{"id":14979,"date":"2021-03-30T13:21:17","date_gmt":"2021-03-30T16:21:17","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14979"},"modified":"2021-03-27T13:23:34","modified_gmt":"2021-03-27T16:23:34","slug":"a-agonia-de-uma-civilizacao-forjada-no-patriarcado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/03\/30\/a-agonia-de-uma-civilizacao-forjada-no-patriarcado\/","title":{"rendered":"A agonia de uma civiliza\u00e7\u00e3o forjada no patriarcado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ant\u00f4nio Sales Rios Neto<\/strong> &#8211; O machismo \u00e9 sua engrenagem mais vis\u00edvel; a ditadura do mercado, seu est\u00e1gio atual. Mas, h\u00e1 mil\u00eanios, esta l\u00f3gica de controle e domina\u00e7\u00e3o dissociou Humanidade da Natureza. Na ideia de Complexidade de Morin, pode estar uma sa\u00edda<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>Deus e Sat\u00e3 n\u00e3o est\u00e3o fora de n\u00f3s nem acima de n\u00f3s: est\u00e3o em n\u00f3s.\u00a0<\/em><em>O pior da crueldade e o melhor da bondade do mundo est\u00e3o no ser humano\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>Edgar Morin<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas e notadamente nos \u00faltimos anos, as reflex\u00f5es de muitos cr\u00edticos do nosso sistema-mundo t\u00eam sido permeadas por um crescente sentimento de que estamos sendo arrastados para um colapso civilizat\u00f3rio. Ao que parece, trata-se do esgotamento de um sistema-mundo que tem funcionado sob a hegemonia do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, forjado especialmente a partir do s\u00e9culo XVI, e que nos \u00faltimos cinquenta anos, sob os ausp\u00edcios do neoliberalismo, reduziu o modo de viver de quase toda a humanidade \u00e0 l\u00f3gica de mercado, na qual tudo vem sendo transformado em mercadoria. Estamos vivendo uma crise de dimens\u00e3o complexa, uma vez que abrange m\u00faltiplas crises entrela\u00e7adas que v\u00eam afetando dramaticamente nosso modo de viver, nas mais diversas inst\u00e2ncias da experi\u00eancia humana, pois seus desdobramentos t\u00eam interfer\u00eancias nefastas nas esferas social, pol\u00edtica, ecol\u00f3gica, \u00e9tica, econ\u00f4mica, institucional, espiritual, afetiva, dentre outras. Essa crise tornou-se mais vis\u00edvel depois que dois fen\u00f4menos de escala global foram adquirindo uma crescente e perigosa expressividade nos \u00faltimos tempos: 1) as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que a cada dia apresentam mais evid\u00eancias e v\u00eam ganhando mais validade no meio cient\u00edfico; 2) o desmoronamento dos regimes democr\u00e1ticos como resultado do experimento do\u00a0<em>laissez-faire<\/em>\u00a0global impulsionado pela doutrina neoliberal, em intera\u00e7\u00e3o com o fen\u00f4meno da algoritmiza\u00e7\u00e3o da vida, desencadeado a partir dos anos 1980.<\/p>\n<p>A face mais preocupante desse cen\u00e1rio t\u00e3o emblem\u00e1tico talvez seja a rapidez com que essa real possibilidade de colapso parece aproximar-se, sem que haja qualquer pol\u00edtica de civiliza\u00e7\u00e3o em movimento que possa fazer frente a gravidade da situa\u00e7\u00e3o atual, mesmo que para atenu\u00e1-la. Como alertou recentemente o respeitado naturalista brit\u00e2nico, David Attenborough, \u201cdentro da vida \u00fatil de algu\u00e9m nascido hoje, prev\u00ea-se que a nossa esp\u00e9cie provocar\u00e1 nada menos que o colapso do mundo vivente, precisamente no que se baseia a nossa civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, constata\u00e7\u00e3o que o faz concluir que \u201cestamos diante da possibilidade real de uma sexta extin\u00e7\u00e3o em massa, causada por a\u00e7\u00f5es humanas\u201d. A cada dia surgem novos dados cient\u00edficos para confirmar esse progn\u00f3stico de Attenborough. Um desses dados mais recentes est\u00e1 no artigo intitulado \u201cDeforestation and world population sustainability: a quantitative analysis\u201d, publicado em 06\/05\/2020 na conceituada revista cient\u00edfica\u00a0<em>Nature<\/em>, dos f\u00edsicos Gerardo Aquino, do Alan Turing Institute, e Mauro Bologna, da Universidad de Tarapac\u00e1. Eles realizaram um estudo correlacionando a taxa atual de crescimento populacional com a taxa de desmatamento, a partir do qual observaram que \u201cum colapso catastr\u00f3fico da popula\u00e7\u00e3o humana, devido ao consumo de recursos \u00e9 o cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel da evolu\u00e7\u00e3o din\u00e2mica com base nos par\u00e2metros atuais\u201d. Nas palavras de Bologna e Aquino, \u201cadotando um modelo combinado determin\u00edstico e estoc\u00e1stico, conclu\u00edmos do ponto de vista estat\u00edstico que a probabilidade de nossa civiliza\u00e7\u00e3o sobreviver \u00e9 inferior a 10% no cen\u00e1rio mais otimista\u201d.<\/p>\n<p>Ainda sobre o drama existencial posto pela quest\u00e3o clim\u00e1tica, um dos alertas mais contundentes sobre as consequ\u00eancias da interven\u00e7\u00e3o humana no planeta est\u00e1 no livro\u00a0<em>A terra inabit\u00e1vel \u2013 Uma hist\u00f3ria do futuro<\/em>\u00a0(Companhia das Letras, 2019), do jornalista norte-americano especializado em mudan\u00e7a clim\u00e1tica, David Wallace-Wells, editor da\u00a0<em>New York Magazine<\/em>. A obra re\u00fane as melhores refer\u00eancias cient\u00edficas sobre o assunto produzidas mais recentemente. Para Wallace-Wells, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas representam uma real \u201ccrise existencial\u201d, em que estamos deixando por conta do acaso possibilidades dramaticamente infernais para um futuro bem pr\u00f3ximo, cujo \u201cresultado do melhor cen\u00e1rio \u00e9 morte e sofrimento numa escala de 25 Holocaustos e o resultado do pior cen\u00e1rio nos deixa \u00e0 beira da extin\u00e7\u00e3o\u201d. Outro que vem, j\u00e1 h\u00e1 um bom tempo, pesquisando e divulgando, sistematicamente, as evid\u00eancias cient\u00edficas mais atuais sobre os graves riscos de um colapso clim\u00e1tico \u00e9 o doutor em demografia e pesquisador titular da Escola Nacional de Ci\u00eancias Estat\u00edsticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica \u2013 ENCE\/IBGE, Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Diniz Alves. Segundo ele, se o processo de degrada\u00e7\u00e3o dos ecossistemas n\u00e3o for interrompido, \u201co exterm\u00ednio das esp\u00e9cies n\u00e3o humanas culminar\u00e1 e reverter\u00e1 no exterm\u00ednio dos pr\u00f3prios seres humanos.\u201d<\/p>\n<p>Mesmo entre aqueles n\u00e3o c\u00e9ticos em torno do assunto, as muitas explica\u00e7\u00f5es oferecidas para entender quais s\u00e3o as raz\u00f5es que nos trouxeram a este cen\u00e1rio de crise terminal s\u00e3o ainda muito dispersas. Uma parte delas parece convergir para a ideia de que h\u00e1 uma n\u00edtida incompatibilidade entre os limites no nosso planeta Terra e a din\u00e2mica de reprodu\u00e7\u00e3o do sistema capitalista, especialmente a que foi desencadeada a partir da primeira metade do s\u00e9culo XIX, quando a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial estava se consolidando na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Atualmente, a quase totalidade da popula\u00e7\u00e3o mundial, que vem crescendo irresponsavelmente de forma exponencial nos \u00faltimos duzentos anos, est\u00e1 submetida \u00e0 din\u00e2mica do capital, cuja l\u00f3gica se baseia no crescimento econ\u00f4mico ilimitado, que, por sua vez, sustenta-se na extra\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria dos recursos naturais limitados.<\/p>\n<p>Outras explica\u00e7\u00f5es para o agravamento da crise ambiental chegam a questionar se a pr\u00f3pria natureza humana n\u00e3o seria, em sua ess\u00eancia, rapinante e autodestrutiva, isto \u00e9, a esp\u00e9cie humana seria o resultado de um desvio da evolu\u00e7\u00e3o natural e, neste caso, estar\u00edamos, desde sempre, irremediavelmente condenados ao encontro da trag\u00e9dia final que se anuncia. Por isso a identifica\u00e7\u00e3o da atual era geol\u00f3gica da Terra como\u00a0<em>Antropoceno,<\/em>\u00a0na qual o\u00a0<em>Homo Rapiens \u2013\u00a0<\/em>termo utilizado pelo fil\u00f3sofo pol\u00edtico John Gray, para quem a natureza humana \u00e9 mais bem compreendida pelo seu \u00edmpeto de destrui\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 considerado o novo meteoro a se chocar com a Terra, ap\u00f3s aquele que 66 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s provocou uma extin\u00e7\u00e3o em massa.<\/p>\n<h4><strong>Mercado e tecnologia: progresso ou regress\u00e3o?<\/strong><\/h4>\n<p>Diante do quadro apocal\u00edptico (a palavra \u201capocalipse\u201d tamb\u00e9m comporta o sentido de \u201crevela\u00e7\u00e3o\u201d) que muitos centros de pesquisa voltados para a quest\u00e3o clim\u00e1tica j\u00e1 v\u00eam apontando para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, a ideia \u00e9 trazer aqui outras dimens\u00f5es da crise civilizat\u00f3ria que t\u00eam passado ao largo das reflex\u00f5es. Hoje est\u00e1 muito claro o fracasso das duas grandes narrativas \u2013 capitalismo e socialismo \u2013 postas em pr\u00e1tica pela humanidade, que rivalizaram ao longo do s\u00e9culo XX, cada qual se autodeclarando a melhor alternativa capaz de assegurar alguma viabilidade \u00e0 continuidade do chamado \u201cprocesso civilizat\u00f3rio\u201d, iniciado ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o do neol\u00edtico, quando o homem ca\u00e7ador-coletor n\u00f4made fez a passagem para a era do agrarianismo, tornando-se sedent\u00e1rio e acomodando-se \u00e0 vida \u201ccivilizada\u201d nas cidades. Esta \u00e9, por exemplo, a constata\u00e7\u00e3o do historiador ingl\u00eas Eric Hobsbawm, que conheceu como poucos a din\u00e2mica da Hist\u00f3ria, especialmente no per\u00edodo que vai da segunda metade do s\u00e9culo XVIII ao fim do tr\u00e1gico s\u00e9culo XX, registrada nas suas obras\u00a0<em>A era das revolu\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0(1962),\u00a0<em>Era do capital<\/em>\u00a0(1975),\u00a0<em>A era dos imp\u00e9rios<\/em>\u00a0(1987) e\u00a0<em>Era dos extremos \u2013 o breve s\u00e9culo XX<\/em>\u00a0(1994). Para Hobsbawm, \u201cchegamos a um ponto de crise hist\u00f3rica\u201d, no qual \u201co fracasso do modelo sovi\u00e9tico confirmou aos defensores do capitalismo sua convic\u00e7\u00e3o de que nenhuma economia sem Bolsa de Valores podia funcionar, o fracasso do modelo ultraliberal confirmou aos socialistas a cren\u00e7a mais justificada em que os assuntos humanos, incluindo a economia, eram demasiados importantes para ser deixados ao mercado.\u201d<\/p>\n<p>Segundo o fil\u00f3sofo brit\u00e2nico John Gray, \u201cno in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, o mundo est\u00e1 apinhado de grandiosas ru\u00ednas de utopias fracassadas. Com a esquerda moribunda, a direita tornou-se o abrigo da imagina\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica. O comunismo global foi seguido pelo capitalismo global. As duas imagens do futuro t\u00eam muito em comum. Ambas s\u00e3o horrendas e, felizmente, quim\u00e9ricas.\u201d A li\u00e7\u00e3o mais recomend\u00e1vel que se pode aprender das experi\u00eancias do s\u00e9culo XX e da crise civilizat\u00f3ria atual talvez seja a ideia de que a din\u00e2mica da realidade \u00e9 plural demais para suportar uma \u00fanica\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/tres-narrativas-para-uma-nova-epoca-historica\/\">vis\u00e3o de mundo<\/a>. Por isso, Gray conclui que \u201cos humanos n\u00e3o podem salvar o mundo\u201d. Mas Gray tamb\u00e9m nos tranquiliza ao dizer que o mundo \u201cn\u00e3o precisa de salva\u00e7\u00e3o\u201d, pois, segundo ele, \u201cfelizmente, os humanos nunca viver\u00e3o num mundo constru\u00eddo por si mesmos\u201d. Ali\u00e1s, essa percep\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito longe de ser um consenso; ao contr\u00e1rio, ap\u00f3s o advento da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, inaugurada nos anos 1980, nunca a humanidade acreditou tanto na possibilidade de moldar o mundo segundo \u00e0 sua imagem, revigorando mais uma vez sua ilus\u00e3o num progresso iluminista, agora patrocinada pelos pulsos magn\u00e9ticos e sob os ditames dos que controlam a \u201cintelig\u00eancia artificial\u201d. Nas duas primeiras d\u00e9cadas deste s\u00e9culo, as chamadas\u00a0<em>Big Techs<\/em>, encabe\u00e7adas por corpora\u00e7\u00f5es como Facebook, Apple, Amazon, Tesla, Google, Alphabet, Microsoft, dentre outras, v\u00eam moldando n\u00e3o s\u00f3 os rumos de uma nova economia de plataformas, mas tamb\u00e9m interferindo nos processos pol\u00edticos e debilitando os regimes democr\u00e1ticos, representando, na contemporaneidade, o novo Leviat\u00e3.<\/p>\n<p>Se observarmos bem, a maior parte da hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 uma hist\u00f3ria de regress\u00f5es recorrentes e, vale salientar, at\u00e9 aqui progressivas, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a raz\u00e3o de alguns pensadores como Gray entenderem que a ideia de progresso na ci\u00eancia, na tecnologia e, especialmente, na economia de mercado, a qual constitui o eixo de funcionamento da civiliza\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos quinhentos anos, n\u00e3o passa de um grande mito. \u201cO mito do progresso \u00e9 o maior consolo da humanidade moderna\u201d, diz Gray. Acrescentaria ainda que essa ilus\u00e3o no progresso tem sido tamb\u00e9m a maior armadilha contra o ser humano na contemporaneidade. A esse respeito, vale lembrar as reflex\u00f5es em torno da ideia de progresso do bioqu\u00edmico franc\u00eas Jacques Monod (1910-1976), Nobel de Fisiologia em 1965, para quem os seres vivos s\u00e3o o resultado de uma evolu\u00e7\u00e3o adaptativa influenciada pela intera\u00e7\u00e3o entre acaso e necessidade. Monod teve uma participa\u00e7\u00e3o ativa nos movimentos da Resist\u00eancia Francesa contra as pot\u00eancias do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial. Para ele, \u201cas sociedades liberais do Ocidente ainda demonstram uma concord\u00e2ncia hip\u00f3crita a uma desagrad\u00e1vel miscel\u00e2nea de religiosidade judaico-crist\u00e3, progressismo cientificista, cren\u00e7a nos direitos \u2018naturais\u2019 do homem e pragmatismo utilitarista, apresentando-os como uma base para a moralidade.\u201d Ainda assim, o suposto progresso patrocinado pelo mercado e pela tecnologia continua sendo o nosso consolo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<h4><strong>Puls\u00e3o de morte como parte integrante da civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p>Diante de tanta barb\u00e1rie j\u00e1 observada ao longo da hist\u00f3ria, talvez uma das ideias que foi elaborada e que prevaleceu em torno da natureza humana foi a de que o\u00a0<em>Homo sapiens\u00a0<\/em>\u00e9 um animal inerentemente insensato e predador, portanto, estaria mais pr\u00f3ximo do resultado de um processo de involu\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de desvio no processo de \u201csele\u00e7\u00e3o natural\u201d proposto por Darwin. Essa percep\u00e7\u00e3o contradiz a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o em torno do conceito\u00a0<em>Homo sapiens,\u00a0<\/em>no qual o animal humano seria, supostamente, a \u00fanica esp\u00e9cie que se destacou por ser portadora de autoconsci\u00eancia, racionalidade e sapi\u00eancia. Podemos perceber a constru\u00e7\u00e3o desta imagem mental, por exemplo, nesta passagem do livro\u00a0<em>O zero e o infinito<\/em>\u00a0(1940), do jornalista e ativista pol\u00edtico h\u00fangaro, Arthur Koestler (1905-1983), que, ao fazer uma incisiva cr\u00edtica \u00e0s aberra\u00e7\u00f5es do\u00a0<em>Grande Expurgo<\/em>\u00a0stalinista dos anos 1930, utiliza a seguinte analogia para tentar explicar as origens e os atributos da natureza humana:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>Os macacos altamente civilizados balan\u00e7avam-se graciosamente de galho para galho; o homem de Neanderthal era rude e preso ao solo. Os macacos, saciados e brincalh\u00f5es, viviam em sofisticada jovialidade, ou capturavam pulgas em filos\u00f3fica contempla\u00e7\u00e3o; o Homem de Neanderthal se arrastava melanc\u00f3lico pelo mundo, fazendo barulho com seus porretes. Do alto das \u00e1rvores, os macacos se divertiam com eles, atirando frutos em suas cabe\u00e7as. Vez por outra, ficavam aterrorizados: eles comiam frutas e plantas tenras com delicado refinamento; o Homem de Neanderthal devorava carne crua, abatia os animais e os seus semelhantes. Derrubava \u00e1rvores que estavam ali desde sempre, tirava rochas dos lugares aben\u00e7oados pelo tempo, transgredia todas as leis e tradi\u00e7\u00f5es da selva. Ele era rude, cruel, sem dignidade animal \u2013 do ponto de vista dos macacos altamente civilizados, um retrocesso b\u00e1rbaro da hist\u00f3ria.\u201d<\/em>\u00a0(citado por John Gray no livro\u00a0<em>The silence of animals<\/em>, 2013)<\/p><\/blockquote>\n<p>Temos hoje alguns estudos arqueol\u00f3gicos, paleontol\u00f3gicos e antropol\u00f3gicos que descartam essa imagem ficcional criada por Koestler \u2013 provavelmente influenciada pela sua tr\u00e1gica experi\u00eancia pessoal ao tornar-se prisioneiro das tropas do ditador espanhol Francisco Franco e ter sido condenado \u00e0 morte \u2013, embora aos olhos do senso comum ela pare\u00e7a cada vez mais prevalente ante a realidade dist\u00f3pica que vem se amplificando nas \u00faltimas d\u00e9cadas. O stalinismo foi apenas uma das in\u00fameras express\u00f5es da cultura de controle, domina\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o patriarcal pela Hist\u00f3ria e n\u00e3o representa uma condi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>sine qua non<\/em>\u00a0da natureza humana como muitos pensam. \u00c9 por isso que, para tentarmos compreender melhor a condi\u00e7\u00e3o humana, precisamos seguir recomenda\u00e7\u00f5es como a do te\u00f3logo e fil\u00f3sofo espanhol Raimon Panikkar: \u201cver, por um lado, se o projeto humano realizado durante seis mil\u00eanios pelo\u00a0<em>Homo historicus<\/em>\u00a0\u00e9 o \u00fanico poss\u00edvel e, por outro lado, ver se n\u00e3o seria necess\u00e1rio, hoje, fazer outra coisa\u201d.<\/p>\n<p>A crise de civiliza\u00e7\u00e3o atual que assola a humanidade n\u00e3o se iniciou na contemporaneidade, com a vis\u00e3o mercadol\u00f3gica de mundo imposta pelo liberalismo econ\u00f4mico, hoje globalizada, que canalizou os desejos humanos, por meio do fetiche da mercadoria, para a l\u00f3gica do consumo e da acumula\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 apenas o reflexo de uma longa crise que cont\u00e9m elementos que podem sugerir que est\u00e1 chegando tanto ao seu \u00e1pice quanto ao seu esgotamento neste s\u00e9culo XXI. Todo o percurso civilizat\u00f3rio, iniciado ap\u00f3s as revolu\u00e7\u00f5es agr\u00edcola e depois urbana, ocorridas no neol\u00edtico, tem, no estado de crise permanente, a sua condi\u00e7\u00e3o natural. Como bem afirmou Hobsbawm, \u201ca hist\u00f3ria \u00e9 o registro dos crimes e loucuras da humanidade\u201d, uma hist\u00f3ria orientada pelo desejo de controle e de domina\u00e7\u00e3o cujo poder de destrui\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o s\u00f3 entre os humanos, mas sobretudo do ambiente \u2013, vale frisar, potencializou-se e amplificou-se na mesma propor\u00e7\u00e3o das ferramentas criadas pelo homem.<\/p>\n<p>Por isso, nos \u00faltimos anos, vem crescendo a preocupa\u00e7\u00e3o de alguns centros de pesquisas com as implica\u00e7\u00f5es da tecnologia para a humanidade. J\u00e1 existem alguns conceituados centros de pesquisa trabalhando com vistas a tentar evitar que a humanidade mergulhe, com o advento das novas tecnologias, num mundo cada vez mais dist\u00f3pico e autodestrutivo. Por exemplo, a Universidade de Oxford criou, em 2005, o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.fhi.ox.ac.uk\/\">Instituto para o Futuro da Humanidade \u2013 FHI<\/a>\u00a0(sigla em ingl\u00eas), fundado e dirigido pelo fil\u00f3sofo sueco Nick Bostrom, dedicado, dentre outros objetivos, \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o do que eles chamam de \u201crisco existencial\u201d, em face das consequ\u00eancias que fen\u00f4menos como a tecnologia representam ao futuro da humanidade. Com um prop\u00f3sito parecido, a Universidade de Cambridge tamb\u00e9m criou, em 2015, o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cser.ac.uk\/\">Centro de Estudos de Risco Existencial \u2013 CSER<\/a>. Por isso vale lembrar o alerta de Bostrom de que \u201cos humanos ser\u00e3o respons\u00e1veis por sua pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o\u201d, caso n\u00e3o saibam lidar adequadamente com os riscos ligados aos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, especialmente aqueles que est\u00e3o permitindo alterar o funcionamento natural do mundo, como \u00e9 o caso da biotecnologia, que abrange diversos \u00e2mbitos de atua\u00e7\u00e3o como gen\u00e9tica, medicina, ind\u00fastria, meio ambiente, produ\u00e7\u00e3o de alimentos, dentre outros.<\/p>\n<p>Essa puls\u00e3o de morte, entretanto, n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade do tempo atual, muito menos do surgimento da tecnologia e dos riscos que ela oferece, como v\u00eam estudando esses centros de pesquisa voltados a entender os riscos existenciais implicados na atual din\u00e2mica civilizacional. Ela \u00e9 um elemento constituinte da pr\u00f3pria hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o. Quanto mais o homem aperfei\u00e7oa suas ferramentas, mais ele aumenta sua capacidade de autodestrui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e0 toa, a hist\u00f3ria da humanidade coincide com a hist\u00f3ria de imp\u00e9rios e de Estados absolutos e com os conflitos, massacres e destrui\u00e7\u00f5es que eles patrocinaram, embora intercalada por lac\u00f4nicos espasmos de paz. Como prefere Gray, \u201ca hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 uma hist\u00f3ria de reden\u00e7\u00e3o em andamento\u201d. Essa reden\u00e7\u00e3o s\u00f3 chegar\u00e1 a um bom termo se passarmos a buscar novos pressupostos para compreens\u00e3o das dimens\u00f5es mais rec\u00f4nditas que est\u00e3o por tr\u00e1s da nossa tortuosa trajet\u00f3ria civilizat\u00f3ria. Tais dimens\u00f5es j\u00e1 foram, ao longo da hist\u00f3ria, percebidas por muitos pensadores not\u00e1veis que conseguiram dialogar com a realidade para al\u00e9m do que ela se apresenta ao nosso m\u00e9todo cartesiano de observa\u00e7\u00e3o, ainda hoje prevalente.<\/p>\n<p>Os maiores inimigos da humanidade t\u00eam sido as diversas vis\u00f5es reducionistas de mundo que disputaram \u2013 e continuam disputando \u2013 hegemonia ao longo da Hist\u00f3ria. Todas elas sempre tiveram um ponto em comum: amparavam-se na ideia de controle e de domina\u00e7\u00e3o, pilares da cultura patriarcal milenar sobre os quais a civiliza\u00e7\u00e3o foi constru\u00edda. Atualmente, vigora a vis\u00e3o mercadol\u00f3gica de mundo imposta pela doutrina neoliberal entrela\u00e7ada \u00e0 vis\u00e3o cibern\u00e9tica de mundo, que juntas v\u00eam forjando o novo\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/capitalismo-de-vigilancia-caminho-ao-abismo\/\">capitalismo de vigil\u00e2ncia<\/a>\u00a0denunciado pela fil\u00f3sofa e psic\u00f3loga social estadunidense Shoshana Zuboff. Por isso, a possibilidade de supera\u00e7\u00e3o da crise civilizat\u00f3ria atual passa pela compreens\u00e3o da cultura patriarcal, das suas origens, de como ela se conecta com a no\u00e7\u00e3o de civiliza\u00e7\u00e3o, do que ela representa para o nosso modo de viver e, principalmente, de como ela limitou nossa percep\u00e7\u00e3o da realidade e forjou, ao longo de mil\u00eanios, vis\u00f5es de mundo incongruentes com a din\u00e2mica daquilo que chamamos de mundo natural. Essa cultura patriarcal \u00e9 caracterizada pela ideia de que h\u00e1 uma realidade independente da nossa vontade, a qual \u00e9 supostamente regida pelos seguintes fundamentos: controle, domina\u00e7\u00e3o, hierarquia, superioridade, guerra, luta, apropria\u00e7\u00e3o da verdade, separa\u00e7\u00e3o homem-natureza, dentre outras concep\u00e7\u00f5es distorcidas da realidade complexa que nos cerca.<\/p>\n<h4><strong>A grande bifurca\u00e7\u00e3o cultural no neol\u00edtico<\/strong><\/h4>\n<p>A ideia de aprofundarmos o entendimento da natureza humana numa perspectiva antropol\u00f3gica, conforme sugere Panikkar, pode ser observada, por exemplo, nos estudos do renomado neurobi\u00f3logo chileno Humberto Maturana, para quem o processo evolutivo do\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0perdeu sua congru\u00eancia biol\u00f3gico-cultural quando houve uma grande transforma\u00e7\u00e3o comportamental em algum momento no neol\u00edtico, \u00e9poca em que a cultura patriarcal sobrep\u00f4s-se \u00e0 cultura pr\u00e9-patriarcal europeia e passou a moldar toda a conflituosa trajet\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o. Os estudos de Maturana amparam-se nos trabalhos da arque\u00f3loga lituana Marija Gimbutas (<em>The Goddesses and Gods of Old Europe, 1982,<\/em>\u00a0e\u00a0<em>The Civilization of the Goddess, 1991<\/em>). Inclusive, escrevi recentemente um texto, sob o t\u00edtulo\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/terraeantropoceno\/colapso-ambiental-e-a-biopolitica-do-desacoplamento\/\"><em>A biopol\u00edtica do desacoplamento<\/em><\/a>, em que abordo exclusivamente as inestim\u00e1veis contribui\u00e7\u00f5es de Maturana n\u00e3o s\u00f3 para a ci\u00eancia, mas especialmente para a compreens\u00e3o de como o comportamento humano de \u00edndole patriarcal forjou os graves problemas civilizat\u00f3rios que se exacerbaram na contemporaneidade.<\/p>\n<p>No texto valoroso para compreens\u00e3o das origens do nosso modo de viver atual, intitulado\u00a0<em>Conversa\u00e7\u00f5es Matr\u00edsticas e Patriarcais<\/em>, que \u00e9 parte integrante do livro\u00a0<em>Amor y Juego \u2013 Fundamentos Olvidados de lo Humano desde el patriarcado a la democracia<\/em>\u00a0(1993), escrito em parceria com a psic\u00f3loga alem\u00e3 Gerda Verden-Zoller, Maturana descreve como se deu o processo de bifurca\u00e7\u00e3o cultural em que \u201ca cultura pr\u00e9-patriarcal europeia foi brutalmente destru\u00edda por povos pastores patriarcais, que hoje chamamos de indo-europeus e que vieram do Leste, h\u00e1 cerca de sete ou seis mil anos\u201d. A partir dessa grande transforma\u00e7\u00e3o cultural, o patriarcado passou a moldar todo o curso da hist\u00f3ria. O patriarcado constitui, assim, a matriz cultural do nosso modo de viver, que subjaz a todas as dimens\u00f5es da experi\u00eancia humana, inclusive nos campos da ci\u00eancia e da filosofia, tendo tudo o mais se desdobrado a partir dessa din\u00e2mica patriarcal, nos mais diversos campos da atua\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>O modo de vida patriarcal que permeou toda a hist\u00f3ria da humanidade se caracteriza, conforme a defini\u00e7\u00e3o de Maturana, \u201cpelas coordena\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es que fazem de nossa vida cotidiana um modo de coexist\u00eancia que valoriza a guerra, a competi\u00e7\u00e3o, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procria\u00e7\u00e3o, o crescimento, a apropria\u00e7\u00e3o de recursos e a justifica\u00e7\u00e3o racional do controle e da domina\u00e7\u00e3o dos outros por meio da apropria\u00e7\u00e3o da verdade\u201d. Por isso \u00e9 urgente hoje ampliar nossa compreens\u00e3o do patriarcado para al\u00e9m do senso comum que o traduz, em regra, pelo comportamento machista, facilmente observado no cotidiano das sociedades, inclusive no meio acad\u00eamico, que tende a reduzi-lo a um sistema de domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o do homem sobre a mulher. Estas s\u00e3o apenas as express\u00f5es mais vis\u00edveis do patriarcado. Como percebemos a partir da acep\u00e7\u00e3o proposta por Maturana, a no\u00e7\u00e3o de cultura patriarcal \u00e9 bem mais ampla e profunda do que isso. Seu oposto n\u00e3o seria a cultura matriarcal, que nessa l\u00f3gica bin\u00e1ria de disputa de for\u00e7as entre homem e mulher teria o mesmo sentido de hierarquia do patriarcado, no caso, a rela\u00e7\u00e3o de superioridade e de domina\u00e7\u00e3o do feminino sobre o masculino.<\/p>\n<p>Antes da cultura pr\u00e9-patriarcal a que se refere Maturana, havia o que se convencionou chamar de cultura matr\u00edstica, a qual era mais igualit\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o a valores e s\u00edmbolos masculinos e femininos. Essa cultura matr\u00edstica era, tamb\u00e9m conforme Maturana, caracterizada por \u201cconversa\u00e7\u00f5es de participa\u00e7\u00e3o, inclus\u00e3o, colabora\u00e7\u00e3o, compreens\u00e3o, acordo, respeito e coinspira\u00e7\u00e3o\u201d, atributos que evidenciavam uma cultura \u201ccentrada no amor e na est\u00e9tica, na consci\u00eancia da harmonia espont\u00e2nea de todo o vivo e do n\u00e3o-vivo, em seu fluxo cont\u00ednuo de ciclos entrela\u00e7ados de transforma\u00e7\u00e3o de vida e morte\u201d. N\u00e3o significa dizer que n\u00e3o havia as guerras e os conflitos inerentes ao impulso patriarcal. Tais comportamentos existiam, mas n\u00e3o como regra, e sim como conting\u00eancia da realidade. Na cultura patriarcal que predomina h\u00e1 mil\u00eanios, as sociedades mais igualit\u00e1rias, em que as hierarquias e a apropria\u00e7\u00e3o da verdade n\u00e3o constituem o padr\u00e3o, sempre foram a exce\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o a regra. A Hist\u00f3ria est\u00e1 a\u00ed para confirmar isso, e n\u00e3o h\u00e1 sinais que indiquem que as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas ser\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva defendida por Maturana, que tamb\u00e9m \u00e9 acompanhada por muitos outros pensadores de grande notoriedade, o impulso que move o ser humano desde tempos imemoriais \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 de origem biol\u00f3gica (ou existencial como preferem alguns) mas tamb\u00e9m cultural. Com a sobreposi\u00e7\u00e3o da cultura patriarcal sobre a cultura matr\u00edstica, houve uma grande ruptura na congru\u00eancia entre o biol\u00f3gico e o cultural no comportamento humano. O cultural aqui refere-se \u00e0s capacidades adquiridas, no sentido antropol\u00f3gico do termo, em que criamos cren\u00e7as, valores, t\u00e9cnicas, arte, moral, costumes etc, que, em conjunto, expressam a vis\u00e3o de mundo por meio da qual moldamos e mantemos a nossa concep\u00e7\u00e3o de realidade. Para Maturana, \u201cas culturas s\u00e3o sistemas essencialmente conservadores\u201d, pois, uma vez instaladas como sistemas de rela\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos, elas mesmas se autorrefor\u00e7am criando uma esp\u00e9cie de blindagem a favor de sua perman\u00eancia. Tal fen\u00f4meno \u00e9 visto por muitos autores que v\u00eam estudando o peso do aspecto cultural no comportamento humano, especialmente no campo da biologia da cogni\u00e7\u00e3o, como um grave problema que distorce nossa forma de entender e elaborar da realidade que nos cerca.<\/p>\n<p>Dizendo de outro modo, mais do que uma grave crise civilizat\u00f3ria, vivenciamos o agravamento de uma grande crise de percep\u00e7\u00e3o da realidade que permeou toda a hist\u00f3ria da humanidade, inclusive, em boa medida, alimentada pela ci\u00eancia e pela filosofia. Foi a partir dessa cultura patriarcal de origem euroc\u00eantrica que o animal humano concebeu suas v\u00e1rias percep\u00e7\u00f5es da realidade, em cada \u00e9poca hist\u00f3rica, irradiando-as para os outros continentes. Estamos falando aqui das diversas cosmovis\u00f5es j\u00e1 vivenciadas como o teocentrismo da Idade M\u00e9dia (s\u00e9culos V e XV), o antropocentrismo da Renascen\u00e7a (s\u00e9culos XIV e XVI), o mecanicismo e o economicismo iluministas (s\u00e9culos XVII e XVIII), ainda prevalentes na contemporaneidade, e o transumanismo atual emanado do Vale do Sil\u00edcio a partir dos anos 1980, que aposta na fantasia da remodelagem da natureza humana a partir da \u201cintelig\u00eancia artificial\u201d e projeta um futuro prometedor, desta vez sob os ausp\u00edcios dos algoritmos.<\/p>\n<p>O que temos observado ao longo das duas \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 o surgimento de um capitalismo de vigil\u00e2ncia como a mais nova forma de express\u00e3o patriarcal, promovida pelas principais pot\u00eancias globais, lideradas pelos Estados Unidos, China e R\u00fassia, que est\u00e3o reformulando uma nova polariza\u00e7\u00e3o para o mundo, desta vez entre o capitalismo de vigil\u00e2ncia ocidental e o oriental. Atualmente, s\u00e3o essas as na\u00e7\u00f5es que v\u00eam ditando os pr\u00f3ximos (des)caminhos da civiliza\u00e7\u00e3o, muito embora, cabe frisar aqui, a China \u2013 que muitos julgam ser o pr\u00f3ximo modelo de conviv\u00eancia humana promissor a ser irradiado para o mundo \u2013 venha apresentando uma ret\u00f3rica contradit\u00f3ria que tenta conciliar o aparentemente irreconcili\u00e1vel: \u201cdesenvolvimento global sustent\u00e1vel\u201d por meio de uma economia de mercado atrelada \u00e0 tecnologia, agora sob o crivo exclusivo do Estado, em favor de uma suposta pacifica\u00e7\u00e3o, harmoniza\u00e7\u00e3o e sustentabilidade civilizat\u00f3ria. Para o bem e para o mal, esta \u00e9 a nova diretriz global em curso, um totalitarismo de plataformas com potencial de acelerar e agravar ainda mais a crise planet\u00e1ria, como podemos pressentir em manifesta\u00e7\u00f5es recentes do presidente da R\u00fassia, Vladimir Putin, ao apontar as novas tend\u00eancias do cada vez mais conflituoso cen\u00e1rio geopol\u00edtico atual: \u201ca intelig\u00eancia artificial \u00e9 o futuro, n\u00e3o s\u00f3 para a R\u00fassia, mas para toda a humanidade. Ela vem com oportunidades colossais, mas tamb\u00e9m amea\u00e7as dif\u00edceis de prever. Quem se tornar o l\u00edder nesta esfera se tornar\u00e1 o governante do mundo\u201d.<\/p>\n<h4><strong>Ilus\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do condicionamento patriarcal<\/strong><\/h4>\n<p>Nossas express\u00f5es patriarcais abarcam um largo espectro de perfis comportamentais, com diversos matizes, dos menos aos mais destrutivos. Ao longo desse espectro encontramos desde as categorias mais comuns e aparentemente inofensivas como os tecnocratas e os econocratas, que acreditam numa ideia de mundo regido por ordem, progresso, n\u00fameros, previsibilidade e certeza; passando pelos gurus da autoajuda e pelos l\u00edderes de movimentos neopentecostais vendendo receitas fantasiosas de prosperidade e de sucesso; e, no extremo, aquelas express\u00f5es mais autodestrutivas como os fundamentalistas, os intolerantes, os negadores da pol\u00edtica, o crime organizado, as mil\u00edcias digitais, que, quando al\u00e7ados a posi\u00e7\u00f5es de grande poder, invariavelmente arrastam as sociedades para viol\u00eancia desmedida acompanhada de genoc\u00eddios e ecoc\u00eddios. Todos prometendo solu\u00e7\u00f5es para os problemas humanos que nada t\u00eam a ver com a complexidade do mundo real.<\/p>\n<div>\n<p>Noutra vertente, a l\u00f3gica de controle e de domina\u00e7\u00e3o patriarcal predominante tem levado o senso comum a aceitar como parte integrante da realidade, em especial a da natureza humana, a ideia de que a liberdade e a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o humana est\u00e3o irremediavelmente atreladas \u00e0 acomoda\u00e7\u00e3o na servid\u00e3o volunt\u00e1ria e ao entendimento de que o mundo \u00e9 um local hostil regido por uma din\u00e2mica competitiva e predat\u00f3ria. Essas percep\u00e7\u00f5es de mundo, por sua vez, alimentam a ilus\u00e3o de que todos t\u00eam as mesmas chances de algum dia alcan\u00e7ar a posi\u00e7\u00e3o do 1% que est\u00e1 na parte de cima da pir\u00e2mide socioecon\u00f4mica. Ao refor\u00e7armos essa din\u00e2mica cruel, continuamos aumentando as patologias humanas e amplificando os desarranjos ambientais e \u00e9 aqui que reside a mis\u00e9ria e a trag\u00e9dia do nosso atual modo de viver, determinado por esse condicionamento patriarcal.<\/p>\n<p>Cada um de n\u00f3s, sem exce\u00e7\u00e3o, em maior ou menor grau, est\u00e1 preso nesse espectro, somos ref\u00e9ns de nossas ilus\u00f5es patriarcais, o quartinho newtoniano sem o qual nos vemos perdidos diante das incertezas, imprevisibilidades, ambiguidades e mudan\u00e7as inerentes ao mundo real. A grande ilus\u00e3o patriarcal mais poderosa hoje \u00e9 a que nos aprisiona \u00e0 vis\u00e3o de mundo tecnoeconomicista, que tem dominado todos os campos da experi\u00eancia humana. O ser humano apegou-se a essa ilus\u00e3o porque \u00e9 assim que ele vem sendo moldado pela educa\u00e7\u00e3o, pelas rela\u00e7\u00f5es familiares e, sobretudo, pelas rela\u00e7\u00f5es narcisistas e utilitaristas do mercado, que hoje permeiam todas as dimens\u00f5es da vida humana. S\u00f3 sairemos do impasse civilizat\u00f3rio atual na medida em que mais e mais pessoas e lideran\u00e7as questionarem a falsa seguran\u00e7a desse universo mercado-digital no qual mergulhamos.<\/p>\n<\/div>\n<p>Para al\u00e9m das disputas de narrativas por hegemonia \u2013 que sempre fizeram e provavelmente ainda far\u00e3o parte da condu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da humanidade por um bom tempo \u2013, o patriarcado, a partir da concep\u00e7\u00e3o aqui delineada, talvez represente o principal referencial n\u00e3o s\u00f3 para tentarmos ir ao \u00e2mago da atual e grave crise em que nos encontramos, mas tamb\u00e9m para melhorar nosso entendimento em torno da ideia que temos sobre civiliza\u00e7\u00e3o. Portanto, a cultura patriarcal instalada h\u00e1 mil\u00eanios, que forjou a civiliza\u00e7\u00e3o tal como a conhecemos, precisa ser considerada para uma melhor compreens\u00e3o dos desafios que est\u00e3o sendo colocados para a humanidade, pois tem sido a partir dela que, sem percebermos, nos relacionamos com o mundo em nossa volta. Nesse sentido, ela talvez represente o componente chave para entendermos o que alimenta o nosso modo linear de pensar, a nossa cegueira cognitiva, a nossa acomoda\u00e7\u00e3o \u00e0 servid\u00e3o volunt\u00e1ria e o mais emblem\u00e1tico desafio do nosso tempo: a cis\u00e3o entre o homem e a natureza.<\/p>\n<p>Entramos nessa din\u00e2mica autodestrutiva em algum momento do neol\u00edtico, como apontam estudos de Maturana e outros, em um processo muito gradual que pode ter durado em torno de mil anos ou mais. Embora j\u00e1 seja poss\u00edvel observar muitos sinais de mudan\u00e7a no comportamento humano, libertando-se do patriarcado em dire\u00e7\u00e3o a uma nova cultura mais biocentrada e menos predat\u00f3ria e antivida, que come\u00e7a a perceber a multiplicidade, a incerteza, a diversidade, a contradi\u00e7\u00e3o, a interdepend\u00eancia, a alteridade e, especialmente, a \u00edntima liga\u00e7\u00e3o homem-natureza como atributos constituintes da complexidade do mundo real, a gravidade da crise planet\u00e1ria atual talvez n\u00e3o nos reserve tanto tempo assim para alcan\u00e7armos uma nova bifurca\u00e7\u00e3o cultural que nos permita reconciliar com a nossa condi\u00e7\u00e3o natural. Entretanto, pelo menos no campo da ci\u00eancia, as novas\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/as-complexidades-nos-salvarao-da-distopia\/\">teorias da complexidade<\/a>\u00a0(caos, neguentropia, auto-organiza\u00e7\u00e3o, fractais, autopoiese, l\u00f3gica\u00a0<em>fuzzy<\/em>, dentre outras) est\u00e3o \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o para essa dif\u00edcil tarefa. Falta-nos a supera\u00e7\u00e3o no campo da pol\u00edtica e da \u00e9tica, ainda sob as amarras do\u00a0<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-desenraizamento-da-democracia\/\">patriarcado<\/a>.<\/p>\n<p>Diante de um\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/tres-impasses-para-o-futuro-da-civilizacao\/\">impasse civilizat\u00f3rio<\/a>\u00a0de tal magnitude, como ent\u00e3o podemos vislumbrar a possibilidade de supera\u00e7\u00e3o dessa cultura patriarcal milenar e da crise de percep\u00e7\u00e3o da realidade que ela forjou para se manter? O cen\u00e1rio de crise planet\u00e1ria que estamos vivenciando, ainda que aparente cada dia mais insol\u00favel, parece apontar para duas formas de sairmos dessa armadilha ontol\u00f3gica. A primeira \u00e9 pela via da regenera\u00e7\u00e3o consciente, na medida em que mudamos o nosso modo de pensar, em especial as lideran\u00e7as nas empresas, institui\u00e7\u00f5es, comunidades e nos pa\u00edses, e passamos a ver, compreender, aceitar e, ent\u00e3o, lidar melhor com a complexidade do mundo real. A outra \u00e9 pela via de uma profunda regress\u00e3o civilizat\u00f3ria seguida pela barb\u00e1rie, como desdobramento da manuten\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica de puls\u00e3o de morte patriarcal que vem se manifestando de variadas formas na atualidade: conflitos armados, desastres ambientais, fome e desnutri\u00e7\u00e3o, desemprego, doen\u00e7as cr\u00f4nicas e infecciosas e outras formas de gera\u00e7\u00e3o de indig\u00eancias.<\/p>\n<p>A primeira via aparenta ser a mais improv\u00e1vel, pois n\u00e3o h\u00e1 nenhum esfor\u00e7o civilizat\u00f3rio em curso que aponte nesse sentido. A segunda hip\u00f3tese se faz mais presente a cada dia, a possibilidade da barb\u00e1rie generalizada, em que as agruras de um inevit\u00e1vel flagelo humanit\u00e1rio de escala planet\u00e1ria, que se anuncia, revelar\u00e3o a insustentabilidade da cultura patriarcal e tornar\u00e3o nossa realidade t\u00e3o insuport\u00e1vel que o ser humano perceber\u00e1, enfim, a necessidade de al\u00e7ar um novo patamar civilizat\u00f3rio, mais congruente com a nossa condi\u00e7\u00e3o natural. Seja l\u00e1 como for o desfecho desse grande impasse, ao que tudo indica, as palavras do fil\u00f3sofo h\u00fangaro Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros parecem estar mais pr\u00f3ximas do que est\u00e1 por vir ainda neste s\u00e9culo XXI: \u201ca famosa frase de Rosa Luxemburgo, \u2018socialismo ou barb\u00e1rie\u2019, precisa ser reformulada para o nosso tempo em \u2018barb\u00e1rie, se tivermos sorte\u2019. A aniquila\u00e7\u00e3o da humanidade \u00e9 a nossa sina se falharmos na conquista dessa montanha que \u00e9 o poder destrutivo e autodestrutivo das forma\u00e7\u00f5es estatais do sistema do capital\u201d.<\/p>\n<p>Para John Gray, uma das quest\u00f5es primordiais do mundo atual \u00e9 sabermos como lidar com as nossas ilus\u00f5es. Segundo ele, \u201cde agora em diante, nosso prop\u00f3sito ser\u00e1 identificar nossas imbat\u00edveis ilus\u00f5es. De que inverdades podemos nos livrar, e quais as que, sem elas, n\u00e3o podemos passar?\u201d. Chegou o tempo de acreditarmos que n\u00e3o estamos definitivamente condenados a viver sob as ilus\u00f5es de ordem, controle, domina\u00e7\u00e3o e hierarquia do patriarcado. Como todo o percurso civilizat\u00f3rio foi forjado a partir de um modo de viver patriarcal, dentro de um processo multissecular, tendemos a pensar que o patriarcado constitui um atributo existencial da condi\u00e7\u00e3o humana e, o que \u00e9 pior, o projetamos na natureza \u2013 da\u00ed a origem da nossa crise de percep\u00e7\u00e3o da realidade. Ao contr\u00e1rio, precisamos compreender que ele \u00e9 circunstancial, como Maturana e muitos outros sustentam. Portanto, se foi poss\u00edvel imergir nesse modo de viver, \u00e9 tamb\u00e9m razo\u00e1vel imaginar que podemos nos libertar dele.<\/p>\n<p>O fato inconteste \u00e9 que temos hoje uma civiliza\u00e7\u00e3o deslizando a passos largos para o colapso. As novas circunst\u00e2ncias para superarmos o nosso condicionamento patriarcal est\u00e3o dadas, seja pela improv\u00e1vel conscientiza\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as mundiais \u2013 a via da \u201creforma do pensamento\u201d e da regenera\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, proposta pelo soci\u00f3logo, fil\u00f3sofo e antrop\u00f3logo franc\u00eas Edgar Morin \u2013, seja pela indesej\u00e1vel via da regress\u00e3o e da barb\u00e1rie que se anuncia como a mais prov\u00e1vel. Insistir em viver no patriarcado \u00e9 viver numa in\u00fatil e infind\u00e1vel luta contra a realidade complexa que nos cerca. A \u00fanica luta que faz sentido, doravante, \u00e9 a luta contra os nossos conflitos internos, impingidos por essa pris\u00e3o patriarcal, na qual o homem tornou-se o inimigo de si mesmo.<\/p>\n<p>Reaprenderemos a lidar com a complexidade do mundo real? Esta talvez seja a grande quest\u00e3o do nosso tempo. \u201cVamos estourar por n\u00e3o compreender a complexidade\u201d, eis o alerta de Morin. Espero que, diante dessa insond\u00e1vel agonia civilizat\u00f3ria, na qual estamos mergulhando, consigamos compreender, aceitar e abra\u00e7ar a complexidade das realidades vivas que ainda temos e, assim, reencontrar nossa jovialidade contemplativa, tal como a dos macacos de Arthur Koestler!<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ALVES, JED. A 6\u00aa extin\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies \u00e9 na verdade o 1\u00ba evento de exterm\u00ednio em massa. Ecodebate, 08\/11\/2019. Dispon\u00edvel em http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594216-a-6-extincao-das-especies-e-na-verdade-o-1-evento-de-exterminio-em-massa-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves<\/p>\n<p>ALVES, JED. Desmatamento e insustentabilidade da popula\u00e7\u00e3o mundial. Ecodebate, 12\/02\/2021. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/606781-desmatamento-e-insustentabilidade-da-populacao-mundial-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves\">http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/606781-desmatamento-e-insustentabilidade-da-populacao-mundial-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves<\/a><\/p>\n<p>ATTENBOROUGH, David. Reportagem sobre o livro \u201cA Life on Our Planet\u201d. Infobase, 13\/09\/2020. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/602870-estamos-diante-da-possibilidade-real-de-uma-sexta-extincao-em-massa-afirma-david-attenborough\">http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/602870-estamos-diante-da-possibilidade-real-de-uma-sexta-extincao-em-massa-afirma-david-attenborough<\/a><\/p>\n<p>MORIN, Edgar. O m\u00e9todo 2: a vida da vida. Porto Alegre: Sulina, 2005.<\/p>\n<p>MORIN, Edgar. O m\u00e9todo 6: \u00e9tica. Porto Alegre: Sulina, 2007.<\/p>\n<p>GRAY, John. Cachorros de palha: reflex\u00f5es sobre humanos e outros animais. Rio de Janeiro: Record, 2006.<\/p>\n<p>GRAY, John. O sil\u00eancio dos animais: sobre o progresso e outros mitos modernos. Rio de Janeiro: Record, 2019.<\/p>\n<p>HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve s\u00e9culo XX: 1914-1991. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1995.<\/p>\n<p>MATURANA, Humberto R. Conversa\u00e7\u00f5es matr\u00edsticas e patriarcais. In: ______; VERDEN-Z\u00d6LLER, G. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. S\u00e3o Paulo: Palas Athena, 2004.<\/p>\n<p>M\u00c9SZ\u00c1ROS, \u00cdstvan. A montanha que devemos conquistar: reflex\u00f5es acerca do Estado. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2015.<\/p>\n<p>REVISTA GALILEU. Entrevista com Nick Bostrom. Ecodebate, 18\/05\/2012. Dispon\u00edvel em http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/509675-os-humanos-serao-responsaveis-por-sua-propria-extincao-entrevista-com-nick-bostrom<\/p>\n<p>SPUTNIK BRASIL. Putin: \u201cQuem dominar a intelig\u00eancia artificial governar\u00e1 o mundo\u201d, em 01\/09\/2017. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/br.sputniknews.com\/russia\/201709019252959-putin-inteligencia-artificial-dominara-mundo\/\">https:\/\/br.sputniknews.com\/russia\/201709019252959-putin-inteligencia-artificial-dominara-mundo\/<\/a><\/p>\n<p>WALLACE-WELLS, David. A terra inabit\u00e1vel: uma hist\u00f3ria do futuro. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/terraeantropoceno\/agonia-de-uma-civilizacao-forjada-no-patriarcado\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nio Sales Rios Neto &#8211; O machismo \u00e9 sua engrenagem mais vis\u00edvel; a ditadura do mercado, seu est\u00e1gio atual. Mas, h\u00e1 mil\u00eanios, esta l\u00f3gica de controle e domina\u00e7\u00e3o dissociou Humanidade da Natureza. 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