{"id":14955,"date":"2021-03-22T12:15:51","date_gmt":"2021-03-22T15:15:51","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14955"},"modified":"2021-03-21T11:19:42","modified_gmt":"2021-03-21T14:19:42","slug":"o-ocidente-diz-adeus-ao-capitalismo-industrial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/03\/22\/o-ocidente-diz-adeus-ao-capitalismo-industrial\/","title":{"rendered":"O Ocidente diz adeus ao capitalismo industrial"},"content":{"rendered":"<p><strong>Michael Hudson<\/strong> &#8211; Hist\u00f3ria de uma regress\u00e3o: contrariando at\u00e9 as previs\u00f5es de Marx, sistema reabilitou rentismo feudal e, associado a ele, multiplica privil\u00e9gios e desigualdade. Mas da\u00ed tamb\u00e9m seu decl\u00ednio \u2013 e sua impot\u00eancia diante\u00a0 de pa\u00edses como a China.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a primeira parte de um artigo \u00e9 baseado no Cap\u00edtulo 1 de:<br \/>\n<strong>Cold War 2.0 \u2013 The Geopolitical Economics of Finance Capitalism vs. Industrial Capitalism<\/strong><br \/>\n(Dresden, ISLET, no prelo)<br \/>\nO original em ingl\u00eas pode ser\u00a0<a href=\"https:\/\/michael-hudson.com\/2021\/01\/\">lido aqui<\/a>. A parte 2 ser\u00e1 publicada por\u00a0<em>Outras\u00a0Palavras<\/em>\u00a0na pr\u00f3xima semana.<\/p>\n<p>Marx e muitos dos reformadores menos radicais que lhe foram contempor\u00e2neos viam o papel hist\u00f3rico do capitalismo industrial como sendo o de remover a heran\u00e7a do feudalismo \u2013 os latifundi\u00e1rios, banqueiros e monopolistas que extra\u00edam renda econ\u00f4mica (ou renta) sem produzir valor real. Mas aquele movimento de reforma fracassou. Hoje o setor das Finan\u00e7as, Seguros e Imobili\u00e1rio (FIRE, em ingl\u00eas, pelas iniciais de\u00a0<em>Finance, Insurance, Real Estate<\/em>\u00a0recuperou o controle do Estado, criando economias neo-rentistas.<\/p>\n<p>O objetivo deste capitalismo financeiro p\u00f3s-industrial \u00e9 o oposto daquele do capitalismo industrial bem conhecido dos economistas do s\u00e9culo XIX. Ele busca riqueza primariamente atrav\u00e9s da extra\u00e7\u00e3o de renda econ\u00f4mica, n\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de capital industrial. O favorecimento fiscal para o setor imobili\u00e1rio, a privatiza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo e da extra\u00e7\u00e3o mineral, os bancos e os monop\u00f3lios de infraestrutura aumentam o custo de vida e da atividade empresarial. O trabalho est\u00e1 sendo explorado crescentemente pela d\u00edvida aos bancos, d\u00edvida estudantil, d\u00edvida do cart\u00e3o de cr\u00e9dito, ao passo que a habita\u00e7\u00e3o e outros pre\u00e7os s\u00e3o inflacionados com o cr\u00e9dito, deixando menos rendimento para gastar em bens e servi\u00e7os quando as economias sofrem defla\u00e7\u00e3o da d\u00edvida.<\/p>\n<p>A Nova Guerra Fria de hoje \u00e9 um combate para internacionalizar este capitalismo rentista pela privatiza\u00e7\u00e3o e financiariza\u00e7\u00e3o global dos transportes, educa\u00e7\u00e3o, cuidados de sa\u00fade, pris\u00f5es e policiamento, correios e comunica\u00e7\u00f5es \u2013 al\u00e9m de outros setores que antigamente eram mantidos no dom\u00ednio p\u00fablico \u2013 das economias europeias e americanas, de modo a manter seus custos baixos e minimizar seus custos de estrutura.<\/p>\n<p>Nas economias ocidentais tais privatiza\u00e7\u00e3o reverteram o movimento do capitalismo industrial para minimizar custos de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o socialmente desnecess\u00e1rios. Al\u00e9m dos pre\u00e7os de monop\u00f3lio para servi\u00e7os privatizados, os administradores financeiros est\u00e3o canibalizarando a ind\u00fastria pela alavancagem da d\u00edvida e elevados desembolsos de dividendos para aumentar pre\u00e7os de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As economias neo-rentistas de hoje obt\u00eam riqueza principalmente por meio da busca de renta. A financeiriza\u00e7\u00e3o converte a renda imobili\u00e1ria e monop\u00f3lica em empr\u00e9stimos banc\u00e1rios, a\u00e7\u00f5es e t\u00edtulos. Este processo tem sido alimentado desde 2009 pelo\u00a0<em>Quantitative Easing\u00a0<\/em><em>(\u201cFlexibiliza\u00e7\u00e3o Quantitativa\u201d)\u00a0<\/em>dos bancos centrais dos EUA. Uni\u00e3o Europeia, Inglaterra, Jap\u00e3o e outros. [Significa emitir volumes maci\u00e7os de d\u00f3lares, euros, libras ou ienes e despej\u00e1-los nas m\u00e3os de mega-especuladores, recebendo em troca t\u00edtulos p\u00fablicos que t\u00eam em seu poder. A inunda\u00e7\u00e3o de dinheiro espalha-se por todo o mundo, refletindo, por exemplo, na super-valoriza\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos im\u00f3veis (Nota de\u00a0<em>Outras Palavras)<\/em>]<\/p>\n<p>Fam\u00edlias e empresas afundam em d\u00edvida, devendo renda e servi\u00e7o de d\u00edvida aos setores FIRE. Esta sobrecarga rentista deixa menos rendimento de sal\u00e1rios e lucros para gastar em bens e servi\u00e7os, provocando o fim dos 75 anos de expans\u00e3o vividos pelos EUA e Europa a partir o t\u00e9rmino da II Guerra Mundial em 1945.<\/p>\n<p>Estas din\u00e2micas rentistas s\u00e3o o oposto do que Marx descreveu como leis do movimento do capitalismo industrial. A banca alem\u00e3, \u00e0 \u00e9poca, financiava a ind\u00fastria pesada sob Bismarck, em associa\u00e7\u00e3o com o Reichsbank e os militares. Mas em outros lugares o empr\u00e9stimo banc\u00e1rio raramente financiou novos meios de produ\u00e7\u00e3o tang\u00edveis. Aquilo que prometia ser uma din\u00e2mica democr\u00e1tica e em \u00faltima an\u00e1lise socialista degradou-se em dire\u00e7\u00e3o ao feudalismo e \u00e0 servid\u00e3o da d\u00edvida, com a classe financeira de hoje desempenhando o papel que a classe dos senhores da terra tinha em tempos p\u00f3s-medievais.<\/p>\n<p><strong>A vis\u00e3o de Marx do destino hist\u00f3rico do capitalismo: Libertar economias do feudalismo<\/strong><\/p>\n<p>O capitalismo industrial que Marx descrevia no Volume 1 do Capital est\u00e1 sendo desmantelado. Ele considerava que o destino hist\u00f3rico do capitalismo era libertar as economias do legado do feudalismo: uma classe heredit\u00e1ria de senhores da guerra que impunha uma renda da terra (por meio de tributos) e da banca (via juros). Ele pensava que na medida em que o capitalismo industrial evolu\u00edsse rumo a uma administra\u00e7\u00e3o esclarecida, e na verdade rumo ao socialismo, a finan\u00e7a usur\u00e1ria, predat\u00f3ria, seria eliminada, suprimindo-se o rendimento rentista, economicamente e socialmente desnecess\u00e1rio: renda da terra, juros financeiros e taxas relativas a cr\u00e9dito improdutivo. Adam Smith, David Ricardo, John Stuart Mill, Joseph Proudon e seus companheiros economistas cl\u00e1ssicos analisaram este fen\u00f4meno e Marx resumiu sua discuss\u00e3o nos Volume II e III do\u00a0<em>Capital<\/em>\u00a0e no seu livro paralelo\u00a0<em>Teorias da mais-valia,<\/em>\u00a0que trata da renda econ\u00f4mica e da matem\u00e1tica do juro composto, o qual leva a que a d\u00edvida cres\u00e7a exponencialmente a uma taxa mais alta do que o resto da economia.<\/p>\n<p>Entretanto, Marx dedicou o Volume I do\u00a0<em>Capital\u00a0<\/em>\u00e0 caracter\u00edstica mais \u00f3bvia do capitalismo industrial: o impulso para obter lucros por meio do investimento em meios de produ\u00e7\u00e3o para empregar trabalho assalariado a fim de produzir bens e servi\u00e7os para vender com uma margem superior ao que se pagava ao trabalho. Analisando o valor excedente pelo ajustamento das taxas de lucro para levar em conta gastos com a f\u00e1brica, equipamento e materiais (a \u201ccomposi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital\u201d), Marx descreveu um fluxo circular no qual patr\u00f5es capitalistas pagam sal\u00e1rios aos seus trabalhadores e investem seus lucros na f\u00e1brica e em equipamentos com o excedente n\u00e3o pago aos empregados.<\/p>\n<p>O capitalismo financeiro corroeu este n\u00facleo da circula\u00e7\u00e3o entre trabalho e capital industrial. Grande parte do meio-oeste dos Estados Unidos [uma regi\u00e3o antes intensamente industrializada] transformou-se num \u201ccintur\u00e3o de ferrugem\u201d. Ao inv\u00e9s de o setor financeiro evoluir para financiar investimento de capital na manufactura, a ind\u00fastria est\u00e1 sendo financeirizada. A obten\u00e7\u00e3o de ganhos econ\u00f4micos por via financeira, primariamente pela alavancagem da d\u00edvida, ultrapassa de longe os lucros alcan\u00e7ados pela contrata\u00e7\u00e3o de empregados para produzir bens e servi\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>A alian\u00e7a do capitalismo dos bancos com a ind\u00fastria para promover reforma pol\u00edtica democr\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>O capitalismo nos dias de Marx ainda continha muitas sobreviv\u00eancias do feudalismo, mais notavelmente uma classe heredit\u00e1ria de senhores da terra que viviam de rendas da terra, a maior parte das quais era gasta improdutivamente com servi\u00e7ais e luxos, n\u00e3o para obter lucro.<\/p>\n<p>Estas rendas tinham tido origem num imposto. Vinte anos ap\u00f3s a Conquista Normanda, Guilherme o Conquistador ordenou a compila\u00e7\u00e3o do [censo territorial] Domesday Book em 1086 para calcular o rendimento\u00a0<em>(yield)<\/em>\u00a0que podia ser extra\u00eddo como imposto das terras inglesas que ele e os seus companheiros haviam capturado. Como resultado das exig\u00eancias fiscais prepotentes do Rei Jo\u00e3o, a Revolta dos Bar\u00f5es (1215-17) e a sua Carta Magna permitiram aos principais senhores da guerra obter grande parte desta renda para si pr\u00f3prios. Marx explicou que o capitalismo industrial era politicamente radical ao procurar libertar-se do fardo de ter de suportar esta classe privilegiada de senhores da terra, a receber rendimentos sem qualquer base no valor de custo ou do pr\u00f3prio empreendimento.<\/p>\n<p>Os industriais procuravam ganhar mercados atrav\u00e9s de cortes de custos abaixo daqueles dos seus competidores. Aquele objecivo exigia libertar toda a economia das \u201cfaux frais\u201d [falsas despesas] de produ\u00e7\u00e3o, encargos socialmente desnecess\u00e1rios embutidos no custo de vida e de fazer neg\u00f3cio. A renda econ\u00f4mica cl\u00e1ssica era definida como o excesso de pre\u00e7o acima do valor de custo intr\u00ednseco, este \u00faltimo sendo em \u00faltima an\u00e1lise redut\u00edvel aos custos do trabalho. O trabalho produtivo era definido como aquele empregado para criar um lucro, em contraste com os servi\u00e7ais e criados (cocheiros, mordomos, cozinheiros, etc.), com os quais os senhores da terra gastavam grande parte da sua renda.<\/p>\n<p>A forma paradigm\u00e1tica de renda econ\u00f4mica era a renda de terra paga \u00e0 aristocracia heredit\u00e1ria da Europa. Como explicou John Stuart Mill, os senhores da terra colhiam rendas (e aumentos dos pre\u00e7os da terra) \u201cdurante o sono\u201d. Ricardo havia apontado (no cap\u00edtulo 2 dos seus\u00a0<em>Princ\u00edpios de Economia Pol\u00edtica e Tributa\u00e7\u00e3o<\/em>, de 1817) uma forma parecida de renda diferencial em renda de recursos naturais. Decorria da capacidade dos propriet\u00e1rios de minas com teores de min\u00e9rio de alta qualidade venderem a sua produ\u00e7\u00e3o mineral, de baixo custo, aos mesmos pre\u00e7os estabelecidos pelas minas de alto custo. Finalmente, havia uma renda monopolista paga aos propriet\u00e1rios de pontos de estrangulamento na economia, onde podiam extrair rendas [como, por exemplo, ped\u00e1gios] sem base em qualquer desembolso de custos. Tais rendas logicamente inclu\u00edam juros financeiros, taxas e penalidades.<\/p>\n<p>Marx via o ideal capitalista como o de libertar as economias da classe dos senhores da terra que controlavam a C\u00e2mara dos Lordes na Gr\u00e3-Bretanha, assim como legislativos superiores em outros pa\u00edses. Tal objetivo exigiu reforma pol\u00edtica do Parlamento na Gr\u00e3-Bretanha, em \u00faltima an\u00e1lise para substituir a C\u00e2mara dos Lordes pela C\u00e2mara dos Comuns (Commons), de modo a impedir os senhores da terra de protegerem seus interesses especiais \u00e0s custas da economia industrial brit\u00e2nica. A primeira grande batalha neste combate contra o interesse dos propriet\u00e1rios de terra foi vencida em 1846 com a revoga\u00e7\u00e3o das Leis do Milho. A luta para limitar o poder dos propriet\u00e1rios de terra sobre o Estado culminou com a crise constitucional de 1909-10, quando os Lordes rejeitaram o imposto fundi\u00e1rio imposto pelos Comuns. A crise foi resolvida por uma decis\u00e3o de que os Lordes nunca mais poderiam rejeitar uma lei de arrecada\u00e7\u00e3o fiscal aprovada pela C\u00e2mara dos Comuns.<\/p>\n<p><strong>O lobbies d<\/strong><strong>os\u00a0<\/strong><strong>banc<\/strong><strong>os<\/strong><strong>\u00a0contra o setor imobili\u00e1rio\u00a0<\/strong><strong>(<\/strong><strong>1815-1846<\/strong><strong>)<\/strong><\/p>\n<p>Pode parecer ir\u00f4nico hoje que o setor dos bancos brit\u00e2nicos estivesse de corpo e alma por tr\u00e1s do primeiro grande combate para minimizar a renda da terra. Tal alian\u00e7a verificou-se depois de acabarem as Guerras Napole\u00f4nicas em 1815, que encerraram o bloqueio franc\u00eas contra o com\u00e9rcio mar\u00edtimo brit\u00e2nico e reabriram o mercado da Gr\u00e3-Bretanha a importa\u00e7\u00f5es de cereais com pre\u00e7os mais baixos. Os senhores da terra brit\u00e2nicos exigiam tarifas protetoras, de acordo com as Leis do Milho \u2013 para elevar o pre\u00e7o da comida, de modo a aumentar a receita e portanto o valor do arrendamento de suas posses territoriais. Mas isso resultava em economia de alto custo. Uma economia capitalista com \u00eaxito teria de minimizar estes custos a fim de ganhar mercados estrangeiros e, na verdade, defender seu pr\u00f3prio mercado interno. A ideia cl\u00e1ssica de um mercado livre era um mercado livre de renta econ\u00f4mica \u2013 do rendimento do rentista na forma de renda da terra.<\/p>\n<p>Esta renda \u2013 um quase-imposto, pago aos herdeiros dos bandos de senhores da guerra que haviam conquistado a Gr\u00e3-Bretanha em 1066, e bandos vikings semelhantes que haviam conquistado outros reinos europeus \u2013 amea\u00e7ava reduzir o com\u00e9rcio exterior. Era uma amea\u00e7a para as classes banqueiras da Europa, cujo mercado era o financiamento do com\u00e9rcio atrav\u00e9s de letras de c\u00e2mbio. A classe banqueira ascendeu quando a economia da Europa foi reanimada pelo vasto saque do ouro monet\u00e1rio de Constantinopla pelos Cruzados. Aos banqueiros foi permitida uma escapat\u00f3ria, para evitar a proibi\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os de cobrar juros. Seu ganho assumiu a forma de\u00a0<em>\u00e1gio<\/em>, uma taxa pela convers\u00e3o de moeda de uma divisa para outra, ou de um pa\u00eds para outro. Mesmo o cr\u00e9dito interno podia utilizar esta escapat\u00f3ria do \u201cc\u00e2mbio fict\u00edcio\u201d (\u201cdry exchange\u201d), cobrando \u00e1gio em transac\u00f5es internas camufladas como transfer\u00eancia de moeda estrangeira, da mesma forma que as grandes corpora\u00e7\u00f5es modernas utilizam hoje \u201ccentros banc\u00e1rios offshore\u201d para fingir que ganham os seus rendimentos em pa\u00edses que n\u00e3o cobram impostos<\/p>\n<p>Se \u00e0quela \u00e9poca a Gr\u00e3-Bretanha se tornasse a f\u00e1brica do mundo, isto se seria altamente lucrativo para a classe dos banqueiros de Ricardo. Ele era o seu porta-voz parlamentar; hoje, dir\u00edamos lobista). A Gr\u00e3-Bretanha beneficiava-se de uma divis\u00e3o internacional do trabalho em que exportava manufaturas e importava alimentos e mat\u00e9rias-primas de outros pa\u00edses, especializados em\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0prim\u00e1rias e dependentes dos produtos industriais brit\u00e2nicos. Mas para isto acontecer, a Gr\u00e3-Bretanha precisava de um trabalho oper\u00e1rio a baixo pre\u00e7o. Isso significava baixos custos alimentares, que naquele tempo eram as maiores itens nos or\u00e7amentos familiares dos trabalhadores assalariados. Isso, por sua vez exigia acabar com o poder da classe dos senhores da terra de proteger o seu \u201calmo\u00e7o gratuito\u201d da renda da terra e o de todos os benefici\u00e1rios de tais \u201crendimentos n\u00e3o merecidos\u201d.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 dif\u00edcil imaginar industriais e banqueiros de m\u00e3os dadas, promovendo uma reforma democr\u00e1tica contra a aristocracia. Mas aquela alian\u00e7a foi necess\u00e1ria no princ\u00edpio do s\u00e9culo XIX. Naturalmente, a reforma democr\u00e1tica naquela \u00e9poca s\u00f3 ia at\u00e9 o ponto de remover a classe dos propriet\u00e1rios de terra, n\u00e3o de proteger os interesses do trabalho.<\/p>\n<p>A ret\u00f3rica democr\u00e1tica vazia da classe industrial e banqueira tornou-se evidente nas revolu\u00e7\u00f5es da Europa de 1848. Ent\u00e3o, os interesses estabelecidos uniram-se contra a extens\u00e3o da democracia \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em geral, logo depois que esta ajudou a acabar com a prote\u00e7\u00e3o das rendas dos propriet\u00e1rios de terra.<\/p>\n<p>Naturalmente, foram os socialistas que retomaram o combate pol\u00edtico depois de 1848. Marx mais tarde recordou a um correspondente que o primeiro ponto do Manifesto Comunista era socializar a renda da terra, mas divertia-se com os cr\u00edticos da renda no \u201clivre mercado\u201d, que se recusavam a reconhecer que existia uma explora\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 do rentista no emprego industrial da m\u00e3o-de-obra assalariada. Tal como os propriet\u00e1rios de terra obtinham uma renda da terra superior ao custo de produzir as suas culturas (ou arrendamentos de habita\u00e7\u00e3o), tamb\u00e9m os empregadores obtinham lucros atrav\u00e9s da venda dos produtos do trabalho assalariado com uma margem de lucro. Para Marx, isso em princ\u00edpio tornava os industriais parte da classe dos rentistas, embora o sistema econ\u00f4mico geral do capitalismo industrial fosse muito diferente do dos rentistas p\u00f3s-feudais, senhores da terra e banqueiros.<\/p>\n<p><strong>A alian\u00e7a d<\/strong><strong>os bancos\u00a0<\/strong><strong>com o<\/strong><strong>s propriet\u00e1rios de im\u00f3veis <\/strong><strong>e outros setores, em busca de renda<\/strong><\/p>\n<p>Ao observar como o capitalismo industrial evolu\u00eda nos dias de Marx, \u00e9 poss\u00edvel compreender que ele foi otimista demais, quando enxergou o impulso dos industriais para se desfazerem de todos os custos de produ\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1rios \u2013 todos os encargos que aumentavam o pre\u00e7o sem aumentar o valor. Nesse sentido, ele estava plenamente em sintonia com o conceito cl\u00e1ssico de mercados \u201clivres\u201d \u2013 da renda da terra e de outras formas de renta.<\/p>\n<p>A teoria econ\u00f4mica convencional de hoje reverteu este conceito. Numa distor\u00e7\u00e3o orwelliana de\u00a0<em>duplipensar<\/em>, os direitos adquiridos (vested interests) definem um mercado livre como sendo \u201clivre\u201d para a prolifera\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias formas de renda da terra, chegando ao ponto de dar benef\u00edcios fiscais especiais ao investimento imobili\u00e1rio ausente, a ind\u00fastrias de petr\u00f3leo e minera\u00e7\u00e3o (renda sobre recursos naturais) e acima de tudo \u00e0 alta finan\u00e7a (a fic\u00e7\u00e3o contabil\u00edstica dos \u201cdireitos adquiridos\u201d, uma express\u00e3o obscura para arbitragem especulativa a curto prazo).<\/p>\n<p>O mundo de hoje na verdade libertou as economias do fardo do arrendamento de terras heredit\u00e1rias. Quase dois ter\u00e7os das fam\u00edlias norte-americanas s\u00e3o propriet\u00e1rias das suas pr\u00f3prias casas (embora o \u00edndice de propriedade da casa pr\u00f3pria tenha decrescido de 68% para 62%, desde os Grandes Despejos de Obama. Eles foram um subproduto da crise das hipotecas podres e dos salvamentos (bailouts) de bancos adotados pelo presidente entre 2009 a 2016. Na Europa, as taxas de propriedade imobili\u00e1ria atingiram 80% na Escandin\u00e1via e taxas elevadas caracterizam todo o continente. A propriedade da casa pr\u00f3pria \u2013 e tamb\u00e9m a oportunidade de comprar bens imobili\u00e1rios comerciais \u2013 foi de fato democratizada.<\/p>\n<p>Mas foi democratizada a cr\u00e9dito. Este \u00e9 o \u00fanico modo de os assalariados obterem habita\u00e7\u00e3o, porque do contr\u00e1rio teriam de gastar a poupan\u00e7a de toda a vida para comprar uma casa. Ap\u00f3s o t\u00e9rmino da II Guerra Mundial, em 1945, os bancos forneceram o cr\u00e9dito para a compra de casas (e para especuladores comprarem propriedades comerciais), concedendo-lhes cr\u00e9dito hipotec\u00e1rio a ser liquidado ao longo de 30 anos, a prov\u00e1vel vida de trabalho do jovem comprador do im\u00f3vel.<\/p>\n<p>O segmento imobili\u00e1rio \u00e9, em muitos pa\u00edses, o maior do mercado banc\u00e1rio. Os empr\u00e9stimos hipotec\u00e1rios representam cerca de 80% do cr\u00e9dito banc\u00e1rio estadunidense e brit\u00e2nico. Eles desempenhava um papel menor em 1815, quando os bancos se concentravam no financiamento do com\u00e9rcio e nas transa\u00e7\u00f5es internacionais. Hoje podemos falar da Finan\u00e7a, Seguros e Imobili\u00e1rio (FIRE) como o setor rentista dominante da economia. Esta alian\u00e7a dos bancos com a propriedade imobili\u00e1ria levou os primeiros a se tornarem os principais lobistas da prote\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios imobili\u00e1rios. Opuseram-se ao imposto territorial que parecia ser a onda do futuro em 1848, face \u00e0s crescentes campanhas para tributar toda a valoriza\u00e7\u00e3o e as rendas da terra, e constituir a base tribut\u00e1ria proposta por Adam Smith, ao inv\u00e9s de tributar o trabalho e os consumidores ou os lucros. De fato, quando o imposto sobre a renda come\u00e7ou a ser cobrado nos EUA, em 1914, ele incidia apenas sobre os mais ricos: 1% dos norte-americanos, cujo rendimento tribut\u00e1vel consistia quase inteiramente em propriedades e direitos financeiros.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo passado reverteu aquela filosofia fiscal. Em muitos pa\u00edses, os bens im\u00f3veis passaram a pagar quase zero de imposto desde a II Guerra Mundial, gra\u00e7as a dois benef\u00edcios. O primeiro \u00e9 a \u201cdeprecia\u00e7\u00e3o fict\u00edcia\u201d, por vezes denominada de \u201csuper-deprecia\u00e7\u00e3o\u201d (\u201cover-depreciation\u201d). Os propriet\u00e1rios podem fingir que seus edif\u00edcios perdendo valor, alegando que se desgastam a taxas ficticiamente elevadas. (\u00c9 por isso que Donald Trump diz adorar deprecia\u00e7\u00e3o). Mas de longe a maior d\u00e1diva \u00e9 que os pagamentos de juros s\u00e3o dedut\u00edveis nos impostos. Os bens im\u00f3veis s\u00e3o tributados localmente, com certeza, mas tipicamente apenas a 1% da sua valoriza\u00e7\u00e3o avaliada, o que \u00e9 menos de 7 a 10% da renda real do terreno<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/ocidente-diz-adeus-ao-capitalismo-industrial\/#sdendnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o b\u00e1sica por que os bancos apoiam o favorecimento fiscal dos propriet\u00e1rios \u00e9 que tudo a que o arrecadador fiscal renunciar fica dispon\u00edvel para ser pago como juro. Banqueiros hipotec\u00e1rios acabam ficando com a vasta maioria da renda da terra nos Estados Unidos. Quando uma propriedade \u00e9 posta \u00e0 venda e os propriet\u00e1rios disputam uns contra os outros para compr\u00e1-la, o ponto de equil\u00edbrio \u00e9 aquele em que o vencedor est\u00e1 disposto a pagar ao banqueiro o valor pleno da renda para conseguir uma hipoteca. Investidores comerciais tamb\u00e9m se disp\u00f5em a pagar todo o rendimento como rendas, para conseguirem uma hipoteca, porque se beneficiam do ganho de \u201ccapital\u201d \u2013 ou seja, o aumento do pre\u00e7o da terra.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos chamados socialistas ricardianos na Gr\u00e3-Bretanha e dos seus hom\u00f3logos na Fran\u00e7a (Proudhon e outros) era a de que o Estado cobrasse a renda econ\u00f4mica da terra como a sua principal fonte de receitas. Mas os ganhos de \u201ccapital\u201d de hoje verificam-se principalmente no setor imobili\u00e1rio e financeiro e s\u00e3o virtualmente isentos de impostos para os propriet\u00e1rios de terras. Os propriet\u00e1rios n\u00e3o pagam impostos sobre a valoriza\u00e7\u00e3o \u00e0 medida que os pre\u00e7os imobili\u00e1rios sobem. E quando os propriet\u00e1rios morrem, toda a responsabilidade fiscal \u00e9 extinta.<\/p>\n<p>As ind\u00fastrias petrol\u00edfera e mineira tamb\u00e9m est\u00e3o notoriamente isentas do imposto sobre suas rendas de recursos naturais. Durante muito tempo, o subs\u00eddio por esgotamento\u00a0<em>(depletion allowance)<\/em>\u00a0permitiu-lhes um cr\u00e9dito fiscal para o petr\u00f3leo que era vendido, permitindo-lhes comprar novas propriedades produtoras de petr\u00f3leo (ou o que quisessem) com a sua suposta perda de ativos, definida como o valor para recuperar o que quer que tivessem esgotado. N\u00e3o havia perda real, \u00e9 claro. O petr\u00f3leo e os min\u00e9rios s\u00e3o fornecidos pela natureza.<\/p>\n<p>Estes setores tamb\u00e9m se tornam isentos de impostos sobre os seus lucros e rendas no exterior, pois utilizam-se de centros banc\u00e1rios\u00a0<em>off-shore<\/em>. Este estratagema permite-lhes reivindicar a realiza\u00e7\u00e3o de todos os seus lucros no Panam\u00e1, Lib\u00e9ria ou outros pa\u00edses que n\u00e3o cobram um imposto sobre o rendimento e muitas vezes n\u00e3o t\u00eam moeda pr\u00f3pria, mas utilizam o d\u00f3lar para poupar \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es qualquer risco com c\u00e2mbios estrangeiros.<\/p>\n<p>No setor petrol\u00edfero e mineiro, tal como no imobili\u00e1rio, o sistema banc\u00e1rio tornou-se simbi\u00f3tico com os benefici\u00e1rios do rendas, incluindo as empresas que extraem renda monopolista. J\u00e1 no final do s\u00e9culo XIX, o setor banc\u00e1rio e segurador era reconhecido como \u201ca m\u00e3e dos trusts\u201d, financiando a sua cria\u00e7\u00e3o para extrair rendas monopolistas acima das taxas de lucro normais.<\/p>\n<p>Estas mudan\u00e7as tornaram a extra\u00e7\u00e3o de renda muito mais remuneradora do que a busca do lucro industrial \u2013 exacamente o oposto do que os economistas cl\u00e1ssicos insistiam e esperavam que viesse a ser a trajet\u00f3ria mais prov\u00e1vel do capitalismo. Marx esperava que a l\u00f3gica do capitalismo industrial libertasse a sociedade do seu legado rentista e criasse investimento p\u00fablico em infra-estruturas a fim de reduzir o custo de produ\u00e7\u00e3o em toda a economia. Ao minimizar as despesas de m\u00e3o-de-obra que os empregadores tinham de cobrir, este investimento p\u00fablico colocaria em funcionamento a rede organizacional que, a seu tempo (e certamente por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o) se tornaria uma economia socialista.<\/p>\n<p>Embora os bancos tenham se desenvolvido ostensivamente para servir o com\u00e9rcio externo das na\u00e7\u00f5es industriais, eles tornaram-se uma for\u00e7a em si mesma, minando o capitalismo industrial. Em termos marxistas, ao inv\u00e9s de financiar a circula\u00e7\u00e3o M-C-M\u2019 (dinheiro investido em capital para produzir lucro e, portanto, ainda mais dinheiro), a alta finan\u00e7a abreviou o processo para M-M\u2019, ganhando dinheiro puramente com dinheiro e cr\u00e9dito, sem investimento de capital tang\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>A press\u00e3o rentista sobre os or\u00e7amentos: Defla\u00e7\u00e3o da d\u00edvida como subproduto da infla\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os<\/strong><\/p>\n<p>A democratiza\u00e7\u00e3o da propriedade habitacional significou que as casas j\u00e1 n\u00e3o eram possu\u00eddas principalmente por propriet\u00e1rios ausentes que extra\u00edam renda, mas por seus pr\u00f3prios ocupantes. \u00c0 medida em que a propriedade das casas se difundia, novos compradores passaram a apoiar o esfor\u00e7o rentista para bloquear a tributa\u00e7\u00e3o da terra \u2013 n\u00e3o percebendo que a renda n\u00e3o tributada seria paga aos bancos como juros, para absorver a renda de arrendamento at\u00e9 ent\u00e3o paga a senhorios ausentes.<\/p>\n<p>Os pre\u00e7os imobili\u00e1rios subiram em consequ\u00eancia da alavancagem da d\u00edvida. O processo torna ricos os investidores, especuladores e seus banqueiros, mas eleva o custo da habita\u00e7\u00e3o (e da propriedade comercial) aos novos compradores, os quais s\u00e3o obrigados a assumir mais d\u00edvida a fim de obter habita\u00e7\u00e3o segura. Esse custo \u00e9 tamb\u00e9m transferido para os inquilinos. E os empregadores, em \u00faltima an\u00e1lise, s\u00e3o obrigados a pagar \u00e0 sua for\u00e7a de trabalho o suficiente para que esta cubra estes custos financeirizados de habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A defla\u00e7\u00e3o da d\u00edvida tornou-se a caracter\u00edstica distintiva das economias atuais desde na Am\u00e9rica do Norte e Europa, impondo \u201causteridade\u201d \u00e0 medida em que o servi\u00e7o da d\u00edvida absorve uma parte crescente do rendimento pessoal e empresarial, deixando menos para gastar em bens e servi\u00e7os. Os 90% dos sujeitos econ\u00f4micos endividados veem-se obrigados a pagar cada vez mais juros e taxas financeiras. O setor empresarial, e agora tamb\u00e9m os poderes estatal e local, s\u00e3o igualmente obrigados a pagar uma parte crescente das suas receitas aos credores.<\/p>\n<p>Os investidores est\u00e3o dispostos a pagar a maior parte dos seus rendimentos de rendas como juros ao setor banc\u00e1rio, porque esperam vender a sua propriedade em algum momento por um ganho de \u201ccapital\u201d. O capitalismo financeiro moderno centra-se nos \u201cretornos totais\u201d, definidos como rendimentos correntes mais ganhos nos pre\u00e7os de ativos, sobretudo para terrenos e bens imobili\u00e1rios. Na medida em que uma casa ou outra propriedade \u00e9 valiosa por muito que os bancos emprestem contra ela, a riqueza \u00e9 criada principalmente atrav\u00e9s de meios financeiros, pelos bancos que emprestam uma propor\u00e7\u00e3o crescente do valor dos ativos dados em garantia.<\/p>\n<p><strong>Varia\u00e7\u00f5es anuais do PIB e <\/strong><strong>principais\u00a0componentes de ganhos\u00a0nos\u00a0pre\u00e7os\u00a0dos\u00a0ativos\u00a0<\/strong><br \/>\n<em>(em bilh\u00f5es de d\u00f3lares)<\/em><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3044771\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Screenshot_2021-03-12-The-rentier-resurgence-and-takeover-Finance-Capitalism-vs-Industrial-Capitalism-Michael-Hudson.png?w=640&#038;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Screenshot_2021-03-12-The-rentier-resurgence-and-takeover-Finance-Capitalism-vs-Industrial-Capitalism-Michael-Hudson.png 600w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Screenshot_2021-03-12-The-rentier-resurgence-and-takeover-Finance-Capitalism-vs-Industrial-Capitalism-Michael-Hudson-300x238.png 300w\" alt=\"\" \/><\/figure>\n<p>O fato de que os ganhos em pre\u00e7os de ativos s\u00e3o amplamente financiados pela d\u00edvida explica por que o crescimento econ\u00f4mico est\u00e1 se reduzindo nos Estados Unidos e na Europa, mesmo quando o mercado de a\u00e7\u00f5es e os pre\u00e7os imobili\u00e1rios s\u00e3o inflacionados com cr\u00e9dito. O resultado \u00e9 uma economia alavancada por d\u00edvida.<\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas no valor da terra de ano para ano excedem de longe as altera\u00e7\u00f5es do PIB. A riqueza \u00e9 obtida primariamente atrav\u00e9s de ganhos em pre\u00e7os de ativos (\u201ccapital\u201d) na valoriza\u00e7\u00e3o de terras e im\u00f3veis, a\u00e7\u00f5es, obriga\u00e7\u00f5es e empr\u00e9stimos de credores (\u201criqueza virtual\u201d), n\u00e3o tanto pela poupan\u00e7a de rendimentos (sal\u00e1rios, lucros e rendas). A magnitude destes ganhos de pre\u00e7os de ativos tende a apequenar lucros, rendimentos de arrendamentos e sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia tem sido de imaginar que o aumento dos pre\u00e7os dos im\u00f3veis, a\u00e7\u00f5es e t\u00edtulos tem tornado os propriet\u00e1rios mais ricos. Mas esta subida de pre\u00e7os \u00e9 alimentada pelo cr\u00e9dito banc\u00e1rio. Uma casa ou outra propriedade \u00e9 t\u00e3o mais valiosa quanto mais um banco, tomando-a por garantia \u2013 e os bancos t\u00eam emprestado uma propor\u00e7\u00e3o cada vez maior do valor das casas, desde 1945. No caso dos bens imobili\u00e1rios dos EUA, a d\u00edvida excede o capital pr\u00f3prio desde h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. A alta dos pre\u00e7os imobili\u00e1rios tornou os bancos e especuladores ricos, mas deixou os propriet\u00e1rios das casas e a d\u00edvida imobili\u00e1ria comercial afundados em d\u00edvidas.<\/p>\n<p>A economia como um todo sofreu. Os custos de habita\u00e7\u00e3o alimentados pela d\u00edvida nos Estados Unidos s\u00e3o t\u00e3o elevados que se todos os norte-americanos recebessem gratuitamente os seus bens de consumo f\u00edsico \u2013 a sua comida, vestu\u00e1rio, etc \u2013 ainda assim n\u00e3o poderiam competir com os trabalhadores na China ou na maior parte dos outros pa\u00edses. Esta \u00e9 uma das principais raz\u00f5es pelas quais a economia dos EUA se desindustrializ.. Por isso, a pol\u00edtica de \u201ccria\u00e7\u00e3o de riqueza\u201d por meio da financeiriza\u00e7\u00e3o sabota a l\u00f3gica do capitalismo industrial.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/ocidente-diz-adeus-ao-capitalismo-industrial\/#sdendnote1anc\">1<\/a>Apresento os\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bookdepository.com\/The-Bubble-and-Beyond\/9783981484243\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">gr\u00e1ficos em The Bubble and Beyond (Dresden: 2012)<\/a>, Cap\u00edtulos 7 e 8, e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bookdepository.com\/Killing-the-Host\/9783981484281\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Killing the Host<\/a>\u00a0(Dresden: 2015).<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/ocidente-diz-adeus-ao-capitalismo-industrial\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Michael Hudson &#8211; Hist\u00f3ria de uma regress\u00e3o: contrariando at\u00e9 as previs\u00f5es de Marx, sistema reabilitou rentismo feudal e, associado a ele, multiplica privil\u00e9gios e desigualdade. 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