e meio do inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Mal-estar<\/strong><\/p>\n<p>Tudo isso gera um mal-estar enorme, porque percebemos a profundidade grav\u00edssima das crises nas quais estamos mergulhados. No horizonte n\u00e3o h\u00e1 expectativas para que possamos dizer \u201cestamos avan\u00e7ando\u201d;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/606755-o-maior-perigo-e-nao-arriscar-nada-artigo-de-valerio-arcary\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estamos em um processo defensivo brutal<\/a>, pois os riscos disso se tornar dominante est\u00e3o muito perto. \u00c9 essa democracia em frangalhos que a\u00ed est\u00e1, embora sempre fosse fr\u00e1gil, cuja imagem da consolida\u00e7\u00e3o institucional tem uma inconsist\u00eancia brutal. E veja que, embora haja um\u00a0<strong>Supremo<\/strong>, que tamb\u00e9m desempenhou um papel que beneficiou Bolsonaro l\u00e1 atr\u00e1s, al\u00e9m do pr\u00f3prio\u00a0<strong>Congresso,<\/strong>\u00a0esses poderes s\u00e3o absolutamente insuficientes para reverter esse processo.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio um movimento muito maior e mais profundo, por isso as mobiliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o essenciais. Uma mobiliza\u00e7\u00e3o que amplie o arco de presen\u00e7as pol\u00edticas na cena p\u00fablica, pois n\u00e3o sabemos o que vai acontecer. Se Bolsonaro ganhar, repito, ter\u00e1 portas abertas para fazer o que ele bem entender. E quando digo \u201cele\u201d, me refiro \u00e0 estrutura de poder que est\u00e1 por tr\u00e1s. E, se ele perde, vai precipitar tudo. N\u00e3o \u00e9 daqueles que vai sair e dizer \u201cok, aceito\u201d e, ainda, tem um elemento importante, que s\u00e3o os atores armados.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 E se o impeachment ocorrer antes da elei\u00e7\u00e3o, o que pode acontecer?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez \u2013<\/strong>\u00a0Confesso que eu me recuso, \u00e0s vezes, a imaginar o pior, embora o pior esteja sempre nos assombrando. \u00c9 evidente que isso que vimos em 2019 e 2020, sobretudo pelas pol\u00edcias militares \u2013 que s\u00e3o, em sua maior parte, apoiadores incondicionais de Bolsonaro \u2013 e o projeto de lei que trata de tir\u00e1-las da esfera estadual, \u00e9 um elemento de import\u00e2ncia fundamental no pa\u00eds, o que inclui, tamb\u00e9m, altas patentes. Todas estas investidas no sentido de destruir o Estatuto do Desarmamento e entrar com tantas medidas provis\u00f3rias que visam facilitar o acesso a armamento \u00e9 algo que est\u00e1 explicitado, mas que, ao mesmo tempo, ningu\u00e9m quer levantar muito a bola. Isso \u00e9 o mais perigoso, porque faz parte de um projeto. N\u00e3o \u00e9 para autodefesa diante do bandido, do crime, mas inscreve-se em um projeto pol\u00edtico que \u00e9 antidemocr\u00e1tico. Isto n\u00e3o \u00e9 qualquer elemento, mas algo chave na conjuntura.<\/p>\n<p>O que vai acontecer com os atores militares \u00e9 uma quest\u00e3o absolutamente complexa, porque ao mesmo tempo vemos que h\u00e1 enormes tremores de terra a\u00ed, pois evidentemente isso significa tensionamento. Mas ningu\u00e9m pode responder de uma maneira clara e precisa at\u00e9 onde isso vai. Depender\u00e1 do desenvolvimento da pr\u00f3pria crise pol\u00edtica, atrelada \u00e0 econ\u00f4mica e social, com a pandemia mediando tudo. Quando imaginar\u00edamos, ano passado, que morreriam 515 mil pessoas e n\u00e3o surgiria nada em termos de revolta? Pens\u00e1vamos que isso n\u00e3o ia acontecer, que haveria um momento em que presenciar\u00edamos rea\u00e7\u00f5es muito fortes.<\/p>\n<p>Enfim, h\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o institucional que \u00e9 a CPI, mas vamos ver no que d\u00e1, porque ao mesmo tempo isso n\u00e3o est\u00e1 articulado com mobiliza\u00e7\u00f5es. O Congresso ainda est\u00e1 controlado no sentido de intervir\u00a0para que Bolsonaro seja impedido. Isso tudo, portanto, vai depender de muitos outros elementos e de epis\u00f3dios concretos; por exemplo, se a CPI descobrir algo determinante, pode-se chegar a fazer uma bola de neve, mas n\u00e3o esque\u00e7amos que a bola de neve sempre vai encontrar nas ruas um advers\u00e1rio que tamb\u00e9m ocupa esse espa\u00e7o e que est\u00e1 armado. Al\u00e9m do mais, ele tem um apoio consider\u00e1vel de distintos segmentos da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Necessidade da rua e suas complexidades<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o extremamente complexa e perigosa, porque justamente h\u00e1 um bloco incondicional a\u00ed. N\u00e3o importa quanto, mas se sabe que \u00e9 significativo, em primeiro lugar porque h\u00e1 um contingente da popula\u00e7\u00e3o muito relevante e, por outro, h\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o de um n\u00facleo duro armado que apoia esse governo. Como chegaremos \u00e0s turbul\u00eancias que foram anunciadas, desde o princ\u00edpio, na campanha de reelei\u00e7\u00e3o? Bolsonaro j\u00e1 lan\u00e7ou sua campanha de reelei\u00e7\u00e3o no primeiro dia, ainda mais agora com a\u00a0<strong>ascens\u00e3o de Lula<\/strong>\u00a0e esta esp\u00e9cie de \u201cressurrei\u00e7\u00e3o\u201d judicial e pol\u00edtica, mas eu n\u00e3o consigo imaginar como as coisas v\u00e3o se dar, exceto pelo fato que tendem a se dar mediadas por muita viol\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a polariza\u00e7\u00e3o vai se cristalizando cada vez mais, eu tenho mais temor em rela\u00e7\u00e3o ao que\u00a0<strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0pode fazer em atos estrat\u00e9gicos ou desesperados. Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 qualquer um, nem pela mentalidade que tem, nem pelo fato de representar quem ele representa. Os cen\u00e1rios s\u00e3o extremamente turbulentos, n\u00e3o h\u00e1 um sequer em que se pode dizer que est\u00e1 mais ou menos tranquilo. Tudo est\u00e1 para uma exacerba\u00e7\u00e3o brutal do conflito. Por isso \u00e9 melhor pensar dia a dia e pensar o que est\u00e1 acontecendo na conjuntura da conjuntura. \u00c9 uma sucess\u00e3o infinita de conjunturas, de modo que a CPI d\u00e1 um alento novo \u00e0 dinamiza\u00e7\u00e3o das mobiliza\u00e7\u00f5es, pois, evidentemente, a rua tem um papel muito importante. E isso, por si s\u00f3, \u00e9 tremendo porque tamb\u00e9m h\u00e1 o risco da contamina\u00e7\u00e3o pela Covid-19, ainda mais em um momento como o que estamos, de fort\u00edssimo cont\u00e1gio.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/610561-com-desgaste-de-bolsonaro-na-cpi-frentes-antecipam-manifestacoes-para-3-de-julho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">N\u00e3o ser\u00e1, por\u00e9m, pelo virtual que se resolve esse problema, mas na rua<\/a>. \u00c9 na rua e tratando de construir um arco bem grande que se oponha ao projeto expl\u00edcito de democracia. A destrui\u00e7\u00e3o do atual governo vai colonizando, aparelhando muito o Estado e as ag\u00eancias do governo. A destrui\u00e7\u00e3o opera por dois registros, pelo que incorpora e pelo que apaga. Se aguardarmos chegar ao final de 2022, as coisas estar\u00e3o muito, muito mais graves.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o quero imaginar o que vai ser um projeto de reconstru\u00e7\u00e3o do Estado, da pol\u00edtica, das institui\u00e7\u00f5es e, sobretudo, do tecido social. O processo que estamos vivendo deixa consequ\u00eancias e sequelas tremendas. Vamos ter bolsonarismo por muito tempo e esse \u00e9 o desafio maior.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez \u2013<\/strong>\u00a0Estamos trabalhando com uma equipe de pesquisa, em um projeto mais longo de monitoramento das pol\u00edticas p\u00fablicas de direitos humanos e de justi\u00e7a, transi\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria desde sua instala\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje. Ent\u00e3o, fizemos uma tabela listando as falas, gestos e medidas tomadas sobre a quest\u00e3o da ditadura e do golpe, vinculadas, fundamentalmente, \u00e0s pol\u00edticas de justi\u00e7a transicional que [Bolsonaro] vai demonstrando e apagando. Porque se pode ver toda a f\u00faria com que ele imp\u00f5e a mem\u00f3ria dos vencedores e celebra a ditadura. Celebra militares na comiss\u00e3o de anistia, dentro do grupo especial sobre mortos e desaparecidos. Esta \u00e9 a dimens\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o que estamos vivendo, mas isso se inscreve na perspectiva maior do processo.<\/p>\n<p>H\u00e1\u00a0<strong>negacionismo<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>revisionismo apolog\u00e9tico<\/strong>\u00a0que visam \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o e apagamento da mem\u00f3ria da ditadura. H\u00e1 quatro pilares em mat\u00e9ria de pol\u00edtica de transi\u00e7\u00e3o: repara\u00e7\u00e3o, liberdade, n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria p\u00fablica. Eu trabalho, fundamentalmente, com a mem\u00f3ria, que \u00e9 o fio condutor que nos permite entender em grande parte o que Bolsonaro representa enquanto povo. \u00c9 um pouco do que falamos, neste fio sinuos\u00edssimo, de como sem a mem\u00f3ria n\u00e3o se pode entender isso, inclusive no que se refere ao apoio de segmentos que votaram em Bolsonaro sem ser bolsonaristas. S\u00e3o quase 58 milh\u00f5es de votos. Contudo, n\u00e3o podemos colocar todas essas pessoas como um bloco homog\u00eaneo, o que seria um suic\u00eddio pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos subestim\u00e1-los.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1uREul0y7eE\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: S\u00f3 as ruas podem fazer o Centr\u00e3o \u2018largar o osso\u2019 e frear o processo de destrui\u00e7\u00e3o. Entrevista especial com Jos\u00e9 Mar\u00eda G\u00f3mez &#8211; Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU. 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