{"id":1476,"date":"2016-08-09T09:51:04","date_gmt":"2016-08-09T12:51:04","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1476"},"modified":"2016-08-01T11:53:04","modified_gmt":"2016-08-01T14:53:04","slug":"desemprego-e-precariedade-sao-frutos-da-revolucao-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/08\/09\/desemprego-e-precariedade-sao-frutos-da-revolucao-digital\/","title":{"rendered":"Desemprego e precariedade s\u00e3o frutos da revolu\u00e7\u00e3o digital?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vicen\u00e7 Navarro<\/strong> &#8211; As pol\u00edticas neoliberais t\u00eam um impacto muito negativo para os trabalhadores, causando a diminui\u00e7\u00e3o da renda para favorecer os lucros do capital.<\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s, publiquei um artigo (\u201cA fal\u00e1cia do futuro sem trabalho e da revolu\u00e7\u00e3o digital como causa da precariedade \u2013 em <i><span class=\"texto_detalhe\">P\u00fablico.es<\/span><\/i><span class=\"texto_detalhe\">, dia 12 de julho) onde indicava que os dados emp\u00edricos existentes n\u00e3o confirmam a teoria, bastante difundida, de que a revolu\u00e7\u00e3o digital \u00e9 um das causas (ou talvez a maior causa, segundo alguns defensores dessa ideia), do aumento do desemprego e da precariedade dos mesmos nos pa\u00edses capitalistas mais desenvolvidos. Essa cren\u00e7a que vaticina que, num futuro pr\u00f3ximo, quase 50% dos postos de trabalho existentes hoje estar\u00e3o destru\u00eddos, gerando um futuro sem trabalho.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Como era de se esperar, o\u00a0artigo criou uma avalanche de coment\u00e1rios, alguns favor\u00e1veis, outros desfavor\u00e1veis. Algumas das cr\u00edticas se baseavam numa tergiversada leitura do artigo, pois eu n\u00e3o neguei que a revolu\u00e7\u00e3o digital poderia destruir o emprego. Na verdade, eu at\u00e9 mesmo destaquei os setores econ\u00f4micos onde isso poderia ocorrer. E tamb\u00e9m indiquei que apesar da tal revolu\u00e7\u00e3o digital poder destruir o trabalho, ela certamente tamb\u00e9m pode criar empregos. Por exemplo, por regra geral, a rob\u00f3tica (um dos fil\u00f5es dessa revolu\u00e7\u00e3o) permite baratear os pre\u00e7os dos produtos, e assim se cria, no mesmo setor ou em outros, um aumento da demanda espec\u00edfica ou geral, contribuindo com o crescimento da atividade econ\u00f4mica e com a cria\u00e7\u00e3o de empregos. Por outra parte, a aplica\u00e7\u00e3o da rob\u00f3tica requer a cria\u00e7\u00e3o de empregos. Todas as revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas anteriores, desde a introdu\u00e7\u00e3o das linhas de montagem e das m\u00e1quinas a vapor, at\u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o da eletricidade, vem sempre acompanhadas de um aumento da atividade econ\u00f4mica e da cria\u00e7\u00e3o de empregos.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">A evid\u00eancia cient\u00edfica acumulada durante todos estes anos mostra que o impacto da revolu\u00e7\u00e3o digital sobre o emprego (e sobre os sal\u00e1rios) depende primordialmente do contexto pol\u00edtico que configura a aplica\u00e7\u00e3o de tal revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. A rob\u00f3tica pode destruir empregos ou pode permitir substituir trabalho repetitivo por outro mais intelectualmente estimulante, ou pode facilitar a redu\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho.<\/span><\/p>\n<p><b>Houve aumento de produtividade durante a suposta \u201crevolu\u00e7\u00e3o digital\u201d?<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">A cr\u00edtica que merece maior aten\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela que reconhece que, no passado as novas tecnologias, como as m\u00e1quinas a vapor ou a eletricidade, n\u00e3o destru\u00edram empregos, e que esta revolu\u00e7\u00e3o \u2013 a digital \u2013 sim o fez. Quando uma nova tecnologia produz aumento da produtividade (agora, um trabalhador pode fazer o trabalho que muitos faziam antes), aumenta o risco de diminuir os postos de trabalho, gerando desemprego. Durante os anos conhecidos da revolu\u00e7\u00e3o digital, a produtividade pouco tem aumentado, permanecendo em n\u00edveis baixos. H\u00e1 quem aponte, como resposta, que se incluirmos um per\u00edodo maior, veremos um aumento bastante significativo da produtividade, a partir dos Anos 90. Em tal cr\u00edtica, se reconhece o baixo crescimento da produtividade nos Anos 70 (1,7% de crescimento anual) e tamb\u00e9m nos Anos 80 (novamente 1,7%). Os autores da cr\u00edtica acrescentam que o crescimento foi muito mais agudo nos Anos 90 (2,3%), e se manteve alto na primeira d\u00e9cada do novo s\u00e9culo (2,4%), atribuindo tal expans\u00e3o \u00e0 produtividade da revolu\u00e7\u00e3o digital.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">O problema deste argumento \u00e9 que ao confrontar os balan\u00e7os anuais da produtividade medidos por d\u00e9cadas, n\u00e3o estamos comparando ma\u00e7\u00e3s com ma\u00e7\u00e3s, e sim com rabanetes. Devemos comparar os dados do crescimento da produtividade anual por ciclos econ\u00f4micos e n\u00e3o por d\u00e9cadas. O per\u00edodo 2000-2010, por exemplo, inclui momentos de forte crescimento da economia e da produtividade mundias no come\u00e7o da d\u00e9cada, seguido de outro per\u00edodo caracterizado por um crescimento econ\u00f4mico e um aumento da produtividade mais fr\u00e1geis, que n\u00e3o chegavam a 1,0%. Em realidade, tanto o crescimento econ\u00f4mico quanto o crescimento da produtividade foram muito mais baixos depois de 2005 que durante todo o per\u00edodo entre 1975 e 1995. Ao analisar o crescimento da produtividade nos sectores n\u00e3o agr\u00edcolas dos Estados Unidos, podemos ver que tal crescimento \u00e9 muito baixo. Se a revolu\u00e7\u00e3o digital fosse t\u00e3o ampla e efetiva, ter\u00edamos que estar diante de um grande crescimento da produtividade agora. Mas n\u00e3o o vemos.<\/span><\/p>\n<p><b>Como explicar as diferen\u00e7as entre o crescimento da produtividade e do emprego?<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Outro argumento normalmente usado para defender o impacto negativo da revolu\u00e7\u00e3o digital sobre os empregos \u00e9 que enquanto os per\u00edodos anteriores de grande crescimento econ\u00f4mico e de grande aumento da produtividade foram acompanhados de uma grande cria\u00e7\u00e3o de emprego, a partir do ano 2000, o crescimento econ\u00f4mico e da produtividade n\u00e3o veio acompanhado de um crescimento desse emprego. E isso se atribui, de novo, \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o digital.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Entretanto, o aumento da produtividade n\u00e3o tem sido maior, pelo contr\u00e1rio, foi menor que em \u00e9pocas anteriores. Poderia argumentar-se que isso se deve a que tal revolu\u00e7\u00e3o digital tem sido menos extensa do que n\u00f3s imaginamos, ou que o impacto desta revolu\u00e7\u00e3o digital depende de outras vari\u00e1veis, entre as quais as pol\u00edticas s\u00e3o as mais determinantes. \u00c9 necess\u00e1rio aqui n\u00e3o confundir o crescimento da produtividade num setor da economia com o crescimento da produtividade m\u00e9dia em toda a economia de um pa\u00eds. Uma coisa \u00e9 que se estabele\u00e7am novas tecnologias, e outra coisa \u00e9 a difus\u00e3o da mesma. Por outro lado, todas as evid\u00eancias demonstram que as vari\u00e1veis pol\u00edticas, e particularmente a rela\u00e7\u00e3o capital-trabalho (a chamada luta de classes), s\u00e3o determinantes para entender a evolu\u00e7\u00e3o do emprego.<\/span><\/p>\n<p><b>A precariedade na Espanha<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Os dados mostram claramente que a precariedade no mercado espanhol tem crescido massivamente durante os anos da grande recess\u00e3o, no final da d\u00e9cada passada. Tal fen\u00f4meno ocorre com especial intensidade no sul da Europa (e mais ainda em pa\u00edses como Gr\u00e9cia, Espanha e Portugal), onde o mundo empresarial sempre teve, historicamente, um grande poder, enquanto o mundo do trabalho sempre foi fr\u00e1gil, com sindicatos fr\u00e1geis e partidos de esquerda divididos e em conflito). Estas s\u00e3o as ra\u00edzes do enorme crescimento do desemprego e da grande deteriora\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, assim como da queda no n\u00edvel dos sal\u00e1rios, como efeito colateral. Os pa\u00edses acima citados tamb\u00e9m s\u00e3o os que t\u00eam os mais baixos gastos p\u00fablicos por habitante. A revolu\u00e7\u00e3o digital n\u00e3o teve rela\u00e7\u00e3o comprovada com nenhum desses fatos acima citados. Na verdade, a tal revolu\u00e7\u00e3o digital est\u00e1 muito mais atrasada nos pa\u00edses do sul que nos do norte da Europa.<\/span><\/p>\n<p><b>Em meio \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a precariedade segue sendo alt\u00edssima<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Abundam as discuss\u00f5es sobre como as pol\u00edticas p\u00fablicas neoliberais (as pol\u00edticas de austeridade, causa dos enormes cortes do gasto p\u00fablico social, e as reformas trabalhistas, respons\u00e1veis pela deteriora\u00e7\u00e3o do trabalho) t\u00eam um impacto muito negativo nas condi\u00e7\u00f5es oferecidas aos trabalhadores, causando ademais uma diminui\u00e7\u00e3o da renda do trabalho para favorecer o crescimento dos lucros do capital. Entre os pa\u00edses mais desenvolvidos da Uni\u00e3o Europeia, a Espanha \u00e9 um dos que tem uma das rendas do trabalho mais baixas: os sal\u00e1rios chegaram a um recorde negativo, no ano de 2013, quando representaram apenas 47,2% do PIB. No come\u00e7o da crise, em 2007, era quase 50% do PIB.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Ultimamente, o governo espanhol faz alarde de um pa\u00eds que supostamente \u00e9 o que mais cria empregos entre os quinze mais desenvolvidos da Uni\u00e3o Europeia \u2013 sem esclarecer que a grande maioria desses empregos \u00e9 prec\u00e1rio, alcan\u00e7ando dimens\u00f5es massivas desse problema entre os jovens. Isso se deve a que estas cifras ocultam que um n\u00famero muito elevado de jovens v\u00ea a necessidade de imigrar para encontrar trabalho, enquanto outros abandonaram a busca por trabalho, alargando deliberadamente seus per\u00edodos de estudos.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Uma nota importante que cabe destacar \u00e9 que a precariedade aparece tanto entre os trabalhadores com elevadas qualifica\u00e7\u00f5es quanto entre os pouco qualificados. A precariedade se apresenta n\u00e3o s\u00f3 no com\u00e9rcio, na constru\u00e7\u00e3o, no turismo, nos servi\u00e7os dom\u00e9sticos e no trabalho agr\u00edcola, mas tamb\u00e9m nos setores de elevada qualifica\u00e7\u00e3o, como m\u00e9dicos, engenheiros, arquitetos, advogados e professores. Os contratos curtos, tempor\u00e1rios, com sal\u00e1rios baixos, est\u00e3o se propagando por todos esses setores, incluindo os que se consideravam protegidos. E, novamente, isso tem pouco a ver com a revolu\u00e7\u00e3o digital, e sim com a debilidade crescente do mundo sindical ou associativo.<\/span><\/p>\n<p><b>O ataque ao mundo do trabalho<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Esta debilidade do mundo do trabalho explica tamb\u00e9m a grande perda de prote\u00e7\u00e3o social entre os trabalhadores. Na Espanha, entre 2010 e 2014, o gasto em medidas para contar o desemprego caiu 25%, apesar do evidente crescimento do desemprego. As pessoas que passam dois anos ou mais sem emprego representam quase 45% do total de desempregados, com mais de 1,6 milh\u00e3o de lares nos quais nenhuma das pessoas que l\u00e1 moram tem trabalho. Entre os que est\u00e3o trabalhando, somente entre 2010 e 2013, o sal\u00e1rio m\u00e9dio caiu em cerca de 600 euros. Na verdade, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), o n\u00famero de trabalhadores pobres (com renda abaixo do n\u00edvel de pobreza) da Espanha \u00e9 um dos mais altos entre os quinze pa\u00edses mais desenvolvidos da Uni\u00e3o Europeia. A diminui\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios e do emprego est\u00e3o entre as maiores causas do crescimento da pobreza, que j\u00e1 era alta antes da grande recess\u00e3o. Quase 30% da popula\u00e7\u00e3o espanhola est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de risco de pobreza. A renda m\u00e9dia familiar na Espanha \u00e9 de 26,7 mil euros, e a renda m\u00e9dia individual \u00e9 10,5 mil euros \u2013 registrando queda em ambos os casos, de 11% nas rendas familiares e 7% nas individuais, entre 2009 e 2015. De novo, a revolu\u00e7\u00e3o digital teve muito pouco a ver com esse quadro. A principal causa foi a ofensiva do mundo do capital (promotor das pol\u00edticas neoliberais) contra o mundo do trabalho, que vem perdendo claramente neste conflito.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">As consequ\u00eancias econ\u00f4micas, sociais e humanas t\u00eam sido enormes. Na verdade, estas pol\u00edticas de austeridade e de reformas trabalhistas regressivas v\u00eam criando um enorme problema de falta de demanda, a principal causa do escasso crescimento da Uni\u00e3o Europeia, e tamb\u00e9m da Espanha. A queda na arrecada\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos resultados tamb\u00e9m percebido, como bem mostram os dados. Apesar do \u201cenorme\u201d aumento do n\u00famero de contribuintes da Seguridade Social (que \u00e9 apresentado err\u00f4nea e maliciosamente como exemplo de sucesso do governo de Mariano Rajoy em termos de cria\u00e7\u00e3o de empregos), a arrecada\u00e7\u00e3o deste servi\u00e7o tem crescido de forma irris\u00f3ria. Enquanto o gasto p\u00fablico dedicado \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de empregos se reduziu pela metade durante a grande recess\u00e3o do final da d\u00e9cada passada, o gasto em seguridade p\u00fablica para os desempregados (equivalente ao fundo de garantia) diminuiu em quase 25% desde 2010. Tudo isso teve um custe humano tremendo. Sabe-se que as crises econ\u00f4micas t\u00eam um custe elevad\u00edssimo para a sa\u00fade, para a qualidade de vida e o bem-estar das popula\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Na Espanha, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais acentuada. A precariedade no trabalho cresceu 3,3% nos primeiros seis meses do ano, e essa cifra significa que quase dois trabalhadores morrem por m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho no pa\u00eds a cada dia. A \u201cviol\u00eancia\u201d no trabalho \u00e9 maior que qualquer outro tipo de viol\u00eancia conhecido na Espanha. E digo viol\u00eancia porque um grande n\u00famero entre as mortes j\u00e1 citadas se d\u00e3o em casos que s\u00e3o evit\u00e1veis, e que n\u00e3o se evitam. A resigna\u00e7\u00e3o diante dessa viol\u00eancia \u00e9 resultado do medo que o trabalhador tem de perder o emprego. E, de novo, isso tem pouco a ver com a revolu\u00e7\u00e3o digital.<\/span><\/p>\n<p>http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Desemprego-e-precariedade-sao-frutos-da-revolucao-digital-\/6\/36518<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vicen\u00e7 Navarro &#8211; As pol\u00edticas neoliberais t\u00eam um impacto muito negativo para os trabalhadores, causando a diminui\u00e7\u00e3o da renda para favorecer os lucros do capital. 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