{"id":1507,"date":"2016-08-11T15:35:13","date_gmt":"2016-08-11T18:35:13","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1507"},"modified":"2016-08-02T11:41:11","modified_gmt":"2016-08-02T14:41:11","slug":"o-porto-maravilha-e-negro-debaixo-da-atracao-ha-milhares-de-ossos-de-escravos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/08\/11\/o-porto-maravilha-e-negro-debaixo-da-atracao-ha-milhares-de-ossos-de-escravos\/","title":{"rendered":"O Porto Maravilha \u00e9 negro: debaixo da atra\u00e7\u00e3o, h\u00e1 milhares de ossos de escravos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Rog\u00e9rio Daflon<\/strong> &#8211;\u00a0O Porto Maravilha esconde saberes fundamentais \u00e0 costura do passado do <a href=\"http:\/\/noticias.uol.com.br\/rio-de-janeiro\">Rio de Janeiro<\/a>. Para juntar os peda\u00e7os de tecido naquela \u00e1rea, \u00e9 necess\u00e1rio, primeiramente, saber onde se pisa. Em 1\u00b0 de mar\u00e7o de 2011, as obras do projeto de renova\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio portu\u00e1rio deixaram de ser somente um conceito moderno, que olha para o futuro. <a href=\"http:\/\/apublica.org\/2016\/07\/o-porto-maravilha-e-negro\/\">A reportagem\u00a0\u00e9 da &#8220;Ag\u00eancia P\u00fablica&#8221;<\/a>.<\/p>\n<p>Naquele dia, por for\u00e7a de lei, uma equipe do Museu Nacional acompanhava as interven\u00e7\u00f5es de drenagem no subsolo por escavadeiras das empreiteiras que constroem o arrojado empreendimento. Os arque\u00f3logos j\u00e1 sabiam o que estava por vir \u00e0 superf\u00edcie da rua Bar\u00e3o de Tef\u00e9: o Cais do Valongo, onde centenas de milhares de escravos aportaram a partir do s\u00e9culo 18, sobre o cal\u00e7amento de p\u00e9 de moleque \u2013t\u00e9cnica construtiva do Brasil Col\u00f4nia, com pedras arredondadas de rios acomodadas sobre a terra batida.<\/p>\n<p>Os seixos irregulares estavam sob outra camada, mais \u00e0 moda do Brasil Imp\u00e9rio, com conjuntos de blocos de granitos empilhados para receber, em 1843, a imperatriz Teresa Cristina, ent\u00e3o futura esposa de dom Pedro 2\u00ba. Por cima desse revestimento, havia ainda o aterro planejado pelo prefeito Pereira Passos no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, que p\u00f4s um fim \u00e0 mem\u00f3ria do passado imperial. E escondeu tamb\u00e9m o origin\u00e1rio holocausto brasileiro.<\/p>\n<p>O Cais do Valongo foi o maior porto negreiro das Am\u00e9ricas e, segundo o historiador Manolo Florentino, esteve em atividade nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 18 at\u00e9 final de 1830, ocupando uma \u00e1rea entre os bairros da Gamboa, da Sa\u00fade e do Santo Cristo. Nele desembarcaram mais de 700 mil escravos, vindos, sobretudo, do Congo e de Angola \u2013pode-se dizer que o Valongo foi o ponto de converg\u00eancia de 7% de todos os cerca de 10,7 milh\u00f5es de escravos traficados \u00e0s terras do Novo Mundo. Pelo menos mais 700 mil foram traficados para outros pontos do litoral do estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A capital, naquela \u00e9poca, era umas das cidades mais negras do mundo colonial. E o trecho mais agitado por essa migra\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria era a rua do Valongo, atualmente rua Camerino. Sobre ela, como mencionado no livro &#8220;1808&#8221;, do jornalista Laurentino Gomes, a viajante inglesa Maria Graham, amiga da imperatriz Leopoldina, escreveu em seu di\u00e1rio:<\/p>\n<p>&#8220;Vi hoje o Valongo. \u00c9 o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longu\u00edssima rua s\u00e3o um dep\u00f3sito de escravos. Passando pelas suas portas \u00e0 noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente \u00e0s paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabe\u00e7as raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares, as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracos para sentarem-se&#8221;.<\/p>\n<p>At\u00e9 as escava\u00e7\u00f5es, realizadas em 2011, o Cais do Valongo estava literalmente soterrado na mem\u00f3ria dos cariocas. Por isso, a reportagem da &#8220;P\u00fablica&#8221; tentou averiguar como a cidade est\u00e1 lidando, cinco anos depois, com seu passado em meio ao processo de revitaliza\u00e7\u00e3o do porto, fundado num tempo em que pessoas se achavam superiores a outras a ponto de escraviz\u00e1-las.<\/p>\n<p>Para o pesquisador Rog\u00e9rio Jord\u00e3o, cuja tese de doutorado discorreu sobre o pr\u00f3prio Cais do Valongo, a prefeitura se comporta de maneira paradoxal ao cuidar da mem\u00f3ria da sofrida e pulsante Pequena \u00c1frica, como o artista e compositor Heitor dos Prazeres chamou aquela \u00e1rea no in\u00edcio do s\u00e9culo 20. &#8220;\u00c9 como se a prefeitura praticasse uma estranha din\u00e2mica de lembrar esquecendo-se&#8221;, diz Jord\u00e3o.<\/p>\n<p>Para ilustrar sua provoca\u00e7\u00e3o, o pesquisador aponta para o Museu de Arte do Rio e Museu do Amanh\u00e3 \u2013este constru\u00eddo com investimento de R$ 215 milh\u00f5es\u2013 ambos administrados pela Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho e considerados s\u00edmbolos do Projeto Porto Maravilha. &#8220;Estes dois museus come\u00e7aram a ser constru\u00eddos no mesmo per\u00edodo [da redescoberta do Cais do Valongo] e j\u00e1 est\u00e3o em pleno funcionamento, enquanto os milhares de objetos de matriz africana encontrados nas obras [de escava\u00e7\u00e3o] ainda n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis ao p\u00fablico&#8221;. S\u00e3o pe\u00e7as de barro, seguis [uma esp\u00e9cie de conta], monjolos, b\u00fazios, lou\u00e7as quebradas, ocut\u00e1 [pedra que atrai o Orix\u00e1], como descreve Jord\u00e3o em sua tese.<\/p>\n<p>A prefeitura chegou a anunciar um projeto cujo nome seria Laborat\u00f3rio Aberto de Arqueologia, a ser inaugurado at\u00e9 o fim de 2015, bem antes da Olimp\u00edada\u2026 A ideia era que o p\u00fablico acompanhasse <em>in loco <\/em>o processo de recupera\u00e7\u00e3o das pe\u00e7as. Mas at\u00e9 agora o projeto n\u00e3o saiu do papel.<\/p>\n<p>Hoje o destino desses achados arqueol\u00f3gicos \u00e9 conhecido por poucos. Eles est\u00e3o no Galp\u00e3o da Gamboa, no sop\u00e9 do morro da Provid\u00eancia e bem pr\u00f3ximo \u00e0 Cidade do Samba, no centro. Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, os objetos j\u00e1 foram todos catalogados e est\u00e3o embalados em cont\u00eaineres.<\/p>\n<p>Os artefatos t\u00eam tanta import\u00e2ncia que a arque\u00f3loga T\u00e2nia Andrade Lima, que coordenou as escava\u00e7\u00f5es no in\u00edcio das obras do Porto Maravilha, convidou quatro religiosos de matriz africana para explicar seus diferentes significados. &#8220;Quando percebi que est\u00e1vamos encontrando objetos pessoais e tamb\u00e9m objetos relacionados a pr\u00e1ticas m\u00e1gico-religiosas dos africanos escravizados, entendi que a comunidade negra deveria ser chamada a participar do trabalho. Sou eurodescendente, de forma\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, assim como grande parte da equipe de arque\u00f3logos que trabalharam no Valongo, de tal forma que meu entendimento foi o de que esses objetos constituem uma heran\u00e7a que aquelas pessoas deixaram para seus descendentes, e nessa condi\u00e7\u00e3o lhes pertencem em primeiro lugar. Eles n\u00e3o puderam deixar nada sen\u00e3o aquelas poucas pe\u00e7as. Foi o que restou deles&#8221;, disse a antrop\u00f3loga \u00e0 &#8220;P\u00fablica&#8221;.<\/p>\n<p>M\u00e3e Celina de Xang\u00f4, uma das convidadas, interpretou objetos pelo jogo de b\u00fazios atrav\u00e9s do qual consultava os Orix\u00e1s. Hoje presidente do Centro Cultural Pequena \u00c1frica, ela questiona: &#8220;A coleta desses artigos foi feita em 2011 e cinco anos depois ningu\u00e9m sabe como e quando eles ficar\u00e3o expostos. H\u00e1 um projeto do Museu da Di\u00e1spora Africana, mas sem haver nada de concreto&#8221;, diz a m\u00e3e de santo do Candombl\u00e9. &#8220;\u00c9 com muita tristeza que tomo conhecimento hoje que objetos t\u00e3o importantes \u00e0 nossa hist\u00f3ria, muitos deles pertencentes a cultos de matriz africana, est\u00e3o em sacos pl\u00e1sticos dentro de cont\u00eaineres&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p>Para o historiador Manolo Florentino, deveria haver um trabalho multidisciplinar cont\u00ednuo, e n\u00e3o apenas esfor\u00e7os pontuais, para desvendar os in\u00fameros segredos que aquela \u00e1rea guarda sobre a cultura negra. &#8220;Tudo que envolve o Valongo e a presen\u00e7a negra de uma forma geral deveria ser mais pesquisado. Esse trabalho tem um custo alt\u00edssimo e, talvez por isso, n\u00e3o tem sido abordado da maneira adequada tecnicamente&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Como considera que tal quadro n\u00e3o mudar\u00e1 em m\u00e9dio prazo, ele tem d\u00favidas se vai dar certo a ambi\u00e7\u00e3o da prefeitura e do Iphan (Instituto de Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional) de obter da Unesco o reconhecimento do Cais do Valongo, da Pedra do Sal e do Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos como Patrim\u00f4nio da Humanidade. Os dois \u00f3rg\u00e3os formaram equipes para produzir um dossi\u00ea sobre a import\u00e2ncia dos tr\u00eas \u00edcones da cultura negra local.<\/p>\n<p>O documento resultante faz uma defesa enf\u00e1tica do Cais do Valongo logo no primeiro par\u00e1grafo: &#8220;Merece ser considerado pela Unesco patrim\u00f4nio da humanidade porque \u00e9 o s\u00edtio de mem\u00f3ria da escravid\u00e3o mais completo que se conhece. Ele tem import\u00e2ncia n\u00e3o apenas para a hist\u00f3ria brasileira e, portanto, para a nossa vida como na\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m para a hist\u00f3ria do mundo&#8221;. A ONU acolheu a candidatura no \u00faltimo dia 3 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Florentino considera que a aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 vaga deveria suscitar mais investimentos para a cultura negra local. Membro do <em>Trans-Atlantic Slave Trade <\/em><em>Voyages<\/em>,uma iniciativa internacional de coleta de dados sobre viagens de navios negreiros, com sede na Universidade Emory, na Ge\u00f3rgia, Estados Unidos, o historiador afirma que entre 1790 e 1830, cerca de 700 mil escravos desembarcaram no Cais do Valongo, fazendo dele o maior porto negreiro das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>At\u00e9 1830, ano da proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico negreiro, apenas a cidade do Rio de Janeiro \u2013no porto antigo, no Largo de Santa Rita, e depois no Cais do Valongo\u2013 e o Cabo de B\u00fazios foram ponto de desembarque no Estado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a proibi\u00e7\u00e3o, o n\u00famero de escravos desembarcados na capital cai vertiginosamente, ao mesmo tempo que um intenso desembarque come\u00e7a a ocorrer nas faixas litor\u00e2neas, como Ponta Negra, Ilha Grande, Mangaratiba e Paraty. Alguns navios mais ousados optavam pela enseada de Botafogo e a praia de Copacabana, mas em quantidade menos expressiva.<\/p>\n<p>Em 1856, houve a \u00faltima viagem registrada antes da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, 22 anos depois. Na d\u00e9cada de maior movimento, entre 1821 e 1830, o Cais do Valongo recebeu mais de 335 mil escravos, uma m\u00e9dia de 33,5 mil a cada ano.<\/p>\n<p><strong>O circuito da prefeitura<\/strong><\/p>\n<p>Redescoberto, o Cais do Valongo traz os navios negreiros de volta ao imagin\u00e1rio do carioca. As \u00e1guas da ba\u00eda de Guanabara n\u00e3o batem mais \u00e0quela altura da rua Bar\u00e3o de Tef\u00e9, por obra do aterro feito na administra\u00e7\u00e3o do prefeito Pereira Passos (1902-1906). No \u00faltimo ano de seu mandato, Passos inaugurou, na parte mais baixa do morro da Concei\u00e7\u00e3o, o Jardim Suspenso do Valongo, a cerca de cem metros do antigo cais. Seguiu \u00e0 risca o modelo de transforma\u00e7\u00e3o adotado em Paris no fim do s\u00e9culo 19, excluindo as marcas do passado.<\/p>\n<p>Surpreendentemente, o Jardim Suspenso do Valongo integra o denominado Circuito Hist\u00f3rico e Arqueol\u00f3gico da Celebra\u00e7\u00e3o da Heran\u00e7a Africana, que, criado em 2012 pela prefeitura, re\u00fane apenas seis pontos de interesse. &#8220;O Jardim foi algo feito sob inspira\u00e7\u00e3o europeia justamente para ajudar a ocultar a import\u00e2ncia do Cais do Valongo. Isso deveria ser explicado ao visitante&#8221;, afirma a historiadora Martha Abreu. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma men\u00e7\u00e3o ao fato de que, no espa\u00e7o do jardim at\u00e9 1831, funcionaram armaz\u00e9ns de venda de escravos e, posteriormente, caf\u00e9 e outros produtos.<\/p>\n<div class=\"figure\">\n<div class=\"pinit-wraper\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"pinit-img\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imguol.com\/c\/noticias\/4d\/2016\/07\/19\/cais-do-valongo-no-rio-de-janeiro-apos-as-obras-1468942736073_615x300.jpg?w=640\" \/><\/div>\n<\/div>\n<p><em><span class=\"legenda pg-color10\">Cais do Valongo ap\u00f3s as obras<\/span><\/em><\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Cais do Valongo integra, \u00e9 claro, o circuito, completado pelo Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos, pela Pedra do Sal, pelo Centro Cultural Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio e pelo Largo do Dep\u00f3sito. O deslize na montagem do circuito \u00e9 um ind\u00edcio de que o poder p\u00fablico n\u00e3o vem cumprindo sua miss\u00e3o de animar o debate sobre a heran\u00e7a africana no porto. Placas j\u00e1 mal conservadas trazem um texto superficial sobre a fenda aberta no meio da cal\u00e7ada com as diferentes camadas do Cais do Valongo e Cais da Imperatriz.<\/p>\n<p>Para Dami\u00e3o Braga, da Associa\u00e7\u00e3o da Comunidade Remanescente de Quilombo da Pedra do Sal, a pr\u00f3pria obra passou por cima de outros ancoradouros de navios negreiros. &#8220;Vi com meus olhos ancoradouros sendo cobertos na rua Coelho e Castro, pr\u00f3ximo \u00e0 pra\u00e7a Mau\u00e1&#8221;, disse ele \u00e0 &#8220;P\u00fablica&#8221;.<\/p>\n<p>http:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2016\/07\/19\/o-porto-maravilha-e-negro-debaixo-da-atracao-ha-milhares-de-ossos-de-escravos.htm<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rog\u00e9rio Daflon &#8211;\u00a0O Porto Maravilha esconde saberes fundamentais \u00e0 costura do passado do Rio de Janeiro. Para juntar os peda\u00e7os de tecido naquela \u00e1rea, \u00e9 necess\u00e1rio, primeiramente, saber onde se pisa. 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