{"id":14779,"date":"2021-01-31T14:55:49","date_gmt":"2021-01-31T17:55:49","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14779"},"modified":"2021-01-30T15:00:07","modified_gmt":"2021-01-30T18:00:07","slug":"dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/","title":{"rendered":"Dowbor: o fim do capitalismo e o que vir\u00e1 depois"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ladislau Dowbor<\/strong> &#8211; A PERDA DO CONTROLE:UMA SOCIEDADE EM BUSCA DE NOVOS RUMOS<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que tudo se acelerou de maneira dram\u00e1tica. O tempo social funciona em ritmos diferentes para as tecnologias, que avan\u00e7am de uma maneira que nos atropela; para a cultura, que evolui de maneira muito mais lenta; e para as leis, que mudam apenas quando as transforma\u00e7\u00f5es acumuladas est\u00e3o literalmente implodindo o arcabou\u00e7o legal herdado. As pe\u00e7as se desajustam. O Senado estadunidense convoca um Mark Zuckerberg para entender o que est\u00e1 acontecendo. O criador do sistema responde que n\u00e3o tinha ideia das implica\u00e7\u00f5es e pede desculpas. Bilh\u00f5es de pessoas atolam num sistema cujas din\u00e2micas mais amplas ningu\u00e9m previu, entrando como cegas num jogo arriscado. Estamos sempre atrasados relativamente aos avan\u00e7os das tecnologias, tentando encontrar\u00a0<em>a posteriori<\/em>regras do jogo adequadas para uma realidade que sempre se adianta. O que fazer com a uberiza\u00e7\u00e3o, ou com a invas\u00e3o eletr\u00f4nica da privacidade, ou com a armadilha da d\u00edvida?<\/p>\n<p>Diretamente ligada \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, que desorganizam a governan\u00e7a da sociedade pela disritmia na mudan\u00e7a das diversas inst\u00e2ncias sociais, est\u00e1 a quest\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o, termo que usamos como abreviatura de uma dram\u00e1tica complexidade na reorganiza\u00e7\u00e3o da base territorial da governan\u00e7a. Que espa\u00e7o de decis\u00e3o tem um governo no plano nacional quando o sistema financeiro \u00e9 global? Adultos bem formados d\u00e3o pulos de alegria em Wall Street, gritando \u201cgreed is good\u201d, e se mostram surpresos quando milh\u00f5es de usu\u00e1rios de cr\u00e9dito perdem as suas casas e quando bancos como Lehman Brothers fecham. A despropor\u00e7\u00e3o entre o volume de recursos que manejam e a sua ignor\u00e2ncia dos impactos \u00e9 impressionante. Filmes como\u00a0<em>Trabalho Interno<\/em>(de 2010, dirigido por Charles Ferguson),\u00a0<em>O capital<\/em>(de 2013, dirigido por Costa-Gavras), entre outros, mostram de maneira dram\u00e1tica ou divertida a irresponsabilidade e as dimens\u00f5es ca\u00f3ticas do sistema. Para 850 milh\u00f5es de pessoas que passam fome, para 6 milh\u00f5es de crian\u00e7as que dela morrem todo ano, n\u00e3o h\u00e1 nada de divertido neste caos irrespons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Temos tecnologias e sistemas produtivos do s\u00e9culo XXI convivendo com cultura, institui\u00e7\u00f5es e leis feitas para o s\u00e9culo passado. Temos governos nacionais para uma economia em grande parte globalizada. Em outros termos, dilema que teria interessado Karl Marx, temos uma superestrutura criada para regular a sociedade burguesa da era industrial coabitando com uma base econ\u00f4mica que j\u00e1 migrou para esfera digital. As pessoas se d\u00e3o conta de que \u00e9 vital para a sobreviv\u00eancia de um governo e da sua pol\u00edtica econ\u00f4mica a opini\u00e3o formalmente declarada de tr\u00eas empresas privadas de avalia\u00e7\u00e3o de risco \u2013 Fitch, Moody\u2019s e Standard &amp; Poor\u2019s \u2013 , dispensando-se a opini\u00e3o da cidadania? A quem pertencem essas empresas, denunciadas pela\u00a0<em>The Economist<\/em>como oligop\u00f3lio irrespons\u00e1vel e que definem o destino dos nossos governos?<\/p>\n<p>Os desajustes s\u00e3o sist\u00eamicos. A eros\u00e3o planet\u00e1ria de governan\u00e7a \u2013 basta contar os governos surrealistas, a come\u00e7ar pelo de Trump \u2013 tem impactos catastr\u00f3ficos. S\u00f3 os alienados n\u00e3o percebem que estamos destruindo o planeta, a pr\u00f3pria base da nossa sobreviv\u00eancia, e que o fazemos para o proveito do j\u00e1 cl\u00e1ssico 1% de mais ricos, que apresentam a particularidade de serem improdutivos, quando n\u00e3o danosos. No Brasil, depois de aprovarmos um m\u00ednimo de regras de bom senso na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, passamos a enfrentar uma revolta por parte de uma oligarquia que considera que os seus j\u00e1 indecentes privil\u00e9gios n\u00e3o est\u00e3o suficientemente contemplados. Em vez de mexer nos privil\u00e9gios, mexemos na Constitui\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m se diz que os interesses dos ricos n\u00e3o cabem nas urnas. Entre os interesses e a democracia, para a oligarquia dos mais ricos, n\u00e3o h\u00e1 hesita\u00e7\u00e3o, ainda que terminem tamb\u00e9m prejudicados quando a crise se generaliza, com conflitos e recess\u00f5es. A racionalidade ocupa espa\u00e7os limitados no nosso c\u00e9rebro quando se trata de pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Joseph Stiglitz hoje faz figura de subversivo quando escreve um tratado do \u00f3bvio, de que temos de mudar as regras do jogo: \u00e9 forte o seu\u00a0<em>Rewriting\u00a0<\/em><em>the\u00a0<\/em><em>Rules\u00a0<\/em><em>of\u00a0<\/em><em>the\u00a0<\/em><em>American\u00a0<\/em><em>Economy<\/em>, que j\u00e1 vimos aqui, em que clama por uma prosperidade compartilhada para que o sistema volte a funcionar; o Roosevelt Institute amplia a an\u00e1lise com\u00a0<em>New<\/em><em>Rules<\/em><em>for<\/em><em>the<\/em><em>21st<\/em><em>Century<\/em>. O\u00a0<em>Plano<\/em><em>B<\/em><em>4.0<\/em>, de Lester R. Brown, escancara a trag\u00e9dia ambiental que criamos no planeta, clamando por um plano B justamente porque o plano A com o qual vivemos, o vale-tudo chamado de \u201clivre-mercado\u201d ou de \u201cneoliberalismo\u201d, \u00e9 desastroso. J\u00e1 n\u00e3o se contam as iniciativas como\u00a0<em>The\u00a0<\/em><em>Next\u00a0<\/em><em>System\u00a0<\/em><em>Project<\/em>, nos Estados Unidos,\u00a0<em>New\u00a0<\/em><em>Economics\u00a0<\/em><em>Foundation<\/em>, no Reino Unido,\u00a0<em>Alternatives\u00a0<\/em><em>\u00c9conomiques<\/em>, na Fran\u00e7a, e tantas outras pelo mundo. Propostas como as de Bernie Sanders, apelando para sal\u00e1rios mais decentes e uma sociedade mais democr\u00e1tica, aparecem hoje como constituindo simples bom senso para tantas pessoas que entendem minimamente de pol\u00edtica econ\u00f4mica. E os objetivos do desenvolvimento sustent\u00e1vel, os ODS, marcam claramente as reorienta\u00e7\u00f5es que s\u00e3o indispens\u00e1veis ao nosso equil\u00edbrio, mas com toda a fragilidade dos acordos baseados em muita boa vontade e poucos recursos.<\/p>\n<p>\u00c9 bem-vinda essa busca que hoje nos traz um manancial de novas an\u00e1lises. A verdade \u00e9 que o que chamamos de mercado, no sentido tradicional, de muitas empresas buscando satisfazer os clientes, sujeitando-se a mecanismos de concorr\u00eancia, tornou-se marginal. Assumiram os gigantes corporativos e os mecanismos de oligop\u00f3lio que encontramos nas plataformas planet\u00e1rias, nos\u00a0<em>traders<\/em>de\u00a0<em>commodities<\/em>, na grande m\u00eddia, nos bancos, nos fundos de pens\u00e3o, nos planos de sa\u00fade, nos credi\u00e1rios, nas seguradoras, nas telecomunica\u00e7\u00f5es, na ind\u00fastria farmac\u00eautica, no mundo dos agrot\u00f3xicos e em tantos outros segmentos hoje financeirizados, que n\u00e3o s\u00e3o controlados nem pelo consumidor (concorr\u00eancia de mercado), nem por governos (sistemas de regula\u00e7\u00e3o). Continuam a se chamar de \u201cmercados\u201d, mas se trata claramente de um empr\u00e9stimo de legitimidade, de um engodo. E os respons\u00e1veis se chamam de CEOs empresariais, quando fazem pol\u00edtica de manh\u00e3 a noite.<\/p>\n<p>Muita tinta correu, muitas experi\u00eancias se fizeram em torno do \u201clivre-mercado\u201d e do \u201cplanejamento estatal\u201d como polos opostos de organiza\u00e7\u00e3o do desenvolvimento das sociedades. O que hoje temos n\u00e3o permite nem o mecanismo de equil\u00edbrio da livre concorr\u00eancia, confinada a poucos setores, nem a capacidade racionalizadora do planejamento econ\u00f4mico e social. O caminho, em termos amplos de governan\u00e7a do sistema, na minha convic\u00e7\u00e3o, exige a evolu\u00e7\u00e3o para sistemas mistos e diversificados segundo os setores. Somos sociedades demasiado complexas para sermos administrados no quadro de uma ideologia simplificadora, de um lado ou de outro. Tratei dessa vis\u00e3o de articula\u00e7\u00e3o complexa de mecanismos de regula\u00e7\u00e3o em outro trabalho,\u00a0<em>O p\u00e3o nosso de cada dia<\/em>, sobre a diversifica\u00e7\u00e3o dos processos produtivos. Marjorie Kelly, em\u00a0<em>Owning our Future<\/em>, trata extensivamente das transforma\u00e7\u00f5es do conceito de propriedade, apontando para novos rumos na linha da propriedade inclusiva. Elinor Ostrom e Charlotte Hess, em\u00a0<em>Understanding Know ledge as a Commons<\/em>, nos traz excelentes an\u00e1lises sobre as rela\u00e7\u00f5es de propriedade na \u00e1rea dos bens comuns. A China hoje adota formalmente uma articula\u00e7\u00e3o de diversos subsistemas de propriedade.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 muita previsibilidade quanto ao futuro. A partir de um certo n\u00famero de vari\u00e1veis que se cruzam de maneira ca\u00f3tica, podemos sem d\u00favida batalhar por formas de governan\u00e7a que assegurem a redefini\u00e7\u00e3o sist\u00eamica dos nossos rumos, e no quadro de um m\u00ednimo de liberdade individual, mas a resultante ser\u00e1 distante de qualquer constru\u00e7\u00e3o racional, muito menos previs\u00edvel. Em outros termos, o futuro \u00e9 inseguro. O que sabemos, sim, \u00e9 que, de acordo com a tend\u00eancia atual, com trag\u00e9dias ambientais, desigualdade explosiva e os recursos financeiros e tecnol\u00f3gicos servindo para tudo menos para o que \u00e9 necess\u00e1rio, estamos indo para o que foi t\u00e3o bem qualificado de\u00a0<em>slow-motion catastrophe<\/em>, cat\u00e1strofe em c\u00e2mara lenta.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 nossa hip\u00f3tese inicial, com as novas rela\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e sociais, e as novas formas de poder e de apropria\u00e7\u00e3o do excedente, surgir\u00e1 um novo equil\u00edbrio sist\u00eamico, um outro modo de produ\u00e7\u00e3o? As novas formas de domina\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o caracterizar\u00e3o necessariamente um modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, e a alternativa n\u00e3o ser\u00e1 necessariamente apenas o socialismo. Ao persistirem as tend\u00eancias atuais, o sentimento que emerge \u00e9 o de que estamos evoluindo rapidamente para uma sociedade de vigil\u00e2ncia, em que as trag\u00e9dias sociais e ambientais ser\u00e3o explicadas como necess\u00e1rias por um poder crescentemente desequilibrado e, por isso mesmo, mais opressivo. Essa vis\u00e3o pessimista se refere ao que constatamos e em nada reduz a nossa necessidade de lutar por um desenvolvimento digno para todos, e sustent\u00e1vel no longo prazo, transformando as amea\u00e7as em oportunidades. Como gosta de dizer Ignacy Sachs, um pessimista \u00e9 um otimista bem informado.<\/p>\n<p>O socialismo democr\u00e1tico, no seu sentido de raiz, de apropria\u00e7\u00e3o social e democr\u00e1tica dos processos do nosso desenvolvimento, segue mais concreto do que nunca. Continuar a chamar o que vivemos de capitalismo pode ser escorregadio: para muitos, o capitalismo \u00e9 respons\u00e1vel pelo enriquecimento mundial, representando um valor essencialmente positivo. Para outros, simboliza a explora\u00e7\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o ambiental. O sistema que hoje enfrentamos perdeu em grande parte a sua dimens\u00e3o de enriquecimento das sociedades, agrava a explora\u00e7\u00e3o e gera um desastre ambiental. Tornou-se essencialmente um sistema parasit\u00e1rio, que precisa cada vez mais de trucul\u00eancia para se sustentar, na mesma medida em que se torna disfuncional.<\/p>\n<p>\u00c9 cada vez mais dif\u00edcil negar que, depois de d\u00e9cadas em que acrescentamos ao animal que conhec\u00edamos \u2013 o capitalismo industrial \u2013 qualificativos como Terceira ou Quarta Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, capitalismo global, capitalismo financeiro e outros complementos segundo os novos formatos que o animal adquire, trata-se hoje de pensar de maneira sist\u00eamica que outro animal \u00e9 esse que est\u00e1 surgindo. A unidade econ\u00f4mica b\u00e1sica j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a f\u00e1brica, \u00e9 a plataforma; o produto \u00e9 cada vez mais imaterial; as rela\u00e7\u00f5es de trabalho s\u00e3o cada vez mais diversificadas e fragmentadas, com forte redu\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado; a forma de extra\u00e7\u00e3o de mais-valia cada vez mais se centra em mecanismos financeiros de explora\u00e7\u00e3o; o livre-mercado como mecanismo regulador central do capitalismo est\u00e1 limitado a segmentos marginais; a propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o perdeu radicalmente a sua import\u00e2ncia, s\u00e3o outras as formas de controle, em particular pelo sistema financeiro; o poder sobre as popula\u00e7\u00f5es se exerce cada vez mais por meios de controle midi\u00e1tico, algoritmos e invas\u00e3o da privacidade; o espa\u00e7o dos governos, nas suas fronteiras nacionais, parece cada vez menos capaz de assegurar uma governan\u00e7a funcional; os sistemas jur\u00eddicos est\u00e3o sendo apropriados, perdendo-se as pr\u00f3prias regras do jogo que nos davam uma certa seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Por outro lado, os indiv\u00edduos est\u00e3o munidos de conectividade planet\u00e1ria a partir do seu bolso; e, naturalmente, o principal fator de produ\u00e7\u00e3o, o conhecimento, tem potencial ilimitado de acesso, argumento que j\u00e1 vimos v\u00e1rias vezes e que repito aqui pela centralidade na reestrutura\u00e7\u00e3o da sociedade, j\u00e1 que muda radicalmente a base da an\u00e1lise econ\u00f4mica centrada na aloca\u00e7\u00e3o de recursos escassos. Os pr\u00f3prios sistemas financeiros, na era da moeda virtual e da conectividade, abrem espa\u00e7o para uma radical desintermedia\u00e7\u00e3o. As tecnologias mais modernas, na linha do Bolsa Fam\u00edlia e dos sistemas de microcr\u00e9dito, permitem resolver de maneira radical o esc\u00e2ndalo planet\u00e1rio dos nossos maiores atrasos, a fome e a mortalidade infantil, com custos que s\u00e3o rid\u00edculos se comparados ao desperd\u00edcio de recursos e ao seu uso meramente especulativo. E podemos redistribuir o trabalho e reduzir a jornada, com mais gente trabalhando e mais gente tendo tempo para viver. Vivemos uma era de absurdas oportunidades desperdi\u00e7adas ou subutilizadas. E os processos decis\u00f3rios podem, hoje, ser radicalmente democratizados, na linha das articula\u00e7\u00f5es horizontais em rede.<\/p>\n<p>Uma pergunta essencial \u00e9 o destino da chamada luta de classes. O mundo dos trabalhadores est\u00e1 fragmentado em setores e subsetores muito diversificados, dificultando as articula\u00e7\u00f5es. O operariado industrial \u00e9 claramente minorit\u00e1rio, mesmo nos pa\u00edses fortemente industrializados, representando nos Estados Unidos cerca de 5% da popula\u00e7\u00e3o ativa. Com a fragmenta\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho, tamb\u00e9m se fragilizam os sindicatos e os partidos como instrumentos de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica organizada. O que acontece com a \u201cclasse dominante\u201d, hoje, o 1% de ricos improdutivos? A sua improdutividade e o entrave que representam para o progresso s\u00e3o uma imensa fragilidade em rela\u00e7\u00e3o ao burgu\u00eas explorador do s\u00e9culo passado, que pelo menos produzia sapatos, pagava sal\u00e1rios (baixos, mas pagava) e impostos: esse podia dizer que mais dinheiro para a burguesia significaria mais investimentos e mais progresso. Hoje n\u00e3o mais. O capitalismo hoje existente n\u00e3o progride, trava. \u00c9 sistemicamente distorcido. O autoritarismo, na falta de legitimidade, tornou-se essencial para manter um sistema cada vez menos funcional.<\/p>\n<p>A deteriora\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os democr\u00e1ticos pelo mundo afora encontra aqui boa parte da sua explica\u00e7\u00e3o. Esse autoritarismo se apoia, em particular, no novo e poderoso quisto de poder que temos subestimado amplamente, a \u201ctropa de choque\u201d dos ultrarricos, os operadores da m\u00e1quina econ\u00f4mica e social: os economistas, advogados, gestores, inform\u00e1ticos que ocupam o topo da hierarquia dos processos decis\u00f3rios e que mant\u00eam o sistema deformado de hoje. S\u00e3o os grandes burocratas que recebem sal\u00e1rios e b\u00f4nus milion\u00e1rios. Thomas Piketty os apresenta como desempenhando um papel central nos desequil\u00edbrios de renda e de patrim\u00f4nio. Mas o essencial \u00e9 o poder que det\u00eam em termos de orienta\u00e7\u00e3o do uso dos nossos recursos nos gigantes corporativos. Controlam os postos-chave, alternam-se entre conselhos administrativos de corpora\u00e7\u00f5es e fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas (a chamada porta girat\u00f3ria,\u00a0<em>revolving\u00a0<\/em><em>door<\/em>) e, na era das novas tecnologias e da gest\u00e3o por algoritmos, apropriam-se de um poder absolutamente impressionante. N\u00e3o se espera flexibilidade dessa nova classe m\u00e9dia superior nem que esses privilegiados hesitem na generaliza\u00e7\u00e3o de sistemas opressivos de controle social. Pensem no poder do jovem executivo da Serasa Experian que pode nos colocar na classe de \u201cnegativados\u201d porque enfrentamos dificuldades financeiras, privando-nos de uma s\u00e9rie de direitos, enquanto os bancos que praticam a agiotagem nem sequer t\u00eam uma institui\u00e7\u00e3o reguladora (ou fict\u00edcia, como os bancos centrais ou o Banco de Compensa\u00e7\u00f5es Internacionais).<\/p>\n<p>Em geral, os nossos estudos t\u00eam se limitado a avaliar os n\u00edveis de renda e a definir, assim, uma classe m\u00e9dia e uma classe m\u00e9dia superior em fun\u00e7\u00e3o dos seus ganhos. Mais importante, no entanto, \u00e9 entender a sua fun\u00e7\u00e3o nas engrenagens do poder, e a for\u00e7a articulada que essa tecnocracia representa, com postos-chave nas corpora\u00e7\u00f5es, nos governos, no judici\u00e1rio, na m\u00eddia, nos\u00a0<em>think tanks\u00a0<\/em>que elaboram \u201cnarrativas\u201d. Constituem hoje um sistema articulado em diversos tipos de organiza\u00e7\u00f5es de classe e se articulam e se sentem unidos pela converg\u00eancia de interesses. A luta de classes mudou de lugar, e a tecnocracia passou a desempenhar, nessa sociedade centrada no imaterial, um papel essencial, plenamente convergente com as grandes fortunas rentistas: s\u00e3o, tamb\u00e9m, grandes interessados nos rendimentos financeiros. A pequena burguesia cuja an\u00e1lise encontramos em Marx, propriet\u00e1rios de meios de produ\u00e7\u00e3o em pequena escala, difere profundamente dessa poderosa m\u00e1quina de poder que hoje representa a tecnocracia, no quadro de uma economia dominantemente centrada no controle da informa\u00e7\u00e3o e dos fluxos financeiros, estes \u00faltimos igualmente constitu\u00eddos por sinais magn\u00e9ticos.<\/p>\n<p>O mundo dominado por corpora\u00e7\u00f5es planet\u00e1rias j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 controlado pela concorr\u00eancia de mercado que, de certa forma, equilibrava o jogo e muito menos pelo sistema pol\u00edtico que deveria assegurar os contrapesos com a chamada regula\u00e7\u00e3o. Temos a trucul\u00eancia do privado sem os freios do p\u00fablico. Vigoroso, planet\u00e1rio, descontrolado, dotado de novas tecnologias que lhe permitem uma extra\u00e7\u00e3o radicalmente ampliada do excedente social, e que lhe asseguram formas muito mais penetrantes de controle da consci\u00eancia, o mundo corporativo flexiona os seus m\u00fasculos e vai direto ao prato principal: a maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros e do poder, agora. \u00c9 alta tecnologia a servi\u00e7o da apropria\u00e7\u00e3o no curto prazo, pouco importando o desastre econ\u00f4mico, social e ambiental.<\/p>\n<p>Ao mundo anestesiado, oferecem-se o conto de fadas do merecimento e da efici\u00eancia e a narrativa de que s\u00e3o os ricos que dinamizam a economia. E, como a indigna\u00e7\u00e3o exige culpados e direcionamento do \u00f3dio, os dramas ser\u00e3o apresentados como culpa do Estado, nada que n\u00e3o se resolva com menos impostos para as corpora\u00e7\u00f5es e com mais privatiza\u00e7\u00f5es. O ir\u00f4nico \u00e9 que, hoje, essas administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas culpabilizadas s\u00e3o precisamente controladas pelas corpora\u00e7\u00f5es. Naturalmente, em \u00faltima inst\u00e2ncia, h\u00e1 o porrete para os que n\u00e3o acreditam em contos.<\/p>\n<p>O animal, claramente, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo. Ca\u00f3tico e desconjuntado na sua metamorfose, mas sem d\u00favida outro animal. Entre fascinados e temerosos, observamos o processo, cuja din\u00e2mica em boa parte ainda nos escapa. A vantagem de se pensar em outro sistema, ou outro modo de produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 que podemos pensar nas novas regras do jogo necess\u00e1rias em vez de nos debatermos para fazer funcionar o mundo no arcabou\u00e7o antigo, com estacas e suportes improvisados, ou de batalharmos pelos direitos adquiridos no sistema anterior. As superestruturas precisam ser repensadas frente \u00e0s profundas transforma\u00e7\u00f5es na base produtiva da sociedade. Podemos sonhar um pouco?<\/p>\n<p>Por exemplo, nesta era da domin\u00e2ncia do rentismo financeiro improdutivo e da acumula\u00e7\u00e3o de gigantescas fortunas especulativas, precisaremos tornar obrigat\u00f3ria a \u201c<em>disclosure<\/em>\u201d, a transpar\u00eancia das contas, e adaptar o sistema tribut\u00e1rio visando reorientar os recursos para atividades produtivas. Acrescentando uma pequena taxa sobre as transa\u00e7\u00f5es financeiras, gerar\u00edamos ao mesmo tempo os recursos para investimentos produtivos e a transpar\u00eancia dos fluxos. Tanto a taxa Tobin sobre transa\u00e7\u00f5es como o imposto sobre o capital financeiro descrito por Piketty apontam caminhos. Estar\u00edamos aqui deslocando o eixo da incid\u00eancia tribut\u00e1ria.<\/p>\n<p>Nesta era em que o principal fator de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 imaterial, pass\u00edvel de dissemina\u00e7\u00e3o para todos sem custos adicionais, o conceito de propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, esteio jur\u00eddico do capitalismo, precisa ser deslocado para a remunera\u00e7\u00e3o de quem cria, mas sem travar o acesso e a reprodu\u00e7\u00e3o por terceiros. Amplos estudos mostram que os sistemas de patentes,\u00a0<em>copyrights\u00a0<\/em>e\u00a0<em>royalties\u00a0<\/em>travam a inova\u00e7\u00e3o mais do que a fomentam. Trata-se aqui de adequar a vis\u00e3o de propriedade \u00e0 produtividade social. Os trabalhos de Lawrence Lessig, Jeremy Rifkin, Don Tapscott e tantos outros tamb\u00e9m apontam os caminhos.<\/p>\n<p>Com a introdu\u00e7\u00e3o acelerada de novas tecnologias que substituem a m\u00e3o de obra, precisamos assegurar as regras de jogo correspondentes, um novo conceito de contrato social, combinando uma progressiva redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho e a redistribui\u00e7\u00e3o mais justa do direito ao emprego\/trabalho, na linha das propostas de Guy Aznar e do que j\u00e1 est\u00e1 sendo aplicado em diversos pa\u00edses. Isso abrir\u00e1 a possibilidade de uma distribui\u00e7\u00e3o mais justa tanto do trabalho como do acesso \u00e0 renda, ao mesmo tempo que assegurar\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para uma nova gera\u00e7\u00e3o de atividades ligadas ao uso discricion\u00e1rio do tempo livre, como em conv\u00edvio familiar e comunit\u00e1rio, de cultura, esporte e semelhantes. Achar que o fato de termos mais tecnologias e, portanto, maior capacidade produtiva nos amea\u00e7a \u00e9 uma bobagem: o que nos amea\u00e7a \u00e9 o atraso em adequar as formas de organiza\u00e7\u00e3o do tempo e da remunera\u00e7\u00e3o. Viver melhor est\u00e1 ao alcance das nossas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Na situa\u00e7\u00e3o explosiva mundial em termos de desigualdade, precisamos articular tanto uma renda b\u00e1sica universal como o acesso \u00e0s pol\u00edticas sociais como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e semelhantes, de maneira a gerenciar as conturba\u00e7\u00f5es e inseguran\u00e7as na presente transi\u00e7\u00e3o entre a era fabril e a da sociedade do conhecimento. No Brasil, 40% da popula\u00e7\u00e3o ativa est\u00e1 no setor informal, \u201cse virando\u201d para sobreviver, cifra que atinge quase 50% na m\u00e9dia latino-americana e at\u00e9 70% na \u00c1frica. Esperar que as pessoas continuem aguardando o emprego n\u00e3o \u00e9 realista. Pessoas desesperadas reagem com desespero. Trata-se de bom senso, de evitar as explos\u00f5es sociais que se agravam. Em termos econ\u00f4micos, a constata\u00e7\u00e3o simples \u00e9 que o custo de se assegurar o b\u00e1sico para todos sai muito mais barato do que arcar com as consequ\u00eancias. Vamos construir mais muros nas fronteiras? O mundo tem hoje recursos amplamente suficientes para assegurar o m\u00ednimo para a sobreviv\u00eancia digna para todos. A riqueza dos bilion\u00e1rios denota esperteza, mas n\u00e3o intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Na era em que a economia \u00e9 em grande parte mundial, n\u00e3o podemos mais nos administrar, como sociedades, por meio de uma colcha de retalhos de Constitui\u00e7\u00f5es diferentes em 193 pa\u00edses-membros da ONU enquanto as grandes decis\u00f5es pertencem a gigantes corporativos que n\u00e3o obedecem a Constitui\u00e7\u00e3o nenhuma. As regras b\u00e1sicas de rela\u00e7\u00f5es internacionais precisam ser reconstitu\u00eddas, pois somos o planeta Terra, n\u00e3o temos outro, e precisamos assegurar um m\u00ednimo de coer\u00eancia global. No mundo globalizado, a aus\u00eancia ou fragilidade de regras globais, mal compensadas por iniciativas como a Agenda 2030, significa a nossa destrui\u00e7\u00e3o em prazos que atingir\u00e3o em cheio os nossos filhos. O impacto destrutivo das corpora\u00e7\u00f5es globais se d\u00e1 justamente nesse vazio de governan\u00e7a mundial. At\u00e9 quando assistiremos passivamente \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o do nosso futuro? A burrice dos conselhos de administra\u00e7\u00e3o das grandes corpora\u00e7\u00f5es \u00e9 que cada membro tem a ganhar com a maximiza\u00e7\u00e3o dos resultados a curto prazo, e os seus assessores t\u00e9cnicos, com os b\u00f4nus correspondentes. Da soma dos ego\u00edsmos n\u00e3o surge o altru\u00edsmo, nem mesmo uma decis\u00e3o respons\u00e1vel. Todos os grandes bancos contribu\u00edram para a crise de 2008. N\u00e3o entendem de finan\u00e7as?<\/p>\n<p>Em particular, considerando o abismo de desigualdade entre pa\u00edses ricos e pa\u00edses pobres, torna-se hoje premente assegurar um novo pacto Norte-Sul, na linha do\u00a0<em>global new deal\u00a0<\/em>proposto pela Unctad e sistematizado em diversos documentos, inclusive o t\u00e3o prenunciador Relat\u00f3rio Brandt,\u00a0<em>North-South: a Program for Survival<\/em>. Em vez de se protegerem com muros e cercas eletrificadas nas fronteiras para excluir os pobres, os ricos deste mundo devem aplicar o b\u00e1sico em termos de racioc\u00ednio econ\u00f4mico: as necessidades dos pa\u00edses mais pobres constituem um imenso horizonte de expans\u00e3o de investimentos, de novos mercados e m\u00e3o de obra subutilizada. Uma vez mais, a pol\u00edtica de investimentos destinados aos pa\u00edses mais pobres n\u00e3o deve ser vista pelos mais ricos como um dreno de sua riqueza, e sim como uma oportunidade para que saiam da sua estagna\u00e7\u00e3o. A taxa\u00e7\u00e3o sobre as transa\u00e7\u00f5es financeiras e o imposto sobre o patrim\u00f4nio financeiro poder\u00e3o servir ao cofinanciamento de uma iniciativa desse porte. E, evidentemente, n\u00e3o haver\u00e1 solu\u00e7\u00e3o sem que se mobilizem os mais de 20 trilh\u00f5es de d\u00f3lares de recursos especulativos em para\u00edsos fiscais. O Reino Unido deu t\u00edmidos primeiros passos ao exigir, nos territ\u00f3rios\u00a0<em>offshore\u00a0<\/em>de sua responsabilidade, que pelo menos se informe a quem pertencem os capitais. Estamos nesse n\u00edvel de timidez.<\/p>\n<p>O mundo avan\u00e7a rapidamente para uma urbaniza\u00e7\u00e3o generalizada. Isso abre um imenso espa\u00e7o para a apropria\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de desenvolvimento pelas pr\u00f3prias comunidades, cidade por cidade, pois cada uma sabe melhor do que um ministro o que \u00e9 mais necess\u00e1rio e poder\u00e1 acompanhar melhor a aplica\u00e7\u00e3o produtiva dos recursos. Na era em que os principais eixos estruturantes da economia j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o a ind\u00fastria e a agricultura, mas sa\u00fade, esporte, educa\u00e7\u00e3o, cultura, informa\u00e7\u00e3o, lazer seguran\u00e7a e semelhantes \u2013 as pol\u00edticas sociais \u2013, a sua apropria\u00e7\u00e3o pelas corpora\u00e7\u00f5es, gerando custos excessivos e desigualdade de acesso, tem de ser substitu\u00edda pelo acesso universal e gratuito, com gest\u00e3o no n\u00edvel onde vivem as pessoas, nas cidades, no quadro de pol\u00edticas descentralizadas e participativas. Como vimos, isso reduz, e n\u00e3o aumenta, os custos. N\u00e3o \u00e9 com\u00a0<em>vouchers \u00e0 la\u00a0<\/em>Ronald Reagan que se democratiza o acesso, e sim por meio de pol\u00edticas locais de desenvolvimento, no quadro do empoderamento efetivo das comunidades. Os exemplos dos pa\u00edses n\u00f3rdicos (ver\u00a0<em>Viking Economics<\/em>, de George Lakey), da China (<em>China\u2019s Economy<\/em>, de Arthur Kroeber), da Alemanha (ver o sistema de\u00a0<em>Sparkassen<\/em>) e outras experi\u00eancias que encontramos em\u00a0<em>The Public Bank Solution<\/em>, de Ellen Brown, mostram o imenso potencial racionalizador de gest\u00e3o que a descentraliza\u00e7\u00e3o do poder de decis\u00e3o e dos recursos correspondentes permite.<\/p>\n<p>Na era em que o essencial das nossas atividades est\u00e1 centrado no intang\u00edvel, nos sinais magn\u00e9ticos dos nossos computadores ou celulares, precisamos rever o conceito de privacidade existente nas Constitui\u00e7\u00f5es. Hoje, \u00e9 ilegal abrir a correspond\u00eancia privada de uma pessoa, mas a devassa completa das nossas mensagens, fotos ou curiosidades \u00e9 generalizada e utilizada para eleger pol\u00edticos surrealistas, buscar vantagens comerciais, quando n\u00e3o para\u00a0<em>bullying<\/em>e persegui\u00e7\u00f5es dos mais diversos tipos. Nas novas regras do jogo, o direito \u00e0 privacidade precisa desempenhar um papel central. Hoje, a nossa vida est\u00e1 escancarada, enquanto as atividades das pessoas jur\u00eddicas, das corpora\u00e7\u00f5es, est\u00e3o protegidas. As atividades empresariais precisam, pelo contr\u00e1rio, ser transparentes, pelo impacto social que geram e pelo pr\u00f3prio fato de serem pessoas jur\u00eddicas, enquanto a vida privada de pessoas f\u00edsicas precisa ser protegida.<\/p>\n<p>\u00c9 vi\u00e1vel avan\u00e7armos com propostas nesse sentido? Tudo depende, naturalmente, de rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a. Mas estas dependem, em grande parte, da conscientiza\u00e7\u00e3o, da compreens\u00e3o, por parte de camadas mais amplas da popula\u00e7\u00e3o, de como est\u00e3o sendo exploradas, de maneira n\u00e3o s\u00f3 injusta mas burra, pelo travamento sist\u00eamico e pela esteriliza\u00e7\u00e3o das imensas oportunidades que se abrem com os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e a sociedade do conhecimento. N\u00e3o \u00e9 sonho. Nunca subestimemos o poder das ideias. \u00c9 o que tem transformado o mundo.<\/p>\n<h4><strong>VII. ONTEM E HOJE: SISTEMATIZA\u00c7\u00c3O DAS MUDAN\u00c7AS<\/strong><\/h4>\n<p>Para facilitar a vis\u00e3o de conjunto, montamos uma tabela de mudan\u00e7as, um tipo de \u201cantes e depois\u201d que anda na moda, mas que aqui pode ajudar a apreciar a amplitude do leque de transforma\u00e7\u00f5es. Comentaremos em um par\u00e1grafo cada eixo de mudan\u00e7a, cuja articula\u00e7\u00e3o, na hip\u00f3tese que adotamos, gera uma nova configura\u00e7\u00e3o. Os argumentos s\u00e3o, sem d\u00favida, repetitivos em rela\u00e7\u00e3o aos cap\u00edtulos anteriores, mas o objetivo aqui \u00e9 justamente facilitar a vis\u00e3o de conjunto.<\/p>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/%C3%ADndice-8.jpg?w=640&#038;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 522px) 100vw, 522px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/%C3%ADndice-8.jpg 522w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/%C3%ADndice-8-273x300.jpg 273w\" alt=\"\" \/><\/figure>\n<ol>\n<li><strong>Da m\u00e1quina ao conhecimento<\/strong>: trata-se da transforma\u00e7\u00e3o mais profunda, na medida em que ter\u00e1 impacto sobre as outras. O poder, no sentido mais amplo de constituir a din\u00e2mica principal de organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social, deslocou-se de quem controlava a terra, na era feudal, para quem controlava as m\u00e1quinas, na era do capitalismo industrial, para quem controla o conhecimento e os sistemas de informa\u00e7\u00e3o correspondentes, hoje, inclusive os sinais magn\u00e9ticos que constituem o dinheiro moderno.<\/li>\n<li><strong>Da f\u00e1brica \u00e0 plataforma digital<\/strong>: continuamos a ter a General Motors e outras f\u00e1bricas, mas o operariado num pa\u00eds industrial como os Estados Unidos representa hoje menos de 10% da m\u00e3o de obra. Os mais variados sistemas de gest\u00e3o de sinais magn\u00e9ticos (seja o que se representa hoje como Gafam, no Ocidente, seja o BATX, na China) ou o conjunto dos sistemas financeiros (como Wall Street, City ou os bancos sistemicamente importantes), esse conjunto de manejadores de teclas n\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o das cadeias produtivas, pelo contr\u00e1rio, as controla e explora. De certa forma, o castelo representava o poder feudal, a f\u00e1brica era a for\u00e7a do capitalismo, a plataforma digital constitui a nova din\u00e2mica econ\u00f4mica.<\/li>\n<li><strong>Do tang\u00edvel ao intang\u00edvel<\/strong>: enquanto a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o de bens materiais \u00e9 cada vez mais densa em tecnologia, o conjunto do processo, o financiamento, a comercializa\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o, al\u00e9m dos controles e da gest\u00e3o, passam a ser essencialmente intang\u00edveis. O intang\u00edvel, por sua vez, pelo fato de poder utilizar sinais magn\u00e9ticos,\u00a0<em>softwares<\/em>, algoritmos e intelig\u00eancia artificial, passa a se reger por outra l\u00f3gica econ\u00f4mica, torna-se reprodu-z\u00edvel e comunic\u00e1vel de maneira ilimitada. Andr\u00e9 Gorz utiliza o conceito \u201cimaterial\u201d.<\/li>\n<li><strong>Do custo proporcional ao custo marginal zero<\/strong>: produzir mais unidades de roupa exige mais mat\u00e9ria-prima, com aumento proporcional ao volume produzido. Na excelente formula\u00e7\u00e3o de Jeremy Rifkin, estamos entrando na era do\u00a0<em>custo marginal zero<\/em>: uma vez coberto o custo inicial de uma pesquisa, a sua re- produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o n\u00e3o exige mais aportes. O livro online, uma ideia ou uma m\u00fasica podem ser disseminados sem custos adicionais, o que hoje gera ampla confus\u00e3o entre o conceito de propriedade privada do s\u00e9culo passado e as formas modernas de apropria\u00e7\u00e3o de bens n\u00e3o rivais. Mais pessoas lerem o meu livro online n\u00e3o gera nenhum custo adicional para mim.<\/li>\n<li><strong>Do aumento da produ\u00e7\u00e3o \u00e0 restri\u00e7\u00e3o do acesso<\/strong>: Henry Ford entendia perfeitamente que o aumento dos seus lucros dependia do aumento da escala de produ\u00e7\u00e3o, ao reduzir o custo unit\u00e1rio (economias de escala) e ao atingir mais clientes. Eu utilizar o Word da Microsoft n\u00e3o gera nenhum custo adicional \u00e0 empresa, mas o livre acesso ao programa \u00e9 restrito por leis, pois a dificuldade do acesso \u00e9 que obriga as pessoas a pagarem. \u00c9 um monop\u00f3lio de demanda, pois sou obrigado a usar o que os outros usam, n\u00e3o h\u00e1 concorr\u00eancia vi\u00e1vel. Isso envolve a tecnologia e as ideias de forma geral, levando \u00e0 expans\u00e3o absurda de patentes,\u00a0<em>copyrights<\/em>,\u00a0<em>royaltie s<\/em>e outras formas de ganhar sem novos esfor\u00e7os: mais dinheiro sem mais trabalho. Isso se aplica tamb\u00e9m aos bens comuns como \u00e1gua em regi\u00f5es de escassez, praias ou parques privatizados. O ar ou a \u00e1gua t\u00eam um imenso valor de uso, mas a maneira de aumentar o valor de troca \u00e9 dificultar o acesso.<\/li>\n<li><strong>Da compra ao direito de acesso<\/strong>: no cotidiano, uma parte crescente da nossa renda \u00e9 consumida n\u00e3o pela compra de um produto, que se torna nosso e encerra a transa\u00e7\u00e3o comercial, mas pelo direito a ter uma programa\u00e7\u00e3o minimamente decente na TV, acesso ao servi\u00e7o de sa\u00fade, a uma conex\u00e3o de internet, \u00e0 telefonia m\u00f3vel, a sistemas complementares de seguran\u00e7a e assim por diante. Como consumidores, ficamos amarrados a um \u201cplano\u201d, inclusive com exig\u00eancias de fidelidade e multas se exercemos o nosso direito de preferir um concorrente. Mas aqui se abre igualmente um leque de oportunidades: em vez da posse de um carro, por exemplo, posso preferir o acesso ao uso, como no caso dos carros p\u00fablicos em Paris. Sai mais barato para todos. No Brasil, mal chegamos \u00e0 bicicleta.<\/li>\n<li><strong>Da venda de produtos ao fornecimento de suporte<\/strong>: Eric Raymond, em\u00a0<em>The Cathedral and the Bazaar\u00a0<\/em>[A catedral e o bazar], marca bem este ponto: os processos ligados ao conhecimento s\u00e3o processos interativos. A pr\u00f3pria compra de um\u00a0<em>software\u00a0<\/em>\u00e9 o de menos. O processo de apoio, manuten\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os e atualiza\u00e7\u00e3o \u00e9 que constitui o essencial. \u201cSe (como \u00e9 geralmente aceito) mais de 75% dos custos do ciclo de vida de um projeto t\u00edpico de software est\u00e1 na manuten\u00e7\u00e3o, na depura\u00e7\u00e3o e nas extens\u00f5es, ent\u00e3o a pol\u00edtica geral de se cobrar um pre\u00e7o de compra elevado e taxas de suporte relativamente baixas ou zeradas dever\u00e1 levar a resultados que servem mal a todas as partes\u201d<sup><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=98&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-civilizatoria%2Fdowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois%2F#sdendnote1sym\">1<\/a><\/sup>. A l\u00f3gica da comercializa\u00e7\u00e3o muda: compramos um produto barato, mas o que nos vendem \u00e9 a necessidade de recorrer, no longo prazo, aos servi\u00e7os propriet\u00e1rios de apoio. J\u00e1 comprou um cilindro novo para a sua impressora?<\/li>\n<li><strong>Do\u00a0<\/strong><em><strong>marketing\u00a0<\/strong><\/em><strong>informativo \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o individualizada<\/strong>: a invas\u00e3o da privacidade, muito al\u00e9m de fomentar o consumo, transformou-se em instrumento de manipula\u00e7\u00e3o diferenciada e individualizada, na medida em que as corpora\u00e7\u00f5es e os governos passam a ter informa\u00e7\u00f5es detalhadas sobre as nossas leituras, interesses pol\u00edticos, estado de sa\u00fade, propens\u00e3o a doen\u00e7as, \u00e1reas de interesse e outros pormenores cuja import\u00e2ncia descobrimos apenas quando um\u00a0<em>e-mail\u00a0<\/em>antigo nos prejudica ao buscarmos um emprego, quando uma comunica\u00e7\u00e3o pessoal nos impede de recebermos um visto, quando um seguro de vida se apresenta mais caro pelas informa\u00e7\u00f5es que constam em nosso DNA e assim por diante. Trata-se, rigorosamente, de um mundo novo. O\u00a0<em>chip\u00a0<\/em>no pesco\u00e7o ou subcut\u00e2neo j\u00e1 \u00e9 uma realidade, apesar de ainda levantar protestos. \u00c9 tudo para o nosso bem, naturalmente, mas um bem definido por outros. Na realidade, com controle individualizado de pessoas e de comportamentos at\u00e9 os n\u00edveis mais \u00edntimos, as rela\u00e7\u00f5es de poder mudam radicalmente no planeta. \u201c<em>Big Brother is watching you<\/em>\u201d, desta vez de verdade.<\/li>\n<li><strong>Do nacional ao global<\/strong>: o sistema econ\u00f4mico, em particular na sua dimens\u00e3o financeira e nos setores imateriais (comunica\u00e7\u00e3o, informa\u00e7\u00e3o etc.), passa a funcionar no espa\u00e7o global, dando origem a frases como \u201c<em>space is dead<\/em>\u201d ou a livros como\u00a0<em>The World is Flat<\/em>. O livro que procuro na Amazon pode estar em qualquer parte do mundo, a consulta de uma informa\u00e7\u00e3o pode encontrar resposta em qualquer documento, em qualquer l\u00edngua, em qualquer institui\u00e7\u00e3o. Mas o sistema de regula\u00e7\u00e3o \u2013 as leis que buscam coibir a agiotagem, a evas\u00e3o fiscal, os antibi\u00f3ticos nos nossos alimentos e semelhantes \u2013 varia segundo os 193 pa\u00edses-membros da ONU. Ou seja, a economia se rege em grande parte em espa\u00e7os onde as leis n\u00e3o a atingem. A perda de governan\u00e7a, da capacidade de implementar pol\u00edticas no n\u00edvel dos governos, tende a se generalizar, e as pessoas come\u00e7am a se perguntar qual o sentido do voto. H\u00e1 uma economia global, mas n\u00e3o h\u00e1 governo global.<\/li>\n<li><strong>Da troca desigual tradicional \u00e0 depend\u00eancia tecnol\u00f3gica<\/strong>: estamos acostumados a ver os pa\u00edses dominantes nos fornecerem produtos acabados e m\u00e1quinas em troca de mat\u00e9ria-prima. Isso continua, em grande parte, mas o n\u00edvel se deslocou. Hoje, os pr\u00f3prios processos produtivos podem ser transferidos para pa\u00edses de m\u00e3o de obra mais barata, por\u00e9m o acesso \u00e0s tecnologias, ao uso da marca e semelhantes produtos imateriais s\u00e3o restritos. O esc\u00e2ndalo mundial do travamento do direito de produzir de forma aut\u00f4noma medicamentos, por exemplo, gera imenso sofrimento e mortes. Ha-Joon Chang, em\u00a0<em>Chutando a escada<\/em>, mostra como pa\u00edses que sempre copiaram tudo at\u00e9 se tornarem dominantes hoje atacam qualquer flexibiliza\u00e7\u00e3o de acesso. In\u00fameros autores e institui\u00e7\u00f5es se insurgem contra esse novo ciclo de depend\u00eancia que aprofunda as desigualdades. A amplia\u00e7\u00e3o da abrang\u00eancia de patentes e\u00a0<em>copyrights\u00a0<\/em>constitui, na realidade, uma nova forma de protecionismo, adaptada \u00e0 economia do conhecimento, como o s\u00e3o as tarifas aduaneiras sobre bens f\u00edsicos, t\u00e3o denunciadas pelos adeptos da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li><strong>Do liberalismo global ao novo protecionismo<\/strong>: em termos econ\u00f4micos, na era da informa\u00e7\u00e3o, os custos de transa\u00e7\u00e3o dos sistemas propriet\u00e1rios s\u00e3o geralmente mais elevados \u2013 tempo, dinheiro, trapalhadas burocr\u00e1ticas, perda de potencial colaborativo, esteriliza\u00e7\u00e3o do efeito rede \u2013 do que os proveitos. O lucro dos grupos que controlam o acesso ao conhecimento e \u00e0 cultura, ainda que grande, \u00e9 muito pequeno em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s perdas (ou lucros cessantes, como s\u00e3o chamados) que resultam do travamento dos processos criativos e do uso de inova\u00e7\u00f5es no planeta. E, frente aos dramas que hoje exigem democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento para reduzir a desigualdade, generaliza\u00e7\u00e3o das tecnologias limpas para reduzir o impacto clim\u00e1tico, autoriza\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o descentralizada de medicamentos para enfrentar trag\u00e9dias que envolvem dezenas de milh\u00f5es de pessoas e outras tens\u00f5es, colocar ped\u00e1gios em tudo para maximizar os lucros tornou-se irrespons\u00e1vel. O livre acesso \u00e9 economicamente mais vi\u00e1vel e produtivo, resultar\u00e1 em mais, e n\u00e3o em menos, atividades criativas. O mundo desenvolvido, que controla 97% das inova\u00e7\u00f5es, segundo Chang, trava a sa\u00edda das tecnologias de que tanto precisamos e constr\u00f3i muros para se proteger da pobreza que gera.<\/li>\n<li><strong>Da remunera\u00e7\u00e3o salarial \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o por tarefas<\/strong>: a contribui\u00e7\u00e3o criativa com ideias inovadoras n\u00e3o vai depender do tempo que passamos sentados no escrit\u00f3rio. Gorz cita um relat\u00f3- rio do diretor de recursos humanos da DaimlerChrysler: a contribui\u00e7\u00e3o dos \u201ccolaboradores\u201d, como os chama gentilmente o diretor, \u201cn\u00e3o ser\u00e1 calculada pelo n\u00famero de horas de presen\u00e7a, mas sobre a base dos objetivos atingidos e da qualidade dos resultados. Eles s\u00e3o empreendedores\u201d<sup><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=98&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-civilizatoria%2Fdowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois%2F#sdendnote2sym\">2<\/a><\/sup>. Recorrer a um trabalhador apenas quan-do dele se precisa em fun\u00e7\u00e3o de tarefas espec\u00edficas abre as portas para a terceiriza\u00e7\u00e3o e para um conjunto de plataformas informais de contrata\u00e7\u00e3o. Os impactos no n\u00edvel de remunera\u00e7\u00e3o e na organiza\u00e7\u00e3o sindical s\u00e3o bastante evidentes. Trata-se de mudan\u00e7as estruturais que afetam o conjunto das rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/li>\n<li><strong>Da expans\u00e3o do emprego \u00e0 elitiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>: a expans\u00e3o das atividades industriais propiciou uma amplia\u00e7\u00e3o dos empregos direto e indireto pelo mundo afora. Novas empresas significavam mais empregos. O processo se mant\u00e9m, sem d\u00favida, mas crescentemente as novas empresas passaram a significar uma redu\u00e7\u00e3o do emprego. As Na\u00e7\u00f5es Unidas cunharam a express\u00e3o\u00a0<em>jobless growth<\/em>, crescimento sem emprego. Houve muitas previs\u00f5es catastrofistas, mas a realidade \u00e9 que atingimos, sim, um limiar em que o ritmo de surgimento de novas atividades j\u00e1 n\u00e3o compensa os empregos perdidos. Em particular, o emprego mais sofisticado em termos tecnol\u00f3gicos se expande, mas se reduz o emprego que m\u00e1quinas ou algoritmos podem substituir, aprofundando o fosso entre \u201cprofiss\u00f5es\u201d e simples m\u00e3o de obra. A marginaliza\u00e7\u00e3o atinge em particular o mundo em desenvolvimento, onde a din\u00e2mica se disfar\u00e7a como \u201csetor informal\u201d, com \u201caut\u00f4nomos\u201d e \u201cautoempres\u00e1rios\u201d, mas na realidade representa uma perda generalizada dos meios de se ganhar a vida. A constru\u00e7\u00e3o de muros e o p\u00e2nico dos ricos em rela\u00e7\u00e3o aos imigrantes s\u00e3o pat\u00e9ticos, mas pertencem \u00e0 mesma realidade da viol\u00eancia exercida contra os pobres nas periferias brasileiras.<\/li>\n<li><strong>Da explora\u00e7\u00e3o salarial \u00e0 armadilha da d\u00edvida<\/strong>: a capacidade de compra dos trabalhadores depende, evidentemente, da pol\u00edtica salarial, e a explora\u00e7\u00e3o tradicional se d\u00e1 por baixos sal\u00e1rios, originando a mais-valia. Hoje, no entanto, o endividamento de pessoas f\u00edsicas, de empresas e de Estados gerou uma forma radicalmente mais poderosa de explora\u00e7\u00e3o. No Brasil, os juros pagos anualmente pelas fam\u00edlias e, em particular, pela pequena e m\u00e9dia empresa representam cerca de 15% do PIB, enquanto a parte dos nossos impostos transferida para intermedi\u00e1rios financeiros pelo servi\u00e7o da d\u00edvida p\u00fablica representa cerca de 6% a 8%, conforme o ano. S\u00e3o mais de 20% do PIB servindo de mecanismo de explora\u00e7\u00e3o. Quando uma pessoa paga 100% de juros no credi\u00e1rio, tem a sua capacidade de compra reduzida \u00e0 metade, e a sua necessidade de pagar a prazo ser\u00e1 transformada em mecanismo de extors\u00e3o. Tais mecanismos s\u00e3o amplamente descritos no meu livro\u00a0<em>A era do capital improdutivo<\/em>, inclusive com v\u00eddeos did\u00e1ticos dispon\u00edveis em dowbor.org. O processo se tornou mundial, apenas mais grotesco no Brasil.<\/li>\n<li><strong>Das finan\u00e7as de fomento \u00e0s finan\u00e7as especulativas<\/strong>: no Brasil, os bancos insistem em chamar tudo de \u201cinvestimentos\u201d, quer se construa uma escola, quer se fa\u00e7a uma aplica\u00e7\u00e3o finan- ceira. Posso enriquecer com aplica\u00e7\u00f5es que rendem, mas ser\u00e1 um enriquecimento de transfer\u00eancia, eu n\u00e3o produzi nada, uma parcela da riqueza produzida pela sociedade apenas mudou de m\u00e3os. Nesta era da financeiriza\u00e7\u00e3o, os pap\u00e9is renderam entre 7% e 9% nas \u00faltimas d\u00e9cadas, enquanto a produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, o PIB mundial, cresceu apenas entre 2% e 2,5% ao ano. A massa da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem recursos financeiros para aplicar, mas os ricos aplicam muito, e ganham com juros e dividendos elevados sem precisar investir na produ\u00e7\u00e3o. O mecanismo especulativo tornou-se a principal forma de acumula\u00e7\u00e3o de riqueza, o capital produtivo se transforma em patrim\u00f4nio improdutivo. Quanto mais se aplica mais se ganha, o que gera o atual desastre de 1% das fam\u00edlias mais ricas disporem de mais riqueza do que os 99% seguintes. \u00c9 uma transforma\u00e7\u00e3o radical das formas de explora\u00e7\u00e3o, que explica tanto o aumento da desigualdade como o fr\u00e1gil crescimento econ\u00f4mico, apesar de tantos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, ou ainda a ex- pans\u00e3o econ\u00f4mica da China, onde o sistema financeiro \u00e9 controlado e orientado para investimentos produtivos.<\/li>\n<li><strong>De lucros a dividendos<\/strong>: a expans\u00e3o das aplica\u00e7\u00f5es financeiras relativamente ao investimento produtivo desloca a apropria\u00e7\u00e3o do excedente social de \u201clucros\u201d para \u201cdividendos\u201d, estes \u00faltimos resultantes de diversos processos especulativos. Nas pr\u00f3prias corpora\u00e7\u00f5es que efetivamente produzem bens e servi\u00e7os, gera-se no topo uma solidariedade entre os executivos \u2013 que, hoje, recebem uma remunera\u00e7\u00e3o na faixa de 300 vezes o que ganha o trabalhador na base \u2013 e os acionistas que os nomeiam. O resultado \u00e9 uma estagna\u00e7\u00e3o da remunera\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e um refor\u00e7o da explora\u00e7\u00e3o. Os executivos das empresas s\u00e3o, inclusive, remunerados em grande parte com a\u00e7\u00f5es da corpora\u00e7\u00e3o, o que amplia a solidariedade com os acionistas externos. N\u00e3o \u00e9 mais o capitalista que dirige a corpora\u00e7\u00e3o, e sim o executivo que depende dos controladores financeiros, \u201cpropriet\u00e1rios ausentes\u201d (<em>absentee owners<\/em>) na formula\u00e7\u00e3o de Marjorie Kelly. No Brasil, os dividendos distribu\u00eddos n\u00e3o est\u00e3o sujeitos \u00e0 tributa\u00e7\u00e3o sobre a renda, ainda que sejam milion\u00e1rios. No sistema de explora\u00e7\u00e3o, acrescentou-se um degrau.<\/li>\n<li><strong>Do governo para a cidadania ao governo para as corpora\u00e7\u00f5es<\/strong>: a rela\u00e7\u00e3o de poder mudou, no sentido de qualquer governo eleito precisar responder mais \u00e0s exig\u00eancias dos chamados mercados do que aos compromissos com a cidadania. Como vimos, Wolfgang Streeck sistematiza de forma clara o dilema entre Estado para a popula\u00e7\u00e3o ou Estado para o mercado: a fase do capitalismo democr\u00e1tico est\u00e1 desaparecendo. A composi\u00e7\u00e3o de um governo como o de Donald Trump, com redu\u00e7\u00e3o de impostos sobre as corpora\u00e7\u00f5es, entrave \u00e0s pol\u00edticas ambientais e sociais e executivos do Goldman Sachs na dire\u00e7\u00e3o da equipe econ\u00f4mica ilustra o deslocamento do poder e a profundidade das transforma\u00e7\u00f5es. A presen\u00e7a de banqueiros na dire\u00e7\u00e3o do Banco Central e do Minist\u00e9rio da Economia, no Brasil, reflete a mesma tend\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 mais a era do\u00a0<em>lobby<\/em>, e sim do exerc\u00edcio direto do poder. As elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018 apenas agravaram a deforma\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Esse conjunto de transforma\u00e7\u00f5es gera um sistema com outra l\u00f3gica. Outra base produtiva, outras formas de comercializa\u00e7\u00e3o, outras din\u00e2micas de remunera\u00e7\u00e3o e de explora\u00e7\u00e3o, outras bases de poder e de controle das popula\u00e7\u00f5es. Em particular, n\u00e3o se trata mais de liberdade de concorr\u00eancia no mercado, com a tradicional m\u00e3o invis\u00edvel, e sim de um sistema baseado no poder articulado das corpora\u00e7\u00f5es, regido pela m\u00e3o pesada dos grupos financeiros e apropriando-se do pr\u00f3prio Estado e da nossa vida. \u00c9 tempo de revermos as nossas refer\u00eancias.<\/p>\n<p>O interesse que temos em pensar mais o futuro que se forma do que o passado que se deforma \u00e9 que nos facilita entender as dimens\u00f5es sist\u00eamicas de um novo modo de produ\u00e7\u00e3o centrado na financeiriza\u00e7\u00e3o, na informa\u00e7\u00e3o, no conhecimento, na conectividade, no conjunto do que se tem chamado de intang\u00edvel ou imaterial. Tal como houve uma era baseada no trabalho da terra e outra na atividade industrial, hoje surge com rapidez uma nova era, baseada em outras l\u00f3gicas. Essa era tanto pode ser mais opressiva e exploradora como aberta e libertadora. Limitar a nossa a\u00e7\u00e3o a tentar resistir \u00e0s deforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o basta, precisamos orientar as nossas pesquisas para as l\u00f3gicas e os potenciais do futuro.<\/p>\n<p>O denominador comum que buscamos \u00e9 a libera\u00e7\u00e3o dos potenciais positivos da era do conhecimento, com acesso democr\u00e1tico e aberto ao conhecimento, desintermedia\u00e7\u00e3o dos sistemas financeiros e direcionamento das novas capacidades para o enfrentamento das duas cat\u00e1strofes que se aprofundam na nossa civiliza\u00e7\u00e3o: a destrui\u00e7\u00e3o ambiental e a desigualdade explosiva. Temos os meios e os fins, falta construir as pol\u00edticas. Olhando o que acontece no nosso planeta neste in\u00edcio de mil\u00eanio, a tend\u00eancia \u00e9 achar que estamos entrando na era do conhecimento com a tecnologia do\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>e a pol\u00edtica dos primatas. O desafio n\u00e3o \u00e9 econ\u00f4mico, \u00e9 civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=98&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-civilizatoria%2Fdowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois%2F#sdendnote1anc\">1<\/a><em>Eric<\/em><em>S.<\/em><em>Raymond,<\/em>The Cathedral and the Bazaar: Musings on Linux and Open Source by an Accidental Revolutionary<em>,<\/em><em>Sebastopol:<\/em><em>O\u2019Reilly,<\/em><em>1999,<\/em><em>p.<\/em><em>120.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=98&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-civilizatoria%2Fdowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois%2F#sdendnote2anc\">2<\/a><em>Andr\u00e9<\/em><em>Gorz,<\/em>O imaterial: conhecimento, valor e capital<em>,<\/em><em>trad.<\/em><em>Celso<\/em><em>Azzan<\/em><em>Jr.<\/em><em>e<\/em><em>Celso<\/em><em>Cruz,<\/em><em>S\u00e3o\u00a0<\/em><em>Paulo:<\/em><em>Annablume,<\/em><em>2005,<\/em><em>p.<\/em><em>17.<\/em><\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ladislau Dowbor &#8211; A PERDA DO CONTROLE:UMA SOCIEDADE EM BUSCA DE NOVOS RUMOS A realidade \u00e9 que tudo se acelerou de maneira dram\u00e1tica. O tempo social funciona em ritmos diferentes para as tecnologias, que avan\u00e7am de uma maneira que nos atropela; para a cultura, que evolui de maneira muito mais lenta; e para as leis, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4434,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[5],"tags":[57],"class_list":["post-14779","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","tag-capitalismo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Dowbor: o fim do capitalismo e o que vir\u00e1 depois - Controversia<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Dowbor: o fim do capitalismo e o que vir\u00e1 depois - Controversia\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Ladislau Dowbor &#8211; A PERDA DO CONTROLE:UMA SOCIEDADE EM BUSCA DE NOVOS RUMOS A realidade \u00e9 que tudo se acelerou de maneira dram\u00e1tica. O tempo social funciona em ritmos diferentes para as tecnologias, que avan\u00e7am de uma maneira que nos atropela; para a cultura, que evolui de maneira muito mais lenta; e para as leis, [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Controversia\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2021-01-31T17:55:49+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Ladislau-Dowbor.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"650\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"350\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Ricardo Alvarez\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:creator\" content=\"@https:\/\/twitter.com\/contro_versia\" \/>\n<meta name=\"twitter:site\" content=\"@contro_versia\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Ricardo Alvarez\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Tempo estimado de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"31 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"Ricardo Alvarez\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"headline\":\"Dowbor: o fim do capitalismo e o que vir\u00e1 depois\",\"datePublished\":\"2021-01-31T17:55:49+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/\"},\"wordCount\":7707,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2017\\\/07\\\/Ladislau-Dowbor.jpg?fit=650%2C350&ssl=1\",\"keywords\":[\"Capitalismo\"],\"articleSection\":[\"Economia\"],\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/\",\"name\":\"Dowbor: o fim do capitalismo e o que vir\u00e1 depois - Controversia\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/#primaryimage\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2017\\\/07\\\/Ladislau-Dowbor.jpg?fit=650%2C350&ssl=1\",\"datePublished\":\"2021-01-31T17:55:49+00:00\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/\"]}]},{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/#primaryimage\",\"url\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2017\\\/07\\\/Ladislau-Dowbor.jpg?fit=650%2C350&ssl=1\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2017\\\/07\\\/Ladislau-Dowbor.jpg?fit=650%2C350&ssl=1\",\"width\":650,\"height\":350},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2021\\\/01\\\/31\\\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\\\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Dowbor: o fim do capitalismo e o que vir\u00e1 depois\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/\",\"name\":\"Controversia\",\"description\":\"Um site de leitura e debate\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-PT\"},{\"@type\":[\"Person\",\"Organization\"],\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\",\"name\":\"Ricardo Alvarez\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"width\":1015,\"height\":1024,\"caption\":\"Ricardo Alvarez\"},\"logo\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\"},\"description\":\"Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controv\u00e9rsia e escreve semanalmente.\",\"sameAs\":[\"http:\\\/\\\/controversia.com.br\",\"https:\\\/\\\/www.facebook.com\\\/Controversiascontemporaneas\\\/\",\"https:\\\/\\\/www.linkedin.com\\\/in\\\/controversia\\\/\",\"https:\\\/\\\/x.com\\\/https:\\\/\\\/twitter.com\\\/contro_versia\"]}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Dowbor: o fim do capitalismo e o que vir\u00e1 depois - Controversia","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/","og_locale":"pt_PT","og_type":"article","og_title":"Dowbor: o fim do capitalismo e o que vir\u00e1 depois - Controversia","og_description":"Ladislau Dowbor &#8211; A PERDA DO CONTROLE:UMA SOCIEDADE EM BUSCA DE NOVOS RUMOS A realidade \u00e9 que tudo se acelerou de maneira dram\u00e1tica. O tempo social funciona em ritmos diferentes para as tecnologias, que avan\u00e7am de uma maneira que nos atropela; para a cultura, que evolui de maneira muito mais lenta; e para as leis, [&hellip;]","og_url":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/","og_site_name":"Controversia","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","article_author":"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","article_published_time":"2021-01-31T17:55:49+00:00","og_image":[{"width":650,"height":350,"url":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Ladislau-Dowbor.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"Ricardo Alvarez","twitter_card":"summary_large_image","twitter_creator":"@https:\/\/twitter.com\/contro_versia","twitter_site":"@contro_versia","twitter_misc":{"Escrito por":"Ricardo Alvarez","Tempo estimado de leitura":"31 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/"},"author":{"name":"Ricardo Alvarez","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"headline":"Dowbor: o fim do capitalismo e o que vir\u00e1 depois","datePublished":"2021-01-31T17:55:49+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/"},"wordCount":7707,"commentCount":0,"publisher":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"image":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Ladislau-Dowbor.jpg?fit=650%2C350&ssl=1","keywords":["Capitalismo"],"articleSection":["Economia"],"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/","url":"https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/","name":"Dowbor: o fim do capitalismo e o que vir\u00e1 depois - Controversia","isPartOf":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Ladislau-Dowbor.jpg?fit=650%2C350&ssl=1","datePublished":"2021-01-31T17:55:49+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/#primaryimage","url":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Ladislau-Dowbor.jpg?fit=650%2C350&ssl=1","contentUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Ladislau-Dowbor.jpg?fit=650%2C350&ssl=1","width":650,"height":350},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2021\/01\/31\/dowbor-o-fim-do-capitalismo-e-o-que-vira-depois\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/controversia.com.br\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Dowbor: o fim do capitalismo e o que vir\u00e1 depois"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#website","url":"https:\/\/controversia.com.br\/","name":"Controversia","description":"Um site de leitura e debate","publisher":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/controversia.com.br\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-PT"},{"@type":["Person","Organization"],"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2","name":"Ricardo Alvarez","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","url":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","contentUrl":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","width":1015,"height":1024,"caption":"Ricardo Alvarez"},"logo":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png"},"description":"Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controv\u00e9rsia e escreve semanalmente.","sameAs":["http:\/\/controversia.com.br","https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","https:\/\/www.linkedin.com\/in\/controversia\/","https:\/\/x.com\/https:\/\/twitter.com\/contro_versia"]}]}},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Ladislau-Dowbor.jpg?fit=650%2C350&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14779","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14779"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14779\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14780,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14779\/revisions\/14780"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4434"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14779"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14779"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14779"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}