{"id":14991,"date":"2021-04-03T12:18:43","date_gmt":"2021-04-03T15:18:43","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14991"},"modified":"2021-03-30T15:21:15","modified_gmt":"2021-03-30T18:21:15","slug":"pos-capitalismo-o-intrigante-aporte-sueco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/04\/03\/pos-capitalismo-o-intrigante-aporte-sueco\/","title":{"rendered":"P\u00f3s-capitalismo: o intrigante aporte sueco"},"content":{"rendered":"<p><strong>Bhaskar Sunkara &#8211;\u00a0<\/strong>O texto abaixo \u00e9 um cap\u00edtulo do livro\u00a0<em>O Manifesto Socialista: Em defesa da pol\u00edtica radical numa era de extrema desigualdade<\/em>, de\u00a0<strong>Bhaskar Sunkara<\/strong>, rec\u00e9m-lan\u00e7ado pela\u00a0<strong>Boitempo Editorial<\/strong>, parceira de\u00a0<strong>Outras Palavras.<\/strong><\/p>\n<p>Em 1976, o primeiro-ministro sueco Olof Palme comentou que havia dois caminhos para os socialistas: \u201cOu voltar a St\u00e1lin e L\u00eanin, ou trilhar o caminho que se junta \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da social-democracia\u201d. Sua escolha, enquanto l\u00edder do Estado que encarnava o segundo, era evidente. O modelo sueco tinha tanto prest\u00edgio que mesmo um gaullista como o presidente franc\u00eas Georges Pompidou disse que sua sociedade ideal era \u201cA Su\u00e9cia, com um pouco mais de sol\u201d[1].<\/p>\n<p>Mas, por mais que os caminhos divergentes do socialismo n\u00e3o pudessem parecer mais contrastantes nos dias de Palme, nem sempre foi assim. No rescaldo imediato da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, minorias social-democratas importantes se somaram a dissid\u00eancias comunistas, mas boa parte dos sociais-democratas rejeitou a insurrei\u00e7\u00e3o e se acomodou \u00e0 rep\u00fablica democr\u00e1tica como a forma pol\u00edtica para suas ambi\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, quase todos esses sociais-democratas ainda eram marxistas em termos de doutrina e compartilhavam um horizonte socialista. Para boa parte deles, isso significava uma economia nacionalizada, na qual um planejamento racional substitu\u00eda a tirania do mercado. Eles queriam ensejar um sistema que sucedesse ao capitalismo e duvidavam de que as coisas poderiam ser mudadas significativamente ainda no interior do capitalismo.<\/p>\n<p>A social-democracia nunca chegou a atingir os objetivos ambicionados, mas as reformas que ela ensejou se provaram muito mais exitosas do que se esperava. A Su\u00e9cia na d\u00e9cada de 1970 n\u00e3o era simplesmente a sociedade com melhor qualidade de vida da hist\u00f3ria; tamb\u00e9m era o pa\u00eds europeu no qual, depois da Segunda Guerra Mundial, os socialistas mais conseguiram sobrepujar o poder do capital. Enquanto os capitalistas se preocupavam com as promessas de enterrar o Ocidente vociferadas a golpes de sapato por Nikita Khruschev, a maior amea\u00e7a ao capitalismo de livre mercado n\u00e3o estava na R\u00fassia, mas na Escandin\u00e1via, onde a combina\u00e7\u00e3o de um Estado de bem-estar social universal, pleno emprego e sindicatos centralizados dava enorme poder aos trabalhadores. Os sindicatos suecos ainda apresentaram em 1976 uma proposta de fundos de participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria para os trabalhadores que teriam lentamente socializado empresas privadas. Como os sociais-democratas suecos chegaram a tanto, e por que o experimento deles finalmente caiu por terra, \u00e9 uma hist\u00f3ria improv\u00e1vel e instrutiva.<\/p>\n<p>Todavia, para compreender o sucesso da Su\u00e9cia do p\u00f3s-guerra, precisamos primeiro entender os fracassos da social-democracia do entreguerras e a li\u00e7\u00e3o importante que esses fracassos oferecem a respeito das armadilhas diante das quais os socialistas se deparam quando governam sem um plano para atingir transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Os socialistas europeus foram presenteados com a chance de passar da oposi\u00e7\u00e3o ao poder mais rapidamente do que muitos imaginaram. Sa\u00edram da Primeira Guerra Mundial com bastante legitimidade \u2013 em alguns casos, como no da Alemanha, porque as elites estavam desmoralizadas, em outros, devido em parte ao seu apoio pela causa nacional no per\u00edodo da guerra. Como afirmou Karl Kautsky em 1924: \u201cT\u00ednhamos aprendido como ser oposi\u00e7\u00e3o\u201d antes da guerra. Agora \u201ctratava-se de assumir o governo, e isso no sentido mais amplo; na ind\u00fastria, nas localidades, no Estado\u201d. Mas seu partido, tal como outros partidos socialistas no per\u00edodo do entreguerras, s\u00f3 chegou a exercer poder em governos minorit\u00e1rios ou de coaliz\u00e3o[2].<\/p>\n<p>Os partidos de esquerda tiveram \u00eaxito variado na realiza\u00e7\u00e3o de reformas democr\u00e1ticas. Buscaram remover quaisquer barreiras existentes ao sufr\u00e1gio universal e democratizar as c\u00e2maras altas do Parlamento, mas n\u00e3o chegaram a realizar reformas mais profundas. As monarquias que sobreviveram ao longo da Europa foram privadas de seu poder pol\u00edtico. A exemplo de seu antecessor Jean Jaur\u00e8s, o socialista franc\u00eas L\u00e9on Blum concebia o Estado republicano como uma ferramenta para \u201cdefinir, proteger e garantir a condi\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora\u201d[3].<\/p>\n<p>O sonho radical \u2013 substituir o capitalismo por uma economia socialista operando em prol do bem comum \u2013 ainda estava vivo. Logo nos primeiros anos do per\u00edodo do p\u00f3s-guerra, uma s\u00e9rie de ondas grevistas criou um terreno f\u00e9rtil para novas demandas, e, com o advento da Grande Depress\u00e3o, o colapso capitalista tornava-se uma realidade. Nacionalizar grandes firmas e adotar novas medidas de planejamento seriam um primeiro passo. Mas os sociais-democratas tinham apenas uma vaga ideia do que queriam fazer.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, com exce\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a, a social-democracia do entreguerras n\u00e3o chegou a nacionalizar nenhuma empresa (isso apesar de os socialistas participarem de oito outros governos da Europa ocidental). Em vez disso, os socialistas formaram comiss\u00f5es para estudar o assunto, havendo-se pela primeira vez com as dificuldades t\u00e9cnicas de se construir uma nova economia pol\u00edtica. Essas comiss\u00f5es n\u00e3o deram em muita coisa e, poucos anos depois, o pr\u00f3prio Kautsky se via obrigado a admitir que \u201ca cria\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o de cunho socialista n\u00e3o \u00e9 portanto um processo t\u00e3o simples quanto pens\u00e1vamos\u201d[4].<\/p>\n<p>O governo exercido pelo Partido Trabalhista no Reino Unido entre 1929 e 1931 sob a gest\u00e3o de Ramsay MacDonald foi o exemplo mais extremo dessa nulidade no entreguerras. O Partido Trabalhista j\u00e1 tinha um hist\u00f3rico de ser bem mais moderado que muitos dos partidos da classe trabalhadora na Europa: ele rejeitava o marxismo e desde o in\u00edcio operou no interior de um arcabou\u00e7o liberal-constitucional. Foi uma organiza\u00e7\u00e3o movida por interesses sindicais e que nunca gozou das mesmas influ\u00eancias radicais que o SPD alem\u00e3o. Por anos, a Segunda Internacional vinha recusando a admiss\u00e3o do Partido Trabalhista brit\u00e2nico por conta de sua \u00eanfase na colabora\u00e7\u00e3o de classe. Depois da Grande Guerra, contudo, o partido deu uma guinada \u00e0 esquerda: a cl\u00e1usula IV de sua constitui\u00e7\u00e3o de 1918 reivindicava \u201ca propriedade comum dos meios de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e troca\u201d.<\/p>\n<p>O segundo ensaio do partido no poder foi em 1929. Na elei\u00e7\u00e3o geral de 1923, o Partido Trabalhista havia conquistado um milh\u00e3o de votos a menos que o Partido Conservador, mas conseguiu formar um governo minorit\u00e1rio com apoio do Partido Liberal. O experimento durou apenas dez meses, e, com menos de um ter\u00e7o do Parlamento, MacDonald n\u00e3o foi capaz de aprovar nada al\u00e9m de reformas menores de educa\u00e7\u00e3o, moradia e emprego. Um governo minorit\u00e1rio opera sempre com os dias contados, mas o Partido Trabalhista tinha ainda que enfrentar uma campanha anticomunista rasteira patrocinada pelo Partido Conservador, que contestava seus t\u00edmidos acenos de abertura diplom\u00e1tica com a jovem Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Em 1929, o Partido Trabalhista disputou as elei\u00e7\u00f5es defendendo um programa de obras p\u00fablicas de constru\u00e7\u00e3o civil e redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho para combater o desemprego. O resultado foi a conquista de 136 cadeiras parlamentares, o que, apesar de dar ao partido a maior bancada do Parlamento, n\u00e3o lhe garantia maioria. Mais uma vez, o Partido Trabalhista se viu dependente do apoio do Partido Liberal.<\/p>\n<p>O segundo governo de MacDonald foi formado em junho de 1929, poucos meses antes do in\u00edcio da Grande Depress\u00e3o. O momento n\u00e3o poderia ter sido pior para a agenda de reformas do partido. Com o aumento dos \u00edndices de desemprego, a lideran\u00e7a do partido se agarrou a uma ortodoxia econ\u00f4mica r\u00edgida em vez de expandir o programa de obras p\u00fablicas. Os l\u00edderes queriam apaziguar os mercados, e enfrentavam uma perspectiva de infla\u00e7\u00e3o e d\u00e9ficit crescentes. Em defesa da austeridade, MacDonald sustentava que a infla\u00e7\u00e3o representava uma amea\u00e7a mais grave do que o desemprego, e que manter o livre com\u00e9rcio e \u201co mais estrito zelo\u201d para com a sabedoria econ\u00f4mica vigente permitiria que os desempregados fossem reabsorvidos \u00e0 ind\u00fastria com o tempo. Sua tarefa urgente era evitar o naufr\u00e1gio da democracia \u201cno duro rochedo das finan\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>MacDonald tinha origem mais humilde do que qualquer primeiro-ministro brit\u00e2nico at\u00e9 hoje, mas bateu de frente com os sindicatos e se via como o representante respons\u00e1vel de uma sociedade inteira, e n\u00e3o apenas de uma classe. Alguns parlamentares do Partido Trabalhista que tinham maior proximidade com os sindicatos chegaram a se opor aos cortes nos benef\u00edcios e garantias sociais e de desemprego, defendendo, em vez disso, mais planejamento e investimento por parte do Estado. Apesar de terem projetos pol\u00edticos muito diferentes dos de MacDonald, boa parte da esquerda extraparlamentar compartilhava da avalia\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a do partido de que n\u00e3o era poss\u00edvel fazer muita coisa por meio do governo. \u201cN\u00e3o importa qu\u00e3o capazes, sinceros e simp\u00e1ticos possam ser os homens e mulheres do Partido Trabalhista que se colocarem diante da tarefa de administrar o capitalismo, o capitalismo ir\u00e1 fazer que sua administra\u00e7\u00e3o configure um desastre\u201d, diria um artigo do Socialist Standard, jornal do Partido Socialista da Gr\u00e3-Bretanha[5].<\/p>\n<p>A gest\u00e3o MacDonald governou sem tentar apresentar uma alternativa socialista e sem acreditar ter condi\u00e7\u00f5es de reformar o sistema existente. Na melhor das hip\u00f3teses, reassegurou aos trabalhadores que eles n\u00e3o seriam os \u00fanicos a ter de fazer sacrif\u00edcios em uma era de escassez, mas esse fatalismo se traduziu em um desastre eleitoral nas elei\u00e7\u00f5es gerais de 1931.<\/p>\n<p>Quem na \u00e9poca forneceu a melhor receita para se domar o capitalismo foi o economista John Maynard Keynes, um liberal que acreditava que os socialistas eram idiotas bem-intencionados. Os m\u00e9todos apresentados em sua obra de 1936,\u00a0<em>Teoria geral do emprego, do juro e da moeda<\/em>, uma vez implementados, ajudariam a estimular emprego, garantir investimento produtivo e mitigar crises. Antes da revolu\u00e7\u00e3o keynesiana, a teoria cl\u00e1ssica dominante alegava que as oscila\u00e7\u00f5es c\u00edclicas de produ\u00e7\u00e3o e emprego se ajustariam por conta pr\u00f3pria; \u00e0 medida que a demanda agregada ca\u00edsse, cairia tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o e o emprego, junto com os pre\u00e7os e os sal\u00e1rios. Com a infla\u00e7\u00e3o e os sal\u00e1rios mais baixos, os capitalistas seriam estimulados a investir capital de modo a gerar empregos e restaurar o crescimento. Qualquer interfer\u00eancia nesse ciclo s\u00f3 prolongaria a agonia dos trabalhadores. A Grande Depress\u00e3o, contudo, n\u00e3o estava passando. Os sal\u00e1rios estavam baixos, mas o desemprego seguia elevado. Keynes defendeu uma resposta fiscal contrac\u00edclica: gastos deficit\u00e1rios, cortes nos tributos e outras medidas para estimular a demanda agregada durante uma recess\u00e3o, e incrementos tribut\u00e1rios e cortes de gastos quando os tempos estiverem melhores.<\/p>\n<p>Durante o governo de MacDonald, no entanto, embora Keynes estivesse na pra\u00e7a, n\u00e3o havia ainda uma alternativa keynesiana desenvolvida. Assim como os trabalhadores de inspira\u00e7\u00e3o lassalliana no s\u00e9culo XIX se agarraram a uma cren\u00e7a em uma \u201clei de bronze do sal\u00e1rio\u201d que restringia as conquistas sindicais, seria uma batalha fazer que o movimento dos trabalhadores do s\u00e9culo XX se desvencilhasse da economia ortodoxa. Dois anos depois de suas considera\u00e7\u00f5es emp\u00e1ticas sobre o esfor\u00e7o \u201csincero\u201d do Partido Trabalhista de MacDonald, o Socialist Standard j\u00e1 avaliava retrospectivamente aquela experi\u00eancia de governo como prova definitiva de que \u201cn\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que o Partido Trabalhista ou qualquer partido administre o capitalismo de tal forma que os problemas dos trabalhadores possam ser resolvidos no interior do arcabou\u00e7o do sistema vigente\u201d[6].<\/p>\n<p>O governo da Frente Popular do l\u00edder socialista franc\u00eas L\u00e9on Blum (1936-1937) estava mais determinado a produzir mudan\u00e7as do que o de MacDonald. Os socialistas franceses haviam perdido boa parte de sua base industrial ao novo movimento comunista, mas ainda eram bastante marxistas. Ao reconstruir a infraestrutura do partido ao longo da d\u00e9cada de 1920, Blum se colocou a quest\u00e3o de como e sob quais condi\u00e7\u00f5es um socialista deveria entrar no governo. Ele estabeleceu uma distin\u00e7\u00e3o entre o \u201cexerc\u00edcio do poder\u201d (assumir um cargo pol\u00edtico a fim de pavimentar o caminho para o socialismo) e a \u201cconquista do poder\u201d (o efetivo desmantelamento do capitalismo). No final das contas, Blum acabou se contentando com \u201ca ocupa\u00e7\u00e3o do poder\u201d, para deix\u00e1-lo fora do alcance dos fascistas.<\/p>\n<p>Quando o radical Blum, de origem judaica, chegou ao poder em 1936, o pol\u00edtico antissemita Xavier Vallat reclamou: \u201cPela primeira vez esta antiga terra galo-romana ser\u00e1 governada por um judeu\u201d. Pouco antes de se tornar primeiro-ministro, Blum foi arrancado de um carro e espancado, quase at\u00e9 a morte, por uma turba de extrema direita. Uma foto dele todo enfaixado e com as fei\u00e7\u00f5es inchadas estampou a capa da revista Time no dia 9 de mar\u00e7o de 1936.<\/p>\n<p>Os reacion\u00e1rios odiavam Blum tanto por ser judeu quanto por ser socialista. Ele poderia ter reclamado dizendo que suas ambi\u00e7\u00f5es imediatas n\u00e3o eram nada escandalosas. O Partido Comunista Franc\u00eas apoiou o governo Blum, mas, contra sua vontade e a de sua pr\u00f3pria lideran\u00e7a, foi pressionado por Moscou a evitar desempenhar um papel direto no governo.<\/p>\n<p>Sob a influ\u00eancia da estrat\u00e9gia do Terceiro Per\u00edodo do Comintern, do ver\u00e3o de 1928 at\u00e9 um ou dois anos depois da ascens\u00e3o do nazismo em 1933, os partidos comunistas tinham enxergado os reformistas social-democratas como seus principais inimigos, chegando a ponto de denomin\u00e1-los \u201csocial-fascistas\u201d. Em 1934, contudo, a rela\u00e7\u00e3o entre socialistas e comunistas na Fran\u00e7a j\u00e1 havia se tornado mais fraterna.<\/p>\n<p>Em uma dr\u00e1stica invers\u00e3o de rumo, o Comintern passou a buscar alian\u00e7as \u2013 \u201cfrentes populares\u201d \u2013 com outros movimentos de esquerda onde fosse poss\u00edvel. A justificativa para a decis\u00e3o de se afastar do governo de Blum em 1936 n\u00e3o era um purismo esquerdista. Na verdade, St\u00e1lin tinha receio de que o envolvimento comunista pudesse afugentar o apoio centrista do Partido Radical \u00e0 Frente Popular.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o do governo socialista de Blum, no entanto, desencadeou uma enorme onda de a\u00e7\u00f5es sindicais. Mais de 2 milh\u00f5es de trabalhadores participaram de greves, ocupando f\u00e1bricas e paralisando a produ\u00e7\u00e3o. Marceau Pivert, l\u00edder da esquerda radical do Partido Socialista, proclamou que, nessa nova situa\u00e7\u00e3o, \u201ctudo \u00e9 poss\u00edvel\u201d. O setor empresarial apelou a Blum para que restaurasse a ordem. O resultado foi a realiza\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de reformas, os Acordos de Matignon, que garantiram aos trabalhadores o direito legal \u00e0 greve, facilitaram a forma\u00e7\u00e3o de sindicatos e lhes concederam grandes aumentos salariais. Os trabalhadores franceses puderam gozar de um seguro-desemprego e de duas semanas de f\u00e9rias remuneradas. Naquele ver\u00e3o, exaustos mas cheios de alegria, milh\u00f5es de trabalhadores viajaram para o campo e para o litoral pela primeira vez. A dignidade que essas reformas conferiram ao povo trabalhador era ineg\u00e1vel. Embora fossem o produto de uma rebeli\u00e3o das bases, e n\u00e3o do programa de Blum, elas n\u00e3o poderiam ter sido introduzidas se a Frente Popular n\u00e3o estivesse no poder.<\/p>\n<p>As reformas tamb\u00e9m continham os germes de sua pr\u00f3pria dissolu\u00e7\u00e3o. Os levantes de maio e junho de 1936 deflagraram uma fuga de capitais e uma contraofensiva empresarial em rea\u00e7\u00e3o \u00e0s reformas. Com o crescimento da instabilidade pol\u00edtica, os setores de classe m\u00e9dia da coaliz\u00e3o de Blum abandonaram a luta. O l\u00edder j\u00e1 n\u00e3o dispunha do apoio nem da determina\u00e7\u00e3o para for\u00e7ar medidas mais radicais, tampouco para oferecer uma ajuda adequada a seus camaradas socialistas-republicanos que travavam uma guerra civil sangrenta contra os fascistas na Espanha. Blum foi afastado do poder pela \u00faltima vez em 1938, insistindo que n\u00e3o havia tentado ser mais do que um \u201cleal gestor do capitalismo\u201d[7].<\/p>\n<p>Blum talvez n\u00e3o estivesse dando o devido valor \u00e0s suas reformas e \u00e0 sua vis\u00e3o radical. Mas, no final das contas, incapaz de fazer a defesa das suas pol\u00edticas, a Frente Popular na Fran\u00e7a acabou n\u00e3o tendo muito mais \u00eaxito do que os dois primeiros governos do Partido Trabalhista brit\u00e2nico. Foi s\u00f3 na Su\u00e9cia que os socialistas do entreguerras foram capazes de realmente fazer frente \u00e0 ortodoxia fiscal. Os economistas suecos j\u00e1 vinham desenvolvendo ideias econ\u00f4micas heterodoxas havia bastante tempo, e, a partir da d\u00e9cada de 1930, o Partido Social-Democrata Sueco (Sveriges Socialdemokratiska Arbetareparti \u2013 SAP) as colocou em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>As narrativas sobre a ascens\u00e3o da social-democracia na Su\u00e9cia geralmente se concentram nas caracter\u00edsticas excepcionais do pa\u00eds n\u00f3rdico. \u00c9 comum evocar sua cultura c\u00edvica, um Estado menos repressivo e inclusive sua homogeneidade racial. Contudo, de modo geral, a esquerda sueca enfrentou desafios semelhantes aos de seus pares em outros pa\u00edses, mas conseguiu encontrar formas de super\u00e1-los. Uma diferen\u00e7a relevante era que a na\u00e7\u00e3o passou pelo processo de industrializa\u00e7\u00e3o num per\u00edodo relativamente tardio, j\u00e1 no final da d\u00e9cada de 1870. Os primeiros sindicatos s\u00f3 foram formados uma d\u00e9cada depois, de modo que os defensores do sindicalismo industrial que viriam a compor a Confedera\u00e7\u00e3o Sueca de Sindicatos em 1898 n\u00e3o tiveram que enfrentar poderosas corpora\u00e7\u00f5es de of\u00edcio mais conservadoras.<\/p>\n<p>Por conta do come\u00e7o tardio, o sindicalismo sueco acabou se desenvolvendo sob a influ\u00eancia ideol\u00f3gica do socialismo \u2013 a forma\u00e7\u00e3o do SAP se deu junto com a cria\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional em 1889. O exemplo dos movimentos dinamarqu\u00eas e alem\u00e3o despertou o interesse dos fundadores do partido pelo socialismo, e a ideologia rapidamente passou a ganhar ades\u00e3o na Su\u00e9cia. Os socialistas enfrentavam uma oposi\u00e7\u00e3o intransigente das elites: um artigo de 1902 do New York Times chegou a descrever as batalhas entre trabalhadores e capitalistas e os pavores de que a \u201ct\u00e3o temida bandeira vermelha\u201d fosse hasteada numa Su\u00e9cia que s\u00f3 perdia para a R\u00fassia como \u201co pa\u00eds mais feudal e olig\u00e1rquico da Europa\u201d. Na mesma linha, a literatura do SAP chegou a descrever essa Su\u00e9cia como um enorme \u201calojamento de trabalho sob administra\u00e7\u00e3o armada\u201d[8].<\/p>\n<p>A Su\u00e9cia n\u00e3o garantiu sufr\u00e1gio universal masculino at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o que significava que, assim como no caso dos bolcheviques, os socialistas suecos foram obrigados a concentrar boa parte de seus esfor\u00e7os iniciais no ch\u00e3o de f\u00e1brica e n\u00e3o nos corredores do Parlamento. Na luta pol\u00edtica por reformas civis, os socialistas se provaram mais aptos que os liberais do pa\u00eds. Assim como na Alemanha, o poder limitado dos cargos eletivos tamb\u00e9m acabou reduzindo na pr\u00e1tica as potenciais diferen\u00e7as entre uma direita parlamentar aspirante e for\u00e7as mais radicais. No entanto, na Su\u00e9cia, sob a lideran\u00e7a de Hjalmar Branting, os sociais-democratas foram capazes de manter uma posi\u00e7\u00e3o relativamente est\u00e1vel e realizar um trabalho produtivo de forma\u00e7\u00e3o de coaliz\u00e3o com for\u00e7as liberais e agr\u00e1rias.<\/p>\n<p>Apesar de ter certas inclina\u00e7\u00f5es reformistas, o movimento sueco foi constru\u00eddo desde cedo com base em fundamentos ideol\u00f3gicos socialistas: ele defendia pol\u00edticas que aproximassem trabalhadores artes\u00e3os e industriais, e sustentava a import\u00e2ncia de lutar pelos mais mal pagos. Os sociais-democratas priorizaram sempre programas universais \u2013 com benef\u00edcios tamb\u00e9m para os pobres e os agricultores \u2013 e n\u00e3o apenas os interesses mais estreitos dos oper\u00e1rios. Em vez de recorrerem a atalhos em seus primeiros anos de oposi\u00e7\u00e3o, os socialistas suecos come\u00e7aram a construir uma hegemonia mais dur\u00e1vel do que a de outros partidos da Segunda Internacional.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1920, as coisas j\u00e1 estavam ocorrendo conforme o previsto: a luta por democracia pol\u00edtica tinha sido bastante exitosa e, por conta disso, o partido conseguia resultados eleitorais cada vez melhores. Os primeiros governos minorit\u00e1rios do SAP, contudo, provaram-se incapazes de dar in\u00edcio \u00e0 segunda fase: a conquista da democracia social. Isso come\u00e7ou a mudar em 1932, quando o partido entrou num per\u00edodo de quase meio s\u00e9culo de governo ininterrupto. O SAP tinha feito uma campanha organizada em torno de uma expans\u00e3o das obras p\u00fablicas e do aumento das interven\u00e7\u00f5es estatais na economia, e, depois de assumir o poder, come\u00e7ou a implementar algumas das pol\u00edticas contrac\u00edclicas que os socialistas em outros lugares haviam negligenciado.<\/p>\n<p>A grande reviravolta, no entanto, ocorreu mais para o final da d\u00e9cada, quando o SAP comp\u00f4s uma coaliz\u00e3o parlamentar com o Partido Agr\u00e1rio, e a Confedera\u00e7\u00e3o Sindical Sueca (Landsorganisationen i Sverige \u2013 LO) negociou um \u201cAcordo B\u00e1sico\u201d com a poderosa federa\u00e7\u00e3o patronal do pa\u00eds, a Svenska Arbetsgivaref\u00f6reningen (SAF). Reconciliar os interesses da classe trabalhadora com os dos pequenos agricultores significava que, por ora, a nacionaliza\u00e7\u00e3o ficava fora de cogita\u00e7\u00e3o. Na mesma linha, o acordo da LO com a SAF reconheceu pela primeira vez o \u201cdireito de gerir\u201d dos gestores \u2013 de dirigir o processo de trabalho e tomar decis\u00f5es sobre o quadro de funcion\u00e1rios sem interfer\u00eancia. O planejamento era, assim, redefinido de modo que, aos poucos, a perspectiva de nacionaliza\u00e7\u00e3o estatal dava lugar a um modelo baseado em investimento p\u00fablico e planejamento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>O partido havia passado por uma mudan\u00e7a consider\u00e1vel: da oposi\u00e7\u00e3o, na qual representava os interesses mais exclusivos dos trabalhadores, para embarcar em um projeto de construir uma \u201ccasa do povo\u201d cooperativa para a popula\u00e7\u00e3o como um todo. Reconhecia-se que a prosperidade dependia do crescimento, e que n\u00e3o havia alternativa imediata \u00e0 iniciativa privada. Nos idos de 1897, em meio a batalhas sindicais acaloradas, os socialistas suecos declararam que seu objetivo oficial seria \u201ca promo\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da cultura intelectual e material\u201d. A nacionaliza\u00e7\u00e3o, na \u00e9poca, era o meio pressuposto para tanto, mas o objetivo era mais aberto. Diferentemente do Partido Trabalhista de MacDonald, no entanto, eles n\u00e3o capitularam ao mercado tal como este se encontrava, mas fizeram uma tentativa radical de alterar a forma pela qual ele operava[9].<\/p>\n<p>O modelo sueco amadureceu depois da guerra. Durante o per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o do programa \u201cp\u00f3s-guerra\u201d de 1944 do SAP, o ministro das Finan\u00e7as Ernst Wigforss defendeu que o problema era a concentra\u00e7\u00e3o de poder econ\u00f4mico, e n\u00e3o necessariamente a propriedade privada em si. Tratava-se de mais um reconhecimento de que a principal quest\u00e3o da Su\u00e9cia era o subdesenvolvimento, e que era melhor para o movimento oper\u00e1rio dividir uma fatia de uma torta crescente com os capitalistas do que tentar capturar a totalidade de uma torta pequena.<\/p>\n<p>No entanto, o SAP n\u00e3o exclu\u00eda completamente a possibilidade de uma socializa\u00e7\u00e3o imediata caso esse mercado privado mais domesticado n\u00e3o se mostrasse compat\u00edvel com os valores e objetivos do partido. Os debates da \u00e9poca revelam um partido que ainda levava a s\u00e9rio seu compromisso com o socialismo. Ali\u00e1s, alguns socialistas compartilhavam da expectativa do ministro de Assuntos Sociais Gustav M\u00f6ller de que, com o fim da guerra, poderia haver uma onda de revolu\u00e7\u00f5es e um amadurecimento das condi\u00e7\u00f5es para um programa socialista mais tradicional.<\/p>\n<p>Com a triplica\u00e7\u00e3o do voto comunista, a ponto de representar 10% do eleitorado, a esquerda como um todo j\u00e1 compunha maioria absoluta nas elei\u00e7\u00f5es de 1944. E mesmo em um per\u00edodo marcado por controles emergenciais de sal\u00e1rio, pre\u00e7o e consumo, ainda havia certa m\u00edstica em torno da ideia da planifica\u00e7\u00e3o. Apesar das garantias emitidas por Wigforss de que o capital privado seguiria tendo um papel, o programa de 1944 defendia a tomada de ind\u00fastrias b\u00e1sicas e das finan\u00e7as pelo governo e previa uma responsabilidade abrangente, do Estado, de dar forma ao investimento e sustentar o pleno emprego. O economista e ministro do Com\u00e9rcio Gunnar Myrdal chegou a falar de uma \u201c\u00e9poca de colheita\u201d para o movimento oper\u00e1rio, na qual os trabalhadores colheriam os frutos do desenvolvimento econ\u00f4mico recente. Todavia, a pauta da nacionaliza\u00e7\u00e3o esbarrou em resist\u00eancia por parte de uma classe capitalista que tinha cacife para amea\u00e7ar reter investimento. Esse clima, combinado com o avan\u00e7o da Guerra Fria, fez que o SAP se conformasse a ponto de abrir m\u00e3o da alian\u00e7a com os comunistas em favor de uma nova coaliz\u00e3o com os agraristas[10].<\/p>\n<p>Com a marcha rumo ao socialismo interditada, o partido acabou adotando em 1951 um plano elaborado por uma dupla de economistas da LO, G\u00f6sta Rehn e Rudolf Meidner. Ambos compartilhavam da vontade do SAP de promover e influenciar a expans\u00e3o econ\u00f4mica, mas defendiam que isso fosse feito por meio de negocia\u00e7\u00f5es trabalhistas centralizadas em vez de por interven\u00e7\u00e3o estatal direta. O ponto de partida para a estrat\u00e9gia Rehn-Meidner era o compromisso de utilizar aquela negocia\u00e7\u00e3o setorial entre a LO e a SAF para ajudar a equalizar os n\u00edveis salariais de todos os trabalhadores. Isso n\u00e3o significava que todo mundo passaria a receber o mesmo, mas que haveria uma redu\u00e7\u00e3o do abismo salarial entre os trabalhadores mais bem pagos e os da base da pir\u00e2mide. O princ\u00edpio da \u201cremunera\u00e7\u00e3o igual para trabalhos iguais\u201d tamb\u00e9m significava que os sal\u00e1rios diferenciados deveriam ser determinados pelo tipo de trabalho realizado, e n\u00e3o pela capacidade de determinado empregador de pagar ou pelo poder do trabalhador em seu ch\u00e3o de f\u00e1brica[11].<\/p>\n<p>Havia tr\u00eas motivos por tr\u00e1s dessa pol\u00edtica. Primeiro, ela respondia a um compromisso ideol\u00f3gico de igualdade: ainda que os sal\u00e1rios n\u00e3o pudessem ser iguais, no m\u00ednimo devemos elevar a renda dos mais mal pagos e limitar as vantagens dos mais bem pagos. Segundo, a compress\u00e3o salarial era politicamente \u00fatil: ela reduzia as divis\u00f5es no interior da classe trabalhadora e promovia solidariedade entre trabalhadores de diferentes setores industriais. Terceiro, essa pol\u00edtica desempenhava um papel macroecon\u00f4mico importante no plano Rehn-Meidner.<\/p>\n<p>As demandas salariais seriam estipuladas de modo que as empresas situadas em determinado patamar de efici\u00eancia sobreviveriam, mas as empresas menos eficientes seriam obrigadas a se reestruturar radicalmente, ou ent\u00e3o declarar fal\u00eancia. As empresas mais produtivas, contudo, se beneficiariam da restri\u00e7\u00e3o salarial de seus trabalhadores e ficariam com um incremento de seus lucros. Esses lucros permitiriam que essas empresas expandissem sua capacidade produtiva, gerando assim mais riqueza. O sistema ajudava a estimular as ind\u00fastrias capital-intensivas e de sal\u00e1rios altos.<\/p>\n<p>Essas negocia\u00e7\u00f5es se davam diretamente entre trabalho e capital, mas o papel do Estado era crucial: \u201cpol\u00edticas ativas de mercado de trabalho\u201d ajudavam os trabalhadores anteriormente empregados em empresas menos produtivas a ser reabsorvidos pelos setores da economia que estavam em expans\u00e3o. A exist\u00eancia de garantias sociais \u2013 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, creches e assim por diante \u2013 significava que havia um setor estatal crescente para ajudar a garantir o pleno emprego. Era um programa de \u201csocialismo funcional\u201d, na medida em que explicitava certas prioridades socialistas, mas n\u00e3o buscava atingi-las via nacionaliza\u00e7\u00e3o, e sim por meio do manejo dos resultados do empreendimento capitalista. Tratava-se de um modelo, no entanto, com o qual os capitalistas s\u00f3 concordariam sob coa\u00e7\u00e3o. Nas palavras de Meidner, \u201ca ger\u00eancia prefere negocia\u00e7\u00f5es descentralizadas\u201d e \u201ca exist\u00eancia de diferenciais salariais como instrumentos de controle gerencial\u201d[12].<\/p>\n<p>Por mais que os capitalistas tenham se beneficiado em muitos aspectos do plano Rehn-Meidner, ele s\u00f3 se realizou porque um poderoso movimento de trabalhadores e um partido social-democrata for\u00e7ou sua implementa\u00e7\u00e3o. Ainda assim, era um \u201csocialismo\u201d administrado conjuntamente por uma poderosa federa\u00e7\u00e3o patronal, que estipulou limites claros a respeito de at\u00e9 onde os direitos de propriedade privada poderiam ser erodidos.<\/p>\n<p>Essa contradi\u00e7\u00e3o s\u00f3 viria \u00e0 tona mais tarde. A Su\u00e9cia gozou de um per\u00edodo de prosperidade no p\u00f3s-guerra. O pa\u00eds n\u00e3o havia sido devastado pela guerra, e a Europa em fase de reconstru\u00e7\u00e3o precisava das mat\u00e9rias-primas que ele exportava. O que era bom para a Volvo aparentemente tamb\u00e9m o era para a Su\u00e9cia. Durante o mandato de 23 anos do primeiro ministro Tage Erlander, as empresas tiveram lucros elevados e o esp\u00f3lio desse crescimento foi amplamente compartilhado.<\/p>\n<p>Observadores internacionais como Anthony Crosland extra\u00edram li\u00e7\u00f5es profundas do exemplo sueco. O parlamentar do Partido Trabalhista brit\u00e2nico acreditava que o socialismo era compat\u00edvel com a propriedade privada da ind\u00fastria. Seu livro de 1956,\u00a0<em>The Future of Socialism<\/em>, criticava o foco socialista tradicional nos meios \u2013 a prefer\u00eancia pelas nacionaliza\u00e7\u00f5es, por exemplo \u2013 em detrimento do objetivo final da igualdade social. \u201cO pior tipo de confus\u00e3o\u201d, escreveu, \u201c\u00e9 a tend\u00eancia de usar [o socialismo] para descrever n\u00e3o um certo tipo de sociedade, mas determinadas pol\u00edticas que s\u00e3o, ou que se pensa serem, meios de atingir esse tipo de sociedade.\u201d Foi a obra revisionista mais influente desde o\u00a0<em>Socialismo evolucion\u00e1rio<\/em>, de Eduard Bernstein, perfeita para uma era na qual o capitalismo parecia din\u00e2mico e quase n\u00e3o haver limites para reforma no interior dele. As inten\u00e7\u00f5es de Crosland eram expl\u00edcitas. A um amigo, chegou a dizer: \u201cestou trabalhando numa grande revis\u00e3o do marxismo e por certo devo surgir como o Bernstein moderno\u201d.<\/p>\n<p>Bernstein suspeitava do grau de maleabilidade do capitalismo, mas Crosland tinha provas. Apesar da Depress\u00e3o e da guerra das d\u00e9cadas de 1930 e 1940, o sistema n\u00e3o tinha colapsado, em vez disso estava se transformando. A qualidade de vida vinha melhorando, e o capital privado estava cada vez mais subordinado tanto ao Estado quanto ao trabalho. Foi o que se viu na Inglaterra de Clement Attlee, e ainda mais na Su\u00e9cia de Erlander. Taxar o crescimento capitalista e garantir a exist\u00eancia de gastos sociais, em vez de partir para a expropria\u00e7\u00e3o total, parecia ser o bastante. Indo mais longe que o pr\u00f3prio Bernstein, Crosland escreveu: \u201cMarx tem pouco ou quase nada a oferecer ao socialista contempor\u00e2neo, seja no que tange \u00e0 pol\u00edtica pr\u00e1tica, ou no que diz respeito \u00e0 an\u00e1lise correta de nossa sociedade, ou ainda no tocante \u00e0s ferramentas conceituais ou arcabou\u00e7o te\u00f3rico\u201d. Tr\u00eas anos depois da publica\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>The Future of Socialism<\/em>, at\u00e9 mesmo o vener\u00e1vel Partido Social-Democrata Alem\u00e3o abandonaria, em seu Programa de Godesberg, o conceito marxista da luta de classes. A reconcilia\u00e7\u00e3o com o capitalismo que a social-democracia havia muito vinha trilhando na pr\u00e1tica agora finalmente recebia sua formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica[13].<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>No entanto, quando Olof Palme assumiu como primeiro-ministro da Su\u00e9cia em 1969, o compromisso de classe que sustentava o sistema j\u00e1 estava come\u00e7ando a se desfazer. O fato de Palme ter ganho proemin\u00eancia n\u00e3o foi nenhuma surpresa: o que chamou aten\u00e7\u00e3o foi ele ter feito isso a partir de uma pol\u00edtica da classe trabalhadora. Ele nasceu em uma fam\u00edlia luterana aristocr\u00e1tica e passou boa parte de sua inf\u00e2ncia nas propriedades familiares acompanhado de tutores privados. Seus tios eram direitistas t\u00e3o hidr\u00f3fobos que chegaram a lutar na Guerra Civil Finlandesa como volunt\u00e1rios estrangeiros em apoio ao brutal Ex\u00e9rcito Branco. Um deles, a quem deve o nome, foi morto pelos Vermelhos na Batalha de Tampere em 1918.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que Palme sempre teve certos instintos igualit\u00e1rios. Depois de seu assassinato em 1986, um antigo empregado da fam\u00edlia recordou que ele era diferente de seus outros parentes, mesmo aos oito anos de idade, \u201csempre nos ajudando a tirar a lou\u00e7a e se dirigindo aos empregados em p\u00e9 de igualdade\u201d. Mas, do que sabemos de seu tempo na escola prim\u00e1ria e no Ex\u00e9rcito, Palme passava longe da pol\u00edtica e inclusive demonstrava certas tend\u00eancias conservadoras. Por mais improv\u00e1vel que possa parecer, foi no per\u00edodo que passou nos Estados Unidos que o socialismo o ganhou[14].<\/p>\n<p>Em 1947, Palme recebeu uma bolsa para estudar por um ano na Kenyon College, uma faculdade de artes liberais em Ohio, nos Estados Unidos. Logo se apaixonou pelo pa\u00eds, que naquele momento esbanjava a confian\u00e7a do p\u00f3s-guerra e um vibrante movimento sindical. Na sua \u00e9poca de aluno, Palme estudou com professores progressistas e participou de uma associa\u00e7\u00e3o socialista. Escreveu sua tese sobre a Trabalhadores Automotivos Unidos (United Auto Workers \u2013 UAW), chegando a conduzir uma pesquisa de campo na f\u00e1brica de rolamentos perto de Kenyon. Naquele ver\u00e3o, Palme tamb\u00e9m teve a oportunidade de conversar com o dirigente da UAW Walter Reuther, em Detroit, e se encantou com o que p\u00f4de ver do movimento social-democrata americano[15].<\/p>\n<p>Livre pela primeira vez da rigidez dos internatos e da disciplina do servi\u00e7o militar, Palme rodou os Estados Unidos intercalando caronas e viagens em \u00f4nibus interestaduais. Nesse per\u00edodo, foi descobrindo quanto o racismo permeava o tecido social nos Estados Unidos sob o sistema Jim Crow. Ele contou que, certa vez, viajava no fundo de um \u00f4nibus sentado ao lado de passageiros negros no Sul do pa\u00eds quando alguns homens brancos lhe pediram para passar para a frente. Ele se recusou e provavelmente s\u00f3 escapou de apanhar porque, como escreveu mais tarde em uma carta para sua fam\u00edlia, \u201cdevem ter pensado que eu era um estrangeiro maluco\u201d. Quando Palme retornou \u00e0 Su\u00e9cia, o jovem que pouco tempo antes pensava que a taxa tribut\u00e1ria precisava ser cortada pela metade agora escrevia artigos sobre o\u00a0<em>Manifesto comunista<\/em>[16].<\/p>\n<p>O rec\u00e9m-politizado Palme passou a se envolver no SAP e tornou-se diretor da uni\u00e3o dos estudantes suecos em 1952. Muitos repararam no seu carisma e na sua intelig\u00eancia, e ele logo se tornou assistente do primeiro-ministro Erlander. Seu papel na gest\u00e3o foi t\u00e3o vital que a m\u00eddia por vezes chegava a retratar Erlander como fantoche de Palme. Contudo, o prest\u00edgio e a aten\u00e7\u00e3o que ele foi ganhando n\u00e3o agradou a certos integrantes de sua fam\u00edlia. Sua av\u00f3, orgulhosa dos sacrif\u00edcios de seus filhos contra os \u201cb\u00e1rbaros finlandeses\u201d, lamentava que seu querido neto estivesse \u201ca servi\u00e7o de um partido empenhado em destruir nosso pa\u00eds\u201d[17].<\/p>\n<p>Quando se tornou primeiro-ministro aos 42 anos de idade, Palme esperava conseguir pegar o modelo constru\u00eddo sob Erlander e ampliar seu alcance. Suas ambi\u00e7\u00f5es ancoravam-se em suas pr\u00f3prias posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m refletiam uma press\u00e3o crescente da milit\u00e2ncia de base da LO e do SAP. O que se verificava era que, em vez de apaziguar as demandas democr\u00e1ticas, o saldo de d\u00e9cadas de Estado de bem-estar social forte foi estimular demandas democr\u00e1ticas ainda mais ambiciosas. No rescaldo de um rev\u00e9s do SAP nas elei\u00e7\u00f5es locais, uma conven\u00e7\u00e3o de 1967 empenhou o partido numa \u201cofensiva de pol\u00edtica industrial\u201d que remontava ao debate de planejamento econ\u00f4mico da d\u00e9cada de 1940. At\u00e9 ent\u00e3o, a social-democracia sueca havia feito pouco planejamento industrial direto, apoiando-se nas demandas dos sindicatos e nas interven\u00e7\u00f5es estatais que visavam moldar as for\u00e7as do mercado. Mas, agora, o governo criava um banco p\u00fablico de investimentos e ampliava as empresas estatais, bem como os mecanismos para coorden\u00e1-las. As mudan\u00e7as n\u00e3o eram necessariamente anticapitalistas: as empresas precisavam de m\u00e3o de obra e apoio estatal para se ajustar a um mercado mundial em transforma\u00e7\u00e3o. Mas, embora os capitalistas aceitassem uma pol\u00edtica industrial ativa, houve forte resist\u00eancia ao movimento de ampliar a democracia no local de trabalho[18].<\/p>\n<p>As lideran\u00e7as da LO precisaram lidar com uma onda de greves \u201cselvagens\u201d feitas \u00e0 margem da organiza\u00e7\u00e3o sindical e, em consequ\u00eancia, acabaram sendo levadas para mais \u00e0 esquerda no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970. A federa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a defender a extens\u00e3o das negocia\u00e7\u00f5es coletivas de modo a abarcar tamb\u00e9m quest\u00f5es n\u00e3o econ\u00f4micas. Os empregadores organizados na SAF rejeitaram qualquer reforma nesse sentido, ent\u00e3o o movimento dos trabalhadores (tanto a LO quanto as federa\u00e7\u00f5es de colarinho branco) recorreu ao trabalho parlamentar dos sociais-democratas para fazer avan\u00e7ar suas demandas. Com o respaldo do Partido Social-Democrata de Palme, os empregadores foram obrigados a negociar com os sindicatos em praticamente toda quest\u00e3o relativa ao local de trabalho. Os termos do Acordo B\u00e1sico de 1938 foram violados, e quem disparou os primeiros tiros foi o movimento dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a mais radical foi o endosso da LO em 1976 a um novo Plano Meidner, que propunha a cria\u00e7\u00e3o de fundos de participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria para empregados (l\u00f6ntagarfonder) que pertenceriam coletivamente aos trabalhadores. As d\u00e9cadas de restri\u00e7\u00f5es salariais nas empresas produtivas tinham reduzido as press\u00f5es inflacion\u00e1rias de modo a possibilitar um processo de expans\u00e3o. Mas essas pol\u00edticas tamb\u00e9m produziram \u201clucros excessivos\u201d \u2013 produto de negocia\u00e7\u00f5es centralizadas, n\u00e3o de fraqueza no ch\u00e3o de f\u00e1brica \u2013 que nem sempre acabavam sendo investidos de maneira produtiva. Muitos trabalhadores, especialmente aqueles que possu\u00edam qualifica\u00e7\u00f5es valiosas, sentiam que mereciam mais do que os aumentos salariais que vinham recebendo. Esses sentimentos s\u00f3 se intensificaram quando se percebeu que algumas das maiores empresas suecas estavam embolsando lucros extremamente altos, em larga medida por conta da disposi\u00e7\u00e3o, por parte do movimento dos trabalhadores, de restringir suas demandas. Um parlamentar comunista, C. H. Hermansson, afirmou que, mesmo depois de quinze anos de governo social-democrata ininterrupto, a maior parte da ind\u00fastria sueca estava nas m\u00e3os de apenas \u201cquinze fam\u00edlias\u201d. A proposta da LO, que n\u00e3o passou de antem\u00e3o pelo SAP, abordaria tanto os problemas ideol\u00f3gicos quanto os problemas pr\u00e1ticos do controle unilateral dos capitalistas sobre a riqueza socialmente produzida[19].<\/p>\n<p>A ideia de um fundo para empregados j\u00e1 havia sido aventada na Alemanha, na Holanda e na Dinamarca no p\u00f3s-guerra, mas o plano sueco era mais ambicioso. Um pequeno grupo de trabalho criado em 1973 passou dois anos formulando uma estrat\u00e9gia para manter a pol\u00edtica salarial solid\u00e1ria da na\u00e7\u00e3o. Acabaram apresentando um relat\u00f3rio que defendia uma forma de participa\u00e7\u00e3o nos lucros: empresas com mais de cinquenta empregados teriam que reservar 20% de seus lucros anuais para emitir cotas acion\u00e1rias a um fundo para empregados controlado pelos trabalhadores. A proposta foi recebida em um primeiro momento com indiferen\u00e7a por parte das lideran\u00e7as da LO, mas logo veio a ser considerada uma poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o para os problemas que o modelo sueco enfrentava. A resposta da milit\u00e2ncia sindical de base foi bem mais entusiasmada, particularmente por conta das implica\u00e7\u00f5es anticapitalistas do plano. No arco de algumas d\u00e9cadas, havia a perspectiva de os fundos (controlados por trabalhadores por meio de conselhos sindicais) disputarem a propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o com o capital privado. Como disse Meidner, em uma entrevista de 1975: \u201cN\u00e3o podemos transformar a sociedade fundamentalmente sem mudar sua estrutura de propriedade\u201d. Tratava-se de uma rejei\u00e7\u00e3o da esquerda ao \u201csocialismo funcional\u201d[20].<\/p>\n<p>Por sua vez, muitos trabalhadores que vinham exercendo poder pol\u00edtico indiretamente atrav\u00e9s do Partido Social-Democrata sentiam que dispunham das habilidades e da experi\u00eancia necess\u00e1ria para gerir seus pr\u00f3prios locais de trabalho sem fazer concess\u00f5es ao capital. A resolu\u00e7\u00e3o foi aprovada na conven\u00e7\u00e3o de 1976 e comemorada espontaneamente ao som da \u201cInternacional\u201d.<\/p>\n<p>O Comit\u00ea Meidner antecipava uma forte resist\u00eancia empresarial e refor\u00e7ou que os patr\u00f5es\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0estavam sendo expropriados. N\u00e3o estariam perdendo nenhuma riqueza existente; s\u00f3 teriam de abrir m\u00e3o de uma parte de seus futuros lucros. E j\u00e1 que essa parcela de lucro n\u00e3o seria taxada, era o pr\u00f3prio Estado que estaria subsidiando os fundos. O plano podia ainda promover mais restri\u00e7\u00f5es salariais e atenuar os atritos entre os trabalhadores e a ger\u00eancia. No entanto, depois de alguma considera\u00e7\u00e3o, os l\u00edderes empresariais enxergaram o plano pelo que ele realmente era: uma amea\u00e7a \u00e0 sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Enquanto isso, Palme continuava tocando seu projeto mais amplo no curso de seus primeiros sete anos de gest\u00e3o. Gostava de usar poesia para descrever o que a social-democracia visava realizar, um mundo que reconhe\u00e7a que \u201co homem, n\u00e3o a Lua, \u00e9 a medida de tudo. O que estamos construindo juntos \u00e9 uma cidade aberta, sem muros, com sua luz projetando-se contra a solid\u00e3o do espa\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Para as mulheres suecas em particular, a social-democracia representou um enorme progresso naquele que havia sido considerado o pa\u00eds mais patriarcal da Escandin\u00e1via. Historicamente, os socialistas tinham se sa\u00eddo muito melhor na quest\u00e3o da igualdade social do que seus rivais, visto que a maioria concordava com August Bebel de que n\u00e3o poderia haver sociedade justa sem \u201cigualdade entre os sexos\u201d.<\/p>\n<p>Mas, radicais como Alexandra Kollontai e Vlad\u00edmir L\u00eanin, que reconheciam a \u201cdupla opress\u00e3o\u201d que as mulheres enfrentavam, tanto do capital quanto do sexismo, avaliavam que havia pouca margem de manobra para reforma no interior dos marcos do capitalismo (no in\u00edcio dos anos 1900, Kollontai chegou a rejeitar o movimento feminista em si como \u201cveneno\u201d). Os socialistas, em geral, eram a favor do sufr\u00e1gio universal, do pleno emprego e de outros direitos civis, mas eram menos proativos quando se tratava de outras lutas e suspeitavam das causas feministas interclassistas.<\/p>\n<p>O exemplo da Su\u00e9cia mostrava quanto a opress\u00e3o sexual podia ser reduzida no interior do capitalismo. Sal\u00e1rio-fam\u00edlia, licen\u00e7a familiar, creches e mesmo o fornecimento de refei\u00e7\u00f5es escolares, tudo isso aliviava o fardo depositado sobre as mulheres. Al\u00e9m dessas medidas, a pol\u00edtica de \u201cremunera\u00e7\u00e3o igual para trabalhos iguais\u201d e as negocia\u00e7\u00f5es trabalhistas que favoreciam mais os setores com os menores sal\u00e1rios tamb\u00e9m ajudaram as mulheres. Ainda assim, em 1966, dois ter\u00e7os das mulheres suecas ainda ficavam em casa. Um panfleto popular de 1961 apontava que, naquela \u00e9poca, as mulheres tinham o direito de competir com os homens no mercado de trabalho, mas ainda eram encarregadas dos deveres dom\u00e9sticos, o que na pr\u00e1tica inviabilizava fazer qualquer um dos dois plenamente[21].<\/p>\n<p>Em meio ao debate acerca dessa quest\u00e3o, o Estado tomou provid\u00eancias para facilitar a participa\u00e7\u00e3o feminina na for\u00e7a de trabalho. Foi criado um conselho consultivo sobre igualdade sexual que passou a trabalhar diretamente com o gabinete do primeiro-ministro com o objetivo de elaborar pol\u00edticas que incentivassem o \u201clivre desenvolvimento\u201d para as mulheres e questionassem os pap\u00e9is tradicionais de g\u00eanero. Palme se comprometeu seriamente com esse esfor\u00e7o, chegando a afirmar, num artigo cuidadosamente escrito intitulado \u201cA emancipa\u00e7\u00e3o do homem\u201d, que a luta das mulheres por igualdade significava enfrentar a \u201cpress\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es milenares\u201d.<\/p>\n<p>As mulheres suecas finalmente conquistaram o direito ao aborto em 1974. Naquele ano,\u00a0<em>80%\u00a0<\/em>das mulheres no pa\u00eds j\u00e1 se encontravam em empregos remunerados, a taxa mais alta do mundo. Junto com a transforma\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica mais ampla em curso, a sociedade sueca havia passado por uma verdadeira reviravolta: o tradicionalismo diminu\u00eda, o secularismo crescia e novas formas de libera\u00e7\u00e3o sexual floresciam. O que certa vez havia sido uma na\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica, uma cultura ainda saudosa pelas gl\u00f3rias imperiais do passado, podia agora se orgulhar de ser uma democracia comprometida com a igualdade dentro de suas fronteiras e com as lutas anticoloniais no exterior[22].<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Na altura das elei\u00e7\u00f5es gerais de 1976, os sociais-democratas j\u00e1 estavam no poder por 44 anos, um per\u00edodo maior do que a idade de boa parte dos suecos. Eles haviam enfrentado um baque em 1973, e na sequ\u00eancia, em 1976, o bloco socialista perdeu maioria. A causa imediata da derrota eleitoral pode ter sido um debate a respeito da energia nuclear. Os sociais-democratas eram a favor, mas o Partido de Centro, que inclu\u00edra em seu programa a pol\u00edtica verde, era contra.<\/p>\n<p>O desafio mais amplo vinha do dilema estrutural da social-democracia. Por mais criativa que fosse, a social-democracia ainda dependia dos lucros do setor privado e do c\u00e1lculo, feito pelos empres\u00e1rios, de que manter a paz com um poderoso movimento trabalhista valia a pena. \u00c9 certo que os patr\u00f5es puderam aproveitar um per\u00edodo de estabilidade: de 1938 at\u00e9 o in\u00edcio da onda de greves \u201cselvagens\u201d em 1969, a Su\u00e9cia registrava os \u00edndices grevistas mais baixos da Europa. Mas o descontentamento pol\u00edtico e o fim do boom econ\u00f4mico do p\u00f3s-guerra indicavam que a tr\u00e9gua n\u00e3o podia durar para sempre. A esquerda, como vimos, come\u00e7ou a romper com alguns pontos do Acordo B\u00e1sico de 1938. Em algumas inst\u00e2ncias tratava-se de atos ideol\u00f3gicos, como no caso do questionamento de prerrogativas das ger\u00eancias e a press\u00e3o por democracia industrial. Em outras, como no caso do fundo de participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria para empregados, misturavam-se imperativos pr\u00e1ticos e ideol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>A federa\u00e7\u00e3o patronal, por sua vez, tamb\u00e9m se radicalizou. Pela primeira vez em d\u00e9cadas, a SAF lan\u00e7ou uma campanha midi\u00e1tica contra os pilares de sustenta\u00e7\u00e3o da social-democracia. Atacava o Plano Meidner, retratando-o como uma tentativa da burocracia sindical para concentrar o poder em suas m\u00e3os. A milit\u00e2ncia de base da LO ainda defendia o plano, mas o SAP nunca havia se comprometido para valer com ele. O mesmo pode ser dito dos eleitores de colarinho branco da esquerda. As acusa\u00e7\u00f5es colaram e, em outubro de 1981, 50 mil pessoas foram \u00e0s ruas contra o Plano Meidner.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os empregadores come\u00e7aram a resistir a demandas at\u00e9 mesmo moderadas por aumentos salariais. A amea\u00e7a de desemprego e infla\u00e7\u00e3o crescia em meio a um cen\u00e1rio marcado por desdobramentos como a crise mundial de petr\u00f3leo de 1973 e mudan\u00e7as econ\u00f4micas mais amplas que resultaram na internacionaliza\u00e7\u00e3o da economia sueca. Ainda respons\u00e1vel por absorver as perdas nos postos de emprego do setor privado e manter um amplo conjunto de garantias de bem-estar social, o Estado passou a crescer rapidamente, a ponto de as despesas p\u00fablicas chegarem a representar quase 70% do PIB.<\/p>\n<p>A social-democracia sempre dependeu da expans\u00e3o econ\u00f4mica, que acudia tanto a classe trabalhadora quanto o capital. Quando o crescimento come\u00e7ou a minguar e as demandas dos trabalhadores passaram a avan\u00e7ar mais sobre os lucros das empresas, os empres\u00e1rios se rebelaram contra o compromisso de classe.<\/p>\n<p>O neoliberalismo \u2013 um conjunto de pol\u00edticas que visavam usar o poder estatal para restaurar os lucros dos empreendedores atrav\u00e9s da redu\u00e7\u00e3o das regula\u00e7\u00f5es e do enfrentamento com os sindicatos \u2013 foi uma forma de resolver a crise dos anos 1970. Lutar para arrancar do capital o controle dos investimentos era outra. Mas os sociais-democratas n\u00e3o estavam preparados para essa escolha. Pensando terem abolido o ciclo empresarial por meio da interven\u00e7\u00e3o estatal, esqueceram-se de um princ\u00edpio fundamental do marxismo: as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo, e sua tend\u00eancia a produzir crises, n\u00e3o podem ser resolvidas no interior do sistema.<\/p>\n<p>Talvez as coisas tivessem ocorrido de maneira diferente se Palme e seu partido tivessem apoiado o Plano Meidner para valer na d\u00e9cada de 1970. No entanto, eles se depararam com outro grande dilema da social-democracia: as lideran\u00e7as social-democratas precisam ganhar elei\u00e7\u00f5es e construir institui\u00e7\u00f5es est\u00e1veis. N\u00e3o queriam necessariamente uma mobiliza\u00e7\u00e3o de classe trabalhadora para al\u00e9m das urnas eleitorais. Para poder manter uma estabilidade eleitoral e preservar sua capacidade de mediar capital e trabalho e implementar reformas, os sociais-democratas se esquivaram de solu\u00e7\u00f5es de esquerda para a crise. Ao assim proceder, acabaram ironicamente minando sua pr\u00f3pria base eleitoral, a verdadeira fonte de seu poder[23].<\/p>\n<p>Apesar do rev\u00e9s do SAP em 1976, o fundamental da social-democracia permaneceu inconteste por mais tempo na Su\u00e9cia do que em qualquer outro pa\u00eds europeu. Na d\u00e9cada de 1980, no entanto, as pol\u00edticas e pr\u00e1ticas de negocia\u00e7\u00e3o centralizada come\u00e7aram a ruir, e o Plano Meidner foi sendo dilu\u00eddo e enfraquecido a ponto de tornar-se insignificante. As pol\u00edticas de pleno emprego foram abandonadas por um governo social-democrata durante a crise financeira de 1990. Embora a Su\u00e9cia ainda possua indicadores sociais melhores do que os de qualquer outra na\u00e7\u00e3o, seu Estado de bem-estar social foi transformado por meio de reformas que privatizaram aspectos-chave da provis\u00e3o de servi\u00e7os. O ingresso na Uni\u00e3o Europeia em 1995 erodiu ainda mais o que restava do modelo sueco.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Embora outras experi\u00eancias social-democratas fracassassem, a esquerda n\u00e3o estava em plena retirada em toda parte. Na Fran\u00e7a, 43 anos depois de L\u00e9on Blum ter deixado o poder, o governo socialista de Fran\u00e7ois Mitterrand, nos anos 1980, foi uma tentativa de se contrapor ao decl\u00ednio da chama. Seu programa foi o mais radical j\u00e1 promovido por um partido no poder em d\u00e9cadas. \u201cVoc\u00ea pode ser um gestor de uma sociedade capitalista ou um fundador de uma sociedade socialista\u201d, diria Mitterrand. \u201cNo que depender de n\u00f3s, queremos ser o segundo.\u201d[24]<\/p>\n<p>Quando Mitterrand assumiu o poder em 1981, com apoio dos comunistas, a Fran\u00e7a j\u00e1 enfrentava \u00edndices crescentes de desemprego e estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, e um clima internacional desfavor\u00e1vel para os neg\u00f3cios. Apesar de sua ret\u00f3rica, o programa imediato de Mitterrand era radicalmente keynesiano. Suas \u201c110 proposi\u00e7\u00f5es para a Fran\u00e7a\u201d propunham um programa de obras p\u00fablicas e a constru\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00f5es populares, creches, pr\u00e9-escolas e instala\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. As vit\u00f3rias legislativas iniciais do governo ampliaram os direitos sindicais no ch\u00e3o de f\u00e1brica e avan\u00e7aram medidas de codetermina\u00e7\u00e3o. Houve aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo e das pens\u00f5es, e a jornada de trabalho foi reduzida a 34 horas semanais. Em 1982, uma lei de nacionaliza\u00e7\u00e3o colocou sob controle estatal 5 grupos industriais, quase 40 bancos, 2 metal\u00fargicas e boa parte das ind\u00fastrias armamentistas e aeroespaciais. Essas estatiza\u00e7\u00f5es, tachadas de bolchevismo na imprensa empresarial, n\u00e3o foram feitas por princ\u00edpios ideol\u00f3gicos, mas sim para ajudar a manter o emprego e conduzir a reestrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Ainda assim, a resist\u00eancia no setor empresarial foi sem precedentes e houve uma fuga de capitais, com 5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares sendo retirados do pa\u00eds. Poucos anos depois de ter anunciado suas credenciais revolucion\u00e1rias, Mitterrand suplicava \u00e0s lideran\u00e7as empresariais francesas: \u201cEssa ser\u00e1 uma das formas de acabar com a luta de classes. Queremos desenvolver uma economia mista, n\u00e3o somos revolucion\u00e1rios marxista-leninistas\u201d. Talvez ainda se lembrasse do que havia dito a um de seus assessores poucos meses antes desse epis\u00f3dio: \u201cNa economia, h\u00e1 duas solu\u00e7\u00f5es: ou se \u00e9 leninista, ou n\u00e3o se mudar\u00e1 nada\u201d[25].<\/p>\n<p>O programa de Mitterrand de fato deflagrou uma onda de apoio popular, mas ele foi incapaz de mobilizar essa energia ou de lidar na pr\u00e1tica com a resist\u00eancia patronal. Tamb\u00e9m contribu\u00edram para sua escolha de recuar, as restri\u00e7\u00f5es impostas pelo Sistema Monet\u00e1rio Europeu que vinculavam o franco ao deutschmark, evitando a desvaloriza\u00e7\u00e3o (hoje, a flexibilidade monet\u00e1ria permitida pela eurozona \u00e9 ainda menor). As bravas \u201c110 proposi\u00e7\u00f5es\u201d n\u00e3o resistiram \u00e0 rea\u00e7\u00e3o das elites dom\u00e9sticas e do mercado internacional. Os socialistas franceses foram for\u00e7ados a dar um cavalo de pau brusco que implicou n\u00e3o apenas interromper sua marcha para a frente como efetivamente abra\u00e7ar a pol\u00edtica da austeridade.<\/p>\n<p>Olof Palme n\u00e3o chegou a viver para ver um recuo desses em seu pa\u00eds. Mas, alguns anos depois de seu assassinato em 1986, tanto o socialismo de Estado quanto a social-democracia eram amplamente dados por mortos no mundo todo. Os sociais-democratas ainda ocupavam governos em muitos lugares. Desde meados do s\u00e9culo, eles haviam aberto m\u00e3o da ambi\u00e7\u00e3o de construir uma ordem para al\u00e9m do capitalismo, optando por administrar doses de socialismo no seu interior. Agora terminavam, assim como no per\u00edodo do entreguerras, trilhando o caminho dos governos de Ramsay MacDonald e, no m\u00e1ximo, combinando medidas redistributivas com ortodoxia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Tony Blair na Inglaterra, Gerhard Schr\u00f6der na Alemanha e seus correlatos estadunidenses, incluindo Bill Clinton e outros no Conselho de Lideran\u00e7a Democrata (Democratic Leadership Council \u2013 DLC), ajudaram a formular o recuo social-democrata em uma nova ideologia. A rec\u00e9m-batizada Terceira Via prometia \u201coportunidade, n\u00e3o governo\u201d, e \u201cuma pol\u00edtica de inclus\u00e3o\u201d, n\u00e3o um Estado de bem-estar social. Os sociais-democratas, que certa vez haviam defendido uma via intermedi\u00e1ria entre o comunismo e o capitalismo, lamentou o l\u00edder socialista franc\u00eas Lionel Jospin, agora propunham um meio-termo entre a social-democracia e o neoliberalismo. Os par\u00e2metros do espectro tinham sido deslocados \u00e0 direita. Como parte dessa mudan\u00e7a, os partidos trabalhistas hist\u00f3ricos foram transformados em partidos social-liberais e passaram a se dirigir mais a profissionais de classe m\u00e9dia do que \u00e0s suas pr\u00f3prias bases, h\u00e1 muito negligenciadas, na classe trabalhadora[26].<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>As passagens mais marcantes de\u00a0<em>The Future of Socialism<\/em>, de Anthony Crosland, talvez sejam suas demandas por \u201cn\u00e3o apenas maiores \u00edndices de exporta\u00e7\u00f5es e pens\u00f5es, mas mais caf\u00e9s a c\u00e9u aberto, ruas mais vivas e alegres \u00e0 noite\u2026 restaurantes mais limpos e animados, mais caf\u00e9s na margem de rios, mais parques p\u00fablicos como o Battersea\u201d. O modelo de Estado de bem-estar social n\u00e3o deveria ser o ponto de chegada das ambi\u00e7\u00f5es humanas. Mas aqueles que abra\u00e7aram o legado moderado de Crosland na tentativa de modernizar seus velhos partidos se provaram mais capazes de realizar seus sonhos de renova\u00e7\u00e3o urbana verde do que os de igualdade social.<\/p>\n<p>Isso significa que as d\u00e9cadas de esfor\u00e7o para construir a social-democracia foram em v\u00e3o? Podemos lembrar a compara\u00e7\u00e3o feita por Rosa Luxemburgo entre o reformismo e o \u201ctrabalho de S\u00edsifo\u201d, o gigante da mitologia grega fadado a eternamente arrastar uma rocha at\u00e9 o cume de uma montanha apenas para v\u00ea-la rolar novamente ladeira abaixo antes de se firmar no topo. Nas sociedades socialistas avan\u00e7adas, moldadas por sociais-democratas, conquistas-chave da classe trabalhadora se mostraram duradouras e as pessoas ainda gozam de prote\u00e7\u00e3o contra as formas mais extremas de pobreza e inseguran\u00e7a. A democracia evita que o capitalismo retorne a seu ponto mais baixo de \u201cguerra contra todos\u201d. Mas, para aqueles que ainda aspiram a uma era de abund\u00e2ncia e solidariedade, n\u00e3o basta defender conquistas existentes ou negociar os termos da derrota.<\/p>\n<p>Como veremos, o surgimento do movimento em torno do l\u00edder do Partido Trabalhista brit\u00e2nico Jeremy Corbyn e, em menor grau, em torno da figura de Bernie Sanders nos Estados Unidos representa uma surpreendente contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 Terceira Via. O que torna Corbyn, em particular, t\u00e3o not\u00e1vel, \u00e9 que ele n\u00e3o oferece simplesmente um retorno \u00e0 pol\u00edtica do trabalhismo brit\u00e2nico do s\u00e9culo XX, mas defende, em vez disso, uma \u201cnova social-democracia da luta de classes\u201d, na qual a conven\u00e7\u00e3o do partido, a reuni\u00e3o sindical e o com\u00edcio eleitoral est\u00e3o longe de ser os \u00fanicos lugares aceit\u00e1veis para se fazer pol\u00edtica. No entanto, ainda que a abordagem mais combativa de Corbyn e Sanders tenha \u00eaxito eleitoral, a nova social-democracia vai se deparar com os mesmos empecilhos estruturais que a anterior, a saber: sua depend\u00eancia da lucratividade do capital e as tend\u00eancias inflacion\u00e1rias que decorrem da exist\u00eancia de locais de trabalho empoderados e pol\u00edticas de pleno emprego. A resolu\u00e7\u00e3o dessas quest\u00f5es nos colocar\u00e1 diante de dois poss\u00edveis caminhos, embora diferentes daqueles sugeridos por Palme: retornar \u00e0 ortodoxia econ\u00f4mica ou seguir rumo a uma tradi\u00e7\u00e3o socialista mais radical, democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Os sujeitos deste e dos tr\u00eas cap\u00edtulos anteriores foram necessariamente a Europa ocidental e a R\u00fassia, na medida em que o acidente hist\u00f3rico que \u00e9 o capitalismo, junto com sua contraparte socialista, surgiu primeiro na Europa e s\u00f3 depois se disseminou para o resto do mundo. No entanto, o \u00edmpeto do capital \u00e9 global, e a resist\u00eancia que ele enseja tamb\u00e9m o \u00e9. Por isso, agora nos voltamos ao Terceiro Mundo, onde os socialistas estiveram na linha de frente das lutas contra a opress\u00e3o colonial e em prol do desenvolvimento nacional.<\/p>\n<hr \/>\n<p>1 Adam Przeworski, Capitalism and Social Democracy (Cambridge, Cambridge University Press, 1985), p. 46; Kjell \u00d6stberg, \u201cThe Great Reformer\u201d, Jacobin, 10 set. 2015.<\/p>\n<p>2 Karl Kautsky, \u201cRevolution and Counter-Revolution in Germany\u201d, Socialist Review, v. 23, n. 127, abr. 1924.<\/p>\n<p>3 Mitchell Abidor, \u201cAssessing L\u00e9on Blum\u201d, Jacobin, 26 set. 2016; dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.jacobinmag.com\/2016\/09\/leon-blum-popular-front-france-socialists-ps-fascism\">https:\/\/www.jacobinmag.com\/2016\/09\/leon-blum-popular-front-france-socialists-ps-fascism<\/a>&gt;.<\/p>\n<p>4 Karl Kautsky, The Labour Revolution (Londres, Ruskin House, 1924), p. 163.<\/p>\n<p>5 Chris Wrigley, \u201cThe Fall of the Second MacDonald Government, 1931\u201d, em Timothy Heppell e Kevin Theakston (orgs.), How Labour Governments Fall: From Ramsay MacDonald to Gordon Brown(Londres, Palgrave Macmillan, 2013), p. 54.<\/p>\n<p>6 \u201cThe Great Fiasco: Contemptible \u2018Labour\u2019 Government\u201d, Socialist Standard, n. 325, set. 1931.<\/p>\n<p>7 Donald Sassoon, One Hundred Years of Socialism: The West European Left in the Twentieth Century(Nova York, New Press, 1996), p. 55.<\/p>\n<p>8 Pelle Neroth, The Life and Death of Olof Palme: A Biography (publica\u00e7\u00e3o independente, 2017), p. 19.<\/p>\n<p>9 Tim Tilton, The Political Theory of Swedish Social Democracy: Through the Welfare State to Socialism (Oxford, Oxford University Press, 1992), p. 31.<\/p>\n<p>10 Ibidem, p. 194; David Zachariah e Petter Nilsson, \u201cWaiting in the Wings\u201d, em Catarina Principe e Bhaskar Sunkara (orgs.), Europe in Revolt (Londres, Haymarket, 2016).<\/p>\n<p>11 Ver Jonas Pontusson, The Limits of Social Democracy: Investment Politics in Sweden (Ithaca, NY, Cornell University Press, 1992).<\/p>\n<p>12 Rudolf Meidner, \u201cWhy Did the Swedish Model Fail?\u201d, Socialist Register, 1993, p. 222.<\/p>\n<p>13 Anthony Crosland, The Future of Socialism (Nova York, Macmillan, 1957), p. 20.<\/p>\n<p>14 Pelle Neroth, The Life and Death of Olof Palme, cit., p. 17.<\/p>\n<p>15 Ibidem, p. 35.<\/p>\n<p>16 Ibidem, p. 40.<\/p>\n<p>17 Ibidem, p. 42.<\/p>\n<p>18 Jonas Pontusson, \u201cRadicalization and Retreat in Swedish Social Democracy\u201d, New Left Review, v. 165, set.\/out. 1987, p. 11.<\/p>\n<p>19 Peter Gowan e Mio Tastas Viktorsson, \u201cRevisiting the Meidner Plan\u201d, Jacobin, 22 ago. 2017; dispo-n\u00edvel em: &lt;jacobinmag.com\/2017\/08\/sweden-social-democracy-meidner-plan-capital&gt;.<\/p>\n<p>20 Rudolf Meidner, \u201cWhy Did the Swedish Model Fail?\u201d, Socialist Register, 1993, p. 224; Jonas Pontus-son, \u201cRadicalization and Retreat in Swedish Social Democracy\u201d, New Left Review, v. 165, set.\/out. 1987, p. 14.<\/p>\n<p>21 Eva Mobert, Kvinnor och m\u00e4nniskor [Mulheres e pessoas] (Estocolmo, Bonnier, 1962).<\/p>\n<p>22 Joyce Gelb, \u201cSweden: Feminism without Feminists?\u201d, em Feminism and Politics: A Comparative Per-spective, cap. 5 (Berkeley, University of California Press, 1989).<\/p>\n<p>23 Adam Przeworski, \u201cSocial Democracy as a Historical Phenomenon\u201d, New Left Review, v.1, n. 122, jul.\/ago. 1980.<\/p>\n<p>24 Jonah Birch, \u201cThe Many Lives of Fran\u00e7ois Mitterrand\u201d, Jacobin, 19 ago. 2015; dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.jacobinmag.com\/2015\/08\/francois-mitterrand-socialist-party-common-program-communist-pcf-1981-elections-austerity\/&gt;.<\/p>\n<p>25 Idem.<\/p>\n<p>26 Curtis Atkins, \u201cThe Third Way International\u201d, Jacobin, inverno 2016.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/estadoemdisputa\/pos-capitalismo-o-intrigante-aporte-sueco\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bhaskar Sunkara &#8211;\u00a0O texto abaixo \u00e9 um cap\u00edtulo do livro\u00a0O Manifesto Socialista: Em defesa da pol\u00edtica radical numa era de extrema desigualdade, de\u00a0Bhaskar Sunkara, rec\u00e9m-lan\u00e7ado pela\u00a0Boitempo Editorial, parceira de\u00a0Outras Palavras. 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