{"id":15249,"date":"2021-05-25T09:14:08","date_gmt":"2021-05-25T12:14:08","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15249"},"modified":"2021-05-19T09:19:47","modified_gmt":"2021-05-19T12:19:47","slug":"o-virus-capitalista-do-cansaco-incessante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/05\/25\/o-virus-capitalista-do-cansaco-incessante\/","title":{"rendered":"O v\u00edrus capitalista do cansa\u00e7o incessante"},"content":{"rendered":"<p><strong>Byung-Chul Han<\/strong>, &#8211; A covid-19 \u00e9 um espelho que reflete em n\u00f3s as crises da nossa sociedade. Ela torna os sintomas patol\u00f3gicos \u2014 que j\u00e1 existiam antes da pandemia \u2014 mais vis\u00edveis. Um desses sintomas \u00e9 o cansa\u00e7o. Todos n\u00f3s, de um jeito ou de outro, nos sentimos muito cansados. \u00c9 um cansa\u00e7o fundamental que nos acompanha o tempo todo e em todo lugar, como nossas pr\u00f3prias sombras. Durante a pandemia, temos nos sentido ainda mais cansados. A ociosidade, que o <em>lockdown<\/em>\u00a0nos imp\u00f5e, nos faz ficar mais cansados. Algumas pessoas afirmam que \u00e9 poss\u00edvel descobrirmos a beleza do lazer, e que a vida pode desacelerar. Na verdade, o tempo durante a pandemia n\u00e3o \u00e9 governado por lazer ou desacelera\u00e7\u00e3o, mas por cansa\u00e7o e depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que nos sentimos t\u00e3o cansados? Hoje, o cansa\u00e7o parece ser um fen\u00f4meno global. Dez anos atr\u00e1s, publiquei um livro,\u00a0<em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em>, no qual eu descrevia o cansa\u00e7o como uma doen\u00e7a que aflige a sociedade neoliberal das realiza\u00e7\u00f5es. O cansa\u00e7o que experimentamos durante a pandemia me fez pensar no assunto novamente. O trabalho, por mais dif\u00edcil que seja, n\u00e3o provoca um\u00a0<em>cansa\u00e7o fundamental<\/em>. Podemos estar exaustos depois do trabalho, mas esse cansa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 o mesmo que o cansa\u00e7o fundamental. O trabalho, em determinado ponto, acaba. A compuls\u00e3o de realiza\u00e7\u00e3o \u00e0 qual nos sujeitamos vai para al\u00e9m desse ponto. Est\u00e1 conosco nas horas de lazer, nos atormenta at\u00e9 durante o sono e, muitas vezes, nos faz passar noites sem dormir. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel recuperar-se da compuls\u00e3o de realiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 essa press\u00e3o interna, especificamente, que nos cansa. Portanto, h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre cansa\u00e7o e exaust\u00e3o. O tipo certo de exaust\u00e3o pode at\u00e9 nos livrar do cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>Dist\u00farbios psicol\u00f3gicos como a depress\u00e3o ou o esgotamento (<em>burnout<\/em>) s\u00e3o sintomas de uma profunda crise de liberdade. S\u00e3o um sinal patol\u00f3gico, e indicam que a liberdade de hoje muitas vezes acaba virando compuls\u00e3o. Achamos que somos livres. Mas, na verdade, n\u00f3s nos exploramos intensamente at\u00e9 colapsar. Nos realizamos e nos otimizamos at\u00e9 a morte. A l\u00f3gica trai\u00e7oeira da conquista nos obriga a nos anteciparmos permanentemente. Sempre que conquistamos algo, na sequ\u00eancia, j\u00e1 queremos conquistar mais, ou seja, queremos estar mais uma vez \u00e0 frente de n\u00f3s mesmos. Mas, obviamente, \u00e9 imposs\u00edvel voc\u00ea mesmo se ultrapassar. Essa l\u00f3gica absurda acaba levando a um colapso. O sujeito realizador acredita que \u00e9 livre, quando na verdade \u00e9 um escravo. \u00c9 um escravo absoluto na medida em que se explora voluntariamente, mesmo sem a presen\u00e7a de um senhor.<\/p>\n<p>A sociedade neoliberal da realiza\u00e7\u00e3o torna essa explora\u00e7\u00e3o poss\u00edvel mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 domina\u00e7\u00e3o. A sociedade disciplinar, com seus mandamentos e proibi\u00e7\u00f5es, que Michel Foucault exp\u00f4s em seu livro\u00a0<em>Vigiar e Punir<\/em>, n\u00e3o descreve essa sociedade da realiza\u00e7\u00e3o atual. A sociedade da realiza\u00e7\u00e3o explora a pr\u00f3pria liberdade. E a autoexplora\u00e7\u00e3o \u00e9 mais eficiente do que a explora\u00e7\u00e3o comandada por outros, porque ela anda de m\u00e3os dadas com um sentimento de liberdade. Kafka expressou com grande clareza o paradoxo da liberdade do escravo que acredita ser o senhor. Em um de seus aforismos, ele escreve: \u201cO animal arranca o chicote de seu dono e se chicoteia para tornar-se seu pr\u00f3prio amo, sem saber que isso n\u00e3o passa de uma fantasia produzida por um novo n\u00f3 na chicotada do amo\u201d. Essa autoflagela\u00e7\u00e3o permanente nos deixa cansados e, em \u00faltima an\u00e1lise, deprimidos. Em certo aspecto, o neoliberalismo se baseia na autoflagela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mais sinistro sobre a covid-19 \u00e9 que aqueles que pegam a doen\u00e7a sofrem exatamente de cansa\u00e7o e esgotamento extremos. A doen\u00e7a parece simular um cansa\u00e7o fundamental. E h\u00e1 cada vez mais relatos de pacientes que se recuperaram, mas que continuam sofrendo de sintomas graves a longo prazo, entre eles, a \u201cs\u00edndrome da fadiga cr\u00f4nica\u201d. Uma express\u00e3o que descreve isso muito bem \u00e9: \u201cas baterias n\u00e3o carregam mais\u201d. As pessoas afetadas n\u00e3o s\u00e3o mais capazes de trabalhar e ter algum desempenho. Elas precisam fazer um esfor\u00e7o at\u00e9 para servir-se de um copo d\u2019\u00e1gua. Ao caminhar, precisam fazer paradas frequentes para recuperar o f\u00f4lego. Sentem-se mortos-vivos. Um paciente relata: \u201cA sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 como se voc\u00ea tivesse o celular com apenas 4% de bateria, e voc\u00ea realmente s\u00f3 tem esse 4% para o dia inteiro e n\u00e3o pode recarreg\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p>Mas o v\u00edrus n\u00e3o cansa apenas as pessoas que t\u00eam ou tiveram covid. Agora, ele gera cansa\u00e7o at\u00e9 nas pessoas saud\u00e1veis. Em seu livro\u00a0<em>Pandemic! Covid-19 Shakes the World<\/em>\u00a0(\u201cPandemia! A covid-19 sacode o mundo\u201d), Slavoj \u017di\u017eek dedica um cap\u00edtulo inteiro \u00e0 pergunta: \u201cPor que estamos cansados \u200b\u200bo tempo todo?\u201d Claramente, \u017di\u017eek tamb\u00e9m sente que a pandemia nos deixou cansados. Neste cap\u00edtulo, o autor discorda da ideia do meu livro,\u00a0<em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em>, argumentando que a explora\u00e7\u00e3o por terceiros n\u00e3o foi substitu\u00edda pela autoexplora\u00e7\u00e3o, foi apenas transferida para pa\u00edses do Terceiro Mundo. Concordo com \u017di\u017eek que esta transfer\u00eancia ocorreu.\u00a0<em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em>refere-se principalmente \u00e0s sociedades neoliberais ocidentais e n\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do oper\u00e1rio chin\u00eas. Mas, com ajuda das m\u00eddias sociais, a forma de vida neoliberal tamb\u00e9m vem se expandindo pelo Terceiro Mundo. A ascens\u00e3o do ego\u00edsmo, da atomiza\u00e7\u00e3o e do narcisismo na sociedade \u00e9 um fen\u00f4meno global. As m\u00eddias sociais fazem de todos n\u00f3s produtores, empreendedores cujas vidas s\u00e3o o neg\u00f3cio. Globalizam a cultura do ego que corr\u00f3i a comunidade, corr\u00f3i tudo o que \u00e9 social. N\u00f3s nos produzimos e nos colocamos em exposi\u00e7\u00e3o permanente. Essa autoprodu\u00e7\u00e3o, essa cont\u00ednua \u201cexibi\u00e7\u00e3o em vitrine\u201d do ego, nos deixa cansados \u200b\u200be deprimidos. \u017di\u017eek n\u00e3o aborda este cansa\u00e7o fundamental, que \u00e9 caracter\u00edstico dos nossos tempos e que foi agravado pela pandemia.<\/p>\n<p>\u017di\u017eek surge numa passagem de seu livro pand\u00eamico para aquecer a tese da autoexplora\u00e7\u00e3o, escrevendo: \u201cElas [pessoas que trabalham em casa] poder\u00e3o ter ainda mais tempo para \u2018explorar a n\u00f3s mesmos\u2019 [sic]\u201d. Durante a pandemia, o campo de trabalho neoliberal ganhou um novo nome:\u00a0<em>home office<\/em>. Trabalhar em casa \u00e9 mais cansativo do que trabalhar no escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>No entanto, isso n\u00e3o pode ser explicado em termos de aumento da autoexplora\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 cansativo \u00e9 a solid\u00e3o envolvida, o intermin\u00e1vel sentar-se de pijama na frente do computador. Somos confrontados com n\u00f3s mesmos, compelidos constantemente a meditar e especular sobre n\u00f3s mesmos. Em conclus\u00e3o, o cansa\u00e7o fundamental \u00e9 um tipo de cansa\u00e7o do ego. O escrit\u00f3rio dom\u00e9stico intensifica isso, envolvendo-nos ainda mais profundamente conosco. Fazem falta outras pessoas, que poderiam distrair-nos do nosso ego. Cansamos por falta de contato social, de abra\u00e7os, de toque corporal. Em condi\u00e7\u00f5es de quarentena, come\u00e7amos a perceber que talvez as outras pessoas n\u00e3o sejam o \u201cinferno\u201d, como escreveu Sartre em\u00a0<em>Sem Sa\u00edda<\/em>, mas a cura. O v\u00edrus tamb\u00e9m acelera o desaparecimento do outro, como descrevi em\u00a0<em>A Expuls\u00e3o do Outro<\/em>.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia do ritual \u00e9 outra raz\u00e3o para o cansa\u00e7o induzido pelo\u00a0<em>home office<\/em>. Em nome da flexibilidade, estamos perdendo as estruturas e arquiteturas temporais fixas que estabilizam e revigoram a vida. A aus\u00eancia de ritmo, em particular, intensifica a depress\u00e3o. O ritual gera comunidade mesmo sem necessidade de comunica\u00e7\u00e3o, enquanto que hoje prevalece a comunica\u00e7\u00e3o sem comunidade. Mesmo aqueles rituais que ainda mant\u00ednhamos, como jogos de futebol, shows e idas a restaurantes, ao teatro ou ao cinema, foram cancelados. Sem rituais de encontro ou comemora\u00e7\u00e3o, somos jogados \u00e0s profundezas de n\u00f3s mesmos. Ser capazes de cumprimentar pessoas cordialmente \u00e9 que nos torna seres, e n\u00e3o um simples peso. O distanciamento social desmonta a vida social. Isso nos cansa. As outras pessoas s\u00e3o reduzidas a potenciais portadoras do v\u00edrus, das quais devemos manter uma dist\u00e2ncia f\u00edsica. O v\u00edrus amplifica nossas crises atuais. Est\u00e1 destruindo a comunidade, que j\u00e1 estava em crise. Isso afasta uns dos outros. Isso nos torna ainda mais solit\u00e1rios do que j\u00e1 \u00e9ramos nesta era de m\u00eddia social que reduz o social e nos isola.<\/p>\n<p>A cultura foi a primeira coisa a ser abandonada durante o\u00a0<em>lockdown<\/em>. O que \u00e9 a cultura? Ela gera comunidade! Sem ela, n\u00e3o passamos de animais apenas querendo sobreviver. N\u00e3o \u00e9 a economia, mas sobretudo a cultura, a chamada vida comunit\u00e1ria, que precisa se recuperar desta crise o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n<p>As constantes reuni\u00f5es de Zoom tamb\u00e9m nos deixam cansados. Elas nos transformam em zumbis do Zoom. Nos obrigam a nos olharmos permanentemente no espelho. Olhar para o pr\u00f3prio rosto na tela \u00e9 cansativo. Somos continuamente confrontados com nossos pr\u00f3prios rostos. Ironicamente, o v\u00edrus apareceu justamente nos tempos da\u00a0<em>selfie<\/em>, moda que pode ser explicada como decorrente do narcisismo de nossa sociedade. O v\u00edrus intensifica esse narcisismo. Durante a pandemia, todos n\u00f3s somos constantemente confrontados com nossos pr\u00f3prios rostos; produzimos uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0sem fim na frente de nossas telas. Isso nos cansa.<\/p>\n<p>O narcisismo do Zoom produz efeitos colaterais peculiares. Ele levou a um boom nas cirurgias est\u00e9ticas. Imagens distorcidas ou borradas na tela levam as pessoas ao desespero, enquanto se a resolu\u00e7\u00e3o da tela for boa, de repente detectamos rugas, calv\u00edcie, manchas hep\u00e1ticas, bolsas nos olhos e outras imperfei\u00e7\u00f5es da pele pouco atraentes. Desde o in\u00edcio da pandemia, as pesquisas no Google por cirurgia est\u00e9tica dispararam. Durante o bloqueio, os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos foram inundados com perguntas de clientes que buscavam melhorar sua apar\u00eancia cansada. Fala-se at\u00e9 de uma \u201cdismorfia do Zoom\u201d. O espelho digital incentiva essa dismorfia (a preocupa\u00e7\u00e3o exagerada com supostas falhas na apar\u00eancia f\u00edsica). O v\u00edrus leva ao limite o frenesi de otimiza\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 nos dominava antes da pandemia. Tamb\u00e9m, aqui, o v\u00edrus \u00e9 um espelho da nossa sociedade. E no caso da dismorfia do Zoom, o espelho \u00e9 real! Cresce em n\u00f3s o puro desespero com nossa apar\u00eancia. A dismorfia do Zoom, essa preocupa\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica com nossos egos, tamb\u00e9m nos cansa.<\/p>\n<p>A pandemia tamb\u00e9m revelou os efeitos colaterais negativos da digitaliza\u00e7\u00e3o. A comunica\u00e7\u00e3o digital \u00e9 muito unilateral e atenuada: n\u00e3o h\u00e1 olhares, n\u00e3o h\u00e1 corpos. Falta a presen\u00e7a f\u00edsica do outro. A pandemia faz com que essa forma de comunica\u00e7\u00e3o, essencialmente desumana, se torne a norma. A comunica\u00e7\u00e3o digital nos deixa muito, muito cansados. \u00c9 uma comunica\u00e7\u00e3o sem resson\u00e2ncia, uma comunica\u00e7\u00e3o sem felicidade. Em uma reuni\u00e3o do Zoom, n\u00e3o podemos, por raz\u00f5es t\u00e9cnicas, nos olhar nos olhos. Tudo o que fazemos \u00e9 olhar para a tela. A aus\u00eancia do olhar do outro nos cansa. Esperan\u00e7osamente, a pandemia nos far\u00e1 perceber que a presen\u00e7a f\u00edsica de outra pessoa \u00e9 algo que traz felicidade, que a linguagem implica experi\u00eancia f\u00edsica, que um di\u00e1logo bem-sucedido pressup\u00f5e corpos, que somos criaturas f\u00edsicas. Os rituais que temos perdido durante a pandemia tamb\u00e9m implicam em experi\u00eancia f\u00edsica. Eles representam formas de comunica\u00e7\u00e3o f\u00edsica que criam comunidade e, portanto, trazem felicidade. Acima de tudo, eles nos afastam de nossos egos. Na situa\u00e7\u00e3o atual, o ritual seria um ant\u00eddoto para o cansa\u00e7o fundamental. O aspecto f\u00edsico tamb\u00e9m \u00e9 inerente \u00e0 comunidade como tal. A digitaliza\u00e7\u00e3o enfraquece a coes\u00e3o da comunidade na medida em que tem o efeito de desencarnar. O v\u00edrus nos afasta do corpo.<\/p>\n<p>A obsess\u00e3o com a sa\u00fade j\u00e1 era galopante antes da pandemia. Agora, estamos basicamente preocupados com a sobreviv\u00eancia, como se estiv\u00e9ssemos em um estado de guerra permanente. Na batalha pela sobreviv\u00eancia, a quest\u00e3o de uma vida boa n\u00e3o entra em jogo. Apelamos a todas as for\u00e7as da vida, s\u00f3 para prolongar a vida a qualquer custo. Com a pandemia, esta batalha feroz pela sobreviv\u00eancia sofre uma escalada viral. O v\u00edrus transforma o mundo em uma enfermaria de quarentena, na qual a vida \u00e9 congelada para nossa sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Hoje, a sa\u00fade passou a ser o principal objetivo da humanidade. A sociedade de sobreviv\u00eancia perdeu o sentido da boa vida. At\u00e9 o prazer \u00e9 sacrificado no altar da sa\u00fade, que se torna um fim em si. Nietzsche j\u00e1 a chamava de nova deusa. A proibi\u00e7\u00e3o ao cigarro tamb\u00e9m expressa a mania pela sobreviv\u00eancia. O prazer tem que dar lugar \u00e0 sobreviv\u00eancia. O prolongamento da vida torna-se o valor mais alto. No interesse da sobreviv\u00eancia, sacrificamos voluntariamente tudo o que torna a vida digna de ser vivida.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o exige que, mesmo em pandemia, n\u00e3o sacrifiquemos todos os aspectos da vida. \u00c9 tarefa da pol\u00edtica garantir que a vida n\u00e3o se reduza a uma vida plana, nua e crua, \u00e0 mera sobreviv\u00eancia. Eu sou cat\u00f3lico. Gosto de frequentar igrejas, especialmente nestes tempos estranhos. No ano passado, no Natal, participei de uma Missa do Galo que aconteceu apesar da pandemia. Isso me deixou feliz. Infelizmente, n\u00e3o havia incenso, coisa que eu amo muito. Eu me perguntei: ser\u00e1 que h\u00e1 tamb\u00e9m uma proibi\u00e7\u00e3o estrita dos incensos durante a pandemia? Por qu\u00ea? Ao sair da igreja, estendi a m\u00e3o para a bacia de \u00e1gua benta, como de costume, e tomei um susto ao perceber que ela estava vazia. Do lado dela, foi colocado um frasco de desinfetante.<\/p>\n<p><em>Corona blues<\/em>\u00a0\u00e9 o nome que os coreanos deram \u00e0 depress\u00e3o que se espalha durante a pandemia. Em quarentena e sem intera\u00e7\u00e3o social, a depress\u00e3o se aprofunda. A depress\u00e3o \u00e9 a verdadeira pandemia.\u00a0<em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em>partiu do seguinte diagn\u00f3stico:<\/p>\n<blockquote><p><em>Cada era tem as suas pr\u00f3prias inquieta\u00e7\u00f5es caracter\u00edsticas. Assim, j\u00e1 existiu uma era bacteriana; no fim, ela acabou com a descoberta dos antibi\u00f3ticos. Apesar do medo generalizado de uma epidemia gripal, n\u00e3o vivemos em uma era viral. Gra\u00e7as \u00e0 tecnologia imunol\u00f3gica, j\u00e1 a deixamos para tr\u00e1s. Do ponto de vista patol\u00f3gico, o incipiente s\u00e9culo XXI n\u00e3o \u00e9 determinado nem por bact\u00e9rias nem por v\u00edrus, mas por neur\u00f4nios. Doen\u00e7as neurol\u00f3gicas como depress\u00e3o, transtorno de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o e hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade lim\u00edtrofe (TPL\/Borderline) e s\u00edndrome de burnout (esgotamento) marcam o panorama da patologia no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Em breve teremos vacinas suficientes para vencer o v\u00edrus. Mas n\u00e3o haver\u00e1 vacinas contra a pandemia da depress\u00e3o.<\/p>\n<p>A depress\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 um sintoma da sociedade do\u00a0<em>burnout<\/em>. O sujeito da realiza\u00e7\u00e3o sofre de burnout no momento em que ele n\u00e3o \u00e9 mais capaz de \u201cser capaz\u201d. Ele n\u00e3o consegue atender \u00e0 sua demanda autoimposta para ser produtivo e realizar metas, prop\u00f3sitos. N\u00e3o ser mais capaz de \u201cser capaz\u201d leva \u00e0 auto-recrimina\u00e7\u00e3o destrutiva e \u00e0 autoagress\u00e3o. O sujeito da realiza\u00e7\u00e3o trava uma guerra contra si mesmo e morre nela. A vit\u00f3ria nessa guerra contra si mesmo \u00e9 chamada de esgotamento.<\/p>\n<p>V\u00e1rios milhares de pessoas cometem suic\u00eddio todos os anos na Coreia do Sul. A principal causa \u00e9 a depress\u00e3o. Em 2018, cerca de 700 crian\u00e7as em idade escolar tentaram se suicidar. A m\u00eddia fala at\u00e9 em um \u201cmassacre silencioso\u201d. Em contraste, at\u00e9 agora apenas 1.700 pessoas morreram de covid-19 na Coreia do Sul. A alt\u00edssima taxa de suic\u00eddio \u00e9 simplesmente aceita como um efeito colateral da sociedade da realiza\u00e7\u00e3o. Nenhuma medida significativa foi adotada para reduzir essa taxa. A pandemia intensificou o problema do suic\u00eddio \u2014 na Coreia do Sul, a taxa de suic\u00eddio aumentou rapidamente desde seu in\u00edcio. O v\u00edrus, aparentemente, tamb\u00e9m agrava a depress\u00e3o. Mas em todo o mundo n\u00e3o se presta aten\u00e7\u00e3o suficiente \u00e0s consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas da pandemia. As pessoas foram reduzidas \u00e0 exist\u00eancia biol\u00f3gica. Todos ouvem apenas os virologistas, que assumiram autoridade absoluta na hora de interpretar a situa\u00e7\u00e3o. A maior crise causada pela pandemia \u00e9 o fato de que a vida, sozinha, tenha virado um valor absoluto.<\/p>\n<p>O v\u00edrus da covid-19 desgasta nossa sociedade j\u00e1 esgotada, aprofundando as linhas das falhas sociais patol\u00f3gicas. Isso nos leva a um cansa\u00e7o coletivo. O coronav\u00edrus tamb\u00e9m poderia ser chamado de v\u00edrus do cansa\u00e7o. Mas o v\u00edrus tamb\u00e9m \u00e9 uma crise no sentido grego de\u00a0<em>krisis<\/em>, o que significa um ponto de inflex\u00e3o. Pois tamb\u00e9m pode nos permitir reverter nosso destino e fugir de nossa ang\u00fastia. Ela apela, com urg\u00eancia:\u00a0<em>mude de vida!\u00a0<\/em>Mas s\u00f3 conseguiremos fazer isso se revisarmos radicalmente nossa sociedade, se conseguirmos encontrar uma nova forma de vida imune ao v\u00edrus do cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/o-virus-capitalista-do-cansaco-incessante\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Byung-Chul Han, &#8211; A covid-19 \u00e9 um espelho que reflete em n\u00f3s as crises da nossa sociedade. Ela torna os sintomas patol\u00f3gicos \u2014 que j\u00e1 existiam antes da pandemia \u2014 mais vis\u00edveis. Um desses sintomas \u00e9 o cansa\u00e7o. 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