{"id":15064,"date":"2021-04-28T13:05:08","date_gmt":"2021-04-28T16:05:08","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15064"},"modified":"2021-04-22T13:43:30","modified_gmt":"2021-04-22T16:43:30","slug":"mandel-o-socialismo-e-o-futuro-facamos-renascer-a-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/04\/28\/mandel-o-socialismo-e-o-futuro-facamos-renascer-a-esperanca\/","title":{"rendered":"Mandel: O socialismo e o futuro. Fa\u00e7amos renascer a esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ernest Mandel<\/strong> &#8211;\u00a0\u00c9 preciso defender um modelo de socialismo que ser\u00e1 totalmente emancipat\u00f3rio em todas os terrenos da vida. Este socialismo dever\u00e1 ser autogestion\u00e1rio, feminista, ecol\u00f3gico, radicalmente pacifista, pluralista, estendendo qualitativamente a democracia, e ser internacionalista e pluripartid\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Restaurar a credibilidade do socialismo<\/strong><\/p>\n<p>Desde a metade dos anos 1970, ocorreu em escala mundial uma deteriora\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes. A raz\u00e3o principal foi o in\u00edcio de uma onda depressiva de longa dura\u00e7\u00e3o na economia capitalista com um cont\u00ednuo crescimento do desemprego. Nos pa\u00edses imperialistas, o desemprego aumentou de 10 para 50 milh\u00f5es de pessoas; no Terceiro Mundo chegou a 500 milh\u00f5es. Em v\u00e1rios dos pa\u00edses do Terceiro Mundo, isso significa 50% ou mais da popula\u00e7\u00e3o estando sem trabalho.<span id=\"more-19364\"><\/span><\/p>\n<p>Esse massivo aumento no desemprego, e o medo do desemprego entre aqueles que t\u00eam trabalho, enfraqueceu a classe trabalhadora e facilitou a ofensiva capitalista mundial voltada para o aumento das taxas de lucro atrav\u00e9s do arrocho do sal\u00e1rio real e do corte de investimentos sociais e infraestruturais. A ofensiva neoconservadora \u00e9 somente a express\u00e3o ideol\u00f3gica dessa ofensiva econ\u00f4mica e social.<\/p>\n<p>A larga maioria da lideran\u00e7as dos partidos de massa que se reivindicam socialistas capitularam diante desta ofensiva capitalista, e aceitaram pol\u00edticas de austeridade; isso tem sido visto em diversos pa\u00edses como Fran\u00e7a, Espanha, Nova Zel\u00e2ndia, Su\u00e9cia, Venezuela e Peru. Isso desorientou a classe trabalhadora e, durante todo um per\u00edodo, tornou mais dif\u00edcil para as massas de encarar as lutas defensivas.<\/p>\n<p>Essa capitula\u00e7\u00e3o da socialdemocracia esteve conectada ao impacto ideol\u00f3gico e pol\u00edtico da crise do sistema do Leste europeu, da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, da Rep\u00fablica Popular da China e Indochina, que est\u00e1 fomentando uma profunda e quase universal crise de credibilidade do socialismo.<\/p>\n<p>Aos olhos da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o do planeta, as duas principais experi\u00eancias hist\u00f3ricas de constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade sem classes \u2013 a stalinista\/p\u00f3s-stalinista\/maoista e a socialdemocrata \u2013 falharam.<\/p>\n<p>\u00c9 claro, as massas entendem muito bem que esta \u00e9 a derrota de um objetivo social radical global. Mas isso n\u00e3o implica uma avalia\u00e7\u00e3o negativa das importantes mudan\u00e7as concretas que ocorreram na realidade social em favor dos explorados. Nesse sentido, o balan\u00e7o de mais de 150 anos de atividade do movimento internacional dos trabalhadores e todas as suas tend\u00eancias permanece positivo.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o \u00e9 o mesmo que uma cren\u00e7a de milh\u00f5es de trabalhadores de que todas as lutas imediatas ir\u00e3o progressivamente levar \u00e0 luta pela derrubada do capitalismo e ao advento de uma sociedade sem classes, sem explora\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o, injusti\u00e7a ou viol\u00eancia em massa. Na aus\u00eancia de tal convic\u00e7\u00e3o, as lutas imediatas s\u00e3o fragmentadas e descont\u00ednuas, sem objetivos pol\u00edticos globais.<\/p>\n<p>A iniciativa pol\u00edtica est\u00e1 nas m\u00e3os do imperialismo, da burguesia e seus agentes. Isso \u00e9 claro pelo que est\u00e1 acontecendo na Europa do Leste onde a queda das ditaduras burocr\u00e1ticas sob o impacto de amplas lutas de massa n\u00e3o levou a iniciativas pol\u00edticas em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo, mas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo. A mesma coisa est\u00e1 come\u00e7ando a ocorrer na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>As massas na Europa do Leste e na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, para n\u00e3o mencionar pa\u00edses como Camboja, identificam a ditadura stalinista e p\u00f3s-estalinista com marxismo e socialismo, e rejeitam tudo isso igualmente. St\u00e1lin assassinou um milh\u00e3o de comunistas e reprimiu milh\u00f5es de trabalhadores e camponeses.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o foi produto do marxismo, do socialismo ou da revolu\u00e7\u00e3o; isso foi resultado de uma sangrenta contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Mas que as massas continuam vendo essas coisas de maneira diferente \u00e9 um fato objetivo que se sustenta fortemente sobre realidades pol\u00edticas e sociais internacionais.<\/p>\n<p>Essa crise de credibilidade do socialismo explica a contradi\u00e7\u00e3o principal da situa\u00e7\u00e3o mundial em um momento no qual as massas est\u00e3o lutando em v\u00e1rios pa\u00edses, frequentemente em uma escala mais larga do que em qualquer per\u00edodo anterior.<\/p>\n<p>De um lado, o imperialismo e a burguesia internacional n\u00e3o s\u00e3o capazes de esmagar o movimento dos trabalhadores como fizeram nos anos 1930 e in\u00edcio dos anos 1940 em grandes cidades da Europa e do Jap\u00e3o e em v\u00e1rios outros pa\u00edses. Mas, de outro lado, as massas trabalhadoras ainda n\u00e3o est\u00e3o preparadas para lutar por uma solu\u00e7\u00e3o anticapitalista global. Por essa raz\u00e3o, n\u00f3s estamos em um per\u00edodo de crise mundial e desordem em que nenhuma das principais classes sociais \u00e9 capaz de assegurar sua vit\u00f3ria hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>A principal tarefa dos socialistas e comunistas \u00e9 tentar restaurar \u00e9 tentar restaurar a credibilidade do socialismo na consci\u00eancia de milh\u00f5es de homens e mulheres. Isso ser\u00e1 poss\u00edvel somente se o nosso ponto de partida for as necessidades e preocupa\u00e7\u00f5es imediatas dessas massas. Qualquer modelo alternativo de economia pol\u00edtica deve incluir essas propostas. Essas propostas devem dar o mais concreto e eficiente aux\u00edlio para as massas lutarem com sucesso por suas necessidades.<\/p>\n<p>N\u00f3s podemos formular isso em termos quase b\u00edblicos: eliminar a fome, agasalhar os sem roupa, dar uma vida digna a todos, salvar as vidas daqueles que morrem por falta de atendimento m\u00e9dico adequado, generalizar o acesso gratuito \u00e0 cultura incluindo a elimina\u00e7\u00e3o do analfabetismo, universalizar as liberdades democr\u00e1ticas, os direitos humanos e eliminar a viol\u00eancia repressiva em todas as suas formas.<\/p>\n<p><strong>Impulsionar, sem restri\u00e7\u00f5es, amplas lutas de massas<\/strong><\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 dogm\u00e1tico ou ut\u00f3pico. Ainda que as massas n\u00e3o estejam prontas para lutar pela revolu\u00e7\u00e3o socialista, elas podem aceitar inteiramente esses objetivos se eles forem formulados na forma mais concreta poss\u00edvel. Eles podem levar a amplas lutas nas mais diversas formas e combina\u00e7\u00f5es. Para isso n\u00f3s devemos tentar ser o mais concretos poss\u00edveis em nossas proposi\u00e7\u00f5es. Que tipo de produ\u00e7\u00e3o alimentar \u00e9 poss\u00edvel? Com quais t\u00e9cnicas agr\u00e1rias? Em quais regi\u00f5es? Quais materiais podem ser produzidos? Em quais localidades ou na\u00e7\u00f5es na mais larga escala internacional?<\/p>\n<p>Mas quando n\u00f3s examinamos as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para atingir esses objetivos, chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que tal programa implica uma redistribui\u00e7\u00e3o radical dos recursos existentes e uma mudan\u00e7a radical nas for\u00e7as sociais que t\u00eam o poder de decis\u00e3o sob suas m\u00e3os. N\u00f3s devemos estar convencidos de que as massas que est\u00e3o lutando por esses objetivos n\u00e3o ir\u00e3o abandonar a luta quando a realidade demonstrar essas implica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Aqui reside um dos desafios hist\u00f3ricos diante do movimento socialista: ser capaz, sem condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias, de liderar as mais amplas lutas de massa para atingir as mais urgentes necessidades atuais da humanidade.<\/p>\n<p>Tal modelo alternativo \u00e9 poss\u00edvel em nossa sociedade atual sem um objetivo de curto ou m\u00e9dio prazo de tomar ou participar do poder concreto, em curto ou m\u00e9dio prazo? Eu acredito que esta seja uma forma equivocada de colocar a quest\u00e3o. \u00c9 claro que n\u00e3o h\u00e1 nenhum modo de se esquivar do problema do poder pol\u00edtico. Mas a forma concreta da luta pelo poder e, sobretudo, as formas concretas de poder estatal n\u00e3o devem ser decididas de antem\u00e3o. Acima de tudo, a formula\u00e7\u00e3o de objetivos concretos e de formas concretas de luta por necessidades definitivas n\u00e3o deve ser subordinada a objetivos realiz\u00e1veis em curto prazo no plano pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, os objetivos e formas de luta devem ser determinados sem nenhum preju\u00edzo pol\u00edtico. A f\u00f3rmula deve ser aquela do grande taticista Napole\u00e3o Bonaparte, que foi repetida muitas vezes por L\u00eanin:\u00a0<em>on s\u2019engage et puis on voit<\/em>\u00a0(\u201centremos na batalha e ent\u00e3o veremos\u201d).<\/p>\n<p>\u00c9 esse o modo pelo qual o movimento internacional dos trabalhadores, durante o per\u00edodo de sua mais impressionante atividade de massas, conduziu suas campanhas de luta por dois objetivos centrais: a jornada de trabalho de 8 horas di\u00e1rias e o sufr\u00e1gio universal.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode o imperialismo hoje ou, mais precisamente, o imperialismo aliado ao grande capital, impedir a realiza\u00e7\u00e3o destes mesmos objetivos nos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina? N\u00e3o pode o imperialismo bloquear o influxo de capital e a transfer\u00eancia de tecnologia ainda mais do que j\u00e1 est\u00e1 sendo feito atrav\u00e9s das press\u00f5es do FMI e do Banco Mundial?<\/p>\n<p>Novamente, eu acredito que colocar a quest\u00e3o desta forma pode nos levar a uma armadilha. A verdade \u00e9 que ningu\u00e9m pode dar uma resposta a isso de antem\u00e3o. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, tudo depende da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Mas estas n\u00e3o s\u00e3o pr\u00e9-determinadas e est\u00e3o constantemente mudando.<\/p>\n<p>No mais, a luta pela a\u00e7\u00e3o de massas por objetivos realiz\u00e1veis e precisos \u00e9 exatamente uma forma de alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em favor dos trabalhadores e todos os explorados e oprimidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o deve ser esquecido que o imperialismo est\u00e1 sofrendo uma profunda crise de lideran\u00e7a. Enquanto consolidava sua domina\u00e7\u00e3o militar, o imperialismo Ianque perdeu sua domina\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e financeira. N\u00e3o \u00e9 mais capaz de impor seu desejo sobre seus principais competidores, os imperialismos japon\u00eas e alem\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o consegue controlar as poss\u00edveis rea\u00e7\u00f5es de massa nos EUA ou em uma escala internacional.<\/p>\n<p>Sob essas condi\u00e7\u00f5es, existem muitas poss\u00edveis formas para uma luta bem sucedida por um cancelamento imediato dos pagamentos da d\u00edvida externa. \u00c9 altamente improv\u00e1vel que os governos latino-americanos e aqueles do Terceiro Mundo ir\u00e3o tomar algum passo neste sentido. Mas se um pa\u00eds como o Brasil, na eventualidade de uma vit\u00f3ria do PT, fosse fazer isso, n\u00f3s n\u00e3o poder\u00edamos de antem\u00e3o prever a rea\u00e7\u00e3o do imperialismo. Eles poderiam impor um bloqueio econ\u00f4mico, mas \u00e9 muito mais dif\u00edcil bloquear o Brasil, o mais desenvolvido pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina, do que pa\u00edses menores como Cuba, para n\u00e3o mencionar a Nicar\u00e1gua.<\/p>\n<p>E o Brasil tem a capacidade de responder com uma ofensiva pol\u00edtica, com um Brest-Litovski pol\u00edtico-econ\u00f4mico, dirigindo-se a v\u00e1rios pa\u00edses e massas de todos os pa\u00edses dizendo: \u201cVoc\u00eas concordam que nosso povo seja punido por querer eliminar a fome, o adoecimento e as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos?\u201d A resposta das massas trabalhadoras do mundo n\u00e3o \u00e9 uma conclus\u00e3o pr\u00e9-determinada. Poderia ser insuficiente, poderia ser positiva. Mas \u00e9 uma grande batalha que poderia mudar a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mundial. Poderia permitir uma posterior mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as; poderia ajudar a restaurar a f\u00e9 em um mundo melhor.<\/p>\n<p><strong>Concretizar iniciativas comuns, nacionais e internacionais<\/strong><\/p>\n<p>Esses temas s\u00e3o o enfoque metodol\u00f3gico fundamental de Karl Marx: a luta pelo socialismo n\u00e3o \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica e sect\u00e1ria de um objetivo pr\u00e9-estabelecido sobre o movimento real das massas. \u00c9 somente a express\u00e3o consciente desse movimento atrav\u00e9s do qual os elementos constituintes de uma nova sociedade podem germinar das sementes do velho.<\/p>\n<p>N\u00f3s podemos ilustrar esses temas em rela\u00e7\u00e3o aos problemas centrais de hoje. Companhias multinacionais uma domina\u00e7\u00e3o maior sobre setores ainda mais largos do mercado mundial. Elas representam uma forma qualitativamente superior da centraliza\u00e7\u00e3o internacional de capital. Isso leva a uma maior internacionaliza\u00e7\u00e3o da luta de classes.<\/p>\n<p>Infelizmente, a burguesia internacional \u00e9 muito mais preparada e coerente neste sentido do que a classe trabalhadora. Em um sentido fundamental, existem somente duas respostas poss\u00edveis para a classe trabalhadora diante das a\u00e7\u00f5es das multinacionais: ou ela recua em dire\u00e7\u00e3o ao protecionismo e \u00e0 defesa da chamada competitividade nacional, isto \u00e9, a colabora\u00e7\u00e3o de classes com os patr\u00f5es e os governos de cada pa\u00eds contra \u201cos japoneses\u201d, \u201cos alem\u00e3es\u201d ou \u201cos mexicanos\u201d; ou solidariedade com os trabalhadores de todos os pa\u00edses e contra todos os exploradores nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>No primeiro caso, ocorreria uma inevit\u00e1vel espiral decrescente de cortes nos sal\u00e1rios, prote\u00e7\u00e3o social e condi\u00e7\u00f5es de trabalho em todos os pa\u00edses, porque as multinacionais poderia sempre explorar um pa\u00eds com sal\u00e1rios mais baixos, transferir a produ\u00e7\u00e3o para l\u00e1 ou chantagear o movimento dos trabalhadores para fornecer concess\u00f5es de antem\u00e3o.<\/p>\n<p>No segundo caso, existe ao menos a possibilidade de uma espiral crescente que pode aumentar os sal\u00e1rios, melhorar a prote\u00e7\u00e3o social dos pa\u00edses menos desenvolvidos e reduzir as diferen\u00e7as nos padr\u00f5es de vida de um modo positivo.<\/p>\n<p>Essa segunda poss\u00edvel resposta n\u00e3o \u00e9 de modo algum oposta ao desenvolvimento econ\u00f4mico ou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de empregos no Terceiro Mundo. Isso implica, na verdade, outro modelo de desenvolvimento que n\u00e3o seja baseado na exporta\u00e7\u00e3o de baixos sal\u00e1rios, mas no crescimento do mercado nacional e da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades b\u00e1sicas do povo.<\/p>\n<p>A luta por essa resposta internacionalista para a ofensiva das companhias multinacionais requer imediatamente a concretiza\u00e7\u00e3o de iniciativas comuns a n\u00edvel sindical, especialmente entre delegados combativos, cr\u00edticos, independentes, de base, em todas as f\u00e1bricas do mundo trabalhando para a mesma transnacional ou no mesmo ramo industrial. Isso j\u00e1 se iniciou de modo pequeno mas, no entanto, real. O projeto do Mercado Comum norte-americano, a tentativa de transformar o M\u00e9xico em uma vasta zona maquiladora [zonas de \u201ceconomia livre\u201d, com baixos sal\u00e1rios], abrem o caminho para essa resposta e isto pode ser estendido para toda a Am\u00e9rica Latina em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 chamada \u201cIniciativa das Am\u00e9ricas\u201d.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os chamados novos movimentos sociais basicamente refletem a ang\u00fastia de amplas camadas sociais abandonadas pela din\u00e2mica do capitalismo tardio. Essa din\u00e2mica envolve o perigo de que essas camadas progressivamente se despolitizem e possam constituir uma base social para ataques da direita, incluindo os neofascistas, contra as liberdades democr\u00e1ticas. Qualquer pol\u00edtica de \u201cpaz social\u201d ou de consensos pseudo-realistas com a burguesia produzem a impress\u00e3o de que basicamente n\u00e3o h\u00e1 outras op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, e assim fazem pioram o perigo. Este \u00e9 o motivo pelo qual \u00e9 vital para o movimento de trabalhadores estabelecer alian\u00e7as estruturais com as \u201cclasses baixas\u201d, os desorganizados, e ajud\u00e1-los a se organizar, se defender e conquistar dignidade e esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Em todos esses casos, isto deve ser feito de uma maneira n\u00e3o-dogm\u00e1tica, sem a atitude de algu\u00e9m que possui toda a verdade \u2013 a resposta definitiva. A constru\u00e7\u00e3o do socialismo \u00e9 um enorme laborat\u00f3rio de novas experi\u00eancias que ainda permanecem indefinidas. N\u00f3s devemos aprender da pr\u00e1tica, especialmente, dessas mesmas massas. Por esse motivo, n\u00f3s devemos estar abertos para dialogar e discutir fraternalmente com toda a esquerda, com todos defendendo firmemente os princ\u00edpios de suas correntes e organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em um sentido mais amplo, n\u00f3s devemos levar em conta o fato de que o que est\u00e1 em jogo no mundo hoje \u00e9 dram\u00e1tico: \u00e9 literalmente uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia f\u00edsica da humanidade. Fome, epidemias, poder nuclear, a deteriora\u00e7\u00e3o do meio ambiente: tudo isso \u00e9 a realidade fundamental da nova e velha desordem capitalista mundial.<\/p>\n<p>No Terceiro Mundo, 16 milh\u00f5es de crian\u00e7as morrem de fome e doen\u00e7as cur\u00e1veis por ano. Isto \u00e9 equivalente a 25% do n\u00famero de mortes na segunda guerra mundial, incluindo Hiroshima e Auschwitz. Em outras palavras, a cada quatro anos, existe uma guerra mundial contra crian\u00e7as. Esta \u00e9 a realidade do imperialismo e do capitalismo hoje.<\/p>\n<p>Esta realidade desumana produz efeitos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos desumanos. No nordeste brasileiro, a falta de vitaminas na dieta dos pobres produziu novas esp\u00e9cies de inani\u00e7\u00e3o, de homens e mulheres que passaram por altera\u00e7\u00f5es f\u00edsicas que os fazem 30 cent\u00edmetros menores que outras pessoas do mesmo pa\u00eds. Existem milh\u00f5es desses desafortunados, chamados pela classe dominante e seus agentes de \u201cratos humanos\u201d, com todas as implica\u00e7\u00f5es desumanas de tais termos, reminiscentes daqueles desenvolvidos pelos nazistas.<\/p>\n<p>Com a restaura\u00e7\u00e3o gradual do capitalismo no leste europeu e na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, tudo que \u00e9 b\u00e1rbaro e socialmente retr\u00f3grado est\u00e1 come\u00e7ando a ser reproduzido. A privatiza\u00e7\u00e3o de grandes empresas poderia gerar at\u00e9 35-40 milh\u00f5es de desempregados e uma queda de 40% nos ganhos dos trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>O car\u00e1ter emancipat\u00f3rio do socialismo<\/strong><\/p>\n<p>O socialismo poderia reaver sua credibilidade e validade se estiver pronto para se identificar totalmente com as lutas contra essas amea\u00e7as. Isso sup\u00f5e tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>(1) A primeira \u00e9 que sob nenhuma circunst\u00e2ncia ele subordine seu apoio para as lutas sociais das massas a um projeto pol\u00edtico. N\u00f3s devemos estar incondicionalmente ao lado das massas em todas as suas lutas.<\/p>\n<p>(2) A segunda \u00e9 a propaganda e a educa\u00e7\u00e3o entre as massas do objetivo global, um modelo de socialismo que integre as principais experi\u00eancias e novas formas de consci\u00eancia das \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso defender um modelo de socialismo que ser\u00e1 totalmente emancipat\u00f3rio em todas os terrenos da vida. Este socialismo dever\u00e1 ser autogestion\u00e1rio, feminista, ecol\u00f3gico, radicalmente pacifista, pluralista, estendendo qualitativamente a democracia, e ser internacionalista e pluripartid\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 essencial que seja emancipador para os produtores diretos, o que \u00e9 imposs\u00edvel sem o progressivo desaparecimento da divis\u00e3o social do trabalho entre aqueles que produzem e aqueles que administram.<\/p>\n<p>Os produtores devem possuir o poder de decis\u00e3o real sobre o que eles produzem e receber a melhor parte do produto social. Este poder deve ser exercido de uma maneira completamente democr\u00e1tica; isto \u00e9, deve expressar as aspira\u00e7\u00f5es reais das massas. Isto \u00e9 imposs\u00edvel sem pluralismo partid\u00e1rio e sem a possibilidade das massas escolherem entre v\u00e1rias variantes concretas do planejamento econ\u00f4mico central. Tamb\u00e9m \u00e9 imposs\u00edvel sem uma redu\u00e7\u00e3o radical na carga de trabalho di\u00e1ria e semanal.<\/p>\n<p>Mais ou menos todos concordam a respeito do n\u00edvel crescente de corrup\u00e7\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o na sociedade burguesa e nas sociedades p\u00f3s-capitalistas em desaparecimento. \u00c9 ut\u00f3pico e irrealista esperar pela moraliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil e do estado sem uma radical redu\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia das economias de dinheiro e de mercado.<\/p>\n<p>Uma vis\u00e3o coerente do socialismo n\u00e3o pode ser defendida sem sistematicamente se opor ao individualismo e a busca de ganhos individuais independentemente de suas consequ\u00eancias para a sociedade como um todo. A prioridade deve ser a solidariedade e a coopera\u00e7\u00e3o. E isso pressup\u00f5e, precisamente, uma redu\u00e7\u00e3o decisiva da import\u00e2ncia do dinheiro na sociedade.<\/p>\n<p>(3) A terceira condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a total ren\u00fancia da parte dos socialistas e comunistas de todas as pr\u00e1ticas substitucionistas, paternalistas e verticalistas. N\u00f3s devemos refletir sobre e transmitir a principal contribui\u00e7\u00e3o de Karl Marx para a pol\u00edtica: a emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores ser\u00e1 obra dos pr\u00f3prios trabalhadores. N\u00e3o pode ser realizada por estados, governos, partidos, l\u00edderes supostamente infal\u00edveis ou especialistas de qualquer tipo. Todos estes s\u00e3o \u00fateis, at\u00e9 mesmo indispens\u00e1veis, para a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o. Mas eles somente podem auxiliar as massas a se libertarem; n\u00e3o podem ser um substituto para elas. N\u00e3o \u00e9 somente imoral, mas impratic\u00e1vel tentar assegurar a felicidade das pessoas contra suas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es. Esta \u00e9 uma das principais li\u00e7\u00f5es que podem ser extra\u00eddas do colapso das ditaduras burocr\u00e1ticas na Europa do leste e na ex-URSS.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica dos socialistas e comunistas deve ser totalmente consistente com seus princ\u00edpios. N\u00f3s n\u00e3o devemos justificar nenhuma pr\u00e1tica alienadora ou opressora. N\u00f3s devemos, na pr\u00e1tica, realizar o que Karl Marx chamou de imperativo categ\u00f3rico: lutar contra todas as condi\u00e7\u00f5es em que seres humanos s\u00e3o alienados e humilhados. Se nossa pr\u00e1tica for consistente com esse imperativo, o socialismo ir\u00e1 recuperar uma incr\u00edvel for\u00e7a e legitimidade pol\u00edtica que o tornar\u00e1 invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/04\/03\/mandel-o-socialismo-e-o-futuro-facamos-renascer-a-esperanca\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ernest Mandel &#8211;\u00a0\u00c9 preciso defender um modelo de socialismo que ser\u00e1 totalmente emancipat\u00f3rio em todas os terrenos da vida. Este socialismo dever\u00e1 ser autogestion\u00e1rio, feminista, ecol\u00f3gico, radicalmente pacifista, pluralista, estendendo qualitativamente a democracia, e ser internacionalista e pluripartid\u00e1rio. 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