{"id":14930,"date":"2021-03-18T11:53:00","date_gmt":"2021-03-18T14:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14930"},"modified":"2021-03-17T12:00:07","modified_gmt":"2021-03-17T15:00:07","slug":"crises-estruturais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/03\/18\/crises-estruturais\/","title":{"rendered":"Crises estruturais"},"content":{"rendered":"<p><strong>IMMANUEL WALLERSTEIN<\/strong> &#8211; Devemos evitar qualquer no\u00e7\u00e3o de que a hist\u00f3ria est\u00e1 do nosso lado. Devemos capturar Fortuna, mesmo que ela nos escape<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O termo \u2018crise\u2019 teve um papel central em diversos debates pol\u00edticos nacionais durante os anos 1970, a despeito da ampla variedade de suas defini\u00e7\u00f5es. Nos momentos finais daquele s\u00e9culo, ele foi substitu\u00eddo por outro termo, mais otimista: \u2018globaliza\u00e7\u00e3o\u2019. Desde 2008, no entanto, seu tom sombrio retornou, e a no\u00e7\u00e3o de \u2018crise\u2019 voltou subitamente \u00e0 tona; seu uso, por\u00e9m, \u00e9 t\u00e3o mais disperso. As quest\u00f5es relativas a como definir uma crise, e como explicar suas origens, est\u00e3o outra vez em primeiro plano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final dos anos 1960 e no in\u00edcio dos anos 70, ambos os ciclos hegem\u00f4nico e, de forma geral, econ\u00f4mico do sistema-mundo moderno entraram em uma fase de decl\u00ednio. O per\u00edodo entre 1945 e, aproximadamente, 1970 \u2013 apropriadamente denominado, em franc\u00eas,&nbsp;<em>les trente glorieuses<\/em>&nbsp;\u2013 marcou o \u00e1pice da hegemonia norteamericana e coincidiu com a mais expansiva fase ascendente do ciclo de Kondratieff que a economia-mundo capitalista jamais vira. As fases descendentes eram absolutamente normais, n\u00e3o apenas no sentido de que todos os sistemas t\u00eam ritmos c\u00edclicos \u2013 \u00e9 como eles vivem, a forma com a qual lidam com as flutua\u00e7\u00f5es inevit\u00e1veis de sua opera\u00e7\u00e3o \u2013 mas tamb\u00e9m porque \u00e9 assim que o capitalismo, como um sistema global, funciona. Existem, aqui, duas quest\u00f5es chave: como os produtores lucram e como os Estados garantem o ordenamento do mundo dentro do qual os produtores lucram. Tratemos delas uma de cada vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O capitalismo \u00e9 um sistema cuja&nbsp;<em>raison d\u2019\u00eatre<\/em>&nbsp;\u00e9 a acumula\u00e7\u00e3o infinita de capital. Para acumular capital, os produtores devem obter lucros em suas opera\u00e7\u00f5es, o que apenas \u00e9 poss\u00edvel, em uma escala significativa, se o produto puder ser vendido por um valor consideravelmente maior do que seu custo de produ\u00e7\u00e3o. Em uma situa\u00e7\u00e3o de competi\u00e7\u00e3o perfeita, \u00e9 imposs\u00edvel lucrar em tal escala: um monop\u00f3lio, ou semimonop\u00f3lio, do poder sobre a economia-mundo \u00e9 necess\u00e1rio. O vendedor pode assim cobrar qualquer pre\u00e7o, desde que n\u00e3o ultrapasse os limites estabelecidos pela elasticidade da demanda. Sempre que a economia-mundo est\u00e1 em expans\u00e3o significativa, alguns de seus produtos \u2018principais\u2019 s\u00e3o relativamente monopolizados, e \u00e9 do lucro extra\u00eddo deles que grandes montantes de capital podem ser acumulados. Os efeitos de encadeamento econ\u00f4mico, tanto para frente quanto para tr\u00e1s, de tais produtos formam a base para uma expans\u00e3o generalizada da economia-mundo. Chamamos isso de fase A do ciclo de Kondratieff. O problema, para os capitalistas, \u00e9 que todos os monop\u00f3lios acabam por se autoliquidar, posto que novos produtores podem adentrar no mercado global, independentemente de qu\u00e3o fortes sejam as defesas de um dado monop\u00f3lio. \u00c9 claro, essa entrada demora certo tempo; mas, cedo ou tarde, o grau de competi\u00e7\u00e3o aumenta, os pre\u00e7os caem e, portanto, os lucros tamb\u00e9m. Quando os lucros dos produtos principais caem suficientemente, a economia global para de se expandir, e entra em um per\u00edodo de estagna\u00e7\u00e3o \u2013 a fase B do ciclo de Kondratieff.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda condi\u00e7\u00e3o para o lucro capitalista \u00e9 que exista uma certa ordem global relativa. Ainda que guerras mundiais possam oferecer a alguns empreendedores a oportunidade de se dar muito bem, elas tamb\u00e9m causam enormes destrui\u00e7\u00f5es de capital fixo, al\u00e9m de interferir consideravelmente no com\u00e9rcio mundial. O balan\u00e7o geral das guerras mundiais n\u00e3o \u00e9 positivo, um ponto sobre o qual Schumpeter insistiu repetidamente. Garantir uma situa\u00e7\u00e3o de relativa estabilidade, necess\u00e1ria para a a gera\u00e7\u00e3o de lucro, \u00e9 a tarefa de um poder hegem\u00f4nico com for\u00e7a suficiente para imp\u00f4-la sobre todo o sistema-mundo. Ciclos hegem\u00f4nicos costumam ser muito mais longos do que os ciclos de Kondratieff: em um mundo com tantos ditos estados soberanos, n\u00e3o \u00e9 com facilidade que um deles consegue se estabelecer como poder hegem\u00f4nico. Ele foi conquistado, primeiramente, pelas Prov\u00edncias Unidas, em meados do s\u00e9culo XVII, depois pelo Reino Unido, em meados do s\u00e9culo XIX, e, finalmente, pelos Estados Unidos, na metade do s\u00e9culo XX. A ascens\u00e3o de cada poder hegem\u00f4nico tem sido o resultado de uma longa disputa com outros potenciais candidatos. At\u00e9 agora, o vencedor tem sido aquele estado que se mostrou capaz de reunir o maquin\u00e1rio produtivo mais eficiente, e, em seguida, de vencer uma \u2018guerra de trinta anos\u2019 contra seu rival principal. O vencedor pode, enfim, estabelecer as regras sob as quais o sistema interestatal opera, para garantir seu funcionamento est\u00e1vel e maximizar o fluxo de capital acumulado para seus cidad\u00e3os e suas empresas produtoras. Pode-se chamar isso de um semimonop\u00f3lio do poder geopol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema enfrentado pelo poder hegem\u00f4nico \u00e9 o mesmo dos l\u00edderes industriais: seu monop\u00f3lio \u00e9 autoliquidante. Em primeiro lugar, ele precisa, ocasionalmente, exercer seu poder militar para manter a ordem. Mas guerras custam dinheiro e vidas, e t\u00eam um impacto negativo em seus cidad\u00e3os, cujo orgulho inicial da vit\u00f3ria pode evaporar conforme pagam pelos custos crescentes da a\u00e7\u00e3o militar. Opera\u00e7\u00f5es militares de larga escala s\u00e3o, frequentemente, menos efetivas do que o esperado, e isso fortalece aqueles que almejam resistir no futuro. Em segundo lugar, mesmo se a efici\u00eancia econ\u00f4mica daquele que conquistou a hegemonia n\u00e3o trope\u00e7ar imediatamente, a dos outros pa\u00edses come\u00e7a a crescer, tornando-lhes cada vez menos dispostos a aceitar seus ditados. O vencedor entra em um processo gradual de decl\u00ednio em rela\u00e7\u00e3o aos poderes ascendentes. O decl\u00ednio pode ser lento, mas \u00e9, de todo modo, irrevers\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que tornou o momento entre 1965 e 1970 t\u00e3o marcante foi a conjun\u00e7\u00e3o destes dois tipos de decl\u00ednios \u2013 o fim da fase A do ciclo de Kondratieff mais expansiva da hist\u00f3ria, e o come\u00e7o do decl\u00ednio da pot\u00eancia hegem\u00f4nica mais poderosa da hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 acidental que a revolu\u00e7\u00e3o mundial de 1968 (na verdade, de 1966-70), tenha tido lugar neste ponto de virada, como sua express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Expulsando a esquerda tradicional<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revolu\u00e7\u00e3o mundial de 1968 marcou um terceiro decl\u00ednio \u2013 um que ocorrera apenas uma vez, no entanto, na hist\u00f3ria do sistema-mundo moderno: o decl\u00ednio dos movimentos antissistema tradicionais, a chamada&nbsp;<em>esquerda tradicional<\/em>. Composta essencialmente por comunistas, socialdemocratas e movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional, a esquerda tradicional surgiu lenta e laboriosamente por todo o sistema-mundo, principalmente no decorrer do \u00faltimo ter\u00e7o do s\u00e9culo XIX&nbsp; at\u00e9 a primeira metade do s\u00e9culo XX; ascendendo da posi\u00e7\u00e3o de marginalidade e fraqueza pol\u00edtica de, digamos, 1870, para uma de centralidade pol\u00edtica e for\u00e7a consider\u00e1vel, em torno de 1950. Esses movimentos alcan\u00e7aram o \u00e1pice de seu poder de mobiliza\u00e7\u00e3o no per\u00edodo entre 1945 a 1968 \u2013&nbsp; exatamente no momento da extraordin\u00e1ria fase A do ciclo de Kondratieff e do ponto m\u00e1ximo da hegemonia dos EUA. N\u00e3o acredito que se trate de um fen\u00f4meno fortuito, embora isso possa parecer contraintuitivo. O boom da economia global levou os empreendedores a crer que concess\u00f5es \u00e0s demandas materiais de seus trabalhadores custaria-lhes menos do que as interrup\u00e7\u00f5es no processo produtivo. Com o tempo, isso significa um aumento dos custos de produ\u00e7\u00e3o, um dos fatores por detr\u00e1s do fim dos semimonop\u00f3lios dos l\u00edderes industriais. A maioria dos empreendedores, por\u00e9m, toma decis\u00f5es que maximizam lucros a curto termo \u2013 no decorrer dos tr\u00eas anos subsequentes, digamos \u2013 e entrega o futuro para os deuses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Considera\u00e7\u00f5es paralelas influenciaram as pol\u00edticas do poder hegem\u00f4nico. Manter uma relativa estabilidade no sistema global era um objetivo essencial, mas os Estados Unidos tiveram que contrabalancear os custos da atividade repressiva com o custo das concess\u00f5es \u00e0s demandas dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional. De forma relutante, no come\u00e7o, mas em seguida mais deliberadamente, Washington come\u00e7ou a preferir uma \u2018descoloniza\u00e7\u00e3o\u2019 controlada, o que teve como efeito levar tais movimentos ao poder. Consequentemente, na metade dos anos 1960, podia-se dizer que os movimentos da esquerda tradicional tinham alcan\u00e7ado seu objetivo hist\u00f3rico de assumir o poder estatal por quase toda parte \u2013 ao menos no papel. Partidos comunistas governavam um ter\u00e7o do mundo, partidos socialdemocratas estavam no poder, ou alternando o poder, em boa parte de outro ter\u00e7o. Movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional tinham chegado ao poder na maior parte do antigo mundo colonial, assim como os movimentos populistas na Am\u00e9rica Latina. Muitos analistas e militantes hoje criticariam a performance destes movimentos, mas isso seria esquecer o medo que permeava a camada mais rica e conservadora do mundo face ao que parecia-lhes um rolo compressor de igualitarismo destrutivo, equipado com o poder estatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revolu\u00e7\u00e3o mundial de 1968 mudou tudo isso. Tr\u00eas temas predominaram em seus m\u00faltiplos levantes: o primeiro afirmava que o poder hegem\u00f4nico dos EUA estava sobrecarregado e era vulner\u00e1vel \u2013 no Vietn\u00e3, a ofensiva Tet foi tida como o golpe fatal para as opera\u00e7\u00f5es militares norteamericanas. Os revolucion\u00e1rios tamb\u00e9m atacavam o papel da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que viam como uma participante em conluio com a hegemonia dos EUA \u2013 um sentimento que crescera por todo lado desde, ao menos, 1956. O segundo tema afirmava que os movimentos da esquerda tradicional tinham fracassado em entregar suas promessas hist\u00f3ricas. Todas as suas tr\u00eas varia\u00e7\u00f5es tinham como premissa a dita estrat\u00e9gia de duas etapas \u2013 primeiro assumir o poder estatal, depois mudar o mundo. Com efeito, os militantes diziam: \u201cVoc\u00eas assumiram o poder estatal mas n\u00e3o mudaram o mundo. Se n\u00f3s queremos mudar o mundo, precisamos de novos movimentos e novas estrat\u00e9gias\u201d. A Revolu\u00e7\u00e3o Cultural chinesa foi, para muitos, o modelo desta possibilidade. O terceiro tema afirmava que a esquerda tradicional havia ignorado as popula\u00e7\u00f5es marginalizadas \u2013 aqueles oprimidos por causa de sua ra\u00e7a, g\u00eanero, etnicidade ou sexualidade. Os militantes insistiam que as demandas por tratamento igualit\u00e1rio n\u00e3o poderiam mais ser deferidas \u2013 elas constitu\u00edam parte urgente do presente. Em muitos aspectos, o movimento Black Power, nos Estados Unidos, foi o exemplo paradigm\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revolu\u00e7\u00e3o mundial de 1968 foi tanto um enorme sucesso pol\u00edtico quanto um enorme fracasso pol\u00edtico. Ela se levantou como uma f\u00eanix, ardeu brilhantemente por todo o globo, mas, j\u00e1 na metade dos anos 1970, parecia ter-se extinguido em quase todos os cantos. O que fora conquistado por esse grande inc\u00eandio selvagem? O liberalismo de centro perdeu seu trono como a ideologia dominante do sistema-mundo, e foi reduzido a uma mera alternativa dentre outras; os movimentos da esquerda tradicional foram destru\u00eddos enquanto mobilizadores de qualquer tipo de mudan\u00e7a fundamental. Mas o triunfalismo de 1968 mostrou-se raso e insustent\u00e1vel. A direita mundial foi igualmente libertada de qualquer associa\u00e7\u00e3o com o liberalismo centrista. Ela se aproveitou da estagna\u00e7\u00e3o da economia mundial e do colapso da esquerda tradicional para lan\u00e7ar uma contraofensiva, a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal. Seus objetivos principais eram reverter todos os ganhos das camadas inferiores durante a fase A do ciclo de Kondratieff: reduzir os custos de produ\u00e7\u00e3o, destruir o estado de bem estar e desacelerar o decl\u00ednio do poder dos EUA. Seu avan\u00e7o pareceu atingir um ponto m\u00e1ximo em 1989, com o fim do controle sovi\u00e9tico sobre seus sat\u00e9lites do Centro-Leste Europeu e o desmantelamento da pr\u00f3pria URSS levou a um novo triunfalismo na direita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ofensiva da direita mundial foi tanto um grande sucesso como um grande fracasso. O que sustentou a acumula\u00e7\u00e3o de capital desde os anos 1970 foi uma virada na busca por lucros da efici\u00eancia produtiva em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua procura atrav\u00e9s de manipula\u00e7\u00f5es financeiras, pela especula\u00e7\u00e3o, para diz\u00ea-lo mais corretamente. O mecanismo chave foi o incentivo do consumo via endividamento. Isso aconteceu em todas as fases B do ciclo de Kondratieff; a diferen\u00e7a, desta vez, foi de escala. Depois da maior expans\u00e3o em fase A da hist\u00f3ria, veio a maior mania especulativa. Bolhas moveram-se por todo o sistema-mundo \u2013 das d\u00edvidas nacionais do Terceiro Mundo e do bloco socialista nos anos 1970 \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es de alto risco de grandes empresas nos anos 1980, do endividamento do consumidor dos anos 1990 ao endividamento do governo norte-americano na era Bush. O sistema foi de bolha a bolha e, atualmente, tenta inflar mais uma, com os socorros financeiros aos bancos e a impress\u00e3o de d\u00f3lar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O decl\u00ednio em que o mundo se encontra continuar\u00e1 por certo tempo, e ser\u00e1 bastante profundo. Ele destruir\u00e1 o \u00faltimo pilar da relativa estabilidade econ\u00f4mica, o papel do d\u00f3lar como moeda de reserva para assegurar riquezas. Quando isso acontecer, a preocupa\u00e7\u00e3o principal de cada governo ser\u00e1 impedir levantes de trabalhadores desempregados e da classe m\u00e9dia cujas poupan\u00e7as e pens\u00f5es est\u00e3o desaparecendo. Os governos, neste momento, est\u00e3o adotando o protecionismo e a impress\u00e3o de dinheiro como sua primeira linha de defesa. Tais medidas podem momentaneamente aliviar a agonia das pessoas comuns, mas \u00e9 prov\u00e1vel que apenas piorem a situa\u00e7\u00e3o. Estamos entrando em um&nbsp; impasse sist\u00eamico, cuja sa\u00edda ser\u00e1 extremamente dif\u00edcil. Isso se expressar\u00e1 em flutua\u00e7\u00f5es cada vez mais selvagens, que tornar\u00e3o as previs\u00f5es de curto termo \u2013 tanto econ\u00f4micas quanto pol\u00edcia \u2013 praticamente achismo. Isso, por sua vez, agravar\u00e1 os anseios populares e o sentimento de aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns afirmam que a posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica relativa consideravelmente aprimorada da Asia \u2013 Jap\u00e3o, Cor\u00e9ia do Sul, Taiwan, China e, de maneira menos significativa, \u00cdndia \u2013 abrir\u00e1 o caminho para um ressurgimento da empreitada capitalista, por meio de uma simples relocaliza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Outra ilus\u00e3o! O avan\u00e7o relativo da Asia \u00e9 uma realidade, mas uma que compromete ainda mais o sistema capitalista ao estender ainda mais a distribui\u00e7\u00e3o de valor excedente, assim reduzindo a acumula\u00e7\u00e3o geral de capital individual, em vez de aument\u00e1-la. A expans\u00e3o da China acelera a redu\u00e7\u00e3o nas margens de lucro da economia-mundo capitalista.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Custos sist\u00eamicos gerais<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 neste momento que precisamos considerar as tend\u00eancias seculares do sistema-mundo, em oposi\u00e7\u00e3o aos seus ritmos c\u00edclicos. Tais ritmos s\u00e3o comuns em v\u00e1rios tipos de sistemas, e fazem parte de seu modo de opera\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 como eles respiram, podemos dizer. Mas as fases B nunca acabam no ponto em que as fases A anteriores come\u00e7aram. Podemos entender cada fase ascendente como uma contribui\u00e7\u00e3o para curvas ascendentes de movimento lento, cada qual aproximando-se de sua pr\u00f3pria ass\u00edntota. Na economia capitalista, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil discernir as curvas mais relevantes. Posto que o capitalismo \u00e9 um sistema no qual a acumula\u00e7\u00e3o infinita \u00e9 fundamental, e dado que acumula-se capital gerando lucro no mercado, a quest\u00e3o chave \u00e9 como produzir produtos por menos do que os pre\u00e7os pelos quais eles podem ser vendidos. Temos, ent\u00e3o, que determinar tanto o que est\u00e1 inclu\u00eddo nos custos de produ\u00e7\u00e3o quanto o que determina os pre\u00e7os. Logicamente, os custos de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o aqueles com pessoal, aportes e taxa\u00e7\u00f5es. Todos os tr\u00eas t\u00eam aumentado enquanto percentual dos pre\u00e7os atuais pelos quais os produtos s\u00e3o vendidos. Isso acontece apesar dos repetidos esfor\u00e7os dos capitalistas para for\u00e7\u00e1-los para baixo, e, apesar das ondas de avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e organizacionais que aumentaram a dita efici\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As despesas com pessoal podem, por sua vez, ser divididas em tr\u00eas categorias: for\u00e7a de trabalho relativamente desqualificada, gerentes intermedi\u00e1rios e gestores superiores. Os sal\u00e1rios dos desqualificados tendem a aumentar nas fases A como resultado de algum tipo de a\u00e7\u00e3o sindical. Quando esses aumentam de uma maneira tida como excessiva por certos empres\u00e1rios, em particular para as ind\u00fastrias de ponta, a reloca\u00e7\u00e3o para \u00e1reas onde os sal\u00e1rios s\u00e3o historicamente menores \u00e9 o principal rem\u00e9dio; se uma a\u00e7\u00e3o similar acontece na nova localiza\u00e7\u00e3o, um segundo movimento ocorre. Esses deslocamentos s\u00e3o custosos, mas bem sucedidos; no entanto, existe mundialmente um efeito em cadeia \u2013 as redu\u00e7\u00f5es nunca eliminam totalmente os aumentos. Por mais de 500 anos, a repeti\u00e7\u00e3o deste processo exauriu os&nbsp;<em>loci&nbsp;<\/em>aos quais o capital pode se realocar. Isso \u00e9 evidenciado pela desruraliza\u00e7\u00e3o do sistema-mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O aumento nos custos da for\u00e7a de trabalho dos gerentes intermedi\u00e1rios \u00e9 o resultado, em primeiro lugar, da escala expandida das unidades produtivas, que requerem mais pessoal intermedi\u00e1rio. Em segundo lugar, os riscos pol\u00edticos da organiza\u00e7\u00e3o sindical do pessoal relativamente pouco qualificado s\u00e3o combatidos com a cria\u00e7\u00e3o de uma camada intermedi\u00e1ria maior, politicamente aliada ao estrato dominante e modelo de mobilidade ascendente para a maioria desqualificada. O aumento dos custos com gestores superiores, entretanto, \u00e9 o resultado direto da complexidade crescente das estruturas empresariais \u2013 a famosa separa\u00e7\u00e3o entre posse e controle. Isso possibilita que gestores superiores apropriem-se de por\u00e7\u00f5es cada vez maiores das receitas das empresas como rendimentos, assim reduzindo a parcela direcionada aos propriet\u00e1rios como lucro ou para reinvestimento. Esse \u00faltimo incremento foi espetacular durante as \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os custos com aportes t\u00eam aumentado por raz\u00f5es an\u00e1logas. Os capitalistas procuram externalizar os custos, isto \u00e9, n\u00e3o pagar toda a conta do manejo de res\u00edduos t\u00f3xicos, da renova\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria-prima e da constru\u00e7\u00e3o de infraestrutura. Do s\u00e9culo XVI aos anos 1960, tal externaliza\u00e7\u00e3o de custos foi uma pr\u00e1tica normal, pouco questionada pelas autoridades pol\u00edticas. Res\u00edduos t\u00f3xicos eram simplesmente despejados no dom\u00ednio p\u00fablico. Mas o mundo esta ficando sem espa\u00e7o p\u00fablico dispon\u00edvel \u2013 paralelamente \u00e0 desrruraliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho mundial. As consequ\u00eancias sanit\u00e1rias e os custos ficaram t\u00e3o altos e t\u00e3o pr\u00f3ximos de casa a ponto de produzir demandas por despolui\u00e7\u00e3o e controle ambiental. Os recursos tamb\u00e9m tornaram-se uma preocupa\u00e7\u00e3o importante, uma consequ\u00eancia do aumento acentuado da popula\u00e7\u00e3o global. Existe, agora, uma discuss\u00e3o generalizada sobre a escassez de recursos energ\u00e9ticos, de \u00e1gua, florestas, peixes e carne. Os custos de transporte e comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m subiram conforme estes tornaram-se mais r\u00e1pidos e eficientes. Empres\u00e1rios, historicamente, pagaram apenas uma pequena parte da conta da infraestrutura. A consequ\u00eancia de tudo isso tem sido a press\u00e3o pol\u00edtica para que governos assumam ainda mais os custos de desintoxica\u00e7\u00e3o, de renova\u00e7\u00e3o de recursos e de expans\u00e3o da infraestrutura. Para fazer isso, os governos precisam aumentar os impostos e insistir na internaliza\u00e7\u00e3o dos custos pelos empres\u00e1rios, o que certamente faz cortes nas margens de lucro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalmente, as taxa\u00e7\u00f5es t\u00eam aumentado. Existem diversas etapas de tributa\u00e7\u00e3o, incluindo a taxa\u00e7\u00e3o privada na forma de corrup\u00e7\u00e3o e das m\u00e1fias organizadas. A tributa\u00e7\u00e3o aumentou conforme o escopo da atividade econ\u00f4mica global e as burocracias estatais se estenderam, mas o \u00edmpeto maior veio dos movimentos antissistema pelo mundo, que pressionaram por garantias estatais de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e fluxos de renda vital\u00edcios. Cada um destes elementos expandiu, tanto geograficamente como em termos dos n\u00edveis dos servi\u00e7os demandados. Nenhum governo hoje est\u00e1 isento da press\u00e3o pela manuten\u00e7\u00e3o de um estado de bem-estar, por mais que os graus de provis\u00e3o variem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos os tr\u00eas custos de produ\u00e7\u00e3o aumentaram de maneira est\u00e1vel como percentual dos pre\u00e7os reais de venda dos produtos, ainda que na forma de um&nbsp;<em>A-B ratchet<\/em>, por 500 anos. Os aumentos mais dram\u00e1ticos aconteceram no per\u00edodo p\u00f3s-1945. N\u00e3o seria poss\u00edvel simplesmente aumentar o pre\u00e7o pelos quais os produtos s\u00e3o vendidos para que se mantenha as margens reais de lucro? Foi exatamente isso que se tentou fazer no per\u00edodo p\u00f3s-1970, na forma de aumentos de pre\u00e7o sustentados pela expans\u00e3o do consumo, por sua vez sustentado pelo endividamento. O colapso econ\u00f4mico no meio do qual nos encontramos n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a express\u00e3o dos limites da elasticidade da demanda. Quando todo mundo gasta muito al\u00e9m de sua verdadeira renda, chega um ponto em que algu\u00e9m tem que parar, e rapidamente todos sentem que devem fazer o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Lutas pela sucess\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conjun\u00e7\u00e3o destes tr\u00eas elementos \u2013 a magnitude do colapso \u2018normal\u2019, o aumento dos custos de produ\u00e7\u00e3o e a press\u00e3o adicional sobre o sistema feita pelo crescimento chin\u00eas (e asi\u00e1tico) \u2013 significam que entramos em uma crise estrutural. Este sistema est\u00e1 longe do equil\u00edbrio, e as flutua\u00e7\u00f5es s\u00e3o enormes. A partir de agora, estaremos vivendo no meio de uma bifurca\u00e7\u00e3o do processo sist\u00eamico. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais \u2018como o sistema capitalista ir\u00e1 se reconstituir e renovar seu impulso adiante?\u2019, mas, \u2018o que substituir\u00e1 este sistema? Que ordem ir\u00e1 emergir deste caos?\u2019<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos pensar neste per\u00edodo como uma crise sist\u00eamica na arena da luta pelo sistema sucessor. O resultado pode ser inerentemente imprevis\u00edvel, mas a natureza da disputa \u00e9 clara. Somos confrontados com escolhas alternativas, que n\u00e3o podem ser apresentadas em detalhes institucionais, mas que podem ser sugeridas de maneira geral. Podemos escolher, coletivamente, um novo sistema que seja essencialmente semelhante ao atual: hier\u00e1rquico, explorador e polarizador. Existem diversas formas nas quais isso pode acontecer, e algumas podem vir a ser mais duras do que o sistema-mundo capitalista em que vivemos. Por outro lado, podemos escolher um sistema radicalmente diferente, um que jamais existiu \u2013 um sistema relativamente democr\u00e1tico e relativamente igualit\u00e1rio. Eu tenho chamado as duas alternativas de \u201co esp\u00edrito de Davos\u201d e \u201co esp\u00edrito de Porto Alegre\u2019, mas os nomes n\u00e3o s\u00e3o importantes. O que importa \u00e9 ver quais s\u00e3o as poss\u00edveis estrat\u00e9gias organizacionais em cada lado, numa luta que se desenrola de certa forma desde 1968 e pode n\u00e3o ter completamente terminado antes de 2050.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devemos, primeiramente, notar duas caracter\u00edsticas cruciais de uma crise estrutural. Como as flutua\u00e7\u00f5es s\u00e3o radicais, existe pouca press\u00e3o para um retorno ao equil\u00edbrio. Durante a longa vida \u00fatil \u2018normal\u2019 do sistema, tal press\u00e3o era a raz\u00e3o pela qual extensivas mobiliza\u00e7\u00f5es sociais \u2013 as ditas \u2018revolu\u00e7\u00f5es\u2019 \u2013 foram limitadas em seus efeitos. Mas quando o sistema est\u00e1 longe do equil\u00edbrio, o oposto pode acontecer \u2013 pequenas mobiliza\u00e7\u00f5es sociais podem ter enormes repercuss\u00f5es, o que a ci\u00eancia da complexidade chama de \u2018efeito borboleta\u2019. Tamb\u00e9m podemos dizer que \u00e9 o momento em que a ag\u00eancia pol\u00edtica prevalece sobre o determinismo estrutural. A segunda caracter\u00edstica crucial \u00e9 que em nenhum dos dois campos h\u00e1 um grupo no topo dando as ordens: um \u2018comit\u00ea executivo da classe dominante\u2019, ou um&nbsp;<em>politburo<\/em>&nbsp;das massas oprimidas. Mesmo dentre aqueles comprometidos com a luta pelo sistema sucessor, existem diversos atores, defendendo \u00eanfases distintas. Os dois grupos de militantes conscientes em ambos os lados tamb\u00e9m est\u00e3o encontrando dificuldades em persuadir os grupos maiores que formam as suas bases potenciais sobre a utilidade e a possibilidade de organizar a transi\u00e7\u00e3o. Em suma, o caos da crise estrutural est\u00e1 refletido na configura\u00e7\u00e3o relativamente desordenada destes dois campos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O campo de Davos est\u00e1 profundamente dividido. Existem aqueles que querem instituir um sistema altamente repressivo que glorifique o papel dos l\u00edderes privilegiados sobre sujeitos submissos. Existe um segundo grupo que acredita que o caminho para o controle e o privil\u00e9gio est\u00e1 em um sistema meritocr\u00e1tico que iria cooptar o grande n\u00famero de gerentes necess\u00e1rios para mant\u00ea-lo com um m\u00ednimo de for\u00e7a e um m\u00e1ximo de persuas\u00e3o. Esse grupo fala a l\u00edngua da mudan\u00e7a fundamental,&nbsp; usando slogans que emergiram dos movimentos anti-sistema \u2013 um universo verde, uma utopia multicultural, oportunidades meritocr\u00e1ticas para todos \u2013 enquanto preservam um sistema polarizado e desigual. No campo de \u2018Porto Alegre\u2019, existe uma cis\u00e3o paralela. H\u00e1 aqueles que almejam um mundo altamente descentralizado, que privilegie aloca\u00e7\u00f5es racionais de longo termo em rela\u00e7\u00e3o ao crescimento econ\u00f4mico e que permita a inova\u00e7\u00e3o sem criar casulos de especializa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o respondam \u00e0 sociedade como um todo. Existe um segundo grupo que \u00e9 mais orientado a uma transforma\u00e7\u00e3o por cima, pelos gerentes e especialistas; eles almejam um sistema t\u00e3o mais coordenado e integrado, um igualitarismo formal sem inova\u00e7\u00e3o real. Ent\u00e3o, em vez de uma simples batalha um a um pelo sistema sucessor, eu prevejo uma luta tripla \u2013 uma entre os dois campos principais e outra dentro de cada campo. Trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o confusa, moralmente e politicamente; e o resultado \u00e9 fundamentalmente incerto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quais s\u00e3o os gestos pr\u00e1ticos que qualquer um pode adotar para fazer esse processo avan\u00e7ar? N\u00e3o existem f\u00f3rmulas, apenas linhas de \u00eanfase. Eu colocaria no topo da lista de a\u00e7\u00f5es que podemos tomar, no curto prazo, minimizar o sofrimento que surge do colapso do sistema existente e das confus\u00f5es da transi\u00e7\u00e3o. Isso pode incluir vencer uma elei\u00e7\u00e3o para obter maiores benef\u00edcios materiais para aqueles que possuem menos; conquistar maior prote\u00e7\u00e3o judicial e direitos pol\u00edticos; adotar medidas para combater uma eros\u00e3o ainda maior de nossa riqueza planet\u00e1ria e das condi\u00e7\u00f5es de nossa sobreviv\u00eancia coletiva. Entretanto, esses n\u00e3o s\u00e3o, em si, passos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do novo sistema sucessor de que precisamos. \u00c9 necess\u00e1rio realizar um s\u00e9rio debate intelectual sobre os par\u00e2metros do tipo de sistema global que desejamos, e sobre a estrat\u00e9gia de transi\u00e7\u00e3o. Isso requer a disposi\u00e7\u00e3o para escutar aqueles que julgamos ter boa \u00edndole, ainda que n\u00e3o compartilhemos as mesmas opini\u00f5es. O debate aberto certamente ir\u00e1 construir uma maior camaradagem, e, talvez, evitar\u00e1 que caiamos no sectarismo que sempre derrotou movimentos anti-sistema. Finalmente, devemos construir, onde for poss\u00edvel, modos de produ\u00e7\u00e3o alternativos, desmercantilizados.&nbsp; Fazendo isso, podemos descobrir os limites de muitos m\u00e9todos particulares, e demonstrar que existem outros modos de garantir a produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel, para al\u00e9m de um sistema de recompensas baseado no princ\u00edpio do lucro. Al\u00e9m disso, a luta contra as desigualdades fundamentais do mundo \u2013 g\u00eanero, classe e ra\u00e7a\/etnia\/religi\u00e3o \u2013 deve ser a primeira linha em nossos pensamentos e a\u00e7\u00f5es. Essa \u00e9 a tarefa mais dif\u00edcil, posto que nenhum de n\u00f3s est\u00e1 livre da culpa, e que a cultura mundial que herdamos milita contra n\u00f3s. \u00c9 preciso dizer que devemos evitar qualquer no\u00e7\u00e3o de que a hist\u00f3ria est\u00e1 do nosso lado? Temos, no melhor dos casos, 50% de chance de criar um sistema-mundo melhor do que este em que vivemos. Mas 50% \u00e9 bastante. 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