{"id":14851,"date":"2021-02-22T12:00:58","date_gmt":"2021-02-22T15:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14851"},"modified":"2021-02-18T19:02:43","modified_gmt":"2021-02-18T22:02:43","slug":"dois-anos-de-desgoverno-a-ascensao-do-neofascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/02\/22\/dois-anos-de-desgoverno-a-ascensao-do-neofascismo\/","title":{"rendered":"Dois anos de desgoverno \u2013 a ascens\u00e3o do neofascismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>MICHAEL L\u00d6WY<\/strong> &#8211; A onda marrom em escala mundial.<\/p>\n<p>Jair M. Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 um caso \u00fanico. Assistimos nos \u00faltimos anos a um espetacular ascenso, no mundo inteiro, de governos de extrema direita, autorit\u00e1rios e reacion\u00e1rios, em muitos casos com tra\u00e7os neofascistas: Shinzo Abe (Jap\u00e3o) \u2013 substitu\u00eddo recentemente por seu bra\u00e7o direito \u2013 Modi (\u00cdndia), Trump (USA) \u2013 perdeu a presid\u00eancia mas continua sendo uma for\u00e7a pol\u00edtica pesada \u2013 Orban (Hungria), Erdogan (Turquia) s\u00e3o os exemplos mais conhecidos. A isto devemos acrescentar os v\u00e1rios partidos neofascistas com base de massas, candidatos ao poder, sobretudo na Europa: o\u00a0<em>Rassemblement National<\/em>\u00a0da fam\u00edlia Le Pen na Fran\u00e7a, a\u00a0<em>Lega<\/em>\u00a0de Salvini na It\u00e1lia, o\u00a0<em>AfD<\/em>\u00a0na Alemanha, o\u00a0<em>FP\u00d6<\/em>\u00a0na \u00c1ustria, etc.<\/p>\n<p>O neofascismo n\u00e3o \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o do fascismo dos anos 1930: \u00e9 um fen\u00f4meno novo, com caracter\u00edsticas do s\u00e9culo 21. Por exemplo, n\u00e3o assume a forma de uma ditadura policial, mas respeita algumas formas democr\u00e1ticas: elei\u00e7\u00f5es, pluralismo partid\u00e1rio, liberdade de imprensa, exist\u00eancia de um Parlamento, etc. Naturalmente, trata, na medida do poss\u00edvel, de limitar ao m\u00e1ximo estas liberdades democr\u00e1ticas, com medidas autorit\u00e1rias e repressivas. Tampouco se apoia em tropas de choque armadas, como eram as SA alem\u00e3s ou o Fascio italiano. Certo, se mobilizaram para apoiar Donald Trump v\u00e1rios grupos para-militares de car\u00e1ter neofascista, mas nunca chegaram a tomar um car\u00e1ter de massas. O mesmo vale para os grupos de milicianos que gravitam em torno de Bolsonaro e seus filhos.<\/p>\n<p>Mas a diferen\u00e7a mais importante entre os anos 1930 e hoje se situa no terreno econ\u00f4mico: os governos neofascistas desenvolvem uma pol\u00edtica econ\u00f4mica tipicamente neoliberal, longe do modelo nacionalista-corporatista dos fascismos cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>A esquerda como um todo, com apenas algumas exce\u00e7\u00f5es, tem severamente subestimado esse perigo. N\u00e3o viu a \u201conda marrom\u201d vindo e, portanto, n\u00e3o viu a necessidade de tomar a iniciativa de uma mobiliza\u00e7\u00e3o antifascista. Para algumas correntes da esquerda que veem a extrema-direita como nada mais do que um efeito colateral da crise e do desemprego, s\u00e3o essas as causas que devem ser atacadas, e n\u00e3o o fen\u00f4meno fascista propriamente dito. Tal racioc\u00ednio tipicamente economicista desarmou a esquerda diante da ofensiva ideol\u00f3gica racista, xenof\u00f3bica e nacionalista do neofascismo.<\/p>\n<p>Trata-se de um erro, partilhado por muitos na esquerda, supor que o neofascismo se fundamenta essencialmente na \u201cclasse m\u00e9dia\u201d. Nenhum grupo social \u00e9 imune \u00e0 praga marrom. As ideias neofascistas, em particular o racismo, contaminaram uma parte significativa n\u00e3o s\u00f3 da pequena burguesia e dos desempregados, mas tamb\u00e9m da classe trabalhadora. Isto \u00e9 particularmente not\u00e1vel no caso dos Estados Unidos, onde Donald Trump conseguiu o apoio da grande maioria dos brancos no pais, de todas as classes sociais. Mas vale tamb\u00e9m para o nosso Trump tropical, Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>O principal tema de agita\u00e7\u00e3o da maioria destes regimes ou partidos \u00e9 o racismo, a xenofobia, o \u00f3dio ao imigrante: mexicano nos Estados Unidos, negro ou \u00e1rabe na Europa, etc. Essas ideias n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o nenhuma com a realidade da imigra\u00e7\u00e3o: o voto para Le Pen, por exemplo, foi particularmente alto em certas \u00e1reas rurais que nunca viram um \u00fanico imigrante.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise \u201ccl\u00e1ssica\u201d de esquerda sobre o fascismo o explica essencialmente como um instrumento do grande capital para esmagar a revolu\u00e7\u00e3o e o movimento dos trabalhadores. Com base nessa premissa, algumas pessoas da esquerda argumentam que j\u00e1 que hoje o movimento dos trabalhadores est\u00e1 muito enfraquecido e a amea\u00e7a revolucion\u00e1ria n\u00e3o existe, o grande capital n\u00e3o teria interesse em apoiar movimentos da extrema-direita, de modo que o risco de uma ofensiva marrom n\u00e3o existiria. Esta \u00e9, uma vez mais, uma leitura economicista que n\u00e3o leva em conta a autonomia do fen\u00f4meno pol\u00edtico. Os eleitores podem, na verdade, escolher um partido que n\u00e3o tem o apoio da grande burguesia. Al\u00e9m disso, esse estreito argumento econ\u00f4mico parece ignorar o fato de que o grande capital pode acomodar-se em todos os tipos de regimes pol\u00edticos sem muito exame de consci\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Os movimentos neofascistas na Europa<\/strong><\/p>\n<p>Na Europa atual (em 2021) existem atualmente poucos governos de tipo neofascista: a Hungria de Orban \u00e9 o principal exemplo. Mas existe um grande numero de partidos com apoio de massas, que em alguns pa\u00edses s\u00e3o candidatos s\u00e9rios ao poder.<\/p>\n<p>Uma tentativa de tipologia da extrema-direita europeia atual teria de distinguir pelo menos tr\u00eas tipos diferentes:<\/p>\n<p>(1) Partidos de car\u00e1ter diretamente fascista e\/ou neonazista: por exemplo, o Aurora Dourada, da Gr\u00e9cia (recentemente dissolvida) ; o Setor Direito, da Ucr\u00e2nia; o Partido Nacional Democrata, na Alemanha; e v\u00e1rias outras for\u00e7as menores e menos influentes.<\/p>\n<p>(2) Partidos neofascistas, isto \u00e9, com ra\u00edzes e fortes componentes fascistas, mas que n\u00e3o podem ser identificados com o padr\u00e3o fascista cl\u00e1ssico. \u00c9 o caso, em diferentes formas, do\u00a0<em>Rassemblement Nacional<\/em>, da Fran\u00e7a; do\u00a0<em>FP\u00d6<\/em>, da \u00c1ustria; e do\u00a0<em>Vlaams Belang<\/em>, da B\u00e9lgica, entre outros.<\/p>\n<p>(3) Partidos de extrema-direita que n\u00e3o possuem origens fascistas mas compartilham do seu racismo, xenofobia, ret\u00f3rica anti-imigrante e islamofobia. Exemplos s\u00e3o a italiana\u00a0<em>Lega Nord<\/em>, o su\u00ed\u00e7o\u00a0<em>UDC<\/em>\u00a0(Uni\u00e3o Democr\u00e1tica do Centro), o brit\u00e2nico\u00a0<em>Ukip<\/em>\u00a0(Partido de Independ\u00eancia do Reino Unido), o holand\u00eas Partido da Liberdade, o noruegu\u00eas Partido Progressista, o Partido dos Verdadeiros Finlandeses (<em>True Finns<\/em>) e o Partido do Povo Dinamarqu\u00eas. Os Democratas Suecos s\u00e3o um caso intermedi\u00e1rio, com origens claramente fascistas (e neonazistas), mas que t\u00eam feito grandes esfor\u00e7os, desde os anos 1990, para apresentar uma imagem mais \u201cmoderada\u201d.<\/p>\n<p>Como em todas as tipologias, a realidade \u00e9 mais complexa, e algumas dessas forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas parecem tomar parte de v\u00e1rios tipos diferentes. \u00c9 preciso tamb\u00e9m levar em conta que isso n\u00e3o \u00e9 uma estrutura est\u00e1tica, mas sim em constante movimento. Alguns desses partidos parecem mover de um tipo a outro.<\/p>\n<p>Os movimentos neofascistas na Europa Oriental \u2013 as antigas \u201cDemocracias Populares\u201d \u2013 como o partido h\u00fangaro\u00a0<em>Jobbik<\/em>, o Partido da Grande Rom\u00eania e o\u00a0<em>Atak<\/em>, da Bulg\u00e1ria, assim como partidos similares nas Rep\u00fablicas Balc\u00e2nicas, Ucr\u00e2nia, ex-Iugosl\u00e1via etc., t\u00eam algumas caracter\u00edsticas comuns que s\u00e3o, em certa medida, distintas dos seus equivalentes no Ocidente: (a) o bode expiat\u00f3rio \u00e9 menos o imigrante estrangeiro do que as minorias nacionais tradicionais: judeus e ciganos; (b) diretamente conectado a esses partidos ou tolerado por eles, gangues racistas violentas atacam, e algumas vezes matam, o povo Roma [cigano]; (c) raivosamente anticomunistas, eles se consideram herdeiros dos movimentos nacionalista e\/ou fascista dos anos 1930, que frequentemente colaboraram com o Terceiro Reich. O fracasso desastroso da assim chamada \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d (para o capitalismo), sob a lideran\u00e7a de partidos liberais e\/ou social-democratas, criaram condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para o surgimento de tend\u00eancias de extrema-direita.<\/p>\n<p><strong>Um conceito equivocado: \u201cpopulismo\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O conceito de \u201cpopulismo\u201d (ou \u201cpopulismo de direita\u201d) empregado por certos cientistas pol\u00edticos, m\u00eddia e at\u00e9 mesmo por parte da esquerda \u00e9 totalmente inadequado para explicar a natureza dos movimentos neofascistas na Europa, servindo apenas para semear confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina dos anos 1930 at\u00e9 os anos 1960, o termo populismo correspondia a algo bem espec\u00edfico: governos nacionais-populares ou movimentos ao redor de figuras carism\u00e1ticas \u2013 Vargas, Per\u00f3n, C\u00e1rdenas \u2013, com amplo apoio popular e uma ret\u00f3rica anti-imperialista. Entretanto, o seu uso franc\u00eas (ou europeu) a partir dos anos 1990 \u00e9 totalmente equivoco. Um dos primeiros a usar o termo para caracterizar o movimento de Le Pen foi o cientista pol\u00edtico P.-A. Taguieff, que definiu populismo como \u201cum estilo ret\u00f3rico que est\u00e1 diretamente ligado com o apelo ao povo\u201d.<sup>[1]<\/sup>\u00a0Outros cientistas sociais se referem ao populismo como \u201cuma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que toma o lado do povo contra as elites\u201d \u2013 uma caracteriza\u00e7\u00e3o que serve para quase todo partido pol\u00edtico ou movimento! Quando aplicado ao\u00a0<em>Rassemblement Nacional<\/em>\u00a0ou outros partidos europeus da extrema-direita, esse pseudoconceito transforma-se em um eufemismo enganoso que ajuda \u2013 seja deliberadamente ou n\u00e3o \u2013 a legitim\u00e1-los, tornando-os mais aceit\u00e1veis ou mesmo atraentes \u2013 quem n\u00e3o \u00e9 a favor do povo contra as elites? \u2013 enquanto cuidadosamente se evitam os termos perturbadores racismo, xenofobia, neofascismo.<sup>[2]<\/sup>\u00a0\u201cPopulismo\u201d tamb\u00e9m \u00e9 usado deliberadamente de uma forma mistificadora por ide\u00f3logos neoliberais e pela m\u00eddia na Europa, a fim de fazer um am\u00e1lgama entre a extrema-direita, por exemplo, na Fran\u00e7a, e\u00a0<em>Rassemblement National<\/em>\u00a0(RN) da fam\u00edlia Le Pen, e a esquerda radical, a\u00a0<em>France Insoumise<\/em>\u00a0de Jean-Luc Melanchon, caracterizados como \u201cpopulismo de direita\u201d e \u201cpopulismo de esquerda\u201d.<\/p>\n<p>Jean-Yves Camus, respeitado cientista pol\u00edtico franc\u00eas, explicava que partidos como o RN poderiam ser chamados de \u201cpopulistas\u201d enquanto eles \u201cfingem substituir a democracia representante pela democracia direta\u201d e op\u00f5em o \u201csenso comum popular\u201d contra as \u201celites naturalmente pervertidas\u201d. Esse \u00e9 um argumento muito equivocado, j\u00e1 que o apelo \u00e0 democracia direta, a cr\u00edtica da representa\u00e7\u00e3o parlamentar e das elites pol\u00edticas \u00e9 muito mais presente entre os anarquistas e outras correntes pol\u00edticas de extrema-esquerda do que entre a extrema-direita, cujo projeto pol\u00edtico enfatiza o autoritarismo. Felizmente, Camus, que \u00e9 um dos melhores especialistas sobre a extrema-direita francesa e europeia, recentemente corrigiu seu ponto de vista, argumentando, em 2014, que se deve evitar o emprego do termo \u201cpopulismo\u201d, que tem sido usado \u201ca fim de desacreditar qualquer cr\u00edtica do consenso ideol\u00f3gico neoliberal, qualquer questionamento sobre a bipolariza\u00e7\u00e3o do debate pol\u00edtico europeu entre os liberais conservadores, qualquer express\u00e3o nas urnas do sentimento popular de desafio do mau funcionamento da democracia representativa\u201d.<sup>[3]<\/sup>.<\/p>\n<p><strong>O caso brasileiro: o neofascismo de Bolsonaro<\/strong><\/p>\n<p>Jair Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 nem Hitler nem Mussolini, apesar de adotar algumas posturas mussolinianas. Certo, um de seus ministros teve a infeliz ideia de citar G\u00f6bbels, mas teve que se demitir\u2026<\/p>\n<p>Tampouco \u00e9 uma nova vers\u00e3o de Plinio Salgado e seus \u00abgalinhas verdes\u00bb integralistas, admiradores do fascismo europeu. Se trata de um fen\u00f4meno novo, com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>O que Bolsonaro tem em comum com o fascismo cl\u00e1ssico \u00e9 o autoritarismo, a prefer\u00eancia por formas ditatoriais de governo, o culto do Chefe (\u201cMito\u201d) Salvador da P\u00e1tria, o \u00f3dio \u00e0 esquerda e ao movimento oper\u00e1rio. Mas n\u00e3o disp\u00f5e de condi\u00e7\u00f5es de estabelecer uma ditadura, um regime fascista. Seu desejo, abertamente evocado por seus filhos, seria de impor um novo AI-5, dissolvendo o Superior Tribunal Federal [STF] e colocando fora da lei sindicatos e partidos de oposi\u00e7\u00e3o. Mas lhe falta para isto o apoio tanto das classes dominantes quanto das For\u00e7as Armadas, pouco interessadas, no momento, por uma nova aventura ditatorial.<\/p>\n<p>O autoritarismo de Bolsonaro se manifesta, entre outras, no seu \u201ctratamento\u201d da epidemia, tentando impor, contra o Congresso, contra os governos dos estados, e contra seus pr\u00f3prios ministros, uma politica cega de recusa das medidas sanit\u00e1rias m\u00ednimas, indispens\u00e1veis para tentar limitar as dram\u00e1ticas consequ\u00eancias da crise (confinamento, vacina\u00e7\u00e3o, etc.). Sua atitude tem tamb\u00e9m tra\u00e7os de social-darwinismo (t\u00edpico do fascismo): a sobreviv\u00eancia dos mais fortes. Se milhares de pessoas vulner\u00e1veis \u2013 idosos, pessoas de sa\u00fade fr\u00e1gil \u2013 vierem a falecer, \u00e9 o pre\u00e7o a pagar: \u201cO Brasil n\u00e3o pode parar\u201d!<\/p>\n<p>Outro aspecto especifico do neofascismo bolsonarista \u00e9 o\u00a0<em>obscurantismo,<\/em>\u00a0o desprezo pela ci\u00eancia, em alian\u00e7a com seus apoiadores incondicionais, os setores mais retr\u00f3grados do neopentecostalismo evang\u00e9lico. Esta atitude, digna do terraplanismo, n\u00e3o tem equivalente em outros regimes autorit\u00e1rios, mesmo os que t\u00eam por ideologia o fundamentalismo religioso. Max Weber distinguia religi\u00e3o, baseada em princ\u00edpios \u00e9ticos, e magia, a cren\u00e7a nos poderes sobrenaturais do sacerdote. No caso de Bolsonaro e seus amigos pastores neopentecostais (Malafaia, Edir Macedo, etc.) se trata mesmo de magia ou de supersti\u00e7\u00e3o: parar a epidemia com \u201cora\u00e7\u00f5es\u201d e \u201cjejuns\u201d\u2026<\/p>\n<p>Embora Bolsonaro n\u00e3o tenha conseguido impor o conjunto de seu programa mort\u00edfero, ele contribui de forma not\u00e1vel para fazer do Brasil o segundo pa\u00eds mais atingido (depois dos Estados Unidos de Trump), em n\u00famero de mortes, em escala internacional.<\/p>\n<p>Como se sabe, o grande modelo pol\u00edtico para Bolsonaro \u00e9 Donald Trump. Certo, Bolsonaro n\u00e3o representa uma pot\u00eancia imperialista como os Estados Unidos! Al\u00e9m disso ele n\u00e3o conta com o apoio de um grande partido conservador, como \u00e9 o caso do Partido Republicano norte-americano, que controla metade do Congresso e do Senado. Mas eles t\u00eam v\u00e1rios elementos em comum, al\u00e9m do estilo grosseiro, vulgar, machista e provocador:<\/p>\n<p>(I) O \u00f3dio \u00e0 esquerda. Trump denuncia todos seus advers\u00e1rios, mesmo os mais moderados, como respons\u00e1veis de uma conspira\u00e7\u00e3o para impor o \u201csocialismo\u201d nos Estados Unidos. Para Bolsonaro o o anticomunismo \u00e9 uma verdadeira obsess\u00e3o, num clima de \u00f3dio exacerbado fora de qualquer contexto internacional (a Guerra Fria j\u00e1 acabou h\u00e1 trinta anos). Seu maior desejo seria \u201cmatar 30 mil comunistas\u201d para \u201climpar o Brasil\u201d, sendo que o termo \u201ccomunismo\u201d se refere a qualquer for\u00e7a politica moderadamente progressista (como o PT).<\/p>\n<p>(II) A ideologia repressiva, o culto da viol\u00eancia policial, a defesa da pena de morte, e o estimulo \u00e0 difus\u00e3o massiva das armas de fogo. A impunidade dos policiais respons\u00e1veis pela morte de in\u00fameros inocentes, geralmente de cor negra, \u00e9 um princ\u00edpio fundamental para ambos. Bolsonaro h\u00e1 anos era um dos l\u00edderes da \u201cbancada da bala\u201d no Congresso Nacional e sua rela\u00e7\u00e3o com bandos paramilitares \u2013 entre os quais se recrutaram os assassinos de Marielle Franco \u2013 \u00e9 conhecida. Quanto \u00e0 Trump, o lobby das armas (<em>National Rifle Association<\/em>) \u00e9 um de seus principais sustent\u00e1culos.<\/p>\n<p>(III) A ret\u00f3rica nacionalista, \u201cAmerica First\u201d, \u201cO Brasil acima de tudo\u201d, sem que se coloque em quest\u00e3o a globaliza\u00e7\u00e3o capitalista neoliberal. Uma caracter\u00edstica essencial do neofascismo de Bolsonaro \u00e9 que, apesar de seu discurso ultranacionalista e patrioteiro, \u00e9 completamente subordinado ao imperialismo americano, do ponto de vista econ\u00f4mico, diplom\u00e1tico, pol\u00edtico e militar. Isto se manifestou tamb\u00e9m na rea\u00e7\u00e3o ao coronav\u00edrus, quando se viu Bolsonaro e seus ministros imitarem Donald Trump, culpando\u2026os chineses pela epidemia.<\/p>\n<p>(IV) O negacionismo clim\u00e1tico. Enquanto Trump se retirava dos acordos de Paris e destru\u00eda todos os controles e obst\u00e1culos \u00e0 desenfreada explora\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o, do petr\u00f3leo e do g\u00e1s, em alian\u00e7a estreita com a oligarquia f\u00f3ssil, Bolsonaro aproveitou a crise do Covid 19 para (nas palavras de seu Ministro do Meio Ambiente) \u201cdeixar passar a boiada\u201d na Amaz\u00f4nia. Resultado: os maiores inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia nas \u00faltimas d\u00e9cadas e uma feroz ofensiva do agroneg\u00f3cio contra a floresta e seus defensores ind\u00edgenas \u2013 estes \u201cinimigos do progresso\u201d segundo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Com a derrota eleitoral de Trump, Bolsonaro perdeu seu principal apoio internacional, e suas veleidades autorit\u00e1rias e ditatoriais se veem prejudicadas. \u00c9 dif\u00edcil imaginar um golpe tipo AI-5 no Brasil atual sem a luz verde do imp\u00e9rio americano, o que poderia ter sido o caso na \u00e9poca de Trump, mas n\u00e3o com a nova administra\u00e7\u00e3o americana (que defende outras modalidades de pol\u00edtica imperialista).<\/p>\n<p>O governo de Jair Bolsonaro, embora tenha algumas semelhan\u00e7as com os movimentos neofascistas da Europa, apresenta v\u00e1rias caracter\u00edsticas espec\u00edficas. Vejamos algumas das principais diferen\u00e7as, que fazem do bolsonarismo um fen\u00f4meno\u00a0<em>sui-generis<\/em>:<\/p>\n<p>( 1) Enquanto na Europa existe, em v\u00e1rios pa\u00edses, uma continuidade pol\u00edtica e ideol\u00f3gica entre movimentos neofascistas atuais e o fascismo cl\u00e1ssico dos anos 1930, isso n\u00e3o ocorre no Brasil. O fascismo brasileiro, o integralismo, chegou a ter bastante peso nos anos 1930, inclusive influenciando o golpe do Estado Novo, em 1938. Mas o bolsonarismo tem pouca rela\u00e7\u00e3o com essa matriz antiga; sua principal refer\u00eancia \u00e9 bem mais a ditadura militar (1964-1985) brasileira, com seu clima de \u201cca\u00e7a aos comunistas\u201d. Como se sabe, o \u00eddolo politico de Bolsonaro \u00e9 o Coronel Brilhante Ustra, respons\u00e1vel do DOI-CODI em S\u00e3o Paulo, onde foram torturados ou assassinados in\u00fameros militantes da resist\u00eancia contra a ditadura.<\/p>\n<p>(2) N\u00e3o existem no Brasil, como na Europa, partidos de massas neofascistas. Bolsonaro, embora tenha uma base popular significativa, nunca foi capaz de organizar um grande partido; para se eleger, se afiliou ao pequeno PSL (Partido Social Liberal), com o qual acabou rompendo pouco depois.<\/p>\n<p>(3) Contrariamente \u00e0 Europa (e aos Estados Unidos, com Trump), o neofascismo no Brasil n\u00e3o fez do racismo sua principal bandeira. Temas racistas n\u00e3o estiveram ausentes da campanha eleitoral de Bolsonaro, mas de forma alguma era esse o seu assunto principal. Um partido brasileiro que tentasse fazer do racismo seu programa fundamental nunca teria 25% dos votos como em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa, ou 45% como nos Estados Unidos\u2026<\/p>\n<p>(4) O tema da luta contra a corrup\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente entre os neofascistas da Europa, mas de forma relativamente marginal. No Brasil \u00e9 uma velha tradi\u00e7\u00e3o, desde os anos 1940, dos conservadores: levanta-se a bandeira do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o para justificar o poder das oligarquias tradicionais e, segundo o caso, legitimar golpes militares. Na campanha de Bolsonaro foi um tema essencial, falsamente apresentando o Partido dos Trabalhadores (PT) como o \u00fanico respons\u00e1vel pela corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(5) A homofobia n\u00e3o \u00e9 um tema de campanha frequente na extrema-direita europeia, como algumas exce\u00e7\u00f5es. O Brasil tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o de cultura homof\u00f3bica, mas isto nunca foi assunto de luta politica. Com o neofascismo de Bolsonaro, em alian\u00e7a com as Igrejas neopentecostais, se tornou, pela primeira vez na hist\u00f3ria, um dos temas principais de sua campanha eleitoral, denunciando o PT, num verdadeiro diluvio de\u00a0<em>fake news,\u00a0<\/em>como instigador de um programa visando \u201ca transformar as crian\u00e7as brasileiras em gays\u201d.<\/p>\n<p>Enfraquecido pelo v\u00e1rios esc\u00e2ndalos pol\u00edticos e financeiros envolvendo sua fam\u00edlia, pela cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria e pela derrota de seu protetor internacional (Trump), Bolsonaro consegue se manter no poder gra\u00e7as ao apoio das classes dominantes brasileiras \u2013 o agroneg\u00f3cio, a oligarquia industrial e financeira \u2013 e da classe pol\u00edtica corrupta e oportunista que controla a C\u00e2mara dos deputados e o Senado. Para a burguesia brasileira, o essencial \u00e9 o programa neoliberal \u2013 redu\u00e7\u00e3o dos impostos, arrocho salarial, cortes dos gastos p\u00fablicos, privatiza\u00e7\u00f5es, etc. \u2013 representado pelo ministro Guedes. Al\u00e9m disso, ele ainda conta com o apoio de parcela importante da popula\u00e7\u00e3o brasileira, motivada pelo neopentecostalismo reacion\u00e1rio, ou pelo \u00f3dio ao PT.<\/p>\n<p>O combate da esquerda e das for\u00e7as populares brasileiras contra o neofascismo ainda esta no come\u00e7o; ser\u00e1 preciso mais do que algumas passeatas ou alguns simp\u00e1ticos protestos de ca\u00e7arolas para derrotar esta forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica teratol\u00f3gica. Certo, mais cedo ou mais tarde o povo brasileiro vai se libertar deste pesadelo neofascista. Mas qual ser\u00e1 o pre\u00e7o a pagar at\u00e9 l\u00e1?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhuma receita m\u00e1gica para combater a extrema-direita neofascista. Devemos nos inspirar \u2013 com uma dist\u00e2ncia cr\u00edtica apropriada \u2013 nas tradi\u00e7\u00f5es antifascistas do passado, mas tamb\u00e9m devemos saber como inovar, a fim de responder \u00e0s novas formas desse fen\u00f4meno. O movimento antifascista s\u00f3 ser\u00e1 eficaz e cr\u00edvel se for motivado por for\u00e7as situadas fora do consenso neoliberal dominante.<\/p>\n<p>O sistema capitalista, sobretudo nos per\u00edodos de crise, produz e reproduz fen\u00f4menos como o fascismo, o racismo, os golpes de Estado e as ditaduras militares. A raiz desses fen\u00f4menos \u00e9 sist\u00eamica e a alternativa tem de ser radical, antissist\u00eamica. Isto \u00e9, um socialismo libert\u00e1rio e ecol\u00f3gico que supere os limites dos movimentos socialistas do s\u00e9culo passado \u2013 o compromisso socialdemocrata com o sistema e a degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do chamado \u201csocialismo real\u201d \u2013, mas recupera as tradi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias brasileiras, de Zumbi dos Palmares e Tiradentes \u00e0 Carlos Marighella e Chico Mendes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[1] P.-A. Taguieff, <em>Le populisme et la science politique<\/em>, Vingti\u00e8me si\u00e8cle, 1997. p. 8.<\/p>\n<p>[2] Ver o interessante livro de Annie Collovald.\u00a0<em>Le \u201cpopulisme du FN\u201d, un dangereux contresens.<\/em>\u00a0Broissieux: Editions du Croquant, 2004. p. 53 e 113. (Col. Raisons d\u2019agir.)<\/p>\n<p>[3] Jean-Yves Camus. Extr\u00eames droites mutantes en Europe.\u00a0<em>Le Monde Diplomatique<\/em>, p. 18-19, mar. 2014.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/dois-anos-de-desgoverno-a-ascensao-do-neofascismo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MICHAEL L\u00d6WY &#8211; A onda marrom em escala mundial. Jair M. Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 um caso \u00fanico. 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