{"id":14728,"date":"2021-01-16T12:31:58","date_gmt":"2021-01-16T15:31:58","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14728"},"modified":"2021-01-12T20:39:33","modified_gmt":"2021-01-12T23:39:33","slug":"no-brasil-imperio-chegada-de-virus-mortal-provocou-negacionismo-e-critica-a-quarentenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/01\/16\/no-brasil-imperio-chegada-de-virus-mortal-provocou-negacionismo-e-critica-a-quarentenas\/","title":{"rendered":"No Brasil Imp\u00e9rio, chegada de v\u00edrus mortal provocou negacionismo e cr\u00edtica a quarentenas"},"content":{"rendered":"<p><strong>RICARDO WESTIN<\/strong> &#8211;\u00a0Documentos hist\u00f3ricos do Arquivo do Senado mostram que, apesar da destrui\u00e7\u00e3o que a febre amarela produzia no final do s\u00e9culo XIX, houve pol\u00edticos que minimizaram a gravidade da epidemia.<\/p>\n<p class=\"\">Na virada de 1849 para 1850, a tranquilidade que o Brasil vivia sob o reinado de dom Pedro II foi abalada pela chegada de um v\u00edrus devastador. Velho conhecido no exterior, mas novidade no pa\u00eds, o v\u00edrus da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/fiebre-amarilla\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">febre amarela<\/a>\u00a0pegou o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/imperio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Governo imperial<\/a> de surpresa e avan\u00e7ou sem piedade sobre as grandes cidades do litoral, deixando um rastro de p\u00e2nico e morte.<\/p>\n<p class=\"\">Documentos hist\u00f3ricos guardados no\u00a0<a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/institucional\/arquivo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Arquivo do Senado<\/a>, em Bras\u00edlia, mostram que, apesar da destrui\u00e7\u00e3o que a doen\u00e7a produzia a olhos vistos no Imp\u00e9rio, houve\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-05-23\/video-da-reuniao-de-bolsonaro-evidencia-descaso-com-pandemia-que-ja-matou-mais-de-21000.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">pol\u00edticos que negaram a realidade e procuraram minimizar a gravidade da epidemia.<\/a><\/p>\n<p class=\"\">Num discurso em abril de 1850, no Pal\u00e1cio Conde dos Arcos, a sede do Senado, no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/rio-de-janeiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Rio de Janeiro<\/a>, o senador e ex-ministro Bernardo Pereira de Vasconcellos (MG) garantiu que a doen\u00e7a n\u00e3o era assim t\u00e3o perigosa e chegou a p\u00f4r em d\u00favida se seria mesmo a temida febre amarela:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Eu estou convencido de que se tem apoderado da popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro um terror demasiado e que a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/epidemia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">epidemia<\/a>\u00a0n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o danosa como se t\u00eam persuadido muitos. Talvez fosse mais conveniente que o Governo n\u00e3o tivesse criado lazaretos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-06\/procurar-o-ar-uma-grandiosa-tarefa-no-front-de-um-hospital-de-campanha-contra-o-coronavirus.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">[hospitais de isolamento]<\/a>\u00a0e feito tanto escarc\u00e9u. Julgo at\u00e9 necess\u00e1rio que se institua um exame p\u00fablico a esse respeito, a fim de mostrar ao Brasil e ao mundo que n\u00e3o \u00e9 a febre amarela o que reina hoje.<\/p>\n<p class=\"\">Apenas duas semanas ap\u00f3s fazer esse discurso, o senador Vasconcellos morreu \u2014 justamente de febre amarela.<\/p>\n<p class=\"\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/9VoWPXh1jcEB_EducF8GxS8Q65Y%3D\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/6ELILIHSVRBSLFF5XYSYUED4TI.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Jornais noticiam em 1850 a morte do senador Bernardo Pereira de Vasconcellos, v\u00edtima da febre amarela.\" \/><\/p>\n<p><em>Jornais noticiam em 1850 a morte do senador Bernardo Pereira de Vasconcellos, v\u00edtima da febre amarela<\/em><\/p>\n<p class=\"\">Ele n\u00e3o foi a \u00fanica v\u00edtima da doen\u00e7a no\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pal%C3%A1cio_Conde_dos_Arcos_(Goi%C3%A1s)\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Pal\u00e1cio Conde dos Arcos<\/a>. No curto espa\u00e7o de dois meses, o Senado perdeu quatro parlamentares. Al\u00e9m de Vasconcellos, foram levados pela febre amarela os senadores Visconde de Maca\u00e9 (BA), Manoel Ant\u00f4nio Galv\u00e3o (BA) e Jos\u00e9 Thomaz Nabuco de Ara\u00fajo (ES), av\u00f4 do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/19\/politica\/1574203693_074968.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">abolicionista Joaquim Nabuco.<\/a><\/p>\n<p class=\"\">Mesmo com essas mortes, os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020\/05\/17\/album\/1589743637_169021.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">negacionistas<\/a>\u00a0do Senado n\u00e3o se renderam facilmente \u00e0 realidade.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Eu tenho algumas 22 pessoas na minha casa e n\u00e3o tive uma \u00fanica delas doente \u2014 afirmou o senador Costa Ferreira (MA), referindo-se aos seus familiares e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-05-13\/viver-como-escravo-depois-da-abolicao-pra-quem-nasceu-preto-a-escravidao-continuava-sendo-normal.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">escravos<\/a>.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Infelizmente eu, na epidemia reinante, tive de ordenar dois enterros. Gostaria de me esquecer de todas as penas que ent\u00e3o sofri \u2014 reagiu o senador Visconde de Abrantes (CE), ofendido pelo coment\u00e1rio do colega.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Se est\u00e1 t\u00e3o apaixonado pelos dois defuntos que enterrou, ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em estado de deliberar aqui no Senado \u2014 provocou, entre risadas, o senador Alves Branco (BA).<\/p>\n<p class=\"\">O senador Limpo de Abreu (MG) disse que aquela doen\u00e7a provavelmente n\u00e3o era a febre amarela porque a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-06\/governo-bolsonaro-impoe-apagao-de-dados-sobre-a-covid-19-no-brasil-em-meio-a-disparada-das-mortes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">mortalidade no Brasil, a seu ver, estava pequena demais<\/a>\u00a0em compara\u00e7\u00e3o com a que se via no exterior:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/region-murcia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">M\u00farcia [Espanha]<\/a>, onde se declarou [epidemia] em 1804, de 134 pessoas que foram atacadas no princ\u00edpio da invas\u00e3o, apenas escaparam tr\u00eas ou quatro, sendo a mortalidade de 100% ou mais [sic]. Em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/barcelona\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Barcelona<\/a>, em 1821, de 20 pessoas afetadas, escapava apenas uma. Em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/gibraltar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Gibraltar<\/a>, em 1828, a mortalidade andou na mesma propor\u00e7\u00e3o. Aqui tenho estat\u00edsticas do Rio de Janeiro. Na enfermaria da Rua da Miseric\u00f3rdia, a mortalidade \u00e9 de 18%. No lazareto estabelecido na Gamboa, pouco excede de 5%. A mol\u00e9stia n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grave como se tem assoalhado [divulgado]. N\u00e3o se justificam o terror e o p\u00e2nico da popula\u00e7\u00e3o. Se a epidemia que se desenvolve em nosso pa\u00eds \u00e9 em verdade o que se chama febre amarela, ent\u00e3o o Senado h\u00e1 de permitir que eu diga que todos devemos dar gra\u00e7as a Deus por ter mandado, na sua c\u00f3lera contra os nossos pecados, um castigo t\u00e3o benigno.<\/p>\n<p class=\"\">Os n\u00fameros consolidados mostram que, ao contr\u00e1rio, a febre amarela n\u00e3o teve nada de benigna quando chegou ao Brasil. Apenas no Rio de Janeiro, capital de 200 mil habitantes, perto de 4 mil pessoas morreram em poucos meses na epidemia de 1849-1850. Transportando essa propor\u00e7\u00e3o para a atualidade, quando a cidade se aproxima dos 7 milh\u00f5es de habitantes,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2020-06-07\/evolucao-dos-casos-de-coronavirus-no-brasil.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">\u00e9 como se a doen\u00e7a hoje tirasse a vida de 130 mil cariocas.<\/a><\/p>\n<p class=\"\">Foi por causa dessa grande epidemia que o Brasil mudou um antigo costume. Em 1850, uma lei proibiu as sepulturas dentro e ao redor das igrejas e exigiu que os novos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/cementerios\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">cemit\u00e9rios<\/a>\u00a0fossem abertos longe do centro das cidades. A preocupa\u00e7\u00e3o era evitar a infec\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is e dos vizinhos das igrejas.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/qc0fZXhei2vSc6EbUNAIPds_Lpg%3D\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/YPTHLKWZHBEONJJL3GO3H6S4YY.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Charge de Angelo Agostini, na Revista Ilustrada, mostra febre amarela atacando foli\u00f5es do Rio de Janeiro no Carnaval de 1876.\" \/><\/p>\n<p><em>Charge de Angelo Agostini, na Revista Ilustrada, mostra febre amarela atacando foli\u00f5es do Rio de Janeiro no Carnaval de 1876<\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, excetuando-se alguma apari\u00e7\u00e3o epis\u00f3dica nos tempos da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/colonialismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Col\u00f4nia<\/a>, o Brasil era um pa\u00eds livre da febre amarela. O v\u00edrus chegou primeiro a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/salvador_de_bahia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Salvador<\/a>, em setembro de 1849, a bordo de um navio de bandeira americana que fizera escala em ilhas infectadas do Caribe.<\/p>\n<p class=\"\">A partir de Salvador, a doen\u00e7a se espalhou pela costa brasileira. Na capital do Imp\u00e9rio, os primeiros registros se deram em dezembro. Com vari\u00e1vel intensidade, a febre amarela provocaria mortes no Brasil praticamente a cada ver\u00e3o pelos 60 anos seguintes.<\/p>\n<p class=\"\">Os negacionistas, apesar de barulhentos, n\u00e3o conseguiram prevalecer. Desde a primeira epidemia, o Governo entendeu a gravidade da situa\u00e7\u00e3o e ofereceu \u00e0s popula\u00e7\u00f5es atingidas os chamados socorros p\u00fablicos, isto \u00e9, hospitais de isolamento, enfermarias, m\u00e9dicos, rem\u00e9dios e alimentos. O Senado e a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/camara-deputados-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">C\u00e2mara<\/a>\u00a0sempre aprovaram a libera\u00e7\u00e3o das verbas necess\u00e1rias. Em abril de 1850, por exemplo, o montante aprovado somou 100 contos de r\u00e9is.<\/p>\n<p class=\"\">O pr\u00f3prio dom Pedro II manifestava publicamente preocupa\u00e7\u00e3o com as epidemias. O imperador visitou hospitais de isolamento, levando consolo aos doentes, e mencionou a febre amarela em diversas\u00a0<a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/especiais\/arquivo-s\/em-ritual-imperador-elencava-prioridades-do-brasil\/em-ritual-imperador-elencava-prioridades-do-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">falas do trono, os discursos que ele proferia todo ano ao abrir e encerrar os trabalhos do Senado e da C\u00e2mara.<\/a><\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Os estragos da enfermidade afligem profundamente meu cora\u00e7\u00e3o. O meu Governo tem empregado todos os meios ao seu alcance para acudir os enfermos necessitados \u2014 discursou dom Pedro II em maio de 1850. \u2014 Gra\u00e7as a Deus, vai diminuindo o mal. Espero de sua divina miseric\u00f3rdia que, ouvindo nossas preces, arrede para sempre do Brasil semelhante flagelo.<\/p>\n<p class=\"\">Assim como a febre amarela, foram com frequ\u00eancia citadas nas falas do trono a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/colera\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">c\u00f3lera<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/especiais\/arquivo-s\/fake-news-sabotaram-campanhas-de-vacinacao-na-epoca-do-imperio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">var\u00edola<\/a>. As tr\u00eas mol\u00e9stias representaram o grande gargalo sanit\u00e1rio do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p class=\"\">Todo fim de ano, dom Pedro II e a elite imperial se mudavam provisoriamente do Rio de Janeiro para\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/petropolis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Petr\u00f3polis<\/a>, que se transformava numa esp\u00e9cie de capital de ver\u00e3o. No clima fresco da serra fluminense, ficavam a salvo das epidemias que brotavam na quentura \u00famida da Ba\u00eda de Guanabara.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/J5GsvQwykESnzTOVy6mV7bLic4c%3D\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/WI7F5AQGVVHGJEHD67H7Q6QBD4.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Pintura de Fran\u00e7ois-Ren\u00e9 Moreau mostra dom Pedro II visitando doentes de c\u00f3lera em hospital no Rio de Janeiro.\" \/><\/p>\n<p><em>Pintura de Fran\u00e7ois-Ren\u00e9 Moreau mostra dom Pedro II visitando doentes de c\u00f3lera em hospital no Rio de Janeiro<\/em><\/p>\n<p class=\"\">No s\u00e9culo XIX, n\u00e3o existia no Brasil uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/sus-sistema-unico-saude\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">rede p\u00fablica de sa\u00fade<\/a>. As pessoas com posses se tratavam em casa, com m\u00e9dicos particulares. Os pobres, por sua vez, recorriam a institui\u00e7\u00f5es de caridade, como as santas casas de miseric\u00f3rdia. Assim que uma das tantas epidemias de febre amarela se instalava no Rio de Janeiro, o Governo destinava recursos financeiros extras \u00e0 Santa Casa, que corria para abrir enfermarias tempor\u00e1rias pela capital, semelhantes aos atuais hospitais de campanha.<\/p>\n<p class=\"\">Houve senadores incomodados com a estrat\u00e9gia. Um deles foi Leit\u00e3o da Cunha (AM), que se queixou da instala\u00e7\u00e3o de uma enfermaria para os desvalidos em Laranjeiras, bairro nobre do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 H\u00e1 bairros inteiros da cidade onde n\u00e3o se tem manifestado um \u00fanico caso da epidemia reinante. Entre eles, o das Laranjeiras. Pois foi montada uma enfermaria \u00e0 Rua das Laranjeiras. Deslocar as provid\u00eancias dos bairros afetados da epidemia para ir, por assim dizer, enxert\u00e1-las onde ela n\u00e3o existe \u00e9 realmente uma ideia que \u00e9 extravagante e n\u00e3o tem justifica\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m creia que em mim atua medo, receio ou falta de humanidade para com os infelizes afetados pela doen\u00e7a. Estou convencido, como todos estar\u00e3o, de que \u00e9 mais conveniente que sejam tratados nos lugares em que adquirirem a mol\u00e9stia.<\/p>\n<p class=\"\">O senador Visconde de Olinda (PE) discordou quando o colega Costa Ferreira (MA) argumentou que os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-03-24\/morte-em-campo-limpo-acende-alerta-para-quarentena-nas-periferias-de-sao-paulo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">pobres infectados precisavam, sim, ser tratados \u00e0 custa do dinheiro p\u00fablico<\/a>.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Como particular, concorrerei para que se fa\u00e7am dessas obras de caridade \u2014 disse o Visconde de Olinda. \u2014 Mas, como homem p\u00fablico, rejeito essa doutrina do nobre senador, que aproxima-se um pouco do socialismo. \u00c9 um dos pontos do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/socialismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">socialismo<\/a>\u00a0sustentar os pobres, e o nobre senador, sem querer, vai cair nesse erro.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 A discuss\u00e3o foi t\u00e3o longe que at\u00e9 se me deu a patente de socialista. N\u00e3o me falta mais nada. J\u00e1 posso morrer. No fim da minha vida, sou socialista e sem eu o saber \u2014 respondeu, gargalhando, Costa Ferreira. \u2014 E por qu\u00ea? Porque advogo a causa dos pobres moribundos. Se eu advogasse a causa de vadios, se pedisse socorro para homens s\u00e3os, ent\u00e3o, sim, poderia ser tachado de socialista. Mas advogar a causa de desgra\u00e7ados que se acham no leito da morte e expostos a morrer por falta de meios de tratamento ser\u00e1 tudo quanto se quiser, menos socialismo.<\/p>\n<p class=\"\">Nesse momento de emerg\u00eancia sanit\u00e1ria, o Governo do Imp\u00e9rio montou as primeiras reparti\u00e7\u00f5es do Brasil dedicadas a cuidar da sa\u00fade p\u00fablica de uma forma mais abrangente. A pioneira, em 1850, foi a Junta de Higiene P\u00fablica, subordinada ao Minist\u00e9rio do Imp\u00e9rio (equivalente hoje ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/mj-ministerio-justica-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a<\/a>).<\/p>\n<p class=\"\">Na avalia\u00e7\u00e3o do senador Holanda Cavalcanti (PE), o comando da Junta de Higiene P\u00fablica e o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-05-26\/o-ministerio-da-saude-sob-intervencao-militar.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">combate \u00e0s epidemias deveriam ser retirados das m\u00e3os dos m\u00e9dicos<\/a>:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Higiene p\u00fablica, empregados de visitas de sa\u00fade dos portos, lazaretos, instituto vac\u00ednico&#8230; Senhores, em tudo est\u00e1 o m\u00e9dico. N\u00e3o havia antigamente essa necessidade. Parece-me que h\u00e1 muito desperd\u00edcio de dinheiro com tantos m\u00e9dicos acumulando empregos e fazendo fortuna. O interesse dos m\u00e9dicos \u00e9 que haja doentes, e n\u00e3o que fiquem bons. Riem-se os nobres senadores? Os m\u00e9dicos vivem das mol\u00e9stias, n\u00e3o da sa\u00fade. O objeto \u00e9 mais s\u00e9rio do que se sup\u00f5e. Senhores, as sociedades filantr\u00f3picas s\u00e3o as verdadeiras para esses fins.<\/p>\n<p class=\"\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/nf1KDcwtLUf1yPwE714uuodqaL4%3D\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/NBDOCG6VJZEPNLSNWDIHYYM3OU.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Trecho de livro de 1889 com estat\u00edsticas sobre as mortes por febre amarela no Rio de Janeiro.\" \/><\/p>\n<p><em>Trecho de livro de 1889 com estat\u00edsticas sobre as mortes por febre amarela no Rio de Janeiro<\/em><\/p>\n<p class=\"\">Oferecendo socorros p\u00fablicos, o Governo aliviava o sofrimento de doentes e at\u00e9 evitava que parte deles morresse. No entanto, n\u00e3o conseguia impedir a repeti\u00e7\u00e3o das epidemias de febre amarela ano ap\u00f3s ano. As medidas de preven\u00e7\u00e3o eram muito pouco eficazes. N\u00e3o por incompet\u00eancia, mas sim pelas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/seccion\/ciencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">limita\u00e7\u00f5es cient\u00edficas da \u00e9poca<\/a>. N\u00e3o se sabia qual era o agente causador da doen\u00e7a nem como as pessoas se infectavam.<\/p>\n<p class=\"\">Muito anos depois, no fim do s\u00e9culo XIX, se descobriria que a febre amarela era transmitida pelo mosquito posteriormente batizado de<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/mosquito-tigre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i><\/a>\u00a0(o mesmo que espalha a dengue). E ainda mais tarde se saberia que a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/08\/politica\/1518112590_808611.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">febre amarela era provocada por um v\u00edrus<\/a>.<\/p>\n<p class=\"\">Como os m\u00e9dicos muitas vezes ficavam impotentes diante das epidemias, os doentes, desesperados, acabavam apelando para tratamentos pouco convencionais, incluindo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-06\/bolsonaro-comemora-a-volta-da-cloroquina-enquanto-ate-assintomaticos-recebem-a-droga-no-sus.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">drogas sem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/a>\u00a0e rituais prescritos por padres, curandeiros e charlat\u00e3es.<\/p>\n<p class=\"\">O senador Bernardo Pereira de Vasconcellos, o mesmo que morreria de febre amarela duas semanas ap\u00f3s discursar subestimando a gravidade da epidemia, sugeriu naquele famigerado pronunciamento que o Governo imperial parasse de gastar tanto dinheiro com m\u00e9dicos e enfermarias e deixasse os doentes livres para buscar os tratamentos que bem entendessem:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Penso que, em um pa\u00eds livre como o nosso, n\u00e3o \u00e9 at\u00e9 airoso ao legislador dar m\u00e9dico aos doentes. Quero ter a liberdade em minhas enfermidades de chamar a pessoa que julgar habilitada para curar-me, seja ela filha das escolas de medicina do Brasil, seja de nenhuma escola. Seria necess\u00e1rio demonstrar que quem n\u00e3o estuda nas nossas escolas n\u00e3o \u00e9 capaz de curar e mata sempre. Entendo, pois, que, se o Governo for um tanto frouxo em coibir a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/liberalismo-politico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">liberdade do cidad\u00e3o<\/a>\u00a0a esse respeito, far\u00e1 um servi\u00e7o \u00e0 sa\u00fade. Ao menos por mim, pe\u00e7o que me deixem curar com charlat\u00e3es quando entender que me podem servir melhor do que os senhores doutores.<\/p>\n<p class=\"\">Na linha contr\u00e1ria, o senador Cruz Jobim (ES), que era m\u00e9dico e fundador da Academia Imperial de Medicina, pediu ao Governo o m\u00e1ximo rigor contra as pessoas que se aproveitavam da epidemia para lucrar de forma desonesta:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 O povo se lan\u00e7a nas m\u00e3os do charlatanismo e recorre a jeropigas [bebidas \u00e0 base de aguardente] perigosas que nos v\u00eam do estrangeiro em quantidade enorme. Velhacos estrangeiros e m\u00e9dicos que parecem ignorar completamente a mat\u00e9ria m\u00e9dica abusam da credulidade, da ignor\u00e2ncia do nosso povo, com promessas pomposas e enganadoras, ocasionado a desgra\u00e7a das fam\u00edlias e muitas vezes a morte. O Governo parece que gosta disso, porque aumenta muito as rendas da alf\u00e2ndega, e os que vendem tais drogas nos armarinhos pedem por elas um desprop\u00f3sito. A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/industria-farmaceutica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">arte farmac\u00eautica<\/a>\u00a0\u00e9 uma arte muito importante, muito \u00fatil. Mat\u00e1-la desse modo \u00e9 um crime.<\/p>\n<p class=\"\">Em 1874, o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/homeopatia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">homeopata<\/a>\u00a0Maximiano Marques de Carvalho enviou ao Senado uma carta em que avisava ter desenvolvido um aparelho que, por meio da eletricidade, livraria o Rio de Janeiro das epidemias. Ele pedia que o seu \u201cc\u00edrculo m\u00e1ximo eletrodin\u00e2mico\u201d fosse adotado pelo Governo. A Comiss\u00e3o de Sa\u00fade P\u00fablica, por\u00e9m, entendeu que era imposs\u00edvel que as \u201ctrovoadas artificiais e pac\u00edficas\u201d produzidas pela tal inven\u00e7\u00e3o fossem de fato capazes de matar os germes que estavam espalhados na atmosfera. \u201cEnquanto o peticion\u00e1rio n\u00e3o nos provar os resultados da sua teoria, a consideraremos como meramente imagin\u00e1ria e gratuita\u201d, responderam-lhe os senadores da comiss\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/bVCD9ITTyji85p1ndDeqre82Eik%3D\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/EZMMRNOFUFB3XHD7AWWKE4YZKU.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Charge da Revista Illustrada, de 1876, mostra a febre amarela agradecendo aos servi\u00e7os de um ministro do Imp\u00e9rio.\" \/><\/p>\n<p><em>Charge da Revista Illustrada, de 1876, mostra a febre amarela agradecendo aos servi\u00e7os de um ministro do Imp\u00e9rio<\/em><\/p>\n<p class=\"\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2020-04-04\/armas-do-seculo-xix-contra-a-pandemia-do-xxi.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">No s\u00e9culo XIX<\/a>, os m\u00e9dicos e cientistas no Brasil e no mundo se dividiam entre dois grupos na forma de encarar a febre amarela: os contagionistas, que acreditavam ser ela uma doen\u00e7a contagiosa, transmitida diretamente de uma pessoa infectada para uma saud\u00e1vel; e os anticontagionistas, defensores da ideia de que o que fazia as pessoas adoecerem eram a insalubridade e o ar venenoso das cidades \u2014 venenoso por causa dos vapores emanados pelos p\u00e2ntanos repletos de lixo e esgoto.<\/p>\n<p class=\"\">Para os contagionistas, a melhor medida de preven\u00e7\u00e3o era\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/aislamiento-poblacion\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">retirar os doentes do conv\u00edvio social<\/a>, de modo a proteger os saud\u00e1veis. Isso inclu\u00eda isolar os infectados (na pr\u00f3pria casa ou em hospitais de isolamento) e impor\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/cuarentena\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">quarentena<\/a>\u00a0aos navios procedentes do exterior, ou seja, deix\u00e1-los alguns dias parados a certa dist\u00e2ncia do porto, dando tempo para que a doen\u00e7a eventualmente se manifestasse, e s\u00f3 depois, com seguran\u00e7a, permitir o desembarque de mercadorias e passageiros.<\/p>\n<p class=\"\">Os anticontagionistas, por sua vez, afirmavam que o adequado era\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/alcantarillado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">sanear as cidades<\/a>, drenando p\u00e2ntanos, retirando o lixo de terrenos baldios, construindo redes de recolhimento de esgoto e demolindo moradias insalubres.<\/p>\n<p class=\"\">Perdido diante dessa falta de consenso, o Governo brasileiro acabou adotando as medidas pregadas por ambas as correntes m\u00e9dico-cient\u00edficas. As quarentenas impostas aos navios que chegavam aos portos do Imp\u00e9rio foram duramente criticadas pelos senadores anticontagionistas, que diziam que a exig\u00eancia prejudicava a economia do Brasil.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-05-27\/doria-afrouxa-quarentena-e-abre-shoppings-mesmo-com-registros-de-morte-por-covid-19-ainda-em-alta.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">O que sofre o com\u00e9rcio com as quarentenas?<\/a>\u00a0Senhores, sofre muito \u2014 discursou o senador Dantas (AL). \u2014\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2020-05-26\/espanha-define-data-para-encerrar-quarentena-de-estrangeiros-e-volta-a-incentivar-o-turismo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Os portos da Espanha no Mediterr\u00e2neo ficaram vazios<\/a>\u00a0quando passaram a impor a est\u00fapida quarentena. As companhias de vapores [navios a vapor] suspenderam essas viagens e tomaram outra dire\u00e7\u00e3o. Certa vez, quando sa\u00ed de<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/lisboa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0Lisboa<\/a>, fomos obrigados a oito dias de quarentena em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/cadiz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">C\u00e1diz<\/a>\u00a0[Espanha]. Sabem os nobres senadores o quanto isso custou ao vapor franc\u00eas em que eu me achava? As quarentenas s\u00e3o vexat\u00f3rias e absurdas, s\u00f3 inventadas para manter o aparato de reparti\u00e7\u00f5es, empregados e depend\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"\">Por causa da febre amarela, navios que viajavam da Europa para o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/uruguay\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Uruguai<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/argentina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Argentina<\/a>\u00a0pararam de fazer escala no Brasil. Al\u00e9m disso, os portos de Montevid\u00e9u e Buenos Aires, para se protegerem, come\u00e7aram a impor quarentenas longas demais \u00e0s embarca\u00e7\u00f5es procedentes do Rio de Janeiro, prejudicando os interesses comerciais do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p class=\"\">O senador Dantas ainda atacou os hospitais de isolamento, para onde tamb\u00e9m eram levados os passageiros que desenvolviam a febre amarela durante o per\u00edodo de quarentena:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Para se conhecer a inutilidade das medidas de isolamento, basta ir a um lazareto e ver o rid\u00edculo cerimonial, as cautelas pantom\u00edmicas prescritas pelos m\u00e9dicos e indignas de homens ilustrados.<\/p>\n<p class=\"\">O senador e m\u00e9dico Cruz Jobim, que era adepto da teoria contagionista, ficava indignado quando os colegas questionavam as medidas de isolamento.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/nueva-york\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Nova York<\/a>, o estabelecimento de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/sociedade\/2020-05-23\/nova-york-da-mais-um-passo-na-reabertura-e-permite-reunioes-de-ate-10-pessoas-em-todo-o-estado.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">quarentenas tem sido origem de benef\u00edcios incalcul\u00e1veis<\/a>, repelindo a mol\u00e9stia dessa importante cidade comercial. Em outros portos da Am\u00e9rica do Norte, h\u00e1 quarentenas e assaz severas. E nos portos da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/francia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Fran\u00e7a<\/a>, da Espanha e de Portugal? Tamb\u00e9m est\u00e3o em execu\u00e7\u00e3o as quarentenas. \u201cO que h\u00e1 de ser do com\u00e9rcio?\u201d S\u00e3o exclama\u00e7\u00f5es que muitas vezes se fazem. N\u00e3o se devem p\u00f4r os interesses do com\u00e9rcio \u00e0 frente dos interesses da humanidade. De qualquer forma, quando uma epidemia aparece, o com\u00e9rcio n\u00e3o \u00e9 o primeiro a sofrer? Como disse George Washington quando presidia os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/estados-unidos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Estados Unidos<\/a>:\u00a0<i>health is wealth<\/i>\u00a0[sa\u00fade \u00e9 riqueza].\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2020-03-27\/empatia-ou-pragmatismo-o-dilema-de-empresas-entre-o-respeito-a-vidas-e-a-retomada-da-economia.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">A conserva\u00e7\u00e3o da vida dos cidad\u00e3os deve ser a primeira obriga\u00e7\u00e3o de um Governo<\/a>.<\/p>\n<p class=\"\">De acordo com Jaime Benchimol, historiador da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.coc.fiocruz.br\/index.php\/pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Casa de Oswaldo Cruz<\/a>\u00a0(institui\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz), as discord\u00e2ncias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 febre amarela no s\u00e9culo XIX mostram que as epidemias nunca s\u00e3o uma quest\u00e3o meramente sanit\u00e1ria. Elas tamb\u00e9m t\u00eam componentes pol\u00edticos e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Na primeira metade do s\u00e9culo XIX, as monarquias absolutistas da Europa, como Fran\u00e7a, Espanha e Portugal, eram fortemente contagionistas. Como tais, impunham medidas contra a doen\u00e7a consideradas arbitr\u00e1rias, como as\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-04-13\/licoes-de-wuhan-comecar-uma-quarentena-e-dificil-termina-la-mais-ainda.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">quarentenas, os cord\u00f5es sanit\u00e1rios e o isolamento compuls\u00f3rio dos doentes.\u00a0<\/a>Por outro lado, a principal lideran\u00e7a anticontagionista era a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/inglaterra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Inglaterra<\/a>, onde predominava a burguesia liberal, que, para proteger o seu com\u00e9rcio, combatia as quarentenas e os cord\u00f5es sanit\u00e1rios \u2014 explica Benchimol.<\/p>\n<p class=\"\">No Brasil, os ataques \u00e0s quarentenas n\u00e3o surtiram efeito. Na mesma linha de dom Pedro II, os ministros afirmavam que n\u00e3o podiam se omitir diante da calamidade p\u00fablica.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Distintos m\u00e9dicos t\u00eam feito confer\u00eancias nesta corte afirmando ser imperioso dever do Governo estabelecer quarentenas e dizendo mesmo que seria crime proceder de modo contr\u00e1rio. O Governo, portanto,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-03\/descaso-do-governo-com-o-coronavirus-abre-caminho-para-levar-agentes-publicos-aos-tribunais.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">prefere ser acusado de excesso de rigores a bem da sa\u00fade p\u00fablica a ser increpado de neglig\u00eancia que nos possa ser t\u00e3o funesta<\/a>\u00a0\u2014 afirmou no Senado o ministro do Imp\u00e9rio, Franco S\u00e1.<\/p>\n<p class=\"\">As doen\u00e7as ainda afetavam a economia do Imp\u00e9rio de uma segunda forma. Os potenciais\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/inmigrantes-europeos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">imigrantes europeus<\/a>, que eram desejados para substituir gradualmente a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/esclavitud\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">m\u00e3o de obra escrava<\/a>, ficavam com medo de se mudarem para o Imp\u00e9rio e acabarem morrendo em alguma epidemia. Eles preferiam migrar para os Estados Unidos e a Argentina. No exterior, o Brasil carregava a fama de \u201ct\u00famulo dos estrangeiros\u201d.<\/p>\n<p class=\"\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/4nfTQo-8RADHJ2XTHJATHUWrxnk%3D\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/64LCPN3BGFAJ5D4S3WQWSBQXX4.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Charge sobre a febre amarela publicada em 1876: o mosquito s\u00f3 seria reconhecido como o transmissor da doen\u00e7a anos mais tarde.\" \/><\/p>\n<p><em>Charge sobre a febre amarela publicada em 1876: o mosquito s\u00f3 seria reconhecido como o transmissor da doen\u00e7a anos mais tarde<\/em><\/p>\n<p class=\"\">Hoje se sabe que tanto as medidas de isolamento pregadas pelos contagionistas quanto as de limpeza urbana defendidas pelos anticontagionistas s\u00e3o importantes para combater a febre amarela. Entretanto, sem o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/mosquito-tigre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">combate ao mosquito<\/a>, elas s\u00e3o insuficientes para impedir as epidemias.<\/p>\n<p class=\"\">A situa\u00e7\u00e3o no Brasil s\u00f3 mudaria no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, j\u00e1 na Rep\u00fablica, quando o\u00a0<a href=\"https:\/\/portal.fiocruz.br\/trajetoria-do-medico-dedicado-ciencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">m\u00e9dico Oswaldo Cruz, nomeado pelo Governo para comandar a Diretoria-Geral de Sa\u00fade P\u00fablica<\/a>, se dedicou a combater o mosquito\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>. Em 1909, como resultado, o Rio de Janeiro foi finalmente considerado livre da febre amarela. A descoberta da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/vacunas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">vacina<\/a>, em 1937, abriu uma nova frente de batalha. No Brasil, a \u00faltima epidemia ocorreu em 1942.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-07\/no-brasil-imperio-chegada-de-virus-mortal-provocou-negacionismo-e-critica-a-quarentenas.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RICARDO WESTIN &#8211;\u00a0Documentos hist\u00f3ricos do Arquivo do Senado mostram que, apesar da destrui\u00e7\u00e3o que a febre amarela produzia no final do s\u00e9culo XIX, houve pol\u00edticos que minimizaram a gravidade da epidemia. 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