{"id":14963,"date":"2021-03-25T12:41:38","date_gmt":"2021-03-25T15:41:38","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14963"},"modified":"2021-03-22T21:43:24","modified_gmt":"2021-03-23T00:43:24","slug":"a-invasao-do-totalitarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/03\/25\/a-invasao-do-totalitarismo\/","title":{"rendered":"A invas\u00e3o do totalitarismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Malu Delgado<\/strong> &#8211; \u201cEstado e democracia: uma introdu\u00e7\u00e3o ao estudo da pol\u00edtica\u201d, de Andr\u00e9 Singer, Cicero Araujo e Leonardo Belinelli (Editora Zahar), \u00e9 uma esp\u00e9cie de convite arqueol\u00f3gico: somente pela reconstru\u00e7\u00e3o das civiliza\u00e7\u00f5es antigas se pode compreender o conceito da pol\u00edtica e o atual quadro mundial de esgar\u00e7amento da democracia, com o avan\u00e7o de governos de espectros totalit\u00e1rios. O Brasil sob o comando de Jair Bolsonaro \u00e9 um reflexo desse fen\u00f4meno, mas o livro n\u00e3o disseca a realidade brasileira. Aponta, no entanto, a urg\u00eancia da a\u00e7\u00e3o. \u201cPara entrar em a\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio saber como atuar e, sobretudo, em que dire\u00e7\u00e3o faz\u00ea-lo. Construir uma vis\u00e3o dos problemas e afiar os instrumentos te\u00f3ricos permitem a boa interven\u00e7\u00e3o da realidade. A pol\u00edtica, ali\u00e1s, sempre foi pr\u00e1xis: pr\u00e1tica que reflete sobre si mesma\u201d, ensinam os autores, professores do Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da USP.<\/p>\n<p>Em meio ao esgotamento produzido pela pandemia, o cientista social\u00a0Andr\u00e9 Singer\u00a0admite que \u201ca situa\u00e7\u00e3o geral \u00e9 muito deprimente\u201d, e o fato de n\u00e3o parecer existir luz ao fim do t\u00fanel no Brasil torna ainda mais \u00e1rido nosso cotidiano. A produ\u00e7\u00e3o intelectual, ao menos, segue a todo vapor. Ex-porta-voz do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, Singer falou \u00e0\u00a0<strong>Quatro Cinco Um<\/strong>\u00a0na semana em que o petista recuperou os direitos pol\u00edticos e se recolocou no jogo, democr\u00e1tico, de disputa pelo poder.<\/p>\n<p>O pronunciamento do ex-presidente, uma lideran\u00e7a com densidade eleitoral, enfatiza Singer, foi suficiente para que se enxergasse de maneira clara como o Brasil vem se afastando continuamente da democracia. O autor rejeita as teses de polariza\u00e7\u00e3o entre Lula e Bolsonaro e refor\u00e7a que o l\u00edder petista, independentemente das avalia\u00e7\u00f5es que se fa\u00e7am sobre sua densidade eleitoral, joga no tabuleiro democr\u00e1tico, o que o distingue sobremaneira de Bolsonaro. \u201cO campo da esquerda n\u00e3o radicalizou. O ex-presidente Lula \u00e9 de fato uma lideran\u00e7a predominante neste campo, sempre foi. E uma lideran\u00e7a de natureza conciliadora, sobretudo depois que chegou ao governo. Lula n\u00e3o deixou de ser conciliador em nenhum momento, mesmo ao longo deste processo tudo.\u201d O radicalismo, enfatiza o autor, parte da extrema direita, um grupo que precisa ser contido e isolado sob pena de assistirmos passivos \u00e0 fal\u00eancia do modelo democr\u00e1tico brasileiro.<\/p>\n<p>Ao percorrer os conceitos de Estado e democracia, em etapas hist\u00f3ricas, de Atenas, Roma e Esparta \u00e0 onda antidemocr\u00e1tica contempor\u00e2nea, os autores apontam que vivemos hoje um momento novo, \u201cque carrega impasses antigos\u201d. A trilha de investiga\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica e documental proposta \u2013 para que os conceitos da pol\u00edtica e da forma\u00e7\u00e3o do Estado moderno se tornem compreens\u00edveis \u2013 se escora nos alem\u00e3es Hannah Arendt e Max Weber. A primeira, que entende a pol\u00edtica como a pr\u00e1tica coletiva da liberdade. O segundo, para quem a pol\u00edtica \u00e9 a luta pela dire\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Se o livro aponta os riscos iminentes \u00e0 democracia, no Brasil e no mundo, n\u00e3o ousa dar f\u00f3rmulas de a\u00e7\u00e3o. \u201cSuprimida a democracia, ca\u00edmos na barb\u00e1rie. Estamos confrontados realmente com o pior. O que pode vir por a\u00ed infelizmente \u00e9 o pior. Eu e meus colegas n\u00e3o temos nenhuma alegria de dizer isso, mas \u00e9 nosso papel dizer.\u201d A trag\u00e9dia humanit\u00e1ria com a Covid-19 fortalece tend\u00eancias autorit\u00e1rias, e o Brasil n\u00e3o foge \u00e0 regra, pontua Singer. Ainda que seja um livro sobre teoria pol\u00edtica, a pergunta inc\u00f4moda emerge em cada p\u00e1gina: \u201cA todos os cidad\u00e3os est\u00e1 colocada essa quest\u00e3o: o que n\u00f3s vamos fazer diante desta situa\u00e7\u00e3o?\u201d, provoca o pr\u00f3prio Singer, apelando a uma a\u00e7\u00e3o equilibrada, racional e, sobretudo, democr\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>O livro \u00e9 dedicado a estudantes de pol\u00edtica, mas n\u00e3o \u00e9 urgente abordar esse tema com a sociedade em geral, uma vez que voc\u00eas, autores, enfatizam a necessidade de se discutir pol\u00edtica e democracia diante das amea\u00e7as de governos de espectros totalit\u00e1rios no mundo e no Brasil?<\/strong><br \/>\nAo escrever o livro, ficou claro que quer\u00edamos atingir um duplo prop\u00f3sito: produzir um texto que tivesse essa finalidade mesmo, ou seja, de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica, que pode at\u00e9 ser pr\u00e9-universit\u00e1ria; ou para um segundo prop\u00f3sito, que \u00e9 facilitar ou permitir o acesso de pessoas que querem estudar a pol\u00edtica, mas n\u00e3o est\u00e3o engajados em nenhuma institui\u00e7\u00e3o formal. H\u00e1 um fen\u00f4meno paradoxal, mas a extrema direita no mundo est\u00e1 politizando as sociedades. As pessoas est\u00e3o percebendo que est\u00e1 acontecendo alguma coisa muito s\u00e9ria no plano da pol\u00edtica e n\u00f3s achamos que h\u00e1 um n\u00famero maior de pessoas que querem entender o que est\u00e1 acontecendo. E para entender o que est\u00e1 acontecendo, precisa entender como funciona a pol\u00edtica. A gente tamb\u00e9m gostaria que pessoas que n\u00e3o t\u00eam engajamento formal com institui\u00e7\u00f5es de ensino pudessem utilizar esse livro.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cprimeiros passos\u201d. Imaginamos que, se a pessoa estudar o livro, ela sai deste percurso com condi\u00e7\u00e3o de entrar em outros temas da pol\u00edtica com uma bagagem, um patamar de compreens\u00e3o de conceitos. Dedicar aos estudantes da pol\u00edtica \u00e9 dedicar aos estudantes de forma geral. Pensamos bastante nesta dedicat\u00f3ria. Quando falamos de estudantes da pol\u00edtica, n\u00e3o precisa ser um estudante formal. Embora a gente queira, tamb\u00e9m, agradecer aos estudantes que dialogaram conosco e foram a motiva\u00e7\u00e3o do livro. Hoje h\u00e1 um problema com a democracia no mundo. O livro, ent\u00e3o, adquiriu um tipo de atualidade e de urg\u00eancia. Resolvemos n\u00e3o escapar da quest\u00e3o. Tentamos incorporar o problema ao livro. O que estamos fazendo n\u00e3o \u00e9 uma discuss\u00e3o do problema da democracia atual, mas \u00e9 uma discuss\u00e3o sobre como a partir de conceitos b\u00e1sicos voc\u00ea pode abordar o problema atual.<\/p>\n<p><strong>Ao fazer uma extensa an\u00e1lise sobre o conceito de pol\u00edtica, e como isso evolui historicamente, o livro reflete sobre dois pilares fundamentais, a liberdade e a viol\u00eancia. Faz sentido transpor esse entendimento hist\u00f3rico para o que est\u00e1 acontecendo no Brasil hoje, dentro dos conceitos de Hannah Arendt e Max Weber?<\/strong><br \/>\nEssa polaridade entre Hannah Arendt e Max Weber tem tudo a ver. O que Arendt diz, a partir de uma reflex\u00e3o sobre a democracia antiga, \u00e9 que n\u00e3o existe pol\u00edtica sem liberdade, igualdade e decis\u00f5es coletivas tomadas de maneira, digamos assim, iluminada, esclarecida. \u00c9 o ponto de partida. Essa formula\u00e7\u00e3o colide com outra, de Weber, sobre a forma\u00e7\u00e3o do Estado moderno, para quem a pol\u00edtica tem a ver com o monop\u00f3lio da viol\u00eancia. Hannah Arendt associa pol\u00edtica com liberdade; Weber, com viol\u00eancia. Na realidade, as duas coisas existem. N\u00e3o podemos negar nenhuma. Por isso optamos por essa polaridade. Quando voc\u00ea tem hoje na pol\u00edtica movimentos de supress\u00e3o da liberdade, ela s\u00f3 vai ocorrer pela viol\u00eancia. Voc\u00ea n\u00e3o vai convencer o conjunto da sociedade de que ela quer deixar de ser livre, voluntariamente. Ent\u00e3o, ter\u00e1 que haver repress\u00e3o. Esse \u00e9 o tipo de uso de viol\u00eancia que, quando concentrada no Estado, causa muito medo. \u00c9 o fantasma da modernidade. A gente viu o que acontece quando isso toma conta, por exemplo, nos anos 30, na It\u00e1lia e principalmente Alemanha. E tamb\u00e9m, na vis\u00e3o da Hannah Arendt, na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica depois de 1928, que s\u00e3o os fen\u00f4menos do totalitarismo. Portanto, essa polaridade faz sentido e \u00e9 por isso que come\u00e7amos e terminamos o livro dizendo que a pol\u00edtica transita entre a esperan\u00e7a e o medo. Esses dois sentimentos est\u00e3o sempre presentes.<\/p>\n<h3>\u2018Movimentos totalit\u00e1rios s\u00e3o pra valer. Se n\u00e3o acordarmos, ser\u00e1 tarde demais\u2019<\/h3>\n<p><strong>Considerando a realidade brasileira hoje, e o que se v\u00ea e se vive no governo Bolsonaro, como seria poss\u00edvel transpor esses dois elementos, da liberdade e do Estado controlador, com o monop\u00f3lio do uso da for\u00e7a?<\/strong><br \/>\nAqui no Brasil uma corrente explicitamente antidemocr\u00e1tica, contra a liberdade, e autorit\u00e1ria, chegou ao governo federal. Nesta medida, os\u00a0temores\u00a0de que essa posi\u00e7\u00e3o possa usar os instrumentos do Estado para, efetivamente, suprimir a liberdade, passam a ser enormes. Ou seja, nossa situa\u00e7\u00e3o, aqui no Brasil, \u00e9 de grave amea\u00e7a \u00e0 liberdade e \u00e0 democracia. Tentamos dizer no \u00faltimo cap\u00edtulo que, uma vez que \u00e9 um processo incremental, que o Adam Przeworski [cientista pol\u00edtico polon\u00eas, autor de\u00a0<em>Crises da Democracia<\/em>] chama de autoritarismo furtivo, muitas vezes a sociedade n\u00e3o percebe o que est\u00e1 acontecendo.\u00a0Pode-se jurar fidelidade \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o e, no momento seguinte, cometer a\u00e7\u00f5es que, na pr\u00e1tica, s\u00e3o amea\u00e7as ao Estado democr\u00e1tico de direito. Para a sociedade n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil enxergar isso. Sabemos que muita gente, na \u00e9poca da elei\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 depois, comentava: Ah, ningu\u00e9m vai fazer nada, \u00e9 s\u00f3 um jeito de falar. N\u00f3s n\u00e3o achamos isso. E a experi\u00eancia internacional est\u00e1 mostrando que n\u00e3o \u00e9 verdade. Um caso importante foi a invas\u00e3o efetiva do Congresso americano no dia 6 de janeiro. Neste dia, me lembro de ter visto coment\u00e1rios de cientistas pol\u00edticos norte-americanos dizendo que muita gente avisou, e n\u00e3o quiseram acreditar.<\/p>\n<p><strong>O livro foi conclu\u00eddo antes da invas\u00e3o do Capit\u00f3lio, um epis\u00f3dio que suscitou compara\u00e7\u00f5es com o que poderia ocorrer aqui no Brasil. O que podemos esperar em 2022?<\/strong><br \/>\nQuando ocorreu a invas\u00e3o, para n\u00f3s n\u00e3o foi motivo de perplexidade, porque o livro avisa que esses movimentos em curso s\u00e3o s\u00e9rios, n\u00e3o s\u00e3o uma piada, por mais que se disfarcem de coisa engra\u00e7ada. Essa apar\u00eancia bizarra, exc\u00eantrica, que certas lideran\u00e7as t\u00eam\u00a0\u00e9 tudo cortina de fuma\u00e7a. Eu preferiria muito n\u00e3o acreditar nisso, mas esses movimentos s\u00e3o pra valer, e se a gente n\u00e3o acordar vai ser tarde demais. Quando aconteceu [a invas\u00e3o no Congresso dos EUA] foi a confirma\u00e7\u00e3o de que est\u00e1vamos certos. Em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil, \u00e9 quase que evidente, pois o atual presidente da Rep\u00fablica disse que aqui aconteceria pior. Ele vem dizendo que o mecanismo da urna eletr\u00f4nica leva \u00e0 fraude. Na elei\u00e7\u00e3o de 2018 j\u00e1 houve v\u00e1rios movimentos dizendo que n\u00e3o aceitariam o resultado negativo. Isso n\u00e3o pode.<\/p>\n<p>Uma regra b\u00e1sica da democracia\u00a0que dois autores\u00a0\u2013\u00a0Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de\u00a0<em>Como as democracias morrem<\/em>\u00a0[tamb\u00e9m da Editora Zahar] \u2013\u00a0mostram com muita clareza \u00e9 que os concorrentes se comprometem a aceitar o resultado, seja ele qual for. \u00c9 fundamental que quem est\u00e1 no poder aceite que perdeu e passe o cargo a quem venceu, que \u00e9 o opositor. A altern\u00e2ncia de poder por meios pac\u00edficos \u00e9 a ess\u00eancia da democracia. Se isso n\u00e3o existir, acabou. Quando se come\u00e7a a dizer: n\u00e3o vou aceitar se n\u00e3o ganhar, a democracia acabou, pura e simplesmente. E aqui \u00e9 expl\u00edcito. Acham que s\u00f3 n\u00e3o vai haver fraude se um lado ganhar. A ess\u00eancia da democracia, como diz Przeworski, \u00e9 a incerteza. Voc\u00ea n\u00e3o sabe quem vai ganhar. \u00c9 assim que funciona.<\/p>\n<p>O livro\u00a0pretende trazer uma vis\u00e3o muito realista da pol\u00edtica. Por isso fizemos quest\u00e3o de trazer o ponto de vista do Weber. Porque se a gente ficasse s\u00f3 com o ponto de vista da Hannah Arendt, poderia levar o leitor a uma leitura excessivamente ut\u00f3pica. A pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 utopia. A pol\u00edtica \u00e9 uma pr\u00e1tica, uma pr\u00e1xis que reflete sobre si mesma. E queremos entender essa pr\u00e1tica. Costumo dizer que toda pr\u00e1tica humana, como dizia Alexander Hamilton, \u00e9 feita por seres humanos que n\u00e3o s\u00e3o anjos. O que os homens fazem nunca \u00e9 s\u00f3 bom, s\u00f3 voltado para o bem, infelizmente. Mas \u00e9 a verdade. E trabalhamos com o p\u00e9 no ch\u00e3o.\u00a0A democracia real \u00e9 cheia de contradi\u00e7\u00f5es, cheia de problemas, mas cont\u00e9m uma dose do que chamamos de projeto civilizat\u00f3rio. Suprimida a democracia, ca\u00edmos na barb\u00e1rie. Agora, estamos confrontados realmente com o pior. O que pode vir por a\u00ed infelizmente \u00e9 o pior. Acho que eu e meus colegas de livro n\u00e3o temos nenhuma alegria de dizer isso, mas \u00e9 nosso papel dizer.<\/p>\n<p><strong>E o que \u00e9 esse pior no caso brasileiro? \u00c9 um modelo autocr\u00e1tico, totalit\u00e1rio de governo, um retorno a uma esp\u00e9cie de ditadura apoiada por militares, um novo modelo militar de gest\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAbstratamente falando \u00e9 a inser\u00e7\u00e3o de elementos totalit\u00e1rios. Vivemos no Brasil o que \u00e9 parte de um movimento mundial. Se pegarmos a an\u00e1lise da Hannah Arendt, o totalitarismo \u00e9 uma tentativa de extin\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. Quando ela diz isso, enfatiza que extinguir a pol\u00edtica \u00e9 mudar a natureza humana. Como diria Arist\u00f3teles, o homem \u00e9 um animal pol\u00edtico, no sentido de que \u00e9 um animal social. Temos uma tend\u00eancia natural de nos agregarmos e tomarmos decis\u00f5es coletivamente. A ideia de extinguir a pol\u00edtica \u00e9 que as pessoas n\u00e3o se vejam mais como parte de um coletivo, elas se veem como indiv\u00edduos isolados, atomizados numa massa. Todos est\u00e3o ali como parte de uma mesma massa, mas sem organicidade. Eles n\u00e3o se organizam. Esse \u00e9 um horizonte abstrato que preocupa. O que est\u00e1 acontecendo hoje \u00e9 um neoliberalismo que desestrutura as classes sociais, a classe trabalhadora, atomiza.<\/p>\n<p>Nessa \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d do mercado de trabalho, as pessoas n\u00e3o t\u00eam mais local de trabalho, hor\u00e1rio de trabalho, e nem divis\u00e3o de trabalho com os colegas que as fazem se sentir parte de um grupo. Cada um trabalha sozinho, por horas infinitas, sentindo que \u00e9 um sujeito isolado. E isso \u00e9 muito perigoso, e \u00e9 um fen\u00f4meno geral. Mais concretamente,\u00a0o que nos preocupa \u00e9 uma caminhada que vai na dire\u00e7\u00e3o de um regime que vai se desdemocratizando, perdendo a sua condi\u00e7\u00e3o efetiva de democracia. Vamos lembrar que, em 2020, segundo\u00a0<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/vou-intervir\/\">revelou a revista<em>\u00a0Piau\u00ed<\/em><\/a>, o presidente chegou a reunir ministros para discutir o fechamento do Supremo Tribunal Federal. Mesmo que n\u00e3o ocorram esses tipos de rupturas, que n\u00e3o est\u00e3o descartadas, estamos assistindo a uma eros\u00e3o cont\u00ednua da democracia. Em qual tipo de regime ir\u00edamos cair eu n\u00e3o posso dizer. Como s\u00e3o fen\u00f4menos novos, possivelmente n\u00e3o tenha a cara da ditadura militar como vivemos no passado, mas, seja como for, j\u00e1 n\u00e3o estamos mais numa condi\u00e7\u00e3o plenamente democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>E \u00e9 significativo o que aconteceu nesta semana: uma decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal recolocou o ex-presidente Lula na posi\u00e7\u00e3o de poder ser candidato em 2022. S\u00f3 isso j\u00e1 mudou o quadro, porque entrou em cena uma lideran\u00e7a que tem hist\u00f3ria, e que tem densidade eleitoral. N\u00e3o importa a avalia\u00e7\u00e3o que se fa\u00e7a dessa densidade neste momento, mas \u00e9 o reconhecimento de um elemento objetivo: se trata de uma lideran\u00e7a que estava exclu\u00edda do processo e que, ao ser inclu\u00edda, muda o quadro no sentido democr\u00e1tico. Basta isso para vermos como est\u00e1vamos nos afastando de uma democracia propriamente dita. \u00c9 isso que nos preocupa mais concretamente. No caso brasileiro acresce o fato de que temos ampla participa\u00e7\u00e3o de militares no governo, alguns da reserva e outros da ativa, o que representa um envolvimento das For\u00e7as Armadas com esse governo que n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tico.<\/p>\n<h3>\u2018Setores que se colocam contra a democracia no Brasil precisam ser isolados e contidos\u2019<\/h3>\n<p><strong>Como enxerga essa entrada de Lula no jogo quando se analisa o quesito democracia? \u00c9 poss\u00edvel falar em polariza\u00e7\u00e3o com Bolsonaro, uma vez que o hist\u00f3rico, o estilo e a trajet\u00f3ria pol\u00edtica de ambos \u00e9 totalmente d\u00edspar?<\/strong><br \/>\nTem uma premissa que \u00e9 anterior \u00e0 minha resposta. No caso brasileiro, \u00e9 um equ\u00edvoco falar em polariza\u00e7\u00e3o. Polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 quando um lado vai para um extremo, e o outro para outro. No caso brasileiro n\u00e3o est\u00e1 acontecendo isso e n\u00e3o aconteceu isso em nenhum momento. Existe um lado que foi para o extremo, que \u00e9 o da direita, a extrema direita. Os setores que eram de centro, centro-direita, se radicalizaram para uma posi\u00e7\u00e3o de extrema direita. Isso come\u00e7a ao final de 2014 e vai num crescendo at\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro. O Brasil n\u00e3o tem tradi\u00e7\u00e3o de extremismo. O Brasil tem tend\u00eancia clara de converg\u00eancia ao centro. Do lado oposto n\u00e3o ocorreu a radicaliza\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio. O campo da esquerda n\u00e3o radicalizou. O ex-presidente Lula \u00e9 de fato uma lideran\u00e7a predominante neste campo, sempre foi. E uma lideran\u00e7a de natureza conciliadora, sobretudo depois que chegou ao governo. Lula n\u00e3o deixou de ser conciliador em nenhum momento, mesmo ao longo deste processo tudo. Me lembro que, na v\u00e9spera do impeachment, em uma das maiores manifesta\u00e7\u00f5es a favor do impeachment, ele disse: \u00a8Precisamos convencer o outro lado de que n\u00f3s n\u00e3o somos o que eles acham que somos\u201d. Ou seja, ele queria ainda, naquele contexto bastante radicalizado, dialogar.<\/p>\n<p>Acho que a ideia de que h\u00e1 dois extremos em confronto \u00e9 completamente equivocada e n\u00e3o corresponde aos fatos, no caso brasileiro. Agora, quando voc\u00ea fala em qual a rela\u00e7\u00e3o entre polariza\u00e7\u00e3o e democracia, eu diria o seguinte: a polariza\u00e7\u00e3o em si n\u00e3o seria ruim, desde que se contivesse dentro de limites democr\u00e1ticos. E quais s\u00e3o os limites democr\u00e1ticos? Os seguintes: eu aceito que qualquer que seja a diverg\u00eancia com meu advers\u00e1rio seja resolvida nas urnas. Quem ganhar, vai levar e governar. Vou me manter nestes par\u00e2metros. O que acontece \u00e9 que n\u00f3s temos um setor que est\u00e1 se colocando contra esses par\u00e2metros. Se n\u00f3s n\u00e3o enxergarmos isso com clareza, n\u00e3o teremos condi\u00e7\u00e3o de agir. Porque n\u00e3o se tratam de dois extremos que precisam ser contidos. Se trata de um extremo que precisa ser contido. A melhor forma de conten\u00e7\u00e3o \u00e9 o isolamento. Esses setores que v\u00eam se colocando contra a democracia precisam ser isolados.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o acredito que esses setores sejam majorit\u00e1rios. Acho que a sociedade brasileira pode reagir de maneira diversa diante de um regime democr\u00e1tico que \u00e9 contradit\u00f3rio, tem uma s\u00e9rie de problemas, mas n\u00e3o h\u00e1 opini\u00e3o consolidada e majorit\u00e1ria no Brasil contra a democracia. Isso pode salvar a democracia, desde que a gente saiba entender essa situa\u00e7\u00e3o e como n\u00f3s devemos atuar nela. A ades\u00e3o \u00e0 democracia n\u00e3o \u00e9 das mais altas do mundo no Brasil, e isso temos que reconhecer. Isso \u00e9 um perigo. Mas ainda \u00e9 uma vis\u00e3o majorit\u00e1ria no Brasil, ent\u00e3o \u00e9 um ativo com o qual a democracia conta. De fato a cultura democr\u00e1tica no Brasil \u00e9 fr\u00e1gil. Ela \u00e9 mais fr\u00e1gil do que em outros pa\u00edses. Mesmo assim a maioria do eleitorado e da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 a favor da democracia. Isso n\u00e3o \u00e9 secund\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>No livro, voc\u00eas, autores, dizem que essa reflex\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria pela necessidade de a\u00e7\u00e3o diante dessas graves amea\u00e7as de regimes de espectros totalit\u00e1rios. Que tipo de a\u00e7\u00e3o, de pr\u00e1xis \u00e9 necess\u00e1ria? Impeachment? O que\u00a0a sociedade brasileira pode fazer?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma pergunta bastante espec\u00edfica porque implica uma an\u00e1lise do quadro brasileiro, da conjuntura, e dos instrumentos que est\u00e3o dispon\u00edveis. O livro n\u00e3o se prop\u00f5e a fazer isso, porque \u00e9 um livro de teoria. O que n\u00f3s dizemos no livro \u00e9 que, diante de situa\u00e7\u00f5es extremas, como a que estamos vivendo, a necessidade de a\u00e7\u00e3o \u00e9 premente. Se voc\u00ea tem uma urg\u00eancia n\u00e3o pode ficar parado pensando. Em que pese essa necessidade, entendemos que o conhecimento da pol\u00edtica \u00e9 \u00fatil, n\u00e3o \u00e9 uma atividade diletante. Estamos convencidos de que muita gente passou, agora, a se interessar pela pol\u00edtica e tem muita dificuldade para entender, porque \u00e0 medida que voc\u00ea vai aprofundando a discuss\u00e3o, v\u00e3o aparecendo muitos aspectos contradit\u00f3rios, muitos dilemas. Se algu\u00e9m resolve pensar mesmo no assunto vai se deparar com muitas coisas estranhas. O livro tenta enveredar por esse caminho e trazer uma compreens\u00e3o que ajuda a construir patamares de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem querer entrar numa an\u00e1lise detalhada do momento, eu diria que a mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade tem papel decisivo. \u00c9 claro que existem institui\u00e7\u00f5es, que se baseiam em certas regras e t\u00eam uma conduta orientada por indiv\u00edduos que est\u00e3o l\u00e1 e, portanto, t\u00eam poder. Mas a mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade tem peso, e n\u00e3o s\u00f3 no momento do voto. Como a gente viu nos Estados Unidos no ano passado, o voto decide. Na situa\u00e7\u00e3o em que estamos, pode decidir para um lado, ou para o outro. Agora, a mobiliza\u00e7\u00e3o, a maneira pela qual a sociedade entende as quest\u00f5es que est\u00e3o colocadas e se posiciona, pesa, desde que estejamos ainda numa situa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. N\u00f3s ainda estamos. Uma democracia bastante esgar\u00e7ada, bastante amea\u00e7ada, mas ela existe ainda. Consensos s\u00e3o bastante dif\u00edceis, mas n\u00e3o imposs\u00edveis. Quando a gente fala de a\u00e7\u00e3o estamos nos referindo a isso.<\/p>\n<p>H\u00e1 diversas mobilidades de a\u00e7\u00e3o, as pessoas podem se mobilizar nos locais de trabalho, mas fam\u00edlias, ou nos partidos. H\u00e1 uma pluralidade nas redes sociais. Infelizmente, em fun\u00e7\u00e3o da pandemia, estamos impedidos de ir para as ruas, porque estamos passando por uma trag\u00e9dia humanit\u00e1ria. Isso est\u00e1 favorecendo tend\u00eancias autorit\u00e1rias, mas \u00e9 uma circunst\u00e2ncia objetiva.\u00a0O que estamos querendo dizer \u00e9 que a todos os cidad\u00e3os est\u00e1 colocada essa quest\u00e3o: o que n\u00f3s vamos fazer diante desta situa\u00e7\u00e3o? Achamos que o que estamos trazendo pode ajudar a ter uma a\u00e7\u00e3o mais efetiva, mais equilibrada, mais racional e mais construtiva do ponto de vista democr\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o, no \u00faltimo cap\u00edtulo do livro, sobre a direita alternativa dos EUA, que elegeu Donald Trump, como uma constela\u00e7\u00e3o heterog\u00eanea que mistura misoginia, supremacia branca e flertes com o nazismo. Como definiria essa extrema direita brasileira, que caminha ao lado de Bolsonaro?<\/strong><br \/>\nEssa observa\u00e7\u00e3o \u00e9 de um fil\u00f3sofo do Rio de Janeiro, o Rodrigo Nunes. Esse fen\u00f4meno conhecido com\u00a0<em>alternative right<\/em>,\u00a0<em>alt-right<\/em>, \u00e9 um pouco dif\u00edcil de precisar porque \u00e9 uma mir\u00edade de grupos pequenos onde voc\u00ea tem praticamente de tudo. Essa franja costumava ser muito minorit\u00e1ria, s\u00f3 que ganhou proje\u00e7\u00e3o quando o ex-presidente Trump come\u00e7ou a adotar certar posturas e a prestigiar certos grupos dessa\u00a0<em>alternative right<\/em>, o que se tornou assustador. Simplesmente o presidente do pa\u00eds mais poderoso do mundo come\u00e7ou a se relacionar com grupos onde existe at\u00e9, como disse o Rodrigo Nunes, flertes expl\u00edcitos com o nazismo. Estamos diante de elementos de totalitarismo. No caso brasileiro, nenhum de n\u00f3s tr\u00eas autores tem um levantamento \u2013 e esse n\u00e3o era o objetivo do livro \u2013 de quem s\u00e3o esses grupos exatamente. N\u00e3o saberia dizer se h\u00e1 um espelho perfeito dessa mir\u00edade de grupos norte-americanos no Brasil. Desconfio que uma parte sim, porque h\u00e1 uma n\u00edtida inspira\u00e7\u00e3o norte-americana no que poder\u00edamos chamar de\u00a0<em>alt-right<\/em>\u00a0brasileira, para usar a express\u00e3o em ingl\u00eas.<\/p>\n<p><strong>Esses movimentos totalit\u00e1rios s\u00e3o uma resposta antipol\u00edtica ao decl\u00ednio do Estado nacional. Essa reflex\u00e3o ajuda a entender, em parte, a vit\u00f3ria de Bolsonaro?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. H\u00e1 uma decep\u00e7\u00e3o generalizada com a pol\u00edtica. H\u00e1 correntes que misturam determinados problemas que o Estado tem com uma posi\u00e7\u00e3o pretensamente contra o Estado. Pretensamente porque, na realidade, v\u00e3o usar o Estado como instrumento de totalitarismo. Acho que houve, na elei\u00e7\u00e3o de 2018 e at\u00e9 certo ponto continua existindo, uma posi\u00e7\u00e3o antipol\u00edtica e antiestado. Essa posi\u00e7\u00e3o antipol\u00edtica, no caso brasileiro, fica muito confusa, porque estava muito associada \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do ex-juiz Sergio Moro, que aceitou ser ministro [de Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica] do governo Bolsonaro, equivocadamente. Equivocadamente at\u00e9 para a pr\u00f3pria Lava Jato, e todo mundo reconhece isso hoje. Moro acabou sendo expulso do governo no momento em que o atual presidente da Rep\u00fablica se converteu para uma alian\u00e7a com a velha pol\u00edtica, que continua sendo predominante no Congresso Nacional. Alian\u00e7a sem a qual ele teria muita dificuldade para se manter no governo. Como Bolsonaro vai explicar isso? Ele se elege em nome de uma rejei\u00e7\u00e3o da velha pol\u00edtica e se alia agora com o que existe de mais antigo na pol\u00edtica? \u00c9 um problema.nho dito que ele vem construindo uma nova vers\u00e3o dele mesmo, uma esp\u00e9cie de Bolsonaro 2.0, um outro perfil. De todo modo, a posi\u00e7\u00e3o antipol\u00edtica agora est\u00e1 confusa. E tem uma posi\u00e7\u00e3o privatista, bastante associada ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que tamb\u00e9m est\u00e1 bastante confusa porque desde meados do ano passado o governo percebeu que a popularidade dependia do aux\u00edlio emergencial e acabou se apoiando nisso. Tudo s\u00e3o desdobramentos concretos de uma situa\u00e7\u00e3o bastante inesperada, porque ningu\u00e9m poderia imaginar que viver\u00edamos uma pandemia como essa. Isso est\u00e1 mudando o cen\u00e1rio em v\u00e1rios lugares do mundo porque o Estado teve que voltar a ser um ancoradouro, com aux\u00edlio emergencial, apoio a empresas, assim por diante. Portanto, tem muita coisa em movimento\u00a0neste momento.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/quatrocincoum.folha.uol.com.br\/br\/entrevistas\/politica\/a-invasao-do-totalitarismo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Malu Delgado &#8211; \u201cEstado e democracia: uma introdu\u00e7\u00e3o ao estudo da pol\u00edtica\u201d, de Andr\u00e9 Singer, Cicero Araujo e Leonardo Belinelli (Editora Zahar), \u00e9 uma esp\u00e9cie de convite arqueol\u00f3gico: somente pela reconstru\u00e7\u00e3o das civiliza\u00e7\u00f5es antigas se pode compreender o conceito da pol\u00edtica e o atual quadro mundial de esgar\u00e7amento da democracia, com o avan\u00e7o de governos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10379,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[28],"class_list":["post-14963","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica","tag-direita"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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