{"id":14856,"date":"2021-02-23T12:33:41","date_gmt":"2021-02-23T15:33:41","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14856"},"modified":"2021-02-21T16:36:24","modified_gmt":"2021-02-21T19:36:24","slug":"kropotkin-100-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/02\/23\/kropotkin-100-anos\/","title":{"rendered":"Kropotkin, 100 anos"},"content":{"rendered":"<p><strong>David Graeber e Andrej Gruba\u010di\u0107<\/strong> &#8211; H\u00e1 um s\u00e9culo, morria pensador not\u00e1vel do anarquismo e das lutas revolucion\u00e1rias. Ainda atual, ele derrubou dogma crucial ao liberalismo e demonstrou a centralidade da coopera\u00e7\u00e3o \u2013 nas sociedades e na pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>De vez em quando \u2014 mas n\u00e3o com muita frequ\u00eancia \u2014 algum argumento particularmente convincente contra o senso pol\u00edtico comum e dominante apresenta tal choque para o sistema, que torna-se necess\u00e1rio criar um corpo te\u00f3rico inteiro para refut\u00e1-lo. Essas interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o eventos por si mesmas, no sentido filos\u00f3fico; isto \u00e9, eles revelam aspectos da realidade que eram amplamente invis\u00edveis mas que, ap\u00f3s revelados, parecem t\u00e3o \u00f3bvios que nunca mais passar\u00e3o despercebidos. Grande parte da direita intelectual se dedica a identificar e eliminar tais desafios.<\/p>\n<p>A seguir, apresentamos tr\u00eas exemplos:<\/p>\n<p>Nos anos 1680, um estadista hur\u00e3o (da etnia Huron-Wendat), chamado Kondiaronk, que tinha passado pela Europa e estava intimamente familiarizado com a sociedade de colonos francesa e inglesa, travou uma s\u00e9rie de debates com o governador franc\u00eas de Quebec e com um de seus principais assessores, um tal de Lahontan. Nestes debates, ele apresentou o argumento de que a lei punitiva e todo o aparato do estado existiam n\u00e3o por causa de alguma falha fundamental na natureza humana, mas devido \u00e0 exist\u00eancia de outro conjunto de institui\u00e7\u00f5es \u2014 propriedade privada, dinheiro \u2014 que, por sua pr\u00f3pria natureza, levavam as pessoas a agir de determinada forma e, por isso, medidas coercivas tornavam-se necess\u00e1rias. A igualdade \u00e9, portanto, a condi\u00e7\u00e3o para qualquer liberdade significativa, argumentou.<\/p>\n<p>Posteriormente, Lahontan transformou esses debates em um livro que foi um grande sucesso nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XVIII. Tornou-se uma pe\u00e7a teatral que esteve em cartaz durante vinte anos em Paris e, aparentemente, todo pensador iluminista escreveu alguma imita\u00e7\u00e3o. Por fim, esses argumentos \u2014 e a ampla cr\u00edtica ind\u00edgena sobre a sociedade francesa \u2014 tornaram-se t\u00e3o poderosos que os defensores da ordem social existente, como Turgot e Adam Smith, tiveram que, efetivamente, inventar a no\u00e7\u00e3o de evolu\u00e7\u00e3o social como uma resposta direta. Aqueles que primeiro propuseram a ideia de que as sociedades humanas podiam ser organizadas de acordo com seus est\u00e1gios de desenvolvimento, cada um com suas pr\u00f3prias tecnologias e formas de organiza\u00e7\u00e3o caracter\u00edsticas, foram bastante expl\u00edcitos em explicar que era disso mesmo que se tratava. \u201cTodos amam liberdade e igualdade\u201d, observou Turgot; a quest\u00e3o \u00e9 o quanto de cada um deles \u00e9 consistente com uma sociedade comercial avan\u00e7ada, baseada em uma sofisticada divis\u00e3o de trabalho. As teorias de evolu\u00e7\u00e3o social resultantes dominaram o s\u00e9culo XIX e ainda hoje est\u00e3o entre n\u00f3s, embora de forma ligeiramente modificada.<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a cr\u00edtica anarquista do estado liberal \u2014 de que a lei baseava-se basicamente na viol\u00eancia arbitr\u00e1ria e que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, n\u00e3o passava de uma vers\u00e3o secularizada de um Deus todo-poderoso que s\u00f3 poderia ter criado a moralidade por estar do lado de fora dela \u2014 foi levada t\u00e3o a s\u00e9rio pelos defensores do Estado, que te\u00f3ricos jur\u00eddicos de direita, como Karl Schmitt, acabaram criando a armadura intelectual do fascismo. Schmitt termina sua obra mais famosa, Teologia Pol\u00edtica, com um discurso ret\u00f3rico contra Bakunin, cuja rejei\u00e7\u00e3o do \u201cdecisionismo\u201d \u2014 a autoridade arbitr\u00e1ria para criar uma ordem jur\u00eddica, mas tamb\u00e9m para afast\u00e1-la \u2014 teria sido, em \u00faltima an\u00e1lise, t\u00e3o arbitr\u00e1ria quanto a autoridade \u00e0 qual Bakunin afirmava se opor, afirmou ele. A pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de teologia pol\u00edtica de Schmitt, fundamental para quase todo o pensamento de direita contempor\u00e2neo, foi uma tentativa de responder \u00e0 obra \u201cDeus e o Estado\u201d, de Bakunin.<\/p>\n<p>O desafio apresentado por Kropotkin em \u201cMutualismo: Um Fator de Evolu\u00e7\u00e3o\u201d (<em>Mutual Aid<\/em>, no t\u00edtulo em ingl\u00eas), vai, sem sombra de d\u00favidas, ainda mais fundo, uma vez que n\u00e3o se trata apenas da natureza do governo, mas da pr\u00f3pria natureza da natureza \u2014 isto \u00e9, a pr\u00f3pria realidade.<\/p>\n<p>As teorias de evolu\u00e7\u00e3o social, o que Turgot chamou de \u201cprogresso\u201d, podem ter come\u00e7ado como um jeito de desarmar o desafio da cr\u00edtica ind\u00edgena, mas logo come\u00e7aram a assumir uma forma mais virulenta, \u00e0 medida em que liberais radicais como Herbert Spencer come\u00e7avam a representar a evolu\u00e7\u00e3o social n\u00e3o apenas como uma quest\u00e3o de crescente complexidade, diferencia\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o, mas como uma esp\u00e9cie de luta hobbesiana pela sobreviv\u00eancia. Na verdade, a frase \u201csobreviv\u00eancia do mais apto\u201d foi cunhada em 1852 por Spencer, para descrever a hist\u00f3ria humana \u2014 e presume-se que, em \u00faltima an\u00e1lise, para justificar o genoc\u00eddio europeu e o colonialismo. S\u00f3 foi retomado por Darwin cerca de dez anos depois, quando, em \u201cA Origem das Esp\u00e9cies\u201d, ele usou o termo como uma forma de descrever as formas de sele\u00e7\u00e3o natural que ele havia identificado em sua famosa expedi\u00e7\u00e3o \u00e0s Ilhas Gal\u00e1pagos. Na \u00e9poca em que Kropotkin estava escrevendo, nas d\u00e9cadas de 1880 e 90, as ideias de Darwin haviam sido adotadas por liberais de mercado, mais notoriamente pelo seu \u201cbulldog\u201d Thomas Huxley, e pelo naturalista ingl\u00eas Alfred Russel Wallace, para propor o que costuma ser chamado de \u201cvis\u00e3o gladiadora\u201d da hist\u00f3ria natural. As esp\u00e9cies lutam feito boxeadores em um ringue ou como comerciantes de t\u00edtulos no ch\u00e3o do mercado; os fortes prevalecem.<\/p>\n<p>A resposta de Kropotkin \u2014 de que a coopera\u00e7\u00e3o \u00e9 um fator t\u00e3o decisivo na sele\u00e7\u00e3o natural quanto a competi\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o foi completamente original. E ele nunca fingiu ser. Na verdade, ele n\u00e3o s\u00f3 bebia da fonte do melhor conhecimento biol\u00f3gico, antropol\u00f3gico, arqueol\u00f3gico e hist\u00f3rico dispon\u00edvel de sua \u00e9poca, incluindo suas pr\u00f3prias explora\u00e7\u00f5es da Sib\u00e9ria, mas tamb\u00e9m de uma escola alternativa russa, da teoria evolutiva, que sustentava que a escola ultracompetitiva inglesa era baseada, como ele mesmo disse, em \u201cum tecido de absurdos\u201d: homens como \u201cKessler, Severtsov, Menzbir, Brandt \u2014 quatro grandes zo\u00f3logos russos, junto de um quinto menor, Poliakov; e finalmente eu, um simples viajante\u201d.<\/p>\n<p>Ainda assim, devemos dar os devidos cr\u00e9ditos a Kropotkin. Ele era muito mais do que um simples viajante. Esses homens haviam sido fortemente ignorados pelos darwinianos ingleses, mesmo em seu m\u00e1ximo apogeu \u2014 e, de fato, por quase todos os outros. Mas a afirma\u00e7\u00e3o de Kropotkin n\u00e3o passou batida. Sem d\u00favida, isso ocorreu, em parte, porque ele apresentou suas descobertas cient\u00edficas em um contexto pol\u00edtico mais amplo, de uma forma que tornava imposs\u00edvel negar o quanto a vers\u00e3o reinante da ci\u00eancia darwiniana em si era apenas um reflexo inconsciente das categorias liberais dadas por garantidas. (Como diz a famosa frase de Marx, \u201cA anatomia do homem \u00e9 a chave para a anatomia do macaco\u201d.) Foi uma tentativa de catapultar as vis\u00f5es das classes comerciais para a universalidade. Naquela \u00e9poca, o darwinismo ainda era uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica consciente e militante para remodelar o senso comum, uma insurg\u00eancia centrista, pode-se dizer; ou melhor, uma pretensa insurg\u00eancia centrista \u2014 visto que visava criar um novo centro. Ainda n\u00e3o era senso comum: era uma tentativa de criar um novo senso comum universal. Se n\u00e3o foi completamente bem-sucedido, isso se deve, de certo modo, ao pr\u00f3prio poder do contra-argumento de Kropotkin.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber o que deixava esses intelectuais liberais t\u00e3o preocupados. Considere a famosa passagem de\u00a0<em>Mutualismo,<\/em>\u00a0que merece ser citada na \u00edntegra:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>N\u00e3o \u00e9 o amor, e nem mesmo a simpatia (compreendida em seu sentido pr\u00f3prio), que induz manadas de ruminantes ou de cavalos a formarem um c\u00edrculo para resistir a um ataque de lobos; n\u00e3o \u00e9 o amor que induz os lobos a formarem uma alcateia para sair \u00e0 ca\u00e7a; n\u00e3o \u00e9 o amor que induz gatinhos ou cordeiros a brincar, ou uma d\u00fazia de esp\u00e9cies de p\u00e1ssaros jovens a passarem os dias juntos no outono; e n\u00e3o \u00e9 o amor nem a simpatia pessoal que faz com que milhares de cervos espalhados por um territ\u00f3rio t\u00e3o vasto como a Fran\u00e7a se agrupem em pares de rebanhos separados, todos marchando em dire\u00e7\u00e3o a um determinado local, a fim de cruzar um rio.<\/p>\n<p>\u00c9 um sentimento infinitamente mais amplo do que o amor ou a simpatia pessoal: um instinto que se desenvolveu lentamente entre os animais e os homens ao longo de uma evolu\u00e7\u00e3o extremamente longa, e que ensinou aos animais e aos homens a for\u00e7a que eles podem obter da pr\u00e1tica da ajuda e apoio m\u00fatuos, e as alegrias que podem encontrar na vida social\u2026 N\u00e3o \u00e9 o amor e nem mesmo a simpatia que fundamenta a exist\u00eancia da sociedade na humanidade. \u00c9 a consci\u00eancia \u2014 mesmo que apenas na fase instintiva \u2014 da solidariedade humana. \u00c9 o reconhecimento inconsciente da for\u00e7a que a pr\u00e1tica da ajuda m\u00fatua transfere a cada ser humano; da estreita depend\u00eancia que a felicidade de cada um tem na felicidade de todos; e do senso de justi\u00e7a ou equidade que leva o indiv\u00edduo a considerar os direitos de todos os outros indiv\u00edduos como iguais aos seus. Sobre este fundamento amplo e necess\u00e1rio, desenvolvem-se sentimentos morais ainda mais elevados.<\/p><\/blockquote>\n<p>Basta considerar a virul\u00eancia da rea\u00e7\u00e3o. Pelo menos dois campos de estudo (reconhecidamente sobrepostos) \u2014 a sociobiologia e a psicologia evolucionista \u2014 foram criados especificamente para reconciliar os pontos de Kropotkin sobre a coopera\u00e7\u00e3o entre animais com a suposi\u00e7\u00e3o de que todos somos, em \u00faltima inst\u00e2ncia, movidos por nossos \u201cgenes ego\u00edstas\u201d (como Dawkins acabaria por dizer). Quando o bi\u00f3logo brit\u00e2nico J.B.S. Haldane disse que estaria disposto a sacrificar sua vida para salvar \u201cdois irm\u00e3os, quatro meio-irm\u00e3os ou oito primos de primeiro grau\u201d, ele estava simplesmente repetindo o tipo de c\u00e1lculo \u201ccient\u00edfico\u201d que foi introduzido por toda parte para responder a Kropotkin; da mesma forma que o progresso foi inventado para controlar Kondiaronk, ou a doutrina do estado de exce\u00e7\u00e3o surgiu para controlar Bakunin. A frase \u201cgene ego\u00edsta\u201d n\u00e3o foi escolhida ao acaso. Kropotkin havia revelado um comportamento no mundo natural que era exatamente o oposto do ego\u00edsmo: todo o jogo dos darwinistas agora passava a ser o de encontrar alguma raz\u00e3o, qualquer que fosse, para continuar insistindo na teoria de que mesmo o comportamento mais brincalh\u00e3o, amoroso, caprichoso, heroicamente altru\u00edsta ou at\u00e9 soci\u00e1vel, no fundo, \u00e9 ego\u00edsta.<\/p>\n<p>Os esfor\u00e7os da direita intelectual para enfrentar a grandeza do desafio que a teoria de Kropotkin trouxe s\u00e3o compreens\u00edveis. Como j\u00e1 apontamos, \u00e9 exatamente isso que eles deveriam estar fazendo. \u00c9 por isso que eles s\u00e3o chamados de \u201creacion\u00e1rios\u201d. Eles de fato n\u00e3o acreditam na criatividade pol\u00edtica como um valor em si \u2014 na verdade, acham que isso \u00e9 algo profundamente perigoso. Como resultado, os intelectuais de direita est\u00e3o l\u00e1 principalmente para reagir \u00e0s ideias apresentadas pela esquerda. Mas e a esquerda intelectual?<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que as coisas ficam um pouco mais confusas. Enquanto os intelectuais de direita procuravam neutralizar o holismo evolucion\u00e1rio de Kropotkin desenvolvendo sistemas intelectuais inteiros, a esquerda marxista fingia que a interven\u00e7\u00e3o do anarquista nunca havia ocorrido. Podemos at\u00e9 arriscar a dizer que a resposta marxista \u00e0 \u00eanfase de Kropotkin no federalismo cooperativo foi a de desenvolver ainda mais os aspectos da pr\u00f3pria teoria de Marx que puxaram mais fortemente na outra dire\u00e7\u00e3o: isto \u00e9, seus aspectos mais produtivistas e progressistas. Alguns insights riqu\u00edssimos de\u00a0<em>Mutualismo<\/em>\u00a0foram, na melhor das hip\u00f3teses, ignorados e, na pior, afastados com uma risada condescendente. Tem havido uma tend\u00eancia t\u00e3o persistente nos estudos marxistas e, por extens\u00e3o, nos estudos de tend\u00eancia da esquerda em geral, em ridicularizar o \u201csocialismo de salva-vidas\u201d e o \u201cutopismo ing\u00eanuo\u201d de Kropotkin, que um bi\u00f3logo renomado, Stephen Jay Gould, se sentiu compelido a insistir, em um famoso ensaio, que \u201cKropotkin n\u00e3o era maluco\u201d.<\/p>\n<p>Existem duas explica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para essa destitui\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. Uma delas \u00e9: puro sectarismo. Como j\u00e1 observado, a interven\u00e7\u00e3o intelectual de Kropotkin fazia parte de um projeto pol\u00edtico mais amplo. O final do s\u00e9culo XIX e o in\u00edcio do s\u00e9culo XX viram as bases do estado de bem-estar \u2014 cujas institui\u00e7\u00f5es-chave foram criadas na verdade, em grande parte por grupos de mutualismo, totalmente independentes do Estado \u2014 serem gradualmente cooptadas pelo Estado e por partidos pol\u00edticos. A maioria dos intelectuais de direita e esquerda estavam perfeitamente alinhados com isso: Bismarck admitiu plenamente que criou institui\u00e7\u00f5es de bem-estar social na Alemanha como um \u201csuborno\u201d \u00e0 classe trabalhadora para que n\u00e3o se tornassem socialistas; enquanto os socialistas insistiam em que nada, desde o seguro social at\u00e9 as bibliotecas p\u00fablicas, fosse administrado pelo bairro e nem pelos grupos sindicais (seus verdadeiros criadores), mas por partidos de vanguarda de cima para baixo.<\/p>\n<p>Neste contexto, ambos lados viram a destrui\u00e7\u00e3o das propostas \u00e9ticas socialistas de Kropotkin, sob o imperativo supremo de tax\u00e1-las de tolice. Tamb\u00e9m vale a pena lembrar que \u2014 em parte por esta mesma raz\u00e3o \u2014 no per\u00edodo entre 1900 e 1917, as ideias marxistas anarquistas e libert\u00e1rias eram muito mais populares entre a pr\u00f3pria classe trabalhadora do que o marxismo de Lenin e Kautsky. Foi necess\u00e1ria a vit\u00f3ria do bra\u00e7o do partido bolchevique de Lenin na R\u00fassia (na \u00e9poca, considerada a ala direita dos bolcheviques) e a supress\u00e3o dos sovi\u00e9ticos, do Proletkult e de outras iniciativas de baixo para cima na pr\u00f3pria Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, para finalmente esfriar esses debates e deix\u00e1-los de lado.<\/p>\n<p>No entanto, existe outra explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, que tem uma rela\u00e7\u00e3o maior com o que pode ser chamado de \u201cposicionalidade\u201d, tanto do marxismo tradicional quanto da teoria social contempor\u00e2nea. Qual \u00e9 o papel de um intelectual radical? A maioria dos intelectuais ainda afirma ser radical de algum tipo ou de outro. Em teoria, todos eles concordam com Marx no sentido de que n\u00e3o basta entender o mundo; mas que \u00e9 preciso mud\u00e1-lo. Mas o que isso realmente significa na pr\u00e1tica?<\/p>\n<p>Num par\u00e1grafo relevante de\u00a0<em>Mutualismo<\/em>, Kropotkin sugere: o papel de um estudioso radical \u00e9 o de \u201crestaurar as propor\u00e7\u00f5es reais entre o conflito e a uni\u00e3o\u201d. Isto pode parecer amb\u00edguo, mas ele esclarece. Os estudiosos radicais s\u00e3o \u201cobrigados a fazer uma an\u00e1lise minuciosa dos milhares de fatos e ind\u00edcios t\u00eanues acidentalmente preservados nas rel\u00edquias do passado; interpret\u00e1-los com o aux\u00edlio da etnologia contempor\u00e2nea; e depois de ter ouvido tanto sobre o que costumava dividir os homens, reconstruir pedra por pedra as institui\u00e7\u00f5es que costumavam uni-los.\u201d<\/p>\n<p>Um dos autores ainda recorda a sua empolga\u00e7\u00e3o juvenil ap\u00f3s ter lido essas linhas. Quanta diferen\u00e7a do treinamento sem vida que recebiam na academia, sempre t\u00e3o centrada no Estado. Esta recomenda\u00e7\u00e3o deveria ser lida em conjunto com a de Karl Marx, cuja energia foi canalizada para a compreens\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o capitalista de mercadorias. Em\u00a0<em>O Capital<\/em>, a \u00fanica aten\u00e7\u00e3o real dada \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o \u00e9 num exame das atividades cooperativas como formas e consequ\u00eancias da produ\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica, onde os trabalhadores \u201cformam meramente um modo particular de exist\u00eancia do capital\u201d. Parece que ambos os projetos se complementariam muito bem.<\/p>\n<p>Kropotkin procurava entender exatamente aquilo que o trabalhador alienado havia perdido. Mas integrar os dois significaria entender como at\u00e9 o capitalismo \u00e9 substancialmente fundado no comunismo (\u201cajuda m\u00fatua\u201d, mutualismo), mesmo que seja num comunismo que ele n\u00e3o reconhece; como o comunismo n\u00e3o \u00e9 um ideal abstrato e distante, imposs\u00edvel de manter, mas uma realidade pr\u00e1tica vivida na qual todos nos engajamos diariamente, em diferentes graus, e que nem as f\u00e1bricas poderiam operar sem ela \u2014 mesmo se muitas delas operassem \u00e0s escondidas, nas entrelinhas ou com mudan\u00e7as, ou informalmente, ou no que n\u00e3o foi dito, ou de forma totalmente subversiva. Ultimamente, est\u00e1 na moda dizer que o capitalismo entrou em uma nova fase na qual se tornou parasita de formas de coopera\u00e7\u00e3o criativa, principalmente na internet. Isso n\u00e3o faz sentido. Sempre foi assim.<\/p>\n<p>Trata-se de um projeto intelectual muito not\u00e1vel. Mas por algum motivo, quase ningu\u00e9m est\u00e1 interessado em realiz\u00e1-lo. Em vez de examinar como as rela\u00e7\u00f5es de hierarquia e explora\u00e7\u00e3o s\u00e3o reproduzidas, recusadas e emaranhadas por rela\u00e7\u00f5es de mutualismo, como as rela\u00e7\u00f5es de cuidado tornam-se cont\u00ednuas com as rela\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia \u2014 e como, ainda assim, mant\u00eam sistemas de viol\u00eancia de modo a n\u00e3o se desintegrarem totalmente \u2014 tanto o marxismo tradicional quanto a teoria social contempor\u00e2nea rejeitaram obstinadamente quase tudo que sugerisse generosidade, coopera\u00e7\u00e3o ou altru\u00edsmo como se se tratasse de algum tipo de ilus\u00e3o burguesa. Conflito e c\u00e1lculo ego\u00edsta provaram ser mais interessantes do que \u201cuni\u00e3o\u201d. (Da mesma forma, \u00e9 bastante comum a esquerda acad\u00eamica escrever sobre Carl Schmidt ou Turgot, enquanto \u00e9 quase imposs\u00edvel encontrar aqueles que escrevem sobre Bakunin e Kondiaronk).Como o pr\u00f3prio Marx j\u00e1 se queixava: nas \u00faltimas d\u00e9cadas, existir sob o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 acumular. Pouco se ouve, para al\u00e9m de exorta\u00e7\u00f5es implac\u00e1veis, sobre estrat\u00e9gias c\u00ednicas usadas para aumentar nosso respectivo capital (social, cultural ou material) \u2014 estas s\u00e3o enquadradas como cr\u00edticas. Mas se tudo o que voc\u00ea deseja falar \u00e9 sobre o que voc\u00ea afirma ser contra, se tudo o que pode imaginar \u00e9 aquilo ao que voc\u00ea afirma se opor, ent\u00e3o, em que sentido voc\u00ea realmente se op\u00f5e? \u00c0s vezes, parece que a esquerda acad\u00eamica acabou, gradualmente, internalizando e reproduzindo todos os aspectos mais angustiantes do economicismo neoliberal aos quais afirma se opor, a tal ponto que, lendo muitas dessas an\u00e1lises (vamos ser simp\u00e1ticos e n\u00e3o mencionar nomes), algu\u00e9m se pergunta: isso \u00e9 realmente diferente da hip\u00f3tese sociobiol\u00f3gica de que nosso comportamento \u00e9 governado por \u201cgenes ego\u00edstas\u201d?<\/p>\n<p>\u00c9 certo que esse tipo de internaliza\u00e7\u00e3o do inimigo atingiu seu \u00e1pice nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, quando a esquerda global estava em plena retirada. Mas, desde ent\u00e3o, as coisas mudaram. Kropotkin voltou a ser relevante? Bem, obviamente, Kropotkin sempre foi relevante, mas este livro est\u00e1 sendo lan\u00e7ado com a cren\u00e7a de que h\u00e1 uma nova gera\u00e7\u00e3o radicalizada, dentro da qual muitos nunca foram expostos a essas ideias diretamente, mas que mostram todos os sinais de serem capazes de fazer uma melhor avalia\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o global do que seus pais e av\u00f3s \u2014 at\u00e9 porque eles sabem que, se n\u00e3o o fizerem, o mundo que lhes \u00e9 reservado logo se tornar\u00e1 um inferno absoluto.<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e1 come\u00e7ando a acontecer. A relev\u00e2ncia pol\u00edtica das ideias defendidas pela primeira vez em \u201cMutualismo\u201d vem sendo redescoberta pelas novas gera\u00e7\u00f5es de movimentos sociais em todo o planeta. A revolu\u00e7\u00e3o social em curso na Federa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica do Nordeste da S\u00edria (Rojava) foi profundamente influenciada pelos escritos de Kropotkin sobre ecologia social e federalismo cooperativo, em parte por meio das obras de Murray Bookchin, em parte voltando diretamente \u00e0 fonte, e em grande parte, tamb\u00e9m, baseando-se em suas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es curdas e experi\u00eancia revolucion\u00e1ria. Os revolucion\u00e1rios curdos assumiram a tarefa de construir uma nova ci\u00eancia social antag\u00f4nica \u00e0s estruturas de conhecimento da modernidade capitalista. Os envolvidos em projetos coletivos de sociologia da liberdade e\u00a0<em>jineoloji<\/em>\u00a0come\u00e7aram de fato a \u201creconstruir pedra por pedra as institui\u00e7\u00f5es que costumavam unir\u201d pessoas e lutas. No Norte Global, por toda parte: desde movimentos de ocupa\u00e7\u00e3o variados at\u00e9 projetos de solidariedade para enfrentar a pandemia, o mutualismo surgiu como uma frase-chave usada por ativistas e jornalistas. Atualmente, o mutualismo \u00e9 invocado nas mobiliza\u00e7\u00f5es de solidariedade de migrantes na Gr\u00e9cia e na organiza\u00e7\u00e3o da sociedade zapatista em Chiapas. H\u00e1 rumores de que at\u00e9 mesmo alguns acad\u00eamicos usam o termo ocasionalmente.<\/p>\n<p>Quando\u00a0<em>Mutualismo<\/em>\u00a0foi lan\u00e7ado pela primeira vez, em 1902, t\u00ednhamos poucos cientistas corajosos o suficiente para desafiar a ideia de que o capitalismo e o nacionalismo estavam enraizados na natureza humana, ou que a autoridade dos Estados era, em \u00faltima an\u00e1lise, inviol\u00e1vel. A maioria dos que fizeram isso foram, de fato, considerados malucos ou, se fossem muito importantes como para serem descartados dessa maneira \u2014 como Albert Einstein \u2014 eram tachados de \u201cexc\u00eantricos\u201d, cujas opini\u00f5es pol\u00edticas eram praticamente iguais ao estilo de seus cabelos incomuns. Todavia, o resto do mundo est\u00e1 avan\u00e7ando. Ser\u00e1 que os cientistas \u2014 inclusive os cientistas sociais \u2014 alguma hora ir\u00e3o segui-lo?<\/p>\n<p>Escrevemos esta introdu\u00e7\u00e3o enquanto acontece, globalmente, uma onda de revolta popular contra o racismo e a viol\u00eancia de Estado; enquanto as autoridades p\u00fablicas vomitam veneno contra os \u201canarquistas\u201d, da mesma forma que faziam na \u00e9poca de Kropotkin. Parece um momento peculiarmente adequado para fazer um brinde em nome daquele velho \u201cdesprezador da lei e da propriedade privada\u201d que mudou a face da ci\u00eancia de maneiras que continuam a nos afetar ainda hoje. A escola de Pyotr Kropotkin foi cuidadosa e colorida, perspicaz e revolucion\u00e1ria. E ele tamb\u00e9m envelheceu excepcionalmente bem. A rejei\u00e7\u00e3o de Kropotkin ao capitalismo e ao socialismo burocr\u00e1tico, suas previs\u00f5es de onde o segundo poderia nos levar, foram justificadas repetidas vezes. Olhando para tr\u00e1s, para a maioria das discuss\u00f5es levantadas em sua \u00e9poca, n\u00e3o restam d\u00favidas sobre quem estava realmente certo.<\/p>\n<p>Obviamente, ainda existem aqueles que discordam virulentamente nesse ponto. Alguns se apegam ao sonho de embarcar em navios h\u00e1 muito tempo perdidos. Outros s\u00e3o bem pagos para pensar nas coisas que fazem. Quanto a n\u00f3s, autores desta modesta introdu\u00e7\u00e3o, muitas d\u00e9cadas depois de encontrar pela primeira vez este livro encantador, ficamos \u2014 mais uma vez \u2014 surpresos com o qu\u00e3o profundamente concordamos com sua ideia central. A \u00fanica alternativa vi\u00e1vel \u00e0 barb\u00e1rie capitalista \u00e9 o socialismo sem Estado: um produto, como o grande ge\u00f3grafo sempre fez quest\u00e3o de nos lembrar, \u201cde tend\u00eancias que agora se manifestam na sociedade\u201d e que \u201csempre foram, em certo sentido, iminentes no presente\u201d. Para criar um novo mundo, s\u00f3 podemos come\u00e7ar redescobrindo aquilo que ele \u00e9, e que sempre esteve bem diante de nossos olhos.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/kropotkin-100-anos\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>David Graeber e Andrej Gruba\u010di\u0107 &#8211; H\u00e1 um s\u00e9culo, morria pensador not\u00e1vel do anarquismo e das lutas revolucion\u00e1rias. Ainda atual, ele derrubou dogma crucial ao liberalismo e demonstrou a centralidade da coopera\u00e7\u00e3o \u2013 nas sociedades e na pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. 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