{"id":14737,"date":"2021-01-18T11:11:43","date_gmt":"2021-01-18T14:11:43","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14737"},"modified":"2021-01-16T11:14:34","modified_gmt":"2021-01-16T14:14:34","slug":"militares-acabarao-por-criar-anomia-da-qual-tanto-falam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/01\/18\/militares-acabarao-por-criar-anomia-da-qual-tanto-falam\/","title":{"rendered":"Militares acabar\u00e3o por criar \u2018anomia\u2019 da qual tanto falam"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pedro Marin<\/strong> &#8211; Para antrop\u00f3logo, militares buscam esp\u00e9cie de &#8220;convers\u00e3o cultural&#8221; de cora\u00e7\u00f5es e mentes do povo brasileiro.<\/p>\n<p>Quando o antrop\u00f3logo Piero Leirner, sob a insist\u00eancia de sua orientadora, Maria L\u00facia Montes, decidiu estudar o Ex\u00e9rcito, o Brasil vivia seu primeiro governo eleito por voto direto em 21 anos. A ideia de Leirner era fazer um estudo de campo em pelot\u00f5es de fronteira na Amaz\u00f4nia, tema comum do discurso p\u00fablico dos militares nos idos dos anos 90. Acabou parando na Escola de Comando e Estado Maior do Ex\u00e9rcito (ECEME) no come\u00e7o de 1992, onde, diz ele, foi \u201ctratado como uma esp\u00e9cie de orientando ou estagi\u00e1rio\u201d, posto para ler textos e fazer fichamentos, enquanto se preparava para estudar o que realmente queria. Acabou ficando l\u00e1 por tr\u00eas anos, sem conseguir o t\u00e3o desejado acesso aos pelot\u00f5es de fronteira. \u201cUm dia pensei \u2018caramba, eu estou h\u00e1 anos aqui, indo toda hora para a Escola de Comando, e isso n\u00e3o \u00e9 campo?\u2019 Notei que eu tinha feito um campo; que muitas coisas sobre esse campo eram regidas pelas ideias de hierarquia militar\u201d, diz. Transformou a experi\u00eancia em um trabalho de mestrado, segundo estudo antropol\u00f3gico feito no Brasil sobre o tema, defendido em 1995 e publicado em 1997 pela FGV:\u00a0<i>\u201cMeia volta volver: um estudo antropol\u00f3gico sobre a hierarquia militar\u201d.<\/i><\/p>\n<p>23 anos depois, num momento em que se diz cansado do Ex\u00e9rcito, o professor da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar) volta mais uma vez os olhos aos militares, dessa vez em um cen\u00e1rio em que retornam ao centro do poder pol\u00edtico, no trabalho\u00a0<i>\u201cO Brasil no Espectro de uma Guerra H\u00edbrida: militares, opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas e pol\u00edtica em uma perspectiva etnogr\u00e1fica\u201d<\/i>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.alamedaeditorial.com.br\/antropologia\/o-brasil-no-espectro-de-uma-guerra-hibrida-de-piero-c-leirner?fbclid=IwAR2cj7npM-ydyZmvbocq-qq6t3yMA8Qy9A3A0TtmTuEFwp4QUdT9ddmt3sQ#\">publicado pela editora Alameda.<\/a>. Em entrevista \u00e0\u00a0<b>Revista Opera<\/b>, Piero Leirner explica sua pesquisa e a forma como v\u00ea a ascens\u00e3o militar.<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p><b><i>Revista Opera<\/i><\/b><b>: Pe\u00e7o que voc\u00ea fale dessa sua nova tese, do porqu\u00ea decidiu escrev\u00ea-la e porque escolheu essa abordagem, da Guerra H\u00edbrida.<\/b><\/p>\n<p><i>Piero Leirner<\/i>: \u00c9 uma tese que fiz para o cargo de professor titular da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar), que \u00e9 onde dou aula, onde estou h\u00e1 22 anos. Depois do doutorado eu tinha trabalhado um monte de coisas, mas o tema do Ex\u00e9rcito tinha me enchido o saco. Tinha me afastado dessa conversa toda.<\/p>\n<p>Em 2010 eu fui para a Amaz\u00f4nia, fui para a \u00e1rea dos pelot\u00f5es de fronteira, e voltei em 2013 \u2013 morei l\u00e1 durante um semestre, em S\u00e3o Gabriel da Cachoeira (AM). Mas eu estava mais interessado em etnologia ind\u00edgena do que nos militares; queria estudar os \u00edndios que estavam servindo l\u00e1, no Ex\u00e9rcito, mas de novo foi muito dif\u00edcil, simplesmente o comandante \u201csumiu\u201d. Ent\u00e3o decidi partir para outra, disse que n\u00e3o queria nunca mais saber desse assunto. Fui estudar parentesco e hierarquia entre os \u00edndios Tukano da regi\u00e3o do Alto Rio Negro.<\/p>\n<p>Mas em 2016, quando come\u00e7a a hist\u00f3ria do impeachment e todas aquelas agita\u00e7\u00f5es, a Maria L\u00facia come\u00e7ou a demandar que eu passasse a fazer uma leitura sobre o que estava acontecendo com os militares. E n\u00f3s entramos em um grupo de discuss\u00e3o por internet, no blog do Romulus \u2013 que tinha acabado de conhecer quando ele ainda era comentarista do GGN \u2013, e fui puxado de novo para a discuss\u00e3o sobre os militares. E de fato comecei a suspeitar que eles estavam mexendo os pauzinhos de uma maneira muito estranha \u2013 porque voc\u00ea deve se lembrar bem, voc\u00eas na\u00a0<i>Opera<\/i>\u00a0provavelmente foram os primeiros a detectar isso, ningu\u00e9m mais falava que eles iriam agir como atores prim\u00e1rios nesse processo. O que o general [Eduardo] Villas B\u00f4as transmitia o tempo inteiro \u00e9 que eles se mantinham absolutamente neutros e distantes de todo o processo pol\u00edtico. Foi a\u00ed que eu comecei a olhar um pouco a essa literatura sobre Guerra H\u00edbrida, mais como uma curiosidade \u2013 mas nessa \u00e9poca come\u00e7ou a cair no meu colo textos em que os pr\u00f3prios militares descreviam o que eles consideravam ser uma Guerra H\u00edbrida. Tinha alguma no\u00e7\u00e3o do que eles falavam pois por volta de 2008 acabei estudando, em um p\u00f3s-doutorado, justamente manuais de opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas, contrapropaganda, etc. Isso porque havia nos EUA um uso institucional de antrop\u00f3logos nas For\u00e7as Armadas, no Iraque e Afeganist\u00e3o. E eu comecei a perceber, nesse processo, que os textos que eles escreviam aqui eram instrumentos de produ\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o, t\u00edpicos de uma Guerra H\u00edbrida: ou seja, eles estavam produzindo uma Guerra H\u00edbrida interna.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, sobre a Guerra H\u00edbrida, vejo muito mais como conceito nativo do que como uma realidade concreta e autoexplicativa, entende? Mas o conceito nativo come\u00e7a a ser t\u00e3o usado que passa a fazer sentido por ele pr\u00f3prio, quando os atores come\u00e7am a acreditar demais naquilo que eles escrevem. Foi a partir disso que eu resolvi reunir as coisas que estava pensando de 2016 para c\u00e1 e, em junho de 2019, comecei a escrever essa tese; terminei ela em setembro e defendi em dezembro.<\/p>\n<p><b><i>Revista Opera:<\/i><\/b><b>\u00a0Na sua tese voc\u00ea cita algo que \u00e9 um pouco desconhecido, no geral; essa aproxima\u00e7\u00e3o que os militares t\u00eam mantido, pelo menos desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, com intelectuais, jornalistas, empres\u00e1rios, etc. Como voc\u00ea v\u00ea esse tipo de aproxima\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><i>Piero Leirner:<\/i>\u00a0Logo depois do Plano Collor, eles estavam extremamente decepcionados com os rumos que o Collor tinha tomado, porque depositavam uma f\u00e9 muito grande nele. Isso me era falado o tempo inteiro nessa \u00e9poca \u2013 e eles foram sucateados, era impressionante como \u00e0s vezes eu pegava carona em viatura que servia coronel ou at\u00e9 general, e a porta da viatura n\u00e3o tinha tranca, o soldado ia segurando com o bra\u00e7o para fora. Estavam realmente muito preocupados e desconfiados com os rumos que a democracia estava tomando, o que casava um pouco com aquelas teorias sobre as ONGs e o interesse internacional na Amaz\u00f4nia, que estava come\u00e7ando a virar um protoplasma ideol\u00f3gico e algo doutrin\u00e1rio entre eles. Por que? Porque nesse momento, com o fim da Guerra Fria, falavam claramente que n\u00e3o ganharam nada no processo de alinhamento com os Estados Unidos, que na verdade sa\u00edram prejudicados, ao contr\u00e1rio do que aconteceu com a Europa depois da Segunda Guerra. Ent\u00e3o pensavam que era necess\u00e1rio procurar um alinhamento nosso, pr\u00f3prio, aut\u00f3ctone \u2013 \u00e9 da\u00ed que veio toda essa mitologia da Amaz\u00f4nia associada a Guararapes, ao nascimento da nacionalidade, etc. \u201cInven\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Brasileiro\u201d \u00e9 um livro interessante de Celso Castro, no qual ele mostra como eles criam, a partir de coisas mais ou menos dispersas, essa hist\u00f3ria de Guararapes e sua associa\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Bom, nesse \u00ednterim eles identificaram que n\u00e3o havia um projeto nacional; diziam \u201csomos uma For\u00e7a Armada procurando a nossa raiz e o nosso norte, mas a gente n\u00e3o tem na sociedade o mesmo tipo de movimenta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o n\u00f3s \u00e9 que temos que fazer isso\u201d. E o que fazem? Tiram da cartola, de novo, a ideia de que eles s\u00e3o a ossatura da nacionalidade, que v\u00e3o conduzir o processo de gest\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o da Na\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse momento que eles come\u00e7am a trazer, para dentro da Escola de Comando, um monte de gente; mas uma coisa meio sem crit\u00e9rio, que ia de Jos\u00e9 Geno\u00edno a Olavo de Carvalho. Ent\u00e3o o que eu acho que eles estavam fazendo nessa \u00e9poca? Sondando as teorias que se encaixavam ali, produzindo a cacofonia que n\u00f3s estamos vendo hoje, uma coisa absolutamente maluca. Juntar a ideia de soberania na Amaz\u00f4nia com a entrega da EMBRAER, sei l\u00e1 eu. Parece algo completamente esquizofr\u00eanico \u2013 e \u00e9 mesmo [risos]. Essa \u00e9 a minha opini\u00e3o: eles passaram por um processo de disson\u00e2ncia cognitiva, \u00e9 o que acho que aconteceu durante anos ali dentro.<\/p>\n<p>A partir disso eles come\u00e7aram a armar essa rede, nos anos 90. Mas ela fica mais s\u00f3lida quando eles acionam uma rea\u00e7\u00e3o ao \u201ccomunismo\u201d que estava voltando pro Brasil. Foi isso que galvanizou, a partir dos anos Lula, mas que aumenta para valer a partir de 2010, com a Dilma, que \u00e9 quando eles procuram fazer costuras mais efetivas \u2013 sobretudo com empres\u00e1rios, por meios desses institutos, \u201cInstituto Liberal\u201d, \u201cMises\u201d, etc., \u2013 mas tamb\u00e9m, sobretudo, botando lenha na ESG (Escola Superior de Guerra), chamando gente do pr\u00f3prio Estado l\u00e1 para dentro. Voc\u00ea olha as listas a partir de 2010 dos frequentadores dos cursos da ESG e v\u00ea um monte de procurador e juiz entrando l\u00e1. O que \u00e9 isso? De novo a forma\u00e7\u00e3o daqueles complexos tipo IPES\/IBAD (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais e Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica) no pr\u00e9-64. Igualzinho; a mesma coisa.<\/p>\n<p><b><i>Revista Opera:<\/i><\/b><b>\u00a0Na tese voc\u00ea diz que se por um lado eles fazem esse movimento para dentro, isto \u00e9, esse processo de disson\u00e2ncia, h\u00e1 tamb\u00e9m um movimento de \u201cdomestica\u00e7\u00e3o do mundo de fora a partir do mundo militar\u201d.\u00a0<\/b><\/p>\n<p><i>Piero Leirner:\u00a0<\/i>Sim, \u00e9 um pouco do que vi como experi\u00eancia etnogr\u00e1fica na Amaz\u00f4nia. Essa no\u00e7\u00e3o, de que eles t\u00eam de carregar o Pa\u00eds nas costas, no fundo ela \u00e9 acompanhada pela no\u00e7\u00e3o de que eles s\u00e3o uma esp\u00e9cie de administradores de uma fazenda que t\u00eam como tarefa domesticar animais selvagens. O que significa isso? De certa maneira, trazer todo o campo de diferen\u00e7as sociais para uma convers\u00e3o, uma esp\u00e9cie de digest\u00e3o e proje\u00e7\u00e3o, a respeito do que eles entendem como sendo parte da realidade. Que \u00e9 uma realidade muito mon\u00f3tona (no sentido \u201cnarc\u00edsico\u201d do termo), n\u00e3o \u00e9? Ent\u00e3o n\u00e3o acho que seja um processo de tutela \u2013 tutela se faz com uma crian\u00e7a, na tutela voc\u00ea pressup\u00f5e que a crian\u00e7a estar\u00e1 sempre na mesma condi\u00e7\u00e3o \u2013 o que eles querem \u00e9 a convers\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o a uma outra forma, acho que h\u00e1 um projeto \u201ccultural\u201d de transforma\u00e7\u00e3o da realidade, de cora\u00e7\u00f5es e mentes alteradas. Por isso acho que \u00e9 um projeto que embute, em seu interior, muito dessas opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas. N\u00e3o \u00e9 suficiente dizer que \u00e9 s\u00f3 um interesse por cargos que faz eles irem nessa dire\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p><b><i>Revista Opera:<\/i><\/b><b>\u00a0Voc\u00ea mencionou essa rela\u00e7\u00e3o que os militares mant\u00eam com setores do Judici\u00e1rio. Cita na tese as rela\u00e7\u00f5es que mantinham com gente do TRF-1, TRF-2 e TRF-4 \u2013 o que chama aten\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea v\u00ea agora, com esses militares do governo, essas rela\u00e7\u00f5es? Como voc\u00ea v\u00ea isso tudo, levando em considera\u00e7\u00e3o a recente sa\u00edda do Moro do governo?<\/b><\/p>\n<p><i>Piero Leirner:\u00a0<\/i>A primeira coisa a se fazer \u00e9 procurar escapar de uma vis\u00e3o trivial a respeito da posi\u00e7\u00e3o deles em rela\u00e7\u00e3o ao governo e a pol\u00edtica. No processo que podemos recuar desde 2016 para c\u00e1, tudo \u00e9 produzido em um movimento de pin\u00e7a; sempre com estruturas mais ou menos duais. Se f\u00f4ssemos resumir, eu diria o seguinte: eles usam um para-raios, tocam fogo em uma situa\u00e7\u00e3o, e eles mesmos s\u00e3o os bombeiros que v\u00e3o apagar o fogo que eles criaram. Em certo sentido o Bolsonaro representa esse papel. Uma coisa \u00e9 falar em Bolsonaro, outra em governo \u2013 eu diria que ambos s\u00e3o governo, mas o governo em si \u00e9 algo meio dualista.<\/p>\n<p>O que eu vejo, por exemplo, em situa\u00e7\u00f5es como a sa\u00edda do Santos Cruz, que virou esse personagem imaculado que a imprensa toda mima. Creio que a sa\u00edda do Santos Cruz, que pareceu ser uma sa\u00edda por conta de conflitos com o governo, \u00e9 uma v\u00e1lvula de escape do pr\u00f3prio governo \u2013 n\u00e3o que ele n\u00e3o tenha sa\u00eddo do governo, mas o governo,\u00a0<i>lato sensu<\/i>, botou ele em uma posi\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o controlada, compreende? Porque agora ele assume uma voz na oposi\u00e7\u00e3o, de sensatez \u2013 sei l\u00e1 como poder\u00edamos chamar isso \u2013 mas n\u00e3o deixa de ser operado pelos mesmos agentes que era antes; os militares. \u00c9 a v\u00e1lvula de escape dos militares operando como se fosse oposi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9. Eles controlam ambas as posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E eu acho que, em certa medida, o Moro entra nessa chave. Eles sempre v\u00e3o estar batendo com um porrete e amansando com a outra m\u00e3o. Interessa para eles uma posi\u00e7\u00e3o que \u00e9 de confronto, sempre, entre o Bolsonaro e uma outra posi\u00e7\u00e3o, e eles aparecem como mediadores mais ou menos equidistantes disso. N\u00e3o sei ainda qual vai ser o desfecho da quest\u00e3o da Pol\u00edcia Federal, mas me parece que ser\u00e1 exatamente essa posi\u00e7\u00e3o: n\u00e3o v\u00e3o nem pegar o Moro, nem o Bolsonaro, e v\u00e3o pegar os dois ao mesmo tempo. Esse \u00e9 meu palpite. Quer dizer, deve se repetir a mesma forma de Santos Cruz; Moro passa para uma \u201coposi\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 bem entre aspas. [A entrevista foi realizada no dia 13 de maio, portanto antes de ser revelado o v\u00eddeo da reuni\u00e3o ministerial de Bolsonaro].<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu acho que, primeiro, todas essas manifesta\u00e7\u00f5es do Bolsonaro s\u00e3o provocadas, n\u00e3o s\u00e3o acidentais, est\u00e3o dentro de um esquema que foi pensado \u2013 n\u00e3o precisa fazer muito plano para elaborar, basta bater nas costas do sujeito e dizer \u201cvai l\u00e1, Jair, vai na manifesta\u00e7\u00e3o e fa\u00e7a o que voc\u00ea faria normalmente\u201d. A provoca\u00e7\u00e3o para criar um dualismo com o Judici\u00e1rio \u00e9 evidente, mas ao mesmo tempo o Judici\u00e1rio \u00e9 ref\u00e9m deles faz tempo. Quem est\u00e1 l\u00e1? O general Ajax [Porto Pinheiro]. Olhe\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-wDgPhJeM5g\">o v\u00eddeo do general Ajax<\/a>\u00a0a quinze dias das elei\u00e7\u00f5es. Todas as teses que est\u00e3o no \u201cCarta no Coturno\u201d est\u00e3o l\u00e1, todas, pode conferir. De que os comunistas est\u00e3o prestes a transformar o Brasil na Venezuela, que o PT quer mexer dentro da sua casa, com seus valores, toda aquela paranoia. Quinze dias depois ele estava no STF, dizendo o que pode e o que n\u00e3o pode.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu acho que o STF entrou agora nessa chave que eles est\u00e3o produzindo: o STF estica a corda de um lado, o Bolsonaro estica do outro, e os militares v\u00e3o aparecer como solu\u00e7\u00e3o de ordem para algo que parece cada vez mais ca\u00f3tico. Porque vai chegar um ponto em que a tese que eles est\u00e3o pondo, de que o Brasil est\u00e1 para entrar em uma situa\u00e7\u00e3o de anomia, vai acontecer. Mas \u00e9 uma anomia que foi provocada por eles mesmos. E a\u00ed eles v\u00eam e se oferecem, \u201csomos a solu\u00e7\u00e3o para isso\u201d. Voc\u00ea junta isso com um cen\u00e1rio de pandemia.<\/p>\n<p>Veja bem se essa \u201csinergia\u201d que eles falavam ter com o TRF-4, se acabou. Outro dia mesmo eu vi, Heleno passou a tarde tomando ch\u00e1 com duas desembargadoras \u2013 isso estava na agenda dele. Continuam distribuindo medalhas a torto e a direito para procuradores e ju\u00edzes. Ent\u00e3o como \u00e9 essa hist\u00f3ria? N\u00e3o brigou de fato com o Judici\u00e1rio. Pelo contr\u00e1rio. Est\u00e3o causando a cismog\u00eanese dentro dele, \u00e9 isso que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p><b><i>Revista Opera:<\/i><\/b><b>\u00a0Na tese voc\u00ea identifica um ponto-chave, entre 2013-2014, e diz perceber uma certa euforia dentro do Ex\u00e9rcito, com oficiais perdendo a calma sobre a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), a partir de 2011. Como voc\u00ea v\u00ea essa aparente virada, mobilizando o velho tema do anticomunismo e a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade?<\/b><\/p>\n<p><i>Piero Leirner:\u00a0<\/i>A virada foi um pouco antes. O que aconteceu na verdade foi que, no \u00faltimo ano do governo Lula, em 2010, a Casa Civil \u2013 cuja ministra era a Dilma \u2013 come\u00e7ou a esbo\u00e7ar a Comiss\u00e3o da Verdade. E o que acontece nessa \u00e9poca? Come\u00e7a a ter um zum-zum-zum de militares, e temos tamb\u00e9m o primeiro militar da ativa que sai para falar a quest\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade. Quem \u00e9 esse camarada a\u00ed? \u00c9 o general Maynard Santa Rosa, que estava no governo at\u00e9 pouco. O general Maynard foi exonerado da fun\u00e7\u00e3o em que estava em 2010, foi jogado para escanteio \u2013 j\u00e1 houve a\u00ed uma pequena rea\u00e7\u00e3o, entende? Eles ficaram incomodados com a Dilma. Quando ela se torna o projeto do Lula para a continua\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores no governo, esses caras ficam de cabelo em p\u00e9. Essa hist\u00f3ria j\u00e1 tinha se espalhado.<\/p>\n<p>E a\u00ed ela se elege em 2010 e, no final de 2011, oficializa a CNV. J\u00e1 come\u00e7a a tens\u00e3o entre a CNV e os militares porque, entre outras coisas, um monte de oficiais da ativa, especialmente do Ex\u00e9rcito, eram parentes de militares que tiveram participa\u00e7\u00e3o na ditadura. Se n\u00e3o era algo que atingia a pessoa f\u00edsica deles, no m\u00ednimo atingia a \u201cpessoa familiar\u201d, vamos dizer. E dentro desse conceito de fam\u00edlia militar que eles t\u00eam, que \u00e9 algo complicad\u00edssimo.<\/p>\n<p>Seja como for, isso vai pegando, e quem vai se manifestando s\u00e3o os de sempre \u2013 sempre ao redor do Clube Militar. E a\u00ed h\u00e1 de considerar outro processo, que s\u00e3o aqueles grupos que tinham ficado de escanteio logo na abertura, que tinham passado por um processo de \u201climpeza\u201d produzido pelo Geisel, que pegou todo o por\u00e3o da m\u00e1quina de repress\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o e jogou para fora da hierarquia \u2013 nenhum deles subiu para general, Brilhante Ustra, etc. Muitas dessas pessoas ficaram nesses grupelhos, associa\u00e7\u00f5es \u201ccivis\u201d \u2013 TERNUMA, Inconfid\u00eancia, Guararapes. Cada vez que acontecia de um militar entrar em atrito com a pol\u00edtica, ele corria para esses grupos. Quando houve aquela briga do general Heleno com o Lula em 2008, por causa da Raposa Serra do Sol \u2013 que \u00e9 uma briga protot\u00edpica, digamos, quase um arqu\u00e9tipo \u2013 Heleno correu para o TERNUMA. E esses grupos todos orbitando o Clube Militar, desde sempre, que passa a ser uma esp\u00e9cie de v\u00e1lvula de escape, um lugar onde se come\u00e7a a expressar uma contrariedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, e eles lan\u00e7am um manifesto, acho que no in\u00edcio de 2012.<\/p>\n<p>A Dilma fala para o Celso Amorim, ministro da Defesa na \u00e9poca, que tire esse manifesto do Clube, o Amorim ordena ao general Enzo Martins Peri fazer isso, e o general passa um pito no Clube Militar, que \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o da reserva, entende? Eles refazem o manifesto, agora com a indigna\u00e7\u00e3o de terem sido \u201ccalados\u201d por uma ordem \u201cautorit\u00e1ria\u201d \u2013 percebe como come\u00e7a a invers\u00e3o do jogo? \u2013 e hospedam um novo manifesto na p\u00e1gina da internet do Ustra, \u201cA Verdade Sufocada\u201d. Esse movimento do por\u00e3o da ditadura sempre existiu, mas era marginal \u2013 Ustra, coisas que o Olavo de Carvalho escrevia. Eles at\u00e9 podiam ter uma entrada dentro dos militares, mas n\u00e3o era algo assumido. S\u00e3o 800 coron\u00e9is que assinaram esse manifesto, n\u00e3o sei quantos generais, da reserva, da ativa, de tudo que \u00e9 lugar. A\u00ed voc\u00ea percebe que, bom, a guerra estava declarada.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi s\u00f3 isso. Foi uma s\u00e9rie de preocupa\u00e7\u00f5es que eles estavam nutrindo. Por que? Somava-se isso a coisa das ONGs, da Amaz\u00f4nia, da \u201cdissolu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, dos valores\u201d, por coisa de gays, etc. A\u00ed v\u00e3o come\u00e7ando a fabricar uma meleca, \u00e9 assim que come\u00e7am a ativar uma teoria interna, que parece ser algo que compram, mas na verdade fazem um rearranjo dela para os pr\u00f3prios prop\u00f3sitos, que \u00e9 essa ideia da Guerra H\u00edbrida. De que na verdade o centro emissor da Guerra H\u00edbrida no Brasil eram o PT e o Governo Federal. N\u00e3o \u00e9 doido um neg\u00f3cio desses? Uma Guerra H\u00edbrida produzida pelo n\u00facleo do poder de um Estado? Mas \u00e9 o que eles diziam: que o objetivo final do PT era dividir o Pa\u00eds e aniquilar as For\u00e7as Armadas. E \u00e9 isso o que eles pensam at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><b><i>Revista Opera:<\/i><\/b><b>\u00a0Isso tem muitas semelhan\u00e7as com certas leituras que eles faziam na d\u00e9cada de 90 em rela\u00e7\u00e3o a 1964. E \u00e9 algo na verdade at\u00e9 anterior, porque na d\u00e9cada de 50 eles falavam disso, usavam um termo engra\u00e7ado pra quem seria pr\u00f3-Get\u00falio, que era \u201cGreg\u00f3rios\u201d, em refer\u00eancia ao Greg\u00f3rio Fortunato, chefe da guarda do Get\u00falio. Em 1964, h\u00e1 uma continua\u00e7\u00e3o, esses \u201cGreg\u00f3rios\u201d agora chegam ao poder com Jo\u00e3o Goulart, e eles querem \u201ccomunizar o Brasil\u201d, etc. Voc\u00ea v\u00ea essas semelhan\u00e7as?<\/b><\/p>\n<p><i>Piero Leirner:\u00a0<\/i>Sempre fazendo microatualiza\u00e7\u00f5es, mas a coisa vem sempre em uma linha de continuidade. Em 1935, por exemplo, a Intentona Comunista vira uma esp\u00e9cie de \u201cmito de origem\u201d na cabe\u00e7a deles. Em 1961 eles come\u00e7am a falar de Guerra Revolucion\u00e1ria, e conseguem plasmar o anticomunismo nessa hist\u00f3ria. A\u00ed vem 1964, depois a coisa esfria \u2013 mas a Amaz\u00f4nia est\u00e1 ali, entendeu? Ressuscitam a quest\u00e3o, mas invertendo o sinal: dizendo que o Ex\u00e9rcito teria que agir como uma resist\u00eancia colonial contra os interesses das grandes pot\u00eancias. E o que fazem a partir de 2010? Come\u00e7am a inventar a ideia de que o comunismo internacional estaria plasmado com o globalismo, que \u00e9 um pouco essa ideia do Olavo de Carvalho. Ent\u00e3o a resist\u00eancia teria que ser contra esse comunismo que estaria embutido, \u201cinvis\u00edvel\u201d, eles gostam de dizer \u201chomiziado\u201d \u2013 t\u00eam uns termos assim \u2013 no interior da ideologia globalista, mas com os prop\u00f3sitos de fazer um \u201ccomunismo 2.0\u201d vingar aqui no Brasil.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eles v\u00eaem a Dilma, o aspecto direto, e o aspecto indireto na ideia de que ela estaria disposta a vender o Brasil para a China. O que eles tiram do chap\u00e9u, para dar conta dessa realidade? A hist\u00f3ria da Guerra H\u00edbrida. Pegam os paladinos das For\u00e7as Especiais, como o general \u00c1lvaro Pinheiro, que foi na Comiss\u00e3o da Verdade, porque participou no Araguaia, e que \u00e9 algu\u00e9m que estava introduzindo essa ideia sobre a Guerra H\u00edbrida. Como eles l\u00eaem a Guerra H\u00edbrida? Pensam como algo que gera a dissolu\u00e7\u00e3o entre as fronteiras da guerra e da pol\u00edtica, e que dilui militares e civis, galvanizando terrorismo, organiza\u00e7\u00f5es criminosas e interesses anti-nacionais globalistas. Vira tudo uma coisa s\u00f3, e eles come\u00e7am a dizer que h\u00e1 uma suposta associa\u00e7\u00e3o entre PT, FARC, Hezbollah e PCC, como um \u201cgrande projeto\u201d de transforma\u00e7\u00e3o do Brasil em uma esp\u00e9cie de Col\u00f4mbia sob dom\u00ednio chin\u00eas, onde as oligarquias instituiriam um comunismo chin\u00eas 2.0. Ent\u00e3o tem essa hist\u00f3ria toda que come\u00e7a a ganhar corpo. Um comunismo difuso, ressuscitando v\u00e1rias teorias, e agora pondo esse verniz novo da Guerra H\u00edbrida, como se adicionassem um personagem numa historinha, para dar consist\u00eancia a ela. Quando cruza a ideia de que o PT seria uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa, \u00e9 tudo que eles precisavam, porque casa com a teoria que eles estavam lendo a partir de Washington.<\/p>\n<p><b><i>Revista Opera:<\/i><\/b><b>\u00a0Sobre esse cen\u00e1rio ca\u00f3tico, de v\u00e1rios acontecimentos que por vezes sequer conseguimos recompor, uma coisa que me chamou aten\u00e7\u00e3o na sua tese \u00e9 que voc\u00ea menciona como o general Heleno diz que ao longo da carreira ele consolidou uma \u201clonga experi\u00eancia\u201d trabalhando com a imprensa, foi at\u00e9 consultor de um grupo, parece. Isso \u00e9 interessante porque aquela briga com o Congresso, que come\u00e7ou pouco antes da chegada da pandemia, foi justamente por causa de um \u201cvazamento\u201d de uma conversa em que ele dizia que o Congresso estava chantageando o governo. A senha para esse conflito entre governo e Congresso, que agora chega at\u00e9 o STF, foi dada por ele.<\/b><\/p>\n<p><i>Piero Leirner:\u00a0<\/i>Claro. E ele soube o momento certo de recuar e parar de aparecer. Antes o que ele estava fazendo? Assumiu o protagonismo, estava sempre \u00e0 direita do Bolsonaro, sentado, dando a palavra final. Quando a corda come\u00e7ou a esticar para valer, ele recuou. Botam o Braga Netto em uma chamada posi\u00e7\u00e3o de \u201cpresidente operacional\u201d, e o Bolsonaro come\u00e7a a elevar o grau de tens\u00e3o dos raios que caem na pr\u00f3pria cabe\u00e7a. \u00c9 impressionante o jogo do Heleno. H\u00e1 uma entrevista para estudantes de jornalismo em que ele diz que \u201ctomou muito gosto por esse neg\u00f3cio de comunica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Agora, a bomba mesmo eu vi recentemente, algo que eu nunca tinha me dado conta. O discurso de sa\u00edda do general Rego Barros para assumir como porta-voz da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, em fevereiro de 2019. A frase \u00e9 simplesmente inacredit\u00e1vel: \u201cCoube ao Ex\u00e9rcito mergulhar de cabe\u00e7a no submundo das m\u00eddias sociais \u2013 Facebook, Instagram, Twitter, Whatsapp, portal responsivo, e-blog, etc., e se tornar o \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico com maior influ\u00eancia no mundo digital no Brasil. Exigiu sangue frio e interlocu\u00e7\u00e3o sem rosto, t\u00edpica da internet [\u2026]\u201d. Literalmente dizendo que o Ex\u00e9rcito foi para o submundo do Whatsapp. Esse neg\u00f3cio do \u201cgabinete do \u00f3dio\u201d \u00e9 uma lorota. Botam o Bolsonaro e os filhos como os bois-de-piranha. Para mim ficou clar\u00edssimo que esse problema todo, que est\u00e1 no STF agora por conta das\u00a0<i>fake news<\/i>\u00a0do Whatsapp, em que o Bolsonaro aparece querendo proteger os filhos, no fundo interessa a quem? Interessa ao Ex\u00e9rcito. Porque os camufla de terem feito uma opera\u00e7\u00e3o nessa coisa do Whatsapp. Est\u00e1 claro no discurso do Rego Barros, \u00e9 impressionante.<\/p>\n<p><b><i>Revista Opera:\u00a0<\/i><\/b><b>A despeito das diferen\u00e7as pessoais que cada militar tem em rela\u00e7\u00e3o a outro militar, eles t\u00eam uma no\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito de corpo que \u00e9 bastante diferente do que vemos em partidos, por exemplo. Me pergunto se para eles \u00e9 necess\u00e1rio realmente que conquistem a presid\u00eancia, porque n\u00e3o precisam disso em \u00faltima inst\u00e2ncia para operacionalizar a pol\u00edtica. Como voc\u00ea v\u00ea as demiss\u00f5es de militares, que muitos argumentam ser uma derrota deles? E precisamos de fato ter o Mour\u00e3o como presidente para ter um \u201cgoverno militar\u201d?<\/b><\/p>\n<p><i>Piero Leirner:\u00a0<\/i>Primeiro as demiss\u00f5es: como disse sobre Santos Cruz, eles t\u00eam um mecanismo de v\u00e1lvula de escape, que j\u00e1 est\u00e1 um pouco pr\u00e9-programado; com ou sem os demitidos terem ci\u00eancia disso. Eu n\u00e3o sei por exemplo se o Santos Cruz \u00e9 esse g\u00eanio todo, como dizem, para saber que ele estava indo em dire\u00e7\u00e3o a uma fogueira que j\u00e1 estava armada. Aos poucos eles v\u00e3o enxotando alguns militares e colocando outros em posi\u00e7\u00f5es-chave \u2013 como se estivessem na oposi\u00e7\u00e3o, para acentuar a ideia de que t\u00eam um aspecto t\u00e9cnico e neutro. Essas pessoas viram uma oposi\u00e7\u00e3o controlada e potencial, para o futuro \u2013 sabe Deus se em 2022 ou o qu\u00ea. Esse \u00e9 o primeiro ponto: Moro e Santos Cruz s\u00e3o quase duas faces da mesma moeda.<\/p>\n<p>E a\u00ed lucram nessa opera\u00e7\u00e3o, jogando no colo do Bolsonaro e na fam\u00edlia dele a ideia de que s\u00e3o completamente irasc\u00edveis, de que a loucura parte deles, que h\u00e1 um problema de personalidade, de que \u00e9 tudo reflexo de uma chamada \u201cala ideol\u00f3gica\u201d que \u00e9 incontrol\u00e1vel e irracional, enquanto, por contraste, os militares s\u00e3o iluminados como salvadores da P\u00e1tria.<\/p>\n<p>O que engata na segunda pergunta: agora est\u00e3o em uma posi\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o aparecem como os emissores do caos, mas como a solu\u00e7\u00e3o de ordem \u2013 como se eles n\u00e3o estivessem l\u00e1. E para isso eles t\u00eam de ocupar todas as posi\u00e7\u00f5es do cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o plano, ent\u00e3o? Se eu fosse pensar em uma met\u00e1fora, que \u00e9 aquela com a qual eu finalizo a tese, \u00e9 que se isso fosse um sistema de computa\u00e7\u00e3o, eles far\u00e3o uma esp\u00e9cie de reinicializa\u00e7\u00e3o, em que o computador \u00e9 reiniciado em modo de seguran\u00e7a, s\u00e3o os administradores, que dizem o que pode e o que n\u00e3o pode operar no sistema. N\u00e3o \u00e9 todo programa que est\u00e1 instalado que vai rodar, entende? Primeiro a tomada do aparelho do Estado \u2013 aparelhar o Estado o m\u00e1ximo poss\u00edvel, isso eles j\u00e1 est\u00e3o fazendo. Segundo, o processo \u2013 que \u00e9 mais complicado \u2013 de \u201cconvers\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d das pessoas. Algo mais complexo, mas considerando que eles tentam se colocar como elementos de media\u00e7\u00e3o, de meio-termo, de bom senso, sensatos, n\u00f3s vamos ver crescentemente eles aparecendo como \u201cmeio\u201d entre dois polos radicais. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que h\u00e1 quem esteja nesse esfor\u00e7o desesperado em dizer que Bolsonaro e Lula s\u00e3o a mesma coisa, para sugerir que o Brasil tem de \u201csair dos extremos\u201d e eles se colocarem como for\u00e7a de coes\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu acho que \u00e9 isso: primeiro um processo de aparelhamento de fato e depois v\u00e3o para uma solu\u00e7\u00e3o cultural de estilo \u201cgramsciana\u201d (falo ironicamente). Acho ent\u00e3o que, a princ\u00edpio, era melhor para eles manter o Bolsonaro at\u00e9 o fim do mandato, porque esse edif\u00edcio continua todo de p\u00e9. Agora, \u00e9 \u00f3bvio que em um campo cheio de incertezas, como a gente est\u00e1, talvez n\u00e3o d\u00ea para segurar ele. As pessoas me perguntam: \u201cEle vai cair? Vai ter golpe?\u201d \u2013 essa \u00e9 a pergunta mais absurda, se vai ter golpe. Eu sempre falo: \u201cAmigo, voc\u00ea acha que aconteceu o que? Recua a\u00ed na tua cabe\u00e7a e se pergunte se teve!\u201d. Ent\u00e3o tendo a achar, sim, que o melhor seria manter a solu\u00e7\u00e3o como est\u00e1 \u2013 mas concordo com voc\u00ea, meio que tanto faz. O ponto para eles \u00e9 controlar o processo todo, como administradores do sistema; quem entra e quem sai. A\u00ed, de fato, a posi\u00e7\u00e3o de presidente \u00e9 a que menos conta.<\/p>\n<p><b><i>Revista Opera:<\/i><\/b><b>\u00a0Um outro ponto abordado na tese \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o que o general Etchegoyen manteve dentro do governo Temer. Porque quando o Temer entra, ele reergue o Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional (GSI), e o Etchegoyen fica respons\u00e1vel por isso. No meio de uma crise gerada por aquela grava\u00e7\u00e3o do Joesley, algo que no m\u00ednimo seria um descuido do GSI, \u00e9 justamente Etchegoyen quem sai como homem forte e, at\u00e9 certo ponto, mant\u00e9m o governo em p\u00e9.<\/b><\/p>\n<p><i>Piero Leirner:\u00a0<\/i>Sim. Isso em 2017, at\u00e9 que eles arrematam isso em 2018 com a interven\u00e7\u00e3o no Rio. A\u00ed n\u00e3o sobra nada em p\u00e9, porque neutralizam completamente o governo Temer, e toda possibilidade do PSDB, por exemplo, conduzir uma transi\u00e7\u00e3o para uma elei\u00e7\u00e3o em que eles estariam capitalizados. Porque durante a interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem mais Congresso para fazer vota\u00e7\u00e3o de Reforma da Previd\u00eancia, e esse era o grande ativo. Essa enorme\u00a0<i>psy-op<\/i>\u00a0(opera\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica) no Rio de Janeiro serve para eles irem testando a ideia de interven\u00e7\u00e3o militar como solu\u00e7\u00e3o. Isso j\u00e1 est\u00e1 colocado no inconsciente das pessoas. E n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o Braga Netto, que era interventor, esteja hoje na posi\u00e7\u00e3o que est\u00e1. Interessant\u00edssimo tamb\u00e9m o discurso de despedida do cargo do Villas B\u00f4as, algo que n\u00e3o tinha me dado conta, onde ele diz que o Brasil tem tr\u00eas her\u00f3is nacionais: Bolsonaro, que tinha permitido nos livrarmos do comunismo, o Moro, que estava limpando a corrup\u00e7\u00e3o, e o Braga Netto \u2013 que ele deixa suspenso no ar. Ningu\u00e9m deu bola para isso, quando ele falou isso o Braga Netto n\u00e3o era ainda o chamado \u201cpresidente operacional\u201d do Brasil [risos]. Isso sugere que foi parte da arma\u00e7\u00e3o, realmente come\u00e7aram a construir isso, viram a janela de oportunidade para valer com o Temer assumindo.<\/p>\n<p><b><i>Revista Opera:<\/i><\/b><b>\u00a0Como voc\u00ea avalia a postura dos \u00faltimos governos petistas em rela\u00e7\u00e3o aos militares? Porque vendo o processo hist\u00f3rico a partir de 2016, fica evidente que o PT manteve, durante todo o tempo, uma postura quase que de anestesia em rela\u00e7\u00e3o aos militares, como se eles n\u00e3o pudessem mais aparecer como atores na pol\u00edtica. E mesmo quando apareciam \u2013 por exemplo com os tu\u00edtes do Villas B\u00f4as, ou com a movimenta\u00e7\u00e3o sobre a Comiss\u00e3o da Verdade \u2013 parece que ningu\u00e9m levava isso a s\u00e9rio, o governo n\u00e3o levou a s\u00e9rio.<\/b><\/p>\n<p><i>Piero Leirner:\u00a0<\/i>Voc\u00ea usou a palavra certa: \u00e9 anestesia. Se blindaram para olhar o mundo, n\u00e3o viram um monte de coisas. Mas com os militares \u00e9 talvez a postura mais absurda de todas; porque eles acharam, de fato, que poderiam prescindir deles. E talvez o que tenha acontecido tenha sido um processo narc\u00edsico t\u00e3o absurdo, por conta de um governo que estava dando certo, que eles n\u00e3o perceberam que o tapete estava sendo puxado debaixo. Uma coisa \u00e9 dizer: \u201cMas o Lula ouvia o conselho dos generais\u201d. Mas ele tinha um servi\u00e7o de informa\u00e7\u00f5es decente? Ele tinha gente que falava o que estava se passando de A a Z? Tinha preocupa\u00e7\u00e3o em ver o que estava sendo ensinado dentro das academias militares? Tinha preocupa\u00e7\u00e3o em participar dos eventos militares, que \u00e9 algo que para eles \u00e9 dar doce para crian\u00e7a? Os militares diziam isso, em 2013, 2014: falavam de eventos em que os cadetes ficaram horas esperando debaixo do sol esperando algu\u00e9m do governo chegar\u2026 Isso ia criando um \u00f3dio dentro deles. E eles come\u00e7aram a sabotar. E ent\u00e3o veio a Lava-Jato, o pessoal abrindo a porteira para a espionagem norte-americana. Furaram o que j\u00e1 era uma peneira, n\u00e3o \u00e9? E isso culminou com a Dilma querendo peitar eles; extinguindo o GSI, etc. E a\u00ed veio aquele grampo \u2013 que eu acho que era ambiental, n\u00e3o era no telefone do Lula, porque se ouve tudo o que estava se passando no gabinete antes do Lula atender a liga\u00e7\u00e3o \u2013 um absurdo, a imprensa obliterou isso, e n\u00e3o vi sequer o PT fazendo o esc\u00e2ndalo que merecia. \u00c9 a mesma hist\u00f3ria do Joesley; o GSI permitiu esse furo, que acabou com o governo do Temer. Ent\u00e3o eu n\u00e3o sei, creio que foi de uma irresponsabilidade completa. N\u00e3o leram Maquiavel: \u00e9 preciso ter boas leis e boas armas. Fizeram leis terr\u00edveis e n\u00e3o deram bola nenhuma para as armas. Sobrou o que sobrou. Se eu acho que tem alguma coisa nesse sentido, de que \u00e9 necess\u00e1rio a eles tirar os esqueletos do arm\u00e1rio e fazer a autocr\u00edtica, \u00e9 essa: \u201cn\u00e3o prestamos aten\u00e7\u00e3o nos setores essenciais\u201d. Vai al\u00e9m, mas a\u00ed \u00e9 s\u00f3 ir tirando uma carta de cima da outra. Deixaram uma juristocracia condescendente tomar conta do partido, se estabelecendo como hegem\u00f4nica, e ao mesmo tempo n\u00e3o prestaram aten\u00e7\u00e3o na quest\u00e3o mais essencial que poderia segurar o governo, como segurou o governo Temer at\u00e9 o fim. Por que Temer n\u00e3o caiu? Porque eles n\u00e3o deixaram. S\u00f3 por isso. E foi assim que se instalaram no Planalto.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/revistaopera.com.br\/2020\/05\/31\/piero-leirner-militares-acabarao-por-criar-anomia-da-qual-tanto-falam\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Marin &#8211; Para antrop\u00f3logo, militares buscam esp\u00e9cie de &#8220;convers\u00e3o cultural&#8221; de cora\u00e7\u00f5es e mentes do povo brasileiro. Quando o antrop\u00f3logo Piero Leirner, sob a insist\u00eancia de sua orientadora, Maria L\u00facia Montes, decidiu estudar o Ex\u00e9rcito, o Brasil vivia seu primeiro governo eleito por voto direto em 21 anos. 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