{"id":14985,"date":"2021-04-01T12:12:21","date_gmt":"2021-04-01T15:12:21","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14985"},"modified":"2021-03-30T15:15:09","modified_gmt":"2021-03-30T18:15:09","slug":"a-beleza-publica-que-a-comuna-inventou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/04\/01\/a-beleza-publica-que-a-comuna-inventou\/","title":{"rendered":"A beleza p\u00fablica que a Comuna inventou"},"content":{"rendered":"<p><strong>Kristin Ross<\/strong> &#8211; <strong>A Comuna de Paris vem sendo estudada e discutida h\u00e1 quase um s\u00e9culo e meio. De que forma o seu livro contribui para a nossa compreens\u00e3o deste evento hist\u00f3rico mundial, e por que voc\u00ea decidiu escrev\u00ea-lo agora?<\/strong><\/p>\n<p>Kristin Como muitas pessoas depois de 2011, fiquei impressionada com a volta \u2014 de Oakland a Istambul, ou de Montreal a Madri \u2014 de uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica baseada em aproveitar os espa\u00e7os, em ocup\u00e1-los, tornar p\u00fablicos lugares que o Estado considerava privados. Militantes do mundo inteiro haviam resgatado, e estavam vivendo no espa\u00e7o-tempo da ocupa\u00e7\u00e3o, com todas as mudan\u00e7as fundamentais que isso implica na vida cotidiana. Eles viveram a experi\u00eancia de ter seus pr\u00f3prios bairros transformados em teatros de opera\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas, e passaram por uma profunda modifica\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o afetiva com o espa\u00e7o urbano<\/p>\n<p>Meus livros s\u00e3o sempre interven\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. Os acontecimentos contempor\u00e2neos me levaram a uma nova reflex\u00e3o sobre a Comuna de Paris, que para muitos continua sendo uma esp\u00e9cie de paradigma de cidade insurgente. Decidi recontar o que aconteceu em Paris na primavera de 1871, quando artes\u00e3os e comunistas, trabalhadores e anarquistas tomaram a cidade e organizaram suas vidas de acordo com princ\u00edpios de associa\u00e7\u00e3o e federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora muito tenha se escrito sobre as manobras militares e disputas legislativas dos\u00a0<em>communards<\/em>, eu queria revisitar as inven\u00e7\u00f5es dos insurgentes, de tal forma que alguns dos problemas e objetivos mais urgentes da atualidade pudessem emergir de maneira mais v\u00edvida. A necessidade, por exemplo, de remodelar uma conjuntura internacionalista, ou a situa\u00e7\u00e3o da arte e dos artistas, o futuro do trabalho e da educa\u00e7\u00e3o, a forma comunal e sua rela\u00e7\u00e3o com a teoria e a pr\u00e1tica ecol\u00f3gicas: essas eram minhas preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Comuna de Paris sempre foi uma refer\u00eancia muito importante para a esquerda, mas agora a novidade \u00e9, em parte, todo o contexto pol\u00edtico p\u00f3s-1989 e o colapso do \u201csocialismo real\u201d \u2014 que levou para o t\u00famulo todo um imagin\u00e1rio pol\u00edtico. Em meu livro, a Comuna de Paris ressurge livre dessa historiografia e oferece uma alternativa clara ao centralismo do<br \/>\nEstado socialista. Ao mesmo tempo, a meu ver, a Comuna nunca se encaixou facilmente no papel que a hist\u00f3ria nacional francesa tenta lhe atribuir, querendo fazer com que ela desempenhe uma esp\u00e9cie de sequ\u00eancia radical ao estabelecimento da Rep\u00fablica. Ao libertar a Comuna das duas hist\u00f3rias que a instrumentalizam, tive certeza de que poder\u00edamos perceb\u00ea-la novamente como um laborat\u00f3rio de inven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><em>Luxo Comunal<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria sobre a Comuna de Paris, nem um trabalho de teoria pol\u00edtica no sentido comum do termo. Historiadores e cientistas pol\u00edticos s\u00e3o respons\u00e1veis pela maior parte da vasta literatura gerada sobre a Comuna e, no caso destes \u00faltimos \u2014 sejam eles comunistas, anarquistas ou fil\u00f3sofos como Alain Badiou \u2014 isso significa abordar o evento da perspectiva de um teoria formulada. As a\u00e7\u00f5es dos\u00a0<em>communards<\/em>\u00a0tornam-se dados emp\u00edricos organizados com o fim de respaldar a teoria apresentada, como se o mundo material fosse uma esp\u00e9cie de manifesta\u00e7\u00e3o local do abstrato, e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para mim, isso equivale a convocar os pobres\u00a0<em>communards<\/em>\u00a0desde seus t\u00famulos, s\u00f3 para dar certa import\u00e2ncia e peso a uma teoria filos\u00f3fica. Em vez disso, o que fiz foi mergulhar por v\u00e1rios anos nas narrativas produzidas pelos pr\u00f3prios<em>\u00a0comunnards<\/em>\u00a0e por alguns de seus companheiros de viagem da \u00e9poca. Observei com aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 o que fizeram, mas o que pensavam e diziam sobre o que estavam fazendo, as palavras que usaram, batalharam, importaram do passado ou de regi\u00f5es distantes, e as palavras que descartaram.<\/p>\n<p>Essas narrativas sobre sua luta \u2014 e temos sorte de tantos\u00a0<em>comunnards<\/em>\u00a0letrados terem optado por escrever alguma coisa a respeito de suas experi\u00eancias \u2014 j\u00e1 s\u00e3o documentos altamente te\u00f3ricos. Mas eles tendem a n\u00e3o ser vistos assim pelos te\u00f3ricos pol\u00edticos. \u00c9 por isso que fiz t\u00e3o pouco uso da teoria pol\u00edtica existente sobre a Comuna e por que, no final, considero os te\u00f3ricos pol\u00edticos a ru\u00edna de nossa exist\u00eancia, na medida em que abordam inst\u00e2ncias de insurrei\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da perspectiva de uma vis\u00e3o abrangente que tenta unific\u00e1-las sob um \u00fanico conceito, teoria ou narrativa de progress\u00e3o hist\u00f3rica. N\u00e3o acho sensato considerar os acontecimentos hist\u00f3ricos desde uma perspectiva onisciente, nem do ponto de vista proporcionado pelo nosso presente, farto e complacente com toda sua sabedoria de \u201cmotorista de banco traseiro\u201d, corrigindo os erros do passado.<\/p>\n<p>Eu ignorei todos os in\u00fameros coment\u00e1rios e an\u00e1lises da Comuna, muitos dos quais \u2014 inclusive aqueles escritos por pessoas simp\u00e1ticas \u00e0 mem\u00f3ria do movimento \u2014 consistem apenas em tentar adivinhar ou listar seus erros. Tive que realizar uma grande limpeza do terreno a fim de construir a fenomenologia distinta do evento e visualiz\u00e1-lo fora das m\u00faltiplas proje\u00e7\u00f5es colocadas nele pelos historiadores. \u00c9 o acontecimento e seus excessos que nos ensinam como consider\u00e1-lo, como pensar e como falar sobre ele.<\/p>\n<p>E uma vez que voc\u00ea presta esse tipo de aten\u00e7\u00e3o aos trabalhadores como pensadores \u2014 uma aten\u00e7\u00e3o que aprendi quando encontrei e traduzi alguns dos primeiros trabalhos de Jacques Ranci\u00e8re \u2014 voc\u00ea n\u00e3o consegue mais voltar a contar a hist\u00f3ria do jeito antigo. Do jeito, por exemplo, que foi contada pelas duas tradi\u00e7\u00f5es que controlaram sua narrativa por tanto tempo: de um lado, a da historiografia oficial comunista; e do outro, a da fic\u00e7\u00e3o nacional francesa. Voc\u00ea precisa reformular e reconfigurar essas experi\u00eancias passadas para torn\u00e1-las significativas em seus pr\u00f3prios termos e torn\u00e1-las vis\u00edveis para n\u00f3s agora, no presente.<\/p>\n<p>Ao focar nas palavras e na a\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos concretos, que agiam em conjunto para desmantelar, pouco a pouco e passo a passo, as hierarquias sociais que constituem a burocracia de um Estado, tentei pensar a Comuna historicamente \u2014 como pertencente ao passado, como morta e enterrada \u2014 e, ao mesmo tempo, como a figura\u00e7\u00e3o de um futuro poss\u00edvel. Tentei encen\u00e1-la como parte de sua pr\u00f3pria era hist\u00f3rica, mas de uma forma em que excedesse sua hist\u00f3ria e nos sugerisse, talvez, demandas mais profundas e duradouras pela democracia e revolu\u00e7\u00e3o mundiais.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 a minha forma de reabrir, em outras palavras, do centro de nossas lutas atuais, a possibilidade de uma historiografia diferente, que nos permita pensar e fazer pol\u00edtica de forma diferente. A Comuna nos oferece uma alternativa diferente ao curso seguido pela moderniza\u00e7\u00e3o capitalista, por um lado; e \u00e0quele seguido pelo socialismo de Estado utilitarista, por outro. Este \u00e9 um projeto que eu acho que compartilhamos cada vez entre mais pessoas e \u00e9 por isso que escrevi o livro.<\/p>\n<p><strong>Ao escolher focar na vida p\u00f3s-Comuna mais do que nos 72 dias de \u201csua pr\u00f3pria exist\u00eancia de trabalho\u201d, voc\u00ea consegue desenterrar as in\u00fameras maneiras pelas quais o imagin\u00e1rio pol\u00edtico da Comuna realmente sobreviveu ao massacre e permaneceu nas lutas e no pensamento dos ex-<\/strong><em><strong>communards<\/strong><\/em><strong>\u00a0e de seus contempor\u00e2neos. Qual voc\u00ea considera ser o legado mais importante da Comuna a esse respeito?<\/strong>Eu n\u00e3o me dediquei tanto \u00e0 \u201cvida p\u00f3s-morte\u201d da Comuna, como \u00e0 sua sobreviv\u00eancia. Em um de meus livros anteriores,\u00a0<em>May \u201968 e Its Afterlives<\/em>\u00a0(Maio de 68 e sua vida p\u00f3stuma), o assunto era, de fato, como o t\u00edtulo sugere, algo similar a um estudo de mem\u00f3ria: como as insurrei\u00e7\u00f5es de 1968 foram representadas e discutidas dez, vinte ou trinta anos depois. E, hoje, um trabalho muito interessante est\u00e1 sendo escrito pelo que alguns optam por ver como as \u201cvidas p\u00f3stumas\u201d ou \u201creativa\u00e7\u00f5es\u201d da Comuna de Paris: estudos da Comuna de Xangai, por exemplo, ou outros aspectos da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural chinesa, ou estudos que enxergam os zapatistas como uma esp\u00e9cie de reativa\u00e7\u00e3o de certos gestos de 1871.<\/p>\n<p>No entanto,\u00a0<em>Luxo Comunal<\/em>\u00a0limita-se ao tempo de vida dos\u00a0<em>communards,<\/em>\u00a0e \u00e9 centr\u00edfugo ou geogr\u00e1fico em seu alcance. Eu examino as ondas de choque do evento quando elas alcan\u00e7am Kropotkin na Finl\u00e2ndia ou William Morris na Isl\u00e2ndia, ou quando elas conduzem os t\u00e3o pressionados\u00a0<em>communards<\/em>\u00a0exilados e refugiados para novas redes pol\u00edticas de longo alcance e novos modos de vida na Su\u00ed\u00e7a, Londres e em outros lugares, ap\u00f3s o massacre que deu fim \u00e0 Comuna. O extremismo e horror desse final, a Semana Sangrenta de viol\u00eancia estatal que levou milhares de pessoas \u00e0 morte, muitas vezes se mostrou uma isca incontrol\u00e1vel, que tornava invis\u00edveis as redes e caminhos de sobreviv\u00eancia, reinven\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o pol\u00edtica que surgiram nos anos imediatamente posteriores, e isso me preocupa muito na \u00faltima parte do livro.<\/p>\n<p>H\u00e1 quase que um desejo por parte dos historiadores de reduzir todo o evento a um epis\u00f3dio de 72 dias que termina em trag\u00e9dia. Nesse sentido, eu queria examinar o prolongamento do pensamento dos\u00a0<em>communards<\/em>\u00a0para al\u00e9m da carnificina sangrenta nas ruas de Paris, o que resultou do encontro dos exilados com seus partid\u00e1rios na Inglaterra e nas montanhas da Su\u00ed\u00e7a. Ao fazer isso, \u00e9 claro, concordo plenamente com Henri Lefebvre, que nos diz que o pensamento e a teoria de um movimento s\u00e3o gerados apenas ap\u00f3s seu pr\u00f3prio fim. As lutas criam novas formas pol\u00edticas e modos de fazer, bem como novos entendimentos te\u00f3ricos dessas pr\u00e1ticas e formas.<\/p>\n<p>Em certo ponto, voc\u00ea poderia argumentar que s\u00e3o as formas assumidas por essa sobreviv\u00eancia \u2014 uma \u201csobrevida\u201d, ou, em franc\u00eas, \u201csurvie\u201d \u2014 que constituem o legado mais importante da Comuna: o fato de sua pr\u00f3pria \u201cexist\u00eancia de trabalho\u201d ter se perpetuado, a recusa por parte dos sobreviventes e de seus partid\u00e1rios de permitir que a cat\u00e1strofe do massacre acabasse com tudo.<\/p>\n<p>Em um n\u00edvel mais simb\u00f3lico, por\u00e9m, o legado que o pensamento gerado pela Comuna deixou emerge em meu livro, no conjunto de significados atribu\u00eddos ao t\u00edtulo que escolhi: \u201cluxo comunal\u201d. Descobri essa frase no par\u00e1grafo final do Manifesto que Eug\u00e8ne Pottier, Courbet e outros artistas escreveram quando estavam se organizando durante a Comuna. Para eles, a frase expressava uma demanda por algo como a beleza p\u00fablica \u2014 a ideia de que todos t\u00eam o direito de viver e trabalhar em circunst\u00e2ncias agrad\u00e1veis, a exig\u00eancia de que a arte e a beleza n\u00e3o sejam reservadas ao gozo da elite, mas que sejam plenamente integradas \u00e0 vida p\u00fablica cotidiana.<\/p>\n<p>Esta poderia parecer uma exig\u00eancia meramente \u201cdecorativa\u201d por parte de artistas e artes\u00e3os caprichosos, mas \u00e9 uma exig\u00eancia que de fato exige nada menos do que a reinven\u00e7\u00e3o total daquilo que \u00e9 considerado riqueza, do que uma sociedade valoriza. \u00c9 um apelo \u00e0 reinven\u00e7\u00e3o da riqueza para al\u00e9m do valor de troca. E no trabalho de refugiados da Comuna, como Elis\u00e9e Reclus e Paul Lafargue, ou de companheiros de viagem como Peter Kropotkin e William Morris, o que eu chamo de \u201cluxo comunal\u201d foi expandido para uma vis\u00e3o de sociedade humana ecologicamente vi\u00e1vel. \u00c9 impressionante ver o trabalho de Reclus, Lafargue e seus amigos, agora no centro das aten\u00e7\u00f5es dos te\u00f3ricos ecol\u00f3gicos que encontram ali um n\u00edvel de pensamento ambiental que morreu com aquela gera\u00e7\u00e3o, no final do s\u00e9culo XIX, e n\u00e3o foi ressuscitado at\u00e9 a d\u00e9cada de 1970, com figuras como Murray Bookchin.<\/p>\n<p>Todo esse trabalho \u00e9 muito empolgante, mas falha ao n\u00e3o levar em considera\u00e7\u00e3o como a experi\u00eancia da Comuna foi parte fundamental da perspectiva ecol\u00f3gica que desenvolveram. A experi\u00eancia da Comuna e sua brutal repress\u00e3o tornaram tal an\u00e1lise ainda mais dif\u00edcil. Para eles, o capitalismo j\u00e1 era um sistema imprudente, de desperd\u00edcio, que causava a degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica do planeta. As ra\u00edzes da crise ecol\u00f3gica estavam no Estado-na\u00e7\u00e3o centralizado e no sistema econ\u00f4mico capitalista. E eles acreditavam que um problema sist\u00eamico exige uma solu\u00e7\u00e3o sist\u00eamica.<\/p>\n<p><strong>Dando continuidade \u00e0 pergunta anterior, voc\u00ea enfatiza particularmente o profundo impacto da Comuna no pensamento de Marx na \u00e9poca. Voc\u00ea poderia discutir brevemente como os eventos de 1871 ensinaram, mudaram ou aprofundaram a compreens\u00e3o de Marx sobre o desenvolvimento capitalista e a transi\u00e7\u00e3o para uma sociedade p\u00f3s-capitalista?<\/strong><\/p>\n<p>Marx sabia tudo o que era poss\u00edvel saber sobre o que estava acontecendo nas ruas de Paris naquela primavera \u2014 dada a dist\u00e2ncia e um verdadeiro muro de censura, \u201cuma Muralha da China de mentiras\u201d, montada pelos versalheses para evitar que as informa\u00e7\u00f5es chegassem aos franceses no campo e tamb\u00e9m aos estrangeiros. Ele olhou para a Comuna e ficou surpreso ao ver, pela primeira vez em sua vida, um exemplo vivo de vida n\u00e3o capitalista jamais antes escrita nos livros \u2014 o oposto do dia a dia sob o dom\u00ednio do Estado. Pela primeira vez, ele viu pessoas realmente se comportando como se fossem donas de suas vidas e n\u00e3o escravas assalariadas.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Luxo Comunal<\/em>, mapeio as profundas mudan\u00e7as que a exist\u00eancia da Comuna trouxe ao pensamento de Marx e, ainda mais importante, \u00e0 sua trilha: a nova aten\u00e7\u00e3o que ele prestou \u2014 na d\u00e9cada seguinte \u00e0 Comuna \u2014 \u00e0s quest\u00f5es camponesas, ao mundo fora da Europa, \u00e0s sociedades pr\u00e9-capitalistas, e \u00e0 possibilidade de m\u00faltiplos caminhos para o socialismo. Observar, pela primeira vez, como era o trabalho n\u00e3o-alienado realmente teve o efeito paradoxal de fortalecer a teoria de Marx e de causar uma ruptura com o pr\u00f3prio conceito de teoria.<\/p>\n<p>Mas devo dizer que estou menos preocupada em relacionar a Comuna \u00e0s trajet\u00f3rias intelectuais de Marx ou \u00e0 de alguns outros conhecidos que discuto no livro, do que em costurar o pensamento, as pr\u00e1ticas e as trajet\u00f3rias de contempor\u00e2neos como Kropotkin, Marx, Reclus e Morris, do sapateiro Gaillard e de outras figuras menos conhecidas, na teia relacional que o evento produziu \u2014 uma esp\u00e9cie de \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o vinda de baixo\u201d.<\/p>\n<p>Com o despertar da Comuna, o imagin\u00e1rio socialista foi alimentado n\u00e3o apenas pela recente insurrei\u00e7\u00e3o, mas por elementos que envolviam a Isl\u00e2ndia medieval, o potencial comunista das antigas comunas rurais de camponeses russos e de outros lugares, o in\u00edcio do anarco-comunismo e um repensar profundo sobre a solidariedade a partir do que hoje chamar\u00edamos de perspectiva ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea aponta como a Comuna era realmente um projeto compartilhado, que \u201cevaporou as diverg\u00eancias entre fac\u00e7\u00f5es de esquerda\u201d. Da mesma forma, voc\u00ea mesma n\u00e3o tem paci\u00eancia para disputas sect\u00e1rias que superenfatizam a divis\u00e3o entre Marx e Bakunin, ou entre comunismo e anarquismo, na esteira da insurrei\u00e7\u00e3o. O que a Comuna tinha, que permitiu que essas v\u00e1rias tend\u00eancias encontrassem uma causa comum, e o que a esquerda deve tirar dessa experi\u00eancia hoje \u2014 se \u00e9 que existe esse algo?<\/strong><\/p>\n<p>A vida \u00e9 muito curta para ficar no sectarismo. N\u00e3o que o sectarismo n\u00e3o existisse na Comuna ou em seu caminho. Na verdade, nos anos imediatamente ap\u00f3s a Comuna, a esquerda costuma ser vista como ferozmente dividida pela disputa entre Marx e Bakunin \u2014 uma disputa entre marxistas e anarquistas que \u00e9 considerada respons\u00e1vel pelo fim da Primeira Internacional, e uma disputa que \u00e9 frequentemente retomada hoje em dia, entre aqueles que acreditam que a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u00e9 a raiz de todo o mal e aqueles que acreditam que \u00e9 a opress\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O que eu escolhi fazer em meu livro foi empurrar para fora do palco o Marx e o Bakunin, esses dois velhos barbas-cinzas, cuja briga todos n\u00f3s conhecemos h\u00e1 tanto tempo; ou, pelo menos, tentar coloc\u00e1-los no canto, para entender o que mais havia para ser visto. E o que descobri foi uma grande quantidade de pessoas muito interessantes que n\u00e3o eram nem servilmente leais ao marxismo, nem ao anarquismo, mas que fizeram uso habilidoso de ambos os conjuntos de ideias.<\/p>\n<p>Isso me parece muito semelhante \u00e0 maneira como os militantes de hoje conduzem suas vidas pol\u00edticas, talvez porque alguns dos tipos mais sect\u00e1rios de cada lado tenham sa\u00eddo de cena. Mesmo assim, meu livro teve sua cota de ataques sect\u00e1rios \u2014 por uso insuficiente da linha marxista e da linha anarquista, em quantidades quase iguais!<\/p>\n<p><strong>Muitos movimentos contempor\u00e2neos parecem remeter ao esp\u00edrito da Comuna em suas pr\u00f3prias lutas. Voc\u00ea diria que estamos vivendo um renascimento do imagin\u00e1rio comunal, atualmente? Como voc\u00ea explica o retorno das estrat\u00e9gias pol\u00edticas baseadas na ocupa\u00e7\u00e3o e esse renovado interesse pela pol\u00edtica do espa\u00e7o urbano?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que h\u00e1 claramente um renascimento do imagin\u00e1rio comunit\u00e1rio na atualidade, mas n\u00e3o concordo com voc\u00ea no fato de ele estar centrado na pol\u00edtica do espa\u00e7o urbano. A cidade hoje oferece aos jovens tr\u00eas op\u00e7\u00f5es: n\u00e3o ter trabalho, ter um trabalho mal pago ou um trabalho sem sentido. Muitos optaram por se mudar para o campo para levar uma vida que una luta e coopera\u00e7\u00e3o social. Quando penso nas v\u00e1rias lutas da atualidade, principalmente na Fran\u00e7a, que \u00e9 o contexto que conhe\u00e7o melhor, elas muitas vezes ocorrem no meio rural e se preocupam em defender um modo de vida considerado \u201carcaico\u201d para a moderniza\u00e7\u00e3o capitalista. Os ocupantes procuram criar uma forma de autossufici\u00eancia regional que n\u00e3o implique recuar para um mundo fechado em si mesmo, que n\u00e3o se reduza a redemoinhos isolados de autorreferencialidade.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um desejo que emergiu com muita for\u00e7a, ali\u00e1s, no per\u00edodo que se seguiu \u00e0 Comuna, e discuto longamente os muitos debates interessantes que abordaram esse assunto e ocorreram nas montanhas do Jura, na Su\u00ed\u00e7a, entre refugiados e apoiadores, muito conscientes dos perigos do isolamento. Pelo que sei das ocupa\u00e7\u00f5es comunais de territ\u00f3rios e terrenos na atualidade, ocupantes e Zadistas\u00a0<em>[Defensores de territ\u00f3rios amea\u00e7ados pelo capital, que agem frequentemente por meio de ocupa\u00e7\u00f5es. O termo origina-se do acr\u00f4nimo franc\u00eas ZaD, de \u201cZone\u00a0a\u00a0deffendre\u201d,\u00a0ou \u201czona a defender\u201d (Nota de Outras Palavras)]<\/em>\u00a0reivindicam uma certa linhagem n\u00e3o apenas com a Comuna de Paris, mas com lutas mais recentes, como o Larzac na d\u00e9cada de 1970, e figuras importantes daquela \u00e9poca como Bernard Lambert. Afinal, foi Lambert quem subiu ao planalto de Larzac em 1973 e proclamou que \u201cnunca mais os camponeses estar\u00e3o do lado de Versalhes\u201d, \u00e0s milhares de pessoas que viajaram de toda a Fran\u00e7a e al\u00e9m, para apoiar os camponeses e fazendeiros locais em sua luta contra a expuls\u00e3o de suas pr\u00f3prias terras pelo ex\u00e9rcito franc\u00eas.<\/p>\n<p>Quando Lambert, em seu texto cl\u00e1ssico, \u201cLes Paysans dans la lutte des classes\u201d (Os camponeses na luta de classes), situou trabalhadores urbanos e camponeses no mesmo patamar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 modernidade capitalista, ele estava mobilizando exatamente a mesma estrat\u00e9gia ret\u00f3rica que um dos personagens principais de meu livro, o\u00a0<em>communard\u00a0<\/em>Elis\u00e9e Reclus, utilizava em seu panfleto de 1899, \u201c\u00c0 mon fr\u00e8re, le paysan\u201d (\u201cPara meu irm\u00e3o, o campon\u00eas\u201d). Que por sua vez, \u00e9 a mesma estrat\u00e9gia subjacente a um panfleto ainda anterior, dirigido (mas nunca recebido) aos franceses no campo, da parte dos\u00a0<em>communards<\/em>\u00a0sitiados em abril de 1871, \u201cAu Travailleur des campagnes\u201d (\u201cAos trabalhadores do campo\u201d). Para citar Lambert: \u201cPaysans, travailleurs, m\u00eame combat\u201d (\u201cCamponeses, oper\u00e1rios, a mesma luta\u201d).<\/p>\n<p>Hoje, a exist\u00eancia de ZADs \u2014 \u201czonas a defender\u201d \u2014 e de comunas como N\u00f4tre-Dame-des-Landes, na Fran\u00e7a; ou No TAV, em Turim; de assentamentos que ocupam espa\u00e7os cedidos pelo Estado a grandes infraestruturas de projetos julgados in\u00fateis e for\u00e7ados, marcam o surgimento de algo como uma vida rural distintamente alternativa e combativa. \u00c9 uma vida rural que se op\u00f5e ao agroneg\u00f3cio, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de terras agr\u00edcolas, \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e de outros recursos e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o pelo Estado de projetos de infraestrutura em escala fara\u00f4nica. Vemos aqui um verdadeiro desafio em rela\u00e7\u00e3o ao Estado. E, ao mesmo tempo, o mundo rural \u00e9 defendido como um espa\u00e7o cujas realidades f\u00edsicas e culturais se op\u00f5em \u00e0 l\u00f3gica homogeneizante do capital. Ao se recusarem a sair desse lugar, eles se colocam no centro do combate.<\/p>\n<p>A meu ver, a remobiliza\u00e7\u00e3o da forma comunal hoje em dia, procura, em parte, bloquear a constitui\u00e7\u00e3o em curso de uma rede territorial composta por centros financeiros metropolitanos privilegiados, cujo desenvolvimento tem um pre\u00e7o: a destrui\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os que ligam esses centros aos seus arredores e periferias. S\u00e3o essas periferias, rurais ou semirrurais por natureza, que est\u00e3o ent\u00e3o destinadas a declinar numa esp\u00e9cie de desertifica\u00e7\u00e3o prolongada, \u00e0 medida que o capital financeiro suga cada vez mais pessoal e recursos para meios de transporte cada vez mais r\u00e1pidos, e para uma escala cada vez maior de comunica\u00e7\u00e3o, bens e servi\u00e7os nos lugares de maior riqueza.<\/p>\n<p>Os militantes de hoje muitas vezes se veem lutando contra uma realidade distintamente nova e neoliberal, mas n\u00e3o acho que importe muito se vemos ou n\u00e3o o neoliberalismo como uma fase diferente do capitalismo \u2014 o mundo capitalista ao qual eles se op\u00f5em j\u00e1 foi substancialmente analisado por Henri Lefebvre em\u00a0<em>Production of Space<\/em>\u00a0(A Produ\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o), um livro que foi lan\u00e7ado, creio eu, no in\u00edcio dos anos 1970. L\u00e1 ele mostrou como o crescente \u201cplanejamento\u201d do espa\u00e7o sob o capitalismo era um movimento dividido em tr\u00eas partes: homogeneidade, fragmenta\u00e7\u00e3o e hierarquia.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o da homogeneidade \u00e9 garantida pela unifica\u00e7\u00e3o de um sistema global com centros ou pontos de fortalecimento metropolitano que dominam os pontos perif\u00e9ricos mais fracos. Simultaneamente, por\u00e9m, o espa\u00e7o se fragmenta para ser melhor instrumentalizado e apropriado: ele passa a ser dividido feito papel milimetrado em parcelas taylorizadas aut\u00f4nomas com diversas fun\u00e7\u00f5es localizadas. E uma estrat\u00e9gia cada vez mais consciente e trai\u00e7oeira divide todas as zonas rurais e suburbanas, as cidades-sat\u00e9lites, formadas por pequenas e m\u00e9dias cidades, os sub\u00farbios e os espa\u00e7os desolados pela decomposi\u00e7\u00e3o da vida agr\u00e1ria \u2014 todas essas semi-col\u00f4nias \u00e0 metr\u00f3pole \u2014 em regi\u00f5es mais ou menos favorecidas, com a maioria delas sendo destinada a um decl\u00ednio controlado, supervisionado de perto e, muitas vezes, abrupto.<\/p>\n<p>Assim como a Comuna de Paris, essas lutas e ocupa\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas s\u00e3o, necessariamente, baseadas de forma local. Elas s\u00e3o vinculadas a um determinado espa\u00e7o e, como tal, exigem uma escolha pol\u00edtica espec\u00edfica. Eles compartilham todas as preocupa\u00e7\u00f5es e aspira\u00e7\u00f5es espec\u00edficas do local. Mas elas n\u00e3o s\u00e3o localistas nem localizadoras em seus objetivos. Os\u00a0<em>communards<\/em>\u00a0eram ferozmente anti-Estado e amplamente indiferentes \u00e0 na\u00e7\u00e3o \u2014 como precisamos lembrar. Sob a Comuna, Paris queria ser uma unidade aut\u00f4noma em uma federa\u00e7\u00e3o internacional de comunas.<\/p>\n<p>Nesse quesito, a Comuna antecipou todos os tipos de possibilidades em atos, de modo que mesmo os projetos que ela n\u00e3o poderia realizar, e que permaneceriam no n\u00edvel do desejo ou da inten\u00e7\u00e3o, como o projeto federativo, ret\u00eam um significado profundo. Atualmente, as lutas espec\u00edficas de lugares, como o N\u00f4tre-Dame-des-Landes e o No TAV, est\u00e3o muito melhor posicionadas para alcan\u00e7ar o tipo de federa\u00e7\u00e3o internacional que Paris, sob a Comuna, n\u00e3o teve tempo de realizar.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/beleza-publica-que-a-comuna-inventou\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kristin Ross &#8211; A Comuna de Paris vem sendo estudada e discutida h\u00e1 quase um s\u00e9culo e meio. De que forma o seu livro contribui para a nossa compreens\u00e3o deste evento hist\u00f3rico mundial, e por que voc\u00ea decidiu escrev\u00ea-lo agora? 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