{"id":14888,"date":"2021-03-05T12:01:27","date_gmt":"2021-03-05T15:01:27","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14888"},"modified":"2021-03-03T20:03:28","modified_gmt":"2021-03-03T23:03:28","slug":"discursos-do-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/03\/05\/discursos-do-capital\/","title":{"rendered":"Discursos do capital"},"content":{"rendered":"<p><strong>ELEUT\u00c9RIO F. S. PRADO &#8211; <\/strong>Os funcion\u00e1rios da governan\u00e7a tecnocr\u00e1tica do capitalismo ter\u00e3o de operar num quadro social e econ\u00f4mico que podemos caracterizar como barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Um artigo publicado como \u201c<em>working paper<\/em>\u201d pelo FMI causou certo espanto em alguns economistas de esquerda no Brasil. O seu t\u00edtulo: Cren\u00e7as acocoradas, vieses ocultos: eleva\u00e7\u00e3o e queda das narrativas de crescimento (<em>Crouching beliefs<\/em>,\u00a0<em>hidden biases<\/em>:\u00a0<em>rise and fall<\/em>\u00a0<em>of growth narratives<\/em>). Os seus autores, Reda Cherif, Marc Engler, Fuad Hasanov, mesmo sendo pouco conhecidos, conseguiram causar um pequeno tremor no campo da teoria econ\u00f4mica. Todos os economistas que frequentam o cercado do\u00a0<em>mainstream\u00a0<\/em>parecem tratar o artigo de modo respeitoso. Afinal, ele tem o endosso da principal organiza\u00e7\u00e3o controladora do dinheiro em \u00e2mbito mundial.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o pela qual o conte\u00fado desse artigo ecoou entre os economistas de esquerda \u00e9 que parece expor a teoria econ\u00f4mica como ideologia. Ademais, parece indicar tamb\u00e9m que h\u00e1 um decl\u00ednio da pol\u00edtica de austeridade a qual combatem com veem\u00eancia. Nessa recep\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>paper<\/em>, h\u00e1, por\u00e9m, um suposto impl\u00edcito. Se at\u00e9 mesmo os economistas do centro do sistema abandonaram esse discurso, os da periferia, menos competentes segundo o preconceito, deveriam fazer o mesmo. Os funcion\u00e1rios da governan\u00e7a tecnocr\u00e1tica do capitalismo no Brasil precisam, portanto \u2013 e esse \u00e9 o argumento \u2013, alinharem-se aos que est\u00e3o na vanguarda, que operam no centro do sistema.<\/p>\n<p>Mas, o que h\u00e1 nesse artigo? Trata-se de um estudo sobre a preponder\u00e2ncia e a for\u00e7a performativa de certas arengas do capital que se apresentaram na cena econ\u00f4mica ao longo do desenvolvimento do capitalismo nos \u00faltimos setenta anos. O comandante desse modo de produ\u00e7\u00e3o, como se sabe, fala e escreve por meio dos discursos dos economistas que atuam como seu suporte. O estudo examinou um conjunto de 4920 relat\u00f3rios feitos no \u00e2mbito dessa organiza\u00e7\u00e3o que abriga, como bem se sabe, um importante n\u00facleo de personifica\u00e7\u00f5es do capital mundializado. Esses relat\u00f3rios analisam as economias e orientam as pol\u00edticas econ\u00f4micas dos pa\u00edses que se submetem \u00e0s diretrizes e ao \u201caconselhamento\u201d dessa organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A for\u00e7a performativa mencionada diz respeito ao uso da linguagem como a\u00e7\u00e3o que \u00e9 capaz de produzir mudan\u00e7as no comportamento das pessoas, ou seja, dos receptores dos discursos. Ora, \u00e9 justamente nessa perspectiva que os autores do artigo compreendem o papel das \u201cnarrativas econ\u00f4micas\u201d: \u201cnosso mundo\u201d \u2013 dizem eles \u2013 \u201c\u00e9 moldado pelas ideias e as ideias dos economistas s\u00e3o particularmente influentes\u201d. Keynes observara \u2013 apontam \u2013 \u201cque as ideias dos economistas e dos fil\u00f3sofos pol\u00edticos, sejam elas erradas ou certas, s\u00e3o mais poderosas do que comumente se julga.\u201d Na verdade, dissera ele, \u201co mundo \u00e9 regrado por elas e por quase nada al\u00e9m delas\u201d.<\/p>\n<p>Keynes \u2013 note-se \u2013 pensava ainda essa disciplina estritamente como ci\u00eancia. N\u00e3o se pode esquecer que a\u00a0<em>Teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro<\/em>\u00a0veio \u00e0 luz na forma de um ressurgimento e renova\u00e7\u00e3o, durante a depress\u00e3o dos anos 1930, da economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica. Se ele se preocupava nesse tempo tormentoso com o desempenho macroecon\u00f4mico da economia capitalista, n\u00e3o fugia da quest\u00e3o da reparti\u00e7\u00e3o da renda entre as classes sociais tal como aqueles antecessores da primeira metade do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>A luta das classes para ampliar a participa\u00e7\u00e3o no produto l\u00edquido social \u00e9 o fim condutor interno da obra de Keynes. \u00c9 assim, nesse balan\u00e7o, que se define a demanda efetiva. Portanto, para ele, as ideias formuladas pelos economistas diziam respeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es internas do evolver do pr\u00f3prio sistema econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Os autores do artigo aqui examinado se valeram das id\u00e9ias de Robert Schiller, um economista superficial contempor\u00e2neo, ganhador do Pr\u00eamio Nobel de 2013, que criara e divulgara essa tem\u00e1tica na econosfera. Para tanto, escreveu um artigo e um livro com o sugestivo nome de\u00a0<em>Narrativas econ\u00f4micas<\/em>\u00a0(<em>Narrative economics<\/em>). Como bom investidor, ele \u201cenfatiza a importante influ\u00eancia das narrativas ou est\u00f3rias populares nos resultados econ\u00f4micos\u201d. Diferentemente de Keynes, entretanto, sustenta que essas narrativas livre-flutuantes determinam \u201ca severidade de uma crise ou mesmo o desemprego tecnol\u00f3gico\u201d. Se a afirma\u00e7\u00e3o de Keynes j\u00e1 cont\u00e9m um vi\u00e9s idealista, a suposta capacidade de moldar o mundo das opini\u00f5es econ\u00f4micas difusas torna-se notoriamente fantasiosa em Schiller.<\/p>\n<p>Por que esse \u00faltimo autor passa da ci\u00eancia para a narrativa econ\u00f4mica? A primeira consiste sempre num saber supostamente racional sobre a natureza e o funcionamento do sistema econ\u00f4mico; j\u00e1 as narrativas s\u00e3o engendradas com a finalidade de construir consensos sobre as formas da governan\u00e7a do capitalismo nas conjunturas hist\u00f3ricas. Veja-se que esses tr\u00eas autores parecem saber, pelo menos implicitamente, que a pr\u00f3pria teoria econ\u00f4mica estrutura-se agora como um saber tecnonormativo que abandonou a pretens\u00e3o de ser um saber cient\u00edfico. E que ela \u00e9 hoje constru\u00edda nos laborat\u00f3rios do imp\u00e9rio, no centro e nas periferias, n\u00e3o para dar conta dos fen\u00f4menos como tais \u2013 e menos ainda dos seus nexos internos\u2013, mas justamente para legitimar formas espec\u00edficas de pol\u00edtica econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A teoria econ\u00f4mica \u2013 n\u00e3o se pode deixar de registrar aqui \u2013 \u00e9 uma forma de saber decadente, em si mesma semelhante \u00e0 velha escol\u00e1stica medieval, mas que mant\u00e9m sempre uma orienta\u00e7\u00e3o instrumentalista que melhor conv\u00e9m ao pr\u00f3prio capitalismo.<\/p>\n<p>Cherif, Engler e Hasanov, de qualquer modo, descrevem em seu texto quatro narrativas que foram difundidas, sen\u00e3o impostas aos gestores, nos \u00faltimos cinquenta anos do desenvolvimento do capitalismo em escala global. Eles as denominam de \u201cnarrativas de crescimento\u201d, mas aqui \u2013 como j\u00e1 ficou claro \u2013 elas ser\u00e3o ressignificadas como arengas do capital.<\/p>\n<p>Aqui se pretende apresentar de modo resumido o conte\u00fado desses discursos, mostrando os per\u00edodos em que predominaram e porque se tornam necess\u00e1rios frente ao pr\u00f3prio desenvolvimento do capitalismo. Tem-se como objetivo mostrar que eles, longe de serem livre-flutuantes, responderam \u00e0s dificuldades objetivas da acumula\u00e7\u00e3o de capital no tempo hist\u00f3rico. N\u00e3o resta d\u00favida que h\u00e1 certa autonomia dos discursos econ\u00f4micos em geral, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que eles est\u00e3o condicionados e mesmo pressionados pelas condi\u00e7\u00f5es objetivas da acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>Como se sabe, o capital \u00e9 um sujeito autom\u00e1tico que tende \u00e0 desmedida, \u00e0 superacumula\u00e7\u00e3o e \u00e0 crise; conforme se reproduz, ele cria barreiras para o seu pr\u00f3prio processo de crescimento, supera em geral essas barreiras, mas apenas para criar barreiras ainda mais elevadas, as quais passam a dificultar o seu pr\u00f3prio desenvolvimento. Mas essa sabedoria \u00e9 atualmente um pouco insuficiente. Esse ensinamento que veio do s\u00e9culo XIX deve agora ser complementado com o saber de que o movimento de acumula\u00e7\u00e3o no capitalismo contempor\u00e2neo n\u00e3o depende mais s\u00f3 da espontaneidade do capital; ao contr\u00e1rio, ele depende sempre da interven\u00e7\u00e3o constante e fundamental do Estado, das pol\u00edticas econ\u00f4micas engendradas pelas institui\u00e7\u00f5es que d\u00e3o suporte \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do capitalismo no p\u00f3s-guerra pode ser apresentada sinteticamente por meio do gr\u00e1fico que se segue e que apresenta uma m\u00e9dia ponderada da lucratividade do capital no conjunto dos pa\u00edses que formam o G 20, onde se concentra em torno de 85% do PIB mundial. Mesmo havendo ocorrido uma queda tendencial da taxa de lucro ao longo dos \u00faltimos 70 anos, o per\u00edodo como um todo pode ser dividido em quatro subper\u00edodos: idade dourada, crise de lucratividade, recupera\u00e7\u00e3o neoliberal e longa depress\u00e3o.<\/p>\n<p>O que determina essa periodiza\u00e7\u00e3o \u00e9 obviamente o comportamento ascendente ou descendente dessa vari\u00e1vel. Note-se que \u00e9 o pr\u00f3prio movimento da taxa de lucro que explica a sucess\u00e3o de subper\u00edodos. Nele se reflete a l\u00f3gica mencionada da produ\u00e7\u00e3o e da supera\u00e7\u00e3o das barreiras: quando a taxa de lucro cai, o capitalismo tem de se transformar para continuar prosperando. Ao prosperar, acaba produzindo mais a frente uma nova queda da taxa de lucro.<\/p>\n<p>Por falta de espa\u00e7o, n\u00e3o se vai aqui explicar em detalhes o desenvolvimento do capitalismo nesse per\u00edodo. Essa explana\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o prescinde de muitas outras considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, fatos hist\u00f3ricos e evid\u00eancias emp\u00edricas, encontra-se num importante livro de Michael Roberts. Em\u00a0<em>A longa depress\u00e3o: porque aconteceu, como aconteceu e o que vai ainda vai acontecer<\/em>\u00a0(<em>The long depression: how it happened, why it happened, and what happens next<\/em>), ele apresenta uma interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do capitalismo que aqui se segue em grande medida. O pr\u00f3prio gr\u00e1fico abaixo apresentado foi constru\u00eddo por esse autor com base nas informa\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas da Penn World Table 9.1. De qualquer modo, a evid\u00eancia que a\u00ed aparece parece bem significativa.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/secureservercdn.net\/198.71.233.138\/dpp.cce.myftpupload.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Imagem1-1.png?resize=378%2C251&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"378\" height=\"251\" \/><\/p>\n<p>Como os tr\u00eas economistas chegam a conceber os quatro mencionados discursos. Eles empregam uma t\u00e9cnica estat\u00edstica que consiste em selecionar um conjunto de palavras significativas, em descobrir depois a frequ\u00eancia com que essas palavras aparecem nos relat\u00f3rios do FMI, para chegar at\u00e9 aglomerados de significantes que s\u00e3o, ent\u00e3o, tomados como manifesta\u00e7\u00f5es privilegiadas de certos discursos.<\/p>\n<p>Fazendo isso, identificaram quatro ondas discursivas, em parte sobrepostas, que formavam, segundo eles, \u201cnarrativas\u201d t\u00edpicas. Elas foram assim denominadas: \u201cestrutura econ\u00f4mica\u201d, Consenso de Washington, \u201creformas estruturais\u201d e Constela\u00e7\u00e3o de Washington. Ora, elas foram aqui ressignificadas como discurso do capital industrial, discurso do choque neoliberal, discurso das reformas estruturais neoliberais e discurso da supera\u00e7\u00e3o da estagna\u00e7\u00e3o, respectivamente. Essas ondas s\u00e3o apresentadas na figura em sequ\u00eancia como linhas coloridas num gr\u00e1fico temporal.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/secureservercdn.net\/198.71.233.138\/dpp.cce.myftpupload.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Imagem2-1.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>O discurso do capital industrial come\u00e7ou antes de 1978; na verdade, ele predominou no p\u00f3s-guerra at\u00e9 o fim da d\u00e9cada dos anos 1970, quando come\u00e7ou a declinar. O que o demarcou na pesquisa foram os termos produtividade, estrutura industrial, competi\u00e7\u00e3o, efici\u00eancia etc. Enquanto enuncia\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica recebeu o nome gen\u00e9rico de keynesianismo. O seu definhamento ocorreu junto com a crise de lucratividade observada justamente na d\u00e9cada dos anos 1979, a qual se manifestou por meio da queda da taxa de crescimento do PIB, das eleva\u00e7\u00f5es abruptas dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, do estagfla\u00e7\u00e3o e do ativismo sindical. Ele foi sucedido pelo discurso do neoliberalismo e do capital financeiro a partir da d\u00e9cada dos anos 1980.<\/p>\n<p>Os autores do estudo identificaram o discurso do choque neoliberal, uma arenga que se projetou internacionalmente, com o nome de \u201cConsenso de Washington\u201d. Os termos privatiza\u00e7\u00e3o e liberaliza\u00e7\u00e3o foram as suas marcas registradas. As medidas de pol\u00edtica econ\u00f4mica que recomendava visavam, em \u00faltima an\u00e1lise, tirar os entraves \u00e0 circula\u00e7\u00e3o nacional e internacional do capital. Elas permitiram o processo da globaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o industrial e, ao mesmo tempo, o enfraquecimento dos sindicatos e da classe trabalhadora. Em \u00faltima an\u00e1lise, o objetivo era for\u00e7ar uma recupera\u00e7\u00e3o da taxa de lucro por meio da redu\u00e7\u00e3o da parcela salarial, o quede fato ocorreu como se pode ver no gr\u00e1fico anterior.<\/p>\n<p>Paralelamente, cresceu tamb\u00e9m o discurso das reformas estruturais que visavam promover a liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados e mudar o modo de atua\u00e7\u00e3o do Estado. Ele recomendava a redu\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o social dos trabalhadores para que o Estado pudesse atender melhor \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de capital privado, em particular na esfera financeira. Marcou esse discurso uma preocupa\u00e7\u00e3o central com a qualidade das institui\u00e7\u00f5es na perspectiva da redu\u00e7\u00e3o dos custos das condi\u00e7\u00f5es da acumula\u00e7\u00e3o como infraestrutura, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade etc. O seu objetivo central era consolidar institucionalmente o regime de acumula\u00e7\u00e3o do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Mesmo quando o discurso do choque come\u00e7ou a declinar j\u00e1 na virada do mil\u00eanio, o discurso das reformas neoliberais continuou cada vez mais importante. Ocorre que a taxa de lucro voltou a cair depois de 1997, trazendo de volta a preocupa\u00e7\u00e3o com uma tend\u00eancia persistente \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o que se manifestou nos pa\u00edses centrais e em grande parte dos pa\u00edses perif\u00e9ricos. Os pr\u00f3prios economistas do sistema come\u00e7aram a debater o que eles mesmos chamaram de \u201cestagna\u00e7\u00e3o secular\u201d. Nesse quarto discurso come\u00e7ou a aparecer uma preocupa\u00e7\u00e3o com a eleva\u00e7\u00e3o das desigualdades de renda e riqueza, com a corrup\u00e7\u00e3o, com a quest\u00e3o ecol\u00f3gica, com os impactos das tecnologias da inform\u00e1tica e da comunica\u00e7\u00e3o, assim como um questionamento keynesiano da austeridade.<\/p>\n<p>O artigo de Cherif, Engler e Hasanov menciona de passagem que a realidade objetiva pode, sim, impactar no discurso dos economistas que escrevem e falam em nome do capital \u2013 mesmo se dizem e pensam ao contr\u00e1rio. Afirmam, por exemplo, que \u201cas crises dos anos 1970 e 1980 podem ter acelerado a defesa das pol\u00edticas de menor participa\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o do Estado\u201d. Mas lhes falta uma aud\u00e1cia maior.<\/p>\n<p>Esses autores n\u00e3o tratam do futuro das arengas do capital. Pode-se, entretanto, conjecturar que doravante vai ascender um discurso marcado por uma certa d\u00favida crucial: se antes predominara a tese de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d, agora pode prevalecer a quest\u00e3o sobre se \u201co capitalismo pode sobreviver\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 bem evidente que esse modo de produ\u00e7\u00e3o enfrenta agora n\u00e3o apenas a crise renitente da COVID-19, mas tamb\u00e9m um colapso ecol\u00f3gico generalizado, a ascens\u00e3o do racismo e do neofascismo, uma derrocada poss\u00edvel do castelo de areia constru\u00eddo pelo sistema financeiro internacional. A euforia neoliberal predominante dos anos 1980 em diante pode ser substitu\u00edda agora por um discurso depressivo que n\u00e3o poder\u00e1 ser amenizado pelo consumo de drogas psicoterap\u00eauticas, mas que afundar\u00e1 com elas, assim como com o consumo generalizado de drogas mais pesadas. Esse discurso ter\u00e1 de operar num quadro social e econ\u00f4mico que n\u00e3o poder\u00e1 deixar de ser caracterizado como barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/discursos-do-capital\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELEUT\u00c9RIO F. S. PRADO &#8211; Os funcion\u00e1rios da governan\u00e7a tecnocr\u00e1tica do capitalismo ter\u00e3o de operar num quadro social e econ\u00f4mico que podemos caracterizar como barb\u00e1rie. Um artigo publicado como \u201cworking paper\u201d pelo FMI causou certo espanto em alguns economistas de esquerda no Brasil. 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