{"id":14773,"date":"2021-01-29T12:10:25","date_gmt":"2021-01-29T15:10:25","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14773"},"modified":"2021-01-26T09:19:21","modified_gmt":"2021-01-26T12:19:21","slug":"a-teoria-freudiana-e-o-padrao-da-propaganda-fascista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/01\/29\/a-teoria-freudiana-e-o-padrao-da-propaganda-fascista\/","title":{"rendered":"A teoria freudiana e o padr\u00e3o da propaganda fascista"},"content":{"rendered":"<p><strong>Theodor W. Adorno<\/strong><em> &#8211; <\/em>Durante a \u00faltima d\u00e9cada, a natureza e o conte\u00fado dos discursos e panfletos de agitadores fascistas americanos foram submetidos \u00e0 pesquisa intensiva de cientistas sociais. Alguns desses estudos, realizados segundo as linhas da an\u00e1lise de conte\u00fado, resultaram numa exposi\u00e7\u00e3o abrangente [que se encontra] no livro\u00a0<em>Prophets of deceit<\/em>, de L. L\u00f6wenthal e N. Guterman<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>1<\/sup><\/a>. A imagem global obtida \u00e9 caracterizada por dois tra\u00e7os principais. Em primeiro lugar, com a exce\u00e7\u00e3o de algumas recomenda\u00e7\u00f5es bizarras e completamente negativas \u2013 confinar estrangeiros em campos de concentra\u00e7\u00e3o ou expatriar sionistas \u2013, o material de propaganda fascista nesse pa\u00eds preocupa-se pouco com quest\u00f5es pol\u00edticas concretas e tang\u00edveis. A maioria esmagadora das declara\u00e7\u00f5es dos agitadores \u00e9 dirigida\u00a0<em>ad hominem<\/em>. Elas s\u00e3o obviamente baseadas mais em c\u00e1lculos psicol\u00f3gicos que na inten\u00e7\u00e3o de conseguir seguidores por meio da express\u00e3o racional de objetivos racionais. O termo \u201cincitador da turba\u201d, apesar de censur\u00e1vel por seu desprezo inerente pelas massas, \u00e9 em boa medida adequado, j\u00e1 que expressa a atmosfera de agressividade emocional irracional propositadamente promovida por nossos pretensos hitleristas. Se \u00e9 desrespeitoso chamar as pessoas de \u201cturba\u201d, \u00e9 precisamente o objetivo do agitador transformar essas mesmas pessoas em uma \u201cturba\u201d, isto \u00e9, uma multid\u00e3o inclinada \u00e0 a\u00e7\u00e3o violenta sem nenhum objetivo pol\u00edtico sensato, e criar a atmosfera do\u00a0<em>pogrom<\/em>. O prop\u00f3sito universal desses agitadores \u00e9 instigar metodicamente o que, desde o famoso livro de Gustave Le Bon, \u00e9 comumente conhecido como \u201cpsicologia das massas\u201d.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o m\u00e9todo dos agitadores \u00e9 verdadeiramente sistem\u00e1tico e segue um padr\u00e3o rigidamente estabelecido de \u201cdispositivos\u201d definidos. Isso n\u00e3o se liga apenas \u00e0 unidade fundamental do prop\u00f3sito pol\u00edtico \u2013 a aboli\u00e7\u00e3o da democracia mediante o apoio de massa contra o princ\u00edpio democr\u00e1tico \u2013, mas mais ainda \u00e0 natureza intr\u00ednseca do conte\u00fado e da apresenta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria propaganda. A similaridade das express\u00f5es de v\u00e1rios agitadores \u2013 das figuras bem conhecidas, como Coughlin e Gerald Smith, aos pequenos disseminadores provincianos de \u00f3dio \u2013 \u00e9 t\u00e3o grande que basta em princ\u00edpio analisar as declara\u00e7\u00f5es de um deles para conhec\u00ea-los todos<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>2<\/sup><\/a>. Al\u00e9m disso, os pr\u00f3prios discursos s\u00e3o t\u00e3o mon\u00f3tonos que, assim que se fica familiarizado com o n\u00famero muito limitado de dispositivos em estoque, o que se encontra s\u00e3o intermin\u00e1veis repeti\u00e7\u00f5es. De fato, a reitera\u00e7\u00e3o constante e a escassez de id\u00e9ias s\u00e3o ingredientes indispens\u00e1veis da t\u00e9cnica toda.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cComo seria imposs\u00edvel para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Na medida em que a rigidez mec\u00e2nica do padr\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia e ela mesma express\u00e3o de certos aspectos psicol\u00f3gicos da mentalidade fascista, n\u00e3o se pode evitar o sentimento de que o material de propaganda de tipo fascista forma uma unidade estrutural com uma concep\u00e7\u00e3o comum total, consciente ou inconsciente, que determina cada palavra que \u00e9 dita. Essa unidade estrutural parece se referir \u00e0 concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica impl\u00edcita tanto quanto \u00e0 ess\u00eancia psicol\u00f3gica. At\u00e9 agora, deu-se aten\u00e7\u00e3o cient\u00edfica apenas \u00e0 natureza destacada e de certo modo isolada de cada dispositivo; as conota\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas dos dispositivos foram sublinhadas e elaboradas. Agora com os elementos esclarecidos suficientemente, chegou a hora de centralizar a aten\u00e7\u00e3o no sistema psicol\u00f3gico em si \u2013 e pode n\u00e3o ser inteiramente acidental que o termo invoque a associa\u00e7\u00e3o da paran\u00f3ia \u2013, o qual compreende e gera esses elementos. Isso parece ser o mais apropriado, caso contr\u00e1rio a interpreta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica dos dispositivos individuais permanecer\u00e1 algo fortuita e arbitr\u00e1ria. Um tipo de quadro de refer\u00eancia te\u00f3rica ter\u00e1 de ser desenvolvido. Na medida em que os dispositivos individuais pedem quase irresistivelmente uma interpreta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o l\u00f3gico postular que esse quadro de refer\u00eancia deveria consistir na aplica\u00e7\u00e3o de uma teoria psicanal\u00edtica mais abrangente e b\u00e1sica ao m\u00e9todo global do agitador.<\/p>\n<p>Tal quadro de refer\u00eancia foi fornecido pelo pr\u00f3prio Freud em seu livro\u00a0<em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu,\u00a0<\/em>publicado em ingl\u00eas j\u00e1 em 1922, muito antes que o perigo do fascismo alem\u00e3o parecesse ser agudo<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>3<\/sup><\/a>. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que Freud, apesar de pouco interessado na fase pol\u00edtica do problema, claramente previu a origem e a natureza dos movimentos fascistas de massa em categorias puramente psicol\u00f3gicas. Se \u00e9 verdade que o inconsciente do analista percebe o inconsciente do paciente, pode-se tamb\u00e9m presumir que suas intui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas s\u00e3o capazes de antecipar tend\u00eancias ainda latentes em um n\u00edvel racional, mas se manifestando em um n\u00edvel mais profundo. Pode n\u00e3o ter sido por acaso que, ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, Freud tenha voltado sua aten\u00e7\u00e3o para o narcisismo e os problemas do eu em sentido espec\u00edfico. Os mecanismos e conflitos instintuais envolvidos desempenham de forma evidente um papel cada vez mais importante na \u00e9poca atual, considerando que, de acordo com o testemunho de analistas praticantes, as neuroses \u201ccl\u00e1ssicas\u201d, como a histeria de convers\u00e3o, que serviram de modelos para o m\u00e9todo, ocorrem menos freq\u00fcentemente agora que na \u00e9poca do pr\u00f3prio desenvolvimento de Freud, quando Charcot tratou clinicamente a histeria e Ibsen fez dela tema de algumas de suas pe\u00e7as. De acordo com Freud, o problema da psicologia de massa est\u00e1 bastante relacionado ao novo tipo de afli\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica t\u00e3o caracter\u00edstico da \u00e9poca que, por raz\u00f5es socioecon\u00f4micas, testemunha o decl\u00ednio do indiv\u00edduo e sua subseq\u00fcente fraqueza. Embora Freud n\u00e3o se tenha preocupado com as mudan\u00e7as sociais, pode-se dizer que ele revelou nos confins monadol\u00f3gicos do indiv\u00edduo os tra\u00e7os de sua crise profunda e a vontade de se submeter inquestionavelmente a poderosas inst\u00e2ncias (<em>agencies<\/em>) coletivas externas. Sem jamais ter se dedicado ao estudo dos desenvolvimentos sociais contempor\u00e2neos, Freud apontou tend\u00eancias hist\u00f3ricas por meio do desenvolvimento de seu pr\u00f3prio trabalho, da escolha de seus temas e da evolu\u00e7\u00e3o dos conceitos-guia.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cIsso \u00e9 precisamente o que Freud quer fazer. Ele busca descobrir quais for\u00e7as psicol\u00f3gicas resultam na transforma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos em massa.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O m\u00e9todo do livro de Freud consiste numa interpreta\u00e7\u00e3o din\u00e2mica da descri\u00e7\u00e3o da mente de massa por Le Bon e numa cr\u00edtica de alguns conceitos dogm\u00e1ticos \u2013 palavras m\u00e1gicas, por assim dizer \u2013 empregados por Le Bon e outros psic\u00f3logos pr\u00e9-anal\u00edticos como se fossem chaves para alguns fen\u00f4menos surpreendentes. Em primeiro lugar, entre esses conceitos est\u00e1 o de sugest\u00e3o, que, ali\u00e1s, ainda desempenha um papel importante na opini\u00e3o popular como uma maneira poss\u00edvel de explicar o encanto exercido por Hitler e assemelhados sobre as massas. Freud n\u00e3o questiona a precis\u00e3o das famosas caracteriza\u00e7\u00f5es das massas, feitas por Le Bon, como sendo altamente desindividualizadas, irracionais, facilmente influenci\u00e1veis, propensas \u00e0 a\u00e7\u00e3o violenta e, de modo geral, de uma natureza regressiva. O que o distingue de Le Bon \u00e9 antes a aus\u00eancia do tradicional desprezo pelas massas, que \u00e9 o\u00a0<em>thema probandum<\/em>\u00a0da maioria dos psic\u00f3logos mais antigos. Em vez de inferir das descobertas descritivas habituais que as massas s\u00e3o inferiores\u00a0<em>p<\/em><em>er se<\/em>\u00a0e assim tendem a permanecer, ele se pergunta, no esp\u00edrito do verdadeiro Iluminismo: o que transforma as massas em massas? Freud rejeita a hip\u00f3tese f\u00e1cil de um instinto social ou de rebanho, que para ele denota o problema e n\u00e3o sua solu\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m das raz\u00f5es puramente psicol\u00f3gicas que d\u00e1 para essa rejei\u00e7\u00e3o, poder-se-ia dizer que Freud est\u00e1 em terreno seguro tamb\u00e9m do ponto de vista sociol\u00f3gico. A compara\u00e7\u00e3o direta de forma\u00e7\u00f5es de massas modernas com fen\u00f4menos biol\u00f3gicos dificilmente pode ser considerada v\u00e1lida, uma vez que os membros das massas contempor\u00e2neas s\u00e3o, pelo menos\u00a0<em>prima\u00a0<\/em><em>facie<\/em>, indiv\u00edduos, filhos de uma sociedade liberal, competitiva e individualista, condicionados a se manter como unidades independentes e auto-sustent\u00e1veis; eles s\u00e3o continuamente advertidos de que devem ser \u201cduros\u201d e prevenidos contra a rendi\u00e7\u00e3o. Mesmo que se assumisse que instintos arcaicos, pr\u00e9-individuais, sobrevivam, n\u00e3o se poderia simplesmente apontar para essa heran\u00e7a, mas se teria de explicar por que homens modernos revertem a padr\u00f5es de comportamento que contradizem flagrantemente seu pr\u00f3prio n\u00edvel racional e a presente fase da civiliza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica esclarecida. Isso \u00e9 precisamente o que Freud quer fazer. Ele busca descobrir quais for\u00e7as psicol\u00f3gicas resultam na transforma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos em massa. \u201cSe os indiv\u00edduos no grupo est\u00e3o combinados em uma unidade, deve haver, seguramente, algo para uni-los, e esse v\u00ednculo poderia ser precisamente o que \u00e9 caracter\u00edstico de um grupo.\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>4<\/sup><\/a>\u00a0Essa indaga\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, equivale a uma exposi\u00e7\u00e3o do ponto fundamental da manipula\u00e7\u00e3o fascista. Pois o demagogo fascista, que tem de obter o apoio de milh\u00f5es de pessoas para objetivos altamente incompat\u00edveis com seu pr\u00f3prio auto-interesse racional, s\u00f3 pode faz\u00ea-lo criando artificialmente o\u00a0<em>v\u00ednculo<\/em>\u00a0que Freud est\u00e1 buscando. Se o m\u00e9todo dos demagogos \u00e9 realista \u2013 e seu sucesso popular n\u00e3o deixa d\u00favidas de que o seja \u2013, poder-se-ia lan\u00e7ar como hip\u00f3tese que o v\u00ednculo em quest\u00e3o \u00e9 exatamente o mesmo que o demagogo tenta produzir sinteticamente; na realidade, que ele \u00e9 o princ\u00edpio unificador por tr\u00e1s de seus v\u00e1rios dispositivos.<\/p>\n<p>Em acordo com a teoria psicanal\u00edtica geral, Freud cr\u00ea que o v\u00ednculo que integra os indiv\u00edduos em uma massa \u00e9 de uma natureza\u00a0<em>libidinal<\/em>. Psic\u00f3logos anteriores tocaram ocasionalmente nesse aspecto da psicologia de massa. \u201cNa opini\u00e3o de McDougall, as emo\u00e7\u00f5es dos homens em um grupo s\u00e3o excitadas a um n\u00edvel que raramente ou nunca atingem sob outras condi\u00e7\u00f5es; e \u00e9 uma experi\u00eancia prazerosa para os participantes se render t\u00e3o ilimitadamente \u00e0s suas paix\u00f5es e ser assim absorvidos no grupo e perder o senso dos limites de suas individualidades.\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>5<\/sup><\/a>\u00a0Freud vai al\u00e9m de tais observa\u00e7\u00f5es, explicando a coer\u00eancia das massas inteiramente nos termos do princ\u00edpio de prazer, quer dizer, das gratifica\u00e7\u00f5es reais ou vic\u00e1rias que os indiv\u00edduos obt\u00eam pela rendi\u00e7\u00e3o a uma massa. Hitler, ali\u00e1s, estava bastante atento \u00e0 fonte libidinal da forma\u00e7\u00e3o da massa por rendi\u00e7\u00e3o quando atribuiu caracter\u00edsticas especificamente femininas e passivas aos participantes de seus com\u00edcios, e apontou assim tamb\u00e9m para o papel da homossexualidade inconsciente na psicologia de massa<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>6<\/sup><\/a>. A conseq\u00fc\u00eancia mais importante da introdu\u00e7\u00e3o que Freud fez da libido na psicologia de grupo \u00e9 que os tra\u00e7os geralmente atribu\u00eddos \u00e0s massas perdem o car\u00e1ter ilusoriamente primordial e irredut\u00edvel refletido pela constru\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de instintos espec\u00edficos de massa ou de rebanho. Esses \u00faltimos s\u00e3o antes efeitos que causas. O que \u00e9 peculiar \u00e0s massas \u00e9, de acordo com Freud, n\u00e3o tanto uma qualidade nova quanto a manifesta\u00e7\u00e3o de qualidades antigas normalmente escondidas. \u201cDo nosso ponto de vista, n\u00e3o precisamos atribuir tanta import\u00e2ncia ao aparecimento de novas caracter\u00edsticas. Seria suficiente dizer que em um grupo o indiv\u00edduo \u00e9 posto sob condi\u00e7\u00f5es que lhe permitem se livrar das repress\u00f5es de seus instintos inconscientes.\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>7<\/sup><\/a>\u00a0Isso n\u00e3o apenas dispensa hip\u00f3teses auxiliares\u00a0<em>ad hoc<\/em>, mas tamb\u00e9m faz justi\u00e7a ao simples fato de que aqueles que acabam por submergir nas massas n\u00e3o s\u00e3o homens primitivos, mas exibem atitudes primitivas contradit\u00f3rias com seu comportamento racional\u00a0<em>normal<\/em>. Ainda assim, mesmo as mais triviais descri\u00e7\u00f5es n\u00e3o deixam d\u00favidas sobre a afinidade de certas peculiaridades das massas com tra\u00e7os arcaicos. Men\u00e7\u00e3o particular deveria ser feita aqui ao potencial atalho de emo\u00e7\u00f5es violentas para a\u00e7\u00f5es violentas enfatizado por todos os autores de psicologia de massa, um fen\u00f4meno que, nos escritos de Freud sobre culturas primitivas, leva \u00e0 suposi\u00e7\u00e3o de que o assassinato do pai da horda primitiva n\u00e3o \u00e9 imagin\u00e1rio, mas corresponde \u00e0 realidade pr\u00e9-hist\u00f3rica. Em termos de teoria din\u00e2mica, o reflorescimento de tais caracter\u00edsticas deve ser entendido como o resultado de um\u00a0<em>conflito<\/em>. Tamb\u00e9m pode ajudar a explicar algumas das manifesta\u00e7\u00f5es da mentalidade fascista que dificilmente poderiam ser compreendidas sem a suposi\u00e7\u00e3o de um antagonismo entre diversas for\u00e7as psicol\u00f3gicas. Deve-se pensar aqui acima de tudo na categoria psicol\u00f3gica da destrutibilidade, que Freud discutiu em seu\u00a0<em>O<\/em><em>\u00a0mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>. Como uma rebeli\u00e3o contra a civiliza\u00e7\u00e3o, o fascismo n\u00e3o \u00e9 simplesmente a reocorr\u00eancia do arcaico, mas sua reprodu\u00e7\u00e3o na e pela civiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 pouco adequado definir as for\u00e7as da rebeli\u00e3o fascista simplesmente como poderosas energias do isso que se livram da press\u00e3o da ordem social existente. Em vez disso, essa rebeli\u00e3o empresta suas energias em parte de outras inst\u00e2ncias psicol\u00f3gicas que s\u00e3o for\u00e7adas a servir ao inconsciente.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cComo uma rebeli\u00e3o contra a civiliza\u00e7\u00e3o, o fascismo n\u00e3o \u00e9 simplesmente a reocorr\u00eancia do arcaico, mas sua reprodu\u00e7\u00e3o na e pela civiliza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Uma vez que o v\u00ednculo libidinal entre membros de massas n\u00e3o \u00e9 obviamente de uma natureza sexual desinibida, o problema se apresenta em termos de quais mecanismos psicol\u00f3gicos transformam a energia sexual prim\u00e1ria em sentimentos que mant\u00eam as massas unidas. Freud enfrenta-o por meio da an\u00e1lise dos fen\u00f4menos cobertos pelos termos\u00a0<em>sugest\u00e3o<\/em>\u00a0e\u00a0<em>sugestibili<\/em><em>dade<\/em>. Ele reconhece a sugest\u00e3o como a \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201canteparo\u201d que oculta \u201crela\u00e7\u00f5es amorosas\u201d. \u00c9 essencial que as \u201crela\u00e7\u00f5es amorosas\u201d por tr\u00e1s da sugest\u00e3o permane\u00e7am inconscientes<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>8<\/sup><\/a>. Freud enfatiza o fato de que, em grupos organizados como o Ex\u00e9rcito ou a Igreja, ou n\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o alguma a amor entre seus membros, ou ele \u00e9 expresso apenas de maneira sublimada e indireta, por meio da media\u00e7\u00e3o de alguma imagem religiosa, pelo amor da qual os membros se unem e cujo amor abrangente (<em>all-embracing<\/em>) eles devem imitar em sua atitude m\u00fatua. Parece significativo que na sociedade atual, com suas massas fascistas artificialmente integradas, a refer\u00eancia ao amor esteja quase completamente exclu\u00edda<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>9<\/sup><\/a>. Hitler afastou-se do papel tradicional do pai amoroso e substituiu-o inteiramente pelo papel negativo da autoridade amea\u00e7adora. O conceito de amor foi relegado \u00e0 no\u00e7\u00e3o abstrata de\u00a0<em>Alemanha\u00a0<\/em>e raramente mencionado sem o ep\u00edteto de \u201cfan\u00e1tico\u201d, pelo qual mesmo esse amor obtinha um tom de hostilidade e agressividade contra aqueles que ele n\u00e3o englobava. Um dos princ\u00edpios b\u00e1sicos da lideran\u00e7a fascista \u00e9 manter a energia libidinal prim\u00e1ria em um n\u00edvel inconsciente, de modo a desviar suas manifesta\u00e7\u00f5es de uma forma adequada a fins pol\u00edticos. Quanto menos uma id\u00e9ia objetiva, como a de salva\u00e7\u00e3o religiosa, desempenha um papel na forma\u00e7\u00e3o da massa, e quanto mais a manipula\u00e7\u00e3o da massa se torna o \u00fanico fim, mais completamente o amor desinibido tem de ser reprimido e moldado em obedi\u00eancia. Muito pouco h\u00e1, no conte\u00fado da ideologia fascista, que\u00a0<em>p<\/em><em>udesse<\/em>\u00a0ser amado.<\/p>\n<p>O padr\u00e3o libidinal do fascismo e toda a t\u00e9cnica dos demagogos fascistas s\u00e3o autorit\u00e1rios. \u00c9 aqui que as t\u00e9cnicas do demagogo e do hipnotizador coincidem com o mecanismo psicol\u00f3gico pelo qual os indiv\u00edduos s\u00e3o compelidos a sofrer as regress\u00f5es que os reduzem a meros membros de um grupo. Pelas medidas que toma, o hipnotizador desperta no sujeito uma por\u00e7\u00e3o de sua heran\u00e7a arcaica que o tinha tamb\u00e9m feito obediente a seus pais, tendo ainda experimentado uma reanima\u00e7\u00e3o individual em sua rela\u00e7\u00e3o com o pai: o que \u00e9, assim, despertado \u00e9 a id\u00e9ia de uma personalidade todo-poderosa e perigosa, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual apenas uma atitude passivo-masoquista \u00e9 poss\u00edvel, e \u00e0 qual a vontade tem de se render \u2013 enquanto estar sozinho com ela, \u201colh\u00e1-la no rosto\u201d, parece uma aventura arriscada. \u00c9 apenas em tais formas que podemos descrever a rela\u00e7\u00e3o do membro individual da horda primitiva com o pai primitivo [\u2026]. As caracter\u00edsticas estranhas e coercitivas das forma\u00e7\u00f5es de grupos, que s\u00e3o reveladas em seus fen\u00f4menos de sugest\u00e3o, podem ent\u00e3o com justi\u00e7a ser remetidas ao fato de sua origem a partir da horda primitiva. O l\u00edder do grupo ainda \u00e9 o temido pai primitivo; o grupo ainda deseja ser governado por for\u00e7a irrestrita; ele tem uma paix\u00e3o extrema pela autoridade; no dito de Le Bon, tem sede de obedi\u00eancia. O pai primitivo \u00e9 o ideal do grupo, e governa o eu no lugar do ideal do eu. A hipnose pode, com justi\u00e7a, ser descrita como um grupo de duas pessoas; a esse respeito permanece como uma defini\u00e7\u00e3o para sugest\u00e3o \u2013 uma convic\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 baseada em percep\u00e7\u00f5es e racioc\u00ednios, mas em um v\u00ednculo er\u00f3tico.<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>10<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Isso na verdade define a natureza e o conte\u00fado da propaganda fascista. Ela \u00e9 psicol\u00f3gica por causa de seus fins autorit\u00e1rios e irracionais, que n\u00e3o podem ser alcan\u00e7ados por meio de convic\u00e7\u00f5es racionais, mas apenas pelo h\u00e1bil despertar de \u201cuma por\u00e7\u00e3o [da]\u00a0heran\u00e7a arcaica\u201d do sujeito. A agita\u00e7\u00e3o fascista est\u00e1 centrada na id\u00e9ia do l\u00edder, n\u00e3o importando se ele lidera de fato ou se \u00e9 apenas o mandat\u00e1rio de interesses do grupo, porque apenas a imagem psicol\u00f3gica do l\u00edder \u00e9 apta a reanimar a id\u00e9ia do todo-poderoso e amea\u00e7ador pai primitivo. Essa \u00e9 a raiz da \u2013 de outro modo enigm\u00e1tica \u2013\u00a0<em>personaliza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0da propaganda fascista, seu incessante propagandear de nomes e supostos grandes homens, em lugar da discuss\u00e3o de causas objetivas. A forma\u00e7\u00e3o da imagem de uma figura paterna onipotente e n\u00e3o controlada, transcendendo em muito o pai individual e com isso apta a ser ampliada em um \u201ceu do grupo\u201d, \u00e9 a \u00fanica maneira de disseminar a \u201catitude passivo-masoquista [\u2026]\u00a0\u00e0 qual a vontade tem de se render\u201d, uma atitude tanto mais exigida do seguidor fascista quanto mais seu comportamento pol\u00edtico se torna irreconcili\u00e1vel com seus pr\u00f3prios interesses racionais como pessoa privada, bem como com os do grupo ou classe ao qual pertence de fato<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>11<\/sup><\/a>. A irracionalidade redespertada do seguidor \u00e9 bastante racional do ponto de vista do l\u00edder: ela necessariamente tem de ser \u201cuma convic\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 baseada em percep\u00e7\u00f5es e racioc\u00ednios, mas em um v\u00ednculo er\u00f3tico\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA irracionalidade redespertada do seguidor \u00e9 bastante racional do ponto de vista do l\u00edder: ela necessariamente tem de ser \u2018uma convic\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 baseada em percep\u00e7\u00f5es e racioc\u00ednios, mas em um v\u00ednculo er\u00f3tico\u2019.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O mecanismo que transforma a libido na liga\u00e7\u00e3o entre l\u00edder e seguidores, e entre os pr\u00f3prios seguidores, \u00e9 o da\u00a0<em>identifica\u00e7\u00e3o<\/em>. Uma grande parte do livro de Freud \u00e9 dedicada a sua an\u00e1lise<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>12<\/sup><\/a>. \u00c9 imposs\u00edvel discutir aqui a diferencia\u00e7\u00e3o te\u00f3rica muito sutil, particularmente aquela entre identifica\u00e7\u00e3o e introje\u00e7\u00e3o. Deve-se notar, entretanto, que o Ernst Simmel tardio, ao qual devemos valiosas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do fascismo, tomou o conceito de Freud da natureza ambivalente da identifica\u00e7\u00e3o como um derivado da fase oral da organiza\u00e7\u00e3o da libido<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>13<\/sup><\/a>, e o ampliou em uma teoria anal\u00edtica do anti-semitismo.<\/p>\n<p>Contentar-nos-emos aqui com umas poucas observa\u00e7\u00f5es sobre a relev\u00e2ncia da doutrina da identifica\u00e7\u00e3o para a propaganda e a mentalidade fascistas. Foi observado por v\u00e1rios autores, e por Erik Homburger Erikson em particular, que o tipo de l\u00edder especificamente fascista n\u00e3o parece ser uma figura paterna, tal como o rei dos tempos antigos. A inconsist\u00eancia, por\u00e9m, entre essa observa\u00e7\u00e3o e a teoria freudiana do l\u00edder como o pai primitivo \u00e9 apenas superficial. Sua discuss\u00e3o sobre a identifica\u00e7\u00e3o pode nos ajudar a entender, em termos de din\u00e2mica subjetiva, certas mudan\u00e7as que na verdade se devem a condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas objetivas. A identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201ca express\u00e3o mais\u00a0<em>primitiva\u00a0<\/em>de uma liga\u00e7\u00e3o emocional com outra pessoa\u201d, desempenhando \u201cum papel na hist\u00f3ria inicial do complexo de \u00c9dipo\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>14<\/sup><\/a>. Pode bem ser que esse componente pr\u00e9-edipiano da identifica\u00e7\u00e3o ajude a provocar a separa\u00e7\u00e3o entre a imagem do l\u00edder como a de um pai primitivo todo-poderoso e a imagem paterna real. Uma vez que a identifica\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com seu pai como uma resposta para o complexo de \u00c9dipo \u00e9 apenas um fen\u00f4meno secund\u00e1rio, a regress\u00e3o infantil pode ir al\u00e9m dessa imagem paterna e, por um processo \u201canacl\u00edtico\u201d, alcan\u00e7ar uma mais arcaica. Al\u00e9m disso, o aspecto primitivamente narcisista da identifica\u00e7\u00e3o como um ato de\u00a0<em>devorar<\/em>, de tornar o objeto amado parte de si mesmo, pode nos fornecer uma pista para o fato de que a imagem do l\u00edder moderno \u00e0s vezes parece ser mais a amplia\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria personalidade do sujeito, uma proje\u00e7\u00e3o coletiva de si mesmo, do que a imagem de um pai cujo papel durante as fases tardias da inf\u00e2ncia do sujeito pode bem ter diminu\u00eddo na sociedade atual<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>15<\/sup><\/a>. Todos esses aspectos pedem uma clarifica\u00e7\u00e3o adicional.<\/p>\n<p>O papel essencial do narcisismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s identifica\u00e7\u00f5es que est\u00e3o em jogo na forma\u00e7\u00e3o de grupos fascistas \u00e9 reconhecido na teoria de Freud da\u00a0<em>idealiza\u00e7\u00e3o<\/em>. \u201cVemos que o objeto \u00e9 tratado da mesma maneira que nosso pr\u00f3prio eu, de modo que quando estamos apaixonados uma quantia consider\u00e1vel de libido narcisista transborda no objeto. \u00c9 at\u00e9 mesmo \u00f3bvio, em muitas formas de escolha amorosa, que o objeto sirva como um substituto para algum ideal de eu que n\u00e3o conseguimos atingir. N\u00f3s o amamos por causa das perfei\u00e7\u00f5es que nos esfor\u00e7amos em alcan\u00e7ar para nosso pr\u00f3prio eu, e que agora gostar\u00edamos de obter desse modo indireto, como um meio de satisfazer nosso narcisismo\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>16<\/sup><\/a>. \u00c9 precisamente essa idealiza\u00e7\u00e3o do eu que o l\u00edder fascista tenta promover em seus seguidores, e que \u00e9 auxiliada pela ideologia do F\u00fchrer. As pessoas com as quais ele tem de contar geralmente padecem do conflito moderno e caracter\u00edstico entre uma inst\u00e2ncia<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>17<\/sup><\/a>\u00a0do eu racional e autopreservadora fortemente desenvolvida e o fracasso cont\u00ednuo em satisfazer as demandas de seu pr\u00f3prio eu. Esse conflito resulta em impulsos narcisistas fortes, que s\u00f3 podem ser absorvidos e satisfeitos pela idealiza\u00e7\u00e3o entendida como transfer\u00eancia parcial da libido narcisista para o objeto. Isso, por sua vez, corresponde \u00e0 semelhan\u00e7a da imagem do l\u00edder com uma amplia\u00e7\u00e3o do sujeito: ao fazer do l\u00edder seu ideal, o sujeito ama a si mesmo, por assim dizer, mas se livra das manchas de frustra\u00e7\u00e3o e descontentamento que estragam a imagem que tem de seu pr\u00f3prio eu emp\u00edrico. Esse padr\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o por idealiza\u00e7\u00e3o, caricatura da solidariedade verdadeira, consciente, \u00e9, por\u00e9m, um padr\u00e3o coletivo. \u00c9 efetivo em um vasto n\u00famero de pessoas com disposi\u00e7\u00f5es caracterol\u00f3gicas e inclina\u00e7\u00f5es libidinais semelhantes. A\u00a0<em>comunidade<\/em>\u00a0<em>d<\/em><em>o povo<\/em>\u00a0fascista corresponde exatamente \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de Freud para grupo: \u201c[S\u00e3o] v\u00e1rios indiv\u00edduos que substitu\u00edram seu ideal de eu pelo mesmo objeto e conseq\u00fcentemente se identificaram uns com os outros em seus eus\u201d. A imagem de l\u00edder, por sua vez, empresta da for\u00e7a coletiva, por assim dizer, sua onipot\u00eancia semelhante \u00e0 do pai primitivo<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>18<\/sup><\/a>.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA agita\u00e7\u00e3o fascista est\u00e1 centrada na ideia do l\u00edder, n\u00e3o importando se ele lidera de fato ou se \u00e9 apenas o mandat\u00e1rio de interesses do grupo, porque apenas a imagem psicol\u00f3gica do l\u00edder \u00e9 apta a reanimar a ideia do todo-poderoso e amea\u00e7ador pai primitivo.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica que Freud faz da imagem do l\u00edder \u00e9 corroborada por sua not\u00e1vel coincid\u00eancia com o tipo fascista de l\u00edder, pelo menos no que se refere \u00e0 sua constitui\u00e7\u00e3o (<em>build-up<\/em>) p\u00fablica. Suas descri\u00e7\u00f5es conv\u00eam \u00e0 imagem de Hitler n\u00e3o menos que \u00e0s idealiza\u00e7\u00f5es pelas quais os demagogos americanos tentam se amoldar. A fim de permitir a identifica\u00e7\u00e3o narcisista, o l\u00edder tem de aparecer como absolutamente narcisista, e \u00e9 desse\u00a0<em>insight<\/em>\u00a0que Freud deriva o retrato do \u201cpai primitivo da horda\u201d, que poderia igualmente ser Hitler.<\/p>\n<p>Ele, j\u00e1 no in\u00edcio da hist\u00f3ria da humanidade, era o\u00a0<em>super-homem<\/em>\u00a0que Nietzsche esperava apenas no futuro.<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>19<\/sup><\/a>\u00a0Mesmo hoje os membros de um grupo necessitam da ilus\u00e3o de que s\u00e3o amados igualmente e de forma justa por seu l\u00edder; mas o l\u00edder n\u00e3o precisa amar mais ningu\u00e9m, ele pode ser de uma natureza magistral, absolutamente narcisista, mas autoconfiante e independente. Sabemos que o amor p\u00f5e o narcisismo em xeque, e seria poss\u00edvel mostrar como, operando desse modo, ele se tornou um fator de civiliza\u00e7\u00e3o.<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>20<\/sup><\/a><\/p>\n<blockquote><p>\u201cMostrando-se como um super-homem, o l\u00edder deve ao mesmo tempo realizar o milagre de aparecer como uma pessoa comum, da mesma maneira como Hitler se apresentou como uma mistura de King Kong e barbeiro de sub\u00farbio.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas mais consp\u00edcuas dos discursos dos agitadores, nomeadamente a aus\u00eancia de um programa positivo e de qualquer coisa que eles pudessem \u201cdar\u201d, bem como a preval\u00eancia paradoxal de amea\u00e7a e nega\u00e7\u00e3o, \u00e9 assim explicada: o l\u00edder s\u00f3 pode ser amado se ele pr\u00f3prio n\u00e3o amar. Todavia, Freud est\u00e1 atento a outro aspecto da imagem do l\u00edder que aparentemente contradiz o primeiro. Mostrando-se como um super-homem, o l\u00edder deve ao mesmo tempo realizar o milagre de aparecer como uma pessoa comum, da mesma maneira como Hitler se apresentou como uma mistura de King Kong e barbeiro de sub\u00farbio. Tamb\u00e9m isso Freud explica em sua teoria do narcisismo. De acordo com ele,\u201co indiv\u00edduo desiste de seu ideal do eu e o substitui pelo ideal do grupo tal como encarnado no l\u00edder. [Por\u00e9m,] em muitos indiv\u00edduos, a separa\u00e7\u00e3o entre o eu e o ideal do eu n\u00e3o \u00e9 muito avan\u00e7ada; os dois ainda coincidem prontamente; o eu freq\u00fcentemente preservou sua autocomplac\u00eancia inicial. A escolha do l\u00edder \u00e9 facilitada em muito por essa circunst\u00e2ncia. Ele s\u00f3 precisa possuir, de forma particularmente pura e claramente marcada, as qualidades t\u00edpicas dos indiv\u00edduos envolvidos, e s\u00f3 precisa dar impress\u00e3o de maior for\u00e7a e maior liberdade de libido; e nesse caso a necessidade de um chefe forte vai ao seu encontro e o investe de uma superioridade que de outro modo ele talvez n\u00e3o pudesse reclamar para si. Os outros membros do grupo, cujo eu ideal, fora dessa situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se teria encarnado em sua pessoa sem alguma corre\u00e7\u00e3o, deixam-se, ent\u00e3o, levar com o restante pela \u201csugest\u00e3o\u201d, quer dizer, por meio da identifica\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>21<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Mesmo os impressionantes sintomas de inferioridade do l\u00edder fascista, sua semelhan\u00e7a com atores canastr\u00f5es e psicopatas insociais s\u00e3o assim antecipados pela teoria de Freud. Por causa daquelas partes da libido narcisista do seguidor que n\u00e3o foram investidas na imagem do l\u00edder, mas permanecem ligadas ao pr\u00f3prio eu do seguidor, o super-homem deve ainda se assemelhar ao seguidor e aparecer como sua \u201camplia\u00e7\u00e3o\u201d. Em acordo com isso, um dos dispositivos b\u00e1sicos da propaganda fascista personalizada \u00e9 o conceito do \u201cgrande homem comum\u201d (<em>great little man<\/em>), algu\u00e9m que sugere tanto onipot\u00eancia quanto a id\u00e9ia de que \u00e9 apenas um de n\u00f3s, um americano simples, saud\u00e1vel, n\u00e3o conspurcado por riqueza material ou espiritual. A ambival\u00eancia psicol\u00f3gica ajuda um milagre social a se realizar. A imagem do l\u00edder satisfaz o duplo desejo do seguidor de se submeter \u00e0 autoridade e de ser ele pr\u00f3prio a autoridade. Isso corresponde a um mundo no qual o controle irracional \u00e9 exercido, apesar de ter perdido sua convic\u00e7\u00e3o interna em fun\u00e7\u00e3o do esclarecimento universal. As pessoas que obedecem aos ditadores sentem que eles s\u00e3o sup\u00e9rfluos. Elas se reconciliam com essa contradi\u00e7\u00e3o por meio da presun\u00e7\u00e3o de que elas pr\u00f3prias s\u00e3o o opressor cruel.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAs pessoas que obedecem aos ditadores sentem que eles s\u00e3o sup\u00e9rfluos. Elas se reconciliam com essa contradi\u00e7\u00e3o por meio da presun\u00e7\u00e3o de que elas pr\u00f3prias s\u00e3o o opressor cruel.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Todos os dispositivos-padr\u00e3o (<em>standard<\/em>) dos agitadores s\u00e3o projetados em acordo com a linha da exposi\u00e7\u00e3o feita por Freud daquilo que mais tarde se tornou a estrutura b\u00e1sica da demagogia fascista, a t\u00e9cnica da personaliza\u00e7\u00e3o<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><sup>22<\/sup><\/a>, e a id\u00e9ia do grande homem comum. Limitamo-nos aqui a alguns exemplos escolhidos ao acaso.<\/p>\n<p>Freud apresenta uma explica\u00e7\u00e3o exaustiva do elemento hier\u00e1rquico em grupos irracionais. \u201c\u00c9 \u00f3bvio que um soldado toma seu superior, isto \u00e9, propriamente, o l\u00edder do Ex\u00e9rcito, como seu ideal, enquanto se identifica com seus iguais, e deriva dessa comunidade de seus eus (<em>Ichgemeinsamkeit<\/em>) as obriga\u00e7\u00f5es de dar ajuda m\u00fatua e de compartilhar o que possuir, obriga\u00e7\u00f5es essas implicadas pela camaradagem. Mas ele se torna rid\u00edculo se tenta se identificar com o general\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn24\" name=\"_ftnref24\"><sup>23<\/sup><\/a>, isto \u00e9, direta e conscientemente. Os fascistas, at\u00e9 o \u00faltimo demagogo obscuro, enfatizam continuamente cerim\u00f4nias ritual\u00edsticas e diferencia\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas. Quanto menos a hierarquia \u00e9 justificada no interior da organiza\u00e7\u00e3o de uma sociedade industrial altamente racionalizada e quantificada, mais as hierarquias artificiais sem uma\u00a0<em>raison d<\/em><em>\u2019\u00eatre<\/em>\u00a0objetiva s\u00e3o constru\u00eddas e rigidamente impostas por fascistas, por raz\u00f5es puramente psicot\u00e9cnicas. Pode-se acrescentar, entretanto, que essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica fonte libidinal envolvida. Assim, estruturas hier\u00e1rquicas est\u00e3o em completa harmonia com os desejos do car\u00e1ter sadomasoquista. A famosa f\u00f3rmula de Hitler, \u201c<em>Verantwortung nach oben, Autorit\u00e4t nach unten<\/em>\u201d (responsabilidade para com os de cima, autoridade para com os de baixo), racionaliza bem a ambival\u00eancia desse car\u00e1ter<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn25\" name=\"_ftnref25\"><sup>24<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia a pisar nos de baixo, que se manifesta t\u00e3o desastrosamente na persegui\u00e7\u00e3o a minorias fracas e desamparadas, \u00e9 t\u00e3o franca quanto o \u00f3dio contra os de fora. Na pr\u00e1tica, ambas as tend\u00eancias freq\u00fcentemente ocorrem juntas. A teoria de Freud joga luz sobre a distin\u00e7\u00e3o disseminada e r\u00edgida entre o amado\u00a0<em>in-group<\/em>\u00a0e o rejeitado\u00a0<em>o<\/em><em>ut-group<\/em>. Por toda nossa cultura, esse modo de pensar e se comportar acabou sendo considerado t\u00e3o auto-evidente que a quest\u00e3o sobre por que as pessoas amam o que lhes \u00e9 semelhante e odeiam o que \u00e9 diferente raramente \u00e9 discutida de modo suficientemente s\u00e9rio. Aqui, como em muitos outros casos, a produtividade da abordagem de Freud est\u00e1 no questionamento daquilo que \u00e9 geralmente aceito. Le Bon notara que a multid\u00e3o irracional \u201cvai diretamente a extremos\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn26\" name=\"_ftnref26\"><sup>25<\/sup><\/a>. Freud amplia essa observa\u00e7\u00e3o e aponta o fato de que a dicotomia entre\u00a0<em>in-group<\/em>\u00a0e\u00a0<em>o<\/em><em>ut-group<\/em>\u00a0\u00e9 de uma natureza t\u00e3o profundamente enraizada que afeta mesmo aqueles grupos cujas \u201cid\u00e9ias\u201d aparentemente excluem tais rea\u00e7\u00f5es. J\u00e1 em 1921 ele foi, por isso, capaz de se livrar da ilus\u00e3o liberal de que o progresso da civiliza\u00e7\u00e3o provocaria automaticamente um aumento da toler\u00e2ncia e uma diminui\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra os\u00a0<em>o<\/em><em>ut-groups<\/em>.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c\u00c9 provavelmente a suspeita do car\u00e1ter fict\u00edcio de sua pr\u00f3pria \u2018psicologia de grupo\u2019 que torna as multid\u00f5es fascistas t\u00e3o inabord\u00e1veis e impiedosas. Se parassem para raciocinar por um segundo, toda a encena\u00e7\u00e3o desmoronaria, e s\u00f3 lhes restaria entrar em p\u00e2nico.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Mesmo no reino de Cristo, aquelas pessoas que n\u00e3o pertencem \u00e0 comunidade dos crentes, que n\u00e3o o amam e \u00e0s quais ele n\u00e3o ama, encontram-se fora desse v\u00ednculo. Portanto uma religi\u00e3o, mesmo se se qualifica como religi\u00e3o do amor, deve ser dura e desamorosa para com aqueles que n\u00e3o pertencem a ela. Fundamentalmente, de fato, toda religi\u00e3o \u00e9 do mesmo modo uma religi\u00e3o de amor para todos aqueles a quem abra\u00e7a; enquanto s\u00e3o naturais a toda religi\u00e3o a crueldade e a intoler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que n\u00e3o pertencem a ela. Por mais dif\u00edcil que seja, n\u00e3o devemos reprovar muito severamente os crentes por isso \u2013 a esse respeito os descrentes ou indiferentes est\u00e3o melhores do ponto de vista psicol\u00f3gico. Se hoje em dia aquela intoler\u00e2ncia n\u00e3o se mostra mais t\u00e3o violenta e cruel como nos s\u00e9culos anteriores, dificilmente podemos concluir que houve uma suaviza\u00e7\u00e3o nos costumes dos homens. A causa deve antes ser encontrada no ineg\u00e1vel enfraquecimento dos sentimentos religiosos e dos v\u00ednculos libidinais deles dependentes. Se outros v\u00ednculos grupais tomarem o lugar do religioso \u2013 e o v\u00ednculo socialista parece estar tendo sucesso nisso \u2013, ent\u00e3o haver\u00e1 para com os de fora a mesma intoler\u00e2ncia que havia na era das Guerras de Religi\u00e3o.<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn27\" name=\"_ftnref27\"><sup>26<\/sup><\/a><\/p>\n<p>O erro de Freud em prognose pol\u00edtica \u2013 culpar os \u201csocialistas\u201d pelo que seus arquiinimigos alem\u00e3es fizeram \u2013 \u00e9 t\u00e3o surpreendente quanto sua profecia sobre a destrutibilidade fascista, o impulso de eliminar o\u00a0<em>o<\/em><em>ut-group<\/em><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn28\" name=\"_ftnref28\"><sup>27<\/sup><\/a>. De fato, a neutraliza\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o parece ter conduzido apenas ao oposto daquilo que o iluminista Freud antecipara: a divis\u00e3o entre crentes e n\u00e3o-crentes foi mantida e reificada. De qualquer modo, tornou-se uma estrutura em si mesma, independente de qualquer conte\u00fado ideacional, e \u00e9 ainda mais obstinadamente defendida desde que perdeu sua convic\u00e7\u00e3o interna. Ao mesmo tempo, o impacto mitigante da doutrina religiosa do amor desapareceu. Essa \u00e9 a ess\u00eancia do dispositivo \u201cjoio e trigo\u201d empregada por todos os demagogos fascistas. Uma vez que n\u00e3o reconhecem nenhum crit\u00e9rio espiritual com rela\u00e7\u00e3o a quem \u00e9 escolhido e quem \u00e9 rejeitado, eles o substituem por um crit\u00e9rio pseudonatural como o de ra\u00e7a<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn29\" name=\"_ftnref29\"><sup>28<\/sup><\/a>, o qual parece ser inevit\u00e1vel e pode, portanto, ser aplicado at\u00e9 mais impiedosamente do que o conceito de heresia durante a Idade M\u00e9dia. Freud teve sucesso em identificar a fun\u00e7\u00e3o libidinal desse dispositivo. Ele age como uma for\u00e7a negativamente integradora. J\u00e1 que a libido positiva est\u00e1 completamente investida na imagem do pai primitivo, o l\u00edder, e j\u00e1 que poucos conte\u00fados positivos est\u00e3o dispon\u00edveis, um negativo deve ser encontrado. \u201cO l\u00edder ou a id\u00e9ia central tamb\u00e9m podem, por assim dizer, ser negativos; o \u00f3dio contra uma pessoa ou institui\u00e7\u00e3o particular poderia operar da mesma maneira unificadora e levar ao mesmo tipo de v\u00ednculos emocionais que os afetos positivos\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn30\" name=\"_ftnref30\"><sup>29<\/sup><\/a>. \u00c9 desnecess\u00e1rio dizer que essa integra\u00e7\u00e3o negativa alimenta o instinto de destrutibilidade ao qual Freud n\u00e3o se refere explicitamente em seu\u00a0<em>Psicologia<\/em><em>\u00a0de grupo<\/em>, mas cujo papel decisivo reconheceu em\u00a0<em>O mal-estar na<\/em>\u00a0<em>civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>. No contexto presente, Freud explica a hostilidade contra o\u00a0<em>out-group<\/em>\u00a0por meio do narcisismo:<\/p>\n<p>\u201cNas antipatias e avers\u00f5es indisfar\u00e7adas que as pessoas sentem em rela\u00e7\u00e3o aos estrangeiros com quem entram em contato, podemos reconhecer a express\u00e3o do amor-pr\u00f3prio \u2013 do narcisismo. Esse amor-pr\u00f3prio trabalha para a auto-afirma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, e se comporta como se o aparecimento de qualquer diverg\u00eancia sobre suas linhas particulares de desenvolvimento envolvesse uma cr\u00edtica e uma solicita\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a dessas mesmas linhas.\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn31\" name=\"_ftnref31\"><sup>30<\/sup><\/a><\/p>\n<p>O\u00a0<em>ganho<\/em>\u00a0narcisista fornecido pela propaganda fascista \u00e9 \u00f3bvio. Ela sugere continuamente, e \u00e0s vezes de maneiras bastante maliciosas, que o seguidor, simplesmente por pertencer ao\u00a0<em>in-group<\/em>, \u00e9 superior, melhor e mais puro que aqueles que est\u00e3o exclu\u00eddos. Ao mesmo tempo, qualquer tipo de cr\u00edtica ou autoconsci\u00eancia \u00e9 ressentida como uma perda narcisista e provoca f\u00faria. Isso explica a rea\u00e7\u00e3o violenta de todo fascista contra o que julga\u00a0<em>zersetzend\u00a0<\/em>[destrutivo], aquilo que desmascara seus pr\u00f3prios valores obstinadamente mantidos, e tamb\u00e9m a hostilidade das pessoas preconceituosas contra qualquer tipo de introspec\u00e7\u00e3o. Concomitantemente, a concentra\u00e7\u00e3o de hostilidade no\u00a0<em>o<\/em><em>ut-group<\/em>\u00a0elimina a intoler\u00e2ncia no interior do grupo, com o qual a rela\u00e7\u00e3o, de outro modo, seria altamente ambivalente.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO\u00a0<em>ganho<\/em>\u00a0narcisista fornecido pela propaganda fascista \u00e9 \u00f3bvio. Ela sugere continuamente, e \u00e0s vezes de maneiras bastante maliciosas, que o seguidor, simplesmente por pertencer ao grupo, \u00e9 superior, melhor e mais puro que aqueles que est\u00e3o exclu\u00eddos. Ao mesmo tempo, qualquer tipo de cr\u00edtica ou autoconsci\u00eancia \u00e9 ressentida como uma perda narcisista e provoca f\u00faria.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas o todo dessa intoler\u00e2ncia desaparece, tempor\u00e1ria ou permanentemente, por meio da forma\u00e7\u00e3o do grupo, e no grupo. Enquanto a forma\u00e7\u00e3o do grupo persistir, ou pelo per\u00edodo em que ela se estender, os indiv\u00edduos se comportam como se fossem uniformes, toleram as peculiaridades de outras pessoas, colocam-se no mesmo n\u00edvel, e n\u00e3o t\u00eam sentimentos de avers\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a elas. Tal limita\u00e7\u00e3o do narcisismo, de acordo com nossas concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, s\u00f3 pode ser produzida por um fator, um v\u00ednculo libidinal com outras pessoas.<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn32\" name=\"_ftnref32\"><sup>31<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a linha perseguida pelo estandardizado \u201ctruque da unidade\u201d dos agitadores. Eles enfatizam suas diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o aos que n\u00e3o pertencem ao grupo, mas as minimizam no interior do pr\u00f3prio grupo e tendem a nivelar suas qualidades distintivas, com exce\u00e7\u00e3o da hier\u00e1rquica. \u201cEstamos todos no mesmo barco\u201d; ningu\u00e9m deveria ser melhor; o esnobe, o intelectual, o hedonista s\u00e3o sempre atacados. Como fator subjacente, o igualitarismo malicioso, a fraternidade da humilha\u00e7\u00e3o geral, \u00e9 um componente da propaganda fascista e fascista ele pr\u00f3prio. Esse igualitarismo encontrou seu s\u00edmbolo na not\u00f3ria ordem de Hitler para o\u00a0<em>Eintopfgericht<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn33\" name=\"_ftnref33\">*<\/a><\/em>. Quanto menos desejam que a estrutura social inerente mude, mais tagarelam sobre justi\u00e7a social, querendo dizer que nenhum membro da \u201ccomunidade do povo\u201d deve se permitir prazeres individuais. Igualitarismo repressivo em vez da realiza\u00e7\u00e3o da verdadeira igualdade pela aboli\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o \u00e9 parte e parcela da mentalidade fascista e se reflete no dispositivo \u201cse-voc\u00ea-soubesse\u201d dos agitadores, que promete a vingativa revela\u00e7\u00e3o de todo tipo de prazeres proibidos desfrutados por outros. Freud interpreta esse fen\u00f4meno em termos da transforma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos em membros de uma \u201chorda fraterna\u201d psicol\u00f3gica. Sua coer\u00eancia \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o de rea\u00e7\u00e3o contra o ci\u00fame prim\u00e1rio m\u00fatuo, for\u00e7ada a servir \u00e0 coer\u00eancia do grupo.<\/p>\n<p>O que aparece mais tarde na sociedade na forma do\u00a0<em>Gemeingeist<\/em>,\u00a0<em>esprit de corps<\/em>, \u201cesp\u00edrito de grupo\u201d etc. n\u00e3o desmente sua deriva\u00e7\u00e3o do que era originalmente ci\u00fame. Ningu\u00e9m deve querer se p\u00f4r \u00e0 frente, todos devem ser o mesmo e ter o mesmo. Justi\u00e7a social significa negarmos a n\u00f3s mesmos muitas coisas, de forma que outros tamb\u00e9m tenham de passar sem elas, ou, o que d\u00e1 no mesmo, n\u00e3o possam reclam\u00e1-las.<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn34\" name=\"_ftnref34\"><sup>32<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Pode-se acrescentar que a ambival\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao irm\u00e3o encontrou uma express\u00e3o bastante not\u00e1vel e sempre recorrente na t\u00e9cnica dos agitadores. Freud e Rank apontaram que, em contos de fadas, pequenos animais, como abelhas e formigas, \u201cseriam os irm\u00e3os na horda primitiva, assim como, no simbolismo do sonho, insetos e animais daninhos significam os irm\u00e3os e irm\u00e3s (desdenhosamente considerados como beb\u00eas)\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn35\" name=\"_ftnref35\"><sup>33<\/sup><\/a>. Como os membros do\u00a0<em>in-group<\/em>\u00a0supostamente \u201cforam bem-sucedidos em se identificar mutuamente por meio do amor similar pelo mesmo objeto\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn36\" name=\"_ftnref36\"><sup>34<\/sup><\/a>, eles n\u00e3o podem admitir esse desprezo rec\u00edproco. Assim, esse desprezo \u00e9 expresso por uma catexe completamente negativa desses animais baixos, fundido com o \u00f3dio contra o\u00a0<em>o<\/em><em>ut-group<\/em>, e projetado nele. De fato um dos dispositivos prediletos dos agitadores fascistas \u2013 examinado detalhadamente por Leo L\u00f6wenthal<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn37\" name=\"_ftnref37\"><sup>35<\/sup><\/a>\u00a0\u2013 consiste em comparar\u00a0<em>o<\/em><em>ut-groups<\/em>, todos estrangeiros, e particularmente os refugiados e judeus, com animais baixos ou daninhos.<\/p>\n<p>Se temos o direito de assumir uma correspond\u00eancia dos est\u00edmulos da propaganda fascista com os mecanismos discutidos na\u00a0<em>Psicologia das massas<\/em>, de Freud, devemos nos fazer a pergunta quase inevit\u00e1vel: como aqueles agitadores fascistas, rudes e semi-educados obtiveram conhecimentos sobre esses mecanismos? Refer\u00eancias \u00e0 influ\u00eancia exercida por\u00a0<em>M<\/em><em>inha luta<\/em>, de Hitler, sobre os demagogos americanos n\u00e3o levariam muito longe, j\u00e1 que parece imposs\u00edvel que o conhecimento te\u00f3rico de Hitler sobre psicologia de grupo fosse al\u00e9m das mais triviais observa\u00e7\u00f5es derivadas de um Le Bon popularizado. Tampouco se poderia afirmar que Goebbels era um g\u00eanio da propaganda e estava completamente a par das descobertas mais avan\u00e7adas da psicologia moderna. A leitura de seus discursos e de trechos selecionados de seus di\u00e1rios recentemente publicados d\u00e1 a impress\u00e3o de uma pessoa astuta o bastante para participar do jogo da pol\u00edtica do poder, mas totalmente ing\u00eanua e superficial em rela\u00e7\u00e3o a todas as quest\u00f5es sociais ou psicol\u00f3gicas abaixo da superf\u00edcie de suas pr\u00f3prias palavras de ordem (<em>catchwords<\/em>) e editoriais de jornal. A concep\u00e7\u00e3o do Goebbels intelectual sofisticado e \u201cradical\u201d \u00e9 parte da lenda demon\u00edaca associada a seu nome e promovida pelo jornalismo zeloso; uma lenda, ali\u00e1s, que pede ela mesma uma explica\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica. O pr\u00f3prio Goebbels pensava por estere\u00f3tipos e estava completamente sob o encanto da personaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso, portanto, buscar outras fontes al\u00e9m da erudi\u00e7\u00e3o, para o muito propagandeado dom\u00ednio fascista de t\u00e9cnicas psicol\u00f3gicas de manipula\u00e7\u00e3o de massas. A fonte prim\u00e1ria parece ser a j\u00e1 mencionada identidade b\u00e1sica entre l\u00edder e seguidor, a qual circunscreve um dos aspectos da identifica\u00e7\u00e3o. O l\u00edder pode adivinhar os desejos e necessidades psicol\u00f3gicas dos que s\u00e3o suscet\u00edveis \u00e0 sua propaganda porque a eles se assemelha psicologicamente e deles se diferencia pela capacidade de expressar sem inibi\u00e7\u00f5es o que neles est\u00e1 latente, em vez de lan\u00e7ar m\u00e3o de alguma superioridade intr\u00ednseca. Os l\u00edderes s\u00e3o geralmente tipos de car\u00e1ter oral, com compuls\u00e3o a falar incessantemente e a enganar os outros. O famoso encanto que exercem sobre seus seguidores parece depender largamente de sua oralidade: a pr\u00f3pria linguagem, destitu\u00edda de sua significa\u00e7\u00e3o racional, funciona de um modo m\u00e1gico e promove aquelas regress\u00f5es arcaicas que reduzem os indiv\u00edduos a membros de multid\u00f5es. Uma vez que essa mesma qualidade de discurso desinibido mas largamente associativo pressup\u00f5e pelo menos uma falta tempor\u00e1ria de controle do eu, ela bem pode indicar fraqueza em lugar de for\u00e7a. A jact\u00e2ncia de for\u00e7a dos agitadores fascistas \u00e9, de fato, freq\u00fcentemente acompanhada por tra\u00e7os de fraqueza, particularmente quando imploram por contribui\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias \u2013 tra\u00e7os que, deve-se admitir, s\u00e3o habilmente unidos \u00e0 pr\u00f3pria id\u00e9ia de for\u00e7a. A fim de ir com sucesso ao encontro das disposi\u00e7\u00f5es inconscientes de sua audi\u00eancia, o agitador, por assim dizer, volta seu pr\u00f3prio inconsciente para fora. Sua particular s\u00edndrome de car\u00e1ter lhe possibilita fazer exatamente isso, e a experi\u00eancia o ensinou conscientemente a explorar essa faculdade, a fazer uso racional de sua irracionalidade, de modo semelhante ao ator ou a certo tipo de jornalista que sabe como vender sua estimula\u00e7\u00e3o e sua sensibilidade. Sem sab\u00ea-lo, ele \u00e9, assim, capaz de falar e agir em acordo com a teoria psicol\u00f3gica pela simples raz\u00e3o de que a teoria psicol\u00f3gica \u00e9 verdadeira. Tudo o que ele tem a fazer para que a psicologia de sua plat\u00e9ia funcione \u00e9 explorar maliciosamente sua pr\u00f3pria psicologia.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO l\u00edder pode adivinhar os desejos e necessidades psicol\u00f3gicas dos que s\u00e3o suscet\u00edveis \u00e0 sua propaganda porque a eles se assemelha psicologicamente e deles se diferencia pela capacidade de expressar sem inibi\u00e7\u00f5es o que neles est\u00e1 latente, em vez de lan\u00e7ar m\u00e3o de alguma superioridade intr\u00ednseca.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A adequa\u00e7\u00e3o dos dispositivos dos agitadores \u00e0 base psicol\u00f3gica de seus objetivos \u00e9 aperfei\u00e7oada por outro fator. Como sabemos, a agita\u00e7\u00e3o fascista tornou-se uma profiss\u00e3o, por assim dizer, um meio de vida. Ela teve bastante tempo para testar a efetividade de seus v\u00e1rios atrativos (<em>appeals<\/em>), e, pelo que poderia ser chamado de sele\u00e7\u00e3o natural, apenas os mais cativantes sobreviveram. Sua efetividade \u00e9, ela pr\u00f3pria, uma fun\u00e7\u00e3o da psicologia dos consumidores. Por um processo de \u201ccongelamento\u201d (<em>freezing<\/em>), que pode ser observado em todas as t\u00e9cnicas empregadas na moderna cultura de massa, os atrativos sobreviventes foram estandardizados, de forma similar aos slogans de propaganda que provaram ser valiosos na promo\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios. Essa estandardiza\u00e7\u00e3o, por sua vez, corresponde ao pensamento estereotipado, ou seja, \u00e0 \u201cestereopatia\u201d daqueles suscet\u00edveis a essa propaganda e a seu desejo infantil por repeti\u00e7\u00e3o intermin\u00e1vel e inalterada. \u00c9 dif\u00edcil predizer se essa \u00faltima disposi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica evitar\u00e1 que os dispositivos-padr\u00e3o (<em>standard<\/em>) dos agitadores fiquem embotados pelo uso excessivo. Na Alemanha nacional-socialista costumavam-se ridicularizar certas express\u00f5es propagand\u00edsticas como \u201csangue e solo\u201d (<em>Blut und<\/em><em>\u00a0Boden<\/em>), contra\u00edda jocosamente para<em>\u00a0Blubo<\/em>, ou o conceito da ra\u00e7a n\u00f3rdica, do qual o verbo par\u00f3dico\u00a0<em>aufnorden<\/em>\u00a0(\u201cnortizar\u201d) foi derivado. N\u00e3o obstante, esses atrativos n\u00e3o parecem ter perdido seu apelo. Antes, sua pr\u00f3pria \u201cimpostura\u201d (<em>phonyness<\/em>) pode ter sido c\u00ednica e sadicamente saboreada como um sinal de que o poder sozinho decidia o destino das pessoas no Terceiro Reich, ou seja, o poder desembara\u00e7ado da objetividade racional.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, pode-se perguntar: por que a psicologia de grupo aplicada discutida aqui \u00e9 mais peculiar ao fascismo que \u00e0 maioria dos outros movimentos que buscam apoio de massa? Mesmo a compara\u00e7\u00e3o mais casual da propaganda fascista com a dos partidos liberais e progressistas mostra que \u00e9 assim. Contudo, nem Freud nem Le Bon consideraram tal distin\u00e7\u00e3o. Eles falavam de multid\u00f5es \u201ccomo tais\u201d, de modo similar \u00e0s conceitualiza\u00e7\u00f5es utilizadas pela sociologia formal, sem distinguir os objetivos pol\u00edticos dos grupos em quest\u00e3o. De fato, ambos pensavam antes nos movimentos socialistas tradicionais que em seu oposto, embora se deva notar que a Igreja e o Ex\u00e9rcito \u2013 exemplos escolhidos por Freud para a demonstra\u00e7\u00e3o de sua teoria \u2013 s\u00e3o essencialmente conservadores e hier\u00e1rquicos. Le Bon, no entanto, est\u00e1 preocupado principalmente com multid\u00f5es n\u00e3o organizadas, espont\u00e2neas e ef\u00eameras. Somente uma teoria expl\u00edcita da sociedade, que transcenda em muito os limites da psicologia, pode responder completamente \u00e0 pergunta feita aqui. Por ora nos contentamos com algumas sugest\u00f5es. Primeiro, as finalidades objetivas do fascismo s\u00e3o amplamente irracionais na medida em que contradizem os interesses materiais de grande n\u00famero daqueles que elas tentam incorporar, n\u00e3o obstante o\u00a0<em>boom<\/em>\u00a0pr\u00e9-guerra dos primeiros anos do regime de Hitler. O risco cont\u00ednuo de guerra inerente ao fascismo significa destrui\u00e7\u00e3o, e as massas sabem disso ao menos pr\u00e9-conscientemente. Desse modo, o fascismo n\u00e3o \u00e9 totalmente mentiroso quando se refere a seus poderes irracionais, n\u00e3o importando se \u00e9 falsa a mitologia que ideologicamente racionaliza o irracional. Como seria imposs\u00edvel para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos. Essa tarefa \u00e9 facilitada pelo estado de esp\u00edrito de todos aqueles estratos da popula\u00e7\u00e3o que sofrem frustra\u00e7\u00f5es sem sentido e desenvolvem, por isso, uma mentalidade mesquinha e irracional. O segredo da propaganda fascista pode bem ser o fato de que ela simplesmente toma os homens pelo que eles s\u00e3o \u2013 os verdadeiros filhos da cultura de massa estandardizada atual, amplamente despojados de autonomia e espontaneidade \u2013 em vez de estabelecer metas cuja realiza\u00e7\u00e3o transcenderia o\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0psicol\u00f3gico n\u00e3o menos que o social. A propaganda fascista tem apenas de reproduzir a mentalidade existente para seus pr\u00f3prios prop\u00f3sitos \u2013 n\u00e3o precisa induzir uma mudan\u00e7a \u2013, e a repeti\u00e7\u00e3o compulsiva, que \u00e9 uma de suas caracter\u00edsticas prim\u00e1rias, estar\u00e1 em acordo com a necessidade dessa reprodu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Ela se ap\u00f3ia absolutamente na estrutura total tanto quanto em cada tra\u00e7o particular do car\u00e1ter autorit\u00e1rio, que \u00e9, ele mesmo, produto de uma internaliza\u00e7\u00e3o dos aspectos irracionais da sociedade moderna. Sob as condi\u00e7\u00f5es prevalecentes, a irracionalidade da propaganda fascista se torna racional no sentido da economia pulsional. Pois, se o\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0\u00e9 tomado como algo aceito e petrificado, \u00e9 necess\u00e1rio um esfor\u00e7o muito maior para se ver atrav\u00e9s dele do que para se ajustar a ele e obter pelo menos alguma satisfa\u00e7\u00e3o por meio da identifica\u00e7\u00e3o com o existente \u2013 o n\u00facleo da propaganda fascista. Isso pode explicar por que os movimentos de massa ultra-reacion\u00e1rios usam a \u201cpsicologia das massas\u201d num grau muito maior do que movimentos que mostram mais f\u00e9 nas massas. Entretanto, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que mesmo o movimento pol\u00edtico mais progressista pode se deteriorar at\u00e9 chegar ao n\u00edvel da \u201cpsicologia da multid\u00e3o\u201d e de sua manipula\u00e7\u00e3o, se seu pr\u00f3prio conte\u00fado racional \u00e9 despeda\u00e7ado pela revers\u00e3o ao poder cego.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO segredo da propaganda fascista pode bem ser o fato de que ela simplesmente toma os homens pelo que eles s\u00e3o \u2013 os verdadeiros filhos da cultura de massa estandardizada atual, amplamente despojados de autonomia e espontaneidade \u2013 em vez de estabelecer metas cuja realiza\u00e7\u00e3o transcenderia o\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0psicol\u00f3gico n\u00e3o menos que o social. A propaganda fascista tem apenas de reproduzir a mentalidade existente para seus pr\u00f3prios prop\u00f3sitos \u2013 n\u00e3o precisa induzir uma mudan\u00e7a \u2013, e a repeti\u00e7\u00e3o compulsiva, que \u00e9 uma de suas caracter\u00edsticas prim\u00e1rias, estar\u00e1 em acordo com a necessidade dessa reprodu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A assim chamada psicologia do fascismo \u00e9 amplamente gerada por manipula\u00e7\u00e3o. T\u00e9cnicas racionalmente calculadas provocam o que \u00e9 ingenuamente considerado a irracionalidade \u201cnatural\u201d das massas. Esse\u00a0<em>insight<\/em>\u00a0pode nos ajudar a resolver se o fascismo como fen\u00f4meno de massa pode ser explicado em termos psicol\u00f3gicos. Apesar de certamente existir uma potencial suscetibilidade ao fascismo entre as massas, \u00e9 igualmente certo que a manipula\u00e7\u00e3o do inconsciente, o tipo de sugest\u00e3o explicada por Freud em termos gen\u00e9ticos, \u00e9 indispens\u00e1vel para a atualiza\u00e7\u00e3o desse potencial. Isso, entretanto, corrobora a suposi\u00e7\u00e3o de que o fascismo como tal n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o psicol\u00f3gica e tamb\u00e9m de que qualquer tentativa para entender suas ra\u00edzes e seu papel hist\u00f3rico em termos psicol\u00f3gicos permanece no n\u00edvel das ideologias, como a das \u201cfor\u00e7as irracionais\u201d, promovidas pelo pr\u00f3prio fascismo. Embora o agitador fascista indubitavelmente assuma certas tend\u00eancias internas \u00e0queles aos quais se dirige, ele o faz como mandat\u00e1rio de interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos poderosos. Disposi\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas n\u00e3o causam, na verdade, o fascismo; antes, o fascismo define uma \u00e1rea psicol\u00f3gica que pode ser explorada com sucesso pelas for\u00e7as que o promovem por raz\u00f5es completamente n\u00e3o-psicol\u00f3gicas de interesse pr\u00f3prio. O que acontece quando massas s\u00e3o apanhadas pela propaganda fascista n\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o prim\u00e1ria espont\u00e2nea de instintos e desejos, mas uma revitaliza\u00e7\u00e3o\u00a0<em>quasi<\/em>-cient\u00edfica de sua psicologia \u2013 a regress\u00e3o artificial descrita por Freud em sua discuss\u00e3o sobre os grupos organizados. A psicologia das massas foi controlada por seus l\u00edderes e transformada em meio para sua domina\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o se expressa diretamente pelos movimentos de massa. Esse fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 completamente novo, mas foi pressagiado pelos movimentos contra-revolucion\u00e1rios ao longo da hist\u00f3ria. Longe de ser a fonte do fascismo, a psicologia se tornou um elemento entre outros em um sistema sobreposto cuja pr\u00f3pria totalidade \u00e9 tornada necess\u00e1ria pelo potencial de resist\u00eancia das massas \u2013 a pr\u00f3pria racionalidade das massas. O conte\u00fado da teoria de Freud \u2013 a substitui\u00e7\u00e3o do narcisismo individual pela identifica\u00e7\u00e3o com a imagem dos l\u00edderes \u2013 aponta na dire\u00e7\u00e3o do que poderia ser chamado de apropria\u00e7\u00e3o da psicologia de massa pelos opressores. Esse processo tem, com certeza, uma dimens\u00e3o psicol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m indica uma tend\u00eancia crescente \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da motiva\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica no sentido antigo e liberal. Tal motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 sistematicamente controlada e absorvida por mecanismos sociais que s\u00e3o regulados a partir de cima. Quando os l\u00edderes se tornam conscientes da psicologia de massa e a tomam nas pr\u00f3prias m\u00e3os, ela deixa de existir, num certo sentido. Essa potencialidade est\u00e1 contida no constructo b\u00e1sico da psican\u00e1lise, porquanto para Freud o conceito de psicologia \u00e9 essencialmente negativo. Ele define o reino da psicologia pela supremacia do inconsciente e postula que o que \u00e9\u00a0<em>isso<\/em>\u00a0deveria se tornar eu. A emancipa\u00e7\u00e3o do homem do dom\u00ednio heter\u00f4nomo de seu inconsciente seria equivalente \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o de sua \u201cpsicologia\u201d. O fascismo promove essa aboli\u00e7\u00e3o no sentido oposto, pela perpetua\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia em lugar da realiza\u00e7\u00e3o da liberdade potencial, pela expropria\u00e7\u00e3o do inconsciente por meio do controle social em lugar de tornar os sujeitos conscientes de seus inconscientes. Pois, ao mesmo tempo que sempre denota algum aprisionamento do indiv\u00edduo, a psicologia tamb\u00e9m pressup\u00f5e liberdade no sentido de uma certa auto-sufici\u00eancia e autonomia do indiv\u00edduo. N\u00e3o \u00e9 acidental que o s\u00e9culo XIX tenha sido a grande era do pensamento psicol\u00f3gico. Numa sociedade completamente reificada, na qual n\u00e3o h\u00e1 virtualmente nenhuma rela\u00e7\u00e3o direta entre homens e na qual cada pessoa foi reduzida a um \u00e1tomo social, a uma mera fun\u00e7\u00e3o da coletividade, os processos psicol\u00f3gicos, apesar de persistirem dentro cada indiv\u00edduo, deixaram de aparecer como for\u00e7as determinantes do processo social. Assim, a psicologia do indiv\u00edduo perdeu o que Hegel teria chamado de sua subst\u00e2ncia. Talvez o maior m\u00e9rito do livro de Freud, apesar de ter se restringido ao campo da psicologia individual e sabiamente se abstido de introduzir fatores sociol\u00f3gicos de fora, tenha sido, n\u00e3o obstante, alcan\u00e7ar o momento decisivo no qual a psicologia renuncia a seu poder. O \u201cempobrecimento\u201d psicol\u00f3gico do sujeito que \u201cse entregou ao objeto\u201d, o qual \u201csubstituiu seu componente mais importante\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn38\" name=\"_ftnref38\"><sup>36<\/sup><\/a>, isto \u00e9, o supereu, antecipa quase com clarivid\u00eancia os desindividualizados \u00e1tomos sociais p\u00f3s-psicol\u00f3gicos que formam as coletividades fascistas. Nesses \u00e1tomos sociais, as din\u00e2micas psicol\u00f3gicas da forma\u00e7\u00e3o de grupo foram para al\u00e9m de si mesmas e n\u00e3o s\u00e3o mais uma realidade. A categoria da \u201cimpostura\u201d (<em>phonyness<\/em>) se aplica aos l\u00edderes tanto quanto ao ato de identifica\u00e7\u00e3o por parte das massas e a seus supostos frenesi e histeria. Do mesmo modo que, no fundo do cora\u00e7\u00e3o, as pessoas pouco cr\u00eaem nos judeus como o dem\u00f4nio, elas tamb\u00e9m n\u00e3o acreditam completamente no l\u00edder. N\u00e3o se identificam realmente com ele, mas simulam essa identifica\u00e7\u00e3o, encenam seu pr\u00f3prio entusiasmo e participam, assim, da performance de seu l\u00edder. \u00c9 por meio dessa encena\u00e7\u00e3o que atingem um equil\u00edbrio entre seus desejos instintuais continuamente mobilizados e a fase hist\u00f3rica de esclarecimento que alcan\u00e7aram e que n\u00e3o pode ser arbitrariamente revogada. \u00c9 provavelmente a suspeita do car\u00e1ter fict\u00edcio de sua pr\u00f3pria \u201cpsicologia de grupo\u201d que torna as multid\u00f5es fascistas t\u00e3o inabord\u00e1veis e impiedosas. Se parassem para raciocinar por um segundo, toda a encena\u00e7\u00e3o desmoronaria, e s\u00f3 lhes restaria entrar em p\u00e2nico.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA psicologia das massas foi controlada por seus l\u00edderes e transformada em meio para sua domina\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o se expressa diretamente pelos movimentos de massa.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Freud descobriu esse elemento de \u201cimpostura\u201d em um contexto inesperado, isto \u00e9, quando discutia a hipnose como um retrocesso dos indiv\u00edduos \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre a horda primitiva e o pai primitivo.<\/p>\n<p>\u201cComo sabemos por outras rea\u00e7\u00f5es, os indiv\u00edduos preservaram um grau vari\u00e1vel de aptid\u00e3o pessoal para reavivar velhas situa\u00e7\u00f5es desse tipo. Algum conhecimento de que, apesar de tudo, a hipnose \u00e9 apenas um jogo, uma renova\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria dessas antigas impress\u00f5es, pode, por\u00e9m, permanecer por detr\u00e1s e cuidar para que haja uma resist\u00eancia contra quaisquer conseq\u00fc\u00eancias s\u00e9rias da suspens\u00e3o da vontade na hipnose.\u201d<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/#_ftn39\" name=\"_ftnref39\"><sup>37<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Nesse meio tempo, esse jogo foi socializado, e as conseq\u00fc\u00eancias provaram-se muito s\u00e9rias. Freud estabeleceu uma distin\u00e7\u00e3o entre hipnose e psicologia de grupo descrevendo a primeira como a que toma lugar entre duas pessoas apenas. Entretanto, ao apropriar a psicologia de massa e aperfei\u00e7oar sua t\u00e9cnica, os l\u00edderes coletivizaram o feiti\u00e7o hipn\u00f3tico. O grito de guerra nazista \u2013 \u201cDesperta, Alemanha\u201d\u2013 esconde seu pr\u00f3prio contr\u00e1rio. A coletiviza\u00e7\u00e3o e a institucionaliza\u00e7\u00e3o do feiti\u00e7o, no entanto, tornaram a transfer\u00eancia cada vez mais indireta e prec\u00e1ria, de forma que o aspecto de performance, a \u201cimpostura\u201d da identifica\u00e7\u00e3o entusi\u00e1stica e de toda a din\u00e2mica tradicional da psicologia de grupo, foi tremendamente aumentado. Aumento esse que bem pode terminar numa s\u00fabita consci\u00eancia da inverdade do feiti\u00e7o e, por fim, em seu colapso. A hipnose socializada cria no interior de si mesma as for\u00e7as que eliminar\u00e3o o fantasma da regress\u00e3o por controle remoto, e que, no fim, despertar\u00e3o aqueles que mant\u00eam seus olhos fechados apesar de n\u00e3o estarem mais dormindo.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/10\/25\/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Theodor W. Adorno &#8211; Durante a \u00faltima d\u00e9cada, a natureza e o conte\u00fado dos discursos e panfletos de agitadores fascistas americanos foram submetidos \u00e0 pesquisa intensiva de cientistas sociais. Alguns desses estudos, realizados segundo as linhas da an\u00e1lise de conte\u00fado, resultaram numa exposi\u00e7\u00e3o abrangente [que se encontra] no livro\u00a0Prophets of deceit, de L. 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