{"id":14821,"date":"2021-02-12T12:52:04","date_gmt":"2021-02-12T15:52:04","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14821"},"modified":"2021-02-09T20:54:16","modified_gmt":"2021-02-09T23:54:16","slug":"economia-do-comum-urgencia-maxima-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/02\/12\/economia-do-comum-urgencia-maxima-2\/","title":{"rendered":"Economia do Comum, urg\u00eancia m\u00e1xima"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mariana Mazzucato e Robert Skidelsky<\/strong> &#8211;\u00a0Crise, pobreza e enriquecimento especulativo alastram-se no Ocidente. O dogma da \u201csuperioridade dos mercados\u201d fracassou. Exemplos hist\u00f3ricos demonstram: \u00e9 poss\u00edvel reorientar a produ\u00e7\u00e3o para o social, o ambiente e os empregos dignos.<\/p>\n<p>A pandemia de COVID-19 teve um impacto imenso, imprevis\u00edvel e duradouro nas economias do mundo inteiro. Como resultado, os governos tiveram a oportunidade \u2014 e a obriga\u00e7\u00e3o \u2014 de repensar o papel e o prop\u00f3sito da pol\u00edtica fiscal.<\/p>\n<p>Quanto piores os fundamentos e previs\u00f5es econ\u00f4micas, mais misteriosos tornam-se os resultados do mercado de a\u00e7\u00f5es nos EUA. Em uma \u00e9poca em que as not\u00edcias reais sugerem que os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es deveriam estar caindo, e n\u00e3o atingindo altas recordes, explica\u00e7\u00f5es baseadas na psicologia da multid\u00e3o, na viraliza\u00e7\u00e3o das ideias e na din\u00e2mica das epidemias narrativas podem trazer alguma luz.<\/p>\n<p>Faz tempo que precisamos de uma nova abordagem. Desde a era da primeira-ministra brit\u00e2nica Margaret Thatcher e do presidente dos EUA Ronald Reagan, a ortodoxia econ\u00f4mica predominante tem negado a fun\u00e7\u00e3o de investimento potencial do Estado e fez do equil\u00edbrio do or\u00e7amento um fim em si mesmo. Essa indiferen\u00e7a tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, quanto ao n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica, tornou a crise de 2008-09 quase inevit\u00e1vel, e a subsequente corrida para a \u201causteridade\u201d enfraqueceu a recupera\u00e7\u00e3o. Agora, o colapso simult\u00e2neo da oferta e da demanda, ap\u00f3s a chegada da covid-19, tornou a ortodoxia neoliberal duplamente insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, poucas evid\u00eancias de que qualquer novo pensamento fiscal esteja em andamento. \u00c9 verdade que o financiamento de emerg\u00eancia est\u00e1 sendo implementado. Mas, a menos que esse gasto seja estruturado, o resultado p\u00f3s-2008 se repetir\u00e1, com a liquidez elevando os pre\u00e7os dos ativos nos mercados financeiros, mas fazendo pouco para ajudar a economia real. No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson pode aspirar ao manto do presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt. Mas seu anunciado \u201cNew Deal\u201d n\u00e3o chega nem perto da escala ou ambi\u00e7\u00e3o do original de Roosevelt. Nenhum dos gastos do governo anunciados at\u00e9 agora vai al\u00e9m de um \u201ctrabalho de ambul\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>O que essa resposta emergencial colocou em evid\u00eancia foi o imenso poder fiscal do Estado, que, quando as circunst\u00e2ncias exigem, \u00e9 perfeitamente capaz de manter as fam\u00edlias abastecidas, ao longo de uma paralisa\u00e7\u00e3o de meses da iniciativa privada. Dessa forma, a meta nos pr\u00f3ximos meses e anos n\u00e3o deve ser descartar a economia subsidiada o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, mas sim transform\u00e1-la em uma nova parceria duradoura entre o Estado, a iniciativa privada e os trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>Uma nova linha m\u00ednima<\/strong><\/p>\n<p>Assim como a sa\u00edda da Grande Depress\u00e3o e da Segunda Guerra Mundial exigiu colabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a ado\u00e7\u00e3o de ideias que, nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930, eram consideradas radicais e \u201canti capitalistas\u201d, a recupera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-pandemia deve ir al\u00e9m do mero gerenciamento de crises. \u00c9 hora de abra\u00e7ar a capacidade \u00fanica e profunda que o Estado tem para conduzir a vida econ\u00f4mica na defesa do bem comum.<\/p>\n<p>Afinal, n\u00e3o faltam desafios de longo prazo que exigir\u00e3o lideran\u00e7a pol\u00edtica proativa e investimento p\u00fablico voltado para essa miss\u00e3o. Diante de uma onda de calor hist\u00f3rica no \u00c1rtico, a necessidade de reorientar a economia para um crescimento limpo e sustent\u00e1vel nunca foi t\u00e3o urgente ou \u00f3bvia. E embora os apelos por um \u201cGreen New Deal\u201d na escala da transforma\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica na era da 2\u00aa Grande Guerra j\u00e1 tenham ganhado for\u00e7a, a crise do COVID-19 mostrou que \u201cos neg\u00f3cios como de costume\u201d n\u00e3o s\u00e3o adequados para isso. Quando chega a hora, os Estados \u2014 e n\u00e3o as empresas privadas \u2014 \u00e9 que s\u00e3o os principais atores econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>As dimens\u00f5es socioecon\u00f4micas e clim\u00e1ticas da crise atual est\u00e3o intimamente relacionadas. O legado das pol\u00edticas de laissez-faire acabou deixando setores-chave e grandes grupos da for\u00e7a de trabalho subempregados e subvalorizados de maneira cr\u00f4nica. Como o Comit\u00ea de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas do Reino Unido mostrou, a atual crise econ\u00f4mica \u00e9, portanto, o momento perfeito para acelerar \u201ca transi\u00e7\u00e3o para uma economia mais limpa, livre de emiss\u00f5es, e fortalecer a resili\u00eancia do pa\u00eds frente aos impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.\u201d<\/p>\n<p>Mas qualquer vers\u00e3o atualizada do New Deal deve incluir uma nova constitui\u00e7\u00e3o fiscal. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o teremos nenhuma garantia contra a retomada da ortodoxia financeira quando a emerg\u00eancia atual for considerada encerrada.<\/p>\n<p>O Estado deveria assumir um papel permanente e cont\u00ednuo de guiar, estabilizar e \u2014 se necess\u00e1rio \u2014 transformar a vida econ\u00f4mica. Intervir apenas em momentos dif\u00edceis para consertar o sistema s\u00f3 garante outra crise. Do lado da oferta, deve haver mais aten\u00e7\u00e3o em direcionar a produ\u00e7\u00e3o para as necessidades de desenvolvimento de longo prazo: para uma economia mais sustent\u00e1vel, inovadora e inclusiva. E do lado da demanda, \u00e9 hora de reafirmarmos o compromisso keynesiano com o pleno emprego, estabelecendo um esquema de garantia de emprego para assegurar que o capital humano n\u00e3o seja desperdi\u00e7ado nem corro\u00eddo durante a transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que se aproxima.<\/p>\n<p>Mais especificamente, um New Deal modernizado significa prestar aten\u00e7\u00e3o tanto \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do crescimento quanto \u00e0 sua taxa. Significa inclinar o campo de jogo em uma dire\u00e7\u00e3o mais verde, que exige n\u00e3o apenas projetos do tipo \u201cshovel-ready\u201d ou pronta-entrega em infraestrutura limpa, energia renov\u00e1vel e outras formas de descarboniza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m demanda uma vis\u00e3o de como projetar e coordenar projetos como parte de um novo caminho de crescimento sustent\u00e1vel. Precisamos, tamb\u00e9m, de novos incentivos para direcionar o investimento privado na dire\u00e7\u00e3o certa. Impostos, regulamentos e outras pol\u00edticas p\u00fablicas devem estar alinhados para promover o planejamento de longo prazo e reduzir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE) em toda a economia. Essa abordagem \u2014 da gest\u00e3o econ\u00f4mica voltada para uma miss\u00e3o \u2014 renderia um maior retorno para o investimento p\u00fablico, tanto diminuindo o multiplicador negativo nas recess\u00f5es de qualquer neg\u00f3cio, quanto aumentando o multiplicador positivo de qualquer recupera\u00e7\u00e3o nos neg\u00f3cios.<\/p>\n<p><strong>O Estado oco<\/strong><\/p>\n<p>Como John Maynard Keynes observou em meados da d\u00e9cada de 1930, \u201cA dificuldade reside n\u00e3o nas novas ideias, mas em escapar das antigas, que se ramificam em todos os cantos de nossas mentes\u201d. Hoje, o principal fracasso do modelo econ\u00f4mico predominante \u2014 particularmente nos Estados Unidos e no Reino Unido \u2014 tem sido o descaso com os bens p\u00fablicos. Embora seja essencial para o funcionamento adequado da economia, o setor privado carece de qualquer incentivo para fornec\u00ea-los. \u00c9 por isso que Adam Smith argumentou em\u00a0<em>A Riqueza das Na\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0que o Estado tem o dever de fornecer a infraestrutura da qual depende a economia de mercado. E \u00e0 medida que a lista de bens p\u00fablicos se expande para incluir o acesso a dados e tecnologias digitais, precisamos nos tornar mais ambiciosos em fornecer o que os cidad\u00e3os precisam para prosperar.<\/p>\n<p>A ortodoxia contempor\u00e2nea, no entanto, subordina esse dever ao de equilibrar o or\u00e7amento do governo. A responsabilidade de desenvolver os recursos reais da economia \u00e9 simplesmente abandonada em nome de um imperativo financeiro que, na verdade, s\u00f3 se aplica \u00e0s fam\u00edlias. Embora as fam\u00edlias precisem equilibrar os or\u00e7amentos ao longo do tempo, os governos deveriam criar or\u00e7amentos para equilibrar a economia, garantindo a utiliza\u00e7\u00e3o total da capacidade produtiva. \u00c9 crucial, para ressuscitar a no\u00e7\u00e3o de bens p\u00fablicos, garantir que eles n\u00e3o sejam meramente \u201ccorre\u00e7\u00f5es\u201d para falhas de mercado, mas sim elementos centrais na intera\u00e7\u00e3o entre governo e empresa privada. Uma l\u00f3gica estreita de manuten\u00e7\u00e3o de mercado deve abrir espa\u00e7o para uma l\u00f3gica de cria\u00e7\u00e3o e modelagem de mercado mais proativa.<\/p>\n<p>A ortodoxia predominante repousa em duas presun\u00e7\u00f5es supostamente axiom\u00e1ticas: que o investimento p\u00fablico \u00e9 uma forma de desperd\u00edcio e, portanto, deve ser minimizado; e que as economias de mercado t\u00eam uma tend\u00eancia espont\u00e2nea para alcan\u00e7ar o pleno emprego (definido como a taxa \u201cnatural\u201d de desemprego). A partir desses axiomas, conclui-se que somente quando os mercados n\u00e3o podem alocar recursos de forma eficiente \u00e9 que o investimento p\u00fablico deve ser usado para suavizar \u201catritos\u201d.<\/p>\n<p>A crise financeira de 2008-09 j\u00e1 exp\u00f4s a fragilidade desse modelo. No Reino Unido, entre 1975 e 2000, o investimento p\u00fablico bruto como parcela do PIB caiu de 8,9% para 1,7%. Como resultado, mais gastos com investimentos foram direcionados \u00e0 especula\u00e7\u00e3o, onde n\u00e3o s\u00f3 foram desperdi\u00e7ados, mas provocaram instabilidade, contribuindo para uma sequ\u00eancia de crises financeiras.<\/p>\n<p>A crise do covid-19 tornou as falhas do modelo ortodoxo ainda mais \u00f3bvias, ao ressaltar a grave defici\u00eancia de bens p\u00fablicos, desde a infraestrutura b\u00e1sica de sa\u00fade at\u00e9 equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual. A ortodoxia prescreveu a privatiza\u00e7\u00e3o, a prote\u00e7\u00e3o de patentes e a terceiriza\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es cr\u00edticas do governo em quase todos os dom\u00ednios relevantes, desde pesquisa e desenvolvimento em medicina e tecnologia at\u00e9 transporte, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Depois de anos de cortes de gastos, muitos governos ocidentais estavam completamente despreparados para administrar um choque como o que ocorreu este ano.<\/p>\n<p>Assim que a covid-19 surgiu, tamb\u00e9m surgiram os sinais da putrefac\u00e7\u00e3o, desde as cr\u00edticas lacunas nas cadeias de abastecimento at\u00e9 a pouca e inadequada capacidade do Estado. Em todo o mundo ocidental, os governos reuniram tudo o que tinham para responder \u00e0 pandemia, mas foi tarde demais. Construir capacidade estatal suficiente requer anos de investimento constante e ponderado, n\u00e3o apenas \u201cdinheiro de helic\u00f3ptero\u201d despejado na economia em resposta a uma emerg\u00eancia. Al\u00e9m disso, essa oferta insuficiente \u00e9 produto da falta de demanda. As economias t\u00eam operado bem abaixo da capacidade total desde a crise de 2008. Em 2018, o Reino Unido pode ter tido uma taxa de desemprego de \u201cmanchete\u201d \u2014 de 4,2% \u2014 mas sua taxa de subemprego, que inclui aqueles que trabalham em tempo parcial e que s\u00e3o incapazes de garantir empregos de jornada completa, estava mais perto de 8% (e esse n\u00famero exclui aqueles que foram for\u00e7ados a trabalhar abaixo de seu n\u00edvel de habilidade).<\/p>\n<p><strong>Aprendemos a li\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Mas como os governos permaneceram mais em d\u00edvida com a contabilidade financeira do que com a de recursos reais, durante a Grande Recess\u00e3o, eles perderam a oportunidade de come\u00e7ar a mudar a atividade econ\u00f4mica numa dire\u00e7\u00e3o mais sustent\u00e1vel e inclusiva. Pior, muitos abandonaram as medidas de est\u00edmulo ao crescimento, inibindo a consolida\u00e7\u00e3o fiscal. No caso do Reino Unido, Simon Wren-Lewis, da Universidade de Oxford, estima que a austeridade tenha atrasado a recupera\u00e7\u00e3o da economia por at\u00e9 tr\u00eas anos, exatamente como o keynesianismo elementar teria previsto. E embora a pol\u00edtica monet\u00e1ria tenha permanecido expansiva, ela n\u00e3o compensou a pol\u00edtica fiscal contracionista do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em sua defesa, o Banco da Inglaterra alegou que a situa\u00e7\u00e3o teria sido ainda pior se eles n\u00e3o tivessem bombeado recursos como fizeram. E ainda, nessa busca por comprar ativos, os legisladores apenas colocavam dinheiro \u201cnovo\u201d nas m\u00e3os dos detentores de ativos existentes, que tinham menos probabilidade de gast\u00e1-lo. A menos que a cria\u00e7\u00e3o de dinheiro esteja ligada \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de oportunidades na economia real, a maior parte da liquidez fornecida pelo banco central acabar\u00e1 no setor financeiro \u2014 exatamente como aconteceu depois de 2008.<\/p>\n<p>As li\u00e7\u00f5es da \u00faltima crise s\u00e3o evidentes: a marginaliza\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o de investimento estatal privou os legisladores das ferramentas necess\u00e1rias para lidar com um evento inesperado ou estabilizar a economia, quanto mais posicion\u00e1-la para um crescimento sustentado. O investimento p\u00fablico \u00e9 essencial n\u00e3o apenas para \u201cconsertar\u201d as falhas do mercado, mas tamb\u00e9m para impulsionar os gastos de capital intensivo e de alto risco necess\u00e1rios para a inova\u00e7\u00e3o \u2014 e, portanto, para o pr\u00f3prio desenvolvimento de capital. Pode ser alavancado tanto desde o lado da oferta \u2014 com investimentos em projetos transformadores, que apresentam riscos grandes demais para uma empresa privada \u2014 quanto do lado da demanda, por meio de pol\u00edticas de compras p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Segundo o Consenso de Washington, que \u00e9 neoliberal, s\u00e3o essas fun\u00e7\u00f5es estatais que foram amplamente \u201cterceirizadas\u201d para os mercados \u2014 voluntariamente, no caso dos pa\u00edses desenvolvidos, e como uma condi\u00e7\u00e3o de apoio financeiro nos pa\u00edses em desenvolvimento (que foram ent\u00e3o renomeados como \u201cmercados emergentes\u201d). A desregulamenta\u00e7\u00e3o do setor financeiro e do mercado de trabalho, a privatiza\u00e7\u00e3o de empresas estatais e a austeridade fiscal foram as prescri\u00e7\u00f5es de uma f\u00f3rmula supostamente universal que combina micro e macroeconomia e deve ser aplicada independentemente do est\u00e1gio de desenvolvimento de um pa\u00eds.<\/p>\n<p>A economia neoliberal segue a \u201clei\u201d do economista dos in\u00edcios do s\u00e9culo XIX, Jean-Baptiste Say, de que a oferta cria sua pr\u00f3pria demanda. A implica\u00e7\u00e3o \u00e9 que, ao eliminar a influ\u00eancia pol\u00edtica indevida sobre os incentivos econ\u00f4micos, o mercado garantir\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o de valor ideal. A pol\u00edtica, portanto, torna-se uma corrida para diminuir o papel de modelagem do mercado do Estado, enquanto ignora amplamente a rela\u00e7\u00e3o do mundo real entre oferta e demanda \u2014 particularmente a escassez de oferta e de demanda.<\/p>\n<p>Mas a isen\u00e7\u00e3o neoliberal tamb\u00e9m se baseou seletivamente na \u201ceconomia do bem-estar\u201d, que atribui um papel aos governos para consertar as coisas quando os resultados se desviam do ideal do mercado perfeito. Essa refer\u00eancia anal\u00edtica, combinada com o medo do inevit\u00e1vel \u201cfracasso do governo\u201d, garantiu que a recupera\u00e7\u00e3o do mercado nunca chegasse ao n\u00edvel de renova\u00e7\u00e3o do mercado. \u00c9 o mercado, e n\u00e3o o Estado, quem sempre recebeu o benef\u00edcio da d\u00favida.<\/p>\n<p><strong>Mercados e miss\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Agora que o COVID-19 exp\u00f4s os danos causados pelo paradigma anterior, \u00e9 hora de come\u00e7ar a mapear uma nova era de investimento p\u00fablico para remodelar nosso cen\u00e1rio tecnol\u00f3gico, produtivo e social. O novo modelo deveria abra\u00e7ar a compreens\u00e3o de que nossas economias est\u00e3o sempre evoluindo em alguma dire\u00e7\u00e3o, em vez de apenas se expandir no v\u00e1cuo. Deixadas por conta pr\u00f3pria, as economias de mercado tendem a favorecer atividades de curto prazo ou de rentismo \u2014 da\u00ed as tend\u00eancias radicais de financeiriza\u00e7\u00e3o e desindustrializa\u00e7\u00e3o testemunhadas nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Em contraposi\u00e7\u00e3o, nas economias de mercado com governos voltados para alguma miss\u00e3o, os gastos p\u00fablicos e a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas direcionar\u00e3o as atividades para a realiza\u00e7\u00e3o de metas socialmente desej\u00e1veis, e n\u00e3o s\u00f3 para o mero crescimento a seu pr\u00f3prio favor. Para al\u00e9m dos Estados Unidos da era do New Deal, um bom exemplo real do novo modelo \u00e9 a Nova Zel\u00e2ndia, cujo governo adotou um \u201cor\u00e7amento de bem-estar\u201d para alinhar as decis\u00f5es de gastos p\u00fablicos com objetivos mais amplos.<\/p>\n<p>Uma abordagem orientada por essa miss\u00e3o tamb\u00e9m permite uma nova forma de est\u00edmulo fiscal direcionado. O objetivo \u00e9 come\u00e7ar com um desafio de grande escala, como a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, e dividi-lo em objetivos pol\u00edticos concretos, como alcan\u00e7ar emiss\u00f5es zero em uma determinada regi\u00e3o, em uma data espec\u00edfica. Com as metas estabelecidas, toda a for\u00e7a dos subs\u00eddios do governo, empr\u00e9stimos e contratos de aquisi\u00e7\u00e3o podem ser empregados para alavancar o potencial combinado dos setores p\u00fablico, privado e n\u00e3o governamental.<\/p>\n<p>Para evitar obje\u00e7\u00f5es previs\u00edveis, essa abordagem orientada para a miss\u00e3o n\u00e3o envolve escolher vencedores e perdedores em termos de setores, tecnologias ou empresas; em vez disso, a ideia \u00e9 escolher problemas espec\u00edficos e permitir que solu\u00e7\u00f5es surjam por meio de um processo ascendente de experimenta\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o em todos os setores. O mesmo processo tamb\u00e9m criar\u00e1 novas oportunidades de emprego. Alcan\u00e7ar a neutralidade de carbono em uma determinada regi\u00e3o, por exemplo, exigiria novas formas de colabora\u00e7\u00e3o entre energia, transporte, materiais, o digital, a tecnologia, a infraestrutura e outros setores, bem como novos tipos de empregos para reaproveitamento, reutiliza\u00e7\u00e3o e reciclagem de recursos e capital existentes.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de empregos, e o lado da demanda de maneira mais geral, \u00e9 onde o segundo pilar da nova constitui\u00e7\u00e3o fiscal entra em a\u00e7\u00e3o. Uma transi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica suave exigir\u00e1 um programa de empregos no setor p\u00fablico que busque gerar uma base tribut\u00e1ria sustent\u00e1vel por meio do \u201ccrowding in\u201d [efeitos dos gastos p\u00fablicos sobre o investimento privado] da atividade econ\u00f4mica que, de outra maneira, a crise teria deixado ociosa. Na verdade, o pleno emprego genu\u00edno deve ser considerado um bem p\u00fablico.<\/p>\n<p>Afinal, uma pessoa empregada aumenta n\u00e3o apenas sua pr\u00f3pria renda, mas tamb\u00e9m a da comunidade em geral, aumentando suas compras. Quando as pessoas est\u00e3o em subempregos ou desempregadas, t\u00eam menos renda para impulsionar a demanda na economia, deixando todos em situa\u00e7\u00e3o pior.<\/p>\n<p>Em 1948, o (futuro) economista ganhador do Pr\u00eamio Nobel Paul Samuelson apontou que \u201co sistema fiscal moderno tem \u00f3timas propriedades de estabiliza\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica\u201d. Quando a economia desacelera, o d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio aumenta automaticamente; quando a economia se recupera, o d\u00e9ficit cai automaticamente. Para preservar essa estabilidade inerente, ele argumentou que \u201cnenhuma atitude deve ser tomada para equilibrar o or\u00e7amento em uma desacelera\u00e7\u00e3o\u201d. Mas, como o pr\u00f3prio Samuelson observou, \u201cum estabilizador embutido atua para reduzir parte de qualquer flutua\u00e7\u00e3o na economia, mas n\u00e3o elimina 100% da perturba\u00e7\u00e3o. Ele deixa o resto do dist\u00farbio para a\u00e7\u00e3o discricion\u00e1ria fiscal e monet\u00e1ria resolverem.\u201d<\/p>\n<p><strong>O mercado radical<\/strong><\/p>\n<p>No caso da recupera\u00e7\u00e3o de hoje, tal a\u00e7\u00e3o discricion\u00e1ria deveria incluir um programa de emprego p\u00fablico (PEP), nos moldes que o Levy Economics Institute, com sede nos EUA, descreveu. Isso constituiria um estabilizador antic\u00edclico muito mais poderoso que o sistema descrito por Samuelson, mas tamb\u00e9m representaria uma continua\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas inauguradas pelo New Deal de Roosevelt.<\/p>\n<p>Entre 1935 e 1943, a Administra\u00e7\u00e3o de Progresso de Obras dos EUA (WPA, na sigla em ingl\u00eas) empregou 8,5 milh\u00f5es de norte-americanos e ofereceu quase todo tipo de trabalho imagin\u00e1vel, desde constru\u00e7\u00e3o de infraestrutura e exterm\u00ednio de pragas at\u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de livros em braille e apresenta\u00e7\u00f5es nas maiores sinfonias do mundo. Da mesma forma, o Corpo de Conserva\u00e7\u00e3o Civil (CCC) foi projetado para oferecer trabalho a cerca de um milh\u00e3o de jovens desempregados em projetos que inclu\u00edam \u201ca preven\u00e7\u00e3o de inc\u00eandios florestais, inunda\u00e7\u00f5es e eros\u00e3o do solo, controle de pragas e doen\u00e7as em plantas, constru\u00e7\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o ou reparo de vias, trilhas e sa\u00eddas de inc\u00eandio nos parques nacionais e florestas nacionais, e outros trabalhos \u2026 que o presidente possa determinar como desej\u00e1veis. \u201d<\/p>\n<p>Em nosso pr\u00f3prio esbo\u00e7o para um PEP, o governo do Reino Unido garantiria emprego a uma valor\/hora fixo (n\u00e3o inferior ao sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional) para qualquer candidato a emprego ou adulto em idade produtiva que n\u00e3o encontre vagas no setor privado. Se concentraria na cria\u00e7\u00e3o de empregos em \u00e1reas cruciais para conduzir a economia em dire\u00e7\u00e3o a uma transi\u00e7\u00e3o verde e forneceria programas de treinamento para que os trabalhadores do PEP pudessem obter ou manter suas de habilidades, preparando-os assim para empregos no setor privado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, um PEP robusto ofereceria quatro vantagens importantes sobre o\u00a0<em>status quo<\/em>. Em primeiro lugar, criaria um estoque regulador do mercado de trabalho que se expande e se contrai automaticamente com o ciclo de neg\u00f3cios, limitando varia\u00e7\u00f5es discricion\u00e1rias nas despesas. Portanto, apoiaria a demanda agregada e, ao mesmo tempo, protegeria contra a possibilidade de gastos p\u00fablicos inadequados (devido a previs\u00f5es ruins ou interfer\u00eancia pol\u00edtica indevida).<\/p>\n<p>Em segundo lugar, um PEP manteria a empregabilidade dos trabalhadores melhor do que um seguro-desemprego, e poderia ser prontamente acoplado ao treinamento no local de trabalho \u2013 um fator importante na recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e no crescimento a longo prazo.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, esses funcion\u00e1rios do PEP seriam pagos a uma taxa fixa, estabelecendo assim um piso para os sal\u00e1rios do setor privado. Se o sal\u00e1rio PEP fosse definido pelo sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional, n\u00e3o haveria necessidade de legisla\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio m\u00ednimo e todos os custos de conformidade decorrentes. E, como Pavlina R. Tcherneva, do Levy Economics Institute, argumenta, se o sal\u00e1rio do PEP fosse fixado acima do sal\u00e1rio m\u00ednimo, teria at\u00e9 um efeito distributivo ben\u00e9fico.<\/p>\n<p>Por fim, o PEP pode ser usado para influenciar a estrutura geral de empregos, direcionando talentos e recursos para os objetivos previstos no Green New Deal.<\/p>\n<p><strong>O paradigma do Programa de Emprego P\u00fablico<\/strong><\/p>\n<p>Num esbo\u00e7o paa o Reino Unido, o programa seria financiado nacionalmente, mas seria administrado localmente por v\u00e1rias ag\u00eancias: governos, ONGs e empresas sociais. Cada um teria a tarefa de criar oportunidades de emprego \u201cno ponto\u201d onde fossem mais necess\u00e1rias (cuidado ambiental, c\u00edvico e humano), atendendo \u00e0s necessidades da comunidade com pessoas desempregadas ou subempregadas.<\/p>\n<p>Haver\u00e1 empecilhos, \u00e9 claro; e como todas as novas ideias, ser\u00e1 preciso romper a barreira do pensamento arraigado. A no\u00e7\u00e3o de que as economias tendem naturalmente ao pleno emprego \u00e9 um tipo de ortodoxia que os eventos hist\u00f3ricos j\u00e1 deveriam ter provado totalmente errada. No entanto, permanece enraizada nas condi\u00e7\u00f5es cada vez mais duras exigidas para o recebimento de benef\u00edcios de desemprego, com a suposi\u00e7\u00e3o impl\u00edcita de que o problema \u00e9 sempre a relut\u00e2ncia dos desempregados em trabalhar, e n\u00e3o a escassez de empregos. Em qualquer caso, um PEP superaria esses debates morais proporcionando trabalho ou treinamento a todos os que estivessem dispostos e capazes, aliviando assim a necessidade dos benef\u00edcios de desemprego.<\/p>\n<p>Um PEP \u00e9, para concluir, uma ideia inerentemente biosustent\u00e1vel, porque aborda duas formas cruciais de neglig\u00eancia econ\u00f4mica e devasta\u00e7\u00e3o na economia: a do capital natural e humano. Portanto, n\u00e3o deve ser visto apenas como um programa de consumo antic\u00edclico, mas tamb\u00e9m como ingrediente essencial no que a especialista em tecnologia Carlota Perez chama de \u201ccrescimento verde inteligente\u201d.<\/p>\n<p>A economia carece de capacidade produtiva atualizada, enquanto uma grande parte de sua for\u00e7a de trabalho permanece subempregada e mal remunerada. Mas com pol\u00edticas salariais inclusivas e demanda agregada mais forte, as empresas ter\u00e3o de investir em equipamentos mais inteligentes. Espremer os trabalhadores prec\u00e1rios n\u00e3o ser\u00e1 mais uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel para sustentar os lucros corporativos.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o da tecnologia da informa\u00e7\u00e3o e os principais avan\u00e7os em energia renov\u00e1vel dos \u00faltimos anos mostraram que a inova\u00e7\u00e3o gera novos produtos, servi\u00e7os, materiais e modos de vida \u2014 e todos geram empregos. A ortodoxia neoliberal ignorou a necessidade de transformar o antigo capital em novo, e por isso, agora estamos econ\u00f4mica e socialmente mais pobres.<\/p>\n<p>\u00c9 hora de reiniciar os ciclos virtuosos de forte demanda e alto investimento, com foco no crescimento verde e alinhamento adequado do lado da oferta e da demanda da economia. Uma nova constitui\u00e7\u00e3o fiscal, garantida por meio de um PEP, fornece a base. N\u00e3o devemos desperdi\u00e7ar esta chance de reformar as economias para o bem das pessoas e do planeta.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/economia-do-comum-urgencia-maxima\/?utm_source=newsletter&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=o_melhor_da_semana_do_culto_ao_eu_a_passividade_social_economia_do_comum_urgencia_maxima_o_perverso_terraplanismo_economico&amp;utm_term=2021-02-07<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mariana Mazzucato e Robert Skidelsky &#8211;\u00a0Crise, pobreza e enriquecimento especulativo alastram-se no Ocidente. O dogma da \u201csuperioridade dos mercados\u201d fracassou. Exemplos hist\u00f3ricos demonstram: \u00e9 poss\u00edvel reorientar a produ\u00e7\u00e3o para o social, o ambiente e os empregos dignos. A pandemia de COVID-19 teve um impacto imenso, imprevis\u00edvel e duradouro nas economias do mundo inteiro. 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