{"id":14972,"date":"2021-03-27T13:16:53","date_gmt":"2021-03-27T16:16:53","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14972"},"modified":"2021-03-27T13:16:53","modified_gmt":"2021-03-27T16:16:53","slug":"comuns-novo-fantasma-que-assombra-o-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/03\/27\/comuns-novo-fantasma-que-assombra-o-capital\/","title":{"rendered":"Comuns, novo fantasma que assombra o Capital"},"content":{"rendered":"<p><strong>Anna Grear<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>David Bollier<\/strong>\u00a0&#8211; O decl\u00ednio catastr\u00f3fico\u00a0e em c\u00e2mera lenta do capitalismo neoliberal e do Estado-na\u00e7\u00e3o nos oferece uma vis\u00e3o perturbadora. Os sintomas dessa press\u00e3o est\u00e3o por toda parte: ursos polares agarrados a blocos de gelo em derretimento; a chegada de refugiados desesperados nas costas da Europa; supremacistas brancos cheios de \u00f3dio que amea\u00e7am seus advers\u00e1rios com viol\u00eancia e cometem crimes terroristas; l\u00edderes autorit\u00e1rios \u2014 incluindo um ex-presidente dos Estados Unidos \u2014 desrespeitando o estado de direito; uma onda de \u201cmortes do desespero\u201d, causadas por suic\u00eddio, drogas ou \u00e1lcool; e assim por diante.<\/p>\n<p>As estruturas b\u00e1sicas da vida contempor\u00e2nea parecem estar desmoronando, como se n\u00e3o fossem mais capazes de conter as energias ca\u00f3ticas liberadas pelo capitalismo global, as tecnologias digitais, a cultura de mercado levada ao extremo e a modernidade. Podemos chamar esse fen\u00f4meno de um \u201cGrande Desmantelamento\u201d. Por\u00e9m, paradoxalmente, este per\u00edodo da hist\u00f3ria tamb\u00e9m pode ser chamado, com precis\u00e3o, de \u201cO Grande Despertar\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma consci\u00eancia crescente da necessidade fundamental de mudan\u00e7a na mentalidade e na cultura, como sugerido pelas marchas da juventude contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nos \u00faltimos tempos; a ascens\u00e3o, em muitos pa\u00edses, da pol\u00edtica progressista; e uma sensa\u00e7\u00e3o geral de que o sistema est\u00e1 quebrado e precisa ser substitu\u00eddo. Em meio ao desordenado desmantelamento de paradigmas obsoletos, nascem algumas sementes de mudan\u00e7a robustas, frescas e verdes \u2014 embora ainda marginais para a consci\u00eancia p\u00fablica. Um grupo crescente de autodenominados \u201cpartid\u00e1rios dos Comuns\u201d [orig.:\u00a0<em>commoners<\/em>], que trabalham bem longe dos c\u00edrculos da \u201copini\u00e3o respeit\u00e1vel\u201d, vem desenvolvendo novas estruturas de pensamento e plataformas tecnol\u00f3gicas inovadoras. Esses ativistas oferecem uma gama impressionante de abordagens criativas para os desafios centrais da organiza\u00e7\u00e3o social humana. Eles s\u00e3o pioneiros, por exemplo, em hackear criativamente o Direito e em inventar novos tipos de moedas. Eles repensam sistemas alimentares regionais e sistemas para manter compartilh\u00e1veis as sementes agr\u00edcolas. Tamb\u00e9m, est\u00e3o desenvolvendo novos modelos de produ\u00e7\u00e3o decentralizada (\u201cpeer-to-peer\u201d), como a \u201cprodu\u00e7\u00e3o cosmo-local\u201d, que permite que as pessoas compartilhem conhecimento e projetos globalmente, de maneira aberta e sem patentes (ao melhor estilo \u201copen source\u201d), enquanto constroem coisas f\u00edsicas localmente.<\/p>\n<p>Apesar das crises e dos traumas generalizados, o presente parece ser um momento f\u00e9rtil para reinventar o mundo com iniciativas colaborativas. Este livro explora algumas das mais promissoras delas, e d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0 proje\u00e7\u00e3o dessa nova consci\u00eancia e das vis\u00f5es de mundo que elas refletem. Rapidamente, fica claro que os bens comuns n\u00e3o s\u00e3o apenas recursos inertes e sem dono (por exemplo, os oceanos, o espa\u00e7o e a atmosfera), como os economistas tentam nos fazer acreditar.\u00a0<strong>Trata-se de sistemas ecossociais vivos, que incubam racionalidades alternativas.\u00a0<\/strong><strong>Ao contru\u00edrem o Comum<\/strong>, certos grupos de pessoas \u2014 alguns em grande escala \u2014 v\u00eam demonstrando maneiras novas de ser, compreender e agir no mundo, de forma muito profunda.<\/p>\n<p>Ao explorar as variadas e engenhosas maneiras por meio das quais as pessoas est\u00e3o curando o mundo e a si pr\u00f3prias das devasta\u00e7\u00f5es da modernidade e do capitalismo, fomos muito inspirados pelo t\u00edtulo e ideia central do livro marcante de Anna Lowenhaupt Tsing, \u201cMushroom at the End of the World: On the Possibility of Life in Capitalist Ruins\u201d (Cogumelos no Fim do Mundo: Sobre a possibilidade de vida em ru\u00ednas capitalistas) (1). Ela descreve seu livro como \u201cuma investiga\u00e7\u00e3o muito original da rela\u00e7\u00e3o entre a destrui\u00e7\u00e3o capitalista e a sobreviv\u00eancia colaborativa em paisagens multi-esp\u00e9cies, o pr\u00e9-requisito para a continuidade da vida na terra\u201d(2). Explorando como um cogumelo valioso e resistente, o matsutake, nasce e floresce em paisagens negligenciadas e disruptivas \u2014 e como os esfor\u00e7os humanos colaborativos s\u00e3o necess\u00e1rios para colher o matsutake \u2014 Tsing lan\u00e7a luz sobre o que ela chama de \u201cterceira natureza\u201d ou \u201co que consegue viver apesar do capitalismo\u201d(3). Compartilhamos da mesma convic\u00e7\u00e3o de Tsing sobre a import\u00e2ncia dos trabalhos colaborativos como essenciais para a continuidade da vida na Terra. A sobreviv\u00eancia colaborativa exigir\u00e1 certa experimenta\u00e7\u00e3o s\u00e9ria e criatividade. Isso significa come\u00e7os confusos, vontade de improvisar, novos tipos de institui\u00e7\u00f5es colaborativas e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma consci\u00eancia de que devemos agir e viver dentro de uma realidade ontol\u00f3gico-epistemol\u00f3gica narrada de outra forma.<\/p>\n<p>Apesar da aliena\u00e7\u00e3o produzida pelo saque capitalista e das condi\u00e7\u00f5es de precariedade que caracterizam a vida contempor\u00e2nea, Tsing sugere que \u00e9 preciso fazer mais do que s\u00f3 resistir e criticar nossa condi\u00e7\u00e3o. Precisamos \u201colhar ao redor para notar este estranho mundo novo e [\u2026] alongar a nossa imagina\u00e7\u00e3o para capturar seus contornos. \u00c9 aqui que os cogumelos entram em cena para colaborar. A vontade do Matsutake de surgir em paisagens destru\u00eddas nos permite explorar a ru\u00edna em que nosso lar coletivo se transformou (4).<\/p>\n<p>Sugerimos que os Comuns s\u00e3o tamb\u00e9m uma forma arquet\u00edpica de intelig\u00eancia biomaterial, que emerge das pr\u00f3prias paisagens devastadas das ru\u00ednas capitalistas. Os Comuns, assim como os fungos, criam ra\u00edzes em lugares inesperados, forjados por conex\u00f5es em rede, e expressam modos de evolu\u00e7\u00e3o muitas vezes improv\u00e1veis, por\u00e9m promissores. Os Comuns podem ser uma contribui\u00e7\u00e3o rica e promissora na busca pela sobreviv\u00eancia colaborativa, e os colaboradores deste livro mostram como as diversas formas de imagina\u00e7\u00e3o social est\u00e3o inventando novos modos de vida necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Embora o Comum se manifeste de muitas formas diferentes, ele geralmente desafia, em v\u00e1rios n\u00edveis de autoconsci\u00eancia, algumas estruturas fundamentais para a compreens\u00e3o da consci\u00eancia e do comportamento humanos, da organiza\u00e7\u00e3o social e da economia pol\u00edtica. Tentativas de repensar a cidade como um bem comum, de usar softwares de blockchain para permitir a coopera\u00e7\u00e3o em redes abertas e de integrar a produ\u00e7\u00e3o de alimentos com ecossistemas naturais: esses empreendimentos demonstram como a ontologia e a epistemologia da economia padr\u00e3o s\u00e3o irremediavelmente grosseiras e reducionistas. \u00c0 medida que o leitor avan\u00e7a pelos pr\u00f3ximos dez cap\u00edtulos, fica n\u00edtido que os paradigmas filos\u00f3ficos delineados por Adam Smith, John Locke, Thomas Hobbes e Ren\u00e9 Descartes \u2014 entre outros \u2014 parecem trajes desbotados de um pensamento vintage. As roupas ainda servem no que diz respeito ao pensamento e \u00e0 pr\u00e1tica sociopol\u00edtica, legal e econ\u00f4mica dominante, mas elas n\u00e3o caem bem no corpo, nem s\u00e3o adequadas para as circunst\u00e2ncias sem precedentes que a vida na Terra enfrenta.<\/p>\n<p>Neste volume, procuramos desconstruir algumas das estruturas desgastadas de pensamento que ainda comandam o debate p\u00fablico e esbo\u00e7ar os rudimentos de uma nova e hist\u00f3ria mundial e modo de vida que emergem. Se um Grande Despertar estiver em andamento (como acreditamos), \u00e9 hora de olharmos mais de perto algumas de suas iniciativas de ponta e suas provocantes implica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e jur\u00eddicas. \u00c9 hora de considerar como o Comum mudar\u00e1 a pol\u00edtica, a governan\u00e7a e o pr\u00f3prio estado-na\u00e7\u00e3o. Em dez ensaios de diversas perspectivas, este livro aborda muitas das mudan\u00e7as hist\u00f3ricas na pr\u00e1tica social, no direito, economia e filosofia pol\u00edtica que ainda n\u00e3o foram devidamente explorados.<\/p>\n<p>O livro abre com tr\u00eas ensaios que desconstroem a situa\u00e7\u00e3o global atual e suas m\u00faltiplas crises, especialmente a crise estrutural que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica representa para a vida moderna. Sam Adelman descreve o surgimento da grande narrativa do Antropoceno, contextualizando-a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes narrativas e outros tropos dominantes da modernidade sobre ci\u00eancia, raz\u00e3o e progresso, sem esquecer da intersec\u00e7\u00e3o entre modernidade e capitalismo. O cap\u00edtulo exp\u00f5e o mito do progresso que impulsiona a arrog\u00e2ncia do crescimento econ\u00f4mico, do eco-modernismo e do neoliberalismo. Tamb\u00e9m reflete sobre as narrativas que sustentam o Antropoceno, com relatos do mundo como naturalista, p\u00f3s-natureza, eco-catastrofista e ecomarxista (\u201cCapitaloceno\u201d). \u00c9 essencial, argumenta Adelman, ir al\u00e9m da \u201cera da irracionalidade\u201d e procurar \u201cum grande despertar\u201d.<\/p>\n<p>Em seu ensaio, Richard Falk aborda o horizonte da crise planet\u00e1ria, que vem se aproximando em velocidade, e as incertezas e dilemas fundamentais que ela apresenta. Ele argumenta que o mundo e suas popula\u00e7\u00f5es atualmente habitam numa \u201czona crepuscular\u201d confusa, na qual n\u00e3o est\u00e1 claro para onde vai migrar o poder, antes dominado por Estados, nos tempos futuros. Como Adelman, que aborda o problema da \u201cracionalidade do Holoceno\u201d \u2014 mentalidade de nossa era geol\u00f3gica atual \u2014 Falk observa o car\u00e1ter problem\u00e1tico da resolu\u00e7\u00e3o de problemas quando esta se encontra emaranhada nas estruturas, pr\u00e1ticas e procedimentos do Holoceno. Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, armas nucleares, a perda da biodiversidade, a persist\u00eancia da pobreza, fome e desnutri\u00e7\u00e3o, e a amea\u00e7a de uma doen\u00e7a pand\u00eamica est\u00e3o \u00e0 espreita, tornando-se mais terr\u00edveis \u00e0 medida que o estado-na\u00e7\u00e3o se dissipa.<\/p>\n<p>Os direitos humanos e os interesses globais tamb\u00e9m sofrem com a falta de mecanismos eficazes para sua prote\u00e7\u00e3o e, ainda assim, n\u00e3o temos nenhuma alternativa \u00f3bvia para a ordem mundial centrada no Estado \u2014 dilema que aponta para a necessidade de uma mudan\u00e7a radical.<\/p>\n<p>A transicionalidade tamb\u00e9m \u00e9 um tema central para Andreas Karitzis \u2014 mais especificamente a transicionalidade do sistema pol\u00edtico liberal. No entanto, Karitzis vai al\u00e9m do estreito campo de a\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica para argumentar que h\u00e1 uma necessidade urgente de as pessoas adotarem de maneira transformadora \u201cuma postura pessoal, a mentalidade coletiva e ferramentas de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social\u201d. De fato, \u00e9 um momento confuso porque tudo parece estar em fluxo, com \u201ctransforma\u00e7\u00f5es que v\u00eam abalando radicalmente as arquiteturas institucionais estabelecidas e mudando as regras e m\u00e9todos da pr\u00e1tica pol\u00edtica, ao mesmo momento em que novos atores come\u00e7am a surgir, complicando ainda mais as coisas\u201d. Um desafio nessa necess\u00e1ria repagina\u00e7\u00e3o do sistema envolve o desenvolvimento de novas ontologias para a vida pol\u00edtica e novas formas de pr\u00e1ticas cotidianas \u2014 um conjunto de capacidades culturais com nuances, que sejam mut\u00e1veis e criativas o suficiente para prosperar na transi\u00e7\u00e3o do per\u00edodo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Onde, ent\u00e3o, podemos encontrar essas formas de vida, essa nova ontologia? \u00c9 aqui que o Comum traz tanta esperan\u00e7a e criatividade. Neste livro, alguns autores oferecem uma pequena amostrade exemplos extra\u00eddos de outros campos, mais amplos e crescentes, da criatividade em formas de vida \u2014 dos espa\u00e7os digitais, da agricultura e da vida urbana, por exemplo \u2014 enquanto outros associam tais pr\u00e1ticas a bases ontol\u00f3gicas novas e vigorosas, incluindo as pr\u00f3prias novas bases ontol\u00f3gicas dos Comuns<strong>.<\/strong><\/p>\n<p>Michel Bauwens e Jose Ramos enquadram os Comuns num muito necess\u00e1rio \u201cmutualismo para o Antropoceno\u201d. Enquanto os indiv\u00edduos se limitam a registrar o momento contempor\u00e2neo como sendo de crise, a realidade \u00e9 que uma transi\u00e7\u00e3o global est\u00e1 em curso, nada menos do que o \u201cnascimento do \u2018planet\u00e1rio\u2019 como um elemento da experi\u00eancia humana, e [\u2026] a transi\u00e7\u00e3o das ordens sociais baseadas na explora\u00e7\u00e3o, para ordens sociais baseadas num mutualismo generativo\u201d. Essa \u00e9 uma conjuntura hist\u00f3rica, argumentam Bauwens e Ramos, em que a necessidade urgente de reduzir o impacto humano no planeta alia-se a abordagens de base comum que podem mitigar as crises sist\u00eamicas da economia pol\u00edtica. Os autores incitam uma re-imagina\u00e7\u00e3o coletiva da maneira como os seres humanos vivem juntos \u2014 como moradores urbanos, usu\u00e1rios da internet e atores pol\u00edticos \u2014 apontando que o Comum e o compartilhamento s\u00e3o \u201cdistribu\u00eddos globalmente, conectados em rede e altamente vis\u00edveis\u201d. O desafio central, argumentam, \u00e9 facilitar, em v\u00e1rios n\u00edveis, a mudan\u00e7a sist\u00eamica emergente para uma nova economia pol\u00edtica planet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Um aspecto fundamental dessa mudan\u00e7a \u2014 al\u00e9m de central para a pr\u00e1xis do Comum \u2014 \u00e9 a necessidade de resistir aos cercamentos. A mercantiliza\u00e7\u00e3o, privatiza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o da riqueza compartilhada s\u00e3o o refr\u00e3o, o\u00a0<em>leitmotiv<\/em>, de nossa \u00e9poca, facilitado pela prioriza\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel das formas jur\u00eddicas tradicionais de propriedade e contrato, que tendem a servir aos interesses excludentes de indiv\u00edduos e empresas. Os Comuns n\u00e3o s\u00e3o estranhos \u00e0s problem\u00e1ticas apresentadas por tal din\u00e2mica. Diante dessas press\u00f5es ferozes, Maywa Montenegro oferece um relato delicado, sens\u00edvel e \u00edntimo da luta para proteger as sementes de c\u00f3digo aberto.<\/p>\n<p>Esta luta \u00e9 centrada em novas formas para a \u201cliberdade de sementes\u201d, ideia que emerge do conceito dos Comuns. Diante do poder do mercado corporativo e de sua difus\u00e3o de cultivos transg\u00eanicos, pesticidas e herbicidas, al\u00e9m de patentes que privatizam a \u201criqueza comum\u201d, os movimentos sociais buscam recuperar aquilo que foi apropriado. O cap\u00edtulo de Montenegro, explorando a pr\u00e1tica do Comum como algo biocultural, localizado dentro de uma ordem pol\u00edtico-econ\u00f4mica emergente, tra\u00e7a as \u201corigens e o desenvolvimento inicial da Open Source Seed Initiative (OSSI \u2013 Iniciativa pelo C\u00f3digo Aberto das Sementes), que busca\u00a0<em>libertar a semente<\/em>\u201d. A OSSI, sugere Montenegro, \u00e9 um exemplo de um movimento crescente de comunh\u00e3o transnacional com o objetivo de \u201cdesbancar\u201d a propriedade intelectual.<\/p>\n<p>Primavera De Filippi e Xavier Lavayssiere pesquisam as tens\u00f5es an\u00e1logas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma e peer-to-peer na Internet. A internet j\u00e1 foi um ecossistema aberto para inovar sem necessidade de permiss\u00e3o e um terreno virtual f\u00e9rtil para o \u201csurgimento de comunidades baseadas em bens comuns que trabalham com regimes jur\u00eddicos alternativos, e de novos modelos participativos para promover a abertura e a colabora\u00e7\u00e3o distribu\u00edda\u201d. Por\u00e9m, nos \u00faltimos anos, a Internet tem se tornado cada vez mais dominada por grandes corpora\u00e7\u00f5es que usam plataformas centralizadas e aplicativos de propriedade para controlar, de fato, infraestruturas online essenciais.<\/p>\n<p>Os autores observam que, mais recentemente, uma nova tecnologia de software surgiu: o blockchain, combinando tecnologias peer-to-peer, teoria dos jogos e algoritmos criptogr\u00e1ficos simples (\u201cprimitivos criptogr\u00e1ficos\u201d). No entanto, essa tecnologia depende \u2014 pelo menos em sua forma atual, e apesar de toda a sua promessa de descentraliza\u00e7\u00e3o e desintermedia\u00e7\u00e3o \u2014 em \u00faltima inst\u00e2ncia, da din\u00e2mica do mercado e dos incentivos econ\u00f4micos. De Filippi e Lavayssiere abordam essas defici\u00eancias, argumentando que \u201cdevemos elaborar um modelo de administra\u00e7\u00e3o mais abrangente, que se estenda para al\u00e9m do reino das a\u00e7\u00f5es verific\u00e1veis somente por algoritmos e que apoie ou facilite a gest\u00e3o da infraestrutura\u201d. Um novo modelo de regulamenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio para estabelecer uma economia colaborativa que seja receptiva \u00e0s intera\u00e7\u00f5es diretas entre uma rede de rela\u00e7\u00f5es par-a-par, sem a necessidade de uma autoridade externa ou de um intermedi\u00e1rio.<\/p>\n<p>Essas tens\u00f5es familiares \u2014 centraliza\u00e7\u00e3o e controle<em>versus<\/em>pr\u00e1ticas do Comum inovadoras, conectadas e distribu\u00eddas \u2014 s\u00e3o novamente examinadas no cap\u00edtulo de David Bollier. Observando o poder e a diversidade do Comum na vida contempor\u00e2nea, Bollier aponta para as dificuldades enfrentadas pela pr\u00e1tica do Comum como uma \u201catividade legal\u201d. Os Comuns, observa, s\u00e3o alheios a muitos aspectos do sistema de mercado\/Estado dominante, e \u201co Estado est\u00e1 predisposto a ignorar os bens comuns, criminalizar suas atividades ou explorar seus recursos em alian\u00e7a com a classe empresarial\u201d. Em resposta, conforme o \u201cUniverso Comum\u201d se desenvolve, \u201cum grande desafio \u00e9 imaginar como a lei poderia apoiar o Comum de maneira afirmativa\u201d. Bollier explora uma s\u00e9rie de iniciarivas de \u201chackeamento do Direito\u201d \u2014 adapta\u00e7\u00f5es da lei vigente, que tentam tornar a rela\u00e7\u00e3o entre o Comum e a lei estatal moderna mais compat\u00edvel funcionalmente. Os hacks legais, argumenta Bollier, \u201ct\u00eam proliferado nos \u00faltimos anos, \u00e0 medida que os Comuns descobrem que as institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas estatais \u2014 parlamentos, tribunais, \u00f3rg\u00e3os reguladores \u2014 est\u00e3o simplesmente alinhadas demais com os interesses corporativos para oferecer um apoio genu\u00edno aos bens comuns.\u201d<\/p>\n<p>Essa resist\u00eancia do direito ao Comum, quando vista sob a luz dos profundos compromissos do sistema jur\u00eddico, n\u00e3o surpreende \u2014 principalmente, sob o prisma do sistema jur\u00eddico que existe nas grandes narrativas da modernidade e do capital, conforme exposto por Adelman no cap\u00edtulo inicial do livro. Em seu cap\u00edtulo, Vito De Lucia examina criticamente os fundamentos profundos do Direito, caracterizando os bens comuns como \u201cum horizonte rico e promissor, onde as pr\u00e1ticas tentam resistir \u00e0 crescente invas\u00e3o da modernidade capitalista nos ecossistemas naturais e nas comunidades\u201d.<\/p>\n<p>De Lucia nos oferece uma caracteriza\u00e7\u00e3o do Comum como resist\u00eancia atrav\u00e9s da conversa cr\u00edtica e direta com os pr\u00f3prios bens comuns, oferecendo, assim, uma an\u00e1lise da intersec\u00e7\u00e3o conceitual entre o Comum, a ecologia e o direito, que ele v\u00ea como \u201cum espa\u00e7o produtivo de engajamento te\u00f3rico, para repensar o direito com e por meio da ecologia\u201d. Para De Lucia, os partid\u00e1rios dos Comuns repensam a \u201cNatureza\u201d respondendo ao mundo vivo como \u201cco-participante(s), dentro de um conjunto de rela\u00e7\u00f5es colaborativas\u201d, nas quais os humanos det\u00eam um papel crucial em meio ao esfor\u00e7o para integrar o natural e o artificial dentro de \u201cum todo org\u00e2nico\u201d. Um objetivo central da an\u00e1lise de De Lucia \u00e9 oferecer um \u201cpensamento do direito al\u00e9m do Direito, onde o Direito com D mai\u00fasculo \u00e9 definido para representar a modernidade jur\u00eddica.\u201d Contra as aspira\u00e7\u00f5es universalistas e cercamentos totalizantes do Direito, De Lucia posiciona os bens comuns como um apanhado de montagens complexas e abertas, conjugadas frouxamente, a partir das quais um tipo de lei mais respons\u00e1vel e mais contestador poderia emergir.<\/p>\n<p>Na quest\u00e3o da complexidade, Paul Hartzog oferece um relato rigoroso de uma nova realidade din\u00e2mica e n\u00e3o-linear. Hartzog argumenta que o Comum, a coopera\u00e7\u00e3o e os sistemas complexos se sinergizam de maneiras que alavancam a diversidade, num efeito que ele chama de \u201cO Mecanismo da Diferen\u00e7a\u201d. Isso expressa um agrupamento din\u00e2mico e adaptativo de novas formas de espa\u00e7o social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico em que novos modos de ser, \u201cdiversos e em evolu\u00e7\u00e3o, fluidos e an\u00e1rquicos\u201d, v\u00eam surgindo. Este novo espa\u00e7o, argumenta Hartzog, \u00e9 \u201contologicamente generativo no sentido de que cria e ativa continuamente novas formas de diferen\u00e7a, resultando em uma\u00a0<em>revolu\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua<\/em>.\u201d Em \u00faltima an\u00e1lise, ele argumenta, essa nova situa\u00e7\u00e3o exige que abracemos a colabora\u00e7\u00e3o horizontal e a diversidade como necessidades funcionais, em vez de continuar a impor regimes de conformidade, hierarquia e similaridade. Descritivamente, o objetivo de Hartzog \u00e9 produzir uma compreens\u00e3o de sistemas e padr\u00f5es adaptativos complexos. Normativamente, seu objetivo \u00e9 esbo\u00e7ar a possibilidade pr\u00e1tica de aproveitar a complexidade para \u201ccriar uma civiliza\u00e7\u00e3o mais harmoniosa, consciente e justa\u201d.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo final, Anna Grear re\u00fane e d\u00e1 coes\u00e3o a temas que aparecem de diversas maneiras nos cap\u00edtulos anteriores. Direcionando sua an\u00e1lise firmemente contra a neoliberaliza\u00e7\u00e3o da natureza, Grear volta-se para um Novo Materialismo cr\u00edtico e politicamente consciente como a base para a ontologia comum. Em termos convergentes com a sugest\u00e3o de De Lucia de que os partid\u00e1rios dos Comuns veem a \u201cNatureza\u201d como \u201cum co-participante em um conjunto de rela\u00e7\u00f5es colaborativas\u201d, Grear explora o que pode significar pensar em agentes n\u00e3o-humanos como Comuns. Ela leva essa linha de pensamento ainda mais longe, abra\u00e7ando a \u201ca\u00e7\u00e3o\u201d da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica e considerando os\u00a0<em>insights\u00a0<\/em>potenciais para uma ecologia pol\u00edtica dos bens comuns. Em \u00faltima an\u00e1lise, argumenta Grear, \u201ca natureza transcorp\u00f3rea do risco clim\u00e1tico e os fluxos t\u00f3xicos que marcam toda a exist\u00eancia planet\u00e1ria sugerem a import\u00e2ncia vital de uma onto-epistemologia comum viva, altamente politizada e cr\u00edtica para com as implica\u00e7\u00f5es potencialmente opressivas da \u2018natureza\u2019, como uma constru\u00e7\u00e3o, para alertar sobre seu padr\u00e3o de injusti\u00e7as hist\u00f3ricas e a conex\u00e3o destas com as p\u00e9ssimas distribui\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas do risco, perigo, vida e morte\u201d.<\/p>\n<p>Para Grear, os relatos feministas do Novo Materialismo depositam sua esperan\u00e7a num vocabul\u00e1rio e numa abordagem que ressignifique o Comum como uma forma de onto-insurg\u00eancia humana-n\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Juntos, os cap\u00edtulos do livro oferecem o encontro com uma gama de reflex\u00f5es centradas no Comum. De maneiras diferentes, eles abordam as tens\u00f5es planet\u00e1rias causadas pela abordagem neoliberal e pela eco-destrutividade, ao mesmo tempo em que ilustram o poder do Comum, complexo e adaptativo, no cultivo de um novo paradigma. Se os tra\u00e7os deste novo mundo permanecem apenas vagamente percept\u00edveis, nos termos da ordem atual \u2014 e pior, sofrendo forte resist\u00eancia do sistema de mercado\/estado \u2013 somos tentados a invocar a resposta de Galileu quando for\u00e7ado a se retratar sobre sua afirma\u00e7\u00e3o de que era a Terra que se movia torno do sol: \u201c\u2026no entanto ela se move\u201d.<\/p>\n<p>Sistemas que dependem de uma intelig\u00eancia distribu\u00edda, colabora\u00e7\u00e3o da comunidade, administra\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e do esp\u00edrito de compartilhamento s\u00e3o notavelmente generativos. Eles s\u00e3o estruturalmente capazes de atender \u00e0s necessidades de maneiras flex\u00edveis e respeitadoras do planeta. S\u00e3o socialmente construtivos e responsivos \u00e0s pessoas que vivem dentro deles. Sua grande promessa, embora ainda embrion\u00e1ria, baseia-se em uma profunda mudan\u00e7a ontoepistemol\u00f3gica na maneira como as pessoas abordam o mundo. \u00c9 precisamente por isso que novos\/velhos sistemas de constru\u00e7\u00e3o do Comum oferecem um espa\u00e7o de solu\u00e7\u00e3o t\u00e3o rico, e o motivo pelo qual eles representam algo como um Grande Despertar para a mentalidade moderna. O Comum n\u00e3o busca projetos m\u00e1gicos de mudan\u00e7a, mas sim padr\u00f5es e normas evidentes que permitam \u00e0s pessoas construir novos tipos de institui\u00e7\u00f5es baseadas em suas necessidades reais, onde elas realmente possam viver numa conex\u00e3o entre pontos humanos e n\u00e3o humanos. Resumindo: a constru\u00e7\u00e3o do Comum oferece uma estrat\u00e9gia evolucion\u00e1ria convincente para escapar de alguns becos sem sa\u00edda estruturais, nos quais a humanidade ainda hoje se encontra presa.<\/p>\n<ol>\n<li>Anna Lowenhaupt Tsing,\u00a0<em>Mushroom at the End of the World: On the Pos-<\/em><em>sibility of Life in Capitalist Ruins<\/em> (Princeton: Princeton University Press,\u00a02015)<\/li>\n<\/ol>\n<ol>\n<li>Ibid., dust jacket.<\/li>\n<li>Ibid, viii.<\/li>\n<li>Ibid, 3.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/comuns-novo-fantasma-que-assombra-o-capital\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anna Grear\u00a0e\u00a0David Bollier\u00a0&#8211; O decl\u00ednio catastr\u00f3fico\u00a0e em c\u00e2mera lenta do capitalismo neoliberal e do Estado-na\u00e7\u00e3o nos oferece uma vis\u00e3o perturbadora. 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