{"id":15243,"date":"2021-05-22T09:04:37","date_gmt":"2021-05-22T12:04:37","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15243"},"modified":"2021-05-19T09:06:31","modified_gmt":"2021-05-19T12:06:31","slug":"em-busca-da-felicidade-perdida-no-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/05\/22\/em-busca-da-felicidade-perdida-no-capitalismo\/","title":{"rendered":"Em busca da felicidade perdida no capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nuno Ramos de Almeida &#8211; <\/strong>No seu livro\u00a0<em>Les sentiments du capitalisme<\/em>, a soci\u00f3loga Eva Illouz afirma que \u201cos sentimentos n\u00e3o s\u00e3o a\u00e7\u00f5es em si mesmo, mas a energia interior que nos leva a agir e que d\u00e1 aos nossos atos a sua \u2018tonalidade\u2019 e as suas \u2018cores\u2019 particulares. O sentimento pode ser definido como o polo energ\u00e9tico da a\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Nesse livro, a soci\u00f3loga pretende tra\u00e7ar os contornos do que chama \u201ccapitalismo emocional\u201d, que \u00e9 aquilo que define como uma cultura em que as pr\u00e1ticas e os discursos econ\u00f4micos se influenciam mutuamente.<\/p>\n<p>\u00c9 esta constata\u00e7\u00e3o que a leva, na introdu\u00e7\u00e3o do livro\u00a0<em>Porquoi l\u2019amour fait mal<\/em>, a analisar as altera\u00e7\u00f5es \u201cna organiza\u00e7\u00e3o social do sofrimento amoroso\u201d e a afirmar: \u201cos sofrimentos no amor s\u00e3o hoje atribu\u00eddos somente ao indiv\u00edduo, \u00e0 sua hist\u00f3ria privada, e \u00e0 sua capacidade de se saber apresentar ele mesmo. Precisamente porque vivemos numa \u00e9poca em que a ideia de responsabilidade individual reina como mestre, \u00e9 que a voca\u00e7\u00e3o da sociologia continua essencial. Da mesma maneira que era audacioso, no fim do s\u00e9culo XIX, afirmar que pobreza n\u00e3o era fruto de uma moralidade duvidosa ou de uma fraqueza de car\u00e1ter, mas resultado de um sistema de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, \u00e9 neste momento urgente defender que o falhan\u00e7o das nossas vidas privadas n\u00e3o \u00e9 \u2013 ou n\u00e3o \u00e9 somente \u2013 o resultado de atitudes psicol\u00f3gicas erradas, mas que as vicissitudes e infelicidades nas nossas vidas amorosas s\u00e3o produto das nossas institui\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Para a autora, as rela\u00e7\u00f5es amorosas n\u00e3o podem ser explicadas fora do capitalismo, em que aquilo a que chamamos amor foi profundamente transformado: \u201ca economiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais e a onnipresen\u00e7a dos modelos econ\u00f4micos na forma\u00e7\u00e3o do eu e das suas emo\u00e7\u00f5es (\u2026), a gram\u00e1tica cultural do capitalismo, penetrou massivamente no dom\u00ednio das rela\u00e7\u00f5es amorosas heterossexuais\u201d.<\/p>\n<p>Illouz defende, no seu \u00faltimo trabalho\u00a0<em>La fin de l\u2019amour<\/em>, que a \u201cincerteza afetiva que reina nos dom\u00ednios do amor, do romance e do sexo \u00e9, do ponto de vista sociol\u00f3gico, uma consequ\u00eancia direta da incorpora\u00e7\u00e3o da ideologia da escolha individual, do mercado do consumo, da ind\u00fastria terap\u00eautica e da tecnologia da Internet, enquanto a escolha individual se tornou o quadro cultural maior da liberdade pessoal\u201d.<\/p>\n<p>A soci\u00f3loga considera que, sob a \u00e9gide da liberdade sexual, as rela\u00e7\u00f5es heterossexuais tomaram a forma de um mercado, mediado por espa\u00e7os de consumo e uso de tecnologias e que nesta modernidade conectada \u201ca n\u00e3o forma\u00e7\u00e3o de la\u00e7os sociais transforma-se num fen\u00f4meno sociol\u00f3gico\u201d.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as raz\u00f5es que a levaram a estudar o amor, o sexo e a sua rela\u00e7\u00e3o com o capitalismo?<\/strong><\/p>\n<p>A alegria da investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 a surpresa. \u00c9 encontrar coisas que n\u00e3o se esperam. Tinha come\u00e7ado o meu trabalho de doutoramento sobre as desigualdades sociais e o amor. Queria mostrar que o amor pode ser um sentimento universal, mas foi profundamente estruturado por diferen\u00e7as de classe. Comecei a entrevistar pessoas de diferentes classes sociais, e apercebi-me que uma boa parte das suas respostas eram semelhantes: elas estavam a repetir os mesmos\u00a0<em>clich\u00e9s<\/em>. Um momento rom\u00e2ntico para elas \u00e9 um restaurante luxuoso ou ex\u00f3tico; um passeio junto ao mar; uma viagem. Comecei a compreender que estas respostas continham a import\u00e2ncia capital do consumo de lazer. Foi assim que me perguntei quando e como come\u00e7ou a rela\u00e7\u00e3o entre o consumo de lazer e o sentimento de amor.<\/p>\n<p><strong>Existe um sentimento de amor fora do quadro do capitalismo?<\/strong><\/p>\n<p>Se se fala de amor rom\u00e2ntico, hoje em dia \u00e9 dif\u00edcil imaginar encontros amorosos fora do mercado. Esta \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o descritiva, n\u00e3o uma declara\u00e7\u00e3o normativa. Seria dif\u00edcil para dois jovens manterem uma rela\u00e7\u00e3o sem nunca ir a um restaurante ou ao cinema, sem tirar f\u00e9rias, sem celebrar o dia dos namorados. A investiga\u00e7\u00e3o mostra que o casamento tem cada vez mais a ver com a partilha de tempos livres em conjunto e n\u00e3o com a gest\u00e3o de uma casa. Isto mostra o poder do mercado. O mercado e o consumismo colonizaram a forma como os casais se encontram e expressam os seus sentimentos.<\/p>\n<p>O amor a Deus \u00e9 talvez o \u00fanico que n\u00e3o passa pelo mercado, embora em todas as religi\u00f5es circulem dinheiro, seja no sistema de esmolas, indulg\u00eancias, impostos, contribui\u00e7\u00f5es paroquiais, etc. \u00c9 apenas na nossa ideologia e mitologia que separamos o dinheiro dos sentimentos puros. Os sentimentos nunca est\u00e3o realmente separados da circula\u00e7\u00e3o de dinheiro. Tomemos os exemplos dos casamentos que s\u00e3o tamb\u00e9m opera\u00e7\u00f5es financeiras (vemos isto mais claramente nos div\u00f3rcios), e das sucess\u00f5es familiares (que envolvem rela\u00e7\u00f5es pai-filho).<\/p>\n<p><strong>Podemos dizer que a \u201crevolu\u00e7\u00e3o sexual\u201d \u00e9 a filha do neoliberalismo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o pode ser, pelo menos porque [a revolu\u00e7\u00e3o sexual] precedeu de longe o neoliberalismo. A revolu\u00e7\u00e3o sexual come\u00e7ou um pouco antes de Freud, com o nascimento da sexologia, que progressivamente abordou a sexualidade como uma parte da fisiologia do corpo humano e que, portanto, separou a sexualidade da moral judaico-crist\u00e3. Isto deu for\u00e7a \u00e0s novas ind\u00fastrias culturais, que tornam o olhar um instrumento privilegiado dessas mesmas ind\u00fastrias culturais. Isto \u00e9 o que tenho chamado capitalismo esc\u00f3pico. O fato de enormes ganhos de mais valias e lucros terem sido feitos apenas com base na capacidade de sexualizar os corpos e de observar estes corpos interagindo de forma sexual. Na medida em que o neoliberalismo afrouxa os preceitos morais e baseia a ordem social na liberdade, \u00e9 inteiramente compat\u00edvel com isto.<\/p>\n<p><strong>As nossas rela\u00e7\u00f5es amorosas e sexuais, dentro das normas de consumo do capitalismo e com acesso a aplica\u00e7\u00f5es e novas tecnologias, nos tornam paradoxalmente mais isolados?<\/strong><\/p>\n<p>Isolado? N\u00e3o sei a que se refere. Estamos em contato com muito mais pessoas do que no passado. Portanto, n\u00e3o se trata de isolamento f\u00edsico. Mudamos para uma sociedade em rede, j\u00e1 n\u00e3o temos necessariamente rela\u00e7\u00f5es fortes, mas redes\u2026. Estas s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es utilit\u00e1rias e tempor\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>O amor e o sexo t\u00eam lugar num quadro de desigualdades sociais, mas ser\u00e1 que tamb\u00e9m contribuem para o crescimento dessas mesmas desigualdades sociais?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, por exemplo, sabemos que as pessoas est\u00e3o se casando cada vez mais dentro da sua classe social. Isto significa que os casais s\u00e3o paradoxalmente mais iguais e que a sociedade \u00e9 mais segregada socialmente.<\/p>\n<p><strong>Vivemos numa esp\u00e9cie de romance de Houellebecq, no qual nos \u00e9 prometida uma expectativa de satisfa\u00e7\u00e3o sexual e amorosa como consumo, que necessariamente nunca ser\u00e1 satisfeita por todos?<\/strong><\/p>\n<p>Houellebecq \u00e9, para mim, um grande soci\u00f3logo da condi\u00e7\u00e3o moderna. Foi um dos primeiros a compreender os efeitos do liberalismo, consumismo e neoliberalismo no comportamento sexual. Ele descreve melhor do que ningu\u00e9m o niilismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p><strong>Na sua concep\u00e7\u00e3o de amor e sexo, n\u00e3o h\u00e1 um certo regresso ao passado?<\/strong><\/p>\n<p>Absolutamente n\u00e3o, mesmo que eu tenha sido muitas vezes mal interpretada neste sentido. Para mim, o passado ajuda-me a compreender melhor o presente. Recordo que o passado \u00e9 o culto da virgindade, o poder masculino, mas tudo isto anda de m\u00e3os dadas com um mundo no qual as regras s\u00e3o mais claras. Estou a falar dos efeitos da liberdade nas nossas rela\u00e7\u00f5es. Os efeitos s\u00e3o uma maior anomia [o conceito de anomia foi cunhado pelo soci\u00f3logo franc\u00eas \u00c9mile Durkheim e significa \u201caus\u00eancia ou desintegra\u00e7\u00e3o das normas sociais\u201d] .<\/p>\n<p><strong>Existe uma ideia de felicidade que seja independente da forma\u00e7\u00e3o\u00a0<\/strong><strong>econ\u00f4mica<\/strong><strong>\u00a0e social em que vivemos?<\/strong><\/p>\n<p>Claro que sim. Os estoicos, por exemplo, pensaram na boa vida. Spinoza pensava na felicidade sem qualquer rela\u00e7\u00e3o com o mercado. Mas hoje em dia seria dif\u00edcil.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a raz\u00e3o pela qual, nas nossas sociedades, parece haver uma obriga\u00e7\u00e3o de se ser feliz?<\/strong><\/p>\n<p>No livro\u00a0<em>Happycratie<\/em>, o meu co-autor [Edgar Cabanas] e eu apresentamos o argumento de que uma das principais raz\u00f5es pelas quais a felicidade tornou-se uma mercadoria central e eficaz no capitalismo de consumo atual \u00e9 porque as mercadorias da felicidade (sejam receitas comportamentais, diretrizes de pensamento, ou aplica\u00e7\u00f5es de smartphones, para citar algumas) n\u00e3o se limitam a oferecer momentos transit\u00f3rios de alegria, tranquilidade, evas\u00e3o, esperan\u00e7a, tranquilidade, e assim por diante. Pelo contr\u00e1rio, isto acontece principalmente porque todas estas mercadorias da felicidade reformulam com sucesso a busca da felicidade num estilo de vida que transforma as pessoas em clientes para os quais a busca da felicidade pessoal se torna para elas uma segunda natureza. A este respeito, a ind\u00fastria da felicidade infunde-nos constantemente a ideia de que a nossa plena funcionalidade e valor como indiv\u00edduos est\u00e1 fortemente ligada \u00e0 nossa cont\u00ednua auto-otimiza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos meios psicol\u00f3gicos dispon\u00edveis no mercado.<\/p>\n<p><strong>O discurso da felicidade e da psicologia positiva n\u00e3o s\u00e3o um poderoso instrumento ideol\u00f3gico para reduzir todos os problemas sociais a quest\u00f5es de comportamento individual?<\/strong><\/p>\n<p>A psicologia positiva tamb\u00e9m pode ter efeitos positivos. Mas n\u00f3s alertamos contra algumas coisas. A crescente estigmatiza\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es negativas, que desempenham um papel crucial. Dizer a algu\u00e9m que se sente zangado ou invejoso, \u00e9 sinal de que n\u00e3o trabalhou o suficiente a sua psique, \u00e9 uma forma de negar a realidade social que pode ter produzido estas emo\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m do mais, pensamos que os indiv\u00edduos est\u00e3o sobre-responsabilizados, colocam demasiada responsabilidade em si pr\u00f3prios, quando na realidade muito do bem-estar depende de coisas que n\u00e3o se podem controlar, tais como se se pertence a uma comunidade, como se \u00e9 apoiado, e assim por diante.<\/p>\n<p>A psicologia positiva, para n\u00f3s, aumenta a doen\u00e7a da sobre-reponsabiliza\u00e7\u00e3o do eu. H\u00e1 uma enorme diferen\u00e7a entre dizer que as emo\u00e7\u00f5es e a doen\u00e7a est\u00e3o de alguma forma relacionadas, e afirmar que o que as pessoas sentem ou pensam as torna doentes (at\u00e9 ao ponto de lhes causar cancro, por exemplo, ou de ser um obst\u00e1culo \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o). Este discurso n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 falacioso como moralmente censur\u00e1vel. Privatiza a sa\u00fade e o sofrimento, desviando-se dos fatores sociais e contextuais que melhor explicariam a sa\u00fade para tornar os indiv\u00edduos, em vez disso, plena e injustamente respons\u00e1veis pelas suas dificuldades, sejam elas f\u00edsicas ou mentais.<\/p>\n<p>A sa\u00fade \u00e9, antes de mais, uma quest\u00e3o social (a pandemia da Covid-19 mostrou-a muito claramente), e n\u00e3o apenas, e n\u00e3o principalmente, uma quest\u00e3o individual. [Aquele discurso] \u00e9 altamente contraproducente, porque pressionar algu\u00e9m que est\u00e1 passando por uma doen\u00e7a dif\u00edcil para manter uma mentalidade positiva faz com que as pessoas sofram duas vezes, pela sua pr\u00f3pria doen\u00e7a e, em segundo lugar, pelo sentimento de culpa e impot\u00eancia que adv\u00e9m de sentir-se o \u00fanico respons\u00e1vel por n\u00e3o ser capaz de navegar ou superar a situa\u00e7\u00e3o. Quando as pessoas recuperam com sucesso da sua doen\u00e7a,\u00a0 pode n\u00e3o parecer muito importante, podem at\u00e9 sentir que foi o seu pr\u00f3prio sucesso. Mas quando as coisas n\u00e3o correm assim t\u00e3o bem, dizer \u00e0s pessoas que poderiam ter feito muito mais para melhorar \u2013 quando na realidade n\u00e3o \u00e9 verdade \u2013 parece um duplo castigo para elas.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/em-busca-da-felicidade-perdida-no-capitalismo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nuno Ramos de Almeida &#8211; No seu livro\u00a0Les sentiments du capitalisme, a soci\u00f3loga Eva Illouz afirma que \u201cos sentimentos n\u00e3o s\u00e3o a\u00e7\u00f5es em si mesmo, mas a energia interior que nos leva a agir e que d\u00e1 aos nossos atos a sua \u2018tonalidade\u2019 e as suas \u2018cores\u2019 particulares. 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