{"id":15194,"date":"2021-05-07T12:37:26","date_gmt":"2021-05-07T15:37:26","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15194"},"modified":"2021-05-03T18:39:33","modified_gmt":"2021-05-03T21:39:33","slug":"garcia-linera-ve-os-novos-desafios-da-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/05\/07\/garcia-linera-ve-os-novos-desafios-da-esquerda\/","title":{"rendered":"Garcia Linera v\u00ea os novos desafios da esquerda"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mart\u00edn Mosquera<\/strong>\u00a0&amp;\u00a0<strong>Florencia Oroz<\/strong>* &#8211; O ex-vice-presidente boliviano, \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera, \u00e9 um dos maiores intelectuais da Am\u00e9rica Latina e um dos atores pol\u00edticos mais experientes da regi\u00e3o. Durante seus catorze anos \u00e0 frente do governo plurinacional da Bol\u00edvia, foi respons\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 por projetar grande parte da estrat\u00e9gia pol\u00edtica de Evo Morales, mas tamb\u00e9m por fornecer as bases te\u00f3ricas para o partido governista MAS (Movimento ao Socialismo).<\/p>\n<p>Durante a d\u00e9cada de 1980, Garc\u00eda Linera liderou, junto com outros companheiros, o Ex\u00e9rcito de Guerrilha marxista T\u00fapac Katari; devido \u00e0 sua atividade pol\u00edtica, grande parte de seu tempo de forma\u00e7\u00e3o intelectual ocorreu atr\u00e1s das grades, enquanto cumpria uma pena de cinco anos pelo suposto envolvimento em uma insurrei\u00e7\u00e3o armada contra o governo de Jaime Paz Zamora. Foi nesses anos que Garc\u00eda Linera se dedicou ao estudo de Marx e do marxismo; e escreveu seu j\u00e1 cl\u00e1ssico\u00a0<em>Forma Valor e Forma Comunidade<\/em>.<\/p>\n<p>As influ\u00eancias intelectuais de Garc\u00eda Linera s\u00e3o bem variadas e ecl\u00e9ticas: marxismo e indigenismo, o pensamento autonomista de Toni Negri e o socialismo democr\u00e1tico de Nicos Poulantzas. Segundo muitos relatos, Garc\u00eda Linera \u00e9 um dos pensadores mais originais da esquerda \u2014 latino-americana e al\u00e9m.<\/p>\n<p>Antes de retornar \u00e0 Bol\u00edvia, onde se reuniria com Luis Arce em sua posse presidencial, Garc\u00eda Linera sentou-se com os editores da Jacobin Am\u00e9rica Latina, em Buenos Aires, para uma ampla discuss\u00e3o, onde trouxe as li\u00e7\u00f5es aprendidas com o golpe na Bol\u00edvia, o estado dos governos progressistas na Am\u00e9rica Latina, e a ampla estrat\u00e9gia pol\u00edtica de como melhor preparar o caminho rumo a um futuro socialista.<\/p>\n<p><strong>Gostar\u00edamos de come\u00e7ar abordando os recentes eventos na Bol\u00edvia. Em sua an\u00e1lise do golpe de 2019, voc\u00ea tende a focar no papel desempenhado pela chamada \u201cclasse m\u00e9dia tradicional\u201d (em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 nova classe m\u00e9dia formada sob o governo do MAS). Em que medida a vit\u00f3ria de Luis Arce em 2020 confirmou ou alterou sua primeira leitura do golpe?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiramente, embora golpes de estado sejam sempre maquina\u00e7\u00f5es de pequenos grupos, sua viabilidade final depende de outros fatores. Eles contam com grupos sociais mais amplos para possibilitar o golpe \u2014 um setor que possa criar uma vontade geral de romper com a ordem constitucional e a democracia.<\/p>\n<p>No grupo conspirat\u00f3rio respons\u00e1vel pelo golpe de 2019, havia um conjunto de interesses distinto: generais do ex\u00e9rcito, um grupo de empres\u00e1rios que havia comprado oficiais e comandantes de tropas, Luis Almagro [da OEA \u2013 Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos], o Departamento de Estado, membros da Igreja Cat\u00f3lica, e v\u00e1rios ex-presidentes. Este grupo central orquestrou e uniu as for\u00e7as necess\u00e1rias para realizar o ato.<\/p>\n<p>Mas o golpe n\u00e3o veio do nada: nos \u00faltimos quatro anos, assistimos ao crescimento de um setor social que se op\u00f5e cada vez mais \u00e0 democracia. Este grupo \u00e9, como voc\u00ea mesmo diz, a classe m\u00e9dia tradicional da Bol\u00edvia. Ao disseminar uma linguagem sect\u00e1ria e racista, nas redes sociais e em outros ve\u00edculos, a classe m\u00e9dia tradicional criou um clima favor\u00e1vel para o que acabou sendo uma derrubada armada e autorit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esse grupo social ainda est\u00e1 presente na Bol\u00edvia. Eles foram para a frente dos quart\u00e9is, convocar outro golpe. Alegaram fraude depois que sa\u00edram os resultados das elei\u00e7\u00f5es de 2020 \u2014 para eles, apesar da aus\u00eancia de qualquer evid\u00eancia, se os ind\u00edgenas ganham \u00e9 porque houve fraude eleitoral. Claro, eles foram derrotados e continuar\u00e3o a ser derrotados, porque s\u00e3o uma minoria, e s\u00e3o decadentes.<\/p>\n<p><strong>Muitas pessoas ficaram surpresas ao ver que o golpe n\u00e3o encontrou grande resist\u00eancia por parte das for\u00e7as populares nem do governo do MAS. Ser\u00e1 que n\u00e3o se trata de uma repeti\u00e7\u00e3o do dilema de Salvador Allende, algo como uma confian\u00e7a excessiva na \u201cneutralidade das For\u00e7as Armadas\u201d? Em outras palavras, dado o fato de que sempre haver\u00e1 tentativas de golpe imperialista da direita contra os governos populares, como dever\u00edamos enfrentar a\u00e7\u00f5es conspirat\u00f3rias como a que ocorreu em novembro de 2019?<\/strong><\/p>\n<p>Em novembro de 2019 houve a derrota militar de um projeto popular nacional. For\u00e7as conservadoras foram mobilizadas para ocupar cidades e territ\u00f3rios. O governo do MAS enfrentou essa tentativa de maneira n\u00e3o coercitiva; tentou estimular uma a\u00e7\u00e3o coletiva que funcionasse como uma corrente contr\u00e1ria \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es da direita. Nossa esperan\u00e7a era de que perdessem o f\u00f4lego.<\/p>\n<p>Nossa resposta foi pol\u00edtica \u2014 e se os acontecimentos que levaram ao golpe tivessem sido mantidos no plano pol\u00edtico, ter\u00edamos sa\u00eddo vitoriosos. O que n\u00e3o levamos em considera\u00e7\u00e3o \u2014 e esse foi nosso grande erro pol\u00edtico \u2014 foi que as for\u00e7as pol\u00edticas ultraconservadoras iriam encontrar apoio entre os militares. Essa foi a verdadeira novidade de 2019. Quando eles tentaram lan\u00e7ar um golpe em 2008, empregamos duas t\u00e1ticas: primeiro, conten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tentando isolar essas for\u00e7as at\u00e9 que finalmente se esgotassem; e em segundo lugar, apelamos \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o social em massa para domin\u00e1-los.<\/p>\n<p>Mas antes que as for\u00e7as conservadoras pudessem ser enfraquecidas, eles procuraram os militares e a pol\u00edcia. E isso n\u00e3o estava em nossos c\u00e1lculos \u2014 que eles iriam subornar as for\u00e7as armadas.<\/p>\n<p>Quando optaram pela via militar, nos deram duas alternativas: convocar ou n\u00e3o mobiliza\u00e7\u00f5es para enfrentar policiais e militares. Essa decis\u00e3o cabe ao presidente. Naqueles primeiros dias, nos dias 9 e 10 de novembro, o presidente pensou: \u201cN\u00e3o vou mandar meus camaradas para a morte\u201d. Houve uma decis\u00e3o consciente baseada no que era essencialmente uma vis\u00e3o moral. Hipoteticamente, poder\u00edamos ter nos envolvido em um confronto aberto, mas teria havido grandes perdas, com muitas mortes. Portanto, decidimos n\u00e3o nos mobilizar e o presidente preferiu renunciar.<\/p>\n<p>A primeira li\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente essa: \u00e9 preciso neutralizar politicamente essas c\u00e9lulas de opera\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tem que tentar neutralizar as causas subjacentes que dirigem esses grupos numa inclina\u00e7\u00e3o fascista, enquanto ainda mant\u00e9m as pol\u00edticas que favorecem a igualdade. Se voc\u00ea come\u00e7a a recuar nos esfor\u00e7os que promovem a igualdade social e os direitos ind\u00edgenas, n\u00e3o pode mais se chamar de governo progressista. Por\u00e9m, o que voc\u00ea pode fazer \u00e9 manter pol\u00edticas de mobilidade social para as classes populares e trabalhadoras e, ao mesmo tempo, promover mobilidade e rota\u00e7\u00e3o para a classe m\u00e9dia tradicional, compensando assim sua tend\u00eancia ao ultraconservadorismo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o policial e militar \u00e9 mais complicada. Voc\u00ea nunca conseguir\u00e1 impedir um ou outro empres\u00e1rio rico de suborn\u00e1-los com milh\u00f5es de d\u00f3lares. Os militares est\u00e3o a\u00ed pra ficar; e seu poder \u00e9 garantido pelo Estado. Eles t\u00eam sua pr\u00f3pria din\u00e2mica, mas \u00e9 preciso que existam pol\u00edticas em vigor para cont\u00ea-la \u2014 pol\u00edticas que respeitem o status institucional dos militares, ao mesmo tempo que criem um\u00a0<em>esprit de corps<\/em>\u00a0menos suscet\u00edvel ao suborno e, portanto, mais solid\u00e1rio para com os interesses do povo. Em suma, a composi\u00e7\u00e3o de classes das For\u00e7as Armadas deve ser alterada.<\/p>\n<p>Em parte, os militares apoiaram o golpe porque, com o passar dos dias, n\u00e3o houve mobiliza\u00e7\u00e3o social. N\u00e3o parecia um grande problema para n\u00f3s na \u00e9poca \u2014 vimos muitas tentativas similares ao longo dos anos. Mas o ponto \u00e9 basicamente esse: n\u00e3o confie em si mesmo ou em experi\u00eancias anteriores. Quando a classe empresarial come\u00e7a a conspirar junto com os militares e a se conectar com a classe m\u00e9dia tradicional mais conservadora, ela precisa enfrentar uma mobiliza\u00e7\u00e3o social em massa.<\/p>\n<p>Me refiro a uma moral social bem mais profunda: temos que nos mobilizar para defender o que temos. Vimos a pr\u00e1tica dessa realidade em agosto de 2020 [quando os apoiadores do MAS fizeram protestos e bloqueios de estradas para impedir o adiamento das elei\u00e7\u00f5es]. O MAS convocou as organiza\u00e7\u00f5es sociais e os indiv\u00edduos a enfrentarem militares e policiais no exerc\u00edcio do controle territorial, assim como aconteceu no ano 2000.<\/p>\n<p>O povo \u2014 n\u00e3o os l\u00edderes pol\u00edticos, nem o partido \u2014 percebeu que uma nova onda de repress\u00e3o s\u00f3 poderia ser combatida se tiv\u00e9ssemos o territ\u00f3rio. Essa foi a fonte da nossa for\u00e7a em agosto de 2020: havia um conhecimento pr\u00e1tico e t\u00e1tico implantado pela sociedade para evitar outro massacre ou opera\u00e7\u00e3o militar sangrenta dos golpistas.<\/p>\n<p>Este tipo de conhecimento coletivo precisa ser refor\u00e7ado e fortalecido. N\u00e3o \u00e9 tanto uma quest\u00e3o militar, mas de como voc\u00ea cria as li\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas para a a\u00e7\u00e3o coletiva contra a amea\u00e7a de um conflito armado. Em um pa\u00eds como a Bol\u00edvia \u2014 com uma grande popula\u00e7\u00e3o rural, \u201csetores urbanos empobrecidos\u201d e apenas uma classe trabalhadora escassamente organizada nos centros industriais \u2014 \u00e9 por meio da organiza\u00e7\u00e3o coletiva que as pessoas encontraram uma maneira de se defender. No futuro, devemos expandir e melhorar esse tipo de a\u00e7\u00e3o para neutralizar os golpes militares e policiais.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea caracteriza a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atual na Am\u00e9rica Latina? Embora pare\u00e7a haver um \u201cnovo ciclo progressivo\u201d em andamento, ele tamb\u00e9m parece ser nitidamente mais moderado e conciliador do que o anterior. Voc\u00ea concorda com essa vis\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Prefiro muito mais falar em ondas do que em ciclos, porque os \u201cciclos\u201d sugerem determinismo, enquanto que as \u201condas\u201d s\u00e3o algo mais fluido e din\u00e2mico. Marx usou o conceito de ondas em 1848 para mostrar que dentro de uma revolu\u00e7\u00e3o existem movimentos, e que estes v\u00eam em ondas.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esperar que esta nova onda seja uma repeti\u00e7\u00e3o da primeira, por v\u00e1rios motivos. Por um lado, o\u00a0<em>boom<\/em>\u00a0dos recursos acabou e os \u00faltimos anos testemunharam uma recess\u00e3o econ\u00f4mica sem precedentes. Al\u00e9m disso, hoje temos que lidar com um elenco diferente de pessoas, incluindo novos l\u00edderes.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma quest\u00e3o ainda mais profunda em jogo: diferente do per\u00edodo de 2005 a 2015, quando a direita foi esmagada pela onda progressista, ela agora est\u00e1 come\u00e7ando a encontrar um ponto de apoio \u2014 improvisado e m\u00edope, talvez, mas que n\u00e3o deixa de ser. Sua resposta \u00e9 antidemocr\u00e1tica, uma esp\u00e9cie de neoliberalismo violento, mis\u00f3gino, racista e conservador.<\/p>\n<p>A direita n\u00e3o tinha solu\u00e7\u00f5es significativas para as crises pol\u00edticas e econ\u00f4micas que afetam a regi\u00e3o. Passou uma d\u00e9cada dando o mesmo conjunto de prescri\u00e7\u00f5es neoliberais, que ningu\u00e9m na \u00e9poca queria tomar. Hoje, a direita n\u00e3o mudou, mas passou a aceitar que enfrenta um inimigo diferente: a Mar\u00e9 Rosa.<\/p>\n<p>Isso significa que agora entramos em um novo per\u00edodo de ondas e contraondas. Hoje, a Mar\u00e9 Rosa est\u00e1 fragmentada, mas a mar\u00e9 conservadora tamb\u00e9m est\u00e1. Os dois lados ficar\u00e3o travados na batalha por algum tempo. Nesse sentido, seria um erro supor que o consenso progressista previamente estabelecido ser\u00e1, simplesmente, restabelecido como antes. Trata-se de uma expectativa imposs\u00edvel, porque, na pol\u00edtica, todas as vit\u00f3rias s\u00e3o tempor\u00e1rias.<\/p>\n<p>H\u00e1 outro assunto que tamb\u00e9m devemos considerar. Na minha opini\u00e3o, neste momento, estamos vivendo uma esp\u00e9cie de suspens\u00e3o. Quando n\u00e3o temos qualquer tipo de horizonte, como nos ocorre agora, n\u00e3o h\u00e1 uma linha do tempo, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma seta apontando para um ponto final. Por que n\u00e3o temos essa orienta\u00e7\u00e3o? Porque hoje todos se sentem inseguros sobre praticamente tudo \u2014 se ter\u00e3o um emprego amanh\u00e3, se haver\u00e1 outra pandemia e assim por diante.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio que eu descrevo \u00e9 aquele em que a pol\u00edtica se torna taticamente intensa e estrategicamente suspensa. Taticamente, o que deveria ter levado dez anos na Bol\u00edvia, aconteceu em um. Um ciclo conservador que deveria ter durado quatorze anos na Argentina, acabou em quatro [a presid\u00eancia de apenas um mandato de Mauricio Macri]. O mesmo vale para o atual ciclo progressista: n\u00e3o sabemos se vai durar para al\u00e9m dos pr\u00f3ximos quatro anos. O mesmo pode-se dizer da Bol\u00edvia: quem sabe se vai durar dois, quatro ou seis anos?<\/p>\n<p>Essa incerteza estrat\u00e9gica \u00e9 um elemento novo com o qual a nova onda progressiva deve lidar. Em 2005, na aus\u00eancia de respostas conservadoras, o ciclo progressivo parecia a substitui\u00e7\u00e3o definitiva do neoliberalismo. Mas hoje n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico projeto dispon\u00edvel \u2014 h\u00e1 tamb\u00e9m o movimento ultraconservador.<\/p>\n<p>De certa forma, o que aconteceu com Trump nos Estados Unidos revela os limites de um discurso pol\u00edtico conservador movido pelo \u00f3dio. O neoliberalismo conservador de Trump \u00e9 um paliativo, mas o mesmo acontece com todos os outros projetos pol\u00edticos existentes hoje. Em meio a esse caos, \u00e9 importante que os projetos progressistas se questionem, tentem superar suas fraquezas e construam a partir daquilo que est\u00e3o fazendo direito.<\/p>\n<p>Em outras palavras, \u00e9 um falso debate discutir se este ciclo \u00e9 de fato novo ou se o anterior poderia ser revivido. Aqui, acho que a Bol\u00edvia oferece uma li\u00e7\u00e3o poderosa. Em meio a esse caos, as perspectivas de um projeto progressista de esquerda depender\u00e3o de duas coisas, uma das quais j\u00e1 discutimos: deve haver um est\u00e1gio de a\u00e7\u00e3o coletiva antes de que qualquer projeto progressista possa se estabelecer. A segunda, \u00e9 que esse projeto deve ser de poder popular \u2014 um projeto n\u00e3o\u00a0<em>para<\/em>\u00a0as classes populares, mas\u00a0<em>das<\/em>\u00a0classes populares.<\/p>\n<p>A Bol\u00edvia nos mostrou isso: podem ocorrer golpes e reveses tempor\u00e1rios, mas se o governo ind\u00edgena popular for o projeto dos setores subalternos, no final, voc\u00ea vai vencer. Se voc\u00ea conseguir isso, voc\u00ea ter\u00e1 muito combust\u00edvel hist\u00f3rico para trabalhar. Se voc\u00ea sempre tiver em mente que se trata do seu projeto, sua organiza\u00e7\u00e3o e sua capacidade de tomar decis\u00f5es sobre seu pr\u00f3prio futuro, seus inimigos at\u00e9 podem colocar todos os obst\u00e1culos que quiserem, mas voc\u00ea ser\u00e1 capaz de se recuperar.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um amplo debate sobre como os governos populares na Am\u00e9rica Latina deveriam lidar com as classes dominantes quando elas partem para a ofensiva. Isso inevitavelmente se resume a fazer concess\u00f5es a fim de ampliar a base de apoio pol\u00edtico de algu\u00e9m? Ou, pelo contr\u00e1rio, trata-se de radicalizar o conflito para criar condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis para derrotar as for\u00e7as reacion\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o de como lidar com a oligarquia \u00e9 complicada. Revolu\u00e7\u00f5es conquistadas por meio de fa\u00e7anhas militares nunca tiveram que lidar com esse assunto \u2014 a vit\u00f3ria militar resolve essas quest\u00f5es dissolvendo a oligarquia. Por outro lado, quando se trata de transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por meio de elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, esse \u00e9 um problema que vai persistir durante todo o seu governo, porque voc\u00ea tem que conviver com a classe empresarial. Precisamos ser claros sobre isso: voc\u00ea tem que conviver com eles, dadas as condi\u00e7\u00f5es pelas quais voc\u00ea chegou ao poder, e voc\u00ea n\u00e3o vai ter capacidade de dissolver uma classe social inteira. Este \u00e9, simplesmente, o pano de fundo sobre o qual se d\u00e1 a transforma\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica na Am\u00e9rica Latina (e continuar\u00e1 sendo assim).<\/p>\n<p>A ideia de socialismo democr\u00e1tico deve ser concebida de acordo com essas mesmas linhas. Enquanto a transforma\u00e7\u00e3o social tiver de seguir o caminho eleitoral democr\u00e1tico, os governos progressistas ter\u00e3o de encontrar m\u00e9todos pr\u00e1ticos para coexistir com o setor empresarial. Isto acontece n\u00e3o s\u00f3 por essa classe gozar de recursos e propriedades constitucionalmente reconhecidos \u2014 ela tamb\u00e9m possui a capacidade de impulsionar o desenvolvimento, e a mera nacionaliza\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias n\u00e3o resolve a quest\u00e3o do sistema econ\u00f4mico. A nacionaliza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o apenas passa essas coisas pras m\u00e3os de um monop\u00f3lio. O<br \/>\nEstado \u00e9 um monop\u00f3lio \u2014 o monop\u00f3lio dos monop\u00f3lios \u2014 enquanto que a socializa\u00e7\u00e3o trata da democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Estado pode ajudar a defender um processo de transforma\u00e7\u00e3o social e neutralizar certas press\u00f5es empresariais, mas essas s\u00e3o apenas medidas t\u00e1ticas e circunstanciais. Um governo progressista pode e deve adotar essas medidas. E para fazer isso \u2014 se n\u00e3o quiser ser completamente subjugado ao poder econ\u00f4mico existente \u2014 precisar\u00e1 de um Estado que possa controlar pelo menos parte do PIB e possa exercer certas medidas: tributa\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica fiscal, investimento e, quando necess\u00e1rio, nacionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O momento-chave para o surgimento de um governo progressista \u00e9 quando ele pode assumir for\u00e7a econ\u00f4mica suficiente e n\u00e3o se ver cercado por pot\u00eancias econ\u00f4micas maiores. O Estado precisa controlar 30% do PIB. Isso permite um envolvimento com o setor empresarial a partir de uma posi\u00e7\u00e3o de poder, e n\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o. E caso esses setores adotem medidas conspirat\u00f3rias, \u00e9 preciso agir com medidas de defesa e conten\u00e7\u00e3o: investigando seus registros de impostos, propriedades, contas banc\u00e1rias e assim por diante.<\/p>\n<p>Agora, quando \u00e9 que um movimento progressista pode ir al\u00e9m desse tipo de coexist\u00eancia t\u00e1tica? Quando a pr\u00f3pria sociedade \u00e9 capaz de dominar o setor empresarial; quando a sociedade em geral \u2014 n\u00e3o um governo progressista, n\u00e3o um partido \u2014 se agarra \u00e0 possibilidade de democratizar a riqueza. Se a sociedade n\u00e3o insistir nessa demanda, o governo s\u00f3 ir\u00e1 substituir um monop\u00f3lio por outro. O formato ser\u00e1 diferente \u2014 n\u00e3o um monop\u00f3lio privado, mas um monop\u00f3lio de recursos comuns. Na verdade, o Estado \u00e9 exatamente essa dualidade: um monop\u00f3lio dos bens comuns.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea nacionalizar certos setores, esses recursos ser\u00e3o comuns, mas v\u00e3o pertencer ao Estado como monop\u00f3lio. No limite, a dist\u00e2ncia entre o trabalhador e os meios de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 eliminada. A possibilidade de mudar para um regime de propriedade diferente depende da sociedade poder ou n\u00e3o pressionar pela gest\u00e3o social da riqueza. E isso, por sua vez, depende dos trabalhadores de cada setor (banc\u00e1rio, industrial, e assim por diante) e da sociedade como um todo. Se eles est\u00e3o dispostos a ir nessa dire\u00e7\u00e3o, o papel de um governo progressista \u00e9 guiar as coisas e acompanhar esse processo. Ent\u00e3o, para a sua pergunta \u201cum governo progressista deveria agir para desestabilizar a classe empresarial?\u201d, a resposta \u00e9: sim, mas s\u00f3 quando a sociedade estiver caminhando nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, voc\u00ea est\u00e1 enfatizando que as transforma\u00e7\u00f5es sociais emanam da sociedade civil e n\u00e3o do Estado. Isso levanta uma quest\u00e3o delicada: se o escopo radical de um projeto de governo progressista depende de uma sociedade mobilizada, e se o Estado, por sua vez, existe para lidar exclusivamente com os \u201cassuntos de Estado\u201d, nessa vis\u00e3o, a sociedade n\u00e3o fica reduzida a uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>deus ex machina?<\/em>\u00a0De acordo com essa concep\u00e7\u00e3o, como podemos esperar que a sociedade civil permane\u00e7a mobilizada e pressione por transforma\u00e7\u00f5es mais radicais quando a esquerda chegar ao poder?<\/strong><\/p>\n<p>O Estado \u00e9 um estado da sociedade: assim como existe um estado l\u00edquido, gasoso e s\u00f3lido da mat\u00e9ria, o Estado \u00e9 um dos estados da sociedade. Pensar sobre o Estado dessa maneira nos ajuda a evitar leituras instrumentalistas, anti-estatistas ou certas leituras marxistas, ing\u00eanuas, do Estado. Isso anda de m\u00e3os dadas com a compreens\u00e3o de Marx do Estado como uma comunidade ilus\u00f3ria: \u00e9 uma comunidade, mas \u00e9 ilus\u00f3ria na medida em que \u00e9 feita de monop\u00f3lios \u2014 independentemente do quanto essa ideia possa parecer um paradoxo.<\/p>\n<p>Os anarquistas e alguns marxistas dir\u00e3o que n\u00e3o devemos tomar o poder, porque o poder j\u00e1 \u00e9 o que uma sociedade possui em comum. Mas, por exemplo, o que o povo argentino realmente tem em comum? Tudo o que eles t\u00eam em comum j\u00e1 est\u00e1 no Estado: um idioma, institui\u00e7\u00f5es, hist\u00f3ria, riqueza natural, impostos, sistema de sa\u00fade, direitos e assim por diante. Tudo isso est\u00e1 no Estado, sem ser algo que veio do Estado.<\/p>\n<p>Agora, o Estado centraliza tudo o que \u00e9 comunit\u00e1rio, ele se apropria do Comum. O Estado \u00e9 apenas isso: a faculdade de monopolizar e centralizar o que vem da sociedade. N\u00e3o se pode imaginar o Estado al\u00e9m da sociedade porque, como eu disse antes, o Estado \u00e9 uma forma de ser da sociedade.<\/p>\n<p>Tanto a for\u00e7a quanto a fraqueza de um Estado, materialmente falando, derivam da pr\u00f3pria sociedade. Na Am\u00e9rica Latina, os recursos foram nacionalizados quando a sociedade chegou \u00e0 conclus\u00e3o de isso era necess\u00e1rio, porque eles pertencem aos bolivianos, equatorianos, venezuelanos, etc. Antes de Evo, Correa ou Ch\u00e1vez, o povo j\u00e1 come\u00e7ava a pensar assim.<\/p>\n<p>Com o tempo, o governo nacionaliza ind\u00fastrias e recursos, e h\u00e1 dinheiro para construir escolas e hospitais, pagar melhores sal\u00e1rios e assim por diante. As coisas melhoram, mas n\u00e3o muda o fato de que existe um monop\u00f3lio executando essa melhoria. N\u00e3o h\u00e1 controle direto da riqueza, exceto por um monop\u00f3lio \u2014 um monop\u00f3lio no qual as pessoas podem se sentir representadas ou com o qual podem at\u00e9 se envolver, mas que n\u00e3o deixa de ser um monop\u00f3lio. \u00c9 dentro dessas margens que um governo progressista deve sempre trabalhar.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que sempre haver\u00e1 uma margem limitada de autonomia para qualquer governo. Um governo enraizado nas pessoas ser\u00e1 mais direto em sua expans\u00e3o de direitos, do bem comum, das nacionaliza\u00e7\u00f5es e assim por diante. Mas um governo progressista de qualquer tipo estar\u00e1 sempre na crista de uma onda social.<\/p>\n<p>Isso nos leva a outra quest\u00e3o: por que um governo progressista n\u00e3o pode ir mais longe? Por que eles n\u00e3o podem partir para o horizonte socialista?<\/p>\n<p>Nesse caso, qual o significado de socialismo? Significa que nacionalizamos bancos, empresas e ind\u00fastria? Mas o socialismo nunca foi sobre isso. Quando se olha para 1917 ou, ainda antes, para a Comuna de Paris de 1871, encontramos a mesma ideia marxista: socialismo n\u00e3o \u00e9 nacionaliza\u00e7\u00e3o. O socialismo n\u00e3o \u00e9 a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso aos bens, mas a democratiza\u00e7\u00e3o do controle, propriedade, uso e gest\u00e3o deles.<\/p>\n<p>Portanto, a quest\u00e3o \u00e9: como adentrar essa comunidade de bens? Por meio de um decreto executivo? Obviamente que n\u00e3o, porque um decreto \u00e9 algo imposto por burocracia ou por alguma elite, mesmo que essa elite seja popular, revolucion\u00e1ria, etc. Mas uma coisa que aprendemos com as revolu\u00e7\u00f5es sociais do s\u00e9culo XX \u00e9 o seguinte: voc\u00ea n\u00e3o pode dizer: \u201cEu represento a classe trabalhadora\u201d. N\u00e3o posso me atribuir a representa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, ou das mulheres, ou dos ind\u00edgenas. O movimento das mulheres ser\u00e1 levado adiante pelas mulheres, o movimento ind\u00edgena pelos ind\u00edgenas e o movimento oper\u00e1rio pelos trabalhadores.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XX mostrou que voc\u00ea n\u00e3o pode suplantar a sociedade com o Estado. Ent\u00e3o, para onde isso nos leva? Um governo s\u00f3 pode ser conduzido numa dire\u00e7\u00e3o radical quando a pr\u00f3pria sociedade ordena que \u00e9 disso que ela precisa.<\/p>\n<p>E essa virada vai acontecer? Esperamos que sim, porque \u00e9 o sonho do socialismo democr\u00e1tico. O socialismo democr\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 um conjunto particular de pol\u00edticas; \u00e9 a possibilidade de um crescendo de transforma\u00e7\u00f5es sociais se unindo para alcan\u00e7ar a vit\u00f3ria. \u00c9 a ideia de um transbordamento da democracia: da esfera eleitoral ao Estado, do Estado \u00e0 economia, e ent\u00e3o para as f\u00e1bricas, bancos, dinheiro, propriedade\u2026 e assim por diante.<\/p>\n<div>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 perigoso exagerar esses riscos de uma abordagem pol\u00edtica centrada no Estado? Voc\u00ea parece sugerir que certas formas sociais \u2014 dinheiro, mercado, valor \u2014 n\u00e3o podem ser mudadas simplesmente por decreto governamental ou nacionaliza\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, e que deve haver um processo mais longo de transforma\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mas mesmo se a nacionaliza\u00e7\u00e3o trouxer seus pr\u00f3prios problemas, essas medidas n\u00e3o seriam necess\u00e1rias para conter o tipo de press\u00e3o empresarial que pode ser usada contra o Estado? Como Fred Block e outros colocam, ser\u00e1 que n\u00e3o ficamos vulner\u00e1veis a uma \u201cgreve de capital\u201d enquanto n\u00e3o agirmos decisivamente sobre os monop\u00f3lios capitalistas? Vimos esse problema surgir com Allende no Chile e, mais recentemente, na Venezuela, mas tamb\u00e9m com governos muito mais moderados, onde os programas de reforma acabam se chocando com o imperativo do lucro. No limite, ser\u00e1 que a estabilidade dos processos transformativos n\u00e3o depende da desestabiliza\u00e7\u00e3o da burguesia como classe econ\u00f4mica dominante?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>A abordagem de Block \u00e9 interessante porque, ao contr\u00e1rio de outras interpreta\u00e7\u00f5es marxistas, ele considera uma realidade pr\u00e1tica, real e concreta: quando um governo progressista chega ao poder, os capitalistas como classe \u2014 mesmo sem se falar entre si \u2014 naturalmente, tendem a esconder seu dinheiro.<\/p>\n<p>Mas, a\u00ed j\u00e1 estamos supondo que governos de esquerda ou progressistas chegam ao poder em momentos de estabilidade capitalista, quando, na verdade, \u00e9 o oposto. Eles surgem em momentos de crise \u2014 isto \u00e9, quando os capitalistas n\u00e3o est\u00e3o gastando ou contratando, quando o governo e a economia n\u00e3o est\u00e3o funcionando.<\/p>\n<p>Quando um governo de esquerda chegou ao poder havendo pleno emprego? Os governos progressistas surgem precisamente quando o capital foge do pa\u00eds, quando n\u00e3o h\u00e1 investimento e a especula\u00e7\u00e3o \u00e9 galopante, quando h\u00e1 desemprego em massa e uma mobiliza\u00e7\u00e3o social generalizada. O governo de esquerda responde \u00e0 demanda do povo para lidar com a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a fonte de sua legitimidade.<\/p>\n<p>Se eles n\u00e3o atenderem a essas demandas, n\u00e3o ser\u00e1 porque foram limitados pelas classes dominantes; \u00e9 porque esse governo n\u00e3o estava disposto a ir longe demais ou tinha medo das consequ\u00eancias. Em outras palavras, as restri\u00e7\u00f5es est\u00e3o dentro do pr\u00f3prio governo, em sua vis\u00e3o de mundo e autoconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>Na Bol\u00edvia, assumimos o poder em meio a uma crise econ\u00f4mica. Se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos nacionalizado setores-chave, a crise teria se prolongado por mais dez anos. Da onde \u00edamos tirar dinheiro? Das telecomunica\u00e7\u00f5es, energia el\u00e9trica e hidrocarbonetos. Com essas energias sob o controle do Estado, voc\u00ea consegue estabelecer pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Rapidamente, os sal\u00e1rios tornam-se um obst\u00e1culo. Mas, ao longo de catorze anos, nunca nos reunimos com os patr\u00f5es a fim de negociar sal\u00e1rios \u2014 fizemos isso com a COB (Central dos Trabalhadores Bolivianos). Claro, voc\u00ea tamb\u00e9m tem que calcular como est\u00e3o as vendas em um determinado setor, como est\u00e3o os lucros, como os impostos est\u00e3o sendo cobrados, como a economia est\u00e1 crescendo. Voc\u00ea pode apertar a classe empresarial de um lado, mas tem que devolver esse dinheiro do outro, com subs\u00eddios para as contas de luz, transporte, g\u00e1s e assim por diante. Assim, quando a classe empresarial come\u00e7ar a protestar, voc\u00ea poder\u00e1 lhes dizer: \u201cEstou te dando g\u00e1s e \u00e1gua a pre\u00e7os subsidiados. Voc\u00ea diz que n\u00e3o vai aumentar os sal\u00e1rios? Ent\u00e3o, por que n\u00e3o cortamos seus subs\u00eddios e equilibramos as coisas?\u201d<\/p>\n<p>Um dos monop\u00f3lios do Estado \u00e9 o poder de fixar pre\u00e7os, e taxas de convers\u00e3o para propriedades, moedas e servi\u00e7os. \u00c9 preciso usar todas essas faculdades porque, como foi o nosso caso, o horizonte de um governo de esquerda \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Aumentamos os sal\u00e1rios reais em 450%, de 50 para 306 d\u00f3lares. \u201cPor que n\u00e3o mais?\u201d, voc\u00ea pode questionar\u2026 Mas quando se aumentam os sal\u00e1rios de forma cont\u00ednua, corre-se o risco \u2014 como aconteceu \u2014 de afetar pequenas empresas cujas taxas de lucro s\u00e3o muito menores. Quer\u00edamos um sal\u00e1rio m\u00ednimo de 400 d\u00f3lares, mas logo vimos que pequenas empresas com, digamos, quatro funcion\u00e1rios sairiam prejudicadas. Um governo popular tem que estar sempre zelando pelos trabalhadores, mas tamb\u00e9m pelos que est\u00e3o acima deles: os setores m\u00e9dios, os pequenos empres\u00e1rios. Em nossa sociedade esse setor faz parte do bloco popular e deve ser cuidado.<\/p>\n<p>\u00c9 nos setores dominantes que voc\u00ea pode usar a austeridade. Nacionalizamos empresas estrangeiras e mudamos os bancos: estabelecemos um imposto de 50% sobre seus lucros. O sistema banc\u00e1rio tamb\u00e9m pode ser um entrave aos lucros, ent\u00e3o, voc\u00ea precisa for\u00e7\u00e1-los a conceder empr\u00e9stimos para atividades produtivas \u2014 como n\u00f3s fizemos. Assim, 60% de todos os empr\u00e9stimos foram para o setor produtivo, e o restante para especula\u00e7\u00e3o, taxas de juros e assim por diante. Este \u00e9 o monop\u00f3lio que o Estado possui, para estimular o crescimento econ\u00f4mico com dinheiro privado que voc\u00ea canaliza para certos setores. Em outras palavras, onde voc\u00ea perceber que h\u00e1 poder suficiente para os capitalistas exercerem o veto empresarial, \u00e9 preciso intervir, separ\u00e1-los e criar empresas estatais.<\/p>\n<p>No entanto, a quest\u00e3o central dos governos progressistas ainda \u00e9 se h\u00e1 energia social suficiente para ir al\u00e9m dessas medidas regulat\u00f3rias. N\u00e3o depende do Estado. Alguns de meus camaradas da esquerda latino-americana rotulam o ciclo progressivo de \u201crevolu\u00e7\u00e3o passiva\u201d, como se existisse uma poderosa onda de a\u00e7\u00e3o coletiva pressionando por novas rela\u00e7\u00f5es de propriedade e democratiza\u00e7\u00e3o radical; na vis\u00e3o deles, os governos progressistas estavam de alguma forma simplesmente reprimindo sua inevit\u00e1vel marcha para a frente.<\/p>\n<p>Mas esses meus camaradas precisam ser capazes de demonstrar, de maneira concreta, como a sociedade estaria indo al\u00e9m das formas predominantes de propriedade e administra\u00e7\u00e3o. Por exemplo: em determinado momento, no \u00faltimo governo do MAS, alguns mineiros do estanho, em Huanini, estavam pressionando para romper com as formas dominantes de propriedade e gest\u00e3o, e assim o governo rapidamente somou-se a seus esfor\u00e7os. Mas o resultado foi exatamente o oposto do que meus camaradas imaginam: no fim, t\u00ednhamos cinco mil mineiros autogerindo uma mina com fundos p\u00fablicos e desfrutando de todos os lucros para eles. Nada disso voltou para a sociedade. A modalidade de autogest\u00e3o do trabalhador ocorrida de 2010 a 2011, e novamente de 2017 a 2018, terminou em forma de apropria\u00e7\u00e3o privada.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o existe o risco de tornar o governo um representante passivo da sociedade? N\u00e3o existe um ponto intermedi\u00e1rio, entre uma vis\u00e3o vanguardista do Estado e a de simplesmente acompanhar o movimento da sociedade? Se imaginarmos o governo como um agente ao inv\u00e9s de um representante da sociedade, ele n\u00e3o deixa de ter um papel a desempenhar na oscila\u00e7\u00e3o das for\u00e7as sociais?<\/strong><\/p>\n<p>Com certeza, um governo progressista pode colocar certas quest\u00f5es no topo da agenda e, dessa forma, lan\u00e7ar luz sobre coisas que a pr\u00f3pria sociedade vem experimentando. Existem infinitas coisas que um governo pode fazer al\u00e9m de simplesmente governar. Mas o socialismo \u00e9 uma experi\u00eancia enraizada na sociedade.<\/p>\n<p>Nesta quest\u00e3o, eu sou leninista \u2014 n\u00e3o o Lenin do comunismo de guerra, mas o Lenin da NEP (Nova Pol\u00edtica Econ\u00f4mica). Essa foi a grande confiss\u00e3o de Lenin: n\u00e3o importa qu\u00e3o radical seja a vanguarda, nem quantas medidas avan\u00e7adas ela venha a implementar. Voc\u00ea s\u00f3 poder\u00e1 ir para al\u00e9m do capitalismo quando a sociedade sentir na pele essa necessidade.<\/p>\n<p>Tem um texto \u00f3timo do Lenin, de 1923, \u201cMelhor menos, mas melhor\u201d. Ele avalia o comunismo de guerra e faz um balan\u00e7o daqueles anos turbulentos em que se pensava que bastava um conjunto de medidas totalmente audaciosas para superar o capitalismo. Ele olha para tr\u00e1s e, basicamente, diz: \u201cBem, na verdade, acabamos criando o capitalismo de Estado\u201d. Podemos fazer todas as nacionaliza\u00e7\u00f5es que quisermos, mas n\u00e3o vamos superar o capitalismo enquanto n\u00e3o houver pessoas trabalhando no setor econ\u00f4mico para construir uma comunidade real.<\/p>\n<p>O socialismo \u00e9 isso: construir comunidades. N\u00e3o se trata de construir comunidades desde cima, mas da \u00fanica maneira poss\u00edvel, que \u00e9 entre as pessoas. O Estado \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, a nega\u00e7\u00e3o da comunidade, na medida em que \u00e9 um monop\u00f3lio. Claro, o Estado pode colaborar nessa constru\u00e7\u00e3o, apontando na dire\u00e7\u00e3o certa, mas n\u00f3s j\u00e1 sabemos o que acontece quando voc\u00ea tenta construir uma comunidade desde cima.<\/p>\n<p>Os debates em Cuba nos \u00faltimos dez anos tendem a girar em torno desta quest\u00e3o: como implementar medidas para ir al\u00e9m das decis\u00f5es do Estado. Porque, como diria Lenin, isso \u00e9 capitalismo de Estado.<\/p>\n<p>Aqui, nos encontramos lutando com a quest\u00e3o de como encorajar o crescimento das comunidades na sociedade. O mundo ind\u00edgena e campon\u00eas tem um legado \u2014 por mais danificado que esteja \u2014 de comunidade. O mundo urbano tem suas pr\u00f3prias comunidades no n\u00edvel local da vizinhan\u00e7a. O que temos s\u00e3o fragmentos de comunidades, e esses fragmentos podem servir como ponto de partida para uma nova sociedade coletiva. O Estado pode ajudar nesse processo, mas n\u00e3o pode substitu\u00ed-lo, porque s\u00f3 existe comunidade na medida em que existe a cria\u00e7\u00e3o gratuita e associada de produtores.<\/p>\n<p>Portanto, a resposta \u00e0 sua pergunta est\u00e1 em L\u00eanin. O que L\u00eanin queria dizer\u00e9 que \u00e9 preciso estar sempre um passo, e n\u00e3o mais do que um passo, \u00e0 frente do povo. N\u00e3o dois, n\u00e3o quatro. A um passo do que as pessoas est\u00e3o sentindo e pensando. Gosto da express\u00e3o de Lenin: nunca d\u00ea mais do que um passo al\u00e9m dos trabalhadores e da sociedade.<\/p>\n<p>\u2014<br \/>\n<strong>* Mart\u00edn Mosquera<\/strong>\u00a0\u00e9 graduado em filosofia, professor da Universidade de Buenos Aires, membro do conselho editorial da Revista Intersecciones e militante da organiza\u00e7\u00e3o argentina Democracia Socialista |\u00a0<strong>Florencia Oroz<\/strong> \u00e9 historiadora e editora associada da Jacobin Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/movimentoserebeldias\/garcia-linera-ve-novos-desafios-da-esquerda\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mart\u00edn Mosquera\u00a0&amp;\u00a0Florencia Oroz* &#8211; O ex-vice-presidente boliviano, \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera, \u00e9 um dos maiores intelectuais da Am\u00e9rica Latina e um dos atores pol\u00edticos mais experientes da regi\u00e3o. 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