{"id":14901,"date":"2021-03-10T12:01:37","date_gmt":"2021-03-10T15:01:37","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14901"},"modified":"2021-03-07T21:04:02","modified_gmt":"2021-03-08T00:04:02","slug":"nao-ha-grandeza-alguma-no-stalinismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/03\/10\/nao-ha-grandeza-alguma-no-stalinismo\/","title":{"rendered":"N\u00e3o h\u00e1 grandeza alguma no stalinismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Michael L\u00f6wy<\/strong> &#8211; Neste artigo, L\u00f6wy defende o projeto societ\u00e1rio marxista original, frente \u00e0s cr\u00edticas pr\u00f3-stalinianas do esloveno Slavoj Zizek.<\/p>\n<p>Os escritos de Georg Luk\u00e1cs nos anos 1930, apesar de seus limites, contradi\u00e7\u00f5es e compromissos (com o stalinismo), ainda s\u00e3o do maior interesse. \u00c9 o caso especialmente de seu ensaio sobre H\u00f6lderlin de 1935, intitulado \u201cO Hip\u00e9rion\u00a0de H\u00f6lderlin\u201d, traduzido por Lucien Goldmann e inclu\u00eddo no volume\u00a0Goethe e sua \u00e9poca\u00a0(1949).<\/p>\n<p>Luk\u00e1cs \u00e9 literalmente fascinado pelo poeta, que descreve como \u201cum dos mais puros e profundos poetas eleg\u00edacos de todos os tempos\u201d, cuja obra tem \u201cum car\u00e1ter profundamente revolucion\u00e1rio\u201d[i]. Mas, ao contr\u00e1rio da opini\u00e3o geral dos historiadores da literatura, ele se recusa obstinadamente a reconhec\u00ea-lo como um autor rom\u00e2ntico. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio dos anos 1930, Luk\u00e1cs compreendeu, com grande lucidez, que o romantismo n\u00e3o era uma simples escola liter\u00e1ria, mas um protesto cultural contra a civiliza\u00e7\u00e3o capitalista, em nome de valores \u2013 religiosos, \u00e9ticos, culturais \u2013 do passado. Ele estava ao mesmo tempo convencido de que, por suas refer\u00eancias passadistas, tratava-se de um fen\u00f4meno essencialmente reacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>O termo \u201canticapitalismo rom\u00e2ntico\u201d aparece pela primeira vez num artigo de Luk\u00e1cs sobre Dostoievski, no qual o escritor russo \u00e9 condenado como \u201creacion\u00e1rio\u201d. Segundo este texto publicado em Moscou, a influ\u00eancia de Dostoievski resulta de sua capacidade de transformar os problemas da oposi\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica ao capitalismo em problemas \u201cespirituais\u201d; a partir desta \u201coposi\u00e7\u00e3o intelectual pequeno-burguesa anticapitalista rom\u00e2ntica (\u2026), abre-se uma ampla avenida para a direita, para a rea\u00e7\u00e3o, hoje em dia para o fascismo, e, em contrapartida, um caminho estreito e dif\u00edcil para a esquerda, para a revolu\u00e7\u00e3o\u201d[ii].<\/p>\n<p>Esse \u201ccaminho estreito\u201d parece desaparecer quando ele escreve, tr\u00eas anos mais tarde, um ensaio sobre \u201cNietzsche precursor da est\u00e9tica fascista\u201d. Luk\u00e1cs apresenta Nietzsche como um continuador da tradi\u00e7\u00e3o das cr\u00edticas rom\u00e2nticas do capitalismo: da mesma forma que elas, \u201cele op\u00f5e, a cada momento, \u00e0 incultura do presente a alta cultura dos per\u00edodos pr\u00e9-capitalistas ou do in\u00edcio do capitalismo\u201d. Para ele, essa cr\u00edtica \u00e9 reacion\u00e1ria, e pode facilmente conduzir ao fascismo[iii].<\/p>\n<p>Encontramos aqui uma surpreendente cegueira: Luk\u00e1cs n\u00e3o parece perceber a heterogeneidade pol\u00edtica do romantismo e, em particular, a exist\u00eancia, ao lado do romantismo reacion\u00e1rio, que sonha com um imposs\u00edvel regresso ao passado, de um romantismo revolucion\u00e1rio, que aspira a um desvio pelo passado, em dire\u00e7\u00e3o a um futuro ut\u00f3pico. Essa recusa \u00e9 ainda mais surpreendente porque a obra do pr\u00f3prio jovem Luk\u00e1cs, por exemplo, seu ensaio\u00a0A teoria do romance\u00a0(1916) pertence a este universo cultural rom\u00e2ntico\/ut\u00f3pico[iv].<\/p>\n<p>Essa corrente revolucion\u00e1ria est\u00e1 presente desde as origens do movimento rom\u00e2ntico. Tomemos como exemplo\u00a0As origens da desigualdade entre os homens\u00a0de Jean-Jacques Rousseau (1755), que podemos considerar como uma esp\u00e9cie de primeiro manifesto do romantismo pol\u00edtico: sua cr\u00edtica feroz da sociedade burguesa, da desigualdade e da propriedade privada \u00e9 feita em nome de um passado mais ou menos imagin\u00e1rio, o Estado de Natureza (ainda inspirado pelos costumes livres e igualit\u00e1rios dos ind\u00edgenas \u201cCara\u00edbas\u201d). Entretanto, ao contr\u00e1rio do que sustentam seus advers\u00e1rios (Voltaire!), Rousseau n\u00e3o prop\u00f5e que os homens modernos retornem \u00e0 floresta, mas sonha com uma nova forma de igualdade libert\u00e1ria dos \u201cselvagens\u201d: a democracia. Encontramos o romantismo ut\u00f3pico, sob diversas formas, n\u00e3o apenas na Fran\u00e7a, mas tamb\u00e9m na Inglaterra (Blake, Shelley) e mesmo na Alemanha: o jovem Schlegel n\u00e3o era um ardoroso apoiador da Revoluc\u0327a\u0303o Francesa? \u00c9 tamb\u00e9m o caso, certamente, de H\u00f6lderlin, poeta revolucion\u00e1rio, mas que, como muitos rom\u00e2nticos depois de Rousseau, est\u00e1 possu\u00eddo pela \u201cnostalgia dos dias de um mundo origin\u00e1rio\u201d (ein Sehnen nach den Tagen der Urwelt)[v].<\/p>\n<p>Luk\u00e1cs \u00e9 obrigado a reconhecer, relutantemente, que encontramos em H\u00f6lderlin os \u201ctra\u00e7os rom\u00e2nticos e anticapitalistas que, naquela altura, n\u00e3o possu\u00edam ainda um car\u00e1ter reacion\u00e1rio\u201d. Por exemplo, o autor do\u00a0Hip\u00e9rion\u00a0tamb\u00e9m detestava, tal como os rom\u00e2nticos, a divis\u00e3o capitalista do trabalho e a estreita liberdade pol\u00edtica burguesa. No entanto, \u201cna sua ess\u00eancia, H\u00f6lderlin (\u2026) n\u00e3o \u00e9 um rom\u00e2ntico, embora sua cr\u00edtica do capitalismo nascente n\u00e3o esteja desprovida de certos tra\u00e7os rom\u00e2nticos\u201d[vi]. Percebemos nestas linhas que afirmam uma coisa e seu contr\u00e1rio, o embara\u00e7o de Luk\u00e1cs e sua dificuldade em mostrar claramente a natureza rom\u00e2ntica revolucion\u00e1ria do poeta. Num primeiro momento, o romantismo \u201cainda n\u00e3o tinha um car\u00e1ter reacion\u00e1rio\u201d? Isso quer dizer que todo o\u00a0Fr\u00fchromantik, o per\u00edodo inicial do romantismo, no final do s\u00e9culo XVIII, n\u00e3o era reacion\u00e1rio? Neste caso, como podemos proclamar que o romantismo \u00e9, por natureza, uma corrente retr\u00f3grada?<\/p>\n<p>Em sua tentativa, contra toda evid\u00eancia, de dissociar H\u00f6lderlin dos rom\u00e2nticos, Luk\u00e1cs menciona o fato de que o passado ao qual se referem n\u00e3o \u00e9 o mesmo: \u201cA diferen\u00e7a na escolha dos temas entre H\u00f6lderlin e os escritores rom\u00e2nticos \u2013 Gr\u00e9cia contra Idade M\u00e9dia \u2013 n\u00e3o \u00e9, portanto, uma simples diferen\u00e7a de temas, mas uma diferen\u00e7a de vis\u00e3o de mundo e de ideologia pol\u00edtica\u201d (p. 194). Contudo, se muitos rom\u00e2nticos referem-se \u00e0 Idade M\u00e9dia, n\u00e3o \u00e9 este o caso para todos: por exemplo, Rousseau, como vimos, inspira-se no modo de vida dos \u201cCara\u00edbas\u201d, estes homens livres e iguais. Encontramos, al\u00e9m do mais, rom\u00e2nticos reacion\u00e1rios que sonham com o Olimpo da Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica. Se levamos em conta o assim chamado \u201cneorromantismo\u201d do final do s\u00e9culo XIX \u2013 na verdade, a continua\u00e7\u00e3o do romantismo sob uma nova forma \u2013, encontramos aut\u00eanticos rom\u00e2nticos revolucion\u00e1rios \u2013 o marxista libert\u00e1rio William Morris e o anarquista Gustav Landauer \u2013 fascinados pela Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>De fato, o que distingue o romantismo revolucion\u00e1rio do reacion\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o tipo de passado ao qual se refere, mas a dimens\u00e3o ut\u00f3pica do futuro. Luk\u00e1cs parece perceber isso, numa outra passagem de seu ensaio, quando evoca a presen\u00e7a concomitante, em H\u00f6lderlin, de um \u201csonho de retorno \u00e0 idade de ouro\u201d e de uma \u201cutopia para al\u00e9m da sociedade burguesa, de uma liberta\u00e7\u00e3o real da humanidade\u201d[vii]. Ele percebe tamb\u00e9m, com perspic\u00e1cia, o parentesco entre H\u00f6lderlin e Rousseau: nos dois encontramos \u201co sonho de uma transforma\u00e7\u00e3o da sociedade\u201d, pela qual esta \u201cse tornaria novamente natural\u201d[viii]. Luk\u00e1cs est\u00e1, assim, bem perto de considerar o\u00a0ethos\u00a0rom\u00e2ntico revolucion\u00e1rio de H\u00f6lderlin, mas seu preconceito inflex\u00edvel contra o romantismo, catalogado como \u201creacion\u00e1rio\u201d por defini\u00e7\u00e3o, o impede de chegar a esta conclus\u00e3o. Em nossa opini\u00e3o, \u00e9 um dos principais limites deste ensaio, de resto brilhante\u2026<\/p>\n<p>O outro limite concerne mais ao julgamento hist\u00f3rico-pol\u00edtico de Luk\u00e1cs sobre o jacobinismo irredut\u00edvel \u2013 p\u00f3s-termidoriano \u2013 de H\u00f6lderlin, comparado com o \u201crealismo\u201d de Hegel: \u201cHegel aceita a \u00e9poca p\u00f3s-termidoriana, o fim do per\u00edodor evolucion\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o francesa, e constr\u00f3i sua filosofia precisamente sobre a compreens\u00e3o desta nova guinada da evolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria universal. H\u00f6lderlin n\u00e3o aceita compromisso algum com a realidade p\u00f3s-termidoriana; ele permanece fiel ao antigo ideal revolucion\u00e1rio de um renascimento da democracia antiga e \u00e9 esmagado por uma realidade que n\u00e3o tinha mais lugar para seus ideais, nem mesmo no plano po\u00e9tico e ideol\u00f3gico\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto Hegel compreendeu \u201ca evolu\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da burguesia como um processo unit\u00e1rio, cujo terror revolucion\u00e1rio, assim como o Termidor e o Imp\u00e9rio, n\u00e3o foram sen\u00e3o fases necess\u00e1rias\u201d, a intransig\u00eancia de H\u00f6lderlin \u201clevou a um impasse tr\u00e1gico. Desconhecido, n\u00e3o chora por ningu\u00e9m, ele caiu como um Le\u00f4nidas po\u00e9tico e solit\u00e1rio, dos ideais do per\u00edodo jacobino \u00e0s Term\u00f3pilas da invas\u00e3o termidoriana\u201d[ix].<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7amos que n\u00e3o falta grandeza a este afresco hist\u00f3rico, liter\u00e1rio e filos\u00f3fico! Ele n\u00e3o \u00e9 menos problem\u00e1tico\u2026 E, sobretudo, cont\u00e9m, implicitamente, uma refer\u00eancia \u00e0 realidade do processo revolucion\u00e1rio sovi\u00e9tico, tal como ocorria no momento em que Luk\u00e1cs redigia seu ensaio.<\/p>\n<p>Esta \u00e9, em todo caso, a hip\u00f3tese, um pouco arriscada, que tentei defender num artigo publicado em ingl\u00eas sob o t\u00edtulo\u00a0Luk\u00e1cs and stalinism, e inclu\u00eddo num livro coletivo,\u00a0Western marxism, a critical reader\u00a0(Londres, New Left Books, 1977). Eu tamb\u00e9m o inclu\u00ed em meu livro sobre Luk\u00e1cs, publicado em franc\u00eas em 1976, e, na Inglaterra, em 1980, sob o t\u00edtulo\u00a0Georg Luk\u00e1cs. From romanticism to bolshevism.\u00a0Aqui est\u00e1 uma passagem que resume minha hip\u00f3tese sobre o afresco hist\u00f3rico esbo\u00e7ado por Luk\u00e1cs no artigo sobre H\u00f6lderlin: \u201cO significado dessas observa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 URSS em 1935 \u00e9 transparente; \u00e9 suficiente acrescentar que Trotsky publicou precisamente em fevereiro de 1935 um ensaio em que ele utiliza pela primeira vez o termo \u2018Termidor\u2019 para caracterizar a evolu\u00e7\u00e3o da URSS depois de 1924 (O Estado oper\u00e1rio e a quest\u00e3o do Termidor e do bonapartismo). Com toda evid\u00eancia, as passagens citadas s\u00e3o a resposta de Luk\u00e1cs a Trotsky, este Le\u00f4nidas intransigente, tr\u00e1gico e solit\u00e1rio, que recusa o Termidor e \u00e9 condenado ao impasse. Luk\u00e1cs, por outro lado, como Hegel, aceita o fim do per\u00edodo revolucion\u00e1rio e constr\u00f3i sua filosofia sobre a compreens\u00e3o da nova guinada da hist\u00f3ria universal. Destaquemos de passagem, todavia, que Luk\u00e1cs parece aceitar, implicitamente, a caracteriza\u00e7\u00e3o trotskista do regime de St\u00e1lin como Termidoriano\u2026\u201d[x].<\/p>\n<p>Por\u00e9m, foi com uma certa surpresa que li, num livro recente de Slavoj\u00a0\u017di\u017eek, uma passagem a respeito do ensaio de Luk\u00e1cs sobre H\u00f6lderlin, que retoma, quase palavra por palavra, minha hip\u00f3tese, mas sem mencionar a fonte:\u00a0\u201c\u00c9 evidente que a an\u00e1lise de Luk\u00e1cs \u00e9 profundamente aleg\u00f3rica: ela foi escrita alguns meses depois que Trotsky lan\u00e7ou sua tese segundo a qual o stalinismo era o Termidor da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. O texto de Luk\u00e1cs dever ser lido como uma resposta a Trotsky: ele aceita a defini\u00e7\u00e3o do regime stalinista como \u2018termidoriano\u2019, mas lhe conferindo um sentido positivo. Mais que deplorar a perda de energia ut\u00f3pica, dever\u00edamos, de um modo heroicamente resignado, aceitar suas consequ\u00eancias como o \u00fanico espa\u00e7o real do progresso social\u201d[xi].<\/p>\n<p>N\u00e3o acredito que o Sr.\u00a0\u017di\u017eek\u00a0tenha lido meu livro sobre Luk\u00e1cs, mas ele provavelmente tomou conhecimento de minha an\u00e1lise no artigo publicado na colet\u00e2nea, de grande circula\u00e7\u00e3o, Western Marxism. Como o Sr. \u017di\u017eek escreve muito, e rapidamente, \u00e9 compreens\u00edvel que ele nem sempre tenha tempo para citar suas fontes\u2026<\/p>\n<p>Slavoj\u00a0\u017di\u017eek\u00a0fez muitas cr\u00edticas a Luk\u00e1cs, dentre as quais esta, bem paradoxal: Luk\u00e1cs \u201ctorna-se, depois dos anos 1930, o fil\u00f3sofo stalinista ideal que, por esta raz\u00e3o precisa e ao contr\u00e1rio de Brecht, deixou de lado a verdadeira grandeza do stalinismo\u201d[xii]. Este coment\u00e1rio encontra-se num cap\u00edtulo de seu livro curiosamente intitulado A grandeza interior do stalinismo \u2013 um t\u00edtulo inspirado pelo argumento de Heidegger sobre a \u201cgrandeza interior do nazismo\u201d, do qual \u017di\u017eek se distancia negando, com raz\u00e3o, toda \u201cgrandeza interior\u201d ao nazismo.<\/p>\n<p>Por que Luk\u00e1cs n\u00e3o compreendeu esta\u00a0\u201cgrandeza\u201d do stalinismo? \u017di\u017eek n\u00e3o explica, mas ele deixa entender que a identifica\u00e7\u00e3o do stalinismo com o Termidor \u2013 proposta por Trotsky e implicitamente aceita por Luk\u00e1cs \u2013 era um erro. Por exemplo, para ele, \u201co ano de 1928 foi um ponto de inflex\u00e3o perturbador, uma verdadeira segunda revolu\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o uma esp\u00e9cie de Termidor, mas antes a radicaliza\u00e7\u00e3o consequente da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro\u201d\u2026 Portanto, Luk\u00e1cs e, do mesmo modo, todos aqueles que n\u00e3o compreenderam \u201ca insuport\u00e1vel tens\u00e3o do pr\u00f3prio projeto stalinista\u201d n\u00e3o perceberam sua \u201cgrandeza\u201d e n\u00e3o compreenderam \u201co potencial emancipat\u00f3rio-ut\u00f3pico do stalinismo\u201d![xiii]\u00a0Moral da hist\u00f3ria: \u00e9 necess\u00e1rio \u201cparar o jogo rid\u00edculo que consiste em opor o terror stalinista \u00e0 \u2018aut\u00eantica\u2019 heranc\u0327a leninista\u201d \u2013 um velho argumento de Trotsky retomado pelos \u201c\u00faltimos trotskistas, estes verdadeiros H\u00f6lderlin do marxismo atual\u201d[xiv].<\/p>\n<p>Slavoj \u017di\u017eek seria, assim, o \u00faltimo dos stalinistas? \u00c9 dif\u00edcil de responder, tanto que seu pensamento maneja, com consider\u00e1vel talento, os paradoxos e as ambiguidades. O que pensar de suas grandiosas proclama\u00e7\u00f5es sobre a \u201cgrandeza interior\u201d do stalinismo e de seu \u201cpotencial ut\u00f3pico-emancipador\u201d? Parece-me que teria sido mais justo falar da \u201cmediocridade interior\u201d e do \u201cpotencial dist\u00f3pico\u201d do sistema stalinista\u2026 A reflex\u00e3o de Luk\u00e1cs sobre o Termidor parece-me mais pertinente, mesmo que ela tamb\u00e9m seja question\u00e1vel.<\/p>\n<p>Meu coment\u00e1rio, no artigo \u201cLuk\u00e1cs and stalinism\u201d (e no meu livro), quanto ao ambicioso afresco hist\u00f3rico de Luk\u00e1cs, a prop\u00f3sito de H\u00f6lderlin, tenta questionar a tese da continuidade entre a Revolu\u00e7\u00e3o e o Termidor: \u201cEste texto de Luk\u00e1cs constitui sem d\u00favida uma das tentativas mais inteligentes e sutis de justificar o stalinismo como uma \u2018fase necess\u00e1ria\u2019, \u2018prosaica\u2019, mas \u2018de car\u00e1ter progressista\u2019, da evolu\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do proletariado, concebida como um processo unit\u00e1rio. H\u00e1 nesta tese \u2013 que era provavelmente o racioc\u00ednio secreto de muitos intelectuais e militantes mais ou menos ligados ao stalinismo \u2013 um certo \u2018n\u00facleo racional\u2019, mas os eventos dos anos seguintes (os processos de Moscou, o pacto germano-sovi\u00e9tico, etc.) mostrariam, mesmo para Luk\u00e1cs, que este processo n\u00e3o era t\u00e3o \u2018unit\u00e1rio\u2019\u201d. Eu acrescento, numa nota de rodap\u00e9, que o velho Luk\u00e1cs, numa entrevista \u00e0 New Left Review em 1969, tem uma vis\u00e3o mais l\u00facida do que em 1935 sobre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica: seu poder de atra\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria durou \u201cde 1917 at\u00e9 a \u00e9poca dos Grandes Expurgos\u201d[xv].<\/p>\n<p>Mas retornemos para \u017di\u017eek: as quest\u00f5es colocadas pelo seu livro n\u00e3o s\u00e3o unicamente hist\u00f3ricas: elas dizem respeito \u00e0 pr\u00f3pria possibilidade de um projeto comunista emancipat\u00f3rio a partir das ideias de Marx (e\/ou L\u00eanin). De fato, segundo o argumento que ele prop\u00f5e numa das passagens mais estranhas de seu livro, o stalinismo, com todos os seus horrores (que ele n\u00e3o nega), foi, em \u00faltima an\u00e1lise, um mal menor, em rela\u00e7\u00e3o ao projeto marxiano original! Em uma nota de rodap\u00e9, \u017di\u017eek explica que a quest\u00e3o do stalinismo \u00e9 seguidamente mal colocada: \u201cO problema n\u00e3o \u00e9 que a vis\u00e3o marxista original foi subvertida pelas consequ\u00eancias inesperadas. O problema \u00e9 esta pr\u00f3pria vis\u00e3o. Se o projeto comunista de L\u00eanin \u2013 ou mesmo de Marx \u2013 tivesse sido plenamente realizado, de acordo com seu n\u00facleo verdadeiro, as coisas teriam sido bem piores que o stalinismo \u2013 ter\u00edamos uma vis\u00e3o do que Adorno e Horkheimer chamaram die verwaltete Welt (a sociedade administrada), uma sociedade totalmente transparente a ela mesma, regulamentada pelo intelecto geral reificado, da qual teria sido banida toda veleidade de autonomia e de liberdade\u201d[xvi].<\/p>\n<p>Parece-me que Slavoj \u017di\u017eek \u00e9 muito modesto. Por que esconder numa nota de rodap\u00e9 tal descoberta hist\u00f3rico-filos\u00f3fica, cuja import\u00e2ncia pol\u00edtica \u00e9 evidente? De fato, os advers\u00e1rios liberais, anticomunistas e reacion\u00e1rios do marxismo limitam-se a torn\u00e1-lo culp\u00e1vel dos crimes do stalinismo. \u017di\u017eek \u00e9, pelo que sei, o primeiro a sustentar que, se o projeto marxista original tivesse sido plenamente realizado, o resultado teria sido pior que o stalinismo\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio levar a s\u00e9rio esta tese, ou n\u00e3o seria melhor atribu\u00ed-la ao gosto imoderado de Slavoj \u017di\u017eek pela provoca\u00e7\u00e3o? Eu n\u00e3o poderia responder a esta quest\u00e3o, mas eu me inclino para a segunda hip\u00f3tese. Em todo caso, eu tenho alguma dificuldade em considerar como s\u00e9ria esta afirma\u00e7\u00e3o um tanto absurda \u2013 um ceticismo partilhado sem d\u00favida por aqueles \u2013 especialmente jovens \u2013 que continuam a se interessar, at\u00e9 hoje, pelo projeto marxista origin\u00e1rio.<\/p>\n<p>*Michael L\u00f6wy\u00a0\u00e9 diretor de pesquisas no Centre National de la Recherche Scientifique(Fran\u00e7a). Autor, entre outros livros de\u00a0A evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Luk\u00e1cs 1909-1929\u00a0(Cortez).\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0Fernando Lima das Neves<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>[i]\u00a0G. Luk\u00e1cs, \u201cL\u2018Hyperion\u2019 de H\u00f6lderlin\u201d, Goethe et son \u00e9poque,\u00a0Paris, Nagel, 1949, p. 197.<\/p>\n<p>[ii]\u00a0G. Luk\u00e1cs, \u201c\u00dcber den Dotsojevski Nachlass\u201d,\u00a0Moskauer Rundschau,\u00a022\/3\/1931.<\/p>\n<p>[iii]\u00a0G. Luk\u00e1cs, \u201cNietzsche als Vorl\u00e4ufer des faschistischen Aesthetik\u201d (1934), in F. Mehring, G. Luk\u00e1cs,\u00a0Friedrich Nietzsche,\u00a0Berlin, Aufbau Verlag, 1957, pp. 41-53.<\/p>\n<p>[iv]\u00a0Ver a esse respeito, M.L\u00f6wy, R.Sayre, \u201cLe romantisme (anticapitaliste) dans\u00a0La Th\u00e9orie du roman\u00a0de G. Luk\u00e1cs\u201d, in\u00a0Romanesques, Revue du Centre d\u2019\u00e9tudes du roman, Paris, Classiques Garnier, n\u00b0 8, 2016, \u201cLuk\u00e1cs 2016: cent ans de Th\u00e9orie du roman\u201d.<\/p>\n<p>[v]\u00a0H\u00f6lderlin,\u00a0Hyperion,\u00a01797, Frankfurt am Mein, Fischer B\u00fccherei, 1962, p. 90. Para uma discuss\u00e3o sobre o conceito de romantismo anticapitalista e suas diversas manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, ver M. L\u00f6wy, R. Sayre,\u00a0Revolte et melancolie. Le romantisme \u00e0 contre-courant de la modernit\u00e9,\u00a0Paris, Payot, 1990.<\/p>\n<p>[vi]\u00a0G. Luk\u00e1cs,\u00a0Hyperion, op.cit.,\u00a0p. 194.<\/p>\n<p>[vii]\u00a0G. Luk\u00e1cs,\u00a0op.cit.,\u00a0p. 183.<\/p>\n<p>[viii]\u00a0Ibid.,\u00a0p.182.<\/p>\n<p>[ix]\u00a0G. Luk\u00e1cs,\u00a0op.cit.,\u00a0pp. 179-181.<\/p>\n<p>[x]\u00a0M. L\u00f6wy,\u00a0Pour une sociologie des intellectuels r\u00e9volutionnaires. L\u2019\u00e9volution politique de Luk\u00e1cs 1909-1929,\u00a0Paris, PUF, 1976, p. 232.<\/p>\n<p>[xi]\u00a0S.\u00a0\u017di\u017eek,\u00a0La r\u00e9volution aux portes,\u00a0Paris, Le Temps des Cerises, 2020, p. 404.<\/p>\n<p>[xii]\u00a0S.\u00a0\u017di\u017eek,\u00a0op.cit,\u00a0p. 257.<\/p>\n<p>[xiii]\u00a0S.\u00a0\u017di\u017eek,\u00a0op. cit., note 49, p. 419.<\/p>\n<p>[xiv]\u00a0S.\u00a0\u017di\u017eek\u00a0,\u00a0op.cit.,\u00a0pp. 250-52.<\/p>\n<p>[xv]\u00a0M. L\u00f6wy,\u00a0G.Luk\u00e1cs, op.cit., p. 233. \u00c9 verdade que os massacres da coletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada do in\u00edcio dos anos 1930 eram pouco conhecidos fora da URSS.<\/p>\n<p>[xvi]\u00a0S. Zizek,\u00a0op. cit., note 47, p. 419.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/www.insurgencia.org\/blog\/lowy-responde-a-zizek-nao-ha-grandeza-alguma-no-stalinismo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Michael L\u00f6wy &#8211; Neste artigo, L\u00f6wy defende o projeto societ\u00e1rio marxista original, frente \u00e0s cr\u00edticas pr\u00f3-stalinianas do esloveno Slavoj Zizek. 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