{"id":14745,"date":"2021-01-21T12:13:36","date_gmt":"2021-01-21T15:13:36","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14745"},"modified":"2021-01-19T18:15:06","modified_gmt":"2021-01-19T21:15:06","slug":"o-bolsonarismo-penetra-em-terreno-minado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/01\/21\/o-bolsonarismo-penetra-em-terreno-minado\/","title":{"rendered":"O bolsonarismo penetra em terreno minado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Juarez Guimar\u00e3es<\/strong> &#8211; Ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018, realizadas j\u00e1 em um ambiente de colapso democr\u00e1tico na sequ\u00eancia do golpe de 2016, houve um debate sobre como qualificar politicamente o novo governo, como avaliar a sua for\u00e7a e estabilidade e sobre qual caminho estrat\u00e9gico para enfrent\u00e1-lo. As diverg\u00eancias a\u00ed surgidas est\u00e3o na base da dificuldade de unidade e de protagonismo nacional das esquerdas, que se manifestou durante estes dois \u00faltimos anos e nitidamente nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2020. Por isso, longe de ser apenas um exerc\u00edcio retrospectivo, um balan\u00e7o de dois anos do governo Bolsonaro deve ser capaz de criar um campo de previs\u00e3o, condicionado e prudencial, sobre sua din\u00e2mica neste ano de 2021 capaz de orientar uma diretriz e um campo unit\u00e1rios de a\u00e7\u00e3o das esquerdas brasileiras.<\/p>\n<p>O primeiro erro que se v\u00ea em muitos balan\u00e7os \u00e9 o de analisar o bolsonarismo e seu governo como um fato dissociado da coaliz\u00e3o neoliberal que o elegeu, que o apoiou num primeiro momento e que continua ainda protegendo o seu mandato criminoso. Isto equivale a lhe retirar o car\u00e1ter de classe, de ser instrumental a um capital financeiro internacional predat\u00f3rio, de atribuir o bolsonarismo a uma mera pervers\u00e3o pol\u00edtica que deveria ser bem compreendida em sua singularidade. Este erro organiza o ju\u00edzo da m\u00eddia neoliberal sobre Bolsonaro, mas \u00e9 muito frequente em analistas da esquerda.<\/p>\n<p>O segundo erro \u00e9 o de n\u00e3o compreender que o bolsonarismo \u00e9 um americanismo, que formou a sua for\u00e7a pol\u00edtica em linha direta com o trumpismo nos Estados Unidos, sendo de fato uma for\u00e7a org\u00e2nica a ele em seus valores, seu programa, sua linguagem, sua forma de fazer pol\u00edtica, seu aparato tecnol\u00f3gico de comunica\u00e7\u00e3o, sua pragm\u00e1tica. Sem trumpismo n\u00e3o existiria o bolsonarismo tal como o conhecemos. E \u00e9 evidente que a derrota eleitoral do trumpismo, o fato de ele n\u00e3o dirigir o Estado ainda mais poderoso do mundo, apesar de manter sua base social e sua pot\u00eancia eleitoral, afeta diretamente a for\u00e7a e a evolu\u00e7\u00e3o do bolsonarismo.<\/p>\n<p>O terceiro erro seria o de n\u00e3o compreender o que h\u00e1 de singularidade no processo de forma\u00e7\u00e3o do bolsonarismo, sua capacidade e seus impasses na forma\u00e7\u00e3o de sua pot\u00eancia de poder. Sua origem ali onde o Estado brasileiro mais estava destru\u00eddo, no territ\u00f3rio do crime organizado do Rio de Janeiro, sua alian\u00e7a com seitas evang\u00e9licas que fazem da religi\u00e3o um neg\u00f3cio s\u00f3rdido de acumula\u00e7\u00e3o e fraude, sua liga\u00e7\u00e3o org\u00e2nica com a m\u00e1quina de propaganda criminosa de Steve Bannon na campanha eleitoral e sua ancoragem em setores de uma corpora\u00e7\u00e3o militar que professa abertamente o orgulho de ter torturado prisioneiros pol\u00edticos, s\u00f3 p\u00f4de caminhar ao centro do poder porque contou com a cobertura e omiss\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es m\u00e1ximas do sistema de justi\u00e7a brasileiro centralizada em uma din\u00e2mica de\u00a0<em>Lawfare<\/em>, em uma opera\u00e7\u00e3o de guerra contra as esquerdas.<\/p>\n<p>O bolsonarismo n\u00e3o forma uma coaliz\u00e3o est\u00e1vel de poder e provavelmente isto est\u00e1 fora de sua pot\u00eancia de poder: seu car\u00e1ter de fac\u00e7\u00e3o o torna permanentemente ref\u00e9m das crises que gera em suas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. O culto \u00e0 viol\u00eancia e ao exterm\u00ednio dos advers\u00e1rios n\u00e3o \u00e9, por isso, estranho \u00e0 sua identidade: o bolsonarismo, na c\u00e9lebre met\u00e1fora de Maquiavel, trabalha com pouco consenso e o m\u00e1ximo de for\u00e7a. Isto estreita a sua base social e mina as media\u00e7\u00f5es de uma coaliz\u00e3o pol\u00edtica ampla e est\u00e1vel. Ao contr\u00e1rio de Trump, Bolsonaro n\u00e3o tem uma m\u00e1quina de um Partido Republicano por detr\u00e1s. E mesmo os \u201cpastores\u201d evang\u00e9licos, bem se sabe, s\u00e3o fi\u00e9is sobretudo a seus interesses: em uma situa\u00e7\u00e3o de forte diminui\u00e7\u00e3o da popularidade do Bolsonarismo, eles podem mesmo desertar de apoi\u00e1-lo, assim como fizeram com outras lideran\u00e7as pol\u00edticas, inclusive por um momento, Lula.<\/p>\n<p>Este artigo de balan\u00e7o do governo Bolsonaro trabalha com uma hip\u00f3tese central: a de que seu governo aprofundar\u00e1 em 2021 sua condi\u00e7\u00e3o ag\u00f4nica de legitimidade pol\u00edtica. A evolu\u00e7\u00e3o, o ritmo e o desdobramento pol\u00edtico desta tend\u00eancia central \u00e0 crise de legitimidade do governo Bolsonaro depender\u00e1, em larga medida, da resposta que as for\u00e7as de esquerda fornecerem a ela.<\/p>\n<h4><strong>Bolsonaro e a coaliz\u00e3o neoliberal<\/strong><\/h4>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre a lideran\u00e7a pol\u00edtica de Bolsonaro e a coaliz\u00e3o neoliberal passou at\u00e9 agora por seis fases. A primeira delas, que cobre o per\u00edodo de desestabiliza\u00e7\u00e3o do governo Dilma e grande parte do governo Temer, \u00e9 de converg\u00eancia no trabalho de combate frontal ao PT e encaminhamento da agenda neoliberal. Esta fase corresponde a uma acumula\u00e7\u00e3o inicial de for\u00e7as do bolsonarismo enquanto fen\u00f4meno pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A segunda fase, durante o primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es de 2018, \u00e9 marcada pela disputa sobre quem se posicionaria melhor para derrotar a amea\u00e7a de um retorno das esquerdas ao governo do pa\u00eds. Neste per\u00edodo, houve j\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do bolsonarismo com o trumpismo e um primeiro acolhimento por parte de setores das For\u00e7as Armadas brasileiras de seu projeto pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Uma terceira fase, de uma segunda converg\u00eancia, ocorre j\u00e1 no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es de 2018, quando todos os partidos da direita, inclusive o PSDB, o DEM e o PMDB, engajaram-se ativamente no apoio \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro. A absten\u00e7\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso tinha a\u00ed um mero papel simb\u00f3lico: os principais candidatos do seu partido aos governos estaduais, nas disputas do segundo turno, apoiaram abertamente Bolsonaro. Sem este apoio, Bolsonaro n\u00e3o teria sido eleito presidente.<\/p>\n<p>Abriu-se, ent\u00e3o, uma quarta fase, de uma converg\u00eancia de agendas, na qual os partidos da coaliz\u00e3o neoliberal formaram um apoio midi\u00e1tico, parlamentar e pol\u00edtico \u00e0s reformas neoliberais priorit\u00e1rias, centralizadas na destrui\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia p\u00fablica. Guardando uma autonomia diante de pautas mais retr\u00f3gradas, em particular no que diz respeito aos costumes, os partidos neoliberais concentraram-se no apoio \u00e0 gest\u00e3o Guedes. Os \u00faltimos meses de 2019 foram ainda marcados pela campanha, por exemplo, do grupo Globo e de toda m\u00eddia neoliberal em anunciar uma retomada do crescimento econ\u00f4mico do Brasil, inclusive com manipula\u00e7\u00e3o de dados, que seria brutalmente desmentida no in\u00edcio de 2020.<\/p>\n<p>O primeiro semestre de 2020, j\u00e1 no contexto da pandemia e de um recrudescimento de uma din\u00e2mica bolsonarista de ataque ao STF e de captura da Pol\u00edcia Federal e da Procuradoria Geral da Rep\u00fablica, pode ser caracterizado como uma quinta fase, de um conflito autolimitado entre a coaliz\u00e3o neoliberal e o governo Bolsonaro. A sa\u00edda de Moro, os conflitos envolvendo a dire\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e da Educa\u00e7\u00e3o, as tomadas de posi\u00e7\u00e3o do STF e da C\u00e2mara Federal, impondo limites aos movimentos mais explicitamente inconstitucionais do governo Bolsonaro, s\u00e3o epis\u00f3dios expressivos desta fase. Chamamos de um conflito autolimitado porque os partidos e a m\u00eddia neoliberal, ao mesmo tempo, bloquearam politicamente, na m\u00eddia, no STF e na C\u00e2mara Federal, um movimento potencialmente expansivo de uma campanha pelo impeachment ou impugna\u00e7\u00e3o judicial de Bolsonaro, devido aos seus flagrantes crimes de responsabilidade.<\/p>\n<p>De fato, houve em meados de 2020 uma pactua\u00e7\u00e3o de reposi\u00e7\u00e3o da governabilidade de Bolsonaro, envolvendo diretamente o presidente do STF, a presid\u00eancia da C\u00e2mara e do Senado, a dire\u00e7\u00e3o dos partidos neoliberais e a m\u00eddia empresarial: este, de um lado, recuou em seus ataques direitos ao STF, em suas campanhas olavistas capitaneadas por seus filhos, recomp\u00f4s uma base parlamentar de modo fisiol\u00f3gico no Congresso Nacional, aprofundou qualitativamente a inser\u00e7\u00e3o de quadros das For\u00e7as Armadas em seu centro estrat\u00e9gico, trocou o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o; de outro, os partidos neoliberais amorteceram suas cr\u00edticas ao governo Bolsonaro, em busca de uma recomposi\u00e7\u00e3o de agenda em torno de reformas neoliberais e novas privatiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esta tr\u00e9gua, com a apropria\u00e7\u00e3o dos efeitos massivos e de profundo impacto social do Aux\u00edlio Emergencial, proposto pela oposi\u00e7\u00e3o de esquerda e centro-esquerda, o governo Bolsonaro viu pelo menos uma suspens\u00e3o de uma din\u00e2mica de crescente impopularidade, muito forte e expressiva desde o in\u00edcio de seu governo, e at\u00e9 mesmo de uma recupera\u00e7\u00e3o na margem de popularidade.<\/p>\n<p>Esta quinta fase de um conflito autolimitado, que cobre inclusive o per\u00edodo das elei\u00e7\u00f5es municipais de 2020, se expressou atrav\u00e9s de uma disputa nos primeiros turnos (em geral com resultados negativos para o bolsonarismo) e com uma recomposi\u00e7\u00e3o de uma din\u00e2mica eleitoral unit\u00e1ria entre bolsonarismo e neoliberais anti-esquerda nos segundos turnos. Em v\u00e1rias capitais, como Porto Alegre e S\u00e3o Paulo, onde a esquerda disputou o segundo turno, a vota\u00e7\u00e3o final expressa quase que inteiramente a polariza\u00e7\u00e3o do segundo turno das elei\u00e7\u00f5es de 2018, revelando a continuidade da converg\u00eancia eleitoral da coaliz\u00e3o neoliberal e bolsonarismo.<\/p>\n<p>Inicia-se, ent\u00e3o, uma sexta fase em que prevalecer\u00e1 a delimita\u00e7\u00e3o e a disputa da coaliz\u00e3o neoliberal com o bolsonarismo, acumulando for\u00e7as para uma disputa em 2022, autolimitada na quest\u00e3o central do questionamento da legitimidade de seu mandato. N\u00e3o se pode descartar uma ruptura da alian\u00e7a entre a coaliz\u00e3o neoliberal e o bolsonarismo, mas ela n\u00e3o \u00e9 ainda uma hip\u00f3tese central e depende do agravamento de sua crise de legitimidade de governo incontrolada em uma din\u00e2mica pol\u00edtica aberta na qual outras for\u00e7as e fatores joguem seu peso.<\/p>\n<p>Esta din\u00e2mica s\u00f3 pode ser melhor pensada se aprofunda-se uma avalia\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do bolsonarismo com o programa hist\u00f3rico do neoliberalismo de refunda\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro.<\/p>\n<h4><strong>Neoliberalismo, unidade e conflito<\/strong><\/h4>\n<p>J\u00e1 em sua forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, como documentam Philip Mirowski e Dieter Plehwe em\u00a0<em>The Making of the Neoliberal thought colletive<\/em>\u00a0(Harvard University Press, 2009), o neoliberalismo \u00e9 uma converg\u00eancia de uma s\u00e9rie de tradi\u00e7\u00f5es intelectuais e pol\u00edticas cr\u00edticas ao socialismo, aos fundamentos republicanos da democracia e ao chamado \u201cliberalismo social\u201d ou \u201cigualit\u00e1rio\u201d ou keynesiano. No mundo contempor\u00e2neo, em sua extens\u00e3o e complexidade, o neoliberalismo converge em coaliz\u00f5es de poder atrav\u00e9s de v\u00e1rias linguagens pol\u00edticas diferentes.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o da liberdade com uma ontologia mercantil, que est\u00e1 no centro da identidade neoliberal, pode conviver com desde uma ditadura militar como a de Pinochet at\u00e9 uma democracia liberal na qual os fundamentos da soberania popular est\u00e3o severamente neutralizados. J\u00e1 nos anos setenta, analisando o fen\u00f4meno da ades\u00e3o de massas do thatcherismo, inclusive no interior das classes trabalhadoras inglesas, Stuart Hall chamava a aten\u00e7\u00e3o para a fus\u00e3o entre estes valores de mercado e as culturas conservadoras no plano da moral.<\/p>\n<p>Esta fus\u00e3o j\u00e1 \u00e9, de fato, verific\u00e1vel no pensamento original de Hayek como insiste agora Wendy Brown, corrigindo certo unilateralismo de sua interpreta\u00e7\u00e3o anterior do neoliberalismo. A feminista e marxista Nancy Fraser identificou um neoliberalismo \u201cprogressivista\u201d, t\u00edpico do Partido Democrata norte-americano, isto \u00e9, que conjugava a centralidade dos valores do mercado com certos valores anti-patriarcais e anti-racistas. Esta compreens\u00e3o hist\u00f3rica e conceitual b\u00e1sica do neoliberalismo serve para analisar a unidade e conflito entre a coaliz\u00e3o neoliberal no Brasil e o bolsonarismo.<\/p>\n<p>Esta unidade \u00e9, em primeiro lugar, org\u00e2nica \u00e0s classes dominantes, e tem como base a radicaliza\u00e7\u00e3o do programa neoliberal para o qual confluem n\u00e3o apenas o capital financeiro, internacional e nacional, o capital industrial e midi\u00e1tico, do agro-neg\u00f3cio e comercial. Esta unidade se express\u00e3o programaticamente na refunda\u00e7\u00e3o neoliberal do Estado brasileiro atrav\u00e9s de um rompimento com dimens\u00f5es centrais das conquistas democr\u00e1ticas e republicanas presentes na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>H\u00e1 unidade em cinco dimens\u00f5es centrais desta refunda\u00e7\u00e3o neoliberal do Estado brasileiro: uma redu\u00e7\u00e3o substantiva do grau de soberania do Estado brasileiro frente aos EUA, aderindo a seus interesses geopol\u00edticos internacionais e na Am\u00e9rica Latina, abrindo o Estado brasileiro a uma din\u00e2mica profunda de rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e subordinada ao Estado norte-americano; a privatiza\u00e7\u00e3o, por dentro ou por fora, de toda a economia do setor p\u00fablico, incluindo a Petrobr\u00e1s, os bancos p\u00fablicos e o que resta das empresas p\u00fablicas; a destrui\u00e7\u00e3o dos direitos do trabalho, formada na tradi\u00e7\u00e3o varguista e enriquecida ao longo de d\u00e9cadas de lutas das classes trabalhadoras, da negocia\u00e7\u00e3o coletiva, da Justi\u00e7a do Trabalho e das din\u00e2micas de representa\u00e7\u00e3o sindical; a redu\u00e7\u00e3o a um padr\u00e3o minimalista de todas as pol\u00edticas que, de forma parcial e desigual, constituem os n\u00facleos das pol\u00edticas do Estado do Bem-Estar Social, como o SUS, a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, a Previd\u00eancia Social e as pol\u00edticas de assist\u00eancia social; a quebra das dimens\u00f5es participativas e de controle social do Estado brasileiro, a redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica do sentido democr\u00e1tico dos pleitos eleitorais e a plena mercantiliza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas cinco dimens\u00f5es centrais de unidade convergem para um padr\u00e3o violento de reprodu\u00e7\u00e3o das desigualdades patriarcais e racialistas no Brasil. As mulheres e os negros t\u00eam n\u00e3o apenas as suas pol\u00edticas hist\u00f3ricas de repara\u00e7\u00e3o bloqueadas, mas sofrem brutal regress\u00e3o neste programa neoliberal de refunda\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro.<\/p>\n<p>Em todas estas cinco dimens\u00f5es, com suas resultantes patriarcais e racialistas, n\u00e3o se observou at\u00e9 agora nenhuma diferen\u00e7a fundamental entre a coaliz\u00e3o neoliberal e o bolsonarismo. Pelo contr\u00e1rio, converg\u00eancia profunda. No plano estadual, governos do PSDB, do PMDB ou do DEM praticam, de fato, estas diretrizes program\u00e1ticas fundamentais.<\/p>\n<p>O acordo fundamental sobre este vasto programa de destrui\u00e7\u00e3o do que se acumulou de democr\u00e1tico e republicano no estado brasileiro cessa quando se disputa o que colocar no lugar: h\u00e1 decerto \u2013 e ignor\u00e1-lo seria um erro pol\u00edtico importante \u2013 uma diferen\u00e7a de regime pol\u00edtico entre o proposto pelo bolsonarismo e aquele proposto pela coaliz\u00e3o neoliberal. Ou seja, entre um regime pol\u00edtico protofascista militarizado e extremado em suas dimens\u00f5es coercitivas, e um regime constitucional neoliberal, no qual as for\u00e7as democr\u00e1ticas e populares aparecem exclu\u00eddas do pacto de domina\u00e7\u00e3o e submetidas a um sistema de desestrutura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de forte coer\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta unidade program\u00e1tica, org\u00e2nica \u00e0s classes dominantes, e este conflito pol\u00edtico central explicam a narrativa complexa das seis fases antes referidas; submetidas \u00e0s circunst\u00e2ncias e \u00e0s indetermina\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Mas um balan\u00e7o do governo Bolsonaro e de sua din\u00e2mica exigem um esfor\u00e7o central, n\u00e3o aditivo ou complementar, de suas rela\u00e7\u00f5es internacionais. Como fen\u00f4meno de um pa\u00eds da semi-periferia, no qual a ades\u00e3o aos valores do mercado extrema a subordina\u00e7\u00e3o e a perda de soberania, o bolsonarismo tem agora de acertar as contas com o Estado ainda mais poderoso do mundo, que lhe foi uma fonte fundamental de apoio nos dois anos de seu mandato.<\/p>\n<h4><strong>Trump, Biden e o futuro do bolsonarismo<\/strong><\/h4>\n<p>Devemos \u00e0 consci\u00eancia hist\u00f3rica de Celso Furtado, a compreens\u00e3o de que a soberania nacional depende fundamentalmente do grau de democratiza\u00e7\u00e3o real do Estado brasileiro, observado que as classes dominantes brasileiras tendiam historicamente a uma consci\u00eancia liberal cosmopolita e sem um projeto de na\u00e7\u00e3o. Ora, esta compreens\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 tamb\u00e9m uma chave anal\u00edtica: a desestrutura\u00e7\u00e3o da democracia brasileira, mesmo em seus limites p\u00f3s 1988, exp\u00f5e o Estado brasileiro a um forte recrudescimento da perda de sua soberania, em particular frente aos EUA.<\/p>\n<p>Toda an\u00e1lise da conjuntura brasileira desde o processo de desestabiliza\u00e7\u00e3o da democracia brasileira iniciado de fato desde as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2014 deve incorporar \u2013 n\u00e3o como externalidade \u2013 a presen\u00e7a forte dos interesses do Estado norte-americano. De fato, Arm\u00ednio Fraga, indicado para ser o Ministro da Fazenda do presumido governo A\u00e9cio Neves, \u00e9 um homem mais de\u00a0<em>Wall Street<\/em>\u00a0do que da Avenida Paulista. Esta forte presen\u00e7a do Estado norte-americano e de sua rede de poder econ\u00f4mico financeiro j\u00e1 est\u00e1 fartamente documentada nas rela\u00e7\u00f5es da Opera\u00e7\u00e3o Lava- Jato com o Departamento de Estado norte-americano pela tradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica jur\u00eddica brasileira.<\/p>\n<p>Um determinado entendimento da pol\u00edtica trabalha esta participa\u00e7\u00e3o dos EUA nestes acontecimentos relevantes da hist\u00f3ria brasileira a partir de teorias conspirativas ou como mera express\u00e3o de interesses econ\u00f4micos corporativos. Mas se a pol\u00edtica \u00e9 arte das media\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m das indetermina\u00e7\u00f5es, seria preciso entender melhor conceitualmente estas rela\u00e7\u00f5es entre as classes dominantes brasileiras e os centros de poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico do neoliberalismo no plano mundial.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/o-bolsonarismo-penetra-terreno-minado\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juarez Guimar\u00e3es &#8211; Ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018, realizadas j\u00e1 em um ambiente de colapso democr\u00e1tico na sequ\u00eancia do golpe de 2016, houve um debate sobre como qualificar politicamente o novo governo, como avaliar a sua for\u00e7a e estabilidade e sobre qual caminho estrat\u00e9gico para enfrent\u00e1-lo. 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