{"id":15033,"date":"2021-04-18T11:10:34","date_gmt":"2021-04-18T14:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15033"},"modified":"2021-04-17T11:12:24","modified_gmt":"2021-04-17T14:12:24","slug":"o-cancer-politico-e-social-da-america-latina-e-a-metastase-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/04\/18\/o-cancer-politico-e-social-da-america-latina-e-a-metastase-brasileira\/","title":{"rendered":"O c\u00e2ncer pol\u00edtico e social da Am\u00e9rica Latina e a met\u00e1stase brasileira"},"content":{"rendered":"<p><strong>Isadora Attab<\/strong> &#8211; A Am\u00e9rica Latina que sonhava com um outro futuro poss\u00edvel acabou dando uma guinada brusca e mergulhou numa amargura pol\u00edtica que repercute em caos social. E em tempos de pandemia, a doen\u00e7a que j\u00e1 era cr\u00f4nica se acentua. Nesse sentido, a met\u00e1fora do professor\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/572868-nao-tem-espaco-para-reforma-dentro-da-ordem-porque-as-classes-dominantes-brasileiras-nao-toleram-qualquer-mudanca-entrevista-especial-com-fabio-luis-barbosa2\">Fabio Luis Barbosa dos Santos<\/a>\u00a0\u00e9 muito ilustrativa. \u201cA Am\u00e9rica Latina tem c\u00e2ncer. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/602313-o-bolsonarismo-com-sua-receita-de-aniquilacao-da-politica-e-catalisacao-das-desilusoes-reverte-queda-de-popularidade-entrevista-especial-com-esther-solano\">bolsonarismo<\/a>\u00a0\u00e9 a sua met\u00e1stase mais aguda. A aspirina progressista alivia sintomas, sem combater suas causas\u201d, diz, em entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU.<\/p>\n<p>A fala do professor revela que, ao contr\u00e1rio do que se possa imaginar, essa doen\u00e7a n\u00e3o surge com o avan\u00e7o da extrema direita sobre as conquistas da esquerda ao Sul do continente. Na verdade, esse \u00e9 s\u00f3 o sintoma mais vis\u00edvel e radical de algo que j\u00e1 vinha ocorrendo. No caso do Brasil, a derrubada do PT \u00e9 muito clara nesse sentido. \u201cOs militares, os bancos, o PMDB, o vice-presidente Michel Temer, o neopentecostalismo, as empreiteiras, o empreendedorismo, a passividade, foram todos alimentados e cultivados, em seu momento, pelos governos petistas\u201d, observa.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Fabio Luis insiste que a quest\u00e3o vai al\u00e9m do bin\u00f4mio esquerda e direita, da volta de um ou derrota de outro, pois ambos operam numa mesma l\u00f3gica. \u201cO\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/566265-esquerda-e-progressismo-sao-hoje-duas-coisas-diferentes-na-america-latina-entrevista-especial-com-eduardo-gudynas\">progressismo<\/a>\u00a0\u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, o bra\u00e7o esquerdo da ordem. E os Bolsonaros deste mundo s\u00e3o seu bra\u00e7o direito. O que est\u00e1 em jogo na disputa entre progressismo e direita s\u00e3o diferentes formas de lidar com a agudiza\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/606338-a-pandemia-demonstrou-as-consequencias-de-40-anos-de-neoliberalismo-avalia-joseph-stiglitz\">neoliberalismo<\/a>\u201d, explica. Por isso, seja no Brasil ou em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, v\u00ea a retomada progressista apenas como essa \u201caspirina\u201d contra a doen\u00e7a. Afinal, \u201cdurante a onda progressista, acreditou-se que o futuro era o Brasil petista, que exportava tecnologias de governo de popula\u00e7\u00f5es empobrecidas para o mundo. Hoje est\u00e1 claro que o futuro era a parapol\u00edtica colombiana, que exporta tecnologias de repress\u00e3o para o pr\u00f3prio Brasil\u201d e foi justamente isso que nos trouxe a esse est\u00e1gio.<\/p>\n<p>Para Fabio Luis, \u201cenquanto o progressismo se prop\u00f5e a gerir a crise, os bolsonarismos n\u00e3o se prop\u00f5em a fazer gest\u00e3o alguma: eles governam por meio da crise. Enquanto uns procuram o freio, outros pisam no acelerador. Mas ningu\u00e9m questiona o trilho\u201d. Ao longo da entrevista, embora trate muito da conjuntura brasileira, analisa a realidade de outros pa\u00edses e evidencia que essa \u00e9 uma l\u00f3gica presente na Argentina, no Equador e em outros lugares.<\/p>\n<p>Mas qual a sa\u00edda? Seja de um lado ou de outro, para ele, \u00e9 preciso encarar que \u201cvivemos uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/160-noticias\/cepat\/601337-a-crise-ecologica-e-uma-expressao-da-crise-etica-nas-relacoes-humanas\">crise ecol\u00f3gica<\/a>\u00a0que coloca em risco a sa\u00fade do planeta, explicitada pela pandemia\u201d. Al\u00e9m disso, de uma vez por todas, \u00e9 preciso romper com o colonialismo sobre a Am\u00e9rica Latina, algo que entende n\u00e3o s\u00f3 sob o aspecto pol\u00edtico ou econ\u00f4mico, mas como \u201cum colonialismo da vida\u201d, que se coaduna com as\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/sobre-o-ihu\/78-noticias\/606933-e-preciso-que-a-velha-logica-extrativista-predatoria-neoliberal-ceda-ao-realismo-da-necessaria-reconstrucao-ecologica\">l\u00f3gicas extrativistas<\/a>\u00a0do s\u00e9culo XXI. \u201c\u00c9 preciso revolucionar a rela\u00e7\u00e3o com a natureza. Isso exige se livrar da coloniza\u00e7\u00e3o da vida, pelo valor. Uma ecologia anticapitalista se torna, literalmente, quest\u00e3o de vida ou morte\u201d, aponta. E provoca: \u201ccomo sairemos deste c\u00e2ncer? A cura n\u00e3o se conhece. Ser\u00e1 preciso imaginar e fazer o novo. Este novo ter\u00e1 que ser mais e n\u00e3o menos radical do que no passado\u201d.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line: Como o senhor analisa o momento que estamos vivendo na Am\u00e9rica do Sul, especialmente em termos pol\u00edticos, sociais, econ\u00f4micos e ainda sanit\u00e1rios?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos:\u00a0<\/strong>Mesmo antes da pandemia, vivemos um agravamento da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597651-epidemia-e-crise-social-artigo-de-jose-de-souza-martins\">crise social<\/a>\u00a0na Am\u00e9rica Latina. E este agravamento se expressa, politicamente, em um esgotamento do progressismo. \u00c9 um duplo esgotamento, na medida em que o progressismo foi percebido de modo diferente pelos de cima e pelos de baixo.\u00a0Entre os de cima, o progressismo se esgota como uma via de gest\u00e3o da crise; entre os de baixo, como alternativa civilizat\u00f3ria. Neste quadro, novas formas de gest\u00e3o desta panela de press\u00e3o que \u00e9 a Am\u00e9rica Latina est\u00e3o sendo gestadas. Mas tamb\u00e9m, m\u00faltiplas rebeli\u00f5es.\u00a0Mesmo antes da pandemia, vivemos um agravamento da crise social na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O que mudou? Esta inflex\u00e3o resulta de uma conjun\u00e7\u00e3o de fatores sociais, pol\u00edticos e econ\u00f4micos. A gram\u00e1tica comum \u00e9: uma crise econ\u00f4mica, que se expressa como recess\u00e3o e\/ou infla\u00e7\u00e3o, no contexto de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/579487-ciclo-progressista-chegou-ao-fim-e-esta-em-crescimento-uma-nova-direita-entrevista-especial-com-raul-zibechi\">desacelera\u00e7\u00e3o do boom das commodities<\/a>; no social, a legitimidade do progressismo foi colocada em xeque (entre os de cima, e entre os de baixo); no plano pol\u00edtico, cresceu um mal-estar na direita convencional, diante da perpetua\u00e7\u00e3o do progressismo no poder. A linguagem deste mal-estar \u00e9 den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, o que denota uma disputa de poder mais do que de projeto.\u00a0Esta rea\u00e7\u00e3o foi favorecida pelo contexto internacional hostil, como mostrou o aviltante reconhecimento do golpista\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588873-o-golpe-falido-na-venezuela-o-madrugadazo-de-30-de-abril-e-a-guerra-de-4-geracao-atraves-de-meios-e-redes\">Guaid\u00f3<\/a>\u00a0na Venezuela pelos Estados Unidos e pela maioria dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Esta gram\u00e1tica comum tem uma express\u00e3o particular em cada pa\u00eds. Darei o exemplo brasileiro: a conjun\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/524\">junho de 2013<\/a>\u00a0(uma explos\u00e3o social), dos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o (abalando a pol\u00edtica) e da recess\u00e3o econ\u00f4mica a partir de 2015, modificaram o jogo das classes dominantes. Transitaram da aposta em um neoliberalismo inclusivo, para um neoliberalismo autorit\u00e1rio; passaram da \u00eanfase na concilia\u00e7\u00e3o, para a guerra de classes. Para al\u00e9m dos personagens, \u00e9 este o pano de fundo do impeachment de Dilma Rousseff, da pris\u00e3o de Lula e da elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro.\u00a0Cinco anos depois, o bolivarianismo ainda se segura no poder, o kirchnerismo voltou \u00e0 Casa Rosada (embora na vice-presid\u00eancia) e, no Brasil, Lula parece ressuscitar.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line: Dada a atual configura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da regi\u00e3o, qual a import\u00e2ncia de analisar os processos internos dos pa\u00edses pelo prisma regional?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos:\u00a0<\/strong>Visto pelo prisma regional, o Brasil tem um lugar de destaque, pois responde por cerca de metade do territ\u00f3rio da Am\u00e9rica do Sul, e metade do PIB da regi\u00e3o. A rigor, a \u201conda\u201d progressista decola com a posse de Lula e Cristina Kirchner [na Argentina] em 2003. Essas vit\u00f3rias incentivam a radicaliza\u00e7\u00e3o do bolivarianismo, que superava uma tentativa de golpe em abril de 2002. Se o chavismo foi a vanguarda do progressismo, o Brasil foi o seu motor.<\/p>\n<p>No final de 2015, o bolivarianismo sofreu uma derrota acachapante nas urnas,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/549798-o-esgotamento-kirchnerista\">Mauricio Macri<\/a>\u00a0venceu na Argentina e, no ano seguinte, Dilma foi derrubada. Agora, cinco anos depois, o bolivarianismo ainda se segura no poder, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/593916-vitoria-de-fernandez-nao-foi-da-esquerda-mas-castigo-a-macri-diz-cientista-politico-argentino\">kirchnerismo voltou \u00e0 Casa Rosada<\/a>\u00a0(embora na vice-presid\u00eancia) e, no Brasil, Lula parece ressuscitar. \u00c9 poss\u00edvel argumentar que o progressismo ainda vive, embora cada vez mais resignado a um papel de mal menor.\u00a0Se o chavismo foi a vanguarda do progressismo, o Brasil foi o seu motor.<\/p>\n<p>Mas o ponto a enfatizar \u00e9 o seguinte: o sentido do movimento mudou. Quando Lula deixou a presid\u00eancia, em 2010, a Col\u00f4mbia de Uribe, pioneira na pol\u00edtica de \u00f3dio na regi\u00e3o, se via constrangida a se integrar \u00e0\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/578425-unasul-e-o-desmonte-do-projeto-de-integracao-regional-entrevista-especial-com-graciela-pagliari\">Unasul<\/a>\u00a0[Uni\u00e3o de Na\u00e7\u00f5es Sul-Americanas], sob o risco de ostracismo regional.\u00a0Dez anos depois, o continente que tinha como farol a paz lulista, se percebe desaguando no estado de exce\u00e7\u00e3o permanente colombiano. Durante a onda progressista, acreditou-se que o futuro era o Brasil petista, que exportava tecnologias de governo de popula\u00e7\u00f5es empobrecidas para o mundo. Hoje est\u00e1 claro que o futuro era a parapol\u00edtica colombiana, que exporta tecnologias de repress\u00e3o para o pr\u00f3prio Brasil.<\/p>\n<p>O quadro se complica quando constatamos que a militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica nos marcos da degrada\u00e7\u00e3o social tem sua express\u00e3o mais dram\u00e1tica na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/582321-a-venezuela-chegou-ao-fundo-do-poco-e-preciso-de-uma-democracia-real-entrevista-especial-com-pedro-trigo\">Venezuela<\/a>. Esta situa\u00e7\u00e3o ilustra que a guinada antidemocr\u00e1tica \u00e9 geral, ou seja: ela inclui os processos onde o progressismo ainda \u00e9 poder, como mostra o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/582315-nicaragua-o-orteguismo-e-o-abuso-do-poder-de-estado\">orteguismo na Nicar\u00e1gua<\/a>. Isso exige analisar a tend\u00eancia em dire\u00e7\u00e3o a formas mais violentas da economia e da pol\u00edtica, n\u00e3o como uma rea\u00e7\u00e3o ao progressismo, mas como um desdobramento dele. N\u00e3o como uma guinada de 180 graus, mas como uma met\u00e1stase.<\/p>\n<div>\n<p>Afinal, se o pa\u00eds onde a corros\u00e3o social e a militariza\u00e7\u00e3o est\u00e3o mais avan\u00e7adas \u00e9 aquele onde o progressismo fincou ra\u00edzes mais profundas e ainda est\u00e1 no poder, ent\u00e3o precisamos entender como o progressismo, por sua pr\u00f3pria din\u00e2mica, alimentou tend\u00eancias contr\u00e1rias \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7a com que originalmente encarnou.\u00a0Durante a onda progressista, acreditou-se que o futuro era o Brasil petista, que exportava tecnologias de governo de popula\u00e7\u00f5es empobrecidas para o mundo. Hoje est\u00e1 claro que o futuro era a parapol\u00edtica colombiana, que exporta tecnologias de repress\u00e3o para o pr\u00f3prio Brasil.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line: Qual sua an\u00e1lise sobre o quadro da esquerda na Am\u00e9rica Latina? Em que medida essa perspectiva pol\u00edtica se coloca como alternativa vi\u00e1vel para supera\u00e7\u00e3o do estado de crises?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos:<\/strong>\u00a0Vivemos paradoxos. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/552771-a-opcao-que-nao-transformou-e-que-perdeu-o-folego-entrevista-especial-com-raul-zibechi\">progressismo<\/a>\u00a0fora do poder se converteu em uma ideologia restauracionista, que defende a volta a um passado idealizado. Como o caminho dessa volta \u00e9 eleitoral, exige-se respeito pela institucionalidade burguesa, por meio da qual chegaram ao poder no passado. Da\u00ed o mundo de cabe\u00e7a para baixo em que vivemos: a subvers\u00e3o da ordem virou uma pol\u00edtica da direita, enquanto a esquerda defende esta ordem.<\/p>\n<p>Isso explica, por exemplo, por que Lula e o PT foram contra o impeachment de Bolsonaro na pandemia, at\u00e9 o momento em que isso se tornou carta fora do baralho de Bras\u00edlia. Olhando para nossos vizinhos, observamos a mesma l\u00f3gica. Quando o Frente Amplio foi derrotado por estreita margem nas elei\u00e7\u00f5es em 2019 no Uruguai, o ent\u00e3o presidente Tabar\u00e9 V\u00e1zquez se apressou em esclarecer que seu partido \u201cn\u00e3o trabalhar\u00e1 para que caia este governo (Lacalle Pou)\u201d e que o Frente \u201ctem que demonstrar que \u00e9 uma for\u00e7a pol\u00edtica s\u00e9ria e respons\u00e1vel\u201d. A esquerda da ordem aguarda, respeitosamente, o momento de voltar.<\/p>\n<p>Argentina e Uruguai encarnam de modo expl\u00edcito este progressismo respons\u00e1vel, que se apresenta como uma alternativa da ordem, posi\u00e7\u00e3o que o PT ambiciona recuperar no Brasil. A expectativa do partido \u00e9 que Bolsonaro se dissipe como um pesadelo e as elei\u00e7\u00f5es voltem a ser disputadas dentro da normalidade burguesa, nas quais tem um candidato sempre no p\u00e1reo.\u00a0O progressismo fora do poder se converteu em uma ideologia restauracionista, que defende a volta a um passado idealizado.<\/p>\n<p>No entanto, esta pol\u00edtica tende a perder efic\u00e1cia, porque como expliquei, o jogo da classe dominante mudou, tornando o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/607539-lula-o-retorno-do-ostracismo-artigo-de-andre-singer\">lulismo<\/a>\u00a0anacr\u00f4nico. E est\u00e1 mudando em toda a regi\u00e3o, porque as condi\u00e7\u00f5es objetivas (crescimento econ\u00f4mico) e subjetivas (contesta\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo) que deram sentido ao progressismo, se foram. O progressismo pode se reinventar como farsa (no Equador ou na Bol\u00edvia) ou como trag\u00e9dia (na Venezuela); pode at\u00e9 ser reprisado, como um filme que entra em cartaz com atraso (no M\u00e9xico); mas o progressismo como horizonte de mudan\u00e7a, est\u00e1 sepultado.<\/p>\n<p>No caso brasileiro, ao perder lastro na realidade, o lulismo arrisca a se transmutar em uma aposta salv\u00edfica: a esperan\u00e7a de que o l\u00edder voltar\u00e1 triunfante antes do ju\u00edzo final para evitar o apocalipse, pathos exalado na exorta\u00e7\u00e3o do respeitado l\u00edder do MST, Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile: \u201cLula tem de ser nosso Mois\u00e9s, convencer o povo a atravessar o Mar Vermelho. N\u00e3o h\u00e1 outro personagem que possa cumprir esse papel\u201d.<\/p>\n<p>Em um tempo de expectativas decrescentes, diferentes nuances de progressismo messi\u00e2nico canalizam a expectativa de mudan\u00e7a rumo ao passado, mobilizando uma popula\u00e7\u00e3o que ora pelo mal menor tanto nas suas vidas como na pol\u00edtica, abaixando a cabe\u00e7a com resigna\u00e7\u00e3o, frente \u00e0 vers\u00e3o latino-americana do fim da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Indo direto ao ponto: uma sa\u00edda desse estado de crise vinda de Bras\u00edlia ou da Casa Rosada, vinda do MAS [Movimento ao Socialismo] ou do corre\u00edsmo, \u00e9 t\u00e3o improv\u00e1vel quanto a proeza do bar\u00e3o de M\u00fcnchhausen, que saiu do p\u00e2ntano em que se afundava, puxando os pr\u00f3prios cabelos.\u00a0O jogo da classe dominante mudou, tornando o lulismo anacr\u00f4nico. E est\u00e1 mudando em toda a regi\u00e3o, porque as condi\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas que deram sentido ao progressismo se foram.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line: Em que medida a pol\u00edtica de nosso tempo supera a dualidade e polariza\u00e7\u00e3o entre esquerda e direita? O que, de fato, est\u00e1 em jogo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos:<\/strong>\u00a0Entendo que as posi\u00e7\u00f5es concretas importam mais do que seus r\u00f3tulos. Na Am\u00e9rica Latina, \u00e9 preciso se contrapor \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o mercantil dos territ\u00f3rios e de suas popula\u00e7\u00f5es \u2013 o chamado \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/603695-a-guinada-ecoterritorial-frente-ao-extrativismo-na-america-latina\">extrativismo<\/a>\u201d. Isso por dois motivos. Primeiro, porque vivemos uma crise ecol\u00f3gica que coloca em risco a sa\u00fade do planeta, explicitada pela pandemia. \u00c9 preciso revolucionar a rela\u00e7\u00e3o com a natureza. Isso exige se livrar da coloniza\u00e7\u00e3o da vida, pelo valor (pelo capital, que \u00e9 valor que se valoriza). Uma ecologia anticapitalista se torna, literalmente, quest\u00e3o de vida ou morte.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, porque a exporta\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e9 a express\u00e3o por excel\u00eancia da l\u00f3gica colonial. Nossas sociedades foram moldadas por uma l\u00f3gica mercantil, onde a produ\u00e7\u00e3o da riqueza n\u00e3o responde aos anseios e necessidades da sua popula\u00e7\u00e3o \u2013 o exemplo mais extremo foi a escraviza\u00e7\u00e3o de africanos. O extrativismo \u00e9 a lembran\u00e7a presente de que nossas sociedades nasceram como um neg\u00f3cio, e se reproduzem como um neg\u00f3cio.\u00a0Vivemos uma crise ecol\u00f3gica que coloca em risco a sa\u00fade do planeta, explicitada pela pandemia. \u00c9 preciso revolucionar a rela\u00e7\u00e3o com a natureza. Isso exige se livrar da coloniza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Permita-me dar um passo atr\u00e1s, para entender por que no s\u00e9culo XXI a press\u00e3o extrativista se intensificou. Este fen\u00f4meno est\u00e1 ligado \u00e0 crise estrutural do capital que se evidencia desde os anos 1970. Diante da impossibilidade de retomar ciclos de acumula\u00e7\u00e3o expandida (como nos trinta anos ap\u00f3s a Segunda Guerra), duas tend\u00eancias se intensificaram: a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/468\">financeiriza\u00e7\u00e3o<\/a>, que \u00e9 uma tentativa de empurrar com a barriga o problema da acumula\u00e7\u00e3o; e a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/567461-porto-acu-acumulacao-por-espoliacao-a-brasileira-do-petismo\">acumula\u00e7\u00e3o por espolia\u00e7\u00e3o<\/a>, que tem, entre outras express\u00f5es, o extrativismo. Na Am\u00e9rica Latina, ditadura do ajuste estrutural e extrativismo s\u00e3o duas faces concretas desta din\u00e2mica global, que tem levado o planeta \u00e0 exaust\u00e3o, e as sociedades, \u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Se os progressismos n\u00e3o enfrentam nem uma coisa nem outra \u2013 se favorecem o extrativismo e s\u00e3o c\u00famplices da tirania das finan\u00e7as \u2013 por que dizemos que s\u00e3o de esquerda? Certamente, isso s\u00f3 alimenta o desprest\u00edgio daquilo que a esquerda um dia encarnou: um horizonte de mudan\u00e7a radical.<\/p>\n<p>O progressismo \u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, o bra\u00e7o esquerdo da ordem. E os Bolsonaros deste mundo s\u00e3o seu bra\u00e7o direito. O que est\u00e1 em jogo na disputa entre progressismo e direita s\u00e3o diferentes formas de lidar com a agudiza\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es no neoliberalismo. O progressismo se prop\u00f5e a gerir estas tens\u00f5es, por meio de um arsenal de best practices avalizadas pelo Banco Mundial. \u00c9 uma conten\u00e7\u00e3o da crise. J\u00e1 os Bolsonaros deste mundo admitem o car\u00e1ter autof\u00e1gico do neoliberalismo (uma luta de todos contra todos), e prometem armar as pessoas, para que elas se defendam, atacando \u2013 como ele pr\u00f3prio faz. \u00c9 uma acelera\u00e7\u00e3o da crise.\u00a0Em outras palavras, enquanto o progressismo se prop\u00f5e a gerir a crise, os bolsonarismos n\u00e3o se prop\u00f5em a fazer gest\u00e3o alguma: eles governam por meio da crise. Enquanto uns procuram o freio, outros pisam no acelerador. Mas ningu\u00e9m questiona o trilho.\u00a0Enquanto o progressismo se prop\u00f5e a gerir a crise, os bolsonarismos n\u00e3o se prop\u00f5em a fazer gest\u00e3o alguma: eles governam por meio da crise.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong>:<strong>\u00a0Quais os limites das experi\u00eancias de esquerda na primeira d\u00e9cada dos anos 2000, tomando como exemplo Equador, Bol\u00edvia e Brasil? Como isso impactou a ascens\u00e3o de perspectivas pol\u00edticas que amea\u00e7am at\u00e9 a ideia de democracia na Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos:<\/strong>\u00a0A narrativa progressista entende que est\u00e1 em curso uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0s conquistas avan\u00e7adas em seus governos, levada a cabo pelos inimigos de sempre \u2013 a direita, os Estados Unidos etc. Com\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/599790-a-normalidade-e-a-raiz-dos-riscos-que-afligem-a-humanidade-entrevista-especial-com-daniel-feldmann-em-edicao\">Daniel Feldmann<\/a>, analiso os limites do progressismo por um \u00e2ngulo distinto, enfocando a sua din\u00e2mica e as suas contradi\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, explicamos a derrocada do progressismo por ele mesmo: pelo mundo que a onda produziu, e pelo seu movimento.<\/p>\n<p>Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que, apesar das inten\u00e7\u00f5es e desejos de seus l\u00edderes, a tentativa progressista de conter um processo hist\u00f3rico de dessocializa\u00e7\u00e3o nos marcos da crise estrutural do capitalismo, implicou em pr\u00e1ticas e pol\u00edticas que terminaram acelerando este mesmo processo, em uma din\u00e2mica que nomeamos como uma \u201cconten\u00e7\u00e3o aceleracionista\u201d. Esta din\u00e2mica, por sua vez, refor\u00e7a tra\u00e7os socioecon\u00f4micos que remetem \u00e0 origem colonial (como o extrativismo), resultando em um segundo paradoxo: um \u201cprogressismo regressivo\u201d que, no entanto, n\u00e3o se confunde com uma volta ao passado, porque a integra\u00e7\u00e3o mediada pelo consumo promovida por estes governos (via \u201cBolsas Fam\u00edlias\u201d e expans\u00e3o do cr\u00e9dito popular), conformou modalidades de \u201cneoliberalismo inclusivo\u201d, que corroboraram e aprofundaram a raz\u00e3o neoliberal.<\/p>\n<p>Conten\u00e7\u00e3o aceleracionista, progressismo regressivo e neoliberalismo inclusivo s\u00e3o as chaves para examinar as contradi\u00e7\u00f5es do progressismo e compreender por que a onda n\u00e3o abriu caminho para um mundo melhor.\u00a0Esta perspectiva enfatiza as condicionantes estruturais de uma crise cujas ra\u00edzes antecedem o pr\u00f3prio neoliberalismo, e cujo alcance \u00e9 mais amplo do que a Am\u00e9rica Latina. N\u00e3o se trata de um exerc\u00edcio de julgamento da hist\u00f3ria, identificando culpados e seus erros, mas de compreender os limites da aposta progressista, a despeito da inten\u00e7\u00e3o de seus protagonistas. Conten\u00e7\u00e3o aceleracionista, progressismo regressivo e neoliberalismo inclusivo s\u00e3o as chaves para examinar as contradi\u00e7\u00f5es do progressismo e compreender por que a onda n\u00e3o abriu caminho para um mundo melhor.<\/p>\n<p>A ideia fundamental \u00e9 que os meios com que ainda se pode conter a crise social no s\u00e9culo XXI s\u00e3o, ao mesmo tempo, aceleradores deste desabamento. A contradi\u00e7\u00e3o desta l\u00f3gica, em que a tentativa de conter o movimento dessocializante n\u00e3o impede a sua acelera\u00e7\u00e3o, pois implica em fortalecer justamente o que se pretende conter, pode ser constatada em m\u00faltiplos planos no caso brasileiro.<\/p>\n<p>Vejamos: o ex-presidente mundial do BankBoston, Henrique Meirelles, que renunciou como deputado tucano em 2003 para comandar o Banco Central por oito anos sob Lula e que, depois, foi ministro da economia sob Michel Temer; a tentativa do governo Lula de fazer liga\u00e7\u00e3o direta com o \u201cbaixo clero\u201d no congresso, que desatou o esc\u00e2ndalo do \u201cmensal\u00e3o\u201d em 2005, respondido com mais espa\u00e7o para o PMDB no governo, levando o partido a indicar o futuro golpista Michel Temer por duas vezes como vice-presidente na chapa de Rousseff; o apoio de lideran\u00e7as neopentecostais \u00e0s administra\u00e7\u00f5es petistas, que resultou em recuos na agenda comportamental e na nomea\u00e7\u00e3o de ministros evang\u00e9licos como Marcelo Crivella; os militares enviados ao Haiti na inten\u00e7\u00e3o de fazer do Brasil um \u201cglobal player\u201d, que em seguida, implementaram o know-how adquirido em miss\u00f5es de garantia da lei e da ordem notadamente\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/576194-intervencao-no-rio-de-janeiro-e-mais-uma-encenacao-politico-midiatica-entrevista-especial-com-jose-claudio-alves\">no Rio de Janeiro<\/a>, e que agora, formam o primeiro escal\u00e3o do governo Bolsonaro; as construtoras, que n\u00e3o hesitaram em mandar para a cadeia, em dela\u00e7\u00f5es reais ou imagin\u00e1rias, aqueles que lhes abriram caminho para ganhar dinheiro como nunca; isso para n\u00e3o falar nos jovens que encararam o precariado como fase transit\u00f3ria de uma ascens\u00e3o social que passava pelo cr\u00e9dito e a universidade privada mas que, uma vez atingidos pela crise e o desemprego, transformaram a esperan\u00e7a em \u00f3dio; ou de movimentos sociais envolvidos por pol\u00edticas visando neutralizar sua combatividade, em lugar de implementar suas bandeiras (como a reforma agr\u00e1ria e urbana), resultando, treze anos depois, em um campo popular dividido, debilitado e desprestigiado.<\/p>\n<p>Em resumo, os militares, os bancos, o PMDB, o vice-presidente Michel Temer, o neopentecostalismo, as empreiteiras, o empreendedorismo, a passividade, foram todos alimentados e cultivados, em seu momento, pelos governos petistas. Neste quadro, a figura de imagem mais adequada da rela\u00e7\u00e3o entre a defenestra\u00e7\u00e3o do PT e a ascens\u00e3o de Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 uma guinada de 180 graus, mas uma met\u00e1stase, na medida em que for\u00e7as e interesses corrosivos, cujo poder nunca foi desafiado e que pareciam controladas sob o petismo, se espalharam de forma inconteste pelo tecido nacional.<\/p>\n<p>Uma din\u00e2mica compar\u00e1vel pode ser analisada no Equador, na Bol\u00edvia e na Venezuela. O paradoxo aqui que se revela de modo mais evidente no caso venezuelano, \u00e9 que a for\u00e7a do progressismo, nesses casos, est\u00e1 relacionada \u00e0 posi\u00e7\u00e3o dominante que assumiu nas institui\u00e7\u00f5es do estado. Em outras palavras, foram os aspectos antidemocr\u00e1ticos (ou antirrepublicanos) destes processos o que os manteve na \u00f3rbita do poder.<\/p>\n<p>A t\u00edtulo de exemplo, recordemos as manobras de Morales para aprovar sua quarta candidatura consecutiva na Bol\u00edvia, e de Maduro para impugnar tr\u00eas deputados nas elei\u00e7\u00f5es de 2015, privando a oposi\u00e7\u00e3o de maioria absoluta no congresso.\u00a0No Equador, o novo eleitoral n\u00e3o tem o cheiro do fascismo, como no Brasil, nem o bolor do velho, como na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line: O que a experi\u00eancia equatoriana revela acerca dos limites do progressismo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos<\/strong>: Recapitulemos as linhas gerais da experi\u00eancia equatoriana: depois de dois mandatos como vice-presidente de Rafael Correa (2007-2017),\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/568093-lenin-moreno-assume-o-governo-no-equador\">Lenin Moreno<\/a>\u00a0elegeu-se como seu sucessor em uma acirrada disputa em 2017. A seguir, em seu empenho por diferenciar-se da figura dominadora de Correa, Moreno aliou-se \u00e0 direita tradicional e aos Estados Unidos. No processo, entregou \u00e0 pol\u00edcia\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/596714-assange-imperio-da-vigilancia-e-imperialismo\">Julian Assange<\/a>, asilado na embaixada equatoriana em Londres desde 2012.<\/p>\n<p>Em meio a acusa\u00e7\u00f5es m\u00fatuas e processos por corrup\u00e7\u00e3o, Correa deixou Alianza Pa\u00eds e fundou um novo partido em 2018. No m\u00eas seguinte, um referendo alterou a constitui\u00e7\u00e3o para impedir que um ex-presidente concorra a um terceiro mandato, seguindo o modelo dos Estados Unidos. O alvo era claro. Enquanto isso, Moreno intensificou a agenda do ajuste estrutural, at\u00e9 que a escalada de austeridade teve um \u2018basta\u2019 das ruas em outubro de 2019, em uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/593303-onda-de-protestos-no-equador-se-transforma-em-tsunami\">revolta social<\/a>\u00a0protagonizada por ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Entre as disputas no topo, a convers\u00e3o de Alianza Pa\u00eds e a rebeli\u00e3o popular, abriu-se espa\u00e7o para uma novidade pol\u00edtica \u00e0 esquerda. A\u00ed reside a singularidade do que ocorre no Equador: o novo eleitoral n\u00e3o tem o cheiro do fascismo, como no Brasil, nem o bolor do velho, como na Bol\u00edvia. A candidatura de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/606805-equador-yaku-perez-e-o-fim-dos-binarismos\">Yaku P\u00e9rez<\/a>\u00a0pelo movimento Pachakutik defende a natureza, os territ\u00f3rios e a \u00e1gua. Em uma palavra, se contrap\u00f5e ao desenvolvimentismo latino-americano.<\/p>\n<p>Difamado pelo progressismo internacional como um \u201ccavalo de troia da direita\u201d, P\u00e9rez esteve a um fio de passar para o segundo turno. Seus apoiadores est\u00e3o convencidos de que houve fraude, em meio a um acordo entre o corre\u00edsmo e o candidato da direita. N\u00e3o tenho elementos para afirmar se houve fraude ou n\u00e3o, mas a demora em apurar o \u00faltimo per cento dos votos, quando P\u00e9rez liderava, e a incontest\u00e1vel for\u00e7a que esta candidatura teria no segundo turno, obrigam a considerar seriamente a acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o idealizo o movimento Pachakutik nem Yaku P\u00e9rez. Mas para quem se preocupa com o que acontece no planeta, tanto na ecologia como na pol\u00edtica, est\u00e1 claro que eles s\u00e3o parte da solu\u00e7\u00e3o. Por outro lado, a difama\u00e7\u00e3o que sofrem explicita as tintas cada vez mais autorit\u00e1rias e conservadoras da ret\u00f3rica progressista internacional, que tem como foco exclusivo a disputa do poder estatal. As manifesta\u00e7\u00f5es no Paraguai refletem um descontentamento social que transbordou com a gest\u00e3o corrupta e incompetente da situa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria do pa\u00eds, no contexto da pandemia.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong>:<strong>\u00a0Falando sobre o Paraguai, como ler as manifesta\u00e7\u00f5es de rua que v\u00eam ocorrendo em decorr\u00eancia da crise sanit\u00e1ria? A pandemia foi o estopim de algo que vem de mais tempo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos:<\/strong>\u00a0As\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/607531-paraguai-reivindicam-um-estado-soberano\">manifesta\u00e7\u00f5es no Paraguai<\/a>\u00a0refletem um descontentamento social que transbordou com a gest\u00e3o corrupta e incompetente da situa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria do pa\u00eds, no contexto da pandemia. Os hospitais est\u00e3o lotados, faltam insumos de todo tipo e pacientes enfrentam contas car\u00edssimas, apesar de o governo ter se endividado massivamente a pretexto de combater a peste. A viol\u00eancia da repress\u00e3o policial escalou os protestos, que s\u00e3o autoconvocados e exigem a ren\u00fancia do presidente colorado Mario Abdo.<\/p>\n<p>No entanto, o partido colorado, que domina a pol\u00edtica nacional h\u00e1 oitenta anos \u2013 com exce\u00e7\u00e3o do breve governo Lugo (2008-2012) \u2013, tem maioria no congresso. Dentre essa maioria colorada, cerca de metade \u00e9 controlada pelo ex-presidente Horacio Cartes, apontado por muitos como o mafioso por tr\u00e1s da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/568767-cinco-anos-apos-o-massacre-de-curuguaty-no-paraguai-fala-um-dos-seus-sobreviventes-foi-um-tiroteio-com-metralhadoras\">chacina de Curuguaty<\/a>\u00a0e da articula\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/556773-paraguai-voltou-ao-passado-com-projeto-neoliberal-imposto-apos-impeachment-de-lugo-diz-economista\">golpe contra Lugo<\/a>.<\/p>\n<p>Em resumo, constata-se tamb\u00e9m no Paraguai um agudo div\u00f3rcio entre o sentimento popular e a pol\u00edtica parlamentar, em uma situa\u00e7\u00e3o em que a atua\u00e7\u00e3o da esquerda institucional tem sido pouco relevante. Entretanto, na falta de uma alternativa radical, esta rebeldia se v\u00ea ref\u00e9m de um congresso subordinado a interesses econ\u00f4micos mafiosos, que controlam um Estado dirigido por um partido que encarna uma vers\u00e3o extrema de autocracia burguesa no continente.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line: Como compreender a situa\u00e7\u00e3o da Bol\u00edvia, onde, depois do golpe, o Movimento ao Socialismo voltou ao poder no ano passado, mas agora em 2021 tem a vit\u00f3ria de seus dissidentes e da oposi\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es locais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos:<\/strong>\u00a0A situa\u00e7\u00e3o boliviana \u00e9 complexa e motivo de controv\u00e9rsia na esquerda. Para entender a situa\u00e7\u00e3o que levou \u00e0 derrocada de Morales, \u00e9 importante ter claro alguns elementos. Em primeiro lugar, n\u00e3o se trata de uma disputa \u2018esquerda contra direita\u2019; ao menos desde 2011, a base popular do governo estava rachada \u2013 o ponto de inflex\u00e3o foi a repress\u00e3o \u00e0 marcha contra a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570580-aprovacao-da-construcao-da-estrada-de-tipnis-ilustra-contradicoes-do-governo-boliviano\">constru\u00e7\u00e3o de uma rodovia no parque Tipnis<\/a>.<\/p>\n<p>Como no Equador de Correa, o governo reagiu a esta fratura de modo intolerante, perseguindo, difamando e dividindo organiza\u00e7\u00f5es e lideran\u00e7as cr\u00edticas. Ao mesmo tempo, consolidou alian\u00e7as com setores pol\u00edticos conservadores, com o agroneg\u00f3cio, com as multinacionais que exploram hidrocarbonetos e min\u00e9rios. Em suma, ningu\u00e9m no andar de cima estava perdendo dinheiro na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Neste processo, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/603859-bolivia-o-mas-e-o-triunfo-avassalador\">MAS<\/a>\u00a0consolidou-se como poder na m\u00eddia, no judici\u00e1rio, na pol\u00edcia e mesmo na rela\u00e7\u00e3o com as For\u00e7as Armadas. Este projeto de poder centrou-se cada vez mais na figura de Evo Morales \u2013 \u2018evismo, o nacional-popular em a\u00e7\u00e3o\u2019, como dizia o ide\u00f3logo do regime, o vice Garc\u00eda Linera. Foi este o contexto em que Morales insistiu em se candidatar pela quarta vez consecutiva, apesar da derrota sofrida no referendo popular sobre esta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste contexto, quando explodiram as den\u00fancias de fraude na elei\u00e7\u00e3o em 2019, n\u00e3o foi a direita que tomou as ruas (embora ela tamb\u00e9m estivesse presente), mas, sobretudo, uma juventude para quem o MAS sempre foi poder. Esta rea\u00e7\u00e3o desestabilizou o governo, criando uma situa\u00e7\u00e3o que a direita mais recalcitrante tentou ent\u00e3o aproveitar.\u00a0Por\u00e9m, o governo ileg\u00edtimo e impopular de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594319-bolivia-o-vacuo-de-poder-a-guerra-e-uma-presidente-autoproclamada\">Jeanine A\u00f1ez<\/a>\u00a0foi marcado pela repress\u00e3o, a corrup\u00e7\u00e3o e a incompet\u00eancia, ressuscitando o espectro da discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnica em um pa\u00eds profundamente ind\u00edgena. Como resultado, foi largamente odiado, \u00e0 maneira de Temer no Brasil.<\/p>\n<p>Entretanto, o clima da vit\u00f3ria eleitoral retumbante do MAS nas elei\u00e7\u00f5es do ano passado n\u00e3o deve ser confundido com a sua primeira vit\u00f3ria em 2006. Naquele momento, Morales se elegeu em um contexto de extraordin\u00e1ria conflituosidade social, inaugurando um governo que anunciava ser \u201cdos movimentos populares\u201d. Desta vez, o clima \u00e9 de resigna\u00e7\u00e3o, de voto pelo mal menor, em meio a um profundo mal-estar. Ao contr\u00e1rio de 2006, em 2020 poucos acreditam que um futuro melhor se aproxima.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, cabe observar que o triunfo eleitoral complica a narrativa golpista: se o MAS era t\u00e3o perturbador para a direita e o imperialismo, como explicar seu retorno um ano depois? Distante de uma conspira\u00e7\u00e3o internacional, evidencia-se que o governo Morales sucumbiu a uma esp\u00e9cie de \u201cimplos\u00e3o por acumula\u00e7\u00e3o\u201d: caiu sob peso do poder que acumulava de maneira monocr\u00e1tica, h\u00e1 quinze anos. Agora, seu partido tenta se repaginar, mas a tens\u00e3o est\u00e1 no ar.\u00a0H\u00e1 muito tempo, o tabuleiro de Lula e do PT passa longe do povo: est\u00e1 em Bras\u00edlia. O PT e Lula s\u00e3o parte deste jogo, e n\u00e3o do jogo da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line: No Brasil, enquanto se debatia, ainda sob muitas dificuldades e diverg\u00eancias, a necessidade de uma frente de esquerda para responder ao bolsonarismo, as condena\u00e7\u00f5es do ex-presidente Lula s\u00e3o suspensas. Quais os riscos de essa novidade acirrar a polariza\u00e7\u00e3o e enfraquecer a concep\u00e7\u00e3o dessa frente? Como fugir dessa polariza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos:<\/strong>\u00a0Em primeiro lugar, \u00e9 preciso ter clareza de que h\u00e1 muito tempo o PT se tornou parte da ordem: o seu bra\u00e7o esquerdo. Isso quer dizer que, h\u00e1 muito tempo, o tabuleiro de Lula e do PT passa longe do povo: est\u00e1 em Bras\u00edlia. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/607508-para-alem-do-lulismo\">PT e Lula<\/a>\u00a0s\u00e3o parte deste jogo, e n\u00e3o do jogo da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Este jogo \u00e9 pautado pelo c\u00e1lculo eleitoral, que a ideologia do partido vende como interesse popular. Este c\u00e1lculo explica aparentes contradi\u00e7\u00f5es \u2013 por exemplo, se aliar a partidos da base golpista um m\u00eas depois do impeachment; frear o \u201cfora Temer\u201d, na certeza de que Lula venceria no ano seguinte; a posi\u00e7\u00e3o inicial contr\u00e1ria ao impeachment de Bolsonaro etc. No limite, este c\u00e1lculo leva ao racioc\u00ednio de que um governo Bolsonaro desastroso favorece as chances da oposi\u00e7\u00e3o nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.\u00a0Isso n\u00e3o quer dizer que eu seja por princ\u00edpio contr\u00e1rio a uma frente contra Bolsonaro, ou a uma alian\u00e7a da esquerda com o PT. Mas sim, que \u00e9 fundamental entender com quem se est\u00e1 aliando, qual \u00e9 o jogo, e como ele \u00e9 jogado.<\/p>\n<p>Para entender os motivos e as consequ\u00eancias da volta de Lula a este jogo, \u00e9 preciso desvelar os bastidores deste mundo, que\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/231\">Gramsci<\/a>\u00a0chamava de \u201cpequena pol\u00edtica\u201d. Bolsonaro ser\u00e1 favorecido com a ressurrei\u00e7\u00e3o de um defunto pol\u00edtico, que lhe devolver\u00e1 um inimigo imagin\u00e1rio? No outro extremo, a ressurrei\u00e7\u00e3o do partido continuar\u00e1 a bloquear a emerg\u00eancia de alternativas que contestem a ordem? O PSDB n\u00e3o teria interesse em prolongar com aparelhos a vida de uma Nova Rep\u00fablica que colaborou para enterrar, sem perceber que tamb\u00e9m sepultava a si pr\u00f3prio?<\/p>\n<p>A pequena pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 o foco da minha aten\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, mas sim a mudan\u00e7a social. Deste ponto de vista, fa\u00e7o duas observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, polariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo ruim em si: ao contr\u00e1rio, uma polariza\u00e7\u00e3o que explicite as fissuras do pa\u00eds e politize o debate p\u00fablico seria salutar. O contr\u00e1rio da pol\u00edtica do \u00f3dio n\u00e3o \u00e9 a pol\u00edtica de paz e amor, pois o \u00f3dio \u00e9 um dado social irrefut\u00e1vel. A quest\u00e3o \u00e9 como odiar o existente, em nome de algo melhor. Extrair do \u00f3dio pot\u00eancia criadora. S\u00f3 assim, poder\u00e1 se transformar um dia, quem sabe, em amor.<\/p>\n<p>Por outro lado, uma polariza\u00e7\u00e3o Lula versus Bolsonaro, na linha do que foi a polariza\u00e7\u00e3o A\u00e9cio versus Dilma em 2014, significa uma infantiliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, que tem um potencial regressivo perigoso, como agora sabemos. Todo mundo conhece quem um dia votou no Lula, e agora elegeu Bolsonaro.\u00a0Polariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo ruim em si: ao contr\u00e1rio, uma polariza\u00e7\u00e3o que explicite as fissuras do pa\u00eds e politize o debate p\u00fablico seria salutar.<\/p>\n<p>A segunda observa\u00e7\u00e3o \u00e9 que uma vit\u00f3ria eleitoral progressista, na melhor das hip\u00f3teses, remediar\u00e1 a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/606560-a-crise-civilizatoria-brasileira-e-a-manifestacao-da-barbarie-como-razao-de-estado-entrevista-especial-com-plinio-de-arruda-sampaio-jr\">crise civilizat\u00f3ria<\/a>\u00a0que vivemos. Podemos imaginar que, se Haddad fosse presidente, estaria fazendo o seu melhor para construir uma grande arca salvadora no dil\u00favio da pandemia, sem colocar em xeque quaisquer dos par\u00e2metros estruturais da reprodu\u00e7\u00e3o neoliberal no Brasil. Porque se o fizesse, compraria briga e o PT n\u00e3o \u00e9 um instrumento pol\u00edtico para brigar, mas para conciliar.\u00a0Em suma, faria o melhor poss\u00edvel, onde o poss\u00edvel \u00e9 pouco. Enquanto isso, a din\u00e2mica social autof\u00e1gica, que faz do cotidiano uma luta de todos contra todos, em um mundo onde o trabalho se torna escasso e as balas abundam, se agravaria.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line: Que rela\u00e7\u00f5es podemos estabelecer entre o momento pol\u00edtico e social de Peru, Bol\u00edvia, Equador, Paraguai e agora Brasil, considerando tamb\u00e9m o processo da constituinte no Chile? O que essas experi\u00eancias dizem \u00e0 dita esquerda de nosso tempo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos:<\/strong>\u00a0No Chile, no Peru e na Col\u00f4mbia, pa\u00edses que passaram \u00e0 margem do progressismo, a luta das ruas exige novas constitui\u00e7\u00f5es. Embora seja ineg\u00e1vel a import\u00e2ncia de romper com a institucionaliza\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o neoliberal, \u00e9 preciso recordar que Venezuela, Bol\u00edvia e Equador trilharam caminho similar no come\u00e7o do s\u00e9culo. Hoje, est\u00e1 claro que a mudan\u00e7a constitucional foi impotente para refundar as bases da reprodu\u00e7\u00e3o social, que continua sendo a produ\u00e7\u00e3o de valor.<\/p>\n<p>O xis da quest\u00e3o \u00e9 que o poder do capital \u00e9 extraparlamentar: a din\u00e2mica do valor que se valoriza, determina os fundamentos da reprodu\u00e7\u00e3o social. Uma reprodu\u00e7\u00e3o social que, no mundo atual, se tornou uma m\u00e1quina de produzir medo, \u00f3dio e indiferen\u00e7a. Da\u00ed que o progressismo, a despeito das boas inten\u00e7\u00f5es, n\u00e3o abriu caminho para um mundo melhor.<\/p>\n<p>Vistos sob este prisma, os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/604202-chile-a-construcao-do-poder-constituinte\">acontecimentos chilenos<\/a>\u00a0s\u00e3o, por um lado, inspiradores: os corpos sa\u00edram das telas e foram para as ruas, sem ter um passado recente a resgatar \u2013 no Chile, n\u00e3o h\u00e1 lulismo ou peronismo, repaginado como kirchnerismo. A rebeldia olha para a frente. Portanto, h\u00e1 mais espa\u00e7o para a imagina\u00e7\u00e3o e a experimenta\u00e7\u00e3o do novo.<\/p>\n<p>Por outro lado, o desafio chileno e das\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/593997-protestos-no-chile-as-rachaduras-no-modelo-economico-do-pais-expostas-pelas-manifestacoes\">rebeli\u00f5es<\/a>\u00a0do nosso tempo \u00e9 como transformar esta \u201cgrande recusa\u201d em uma proposta alternativa. Deste ponto de vista, a demanda constitucional \u00e9 sintoma de falta de ideias coletivas. O que vem depois da recusa, na imagina\u00e7\u00e3o rebelde do s\u00e9culo XXI? \u00c9 preciso cuidado para que as assembleias constituintes n\u00e3o se limitem a tirar a pol\u00edtica das ruas, para devolv\u00ea-la aos parlamentos. O risco \u00e9 reeditar o progressismo, por outros meios.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que uma rebeli\u00e3o como a chilena n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 uma premissa para sair do impasse. \u00c9 um sinal de sa\u00fade, pois os corpos nas ruas carregam subjetividades que romperam com o anestesiamento, e podem ser mobilizadas por uma mudan\u00e7a radical. Parte do drama \u00e9 que, no momento, a radicalidade est\u00e1 do outro lado: em um mundo de expectativas decrescentes, aprendemos que \u00e9 poss\u00edvel odiar o existente em nome de algo pior.\u00a0A Am\u00e9rica Latina tem c\u00e2ncer. O bolsonarismo \u00e9 a sua met\u00e1stase mais aguda. A aspirina progressista alivia sintomas, sem combater suas causas.<\/p>\n<p>Em resumo: a Am\u00e9rica Latina tem c\u00e2ncer. O bolsonarismo \u00e9 a sua met\u00e1stase mais aguda. A aspirina progressista alivia sintomas, sem combater suas causas.\u00a0Como sairemos deste c\u00e2ncer? A cura n\u00e3o se conhece. Ser\u00e1 preciso imaginar e fazer o novo. Este novo ter\u00e1 que ser mais e n\u00e3o menos radical do que no passado. No momento, \u00e9 este o desafio intelectual e pol\u00edtico ao qual eu e muitos outros (assim espero!) se dedicam. No plano pessoal, trabalho em um livro nesta trincheira.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/elefanteeditora.com.br\/o-cancer-politico-e-social-da-america-latina-e-a-metastase-brasileira\/?mc_cid=c16ab25a01&amp;mc_eid=0ac7cd7efd<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isadora Attab &#8211; A Am\u00e9rica Latina que sonhava com um outro futuro poss\u00edvel acabou dando uma guinada brusca e mergulhou numa amargura pol\u00edtica que repercute em caos social. E em tempos de pandemia, a doen\u00e7a que j\u00e1 era cr\u00f4nica se acentua. 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