{"id":15346,"date":"2021-06-19T23:28:38","date_gmt":"2021-06-20T02:28:38","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15346"},"modified":"2021-06-19T23:28:38","modified_gmt":"2021-06-20T02:28:38","slug":"o-futuro-da-economia-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/06\/19\/o-futuro-da-economia-mundial\/","title":{"rendered":"O futuro da economia mundial"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eleut\u00e9rio F. S. Prado<\/strong> &#8211;\u00a0Um frisson de otimismo anima os capitalistas, que sonham com o p\u00f3s-pandemia. Mas \u00faltimos ciclos econ\u00f4micos sugerem novas crises e mais desigualdade. Ocaso do sistema parece n\u00edtido \u2013 resta saber o que vir\u00e1 depois\u2026<\/p>\n<p>A economia do mundo como um todo decresceu -3,5% em 2020 em decorr\u00eancia da crise provocada pelo novo coronav\u00edrus; entretanto, segundo estimativas recentes da OCDE, crescer\u00e1 5,8% em 2021 e provavelmente algo em torno de 4,4% em 2022. Essa perspectiva tem trazido esperan\u00e7a e at\u00e9 um pouco de euforia para os agentes econ\u00f4micos que d\u00e3o suporte ao capital e que se beneficiam de seu processo de valoriza\u00e7\u00e3o: o mundo, segundo eles, vai recuperar o caminho de prosperidade \u2013 mesmo, por\u00e9m, se desconfiam racionalmente dessa predi\u00e7\u00e3o, \u00e9 isso o que mais desejam.\u00a0 Mas, o que esperar de fato da economia mundial na pr\u00f3xima d\u00e9cada \u2013 e mesmo depois dela?<\/p>\n<p>Uma primeira resposta a essa pergunta pode ser encontrada examinando simplesmente a evolu\u00e7\u00e3o da economia mundial nas \u00faltimas d\u00e9cadas. A figura abaixo mostra de forma inilud\u00edvel que as taxas de crescimento do PIB global t\u00eam ca\u00eddo tendencialmente desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Se entre 1961 e 1970, esse indicador avan\u00e7ou segundo uma taxa m\u00e9dia de 5,4% ano, nas d\u00e9cadas seguintes, essa taxa foi caindo at\u00e9 chegar \u00e0 m\u00e9dia de 2,2% ao ano entre 2011 e 2020.<\/p>\n<p>Logo, n\u00e3o parece haver de in\u00edcio qualquer raz\u00e3o para otimismo; eis que a tend\u00eancia hist\u00f3rica de longo prazo mostra um continuo decl\u00ednio da taxa de eleva\u00e7\u00e3o do PIB. A euforia constatada n\u00e3o parece ser, portanto, nada mais do que uma ilus\u00e3o produzida pela recupera\u00e7\u00e3o em V da crise produzida pelo novo coronav\u00edrus. Na perspectiva desse evolver secular cadente, projetou-se apenas uma eleva\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de 2,2% ao ano para a d\u00e9cada que se inicia em 2021 e termina em 2030, tal como foi posto no gr\u00e1fico em sequ\u00eancia.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/secureservercdn.net\/198.71.233.36\/dpp.cce.myftpupload.com\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/terio-1.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><figcaption><em>Fonte: Banco Mundial<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Entretanto, como se sabe, este tipo de an\u00e1lise \u00e9 insuficiente, pois se baseia somente numa regularidade estat\u00edstica \u2013 e em um pouco de bom senso. De qualquer modo, antes de entrar em considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, \u00e9 interessante considerar, ainda na mesma perspectiva, que a economia capitalista tem crescido por meio de ciclos longos desde pelo menos o \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>Nesses ciclos h\u00e1 sempre uma fase ascendente em que as taxas de crescimento tendem a se elevar e uma fase descendente em que elas tendem a cair. A tabela abaixo mostra os resultados obtidos por Tsoulfidis e Papageorgiou por meio de uma pesquisa estat\u00edstica cuidadosamente desenvolvida com base nas s\u00e9ries estat\u00edsticas atualmente dispon\u00edveis; segundo esse estudo, ap\u00f3s o advento da primeira revolu\u00e7\u00e3o industrial, ainda no s\u00e9culo XVIII, ocorreram cinco ciclos longos na economia capitalista. O in\u00edcio do primeiro \u201cocorreu\u201d em 1790 porque essa \u00e9 a data mais antiga para a qual h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis.<sup>[1]<\/sup><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, ocorreram dois ciclos longos na economia mundial: um entre 1946 e 1982, per\u00edodo em que dominou o keynesianismo, e um outro a partir dessa \u00faltima data, \u00e9poca em que prevaleceu o neoliberalismo. Entre 1981 e 1990, a economia mundial cresceu em m\u00e9dia 3,12% ao ano; entre 1991 e 2010, essa taxa m\u00e9dia caiu para 2,8%, para chegar a apenas 2,2% na \u00faltima d\u00e9cada. Em raz\u00e3o desse baixo crescimento, reconhece-se amplamente que a economia mundial entrou num per\u00edodo de estagna\u00e7\u00e3o ap\u00f3s 1997.<\/p>\n<p>Ora, esse resultado tamb\u00e9m mostra de imediato que o neoliberalismo n\u00e3o foi capaz de produzir uma recupera\u00e7\u00e3o forte da economia mundial, capaz de levar as economias dispersas na superf\u00edcie do planeta Terra aos patamares obtidos ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra Mundial. De qualquer modo, enquanto regime de acumula\u00e7\u00e3o prevalecente nos \u00faltimos 40 anos, o neoliberalismo parece agora estar em processo final de esgotamento \u2013 sem que se saiba ainda o que vai substitui-lo.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/secureservercdn.net\/198.71.233.36\/dpp.cce.myftpupload.com\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/terio-2.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p>Para melhor compreender esses dois \u00faltimos ciclos longos, ou seja, o 4\u00ba e o 5\u00ba, \u00e9 preciso observar o que ocorreu com a taxa de lucro no per\u00edodo considerado. Para tornar isso poss\u00edvel, empregou-se aqui uma boa aproxima\u00e7\u00e3o dela; tomou-se a taxa interna de retorno para o G20 (uma m\u00e9dia ponderada constru\u00edda com os dados da Penn World Table 9.1) como representativa, j\u00e1 que o G20 inclui as vinte maiores economias, as quais respondem por cerca de 70% do PIB mundial. A figura em sequ\u00eancia apresenta essa estat\u00edstica descritiva. Nela fica bem evidente os dois ciclos longos mencionados: o primeiro est\u00e1 formado pela \u201cidade de ouro\u201d e pela \u201ccrise de lucratividade\u201d; o segundo est\u00e1 constitu\u00eddo pela \u201crecupera\u00e7\u00e3o neoliberal\u201d e pela \u201clonga depress\u00e3o\u201d.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/secureservercdn.net\/198.71.233.36\/dpp.cce.myftpupload.com\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/terio-3.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><figcaption><em>Fonte: Michael Roberts<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o da taxa de lucro permite datar o come\u00e7o e do fim dos ciclos; eis que esses dois limites \u2013 admite-se \u2013 s\u00e3o determinados de modo crucial pelo evolver dessa vari\u00e1vel \u2013 assim como, de modo complementar, pelo movimento ascendente ou descendente da massa de lucro. A figura acima mostra inequivocamente que a taxa de lucro se eleva na fase ascendente e cai na fase descendente dos ciclos. Ela mostra, tamb\u00e9m, que esse sobe-e-desce ocorreu duas vezes nos \u00faltimos 70 anos. S\u00e3o esses ciclos que aqui se quer considerar de modo melhor.<\/p>\n<p>\u00c9 por meio desse movimento que a taxa de lucro comanda a taxa de acumula\u00e7\u00e3o,<sup>[2]<\/sup>\u00a0a qual, por sua vez, consiste no investimento na amplia\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva da economia. Nesse sentido, o comportamento da taxa de crescimento do PIB reflete, com certas defasagens, o comportamento da taxa de lucro, ainda que seja influenciada tamb\u00e9m de outros modos. Assim, a tend\u00eancia declinante do PIB (primeiro gr\u00e1fico) no per\u00edodo como um todo \u00e9 assim explicada grosso modo pela pr\u00f3pria tend\u00eancia cadente da rentabilidade do capital (segundo gr\u00e1fico) no mesmo per\u00edodo (70 anos).<\/p>\n<p>Ainda que isso n\u00e3o conste do \u00faltimo gr\u00e1fico, a crise produzida pela pandemia do coronav\u00edrus produziu um tombo na taxa de lucro observada em 2020. De qualquer modo, a recupera\u00e7\u00e3o ocorrida em 2015-16 n\u00e3o foi sustentada nos anos seguintes. Ainda que tamb\u00e9m n\u00e3o apare\u00e7a no gr\u00e1fico, \u00e9 sabido que a queda persistente da taxa de lucro acaba produzido tamb\u00e9m uma queda da massa de lucro. E quando isso ocorre tem-se aquele momento em que uma crise de superacumula\u00e7\u00e3o de grandes propor\u00e7\u00f5es se precipita de alguma forma.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o se p\u00f5e agora \u00e9 saber se haver\u00e1 um novo ciclo longo na economia mundial ou se a tend\u00eancia de estagna\u00e7\u00e3o vai permanecer ou mesmo se aprofundar? A din\u00e2mica observada no passado vai se repetir ou a deteriora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a disruptiva do capitalismo n\u00e3o permite mais o advento de um sexto ciclo longo de acumula\u00e7\u00e3o? O que se pode esperar do desenvolvimento futuro da economia capitalista agora fortemente globalizada? Para tentar responder a essa pergunta deve-se come\u00e7ar lembrando que as crises s\u00e3o endogenamente necess\u00e1rias ao desenvolvimento do capitalismo.<sup>[3]<\/sup><\/p>\n<p>Considere-se todo o per\u00edodo de um ciclo longo. No in\u00edcio, a taxa de lucro se eleva e com ela cresce o investimento. O volume da produ\u00e7\u00e3o aumenta aceleradamente. O evolver da for\u00e7a produtiva do trabalho gera um crescimento da composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital, ou seja, da raz\u00e3o entre o capital constante (m\u00e1quinas, equipamento, mat\u00e9ria primas etc.) e o capital vari\u00e1vel (sal\u00e1rios). A demora desse processo acaba invertendo a tend\u00eancia de crescimento da taxa de lucro em tend\u00eancia ao decrescimento. Come\u00e7a, ent\u00e3o, a cair a taxa de acumula\u00e7\u00e3o e, assim, a taxa de crescimento.<\/p>\n<p>Em certo ponto desse processo, a massa de lucros tamb\u00e9m passa a se reduzir. \u00c9 nesse momento que surge uma crise de superacumula\u00e7\u00e3o e ela vem para reduzir as tens\u00f5es acumuladas pelo evolver das contradi\u00e7\u00f5es inerentes ao capitalismo. \u00c9 por isso que, \u201cperiodicamente\u201d \u2013 diz Marx \u2013 \u201co conflito entre os agentes antag\u00f4nicos [for\u00e7as produtivas e rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o] se desafoga em crises. E as crises s\u00e3o sempre solu\u00e7\u00f5es moment\u00e2neas violentas das contradi\u00e7\u00f5es existentes\u201d.<\/p>\n<p>Ora, para que as crises cumpram o seu papel na acumula\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso que haja destrui\u00e7\u00e3o de parte expressiva do capital industrial e do capital financeiro. Ora, isso ocorria espontaneamente no capitalismo at\u00e9 aproximadamente os anos 1920. Ap\u00f3s a grande crise de 1929, o Estado capitalista come\u00e7ou a atuar, cada vez mais pesadamente, no evolver da acumula\u00e7\u00e3o e no acontecer das crises.<sup>[4]<\/sup>\u00a0Na crise de 2007-08, os Estados, em especial nos pa\u00edses desenvolvidos, evitaram uma brutal destrui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas \u2013 eis que isso se tornou inaceit\u00e1vel politicamente \u2013 por meio da emiss\u00e3o maci\u00e7a de dinheiro para impedir a fal\u00eancias dos grandes bancos e, assim, em consequ\u00eancia, das grandes corpora\u00e7\u00f5es industriais.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia dessa interven\u00e7\u00e3o salvadora \u00e9 que as contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram neutralizadas e, assim, n\u00e3o foram criadas as condi\u00e7\u00f5es para uma recupera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e para o in\u00edcio de um novo ciclo longo de acumula\u00e7\u00e3o de capital. Em particular, a enorme massa de capital fict\u00edcio criada no passado recente n\u00e3o foi reduzida, mas, ao contr\u00e1rio, continuou crescendo de forma cada vez mais amea\u00e7adora.\u00a0 De qualquer modo, a longa depress\u00e3o minou a legitimidade do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Ora, a hist\u00f3ria do capitalismo mostra que n\u00e3o h\u00e1 \u201cnem prosperidade perp\u00e9tua nem estagna\u00e7\u00e3o permanente\u201d. \u00c9, pois, necess\u00e1rio admitir que durante o per\u00edodo da longa depress\u00e3o vem ocorrendo certas transforma\u00e7\u00f5es que atuam para elevar a lucratividade. Note-se, por\u00e9m, que elas n\u00e3o acontecem e n\u00e3o podem acontecer mais sem a atua\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Estado.<\/p>\n<p>Junto com uma liquida\u00e7\u00e3o end\u00f3gena das empresas menos eficientes e com um rebaixamento dos sal\u00e1rios reais da for\u00e7a de trabalho, o que ocorre devido \u00e0 pr\u00f3pria estagna\u00e7\u00e3o, novos arranjos institucionais e novos modos de regula\u00e7\u00e3o v\u00eam sendo criados pela administra\u00e7\u00e3o do sistema econ\u00f4mico. \u00c9 preciso ver que as pol\u00edticas econ\u00f4micas nunca se ausentam do esfor\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para eleva\u00e7\u00e3o da taxa de acumula\u00e7\u00e3o. Ademais, os subs\u00eddios \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de novas tecnologias nunca faltam nos pa\u00edses centrais que competem entre si, internacionalmente, pela primazia de fazer avan\u00e7ar as for\u00e7as produtivas \u2013 o que n\u00e3o ocorre em geral nos pa\u00edses perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Ora, a introdu\u00e7\u00e3o de tais mudan\u00e7as institucionais e nas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas n\u00e3o est\u00e3o encontrando um caminho facilitado justamente porque n\u00e3o ocorreu uma destrui\u00e7\u00e3o do capital acumulado no passado. Ademais, essa destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para que a taxa de lucro possa se recuperar: o estoque de capital precisa cair para que essa taxa, dada uma certa massa de lucro, possa subir. De qualquer modo, pode-se revisar sinteticamente aquelas mudan\u00e7as que est\u00e3o em curso de se tornarem realidade.<\/p>\n<p>Sabe-se, por um lado, que o lan\u00e7amento de um novo ciclo longo depende da exist\u00eancia de uma \u201conda de inova\u00e7\u00f5es\u201d que venha sucatear as velhas estruturas produtivas, abrindo espa\u00e7os para grandes volumes de investimentos. Nesse sentido, fala-se muito atualmente sobre a vinda da quarta revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que seria caracterizada pela difus\u00e3o da intelig\u00eancia artificial, do aprendizado de m\u00e1quina, da rob\u00f3tica e da automa\u00e7\u00e3o industrial, tendo em vista revolucionar os processos produtivos.<\/p>\n<p>Fala-se tamb\u00e9m que a substitui\u00e7\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o de energia \u201csuja\u201d por \u201climpa\u201d, um imperativo posto pela emerg\u00eancia clim\u00e1tica, pode abrir um grande espa\u00e7o para a acumula\u00e7\u00e3o de capital. A pr\u00f3pria pandemia do coronav\u00edrus acelerou a ado\u00e7\u00e3o de novas pr\u00e1ticas de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, as quais podem ter algum impacto. Entretanto, o seu efeito mais importante foi revelar certas fraquezas do neoliberalismo em sua fase atual enquanto um modo de regula\u00e7\u00e3o que visa promover o crescimento econ\u00f4mico. Na verdade, \u00e9 de notar que as suas recomenda\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica econ\u00f4mica, em particular o princ\u00edpio da austeridade fiscal, foram abandonadas no enfrentamento dessa peste do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Sabe-se, por outro lado, que o al\u00e7amento de um novo ciclo longo de acumula\u00e7\u00e3o precisa encontrar condi\u00e7\u00f5es institucionais adequadas. A observa\u00e7\u00e3o do que ocorreu nas \u00faltimas d\u00e9cadas mostrou de modo claro que o in\u00edcio e a sustenta\u00e7\u00e3o de uma nova etapa no processo de desenvolvimento do capitalismo dependem da exist\u00eancia de um novo regime de acumula\u00e7\u00e3o. Sabe-se, tamb\u00e9m, que essa nova configura\u00e7\u00e3o institucional dever estar caracterizada por toda uma estrutura de incentivo, regula\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica.<\/p>\n<p>Os proponentes da corrente te\u00f3rica \u201cestrutura social de acumula\u00e7\u00e3o\u201d consideram que uma \u201ccrise estrutural\u201d como a atual n\u00e3o pode ser resolvida sem uma grande reforma estrutural. Mencionam, por exemplo, que um novo ciclo n\u00e3o se iniciar\u00e1 sem um aprofundamento do papel do Estado na promo\u00e7\u00e3o de um crescimento econ\u00f4mico sustent\u00e1vel. Assim, preveem como poss\u00edvel \u2013 e talvez necess\u00e1rio \u2013 que surja uma forma de \u201ccapitalismo regulado\u201d que se baseie numa combina\u00e7\u00e3o mais profunda de iniciativa estatal com a iniciativa privada.<\/p>\n<p>Como o capitalismo \u00e9 um sistema que visa o lucro das empresas \u2013 e n\u00e3o o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o em geral \u2013, essa nova regula\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser t\u00e3o excludente quanto o neoliberalismo. Alguma manuten\u00e7\u00e3o e mesmo alguma renova\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do \u201ccompromisso capital-trabalho\u201d carater\u00edstico da socialdemocracia depender\u00e1 da agudeza das lutas sociais.<\/p>\n<p>De qualquer modo, mesmo se uma nova \u201cestrutura social de acumula\u00e7\u00e3o\u201d for institucionalizada, especialmente nos pa\u00edses mais ricos, n\u00e3o se ver\u00e1 o capitalismo global passar por um novo per\u00edodo de ouro, como ocorreu ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. H\u00e1 um certo consenso de aquele surto de acumula\u00e7\u00e3o foi poss\u00edvel devido \u00e0 grande destrui\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas em todos os pa\u00edses cujos territ\u00f3rios foram afetados pela atividade b\u00e9lica. Ora, isso n\u00e3o deve acontecer novamente j\u00e1 que se ocorrer, como evento catastr\u00f3fico de grandes propor\u00e7\u00f5es, n\u00e3o deixar\u00e1 de destruir a humanidade.<\/p>\n<p>O operar continuo da tend\u00eancia da queda da taxa de lucro, que se observou nos \u00faltimos 70 anos, certamente n\u00e3o permitir\u00e1 que esse novo ciclo se apresente com grande dinamismo e euforia pr\u00e1tica. Como a economia global, ademais, vai sofrer cada vez mais os impactos do aquecimento global, da destrui\u00e7\u00e3o das florestas, da falta de \u00e1gua pot\u00e1vel e das diversas formas de polui\u00e7\u00e3o, \u00e9 de se esperar que os resultados econ\u00f4micos de um novo ciclo ser\u00e3o muito moderados, insuficientes mesmo para gerar uma onda de otimismo sobre o futuro do sistema.<\/p>\n<p>Assim, se o quinto ciclo n\u00e3o foi capaz de recuperar os n\u00edveis da taxa de lucro observados no quarto ciclo, \u00e9 sensato esperar que um sexto ciclo n\u00e3o venha a ser capaz de obter os resultados do quinto. Pode-se prever, pois, que o capitalismo global, na melhor das hip\u00f3teses, passe de estagnado para semi-estagnado com algum surto ou outro de crescimento mais elevado. Ademais, n\u00e3o \u00e9 de ser prever que a concentra\u00e7\u00e3o da renda e da riqueza ocorrida no per\u00edodo neoliberal seja revertida de modo importante. Em consequ\u00eancia, deve-se esperar que o mundo nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas se configure, n\u00e3o por uma prosperidade que se difunde pela sociedade como um todo, mas por meio de conjunturas sucessivas bem inst\u00e1veis econ\u00f4mica, social e politicamente.<\/p>\n<p>Na verdade \u2013 acredita o economista que aqui escreve \u2013, est\u00e1 na presen\u00e7a do ocaso do capitalismo, mesmo se n\u00e3o se pode ter qualquer certeza sobre o advento poss\u00edvel de um socialismo renovado, profundamente democr\u00e1tico. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ter certeza de que \u00e9 preciso lutar por ele.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] Ver Tsoulfidis, Lefteris; Papageorgiou, Aris \u2013 The Recurrence of Long Cycles: Theories, Stylized Facts and Figures.\u00a0<em>World Review of Political Economy<\/em>, 2019, vol. 10(4), p. 1-36.<\/p>\n<p>[2 ] Na verdade, o que determina o investimento \u00e9 a taxa de lucro futura. Mas, como essa est\u00e1 sempre envolta por uma sombra de incerteza, os capitalistas se valem dos resultados presentes para pensar o futuro. Ademais, a grandeza dessa taxa indica tamb\u00e9m, indiretamente, a disponibilidade de fundos (lucros retidos) para sustentar o investimento.<\/p>\n<p>[3] As considera\u00e7\u00f5es que se seguem est\u00e3o, em parte, baseadas em artigo de Tsoulfidis, Lefteris; Tsaliki, Persefoni \u2013 \u201c<em>The long recession and economic consequences of the covid-19 pandemic<\/em>\u201d, o qual pode ser encontrado na internet.<\/p>\n<p>[4] A exterioridade do Estado em rela\u00e7\u00e3o ao sistema econ\u00f4mico, como se sabe, \u00e9 uma apar\u00eancia necess\u00e1ria do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O futuro da economia mundial &#8211; Outras Palavras. Link: https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/o-futuro-da-economia-mundial\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eleut\u00e9rio F. S. 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