{"id":14739,"date":"2021-01-19T11:19:10","date_gmt":"2021-01-19T14:19:10","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14739"},"modified":"2021-01-16T11:23:52","modified_gmt":"2021-01-16T14:23:52","slug":"perplexidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/01\/19\/perplexidade\/","title":{"rendered":"Perplexidade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ven\u00edcio A. de Lima<\/strong> &#8211; H\u00e1 pouco mais de dez anos, publiquei com Bernardo Kucinski um pequeno livro \u201cdialogado\u201d que chamamos \u201c<i>Di\u00e1logos da Perplexidade \u2013 Reflex\u00f5es cr\u00edticas sobre a m\u00eddia<\/i>\u201d (Editora Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2009). Nossa\u00a0<i>perplexidade<\/i>\u00a0se referia \u00e0s muitas e radicais transforma\u00e7\u00f5es pelas quais passava a m\u00eddia \u201ctradicional\u201d diante dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos simbolizados pela internet. Em particular, a m\u00eddia impressa e o jornalismo. De certa forma, antecip\u00e1vamos os temores diante da p\u00f3s-verdade das\u00a0<i>fake news<\/i>, da intoler\u00e2ncia e do \u00f3dio hoje, infelizmente, disseminados por rob\u00f4s virtuais an\u00f4nimos e criminosos nas redes sociais.<\/p>\n<p>O Pref\u00e1cio do livro foi escrito por Muniz Sodr\u00e9, jornalista e professor da UFRJ que, muito generosamente, incluiu nossas reflex\u00f5es na tradi\u00e7\u00e3o secular inaugurada no s\u00e9culo XII pelo celebrado rabino espanhol Moshe ben Maimon, mais conhecido como Maim\u00f4nedes. Seu \u201cGuia dos Perplexos\u201d tinha como objetivo \u201c<i>tornar compreens\u00edvel o significado de palavras que aparecem nos livros prof\u00e9ticos para o leigo e o principiante (&#8230;) tomados de perplexidade e confus\u00e3o<\/i>\u201d. Para Maim\u00f4nedes, em seus ensinamentos na busca da integridade, da \u00e9tica e do aprimoramento humano, afirma Sodr\u00e9, \u201c<i>a perplexidade n\u00e3o \u00e9 estado do descaminho, mas a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade para que, da interpreta\u00e7\u00e3o adequada, surja a ilumina\u00e7\u00e3o<\/i>\u201d.<\/p>\n<p>Tenho procurado uma palavra que expresse o sentimento que me atormenta nos \u00faltimos tempos diante do pesadelo que o pa\u00eds atravessa: uma pandemia que coloca em risco a pr\u00f3pria vida, simult\u00e2nea ao desgoverno pol\u00edtico e a uma crise econ\u00f4mica sem precedentes. Tudo isso acompanhado de um impasse civilizat\u00f3rio manifesto na insanidade expl\u00edcita que chega ao desvario macabro de brincar com a morte ao som de Michael Jackson, justo no dia em que se ultrapassava o n\u00famero de 10.000 \u00f3bitos registrados em consequ\u00eancia do Covid-19.<\/p>\n<p><i>Perplexidade<\/i>, talvez seja a palavra mais adequada. Mas ser\u00e1 a\u00a0<i>perplexidade<\/i>\u00a0no sentido que lhe confere Maim\u00f4nedes, isto \u00e9, como \u201c<i>a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade para que, da interpreta\u00e7\u00e3o adequada, surja a ilumina\u00e7\u00e3o\u201d<\/i>?<\/p>\n<p><b>Os Tradicionalistas<\/b><\/p>\n<p>Para come\u00e7ar a entender o que nos torna\u00a0<i>perplexos<\/i>\u00a0talvez seja necess\u00e1rio recorrer a estudos sobre a ascens\u00e3o do radicalismo de direita em outras partes do mundo. Benjamin Teitelbaum, professor da Universidade do Colorado e premiado especialista em extrema direita, publicou recentemente um livro [<i>War for Eternity &#8211; Inside Bannon\u2019s Far Right Circle of Global Power Brokers; Dey Street Books<\/i>] que discute o \u201cTradicionalismo\u201d, uma filosofia que re\u00fane gente como Steve Bannon, ex-assessor de Donald Trump; Olavo de Carvalho, guru da chamada ala ideol\u00f3gica do governo Bolsonaro e Alexandr Dugin, assessor do presidente russo, Vladimir Putin.<\/p>\n<p>Com base na pesquisa feita para o livro, Teitelbaum explica, em artigo publicado no site \u201cA Terra \u00e9 Redonda\u201d [\u201cCovid-19: a crise que os \u2018Tradicionalistas\u2019 radicais esperavam\u201d in https:\/\/aterraeredonda.com.br\/covid-19-a-crise-que-os-tradicionalistas-radicais-esperavam\/], que \u201c<i>O Tradicionalismo \u00e9 uma doutrina radical \u2013 t\u00e3o radical que estudiosos da extrema direita como eu muitas vezes a rejeitaram como uma curiosidade obscura, desprovida de consequ\u00eancias pol\u00edticas relevantes. Alguns de seus primeiros adeptos da direita acreditavam que uma ra\u00e7a de arianos et\u00e9reos j\u00e1 viveu no Polo Norte e defendiam o estabelecimento de um patriarcado celibat\u00e1rio de padres guerreiros no lugar da democracia. (&#8230;) Entretanto, descartar o Tradicionalismo n\u00e3o \u00e9 mais uma op\u00e7\u00e3o<\/i>\u201d.<br \/>\n<b><br \/>\n<\/b>E continua: \u201c<i>O Tradicionalismo funde os ensinamentos de religi\u00f5es escolhidas para condenar o mundo moderno por causa de seu secularismo e pela falta de todos os tipos de limites. (&#8230;) O decl\u00ednio da sociedade, de acordo com o Tradicionalismo, refere-se \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o do materialismo e da homogeneiza\u00e7\u00e3o \u00e0 custa da espiritualidade e da hierarquia (isso tamb\u00e9m explica por que o Tradicionalismo cultiva um anseio apocal\u00edptico incomum).<\/i>\u201d<\/p>\n<p>Em mat\u00e9ria sobre o livro de Teitelbaum, publicada na\u00a0<i>Folha de S\u00e3o Paulo<\/i>\u00a0[\u201cFilosofia obscura une Olavo de Carvalho, Bannon e Dugin, conselheiro de Putin\u201d in\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2020\/04\/filosofia-obscura-une-olavo-de-carvalho-bannon-e-dugin-conselheiro-de-putin.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2020\/04\/filosofia-obscura-une-olavo-de-carvalho-bannon-e-dugin-conselheiro-de-putin.shtml<\/a>], a jornalista Patr\u00edcia Campos de Mello observa que \u201c<i>Os tradicionalistas acreditam que a religiosidade, a espiritualidade, deveria estar no centro da sociedade, em vez da democracia secular, da liberdade de express\u00e3o, da igualdade econ\u00f4mica. Essa corrente de pensamento tamb\u00e9m se op\u00f5e \u00e0 homogeneidade das sociedades de massa ou \u00e0 busca por igualdade; eles s\u00e3o a favor de hierarquias. Ressaltam a necessidade de se voltar ao tempo anterior \u00e0 modernidade, de buscar as religi\u00f5es n\u00e3o corrompidas<\/i>\u201d. E, fazendo uma cita\u00e7\u00e3o direta do livro, completa: \u201c<i>Para os tradicionalistas, a era das trevas em que vivemos \u00e9 o globalismo, em que a hierarquia \u00e9 destru\u00edda e n\u00e3o h\u00e1 fronteiras nem limites \u2013 e a tradu\u00e7\u00e3o m\u00e1xima disso s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es que desafiam fronteiras, como ONU, Uni\u00e3o Europeia, OMS<\/i>\u201d.<\/p>\n<p>Essa ex<i>-\u201ccuriosidade obscura\u201d\u00a0<\/i>que condena o<i>\u00a0\u201csecularismo do mundo moderno\u201d\u00a0<\/i>respons\u00e1vel pela \u201c<i>dissemina\u00e7\u00e3o do materialismo e da homogeneiza\u00e7\u00e3o \u00e0 custa da espiritualidade e da hierarquia\u201d\u00a0<\/i>n\u00e3o nos tem sido familiar?<\/p>\n<p>A defesa de uma sociedade centrada na religi\u00e3o e n\u00e3o na democracia secular, na liberdade de express\u00e3o e na busca da igualdade econ\u00f4mica, n\u00e3o nos parece conhecida?<\/p>\n<p>E a acusa\u00e7\u00e3o de que o globalismo \u00e9 o novo s\u00edmbolo da \u201cera das trevas\u201d onde a hierarquia e as fronteiras est\u00e3o sendo destru\u00eddas pela a\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es como a ONU, a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e a OMS \u2013 sobretudo esta, agora, em tempos de pandemia? N\u00e3o temos ouvido tudo isso, inclusive, de autoridades p\u00fablicas?<\/p>\n<p>Nem todos que agem como Tradicionalistas tem consci\u00eancia de que est\u00e3o colocando em pr\u00e1tica um pensamento articulado que conta com recursos bilion\u00e1rios para sua difus\u00e3o e que vem sendo \u201cexperimentado\u201d em diferentes pa\u00edses. No entanto, entre n\u00f3s, basta observar os pronunciamentos e as pol\u00edticas p\u00fablicas implementadas por alguns ministros para confirmar sua origem. Ernesto Ara\u00fajo e Abraham Weintraub s\u00e3o apenas os exemplos mais expl\u00edcitos.<\/p>\n<p><b>A doutrina do\u00a0<\/b><b>dispensacionalismo<\/b><b><\/b><\/p>\n<p>Teitelbaum salienta um aspecto que talvez nos ajude a melhor entender o sentimento de\u00a0<i>perplexidade<\/i>\u00a0no Brasil. Diz ele:<i>\u00a0\u201co Tradicionalismo cultiva um anseio apocal\u00edptico incomum\u201d.<\/i><\/p>\n<p>O governo Bolsonaro se comprometeu em mudar para Jerusal\u00e9m a Embaixada do Brasil em Israel. A bandeira do estado de Israel tem aparecido (ao lado da bandeira dos Estados Unidos) em v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es da extrema direita entre n\u00f3s. Qual a explica\u00e7\u00e3o para estas posi\u00e7\u00f5es? Em que fundamentos se justificam?<\/p>\n<p>Desde pelo menos o in\u00edcio do segundo mandato de Dilma Rousseff temos assistido a manifesta\u00e7\u00f5es de grupos evang\u00e9licos em defesa de a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e militares do governo de Israel. Esses grupos se mobilizam atrav\u00e9s de entidades como a Associa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 de Homens e Mulheres de Neg\u00f3cio e a Comunidade Brasil-Israel. Numa dessas ocasi\u00f5es, foi entregue ao Itamaraty um documento que criticava o governo Dilma por ter condenado os ataques de Israel \u00e0 Faixa de Gaza e n\u00e3o ter censurado as a\u00e7\u00f5es do grupo Hamas. Um dos organizadores do ato afirmou: \u201c<i>Quando o governo (brasileiro) fala mal de Israel, fala mal de nosso Jesus. E Israel tem o direito de se defender<\/i>\u201d [cf. BBC News Brasil, 6\/8\/2014, \u201cL\u00edderes evang\u00e9licos saem em defesa de Israel e criticam Dilma\u201d, in\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2014\/08\/140806_evangelicos_israel_dilma_jf_kb\">https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2014\/08\/140806_evangelicos_israel_dilma_jf_kb<\/a>].<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a da Embaixada brasileira em Israel, de Tel Aviv para Jerusal\u00e9m, foi uma promessa de campanha de Jair Bolsonaro. A transfer\u00eancia era \u201c<i>demanda priorit\u00e1ria de lideran\u00e7as evang\u00e9licas que entendem que o reconhecimento de Jerusal\u00e9m como capital de Israel atende preceitos b\u00edblicos<\/i>\u201d. Uma estudiosa das rela\u00e7\u00f5es entre pol\u00edtica e religi\u00e3o explica que denomina\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas acreditam que &#8220;<i>a promessa b\u00edblica de Deus da Terra Santa ao povo judeu \u00e9 literal e eterna<\/i>&#8220;. Para elas, o retorno dos Judeus \u00e0 Terra Santa &#8211; ou seja, a consolida\u00e7\u00e3o plena de Israel &#8211; \u00e9 necess\u00e1ria para a volta de Cristo. [Cf. BBC News Brasil, 9\/1\/2019, \u201cComo o apoio evang\u00e9lico ajudou a aproximar Israel e governo Bolsonaro\u201d in\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-46790185\">https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-46790185<\/a>\u00a0].<br \/>\n<b><br \/>\n<\/b>Em longo artigo publicado no jornal Valor [\u201cA F\u00e9 que move o Planalto e at\u00e9 Embaixadas\u201d, 14\/12\/2018), Yan Boechat observa que \u201c<i>A aproxima\u00e7\u00e3o com Israel tem como base e raz\u00e3o a teologia apocal\u00edptica pentecostal, que defende: a segunda vinda de Jesus Cristo \u00e0 Terra, o Armagedon e o consequente Ju\u00edzo Final s\u00f3 se concretizar\u00e3o quando os judeus finalmente retomarem Jerusal\u00e9m e toda a Terra Santa. Para l\u00edderes religiosos como Edir Macedo, Silas Malafaia, Marco Feliciano e os quase 200 deputados da Frente Parlamentar Evang\u00e9lica, defender Israel e lutar para que os judeus controlem a Palestina h\u00e1 de garantir b\u00ean\u00e7\u00e3os terrenas e acelerar as promessas divinas de uma vida eterna no para\u00edso ap\u00f3s o fim dos tempos. \u00c9 uma vis\u00e3o de mundo, em que os judeus est\u00e3o no centro da realiza\u00e7\u00e3o de todas as profecias b\u00edblicas<\/i>\u201d.<br \/>\n<b><br \/>\n<\/b>Dentro dessa perspectiva, a incorpora\u00e7\u00e3o de elementos da cultura judaica por denomina\u00e7\u00f5es neopentecostais n\u00e3o \u00e9 fato novo no Brasil. Em algumas delas, como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), esse fato \u00e9 not\u00f3rio. Seu l\u00edder m\u00e1ximo, Edir Macedo, \u201c<i>se apropriou de s\u00edmbolos da religi\u00e3o (judaica) ao usar o solid\u00e9u, ou quip\u00e1, o talit, o manto das ora\u00e7\u00f5es com tran\u00e7as nas pontas, e expor em seus templos r\u00e9plicas da menor\u00e1 e da Arca da Alian\u00e7a<\/i>\u201d. Ademais, Macedo \u201c<i>cultiva excelentes rela\u00e7\u00f5es com governantes e pol\u00edticos israelenses. (&#8230;) O governo de Israel era grato a Macedo pelas caravanas de milhares de peregrinos. A Universal ergueu templos em Tel Aviv, Haifa e Nazar\u00e9. Na estrat\u00e9gia de estreitamento das rela\u00e7\u00f5es com o juda\u00edsmo, no entanto, o lance mais ousado e espetacular foi copiar o mitol\u00f3gico Templo de Salom\u00e3o. (&#8230;) Foram quatro os anos que levou para ficar pronto e 680 os milh\u00f5es de reais que o pagaram<\/i>\u201d [Cf. Gilberto Nascimento, \u201cO Reino \u2013 A hist\u00f3ria de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal\u201d, Cia. das Letras, 2019; pp. 235, 237-238, passim].<br \/>\n<b><br \/>\n<\/b>Por detr\u00e1s de todas essas atitudes est\u00e1 uma doutrina escatol\u00f3gica conhecida como \u201cdispensacionalismo\u201d. Recorro a um estudo da pesquisadora Marta Francisca Topel, da USP. Vale a longa cita\u00e7\u00e3o. Diz ela:\u00a0<i>o\u00a0<\/i><i>dispensacionalismo, em graus e modos diversos, tem influenciado a maioria das igrejas pentecostais e neopentecostais brasileiras. Formulado nos Estados Unidos nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, o dispensacionalismo parte da premissa que, do mesmo modo que a primeira vinda de Jesus teve como objetivo salvar o povo judeu, sua volta ter\u00e1 a mesma fun\u00e7\u00e3o. Mais precisamente: na segunda vinda, Jesus se manifestar\u00e1 em Jerusal\u00e9m e dessa cidade iniciar\u00e1 seu reinado messi\u00e2nico. Em poucas palavras: o ponto de partida j\u00e1 n\u00e3o se encontra em Roma, mas tem retornado a Jerusal\u00e9m. O dispensacionalismo, cujo componente milenarista \u00e9 primordial, baseia-se numa hermen\u00eautica b\u00edblica particular que divide o tempo em diferentes eras (ou dispensa\u00e7\u00f5es) nas quais Deus se relaciona com os humanos atrav\u00e9s de alian\u00e7as singulares, a exemplo da alian\u00e7a feita com Abra\u00e3o, com Mois\u00e9s, com a Igreja e, por \u00faltimo, com o sionismo. Esta vis\u00e3o se relaciona diretamente com o conceito de revela\u00e7\u00e3o progressiva. Por sua vez, os dispensacionalistas partem da premissa de que, embora a na\u00e7\u00e3o de Israel se diferencie da Igreja, esta distin\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mutuamente exclusiva. Assim, Deus cumprir\u00e1 as promessas feitas aos israelitas; entre elas, o restabelecimento do reinado dav\u00eddico em Jerusal\u00e9m, lugar do qual Cristo governar\u00e1 o mundo. \u00c0 diferen\u00e7a do pregado pelas igrejas cat\u00f3lica, ortodoxa e anglicana, entre outras, os dispensacionalistas n\u00e3o acreditam numa cis\u00e3o entre a na\u00e7\u00e3o de Israel e a igreja, isto \u00e9, o cristianismo: ambas constituem o povo de Deus e ambas ser\u00e3o salvas. Entretanto, um ponto deve ser lembrado: da mesma forma que o cristianismo de modo geral, os dispensacionalistas acreditam que no final dos tempos haver\u00e1 um fluxo maci\u00e7o de judeus ao cristianismo\u201d<\/i>. [Cf.<i>.\u00a0<\/i>\u201cA Inusitada Incorpora\u00e7\u00e3o do Juda\u00edsmo em vertentes crist\u00e3s brasileiras: algumas reflex\u00f5es\u201d, Revista Brasileira de Hist\u00f3ria das Religi\u00f5es, Ano IV, n. 10, Maio de 2011, pp. 39-40].<\/p>\n<p>Nem todo Tradicionalista \u00e9 adepto da doutrina dispensacionalista e vice-versa. Mas, como qualquer observador atento pode atestar, entre n\u00f3s, a intera\u00e7\u00e3o entre as duas posi\u00e7\u00f5es \u00e9 expl\u00edcita. E fundamental. Boa parte dos l\u00edderes evang\u00e9licos brasileiros, com presen\u00e7a pol\u00edtica ativa, s\u00e3o Tradicionalistas e dispensacionalistas. Decorre da\u00ed o alinhamento com movimentos evang\u00e9licos sionistas dos Estados Unidos e a identidade pol\u00edtica com o estado de Israel.<\/p>\n<p><b>Um pa\u00eds sem projeto<\/b><\/p>\n<p>\u201c<i>Como pensar o desaparecimento de um projeto de pa\u00eds integrado e com justi\u00e7a social\u201d<\/i>? Esta \u00e9 a pergunta com a qual a professora da USP, Maria Elisa Cevasco, inicia um texto denso e erudito, escrito antes do golpe que tirou Dilma Rousseff do poder em 2016 [\u201cA Critica Cultural L\u00ea o Brasil\u201d in A. Singer e I. Loreiro, orgs. \u201cAs Contradi\u00e7\u00f5es do Lulismo \u2013 A que ponto chegamos\u201d?, Boitempo, 2016].<\/p>\n<p>A quest\u00e3o proposta faz eco \u00e0 epigrafe do pr\u00f3prio texto, escrita por Roberto Schwarz (2007), na qual ele afirma que \u201c<i>desapareceu a perspectiva do progresso orientado e acelerado, fruto do conflito e da consci\u00eancia coletiva, que tornasse o Brasil um pa\u00eds decente em tempos de nossa vida<\/i>\u201d. \u00c9 fundamental que se fa\u00e7a uma cr\u00f4nica \u201c<i>desse desaparecimento<\/i>\u201d, diz Cevasco, argumentando sobre a import\u00e2ncia da cr\u00edtica cultural como \u201c<i>instrumento de descoberta e de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade social e, portanto, da ideia de pa\u00eds que se forma e das op\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o que a ideia comporta<\/i>\u201d. Ap\u00f3s registrar a contribui\u00e7\u00e3o de Antonio C\u00e2ndido, Cevasco se concentra na an\u00e1lise de diversos textos de Roberto Schwarz.<\/p>\n<p>Na busca de encontrar algum sentido para a\u00a0<i>perplexidade<\/i>\u00a0atual, o que me interessa aqui \u00e9 recuperar os pontos principais do argumento de Cevasco. Sua an\u00e1lise come\u00e7a com as contradi\u00e7\u00f5es apontadas no famoso ensaio de Schwarz sobre o golpe de 1964 [\u201cCultura e Pol\u00edtica: 1964-1969\u201d, 1970]: \u201c<i>a repeti\u00e7\u00e3o, pela en\u00e9sima vez, de um dos movimentos centrais da vida brasileira,<\/i>\u00a0<i>a reposi\u00e7\u00e3o do atraso a cada momento em que a supera\u00e7\u00e3o parecia poss\u00edvel<\/i>\u201d. O regime autorit\u00e1rio (1964-1985) termina com a acomoda\u00e7\u00e3o costumeira: \u201c<i>o fim da ditadura chega como come\u00e7ou, com o pacto entre as classes dominantes e a acomoda\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que frustra qualquer chance de pensamento revolucion\u00e1rio<\/i>\u201d. Evoca-se, em seguida, o importante ensaio \u201cO Ornitorringo\u201d de Chico de Oliveira (2003), met\u00e1fora sobre o Brasil: bicho que n\u00e3o \u00e9 nem r\u00e9ptil, nem p\u00e1ssaro, nem mam\u00edfero, preso a um \u201cimpasse evolutivo\u201d. Chico Oliveira denuncia o beco sem sa\u00edda nos debates sobre um projeto para o Brasil de vez que \u201c<i>as modifica\u00e7\u00f5es estruturais do capital jogam por terra as aspira\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de um pa\u00eds mais integrado e justo<\/i>\u201d. A an\u00e1lise final \u00e9 sobre os eventos de junho de 2013. Levanta-se uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que ficam sem resposta: \u201c<i>o que tinha acontecido com a hist\u00f3ria de sucesso de um caminho suave particularmente brasileiro em meio \u00e0 terra arrasada do neoliberalismo? Que tipo de sintoma social estava se alastrando na medida em que mais de cem cidades por todo o pa\u00eds se juntavam em protestos? (&#8230;) A pergunta que ficou no ar era \u2018de onde vinha tanta indigna\u00e7\u00e3o com o estado de coisas no pa\u00eds?\u2019 \u00c9 poss\u00edvel que a perda desse projeto de na\u00e7\u00e3o, que a produ\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de Roberto Schwarz vai mapeando, tenha algo a ver com isso? Ainda n\u00e3o sabemos onde vai dar essa aspira\u00e7\u00e3o, nem as consequ\u00eancias da sua frusta\u00e7\u00e3o<\/i>\u201d.<\/p>\n<p>O que ainda n\u00e3o se sabia em 2016 se tornou realidade a partir de 2018.<\/p>\n<p>N\u00e3o sem raz\u00e3o, o excelente ensaio de Fernando de Barros e Silva, \u201cDentro do Pesadelo \u2013 O governo Bolsonaro e a calamidade brasileira\u201d (Piau\u00ed, Edi\u00e7\u00e3o 184, Maio 2020), termina evocando uma entrevista de Roberto Schwarz [Folha de S\u00e3o Paulo, 15\/11\/2019] na qual ele analisa as diferen\u00e7as entre o golpe de 1964 e os tempos atuais. Quero reter aqui um de seus par\u00e1grafos finais:<\/p>\n<p>\u201c<i>Em 1964, transpor o subdesenvolvimento era uma ambi\u00e7\u00e3o real tanto da esquerda como da direita \u2013 \u201chorizonte com que hoje ningu\u00e9m mais sonha\u201d, diz Schwarz. Sua hip\u00f3tese, que ele mesmo admite ser pessimista, \u00e9 de que \u201ca sequ\u00eancia de supera\u00e7\u00f5es que durante algum tempo deu a sensa\u00e7\u00e3o de que o pa\u00eds decolava rumo ao Primeiro Mundo pode ter chegado a seu limite\u201d. Em sentido substantivo, o Brasil deixou de ser um pa\u00eds em forma\u00e7\u00e3o. Somos isso que est\u00e1 a\u00ed, esse bicho an\u00f4malo, improv\u00e1vel, como o ornitorrinco de que falava o soci\u00f3logo Francisco de Oliveira em 2003<\/i>\u201d.<\/p>\n<p><b>Perplexidade: entre o descaminho e a ilumina\u00e7\u00e3o<\/b><b><\/b><\/p>\n<p>Na leitura do professor Muniz Sodr\u00e9, como vimos, a<i>\u00a0perplexidade\u00a0<\/i>de Mainm\u00f4nedes<i>\u00a0\u201cn\u00e3o \u00e9 estado do descaminho, mas a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade para que, da interpreta\u00e7\u00e3o adequada, surja a ilumina\u00e7\u00e3o<\/i>\u201d.<\/p>\n<p>Tomar conhecimento das ideias do Tradicionalismo, da vis\u00e3o de mundo da doutrina escatol\u00f3gica do dispensacionalismo e da cr\u00edtica cultural de intelectuais como Chico de Oliveira e Roberto Schwarz, no contexto da guinada contempor\u00e2nea quase universal \u00e0 direita, nos ajuda a evitar o\u00a0<i>descaminho<\/i>. E nos ajuda tamb\u00e9m a construir uma\u00a0<i>interpreta\u00e7\u00e3o\u00a0<\/i>mais\u00a0<i>adequada\u00a0<\/i>do Brasil de nossos dias.<\/p>\n<p>Vencer a pandemia, o desgoverno pol\u00edtico e a crise econ\u00f4mica, simult\u00e2neas a um impasse civilizat\u00f3rio nas propor\u00e7\u00f5es do que enfrentamos, singulariza a experi\u00eancia brasileira entre as demais na\u00e7\u00f5es do mundo. Barros e Silva tem raz\u00e3o:\u00a0<i>\u201co Brasil deixou de ser um pa\u00eds em forma\u00e7\u00e3o. Somos isso que est\u00e1 a\u00ed, esse bicho an\u00f4malo, improv\u00e1vel, como o ornitorrinco de que falava o soci\u00f3logo Francisco de Oliveira\u201d.<\/i><\/p>\n<p>A\u00a0<i>perplexidade<\/i>\u00a0como queria Maim\u00f4nedes, passa a ser, desta forma, condi\u00e7\u00e3o de possibilidade \u2013 talvez a \u00fanica \u2013 para que surja a ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ver.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/Perplexidade\/4\/47490<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ven\u00edcio A. de Lima &#8211; H\u00e1 pouco mais de dez anos, publiquei com Bernardo Kucinski um pequeno livro \u201cdialogado\u201d que chamamos \u201cDi\u00e1logos da Perplexidade \u2013 Reflex\u00f5es cr\u00edticas sobre a m\u00eddia\u201d (Editora Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2009). 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