{"id":14950,"date":"2021-03-21T11:10:50","date_gmt":"2021-03-21T14:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14950"},"modified":"2021-03-21T11:10:50","modified_gmt":"2021-03-21T14:10:50","slug":"o-futuro-imediato-do-mundo-a-partir-de-biden","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/03\/21\/o-futuro-imediato-do-mundo-a-partir-de-biden\/","title":{"rendered":"O futuro imediato do mundo, a partir de Biden"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori<\/strong> &#8211;\u00a0Logo, o presidente descobrir\u00e1 os novos limites do poder dos EUA. Aliados veem com desconfian\u00e7a o pa\u00eds, ap\u00f3s o desastre de Trump. China e R\u00fassia tornaram-se alternativas geopol\u00edticas reais. E no plano interno, maioria democrata \u00e9 fr\u00e1gil e inst\u00e1vel.<\/p>\n<p>Cinco semanas depois da posse do governo democrata de Joe Biden, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel especular sobre os pr\u00f3ximos quatro anos da vida pol\u00edtica americana, e sobre a viabilidade da nova pol\u00edtica externa dos Estados Unidos anunciada pelo presidente na Reuni\u00e3o Anual de Seguran\u00e7a de Munique, no dia de 19 de fevereiro rec\u00e9m-passado, em que afirmou insistentemente que \u201cos EUA est\u00e3o de volta para liderar\u201d.<\/p>\n<p>A coaliz\u00e3o de for\u00e7as que se reuniu em torno da candidatura de Joe Biden foi muito al\u00e9m do Partido Democrata e incluiu setores da direita militar norte-americana. Seu objetivo comum foi derrotar Donald Trump, e se poss\u00edvel retir\u00e1-lo da vida pol\u00edtica do pa\u00eds. Mas nesse momento, a luta interna dentro desta coaliz\u00e3o ainda est\u00e1 restrita \u00e0 disputa pelos principais cargos do primeiro e segundo escal\u00f5es do governo. Assim, o que mais se destaca na imprensa neste momento s\u00e3o os discursos e as primeiras decis\u00f5es e iniciativas de Biden, sobretudo sua \u201cagenda interna\u201d, fortemente liberal e radicalmente anti-Trump. E tamb\u00e9m no campo da pol\u00edtica externa, onde o governo j\u00e1 tomou algumas decis\u00f5es mais chamativas e que estavam anunciadas desde antes da elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Inscrevem-se neste mesmo objetivo, de marcar a identidade e diferen\u00e7a da administra\u00e7\u00e3o anterior, as primeiras iniciativas tomadas no campo da sa\u00fade, da defesa ambiental, da imigra\u00e7\u00e3o, da prote\u00e7\u00e3o das minorias e das causas identit\u00e1rias, apoiadas por Kamala Harris, incluindo v\u00e1rias bandeiras mais radicais da candidatura de Bernie Sanders. Da mesma forma, no campo internacional, sinalizando um retorno ao multilateralismo tradicional da pol\u00edtica externa americana, e do \u201cliberal-cosmopolitismo globalit\u00e1rio\u201d dos democratas, o governo Biden voltou ao Acordo de Paris, \u00e0 OMS, ao G7, assinou a renova\u00e7\u00e3o imediata do Acordo New Start de limita\u00e7\u00e3o de armas estrat\u00e9gicas, com a R\u00fassia, deu os primeiros passos para voltar ao acordo nuclear com o Ir\u00e3 e desistiu da retirada imediata das tropas americanas da Alemanha.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, no seu discurso em Munique, Biden fez um grande esfor\u00e7o de reaproxima\u00e7\u00e3o com seus antigos aliados europeus, em particular Alemanha e Fran\u00e7a, e sublinhou insistentemente sua disposi\u00e7\u00e3o calorosa de voltar a juntar-se com seus antigos parceiros do grupo dos \u201cpa\u00edses democr\u00e1ticos\u201d, para barrar o avan\u00e7o dos \u201cpa\u00edses autorit\u00e1rios\u201d, que mesmo sem ser nominados, j\u00e1 foram transformados no novo espantalho encarregado de reunificar o bloco atl\u00e2ntico t\u00e3o bem-sucedido durante a Guerra Fria. At\u00e9 a\u00ed nenhuma grande novidade com rela\u00e7\u00e3o aos governos de Bill Clinton, e sobretudo de Barack Obama, de onde sa\u00edram quase todos os principais quadros do governo Biden.<\/p>\n<p>O problema, entretanto, \u00e9 que o futuro n\u00e3o costuma nascer das boas inten\u00e7\u00f5es dos governantes. Pelo contr\u00e1rio, costuma nascer muito mais dos obst\u00e1culos e oposi\u00e7\u00f5es que esses governantes v\u00e3o encontrando pelo caminho. E, no caso de Biden, a oposi\u00e7\u00e3o e os obst\u00e1culos do seu caminho parecem j\u00e1 estar plenamente desenhados no horizonte pr\u00f3ximo do presidente e sua equipe de governo \u2013 come\u00e7ando pelo plano interno, onde se esconde a principal amea\u00e7a ao seu projeto de poder, que ser\u00e3o as elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 2022.<\/p>\n<p>Neste plano, o primeiro que se deve ter claro \u00e9 que Donald Trump n\u00e3o caiu do c\u00e9u nem chegou aonde chegou gra\u00e7as ao brilho de sua intelig\u00eancia ou \u00e0 originalidade de suas pouqu\u00edssimas ideias pessoais. Trump nunca foi mais do que um\u00a0<em>outsider<\/em>, animador de televis\u00e3o, especulador imobili\u00e1rio e jogador de golfe. Mas as circunst\u00e2ncias se encarregaram de faz\u00ea-lo presidente dos EUA, algo inimagin\u00e1vel para algu\u00e9m que nunca participou de nenhuma elei\u00e7\u00e3o pr\u00e9via nem jamais militou de fato no Partido Republicano. No entanto, a sociedade que o elegeu presidente foi uma sociedade dividida e amargurada pelos efeitos econ\u00f4micos da crise financeira de 2008, e em particular pelas pol\u00edticas de combate \u00e0 crise do governo Obama que aumentaram exponencialmente a concentra\u00e7\u00e3o de renda nos EUA, acelerando uma tend\u00eancia que j\u00e1 vinha de antes e que acabou criando dois universos praticamente incomunic\u00e1veis e separados por diferen\u00e7as de sal\u00e1rio, de cor, de educa\u00e7\u00e3o de cultura, de grau de urbanidade. Seria poss\u00edvel mesmo afirmar que Trump, apesar de muito rico, foi posto na Casa Branca por um verdadeiro levante da plebe do centro-oeste e das regi\u00f5es destru\u00eddas pelo fechamento da velha ind\u00fastria norte-americana. Na verdade, s\u00f3 foi derrotado na sua tentativa de reelei\u00e7\u00e3o gra\u00e7as a sua catastr\u00f3fica administra\u00e7\u00e3o da pandemia do coronav\u00edrus durante o ano de 2020, s\u00f3 superada pela do Capit\u00e3o Bolsonaro, e do seu inacredit\u00e1vel Ministro da Sa\u00fade, General Eduardo Pazuello.<\/p>\n<p>Apesar do seu extraordin\u00e1rio fracasso sanit\u00e1rio, Donald Trump teve o apoio de 46,9% do eleitorado americano, e mant\u00e9m at\u00e9 hoje o apoio da maior parte do Partido Republicano, apesar de ter deixado atr\u00e1s de si a sociedade e o sistema pol\u00edtico norte-americanos rachados de cima abaixo, e com um n\u00edvel crescente de polariza\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia, que deve crescer ainda mais nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 2022. Al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio Trump j\u00e1 se anunciou como prov\u00e1vel candidato nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2024, transformando-se de imediato no principal fantasma que assombrar\u00e1 o mandato de Joe Biden, ao lado da fr\u00e1gil maioria democrata no Congresso que trar\u00e1 problemas a cada passo que o novo presidente der para avan\u00e7ar sua agenda interna, sobretudo no campo da ecologia e dos gastos sociais.<\/p>\n<p>Por outro lado, no campo internacional, o horizonte de Biden tampouco parece tranquilo, por v\u00e1rias raz\u00f5es que t\u00eam a ver com os quatro anos da administra\u00e7\u00e3o Trump e tamb\u00e9m com as contradi\u00e7\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do projeto \u201cliberal-cosmopolita\u201d e de sua utopia globalit\u00e1ria. Neste ponto, o primeiro que se deve ter claro \u00e9 que o mundo j\u00e1 n\u00e3o voltar\u00e1 mais atr\u00e1s, e que as rela\u00e7\u00f5es que foram desfeitas, as institui\u00e7\u00f5es que foram destru\u00eddas e os compromissos que n\u00e3o foram cumpridos pelo governo de Donald Trump j\u00e1 n\u00e3o poder\u00e3o mais ser reconstru\u00eddos e refeitos como se nada tivesse ocorrido. Depois de quatro anos, os Estados Unidos perderam sua credibilidade mesmo frente aos seus aliados mais antigos e permanentes. Em primeiro lugar, porque foram agredidos, como no caso da Alemanha e da Fran\u00e7a, por exemplo, e essas agress\u00f5es n\u00e3o se esquecem jamais. Em segundo, porque apesar das declara\u00e7\u00f5es calorosas de amizade de Joe Biden, ningu\u00e9m mais pode ter certeza de que o pr\u00f3prio Trump, ou qualquer outro partid\u00e1rio de suas posi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o ser\u00e1 reeleito daqui a quatro anos, retomando o caminho do nacionalismo conservador e agressivo da gest\u00e3o Trump.<\/p>\n<p>E se isso vale para os pa\u00edses aliados, o que se pode esperar de pa\u00edses ou governos como o Ir\u00e3, que se envolveu num acordo nuclear extremamente complexo e que foi rompido pelos EUA com uma facilidade e irresponsabilidade que jamais ser\u00e3o esquecidas? No campo internacional, decis\u00f5es deste n\u00edvel de import\u00e2ncia e gravidade costumam tomar muito tempo para serem tomadas e depois digeridas. E, no entanto, o governo americano desta vez jogou tudo para o espa\u00e7o em apenas quatro anos, sem avisar nem discutir com ningu\u00e9m, e sem ter se preocupado, em nenhum momento, com as consequ\u00eancias globais de seus gestos. No caso exemplar da pandemia, os EUA n\u00e3o moveram uma palha a favor de algum tipo de coordena\u00e7\u00e3o e lideran\u00e7a global; pelo contr\u00e1rio, aproveitaram a ocasi\u00e3o para atacar e sair da OMS, uma das mais antigas e conceituadas organiza\u00e7\u00f5es multilaterais criadas pelo projeto liberal de governan\u00e7a global patrocinado pelos americanos desde o fim da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Por fim, pesa sobre a cabe\u00e7a dos democratas, e sobre o futuro do projeto de lideran\u00e7a internacional do governo de Biden, o balan\u00e7o terr\u00edvel do que passou durante as quase tr\u00eas d\u00e9cadas de vig\u00eancia do poder unilateral e do projeto \u201cliberal-cosmopolita\u201d dos norte-americanos. S\u00f3 na d\u00e9cada de 90, em plena euforia e comemora\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria do \u201cmundo democr\u00e1tico\u201d, nas duas gest\u00f5es do presidente Bill Clinton e da \u201ceconomia de mercado\u201d, os EUA fizeram 48 interven\u00e7\u00f5es militares em todo o mundo; e depois de 2001, intervieram militarmente em 24 pa\u00edses, lan\u00e7ando 100 mil bombardeios a\u00e9reos concentradamente sobre pa\u00edses que eles chamaram de Grande M\u00e9dio Oriente, e que fazem parte do mundo isl\u00e2mico. S\u00f3 na gest\u00e3o de Obama, foram lan\u00e7adas 26 mil bombas, al\u00e9m das centenas de \u201cassassinatos b\u00e9licos\u201d perpetrados pelos drones da For\u00e7a A\u00e9rea americana. Al\u00e9m disto, nesse per\u00edodo, os EUA se envolveram na mais longa guerra de sua hist\u00f3ria, que j\u00e1 dura 20 anos, no Afeganist\u00e3o, mesmo per\u00edodo em que destru\u00edram literalmente as sociedades e as economias do Iraque, da L\u00edbia e da S\u00edria.<\/p>\n<p>Uma das consequ\u00eancias mais vis\u00edveis desse expansionismo cont\u00ednuo e do belicismo dos \u201cliberal-cosmopolita\u201d foi o aparecimento de uma resposta pol\u00edtica e militar cada vez mais poderosa da R\u00fassia e da China, para n\u00e3o falar dos outros pa\u00edses que se fortaleceram como resposta \u00e0s continuadas san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas do governo americano, como no caso do Ir\u00e3, ou mesmo da Turquia, cada vez mais distante da OTAN e dos EUA. Al\u00e9m disto, este \u201cexpansionismo mission\u00e1rio\u201d dos americanos acabou abrindo as portas para o que talvez tenha sido a maior derrota internacional dos EUA, neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI: a perda do monop\u00f3lio americano e ocidental do controle das institui\u00e7\u00f5es e da arbitragem militar dos conflitos mundiais, por conta do novo poder miliar russo, que j\u00e1 superou os norte-americanos em v\u00e1rios tipos de armamentos, e por conta do sucesso do modelo econ\u00f4mico e pol\u00edtico chin\u00eas, que entrou no s\u00e9culo XXI com a mesma marca vitoriosa que os norte-americanos tiveram no in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Neste momento, uma coisa \u00e9 certa e tem que ser considerada ao se calcular o futuro imediato da proposta internacional de Joe Biden: o mundo mudou demais e n\u00e3o voltar\u00e1 mais atr\u00e1s, e n\u00e3o por culpa dos extraordin\u00e1rios erros do governo de Donald Trump. O projeto \u201cliberal-cosmopolita\u201d j\u00e1 n\u00e3o tem mais o mesmo apelo do passado; a utopia da globaliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o exerce o mesmo atrativo nem tem capacidade de prometer a mesma felicidade da d\u00e9cada de 90; o Ocidente j\u00e1 n\u00e3o tem mais como eliminar ou submeter a civiliza\u00e7\u00e3o chinesa. Por isto, neste momento o governo Biden j\u00e1 se encontra dividido sobre como conduzir sua rela\u00e7\u00e3o com a China, que \u00e9 definida por Biden como seu principal concorrente e como seu mais s\u00e9rio desafio: criando jogos de soma zero nas \u00e1reas de conflito; promovendo o avan\u00e7o da inter-rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica; ou finalmente, estabelecendo uma parceria em torno do tema que hoje tamb\u00e9m interessa aos chineses \u2013 a quest\u00e3o clim\u00e1tica e ecol\u00f3gica, e da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica em geral.<\/p>\n<p>Somando tudo, o que se pode prever com razo\u00e1vel grau de certeza \u00e9 que o governo Biden ser\u00e1 um governo fraco, e que o mundo atravessar\u00e1 os pr\u00f3ximos anos sem ter mais um l\u00edder arbitral. Com tudo isto, o futuro do governo Biden, e de certa forma, da pr\u00f3pria humanidade, depender\u00e1 muit\u00edssimo da capacidade do governo americano e de todas as grandes pot\u00eancias ocidentais, de entender e aceitar o fato de que acabou a exclusividade do sucesso econ\u00f4mico liberal do Ocidente; e o que \u00e9 talvez ainda mais importante e dif\u00edcil de aceitar: que acabou definitivamente o monop\u00f3lio moral da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o ocidental\u201d que ter\u00e1 que conviver a partir de agora com um sistema de valores e cren\u00e7as de uma civiliza\u00e7\u00e3o que se surgiu e se desenvolveu de forma completamente aut\u00f4noma com rela\u00e7\u00e3o ao \u201cocidente\u201d e com rela\u00e7\u00e3o a todas as variantes do seu \u201cmonote\u00edsmo\u201d e dos \u201ciluminismo\u201d expansionista, catequ\u00e9tico e conquistador.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/o-futuro-imediato-do-mundo-a-partir-de-biden\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori &#8211;\u00a0Logo, o presidente descobrir\u00e1 os novos limites do poder dos EUA. 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