{"id":14903,"date":"2021-03-11T12:04:25","date_gmt":"2021-03-11T15:04:25","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14903"},"modified":"2021-03-07T21:06:31","modified_gmt":"2021-03-08T00:06:31","slug":"a-teoria-do-dinheiro-em-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/03\/11\/a-teoria-do-dinheiro-em-marx\/","title":{"rendered":"A teoria do dinheiro em Marx"},"content":{"rendered":"<p><strong>SOFIA MANZANO &#8211;\u00a0<\/strong>Pref\u00e1cio do livro hom\u00f4nimo de Isaak Illich Rubin<\/p>\n<p>Quanto mais se desenvolve o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e alcan\u00e7a todos os espa\u00e7os, ocupa todo o tempo e determina toda a exist\u00eancia (humana ou n\u00e3o), mais enigm\u00e1tica parece ser a compreens\u00e3o de seu verdadeiro modo de funcionamento. A explora\u00e7\u00e3o do trabalho humano pela burguesia no processo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, que, em seu nascimento, era evidente e se apresentava como uma realidade nua e crua, foi se tornando cada vez mais complexo e encoberto por um espesso v\u00e9u do cotidiano reificado, dificultando a apreens\u00e3o da ess\u00eancia dessa realidade. Desde a publica\u00e7\u00e3o do primeiro livro de\u00a0<em>O capital<\/em>, em 1867, essa realidade esteve escancarada para a compreens\u00e3o humana, mas a luta de classes e a luta pela vida contribu\u00edram para que as descobertas cient\u00edficas reveladas por Marx ficassem relegadas a alguns estudiosos marxistas e militantes comunistas.<\/p>\n<p>Marx produziu O capital como uma arma te\u00f3rica da luta do proletariado para alcan\u00e7ar a emancipa\u00e7\u00e3o humana. Sem compreender a realidade n\u00e3o se pode mud\u00e1-la, s\u00f3 que esse ensinamento foi brilhantemente apropriado pela burguesia, que operou, sem descanso, para produzir todo tipo de \u201cteoria\u201d que impedisse essa compreens\u00e3o. Menos de uma d\u00e9cada ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do primeiro livro de\u00a0<em>O capital<\/em>\u00a0\u2013 portanto, mesmo antes da publica\u00e7\u00e3o dos dois outros livros \u2013 consolida-se a atualmente bem conhecida Escola Austr\u00edaca. O sucesso dessa escola est\u00e1 em refutar, dentro dos c\u00e2nones da ci\u00eancia a servi\u00e7o das classes dominantes, a teoria do valor baseada no trabalho humano, uma vez que, explicar a forma de exist\u00eancia humana, sob o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, ancorada na explora\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 fornecer uma poderosa arma \u00e0 classe trabalhadora. E isso tem que ser bloqueado a qualquer custo.<\/p>\n<p>O Positivismo tem um papel importante na consolida\u00e7\u00e3o da Escola Austr\u00edaca, n\u00e3o s\u00f3 por estabelecer os limites sobre os quais cada ci\u00eancia deve se ocupar \u2013 o que elimina a totalidade como exig\u00eancia cient\u00edfica \u2013 mas principalmente por refutar a problematiza\u00e7\u00e3o como procedimento cient\u00edfico. Ao argumentar que a humanidade transitou do conhecimento teol\u00f3gico ao metaf\u00edsico e, deste, culminou com sua forma \u00faltima acabada, o pensamento positivo, tudo o que estiver relacionado com investiga\u00e7\u00e3o das causas de um fen\u00f4meno \u00e9 remetido \u00e0 metaf\u00edsica, ou ao pensamento normativo, e n\u00e3o cient\u00edfico. Assim, n\u00e3o cabe ao cientista perguntar o porqu\u00ea, problematizar, investigar as causas de um fen\u00f4meno relegando toda essa investiga\u00e7\u00e3o \u00e0 metaf\u00edsica, j\u00e1 ultrapassada pelo pensamento positivo. Nessa perspectiva metodol\u00f3gica, o cientista tem que descobrir as leis naturais e imut\u00e1veis dos fen\u00f4menos para uso pragm\u00e1tico o saber se restringe a como os fen\u00f4menos funcionam.<\/p>\n<p>Na estrada do positivismo e com a crescente considera\u00e7\u00e3o de que o conhecimento cient\u00edfico deve ser quantific\u00e1vel, a Escola Austr\u00edaca estabelece as balizas do que deve ser a pesquisa na \u00e1rea da economia. A matematiza\u00e7\u00e3o se imp\u00f5e como instrumento cient\u00edfico de express\u00e3o dessa ci\u00eancia e, j\u00e1 no s\u00e9culo XX, o empirismo fornece as bases aceit\u00e1veis desse tipo de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um texto de 1926, Issak Rubin ressalta: \u201cFoi na d\u00e9cada de 1870 que os trabalhos [da Escola Austr\u00edaca] apareceram quase que simultaneamente, por Carl Menger. [William Stanley] Jevons e L\u00e9on Walras, os fundadores da nova escola, entre os quais Menger desenvolveu mais profundamente o fundamento psicol\u00f3gico da teoria e Walras a matem\u00e1tica. Durante a d\u00e9cada de 1880, [Friedrich von] Wieser e [Eugen von] B\u00f6hm-Bawerk, alunos de Menger (todos os tr\u00eas moravam na \u00c1ustria), elaboraram em detalhes a teoria psicol\u00f3gica, que tamb\u00e9m \u00e9, frequentemente, chamada de teoria austr\u00edaca. No final do s\u00e9culo XIX, tornou-se difundida na ci\u00eancia universit\u00e1ria burguesa em quase todos os pa\u00edses do mundo\u201d (in DAY &amp; GAIDO, 2017, p. 430 \u2013 tradu\u00e7\u00e3o minha).<\/p>\n<p>Com a matematiza\u00e7\u00e3o da economia e as restri\u00e7\u00f5es ao escopo de sua pesquisa, a Escola Austr\u00edaca imp\u00f5e as bases sobre as quais se considera \u201ccient\u00edfico\u201d nessa \u00e1rea do conhecimento, ignorando as contribui\u00e7\u00f5es dos cl\u00e1ssicos (Adam Smith, David Ricardo) nas investiga\u00e7\u00f5es sobre as causas dos fen\u00f4menos \u2013 vale lembrar, aqui, que a obra mais importante de Adam Smith na \u00e1rea \u00e9 intitulada\u00a0<em>Uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a natureza e as causas da riqueza das na\u00e7\u00f5es<\/em>, mas foi resumida \u00e0\u00a0<em>Riqueza das na\u00e7\u00f5es<\/em>. Essa escola se apropria das descobertas, como os mecanismos de mercado (a m\u00e3o invis\u00edvel), a defesa do liberalismo, a restri\u00e7\u00e3o ao papel do Estado, presentes nas obras dos cl\u00e1ssicos, e ignoram as contribui\u00e7\u00f5es destes para a teoria do valor.<\/p>\n<p>Na Escola Austr\u00edaca, \u201ca teoria matem\u00e1tica [\u2026] come\u00e7a com os fen\u00f4menos das trocas desenvolvidas e estuda a correla\u00e7\u00e3o entre a quantidade de bens e seu pre\u00e7o objetivo de mercado. Ignorando a quest\u00e3o da causa final das mudan\u00e7as nos pre\u00e7os (ou seja, o problema do valor), essa teoria se restringe a investigar a depend\u00eancia funcional entre o n\u00edvel dos pre\u00e7os de mercado e a quantidade de bens (as leis da oferta e da demanda). As \u201cf\u00f3rmulas de troca\u201d matem\u00e1ticas resultantes tamb\u00e9m s\u00e3o aplicadas aos fen\u00f4menos de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, restringindo, assim, todo o alcance da ci\u00eancia econ\u00f4mica a um estudo das mudan\u00e7as quantitativas do pre\u00e7o de mercado\u201d. (Rubin, [1926], in DAY &amp; GAIDO, 2017, p. 431).<\/p>\n<p>No entanto, para al\u00e9m da matematiza\u00e7\u00e3o e a estreita margem que se autoimp\u00f5e a ci\u00eancia econ\u00f4mica a partir da\u00ed, outra imposi\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica tem um significado mais profundo, isto \u00e9, a psicologiza\u00e7\u00e3o do comportamento humano tomado como a-hist\u00f3rico e potencializado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201cnatureza humana\u201d. O racionalismo iluminista serve de apoio para a psicologiza\u00e7\u00e3o da economia na medida em que os agentes determinam, a partir da maximiza\u00e7\u00e3o de seus desejos, a quantidade de bens que almejam adquirir no mercado. Assim, as escolhas racionais e o mecanismo de mercado s\u00e3o as \u00fanicas ferramentas para a determina\u00e7\u00e3o do valor das mercadorias.<\/p>\n<p>A teoria da utilidade marginal se apresentou como a palavra final na ci\u00eancia econ\u00f4mica \u2013 um princ\u00edpio universal de escolha, enraizado na psicologia humana, que se baseou em uma \u00fanica premissa fundamental: o \u201cvalor\u201d de qualquer bem deriva exclusivamente de sua capacidade de satisfazer uma necessidade humana. Um bem que \u00e9 abundante ser\u00e1 usado de maneiras menos importantes e, portanto, ter\u00e1 um pre\u00e7o mais baixo; por outro lado, um bem escasso buscar\u00e1 um pre\u00e7o mais alto porque satisfar\u00e1 necessidades de maior prioridade. Quanto mais um indiv\u00edduo possuir um bem, menos ele valorizar\u00e1 a unidade seguinte, ou marginal. O valor, nesse caso, torna-se nada al\u00e9m de pre\u00e7o, e o pre\u00e7o n\u00e3o tem ancoragem objetiva em um \u00fanico determinante \u2013 o gasto de trabalho vivo e o trabalho incorporado nas formas de capital fixo e circulante.<\/p>\n<p>A suposta \u201cnatureza\u201d psicol\u00f3gica imut\u00e1vel do homem passa a servir como ponto de partida para a pesquisa te\u00f3rica e como argumento para a impossibilidade de uma economia socialista. \u201cA teoria psicol\u00f3gica come\u00e7a com a motiva\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo separado, vivendo em condi\u00e7\u00f5es de uma economia natural; v\u00ea a causa final das mudan\u00e7as no pre\u00e7o e no valor de um bem nas avali\u00e7\u00f5es subjetivas do indiv\u00edduo, que variam em resposta \u00e0 quantidade de bens que ele tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o\u201d. (Rubin, [1926], in DAY &amp; GAIDO, 2017, p. 431).<\/p>\n<p>Rubin descarta, desde o princ\u00edpio, qualquer tentativa de analisar a economia a partir de quest\u00f5es individuais-psicol\u00f3gicas e apresenta grande dom\u00ednio sobre o m\u00e9todo dial\u00e9tico e o trabalho do investigador\/cientista. Ao afirmar que Marx n\u00e3o parte de uma economia simples em que as trocas se d\u00e3o entre dois produtos do trabalho apenas, mas de uma economia de mercado plenamente desenvolvida, em que as mercadorias s\u00e3o produzidas para o mercado e n\u00e3o por encomenda, para a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades de um consumidor, Rubin exclui, a partir do interior da teoria marxista, a possibilidade de as trocas, na economia capitalista, serem baseadas na utilidade da mercadoria: \u201cSe se tratasse da troca ocasional de dois produtos em forma natural, ent\u00e3o [\u2026 haveria] raz\u00e3o sobre este tipo de troca poder ser regulado pela necessidade individual das pessoas envolvidas e por sua avalia\u00e7\u00e3o subjetiva da utilidade relativa dos produtos\u201d (Rubin, 2020).<\/p>\n<p>Mas esse n\u00e3o \u00e9 o caso. A economia capitalista se apresenta em sua forma completa na medida em que as mercadorias s\u00e3o produzidas para o mercado e que seus valores s\u00e3o expressos na rela\u00e7\u00e3o de cada mercadoria com todas as outras, e n\u00e3o a partir da compara\u00e7\u00e3o de apenas dois produtos do trabalho. Para a compreens\u00e3o da teoria do dinheiro, essa abordagem \u00e9 deveras importante, uma vez que o dinheiro n\u00e3o \u00e9 um resultado apenas hist\u00f3rico do desenvolvimento das trocas, mas fundamentalmente derivado da forma mercadoria.<\/p>\n<p><strong>Os dif\u00edceis caminhos da teoria econ\u00f4mica marxista<\/strong><\/p>\n<p>Durante todo o s\u00e9culo XX, os mais variados tipos de marxistas, bem como economistas n\u00e3o marxistas, se debru\u00e7aram sobre\u00a0<em>O capital<\/em>\u00a0para sua maior compreens\u00e3o ou refuta\u00e7\u00e3o, conforme o caso. Os tr\u00eas primeiros cap\u00edtulos, ou a se\u00e7\u00e3o I, sempre se apresentaram, e \u00e9 assim at\u00e9 hoje, como os mais dif\u00edceis e celeiro de toda ordem de confus\u00e3o, afirma\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios e tentativa de refuta\u00e7\u00e3o da teoria de Marx que desvenda o capitalismo.<\/p>\n<p>Desde confus\u00f5es bastante simplistas \u2013 como a afirma\u00e7\u00e3o de que Marx desenvolve o conceito de trabalho abstrato de forma intuitiva, pois n\u00e3o poderia ter uma ideia real do trabalho abstrato, uma vez que este s\u00f3 emergiu realmente com a passagem do \u201ccapitalismo industrial\u201d para a \u201csociedade dos servi\u00e7os\u201d \u2013, at\u00e9 a profunda cr\u00edtica de Louis Althusser sobre o conte\u00fado, ou influencia n\u00e3o ultrapassada de Hegel, tanto no vocabul\u00e1rio, quanto na teoria do fetichismo (Althusser, 2013).<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m aqueles que, por v\u00edcio positivista, fazem a leitura da obra de Marx como um apanhado hist\u00f3rico factual, em que no primeiro cap\u00edtulo seriam apresentados os fatos que ocorreram primeiro (portanto, j\u00e1 ultrapassados), seguindo, cronologicamente, toda a obra at\u00e9 chegar, no Livro III, no capitalismo com suas diversas \u201cesferas do capital\u201d (capital comercial, capital industrial-produtivo, capital financeiro).<\/p>\n<p>Sobre esse aspecto, \u00e9 importante o alerta apresentado por Saad Filho: \u201cApesar de Marx frequentemente lan\u00e7ar m\u00e3o de estudos hist\u00f3ricos para explicar argumentos te\u00f3ricos complexos ou para tra\u00e7ar a evolu\u00e7\u00e3o de importantes categorias anal\u00edticas, o \u00fanico modo de produ\u00e7\u00e3o que ele analisa sistematicamente em\u00a0<em>O capital<\/em>\u00a0\u00e9 o capitalismo\u201d (2011, p. 46).<\/p>\n<p>As confus\u00f5es s\u00e3o muitas e derivam de fatores variados, da m\u00e1 f\u00e9 e necessidade ideol\u00f3gica da burguesia de refutar essa obra, \u00e0s car\u00eancias te\u00f3ricas dos leitores bem intencionados. Galbraith (1987), um dos mais influentes economistas \u201cheterodoxos\u201d, ao tempo em que imputa a Marx uma por\u00e7\u00e3o de conceitos absolutamente equivocados, tenta se proteger das cr\u00edticas afirmando que Marx estava certo apenas para analisar a economia do seu tempo, mas est\u00e1 ultrapassado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, como considera o marxismo um dogma religioso, afirma que essa corrente de pensamento desqualifica os oponentes afirmando que estes n\u00e3o compreenderam a complexidade da argumenta\u00e7\u00e3o de Marx. Vale dizer que, apesar da complexidade e dificuldade que todo marxista reconhece, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil apontar as aberra\u00e7\u00f5es que Galbraith atribui a Marx e o senso comum presente em sua argumenta\u00e7\u00e3o, como, por exemplo, a afirma\u00e7\u00e3o de que o materialismo hist\u00f3rico de Marx \u00e9 \u201ca motiva\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica\u201d por tr\u00e1s dos acontecimentos hist\u00f3ricos!<\/p>\n<p>N\u00e3o farei aqui uma exegese dos problemas de compreens\u00e3o de\u00a0<em>O capital<\/em>, at\u00e9 por n\u00e3o ser esse o objetivo deste texto,<sup>[1]<\/sup>\u00a0apenas elenquei \u2013 e, destarte, concordo que existam \u2013 alguns n\u00edveis de dificuldade. Em grande parte, os equ\u00edvocos e cr\u00edticas est\u00e3o relacionados \u00e0 teoria do valor, principalmente por seu conte\u00fado revolucion\u00e1rio, pois a descoberta da forma espec\u00edfica da explora\u00e7\u00e3o capitalista no trabalho n\u00e3o pago depende da compreens\u00e3o de que a produ\u00e7\u00e3o de mercadoria tem como finalidade a produ\u00e7\u00e3o do valor, mas que essa mesma mercadoria \u00e9 objeto \u00fatil, valor de uso. Para a teoria econ\u00f4mica neocl\u00e1ssica e a mistifica\u00e7\u00e3o do modo real de funcionamento do capitalismo, a mercadoria \u00e9 apenas um objeto \u00fatil e essa sua qualidade a transforma em objeto de desejo que \u00e9 valorado no mercado, pelos consumidos \u00e1vidos por ela.<\/p>\n<p>Contudo, no primeiro cap\u00edtulo do Livro I, Marx vai al\u00e9m do que j\u00e1 havia sido explanado pelos Cl\u00e1ssicos no que se refere \u00e0 teoria do valor e que se puserem a investigar a medida e a subst\u00e2ncia do valor. Ele mesmo reconhece: \u201c\u00c9 verdade que a economia pol\u00edtica analisou, mesmo que incompletamente, o valor e a grandeza de valor e revelou o conte\u00fado que se esconde nessas formas. Mas ela jamais sequer colocou a seguinte quest\u00e3o: por que esse conte\u00fado assume aquela forma, e por que, portanto, o trabalho se representa no valor e a medida do trabalho, por meio de sua dura\u00e7\u00e3o temporal, na grandeza do produto do trabalho?\u201d (Marx, 2013, pp. 154-155).<\/p>\n<p>Com a descoberta do \u201csegredo\u201d da mercadoria em seu car\u00e1ter fetichista, ficam ultrapassados os limites dessa \u201cconsci\u00eancia burguesa\u201d que n\u00e3o permitiram aos Cl\u00e1ssicos apreender que a forma-valor da mercadoria s\u00f3 aparece em uma espec\u00edfica \u201cforma\u00e7\u00e3o social em que o processo de produ\u00e7\u00e3o domina os homens, e n\u00e3o os homens o processo de produ\u00e7\u00e3o\u201d (Marx, 2013, p. 156).<\/p>\n<p>No entanto, os cap\u00edtulos dois e tr\u00eas tamb\u00e9m suscitam confus\u00f5es, ou, no m\u00ednimo, leituras apressadas. O processo de troca e o dinheiro podem ser, e muitas vezes o s\u00e3o, lidas tamb\u00e9m como evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do desenvolvimento humano, ou como manual sobre as fun\u00e7\u00f5es da moeda. Ao mesmo tempo em que acreditava ter escrito uma obra para impulsionar a luta dos trabalhadores por sua emancipa\u00e7\u00e3o, portanto, ao n\u00edvel de sua compreens\u00e3o, Marx alerta no posf\u00e1cio da segunda edi\u00e7\u00e3o do Livro I (publicada em 1873) que, em primeiro lugar, \u00e9 importante diferenciar o m\u00e9todo de an\u00e1lise do m\u00e9todo de exposi\u00e7\u00e3o: \u201cA investiga\u00e7\u00e3o tem de se apropriar da mat\u00e9ria [<em>Stoff<\/em>] em seus detalhes, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e rastrear seu nexo interno. Somente depois de consumado tal trabalho \u00e9 que se pode expor adequadamente o movimento do real. Se isso \u00e9 que se pode expor adequadamente o movimento do real. Se isso \u00e9 realizado com sucesso, e se a vida da mat\u00e9ria \u00e9 agora refletida idealmente, o observador pode ter a impress\u00e3o de se encontrar diante de uma constru\u00e7\u00e3o\u00a0<em>a priori<\/em>\u201d (Marx, 2013, p. 90).<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 sempre bom lembrar ao leitor de\u00a0<em>O capital<\/em>\u00a0que, n\u00e3o s\u00f3 a \u201cescorregada\u201d hegeliana de Marx ao afirmar que todo in\u00edcio de uma ci\u00eancia \u00e9 dif\u00edcil, como alerta Althusser (2013), mas principalmente que a estrutura da obra compreende tamb\u00e9m uma li\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica. Em sua exposi\u00e7\u00e3o, parte-se do n\u00edvel mais abstrato para o mais concreto; do n\u00edvel mais conceitual para se chegar ao conjuntural, hist\u00f3rico, pois se \u201ctoda ci\u00eancia repousa sobre sua teoria pr\u00f3pria\u201d e que \u201cessa teoria indispens\u00e1vel a toda ci\u00eancia [\u2026] \u00e9 um sistema de conceitos cient\u00edficos de base\u201d (Althusser, 2013, p. 42), o leitor tem que estar preparado para se deparar com um n\u00edvel elevado de abstra\u00e7\u00e3o na apreens\u00e3o dos conceitos, e n\u00e3o considerar a exposi\u00e7\u00e3o como exemplifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-concreta da realidade.<\/p>\n<p>No entanto, se o conceito \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o e para que a ci\u00eancia tenha validade como ci\u00eancia \u2013 e n\u00e3o seja apenas um apanhado de ideias que objetivam encobrir a realidade, \u201c[\u2026] conceitos abstratos designam realidades realmente existentes. O que torna cient\u00edfica a abstra\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente o fato de ela designar uma realidade concreta que existe realmente [\u2026] Todo conceito abstrato fornece, portanto, o conhecimento de uma realidade cuja exist\u00eancia ele revela: conceito abstrato quer dizer, ent\u00e3o, f\u00f3rmula aparentemente abstrata, mas, na realidade, terrivelmente concreta pelo objeto que designa\u201d (Althusser, 2013, p. 42).<\/p>\n<p><em>A teoria do dinheiro em Marx<\/em>, de Isaak Rubin, \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o fundamental para a leitura de\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0de Marx, mas tamb\u00e9m para a compreens\u00e3o do desenvolvimento final do capitalismo e sua crise que vivemos hoje. Escrito entre 1923 e 1928, o texto s\u00f3 foi publicado pela primeira vez em 2011. At\u00e9 hoje contamos com a impress\u00e3o em russo, alem\u00e3o, ingl\u00eas e esta agora, em portugu\u00eas. Apesar de ser um texto inconcluso e que n\u00e3o teve o acabamento final para a impress\u00e3o, essa obra merece ser estudada com aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Rubin \u00e9 (pouco) conhecido entre n\u00f3s por sua contribui\u00e7\u00e3o ao entendimento da teoria do valor, com a publica\u00e7\u00e3o, em 1980, de seu livro\u00a0<em>A teoria marxista do valor<\/em>, em que, ainda na introdu\u00e7\u00e3o, alerta que \u201co objetivo \u00faltimo da ci\u00eancia \u00e9 compreender a economia capitalista como um todo, como um sistema espec\u00edfico de for\u00e7as produtivas e rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o entre as pessoas\u201d (Rubin, 1980, p. 14). Assim, no mesmo caminho cient\u00edfico inaugurado por Marx, Rubin procura expor os \u201cnexos internos\u201d dos processos sociais que se estabelecem na sociedade capitalista presentes na obra de Marx.<\/p>\n<p>No entanto, estes \u201cnexos internos\u201d n\u00e3o podem ser alcan\u00e7ados com a compartimentaliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia em seus aspectos t\u00e9cnico-material, de um lado, e os aspectos sociais, de outro: \u201cA Economia Pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es\u00a0<em>entre as coisas<\/em>, como pensavam os economistas vulgares, nem das rela\u00e7\u00f5es\u00a0<em>entre as pessoas e as coisas<\/em>, como afirmou a teoria da utilidade marginal, mas das rela\u00e7\u00f5es\u00a0<em>entre as pessoas no processo de produ\u00e7\u00e3o<\/em>. (Rubin, 1980, p. 15).<\/p>\n<p>Profundo conhecedor da obra dos cl\u00e1ssicos da Economia Pol\u00edtica, como pode ser constatado em seu livro\u00a0<em>Hist\u00f3ria do pensamento econ\u00f4mico<\/em>\u00a0(Rubin, 2014), bem como das escolas de pensamento econ\u00f4mico que se desenvolveram at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, esse marxista transita com muita compet\u00eancia pelos conceitos econ\u00f4micos que s\u00e3o apresentados por Marx em\u00a0<em>O capital<\/em>. Por isso, a relev\u00e2ncia de\u00a0<em>A teoria do dinheiro em Marx<\/em>.<\/p>\n<p><strong>O dinheiro em Marx: teorias e pol\u00eamicas<\/strong><\/p>\n<p>Assim como a teoria marxista do valor suscita pol\u00eamica e diversas interpreta\u00e7\u00f5es mesmo no interior do campo marxista (Saad Filho, 2011), a teoria do dinheiro de Marx provoca confus\u00f5es ainda mais contundentes (Prado, 2016). Como salientamos acima, a obra de Marx n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de compreender, ainda mais por ser o resultado de uma mente brilhante que lidava com maestria com o m\u00e9todo dial\u00e9tico. Apresentou, assim, em\u00a0<em>O capital<\/em>, o desenvolvimento l\u00f3gico desse modo de produ\u00e7\u00e3o, mas a todo momento traz refer\u00eancias hist\u00f3ricas. Saad Filho (2011) chama a aten\u00e7\u00e3o para duas principais interpreta\u00e7\u00f5es sobre a teoria do valor marxista, a tradicional e a teoria da forma valor, desenvolvida principalmente por Rubin (1980). De maneira semelhante, Prado (2016) observa os equ\u00edvocos dos marxistas que consideram que, na teoria do dinheiro de Marx, dinheiro \u00e9 sempre uma mercadoria f\u00edsica.<\/p>\n<p>Tanto na primeira cr\u00edtica quanto na segunda, podemos destacar que os limites das interpreta\u00e7\u00f5es esbarram em limites metodol\u00f3gicos. Qualquer tentativa de transformar o m\u00e9todo dial\u00e9tico num modelo formal de procedimentos a serem adotados na investiga\u00e7\u00e3o representa, nomeadamente, a formaliza\u00e7\u00e3o da dial\u00e9tica, portanto, sua destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como \u00e9 sabido, o m\u00e9todo dial\u00e9tico n\u00e3o \u00e9 uma f\u00f3rmula que se aplica desde fora ao objeto de estudo; \u00e9 o objeto, em seu movimento, que apresenta sua hist\u00f3ria e suas contradi\u00e7\u00f5es dial\u00e9ticos: \u201cPorque o m\u00e9todo marxista, como sabemos, \u00e9 interno ao objeto; n\u00e3o imp\u00f5e um car\u00e1ter l\u00f3gico pr\u00e9-estabelecido ao que deseja apreender conceitualmente, mas respeita a maneira como \u00e9 e como muda na pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o dos conceitos\u201d (Prado, 2016, p. 15).<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>A teoria do dinheiro em Marx<\/em>, Rubin ressalta, a todo o momento, a necessidade l\u00f3gica de apreens\u00e3o dos conceitos e o demonstra com as passagens extra\u00eddas das principais obras econ\u00f4micas de Marx, seja de\u00a0<em>O capital<\/em>, de\u00a0<em>Para a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>, de\u00a0<em>Sal\u00e1rio, pre\u00e7o e lucro<\/em>\u00a0e das\u00a0<em>Teorias da mais-valia<\/em>. No entanto, Rubin n\u00e3o \u00e9 apenas um resenhista, \u00e9 tamb\u00e9m um te\u00f3rico e traz \u00e0 superf\u00edcie do conhecimento presente toda a riqueza da obra de Marx na teoria do dinheiro a partir da deriva\u00e7\u00e3o da forma mercadoria e da forma valor.<\/p>\n<p>Se \u201c\u00e9 apenas na medida [em] que o processo de produ\u00e7\u00e3o adquire a forma de produ\u00e7\u00e3o mercantil, isto \u00e9, produ\u00e7\u00e3o baseada na troca, que o trabalho adquire a forma de trabalho abstrato e os produtos do trabalho adquirem a forma de valor\u201d (Rubin, 1980, p. 165).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ser\u00e1, para ele, o duplo car\u00e1ter da mercadoria, entre valor de uso e valor, de onde se deriva a necessidade do dinheiro: \u201cEnquanto valor de uso, toda mercadoria \u00e9 um dos elementos do metabolismo material na sociedade, do movimento de todas as coisas materiais. Enquanto valor de troca, ela d\u00e1 ao eu produtor a possibilidade de entrar em uma rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o com outro produtor. Dessa dupla natureza da mercadoria, ent\u00e3o, Marx tamb\u00e9m derivou a necessidade do dinheiro. Mas n\u00f3s j\u00e1 sabemos que essa dupla natureza da mercadoria n\u00e3o representa mais do que uma express\u00e3o da dupla natureza da pr\u00f3pria troca, na qual as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o entre as pessoas s\u00e3o criadas pela troca das coisas\u201d (Rubin, 2020).<\/p>\n<p><em>A teoria do dinheiro em Marx<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 um texto terminado, portanto, \u00e9 interrompido antes do desenvolvimento da forma dinheiro em cr\u00e9dito, capital etc. Contudo, assim como\u00a0<em>Teoria do valor em Marx<\/em>\u00a0(1980) proporcionou grande avan\u00e7o na interpreta\u00e7\u00e3o da teoria marxista, este livro tamb\u00e9m representa a fecunda colabora\u00e7\u00e3o de um autor perspicaz e profundo conhecedor da teoria econ\u00f4mica de Marx.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Isaak Illich Rubin.\u00a0<em>A teoria do dinheiro em Marx<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Tiago Camarinha Lopes. S\u00e3o Paulo, Instituto Caio Prado Jr., 2020, 180 p\u00e1gs.<\/p>\n<p><strong>Obras citadas<\/strong><\/p>\n<p>Althusser, L.\u00a0<em>Advert\u00eancia aos leitores do livro I d\u2019O capital<\/em>. Trad. Celso N. Kashiura Jr. e M\u00e1rcio B. Naves.\u00a0<em>In<\/em>\u00a0Marx, K. Marx, K.\u00a0<em>O capital<\/em>. \u201cCr\u00edtica da economia pol\u00edtica\u201d. Trad. Rubens Enderle. Livro I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>Galbraith, J. K.\u00a0<em>A sociedade afluente<\/em>. Trad. Carlos Afonso Malferrari. S\u00e3o Paulo: Pioneira, 1987.<\/p>\n<p>Marx, K.\u00a0<em>O capital<\/em>. \u201cCr\u00edtica da economia pol\u00edtica\u201d. Trad. Rubens Enderle. Livro I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>Prado. E. F. S. \u201cFrom \u2018gold Money to fictitions money\u201d.\u00a0<em>In Brazilian Journal of Political Economy<\/em>, vol. 36, n\u00ba 1 (142), pp. 14-28, mar.\/jun., 2016.<\/p>\n<p>Rubin, I. I.\u00a0<em>A teoria marxista do valor<\/em>. Trad. Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de S. Amaral Filho. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1980.<\/p>\n<p>______ [1926]. \u201cThe Austrian School\u201d. In Day, R. B. &amp; Gaido, D. F.\u00a0<em>Responses to Marx\u2019s Capital. From Rudolf Hilferding to Isaak Illich Rubin<\/em>. Leiden: Historical Materialism, 2017.<\/p>\n<p>______\u00a0<em>Hist\u00f3ria do pensamento econ\u00f4mico<\/em>. Trad. Rubens Enderle. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2014.<\/p>\n<p>Saad Filho, A.\u00a0<em>O valor de Marx<\/em>. \u201cEconomia pol\u00edtica para o capitalismo contempor\u00e2neo\u201d. Campinas: Editora da Unicamp, 2011.<\/p>\n<p>Nota<\/p>\n<p>[1] Um aporte importante sobre as dificuldades e caminhos de leitura de\u00a0<em>O capital<\/em>\u00a0pode ser encontrado em Althusser (2013).<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-teoria-do-dinheiro-em-marx\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SOFIA MANZANO &#8211;\u00a0Pref\u00e1cio do livro hom\u00f4nimo de Isaak Illich Rubin Quanto mais se desenvolve o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e alcan\u00e7a todos os espa\u00e7os, ocupa todo o tempo e determina toda a exist\u00eancia (humana ou n\u00e3o), mais enigm\u00e1tica parece ser a compreens\u00e3o de seu verdadeiro modo de funcionamento. 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