{"id":15312,"date":"2021-06-13T12:12:44","date_gmt":"2021-06-13T15:12:44","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15312"},"modified":"2021-06-07T19:15:19","modified_gmt":"2021-06-07T22:15:19","slug":"podera-o-precariado-assombrar-o-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/06\/13\/podera-o-precariado-assombrar-o-capital\/","title":{"rendered":"Poder\u00e1 o precariado assombrar o capital?"},"content":{"rendered":"<p><span id=\"reader-credits\" dir=\"auto\"><strong>Leo Vinicius Liberato<\/strong> &#8211; <\/span>Enquanto lia\u00a0<em>Delivery Fight<\/em>\u00a0n\u00e3o pude deixar de recordar o j\u00e1 cl\u00e1ssico\u00a0<em>Greve na F\u00e1brica<\/em>, de Robert Linhart. Com seus pontos comuns e diferen\u00e7as, o livro de Callum Cant faz parte desse mesmo g\u00eanero de literatura, infelizmente n\u00e3o numeroso, em que a experi\u00eancia do trabalho, as formas de controle e a constru\u00e7\u00e3o das lutas s\u00e3o apresentadas pelo olhar de um trabalhador.<\/p>\n<div id=\"readability-page-1\" class=\"page\">\n<div id=\"single-the-content\">\n<p>Robert Linhart era um jovem militante e intelectual que se inseriu como oper\u00e1rio numa f\u00e1brica da Citro\u00ebn na Fran\u00e7a no final dos anos 1960. Seu objetivo era fomentar a luta e organiza\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios daquela f\u00e1brica. Callum Cant, diferentemente, foi fazer entregas pela Deliveroo sem o objetivo militante, apesar de ser um militante e de ter sido ativo na organiza\u00e7\u00e3o da greve dos entregadores em Brighton, no per\u00edodo em que trabalhou para a Deliveroo. O objetivo dele ao se cadastrar no aplicativo era ter mais uma fonte de renda.<\/p>\n<p>Apesar de o livro de Linhart ser magn\u00edfico para se estudar algumas \u00e1reas do conhecimento, como a ergonomia, a sociologia e psicologia do trabalho, ser\u00e1 no livro de Callum Cant que encontraremos uma preocupa\u00e7\u00e3o em analisar a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, a composi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e as lutas deles. Mas deixemos as compara\u00e7\u00f5es de lado. O motivo de\u00a0<em>Greve na F\u00e1brica\u00a0<\/em>ter aparecido neste Pref\u00e1cio \u00e9 servir como refer\u00eancia para situarmos historcamente a experi\u00eancia relatada e analisada em\u00a0<em>Delivery Fight\u00a0<\/em>ao longo dos \u00faltimos setenta anos de luta de classes.<\/p>\n<p><strong>Do fordismo \u00e0\u00a0<em>f\u00e1brica difus<\/em>a<\/strong><\/p>\n<p>O cen\u00e1rio apresentado por Robert Linhart foi emblem\u00e1tico do \u00faltimo grande ciclo mundial de lutas da classe trabalhadora, situado nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>. A maior greve geral mundial at\u00e9 ent\u00e3o, ocorrida de forma selvagem em maio de 1968 na Fran\u00e7a, mostrava que<\/p>\n<p>o ch\u00e3o das grandes f\u00e1bricas era ainda local privilegiado de luta e rebeldia da classe trabalhadora. No ano seguinte, na It\u00e1lia, no que ficou conhecido como \u201coutono quente\u201d, ocorreu uma das mais intensas mobiliza\u00e7\u00f5es de trabalhadores da hist\u00f3ria, com mais de 300 milh\u00f5es de horas de trabalho perdidas por greves, das quais 230 milh\u00f5es foram nas ind\u00fastrias\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a>\u00a0Costuma-se dizer que o \u201cMaio de 68\u201d italiano durou uma d\u00e9cada, pois as lutas se estenderam com incr\u00edvel intensidade at\u00e9 a segunda metade da d\u00e9cada de 1970. O car\u00e1ter espont\u00e2neo, por fora dos sindicatos, das cont\u00ednuas lutas de f\u00e1brica fizeram as grandes plantas da Fiat, tidas como term\u00f4metros da luta de classes naquele pa\u00eds h\u00e1 d\u00e9cadas, serem consideradas ingovern\u00e1veis por volta de 1974. Para al\u00e9m das greves selvagens e da intimida\u00e7\u00e3o a supervisores, as faltas ao trabalho chegaram a 28% em certas semanas\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Essa tentativa de fuga da subordina\u00e7\u00e3o do trabalho expressa na rebeldia e nas formas de luta oper\u00e1rias levou o capital a fugir dessa insubordina\u00e7\u00e3o. Na It\u00e1lia, ainda nos anos 1970, a resposta dada \u00e0 insubordina\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria foi a reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva, com a automatiza\u00e7\u00e3o, a terceiriza\u00e7\u00e3o e a descentraliza\u00e7\u00e3o do processo produtivo, al\u00e9m do aumento do setor informal da economia\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a>. Cabe ressaltar que a maior planta da Fiat, em Mirafiori, concentrava 63 mil oper\u00e1rios no final dos anos 1960, sendo a maior f\u00e1brica do mundo. Esse processo de reorganiza\u00e7\u00e3o e dispers\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o foi uma resposta global dos capitalistas \u00e0quele ciclo de lutas da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>A intensidade daquelas lutas havia posto em xeque o fordismo como forma de controle e organiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Intelectuais italianos envolvidos nas lutas daquelas d\u00e9cadas passaram a denominar de\u00a0<em>f\u00e1brica difusa<\/em>\u00a0essa dispers\u00e3o e terceiriza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, que a espraiava pelo territ\u00f3rio da cidade, retirando a centralidade das grandes f\u00e1bricas. Na express\u00e3o de Antonio Negri, a cidade passaria a ser produtiva como antes era a terra trabalhada\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote5sym\"><sup>5<\/sup><\/a>. Se o livro de Linhart ilustrava perfeitamente o cen\u00e1rio daquele ciclo de lutas, Callum Cant nos traz uma ilustra\u00e7\u00e3o equivalente da experi\u00eancia de trabalho e de lutas nessa f\u00e1brica difusa p\u00f3s-fordista. Os entregadores de aplicativos s\u00e3o hoje uma das express\u00f5es mais not\u00e1veis das tend\u00eancias que se desencadearam como resposta \u00e0 crise do fordismo gerada pela Z\u2019insubordina\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. A amplia\u00e7\u00e3o do setor informal (ou a explora\u00e7\u00e3o direta da informalidade), a expans\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o, a terceiriza\u00e7\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o se confundindo com o pr\u00f3prio territ\u00f3rio da cidade, o desmanche da prote\u00e7\u00e3o trabalhista e social, a fuga por parte das empresas da pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o de trabalho buscando transformar os trabalhadores em consumidores do seu servi\u00e7o. Todas essas caracter\u00edsticas da reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva p\u00f3s-fordista s\u00e3o vividas pelos entregadores de aplicativos.<\/p>\n<p><strong>Multiculturalismo e luta de classes<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de ambientado na Inglaterra, o livro de Callum Cant toca diretamente ao leitor brasileiro n\u00e3o apenas pelo fato de a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho imposta aos entregadores de aplicativos ser muito parecida na Inglaterra e no Brasil. Como o leitor ter\u00e1 oportunidade de verificar atrav\u00e9s das palavras do autor, os imigrantes brasileiros eram particularmente conhecedores de t\u00e1ticas de greve, tendo disparado as greves em Brighton (2016) e desempenhado papel importante na consolida\u00e7\u00e3o da greve em Londres (2018). Isso em si talvez marque uma diferen\u00e7a da composi\u00e7\u00e3o dessa for\u00e7a de trabalho na Europa e no Brasil. L\u00e1, uma grande parte dos entregadores de aplicativos s\u00e3o imigrantes vindos de outros pa\u00edses, frequentemente n\u00e3o legalizados. A participa\u00e7\u00e3o de imigrantes nessa for\u00e7a de trabalho tem aumentado \u00e0 medida que os rendimentos baixam e os estudantes locais se retiram da atividade.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o relatado por Callum Cant para ultrapassar a barreira lingu\u00edstica que separava entregadores de diversas nacionalidades nos remete ao tema do multiculturalismo na luta de classes. Na f\u00e1brica em que Robert Linhart trabalhou na Fran\u00e7a, como fica bastante n\u00edtido atrav\u00e9s de seu relato, os patr\u00f5es se aproveitavam de uma for\u00e7a de trabalho multicultural, formada em grande parte por imigrantes, de modo a melhor manter os trabalhadores separados e sem unidade coletiva. Al\u00e9m das diferen\u00e7as de l\u00edngua, as identidades \u00e9tnicas, religiosas, algumas das quais com rixas hist\u00f3ricas, eram usadas pelo comando e controle capitalista. A greve naquela f\u00e1brica da Citro\u00ebn foi poss\u00edvel porque a barreira das diferen\u00e7as de origem e de identidade foi sendo superada pela condi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria compartilhada no local de trabalho. Na f\u00e1brica difusa, em que a produ\u00e7\u00e3o se espalha pela cidade e pelo tempo de vida, as classes capitalistas continuam contando com as diferen\u00e7as e rixas identit\u00e1rias para que a for\u00e7a de trabalho n\u00e3o se constitua como coletividade em luta.<\/p>\n<p>Programas pol\u00edticos e a pol\u00edtica eleitoral tamb\u00e9m podem se constituir como for\u00e7a de fragmenta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Os motoboys brasileiros que estavam na vanguarda das greves relatadas por Callum Cant simpatizavam com Jair Bolsonaro e compartilhavam conte\u00fados dessa nova direita nos grupos de WhatsApp dos entregadores brasileiros. Contradi\u00e7\u00f5es \u00e0 parte, o fato \u00e9 que eles constitu\u00edram uma pr\u00e1tica de antagonismo direto ao capital, lutando contra a explora\u00e7\u00e3o a que eram submetidos pelas empresas de entrega por aplicativos. No Brasil, durante a mobiliza\u00e7\u00e3o para as paralisa\u00e7\u00f5es nacionais dos entregadores dos dias 1\u00ba e 25 de julho de 2020 \u2013 o\u00a0<em>Breque dos Apps<\/em>\u00a0\u2013, a classe p\u00f4de se constituir porque deixou de lado as prefer\u00eancias partid\u00e1rias e eleitorais individuais. A comunidade emergia da experi\u00eancia comum do trabalho e sabiamente n\u00e3o se falava de pol\u00edtica nos grupos de WhatsApp de organiza\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o do Breque. A organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o da categoria constitu\u00eda uma pol\u00edtica contra a explora\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida. Tratava-se de uma pol\u00edtica impl\u00edcita nas pr\u00e1ticas de mobiliza\u00e7\u00e3o e luta dos entregadores, o que era diferente de identidades pol\u00edticas evidenciadas em programas e prefer\u00eancias partid\u00e1rias e eleitorais.<\/p>\n<p>Foi a pol\u00edtica nesse sentido identit\u00e1rio,\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote6sym\"><sup>6<\/sup><\/a>\u00a0com potencial de fragmentar os trabalhadores, que ve\u00edculos e pessoas de esquerda acabaram refor\u00e7ando ao concederem enorme destaque e sobrevalorizarem a import\u00e2ncia do grupo Entregadores Antifascistas. Introduzindo um elemento de identidade pol\u00edtica, o \u201cantifascismo\u201d, eles introduziram um elemento de tens\u00e3o e divis\u00e3o. N\u00e3o por algum entregador se considerar fascista, evidentemente. Mas por trazer algo externo \u00e0 experi\u00eancia comum de trabalho, o \u00fanico elemento capaz de ser imediatamente compreendido por todos e de unificar e constituir a classe.<\/p>\n<p><strong>O\u00a0<em>Breque dos apps\u00a0<\/em>e o fantasma da autonomia\u00a0<\/strong><b>oper\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Como disse antes, havia sim um programa pol\u00edtico impl\u00edcito nas pr\u00e1ticas do Breque dos Apps. Para usar um termo corrente nos anos 1970, principalmente na It\u00e1lia, o Breque dos Apps foi uma express\u00e3o pol\u00edtica de \u201cautonomia oper\u00e1ria\u201d. Autonomia \u201coper\u00e1ria\u201d numa dimens\u00e3o alcan\u00e7ada em S\u00e3o Paulo que n\u00e3o se via nos centros urbanos brasileiros havia pelo menos quarenta anos.<\/p>\n<p>Comunica\u00e7\u00e3o horizontal e participa\u00e7\u00e3o ativa dos entregadores imprimindo e distribuindo eles pr\u00f3prios os cartazes, gravando v\u00eddeos, por fora de entidades sindicais \u2013 e em parte at\u00e9 mesmo contra o sindicato em S\u00e3o Paulo. A percep\u00e7\u00e3o dessa autonomia e horizontalidade foi o que possibilitou um efeito de cont\u00e1gio pelo Brasil, para dentro e para fora da categoria, e at\u00e9 mesmo fora do pa\u00eds, fazendo do chamado de greve para o dia 1\u00ba de julho uma greve internacional, com a paralisa\u00e7\u00e3o se estendendo a outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Essa participa\u00e7\u00e3o ativa da categoria na constru\u00e7\u00e3o da mobiliza\u00e7\u00e3o e a comunica\u00e7\u00e3o horizontal entre os trabalhadores tornaram o Breque dos Apps uma mobiliza\u00e7\u00e3o diferente daquelas puxadas por dire\u00e7\u00f5es sindicais. Essa forma potencializou o movimento e tamb\u00e9m o seu impacto. Um movimento que n\u00e3o \u00e9 controlado por dire\u00e7\u00f5es sindicais n\u00e3o \u00e9 limitado por conven\u00e7\u00f5es, normas, leis, e possui assim uma imprevisibilidade que em si constitui uma for\u00e7a sua. A autonomia \u201coper\u00e1ria\u201d se constitu\u00eda j\u00e1 na pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o do Breque.<\/p>\n<p>Puxar uma greve nacional de entregadores de aplicativos para o dia 1\u00ba de julho foi uma ideia discutida e decidida em grupos de WhatsApp de entregadores de alguns estados. A ideia de uma greve nacional j\u00e1 vinha sendo gestada desde os primeiros meses do ano e ganhou impulso com a\u00e7\u00f5es de luta dos entregadores em algumas cidades, como em Rio Branco, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. Seguindo mais ou menos uma ordem decrescente de import\u00e2ncia para a mobiliza\u00e7\u00e3o dos entregadores, as reivindica\u00e7\u00f5es eram: 1) Aumento do valor das corridas; 2) Aumento do valor m\u00ednimo por entrega; 3) Fim dos bloqueios e desligamentos indevidos; 4) Seguro de roubo, acidente e vida; 5) Fim do sistema de pontua\u00e7\u00e3o; 6) Aux\u00edlio-pandemia (EPIs e licen\u00e7a). Evidentemente, as tend\u00eancias e rela\u00e7\u00f5es que se estabeleciam entre entregadores e sindicatos, pol\u00edticos e institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o homog\u00eaneas Brasil afora. Mas o que prevaleceu, principalmente em S\u00e3o Paulo, onde o movimento era mais potente, foi uma posi\u00e7\u00e3o de autonomia total quanto a sindicatos, partidos, institui\u00e7\u00f5es\u2026 quando n\u00e3o com uma atitude de avers\u00e3o aberta e declarada. Dias antes da paralisa\u00e7\u00e3o, um v\u00eddeo gravado por alguns motoboys de S\u00e3o Paulo que estavam bastante engajados na organiza\u00e7\u00e3o do Breque sintetizou a perspectiva aut\u00f4noma do movimento\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote7sym\"><sup>7<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Baseando as pautas na atividade dos entregadores de aplicativos e explicitando que n\u00e3o havia v\u00ednculo pol\u00edtico com ningu\u00e9m nem com sindicatos, sendo uma iniciativa e a\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios entregadores, eles demonstravam uma agu\u00e7ada consci\u00eancia de classe pr\u00e1tica. Mais do que isso, mostravam como o movimento era uma express\u00e3o de continuidade da autonomia oper\u00e1ria que precipitou a crise do fordismo nos anos 1970, dessa vez numa condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-fordista. Como diz um ex-oper\u00e1rio italiano bastante ativo nas lutas e na constru\u00e7\u00e3o dessa autonomia oper\u00e1ria nos anos 1960 e 1970: a passividade dos trabalhadores normalmente pode ser superada, pois ela seria consequ\u00eancia da falta de refer\u00eancias pol\u00edticas e organizativas alternativas ao sindicato.\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote8sym\"><sup>8<\/sup><\/a>\u00a0Em parte, era isso que tamb\u00e9m estava sendo constitu\u00eddo pelos entregadores: uma refer\u00eancia de organiza\u00e7\u00e3o alternativa ao sindicato. Como no \u00faltimo grande ciclo de lutas da classe trabalhadora, o potencial disruptivo da a\u00e7\u00e3o dos trabalhadores vinha de fora do sindicato, quando n\u00e3o se voltava diretamente contra ele.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel dizer o n\u00famero de entregadores que aderiram \u00e0 paralisa\u00e7\u00e3o em 1o de julho de 2020 no Brasil. Em S\u00e3o Paulo, especificamente, talvez seja dif\u00edcil at\u00e9 mesmo fazer uma estimativa. Provavelmente foi a maior paralisa\u00e7\u00e3o de entregadores de aplicativos no Ocidente. A imagem midi\u00e1tica, espetacular, foi a da imensa manifesta\u00e7\u00e3o que saiu da Avenida Paulista e terminou ocupando a Ponte Estaiada. Contudo, a autonomia de classe se expressou de forma menos vis\u00edvel aos olhos do p\u00fablico. Foram os incont\u00e1veis piquetes auto-organizados em locais de coleta de pedidos, como shopping centers, que fizeram desse o dia de maior ex- press\u00e3o de autonomia \u201coper\u00e1ria\u201d nos centros urbanos brasileiros das \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Para o dia 25 de julho era n\u00edtido que n\u00e3o havia a mesma energia e disposi\u00e7\u00e3o dos entregadores para se envolver com a paralisa\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, ao menos em S\u00e3o Paulo ela foi bastante expressiva. Dessa vez a paralisa\u00e7\u00e3o teve um tom de \u201cgreve de pijama\u201d. Muitos ficaram em casa. Mas os piquetes em alguns shoppings eram desnecess\u00e1rios uma vez que o movimento de trabalho estava mesmo muito abaixo do normal. Grande parte dos entregadores de fato n\u00e3o havia ido trabalhar.<\/p>\n<p>O movimento conseguiu trazer uma boa exposi\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o vivida pelos entregadores de aplicativos. A imagem das empresas de aplicativo saiu arranhada, e esse preju\u00edzo \u00e0 marca certamente foi maior do que aquele trazido pela paralisa\u00e7\u00e3o do trabalho. No entanto, comparada com as greves de entregadores na Inglaterra relatadas por Callum Cant, o Breque dos Apps objetivamente conquistou muito pouco. Talvez o \u00fanico ganho objetivo tenha sido alguma melhora para que n\u00e3o haja tantos bloqueios indevidos por parte da maior empresa do mercado, mas sem nada oficializado. Essa diferen\u00e7a em termos de conquistas e compromisso das empresas na Inglaterra e no Brasil \u00e9 ind\u00edcio de que aqui os trabalhadores est\u00e3o enfrentando um poder econ\u00f4mico mais soberano, mais dif\u00edcil de ser constrangido. Algo que a exist\u00eancia do modelo OL no Brasil tamb\u00e9m nos indica, o que veremos mais adiante.<\/p>\n<p><strong>A composi\u00e7\u00e3o de classe<\/strong><\/p>\n<p>A atra\u00e7\u00e3o exercida tanto por\u00a0<em>Delivery Fight<\/em>\u00a0quanto pelo Breque dos Apps sobre aqueles que buscam um mundo mais justo certamente se relaciona com a esperan\u00e7a ou expectativa de que a classe trabalhadora esteja se recompondo nas novas condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e de rela\u00e7\u00f5es de trabalho que chamamos vagamente de p\u00f3s-fordismo. P\u00f3s-fordismo que os entregadores de aplicativo t\u00e3o bem representam na sua vers\u00e3o talvez mais extrema, que tem sido denominada de uberiza\u00e7\u00e3o. O conceito de composi\u00e7\u00e3o (e recomposi\u00e7\u00e3o) de classe surgiu em meio a uma corrente de intelectuais italianos, os quais se envolveram nas lutas oper\u00e1rias dos anos 1960 e 1970. \u00c9 dessa refer\u00eancia te\u00f3rica, chamada\u00a0<em>opera\u00edsmo<\/em>, que Callum Cant parte para analisar o seu pr\u00f3prio trabalho como entregador, assim como a organiza\u00e7\u00e3o e a luta da categoria. O<\/p>\n<p>leitor ir\u00e1 encontrar em\u00a0<em>Delivery Fight<\/em>\u00a0a explica\u00e7\u00e3o mais did\u00e1tica de que tenho conhecimento dos conceitos de composi\u00e7\u00e3o de classe, de composi\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, de composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de composi\u00e7\u00e3o social (este \u00faltimo acrescido posteriormente aos conceitos originais dos opera\u00edstas italianos). Callum Cant \u00e9 excepcionalmente did\u00e1tico e claro na explica\u00e7\u00e3o desses e de outros conceitos importantes para se compreender e analisar a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Essa j\u00e1 seria uma virtude que por si s\u00f3 justificaria o livro.<\/p>\n<p>Esquematicamente podemos dizer que o \u00faltimo grande ciclo de lutas da classe trabalhadora se baseou numa determinada composi\u00e7\u00e3o de classe. Com a reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva para responder a essas lutas, o capital gerou um processo de fragmenta\u00e7\u00e3o e decomposi\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. Esse processo de fragmenta\u00e7\u00e3o, iniciado h\u00e1 d\u00e9cadas, ainda est\u00e1 em curso. No entanto, as lutas que ocorrem com maior ou menor intensidade podem indicar um processo ou tend\u00eancia de recomposi\u00e7\u00e3o de classe. Pelo menos \u00e9 nessa expectativa que olhamos para as lutas dos trabalhadores. Estar atento aos ind\u00edcios de uma poss\u00edvel recomposi\u00e7\u00e3o de classe \u00e9 tamb\u00e9m estar atento a uma nova \u00adsubjetividade dos trabalhadores, emergente a partir de novas \u00adcondi\u00e7\u00f5es de vida e de experi\u00eancia de trabalho. Uma nova composi\u00e7\u00e3o de classe implica uma nova pol\u00edtica, novos desafios e novas quest\u00f5es postas, que certamente n\u00e3o constituir\u00e3o um caminho de regresso hist\u00f3rico ao fordismo. Ora, o fordismo como forma de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e de pacto social foi posto em crise pela pr\u00f3pria luta dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A falta de perspectiva hist\u00f3rica aliada a um afastamento da realidade vivida pelos trabalhadores e a um desinteresse em compreend\u00ea-los t\u00eam feito muitos acad\u00eamicos atribu\u00edrem a rejei\u00e7\u00e3o da maioria dos motoboys \u00e0 CLT, ou a prefer\u00eancia em n\u00e3o terem carteira assinada, a uma suposta ideologia empresarial e de empreendedorismo que estaria impregnando esses trabalhadores. Todos os trabalhadores sempre buscam autonomia e seguran\u00e7a social. Busca por autonomia que se expressa desde as tentativas subterr\u00e2neas de controlar o ritmo de trabalho at\u00e9 os momentos revolucion\u00e1rios de tomada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e autogest\u00e3o generalizada. Como Callum Cant deixa claro, e tamb\u00e9m como relatam entregadores de aplicativos do Brasil \u00e0 China, uma vantagem evidente que faz os entregadores de aplicativos preferirem em geral esse trabalho a uma s\u00e9rie de outros \u00e9 a aus\u00eancia de chefe. Os chefes costumam ser uma das principais fontes de inc\u00f4modo e estresse em qualquer trabalho. A carteira assinada est\u00e1 relacionada a esse tipo de subordina\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>O que a maioria dos motoboys est\u00e1 dizendo com essa \u00adrejei\u00e7\u00e3o \u00e0 carteira assinada e \u00e0 CLT \u00e9 que n\u00e3o est\u00e3o dispostos a abrir m\u00e3o da autonomia e flexibilidade que possuem em troca da prote\u00e7\u00e3o trabalhista e previdenci\u00e1ria da CLT. Ora, isso n\u00e3o impediu que se colocassem em luta aberta contra as empresas de aplicativos de entrega nem, que reivindicassem prote\u00e7\u00e3o social, como deixam claro o Breque dos Apps e suas pautas.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, nas palavras de Cant, diz respeito a como os trabalhadores s\u00e3o organizados como for\u00e7a de trabalho produtiva. Por isso\u00a0<em>Delivery Fight<\/em>\u00a0traz uma brilhante an\u00e1lise da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho dos entregadores de aplicativos, al\u00e9m de descrever e analisar a organiza\u00e7\u00e3o deles enquanto classe que luta (a composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica).<\/p>\n<p><strong>Normas de produ\u00e7\u00e3o e o risco de acidentes<\/strong><\/p>\n<p>Central a essa organiza\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 o sal\u00e1rio por pe\u00e7a, que j\u00e1 mencionamos. Ele por si s\u00f3 induz que os entregadores autogerenciem e autointensifiquem o trabalho. A percep\u00e7\u00e3o de risco de Callum Cant era assim reduzida enquanto ele fazia as entregas, em rela\u00e7\u00e3o a quando ele pedalava fora do trabalho.<\/p>\n<p>Ocupa\u00e7\u00f5es ligadas ao transporte rodovi\u00e1rio possuem as maiores taxas de mortalidade por acidente de trabalho no Brasil\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote9sym\"><sup>9<\/sup><\/a>. E isso mesmo desconsiderando os que est\u00e3o na informalidade. Na China, as press\u00f5es exercidas pela organiza\u00e7\u00e3o do trabalho imposta pelas empresas levam os entregadores a se arriscarem ainda mais. Tempos reduzidos para realizar as entregas, com rotas que desconsideram as regras de tr\u00e2nsito, e puni\u00e7\u00f5es financeiras e de desligamento por atraso levam os entregadores a avan\u00e7arem o sinal vermelho e a andarem na contram\u00e3o, o que gera um aumento expressivo dos acidentes e mortes de motoboys\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote10sym\"><sup>10<\/sup><\/a>. Como<\/p>\n<p>no Brasil e nos outros pa\u00edses, essas empresas n\u00e3o s\u00e3o responsabilizadas pelos acidentes e n\u00e3o arcam com nenhum custo de afastamento do trabalho nem de reparo do instrumento de trabalho, de modo que as empresas n\u00e3o se veem incentivadas a mudar as regras que determinam os acidentes. Quando os acidentes se tornam uma quest\u00e3o p\u00fablica, uma s\u00e9rie de medidas cosm\u00e9ticas ou que acabam penalizando os entregadores acabam sendo postas em pr\u00e1tica, em nome da seguran\u00e7a no trabalho. Para n\u00e3o entrarmos nos diversos exemplos chineses de medidas que supostamente visam prevenir acidentes mas que n\u00e3o tocam nas regras impostas pelas empresas que determinam a maior parte dos acidentes, responsabilizando unicamente os trabalhadores pela preven\u00e7\u00e3o, fiquemos com um exemplo ocorrido em Florian\u00f3polis.<\/p>\n<p>Em setembro de 2020, uma esp\u00e9cie de opera\u00e7\u00e3o-padr\u00e3o massiva envolvendo a Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal e a Pol\u00edcia Militar levou \u00e0 apreens\u00e3o de in\u00fameras motocicletas de entregadores, al\u00e9m de um n\u00famero maior de multas, flagelando ainda mais trabalhadores que se viram do jeito que podem com extensas jornadas para conseguir pagar as contas a cada m\u00eas. As\u00a0<em>blitze<\/em>\u00a0eram di\u00e1rias e em tantas vias da cidade que alguns entregadores chegaram a n\u00e3o sair para trabalhar tamanha a dificuldade de se deslocar sem passar por elas. In- dignados, os motoboys chamaram uma manifesta\u00e7\u00e3o para o dia 23 de setembro. Com a repercuss\u00e3o na imprensa, o discurso do comando da Pol\u00edcia era de que se tratava de a\u00e7\u00e3o motivada pelo aumento no n\u00famero de acidentes com motoboys. A li\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: se a seguran\u00e7a e sa\u00fade dos trabalhadores n\u00e3o est\u00e3o incorporadas \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do trabalho como valor exterior \u00e0 maximiza\u00e7\u00e3o do lucro, elas aparecer\u00e3o como for\u00e7a policial sobre os trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>A liberdade do trabalhador contra o controle e a disciplina do explorador<\/strong><\/p>\n<p>Um ponto importante destacado por Callum Cant \u00e9 que a precariedade dos v\u00ednculos trabalhistas n\u00e3o significa necessariamente menor poder desses trabalhadores, podendo ocorrer exatamente o contr\u00e1rio. O v\u00e1cuo de legisla\u00e7\u00e3o trabalhista que implica aus\u00eancia de direitos e de prote\u00e7\u00e3o social tamb\u00e9m implica que os entregadores est\u00e3o fora da legisla\u00e7\u00e3o que enquadra as formas de luta de organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Todo um espa\u00e7o se abre para lutas mais aut\u00f4nomas, contundentes e imprevis\u00edveis quando n\u00e3o h\u00e1 necessidade de aviso pr\u00e9vio, formaliza\u00e7\u00e3o ou de seguir procedimentos de negocia\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 ocorr\u00eancia de greves. Cant apresenta o exemplo hist\u00f3rico dos oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil e dos estivadores ingleses. A aus\u00eancia de v\u00ednculo empregat\u00edcio propiciava um grande poder de barganha aos estivadores. Para lhes retirar esse poder, os capitalistas terminaram por incorpor\u00e1-los como empregados em tempo integral, com sal\u00e1rios fixos.<\/p>\n<p>Para fugir do v\u00ednculo empregat\u00edcio, essas empresas de entrega por aplicativos terceirizam o trabalho para uma multid\u00e3o, considerando-os trabalhadores aut\u00f4nomos, ou mesmo consumidores de seus servi\u00e7os. Para Callum Cant, esse status de trabalhador aut\u00f4nomo (<em>independent contractor<\/em>\u00a0na Inglaterra) se torna necess\u00e1rio para que possam implementar o sistema de sal\u00e1rio por pe\u00e7a. Somado a isso, a automatiza\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o de supervis\u00e3o (o chamado \u201calgoritmo\u201d) completa a caracteriza\u00e7\u00e3o do que tem sido o t\u00edpico modelo de rela\u00e7\u00e3o de trabalho de entregadores de aplicativo pelo mundo. Mas Callum Cant nos mostra que o supervisor autom\u00e1tico exerce mal uma das fun\u00e7\u00f5es da supervis\u00e3o, isto \u00e9, da chefia: disciplinar o trabalhador. Disciplinar para trabalhar, assim como para n\u00e3o contestar e n\u00e3o lutar. A essa defici\u00eancia na fun\u00e7\u00e3o disciplinar brilhantemente apresentada por Callum Cant, podemos acrescentar que o modelo t\u00edpico de entrega por aplicativos cria uma incerteza de quantos entregadores a empresa ter\u00e1 dispon\u00edveis em determinado hor\u00e1rio, uma vez que em tese os entregadores possuem liberdade de logar e deslogar da plataforma quando bem quiserem. Essa incerteza tende a se tornar mais problem\u00e1tica para as empresas, por exemplo, em dias ou horas de chuva, quando a demanda tende a aumentar e o n\u00famero de entregadores logados tende a diminuir.<\/p>\n<p>Para resolver o problema da indisciplina e dessa incerteza sobre o n\u00famero de entregadores \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, a atual conjuntura hist\u00f3rica tem permitido que as empresas de entrega por aplicativos deem uma resposta diferente da que foi dada aos estivadores ingleses. Essa conjuntura \u00e9 a de debilidade geral da classe trabalhadora, num per\u00edodo de d\u00e9cadas de relativa estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e de desindustrializa\u00e7\u00e3o, com consequente subemprego em massa\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote11sym\"><sup>11<\/sup><\/a>. A resposta diferente que essas empresas de entrega por aplicativos j\u00e1 d\u00e3o pode ser vista num modelo de rela\u00e7\u00e3o de trabalho que n\u00e3o existe na Europa \u2013 segundo informa\u00e7\u00f5es que troquei com o nosso autor \u2013 mas que existe por aqui.<\/p>\n<p>No Brasil, apesar de ser adotado tamb\u00e9m pela Bee, esse modelo ficou conhecido pelo iFood como OL. O iFood possui dois tipos de entregadores, o Nuvem e o OL. O Nuvem \u00e9 o modelo t\u00edpico que caracterizamos acima, o mesmo descrito por Callum Cant a partir de seu pr\u00f3prio trabalho. Aquele em que o entregador pode logar e deslogar quando quiser, isto \u00e9, a princ\u00edpio trabalhar quando quiser, n\u00e3o possuindo chefe ou supervisor humano. O OL por sua vez tem que cumprir hor\u00e1rios todos os dias, com um dia de folga por semana. Ele possui chefe\/supervisor humano, o Operador Log\u00edstico, uma esp\u00e9cie de supervisor terceirizado do iFood que determina os dias de folga e em quais turnos (manh\u00e3, tarde, noite) o entregador ter\u00e1 que trabalhar. O modelo OL responde ao problema da indisciplina do trabalhador: os entregadores OL, a grosso modo, n\u00e3o participaram do Breque dos Apps. Se faltarem ao trabalho podem ser desligados por seus Operadores Log\u00edsticos, que funcionam como pequenos patr\u00f5es. Por outro lado, esse modelo garante \u00e0 empresa a certeza de que haver\u00e1 determinado n\u00famero de entregadores trabalhando, n\u00e3o importa o clima, uma vez que n\u00e3o possuem liberdade para logarem e deslogarem quando quiserem e tampouco para rejeitarem corridas.<\/p>\n<p>Na China as duas grandes empresas de entrega por aplicativo alocam grande parte das suas for\u00e7as de trabalho sob um modelo bastante parecido com o do OL, no qual os entregadores t\u00eam supervisores humanos terceirizados e s\u00e3o obrigados a cumprir uma jornada de trabalho definida. No entanto, na China eles recebem um valor m\u00ednimo fixo, enquanto no Brasil n\u00e3o. Nos Estados Unidos, uma empresa de compras e entregas por aplicativos chamada Instacart possui um modelo algo semelhante para toda a sua for\u00e7a de trabalho. H\u00e1 supervisores humanos e turnos de trabalho, que s\u00e3o escolhidos pelos trabalhadores conforme seu ranqueamento. A Deliveroo na Europa, embora n\u00e3o tenha supervisores humanos, possui em grande parte das cidades um sistema de turnos em que o trabalhador deve escolher hor\u00e1rios pre-definidos para trabalhar, por ordem de ranqueamento. Um sistema parecido com o de distribui\u00e7\u00e3o de comida do filme\u00a0<em>O Po\u00e7o<\/em>, em que os grupos mais abaixo no ranqeamento ficam com as sobras de hor\u00e1rios e regi\u00f5es, at\u00e9 sobrarem apenas os piores e poucos hor\u00e1rios e regi\u00f5es para os do fundo do \u201cpo\u00e7o\u201d. N\u00e3o poder cumprir um turno programado por causa de um acidente ou qualquer outro imprevisto, como um assalto, costuma jogar o entregador em dire\u00e7\u00e3o ao fundo do po\u00e7o no ranqueamento.<\/p>\n<p><strong>O que vem pela frente?<\/strong><\/p>\n<p>Em suma, o capital j\u00e1 est\u00e1 impondo um regime de trabalho com o sistema OL que mistura a subordina\u00e7\u00e3o desp\u00f3tica fordista com a aus\u00eancia de direitos e prote\u00e7\u00e3o social que tem sido tend\u00eancia no p\u00f3s-fordismo. J\u00e1 \u00e9 realidade o paradoxo de ser empregado sem sal\u00e1rio e sem v\u00ednculo empregat\u00edcio com qualquer emprego \u2013 algo que n\u00e3o foi visto antes na hist\u00f3ria do capitalismo. A l\u00f3gica \u00e9 que esse para\u00edso para os capitalistas tenda a se expandir nessa e em outras categorias, se depender da vontade deles. E \u00e9 a vontade deles, praticamente sem obst\u00e1culos, que tem prevalecido nos \u00faltimos anos, ao menos no Brasil.<\/p>\n<p>A obriga\u00e7\u00e3o de possuir os instrumentos de trabalho e o sal\u00e1rio por pe\u00e7a s\u00e3o duas caracter\u00edsticas presentes no trabalho de entrega para aplicativos que tendem a se generalizar para outras atividades. Por isso os entregadores de aplicativos tamb\u00e9m podem nos antecipar, quem sabe, tend\u00eancias para uma recomposi\u00e7\u00e3o de classe no futuro. Uma tend\u00eancia nesse contexto de baixa demanda por trabalho e de subemprego em massa \u00e9 que a reivindica\u00e7\u00e3o de um sal\u00e1rio m\u00ednimo se torne cada vez mais comum, pois seria a \u00fanica forma de conseguir aumento salarial ou, pelo menos, tentar evitar a redu\u00e7\u00e3o salarial. Tend\u00eancia de redu\u00e7\u00e3o salarial que afeta particularmente os servi\u00e7os, como nos explica Aaron Benanav\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote12sym\"><sup>12<\/sup><\/a>. O aumento do valor m\u00ednimo por entrega e o valor m\u00ednimo por quilometragem foram reivindica\u00e7\u00f5es dos entregadores de aplicativos em julho de 2020 no Brasil, que nos servem como exemplo. Se isso parece ser uma reivindica\u00e7\u00e3o rebaixada quando comparada a outros tempos, pouco<\/p>\n<p>importa. O que ir\u00e1 importar do ponto de vista revolucion\u00e1rio, de fortalecimento de novas rela\u00e7\u00f5es sociais, \u00e9 a forma que ter\u00e3o as lutas e os movimentos. Como salienta Benanav, h\u00e1 uma diferen\u00e7a importante das lutas que viveremos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s lutas hist\u00f3ricas da classe trabalhadora. Elas n\u00e3o ser\u00e3o mais relacionadas \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o, mas \u00e0s consequ\u00eancias do fim desta.<\/p>\n<p>Os capitalistas contam com a nossa dificuldade de construir lutas cont\u00ednuas e que n\u00e3o se burocratizem, ainda mais em tempos de baixa demanda por trabalho. Contam tamb\u00e9m com a maior dispers\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em rela\u00e7\u00e3o aos tempos de Robert Linhart<\/p>\n<p>na f\u00e1brica da Citro\u00ebn. E nada indica que a amplia\u00e7\u00e3o do poder deles sobre n\u00f3s encontrar\u00e1 um rev\u00e9s t\u00e3o logo. Mas uma coisa eles n\u00e3o podem evitar: a rebeldia. Como dizia um revolucion\u00e1rio do s\u00e9culo XIX, o ser humano \u00e9 dotado de duas faculdades preciosas: o pensamento e a necessidade de se revoltar. Haver\u00e1 muitos gritos de\u00a0<em>J\u00e1 Basta<\/em>\u00a0contra essa vida insuport\u00e1vel de sofrimento e indignidade que o lucro e o poder deles imp\u00f5em. Callum<\/p>\n<p>Cant nos traz de forma inspiradora um desses gritos. O fato de voc\u00ea estar com esse livro nas m\u00e3os \u00e9 sinal de que esse grito ecoa em dire\u00e7\u00e3o a outros gritos de rebeldia\u2026<\/p>\n<p>Eles jamais poder\u00e3o contar com um sono tranquilo.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote1anc\">1<\/a>\u00a0A maior express\u00e3o desse ciclo de lutas no Brasil foram greves e agita\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias no final dos anos 1970, concentradas no ABC e em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote2anc\">2<\/a>\u00a0GIACHETTI, Diego; SCAVINO, Marco.\u00a0<em>La Fiat in mano agli operai. L\u2019autunno caldo del 1969.<\/em>Ghezzano: BFS Edizioni, 1999.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote3anc\">3<\/a>\u00a0KATSIAFICAS, Georges.\u00a0<em>The Subversion of Politics: European Autonomous Social Movements and the Decolonization of Everyday Life<\/em>. New Jersey: Humanity Press, 1997<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote4anc\">4<\/a>\u00a0Ver: GINSBORG, Paul.\u00a0<em>A History of Contemporary Italy: Society and Politics 1943-1988<\/em>. Londres: Penguin, 1990; e WRIGHT, Steve.\u00a0<em>Storming Heaven: Class Composition and Struggle in Italian Autonomist Marxism<\/em>. Londres: Pluto Press, 2002.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote5anc\">5<\/a>\u00a0NEGRI, Antonio.\u00a0<em>Adeus Sr. Socialismo<\/em>. Porto: Ambar, 2006.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote6anc\">6<\/a>\u00a0Ver: HAIDER, Asad.\u00a0<em>Armadilha da Identidade: ra\u00e7a e classe nos dias de hoje<\/em>. S\u00e3o Paulo: Veneta, 2019.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote7anc\">7<\/a>\u00a0Postado na p\u00e1gina\u00a0<em>Treta no Trampo<\/em>\u00a0no Facebook em 29 de junho de 2020: https:\/\/www.facebook.com\/tretanotrampo\/posts\/158641615782375.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote8anc\">8<\/a>\u00a0SACCHETTO, Devi; SBROGI\u00d2, Gianni.\u00a0<em>Quando il potere \u00e8 operaio: autonomia e soggettivit\u00e0 politica a Porto Marghera (1960-1980).\u00a0<\/em>Roma: Manifestolibri, 2009.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote9anc\">9<\/a>\u00a0DIEESE. Anu\u00e1rio da Sa\u00fade do Trabalhador. S\u00e3o Paulo: Dieese, 2016.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote10anc\">10<\/a>\u00a0Sobre a situa\u00e7\u00e3o dos entregadores de aplicativos na China, ver a excelente mat\u00e9ria \u201cDelivery Workers, Trapped in the System\u201d, dispon\u00edvel em: http:\/\/chuangcn.org\/2020\/11\/delivery-renwu-translation\/, 27 fev. 2021.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote11anc\">11<\/a>\u00a0BENANAV, Aaron.\u00a0<em>Automation and the Future of Work<\/em>. Nova York: Verso, 2020.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=109&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Fpodera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo%2F#sdendnote12anc\">12<\/a>\u00a0BENANAV, Aaron, op. cit.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/podera-o-precariado-assombrar-o-capitalidmo\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leo Vinicius Liberato &#8211; Enquanto lia\u00a0Delivery Fight\u00a0n\u00e3o pude deixar de recordar o j\u00e1 cl\u00e1ssico\u00a0Greve na F\u00e1brica, de Robert Linhart. 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