{"id":14802,"date":"2021-02-05T12:00:54","date_gmt":"2021-02-05T15:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14802"},"modified":"2021-02-03T21:05:03","modified_gmt":"2021-02-04T00:05:03","slug":"a-ford-e-a-desindustrializacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/02\/05\/a-ford-e-a-desindustrializacao\/","title":{"rendered":"A Ford e a desindustrializa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Paulo Kliass<\/strong> &#8211;\u00a0Multinacional deixar\u00e1 o Brasil \u2014 e milhares ficar\u00e3o desempregados. Poderia ser alerta para a urgente retomada da ind\u00fastria nacional, em crise h\u00e1 mais de 30 anos, e a constru\u00e7\u00e3o de uma Economia do Conhecimento. Mas Bolsonaro tripudia sobre a trag\u00e9dia\u2026<\/p>\n<p>Estamos todos de acordo de que Bolsonaro realiza um governo autorit\u00e1rio, com tra\u00e7os nitidamente neofascistas. Sabemos tamb\u00e9m que a sua postura irrespons\u00e1vel perante a pandemia pode ser claramente qualificada como genoc\u00eddio. Tampouco restam d\u00favidas quanto \u00e0s inten\u00e7\u00f5es neoliberais de Paulo Guedes no comando da economia, onde o objetivo central sempre foi o de promover a destrui\u00e7\u00e3o do Estado e o desmonte das pol\u00edticas p\u00fablicas. Nesse conjunto, a obsess\u00e3o com a dilapida\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio estatal se concretiza por meio da venda das empresas estatais e outras formas mais sutis de privatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isto posto, \u00e9 for\u00e7oso reconhecer que n\u00e3o cabe atribuir a esse governo todo o peso e responsabilidade a respeito da decis\u00e3o recente da Ford de encerrar suas linhas de produ\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio brasileiro. Na verdade, a sa\u00edda da multinacional do automobilismo vem apenas confirmar uma tend\u00eancia hist\u00f3rica de perda crescente da presen\u00e7a da ind\u00fastria em nossa capacidade produtiva e econ\u00f4mica. Trata-se do processo que o econom\u00eas chama de \u201cdesindustrializa\u00e7\u00e3o\u201d, que pode ser perfeitamente identificado pela figura abaixo.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"399\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3041434\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kliass1-1024x639.png?resize=640%2C399&#038;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kliass1-1024x639.png 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kliass1-300x187.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kliass1-768x479.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kliass1.png 1583w\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Ao longo das \u00faltimas sete d\u00e9cadas, a ind\u00fastria brasileira conheceu duas fases bastante distintas. Numa primeira etapa, observou-se um crescimento expressivo, que tem in\u00edcio no p\u00f3s-guerra, em especial com a pol\u00edtica de industrializa\u00e7\u00e3o iniciada por Get\u00falio Vargas e levada \u00e0 frente por Juscelino Kubitschek. A participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria da transforma\u00e7\u00e3o no Produto Interno sai de 16% e atinge um patamar pr\u00f3ximo a 27% ao longo da d\u00e9cada de 1970. Esse \u00e9 o per\u00edodo chamado de \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d durante a ditadura militar que se instalou em 1964. Data dessa \u00e9poca a constitui\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de bens de capital e de base (siderurgia, petroqu\u00edmica, energia el\u00e9trica, entre outras), da ind\u00fastria automobil\u00edstica e de material el\u00e9trico e eletr\u00f4nico.<\/p>\n<p><strong>Collor e o in\u00edcio do fim<\/strong><\/p>\n<p>A segunda etapa vem na sequ\u00eancia do Plano Cruzado, em especial partir de 1990, quando Collor era o Presidente da Rep\u00fablica. Aquele ano foi um marco no processo de perda de import\u00e2ncia da ind\u00fastria em nosso PIB, com a introdu\u00e7\u00e3o da abertura comercial indiscriminada e a dissemina\u00e7\u00e3o generalizada da ideia de que tudo o que fosse importado seria de melhor qualidade. Ficaram muito marcadas as imagens, muito divulgadas \u00e0 \u00e9poca, de uma suposta modernidade do produto estrangeiro, onde o\u00a0<a href=\"https:\/\/jornaldocarro.estadao.com.br\/fanaticos\/gurgel-erguia-fabrica-de-eletricos-ha-40-anos\/?fbclid=IwAR2rhWtOCtxK_Il5sfGJKRoh_c9XYXzigSB2ttzxkhNl9j6eQlrJHc1GtTo\">Presidente inclusive associava os autom\u00f3veis fabricados no Brasil por multinacionais a \u201ccarro\u00e7as\u201d<\/a>, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s supostas virtudes dos ve\u00edculos fabricados no exterior.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, a presen\u00e7a da ind\u00fastria despenca daqueles 27% para o patamar atual em torno de 11%. Vale notar um sobre f\u00f4lego no in\u00edcio dos anos 2000, em especial, durante o primeiro mandato do Presidente Lula. Mas, a partir de 2005, tudo volta \u00e0 tend\u00eancia anterior da desindustrializa\u00e7\u00e3o acelerada. Na disputa da narrativa, esse processo era muitas vezes saudado como saud\u00e1vel, uma vez que a ind\u00fastria seria vista como algo do passado. Os exemplos de pa\u00edses escandinavos, por exemplo, eram apontados como uma substitui\u00e7\u00e3o positiva de plantas industriais por setores de servi\u00e7os e da chamada \u201ceconomia do conhecimento\u201d. Ocorre que no Brasil, ao contr\u00e1rio, a perda de protagonismo da ind\u00fastria deu-se com a maior import\u00e2ncia exercida por setores de baixo valor agregado no processo. Trata-se do agroneg\u00f3cio em fase de expans\u00e3o e os servi\u00e7os de baixa qualidade, como telemarketing e as operadoras de entregas.<\/p>\n<p>Essas quatro d\u00e9cadas de desindustrializa\u00e7\u00e3o corresponderam tamb\u00e9m ao per\u00edodo de auge do ide\u00e1rio neoliberal, onde um dos alicerces residia justamente na cren\u00e7a que a liberaliza\u00e7\u00e3o comercial completa s\u00f3 traria benef\u00edcios para os pa\u00edses que a adotassem. A tempestade perfeita que se abateu sobre o Brasil veio com um longo per\u00edodo tamb\u00e9m de sobrevaloriza\u00e7\u00e3o cambial, em raz\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria de juros elevados praticada pelo Banco Central. Ao apresentar nosso pa\u00eds para o universo da especula\u00e7\u00e3o financeira internacional como o campe\u00e3o da taxa de juros, os governos permitiram que a taxa de c\u00e2mbio valorizada artificialmente estimulasse ainda mais o consumo de importados.<\/p>\n<p><strong>Inform\u00e1tica e Gurgel: governo joga contra<\/strong><\/p>\n<p>Todas as tentativas de se criar uma pol\u00edtica industrial que favorecesse o surgimento e fortalecimento de atores industriais nacionais foram desmontadas. Esse foi o caso da pol\u00edtica nacional de inform\u00e1tica, por exemplo. Independentemente das cr\u00edticas que possam ser feitas ao projeto, o fato \u00e9 que o Brasil abriu m\u00e3o unilateralmente de desenvolver tecnologia pr\u00f3pria ou em condi\u00e7\u00f5es de competir com os grupos multinacionais. As receitas do neoliberalismo apontavam que qualquer tentativa de prote\u00e7\u00e3o a setores nascentes ou estrat\u00e9gicos seria prejudicial ao pa\u00eds, em raz\u00e3o de custos fiscais associados aos subs\u00eddios necess\u00e1rios, aos pre\u00e7os mais altos e \u00e0 qualidade inferior.<\/p>\n<p>Outro exemplo emblem\u00e1tico foi um projeto na pr\u00f3pria ind\u00fastria automobil\u00edstica, onde atuava a Ford. Ao longo da d\u00e9cada de 1970\/80,\u00a0<a href=\"https:\/\/jornaldocarro.estadao.com.br\/fanaticos\/gurgel-erguia-fabrica-de-eletricos-ha-40-anos\/?fbclid=IwAR2rhWtOCtxK_Il5sfGJKRoh_c9XYXzigSB2ttzxkhNl9j6eQlrJHc1GtTo\">surge uma empresa nacional no setor, a Gurgel<\/a>. Seus projetos eram ambiciosos e de custo relativamente reduzido, com inova\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas j\u00e1 \u00e0 \u00e9poca, como os motores \u00e0 \u00e1lcool e mesmo ve\u00edculos el\u00e9tricos. Por\u00e9m, para competir e sobreviver em um ambiente dominado pelo oligop\u00f3lio das multinacionais, era fundamental que a empresa contasse com apoio do setor p\u00fablico. Ao contr\u00e1rio de casos similares \u2013 como a \u00cdndia, por exemplo \u2013 o Brasil resolveu deixar Gurgel \u00e0 deriva e a empresa n\u00e3o aguentou o clima p\u00f3s-abertura comercial. A fal\u00eancia em 1994 operou como uma p\u00e1 de cal em qualquer ensaio de desenvolvimento tecnol\u00f3gico aut\u00f4nomo, que propiciasse algum grau m\u00ednimo de soberania nacional no setor.<\/p>\n<p>O encerramento das atividades da Ford no Brasil implica na perda de 5 mil empregos diretos nas unidades espalhadas pelo Brasil inteiro. No quadro de aprofundamento do desemprego e da fal\u00eancia generalizada de empresas, certamente n\u00e3o pode ser entendida como uma boa not\u00edcia. Para al\u00e9m de tais postos de trabalho e da produ\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos nas linhas de montagem cada vez mais automatizadas, a not\u00edcia \u00e9 muito ruim tamb\u00e9m para o setor de autope\u00e7as, que depende basicamente das entregas para as pr\u00f3prias montadoras, sob a base de encomendas. O chamado efeito em cascata de tal interrup\u00e7\u00e3o de atividades dever\u00e1 provocar, al\u00e9m disso, um impacto negativo direto nas economias locais e regionais.<\/p>\n<p><strong>Necess\u00e1rio debate sobre rumos do desenvolvimento<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de tudo, o governo Bolsonaro nada fez para reverter tal quadro. As declara\u00e7\u00f5es do Presidente e de seu Ministro da Economia s\u00e3o quase de exalta\u00e7\u00e3o ao fim das atividades da multinacional por aqui. Permanece sempre a l\u00f3gica obsessiva de Paulo Guedes em cortar despesas; no caso, os chamados \u201cgastos tribut\u00e1rios\u201d sob a forma de isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias. Uma loucura, caso se leve em considera\u00e7\u00e3o a continuidade da produ\u00e7\u00e3o do grupo aqui na nossa vizinha Argentina. Ou mesmo a op\u00e7\u00e3o do grupo em 2009 de ampliar os investimentos ainda no Brasil, quando Lula ocupava o Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>Seria importante que a decis\u00e3o da Ford recolocasse o necess\u00e1rio debate acerca dos rumos do desenvolvimento brasileiro e da recupera\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do planejamento como instrumento p\u00fablico para a constru\u00e7\u00e3o de um projeto estrat\u00e9gico de futuro. A ind\u00fastria ainda permanece como a op\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o de maior valor agregado para nossa economia, mas isso exige um investimento p\u00fablico pesado em \u00e1reas essenciais, como educa\u00e7\u00e3o e ci\u00eancia e tecnologia. A China e demais pa\u00edses asi\u00e1ticos s\u00e3o o exemplo vivo de que a inser\u00e7\u00e3o internacional exige recupera\u00e7\u00e3o de protagonismo nacional e n\u00e3o mais apenas uma aceita\u00e7\u00e3o passiva de subalternidade no cen\u00e1rio global.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe a alternativa falaciosa de saltar etapas, como nos fazem crer os mercadores ilusionistas do neoliberalismo. S\u00f3 conseguiremos atingir, de forma mais soberana como na\u00e7\u00e3o, a t\u00e3o sonhada autonomia da economia do conhecimento se tivermos um s\u00f3lido dom\u00ednio e presen\u00e7a em \u00e1reas estrat\u00e9gicas da produ\u00e7\u00e3o industrial. Ou ent\u00e3o permaneceremos deitados no ber\u00e7o espl\u00eandido da destrui\u00e7\u00e3o de nossas reservas naturais para exporta\u00e7\u00e3o de minerais e produtos agropecu\u00e1rios. Esse \u00e9 o caminho para fincarmos nossas ra\u00edzes, de forma cada vez mais definitiva, no atraso do pacto neocolonial da divis\u00e3o internacional do trabalho.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/a-ford-e-a-desindustrializacao\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Kliass &#8211;\u00a0Multinacional deixar\u00e1 o Brasil \u2014 e milhares ficar\u00e3o desempregados. Poderia ser alerta para a urgente retomada da ind\u00fastria nacional, em crise h\u00e1 mais de 30 anos, e a constru\u00e7\u00e3o de uma Economia do Conhecimento. 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