{"id":14666,"date":"2020-12-26T18:56:46","date_gmt":"2020-12-26T21:56:46","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14666"},"modified":"2020-12-25T18:59:48","modified_gmt":"2020-12-25T21:59:48","slug":"a-direita-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/12\/26\/a-direita-negra\/","title":{"rendered":"A DIREITA NEGRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>FLAVIO THALES FRANCISCO E M\u00c1RCIO MACEDO<\/strong> &#8211; Onde os conservadores erram na quest\u00e3o racial<\/p>\n<p>Sal\u00f5es de beleza e barbearias ocupam um lugar especial no universo da sociabilidade negra. S\u00e3o como \u201ccentros culturais\u201d, j\u00e1 disseram alguns antrop\u00f3logos, lugares onde se discute a respeito de tudo: conflitos pessoais, planos de futuro, relacionamentos amorosos, problemas econ\u00f4micos, futebol, religi\u00e3o e pol\u00edtica. \u00c9 o que acontece numa barbearia da Galeria Presidente, no Centro de S\u00e3o Paulo, com nome curioso: Niggaz Place.<\/p>\n<p>Dificilmente se encontrar\u00e1 algum estabelecimento com nome similar nos Estados Unidos, onde a palavra\u00a0<em>nigger<\/em>\u00a0e sua varia\u00e7\u00e3o coloquial\u00a0<em>nigga<\/em>\u00a0t\u00eam conota\u00e7\u00e3o bastante injuriosa. Por mais que algu\u00e9m se esforce, n\u00e3o consegue achar em portugu\u00eas uma palavra com uma carga ofensiva equivalente. Em geral, a tentativa para no termo \u201ccrioulo\u201d.<\/p>\n<p>Os donos do Niggaz Place, que comandam as tesouras e as conversas, s\u00e3o dois simp\u00e1ticos barbeiros, Almir da Silva Borges e Celso Barbosa. Negros e evang\u00e9licos, os dois votaram em Jair Bolsonaro no primeiro e no segundo turnos da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2018. Tomaram essa decis\u00e3o impulsionados pela avers\u00e3o que sentem pelo PT, partido que associam ao comunismo, embora j\u00e1 tenham ambos votado em Lula em outros pleitos. Borges e Barbosa se definem agora, assumidamente, como negros de direita.<\/p>\n<p>A guinada para a direita de mais da metade dos eleitores brasileiros nas elei\u00e7\u00f5es de 2018 incluiu tamb\u00e9m os negros, cuja experi\u00eancia atual \u2013 \u00e9 bom lembrar \u2013 nem sempre entra em contradi\u00e7\u00e3o com a agenda conservadora. Foi, ali\u00e1s, a associa\u00e7\u00e3o com a direita que viabilizou, nos \u00faltimos anos, a ascens\u00e3o de personalidades negras como o vereador Fernando Holiday, do partido Patriota, o presidente da Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, S\u00e9rgio Camargo, e o jornalista e influenciador digital Paulo Cruz. Todos os tr\u00eas veem a situa\u00e7\u00e3o do negro e as rela\u00e7\u00f5es raciais de uma perspectiva conservadora ou mesmo ultraconservadora.<\/p>\n<div id=\"piaui-97056384\" class=\"piaui-miolord\">\n<div id=\"assine-a-newsletter-conteudo-908719bc79fcfc0d2ad6\" role=\"main\">\n<section id=\"form-assine-a-newsletter-conteudo-908719bc79fcfc0d2ad6\">\n<div id=\"rdstation-bricks-embeddable-form-bricks-component-DTiHxtFw1ins67HMky8B8Q\">\n<div id=\"bricks-component-DTiHxtFw1ins67HMky8B8Q\" class=\"bricks--component bricks--component-embeddable-form\">\n<section id=\"rd-section-k9vdfc5x\" class=\"bricks--section rd-section\">\n<div id=\"rd-row-k9vdfc5y\" class=\"bricks--row rd-row\">\n<div id=\"rd-column-k9vdfc5z\" class=\"bricks--column rd-column\">\n<div>\n<div id=\"rd-text-k9vdfl7u\" class=\"bricks--component bricks--component-text rd-text\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<section id=\"rd-section-joq3m2m5c\" class=\"bricks--section rd-section\">\n<div id=\"rd-row-juvacwbo\" class=\"bricks--row rd-row\">\n<div id=\"rd-column-juvacwbp\" class=\"bricks--column rd-column\">\n<div id=\"rd-form-joq3m2m5i\" class=\"bricks--component bricks-form rd-form\">\n<form id=\"conversion-form-assine-a-newsletter-conteudo\" action=\"https:\/\/www.rdstation.com.br\/api\/1.2\/conversions\" data-typed-fields=\"\" data-lang=\"pt-BR\"><span class=\"capitalize\">A<\/span>o longo do s\u00e9culo XX, as lideran\u00e7as negras se movimentaram de forma variada no horizonte pol\u00edtico brasileiro em busca de um espa\u00e7o onde pudessem promover o debate racial. Com a redemocratiza\u00e7\u00e3o, consolidou-se o alinhamento de l\u00edderes dos movimentos com as agendas de partidos situados num amplo campo democr\u00e1tico: MDB, PT, PDT e PSDB. Por isso, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar, em termos de tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de movimento social organizado, de uma direita negra no Brasil. O que n\u00e3o quer dizer que os negros tenham deixado de manifestar essa op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nas urnas ou que pol\u00edticos negros conservadores n\u00e3o tenham se destacado no cen\u00e1rio nacional. Um deles foi Celso Pitta, que em 1996 foi eleito prefeito de S\u00e3o Paulo pelo PPB (Partido Progressista Brasileiro), legenda que, a despeito do nome, era oriunda da Arena (Alian\u00e7a Renovadora Nacional), partido de sustenta\u00e7\u00e3o da ditadura militar.<\/form>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A direita, incapaz de formular um discurso s\u00f3lido que levasse em conta as demandas antirracistas e de inser\u00e7\u00e3o social, viu a representa\u00e7\u00e3o negra em seus partidos se dar de maneira epis\u00f3dica ou meramente oportun\u00edstica. Mas deve-se levar em conta tamb\u00e9m outros fatores, como a hist\u00f3rica baixa representatividade dos negros na pol\u00edtica (o que agora est\u00e1 mudando) e a ideologia que predominou por d\u00e9cadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o racial no pa\u00eds \u2013 que apregoava a miscigena\u00e7\u00e3o e a exist\u00eancia de uma democracia racial como atributos extraordin\u00e1rios da sociedade brasileira (o que tamb\u00e9m est\u00e1 mudando). Mesmo nos partidos de esquerda, depois do fim da ditadura, as lideran\u00e7as levaram alguns anos para desconstruir a ideia de que o enfrentamento do racismo tinha menos import\u00e2ncia que as outras lutas. Al\u00e9m disso, durante muito tempo a pauta dos movimentos negros pouco interessou aos governos, o que reduziu a capacidade desses movimentos de operar na \u00f3rbita institucional.<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares foi criada em 1988, mesmo ano da Constituinte e do centen\u00e1rio da Aboli\u00e7\u00e3o. Mas as coisas come\u00e7aram a se transformar de fato a partir do governo Fernando Henrique Cardoso e em particular dos governos Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Dilma Rousseff. N\u00e3o por iniciativa exclusiva dos poderes da Rep\u00fablica, mas porque a luta contra o racismo empreendida pelos movimentos negros e a necessidade de a\u00e7\u00f5es afirmativas haviam se tornado desafios incontorn\u00e1veis a serem enfrentados pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>Foi assim que se criou, em 1995, o Grupo de Trabalho Interministerial de Valoriza\u00e7\u00e3o da Popula\u00e7\u00e3o Negra e, em 2003, a Secretaria Especial de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o de Igualdade Racial (Seppir), com status de minist\u00e9rio. A Seppir foi uma conquista altamente significativa, pois deu suporte e articula\u00e7\u00e3o \u00e0s relevantes iniciativas de inser\u00e7\u00e3o de alunos negros no ensino superior p\u00fablico, por meio dos programas de cotas em universidades federais e estaduais (os primeiros datam de 2001, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e na Universidade Estadual\u00a0do Norte Fluminense) e do Programa Universidade para Todos (ProUni), voltado para o ensino superior privado. Houve ainda o desenvolvimento e a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas focadas na sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o negra, da juventude negra e de comunidades quilombolas.<\/p>\n<p>Tudo isso foi realizado a contragosto de muita gente, que v\u00ea com maus olhos qualquer conquista social obtida por negros, em especial a implanta\u00e7\u00e3o das cotas na universidade, medida que julgam discriminat\u00f3ria e, portanto, inconstitucional. Vale lembrar que o Supremo Tribunal Federal votou pela constitucionalidade das cotas em 2012. Contudo, em parte da direita prevaleceram os opositores dessa medida, que agora, no governo Jair Bolsonaro, puderam se sentir inteiramente desinibidos para reagir \u00e0s pol\u00edticas de inclus\u00e3o e antirracistas.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o de Bolsonaro tamb\u00e9m levou os negros inclinados \u00e0 direita ou \u00e0 extrema direita a tirarem o v\u00e9u. Talvez ainda seja cedo para dizer, mas dois modelos de conservadorismo negro est\u00e3o florescendo no pa\u00eds e disputam a proemin\u00eancia. Um e outro podem ser enquadrados em dois \u201ctipos ideais\u201d de orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, cuja origem valeria a pena investigar.<\/p>\n<p>O primeiro encontra seu lastro hist\u00f3rico numa manifesta\u00e7\u00e3o de fascismo negro nos anos 1930, protagonizada especialmente pelo intelectual e ativista Arlindo Veiga dos Santos (1902-1978), fundador da Frente Negra Brasileira (FNB), movimento de extrema direita que adequou a quest\u00e3o racial \u00e0 ideologia integralista.<\/p>\n<p>O segundo estaria em interlocu\u00e7\u00e3o com o antigo conservadorismo negro norte-americano, personificado primordialmente no ativista Booker T. Washington (1856-1915) e que afluiu na milit\u00e2ncia do jornalista e escritor George Schuyler (1895-1977) e na obra do economista Thomas Sowell (1930-). Partid\u00e1rios de uma orienta\u00e7\u00e3o liberal da pol\u00edtica e da economia, eles questionaram o papel do Estado no combate ao racismo, defendendo a a\u00e7\u00e3o individual e o empoderamento econ\u00f4mico dos negros como formas de superar as desigualdades raciais.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O <\/span>candidato que personifica atualmente o primeiro modelo, o do fascismo negro, \u00e9 o jornalista S\u00e9rgio Camargo, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, para quem vigora no Brasil um \u201cracismo Nutella\u201d e a quest\u00e3o racial n\u00e3o passa de um aspecto do \u201cvitimismo\u201d dos negros, estimulada pelo politicamente correto. Por causa de declara\u00e7\u00f5es desse tipo, sua posse em fevereiro deste ano ocorreu a contragosto de v\u00e1rios setores da sociedade e, antes disso, Camargo chegou a ter sua nomea\u00e7\u00e3o suspensa pela Justi\u00e7a. Mas, por fim, assumiu a presid\u00eancia da funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, na esteira do\u00a0<em>modus operandi<\/em>\u00a0do presidente Bolsonaro, sempre brinda seus seguidores no Twitter com afirma\u00e7\u00f5es sensacionalistas, mas calculadas, em evidente confronto com a pauta da diversidade e do combate \u00e0 desigualdade racial desenvolvida pelos governos anteriores do PSDB e do PT em di\u00e1logo com os movimentos negros. Em outubro passado, por exemplo, Camargo decidiu anunciar a exclus\u00e3o de cinco pessoas da lista de personalidades negras da Funda\u00e7\u00e3o Palmares, entre elas a ex-ministra Marina Silva e o ex-deputado Jean Wyllys. A maior pedra no sapato de Camargo, no entanto, \u00e9 a figura de Zumbi.<\/p>\n<p>Uma das conquistas recentes do movimento negro foi a legitima\u00e7\u00e3o de Zumbi dos Palmares como her\u00f3i da luta contra a escravid\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o, em 2011, do Dia da Consci\u00eancia Negra (em 20 de novembro, data presumida da morte de Zumbi). As iniciativas reduziram a import\u00e2ncia que at\u00e9 ent\u00e3o se dava ao papel da princesa Isabel na Aboli\u00e7\u00e3o e \u00e0 data oficial do fim da escravid\u00e3o, o Treze de Maio.<\/p>\n<p>Camargo luta para reverter essas mudan\u00e7as, sonhando em recolocar a princesa no trono abolicionista, pois identifica Zumbi e o Dia da Consci\u00eancia Negra com a esquerda. Em junho passado, durante uma reuni\u00e3o que foi gravada, ele qualificou Zumbi como um \u201cfilho da puta que escravizava negros\u201d e chamou o movimento negro de \u201cesc\u00f3ria maldita\u201d. O objetivo de Camargo, ao que parece, \u00e9 restaurar uma narrativa sobre a Aboli\u00e7\u00e3o muito influente na imagina\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as negras das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, como o citado paulista Arlindo Veiga dos Santos, que era fascista, antissemita e monarquista.<\/p>\n<p>De origem pobre e cat\u00f3lico sect\u00e1rio, Santos fez faculdade de filosofia e letras em S\u00e3o Paulo, onde se destacou como escritor, professor e ativista pol\u00edtico. Em 1928, fundou o Centro Monarquista de Cultura Social e Pol\u00edtica P\u00e1tria-Nova, base para a cria\u00e7\u00e3o, quatro anos depois, da A\u00e7\u00e3o Imperial Patrianovista Brasileira, organiza\u00e7\u00e3o que propagandeava o privil\u00e9gio do catolicismo como religi\u00e3o nacional e pregava a restaura\u00e7\u00e3o da monarquia, sob o comando da casa de Orl\u00e9ans e Bragan\u00e7a.<\/p>\n<p>Em um panfleto, Santos deixou claras suas posi\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias: \u201cSomos P\u00e1tria-Nova, extrema direita radical e violenta, afirmadores de Deus e sua Igreja, afirmadores da P\u00e1tria Imperial e Cat\u00f3lica, inimigos irreconcili\u00e1veis e intolerantes do burguesismo, plutocratismo e capitalismo materialista, ateu, gozador, explorador, internacionalista, judaizante e ma\u00e7onizante; inimigos da Rep\u00fablica, dos partidos, do parlamentarismo, em suma do liberalismo religioso, pol\u00edtico e econ\u00f4mico; enfim, t\u00e3o inimigos tamb\u00e9m da anarquia bolchevista que com erros igualmente grandes pretende em v\u00e3o \u2018corrigir\u2019 a tirania da burguesia liberal, como inimigos da ordem social mentirosa, instalada em quase todo o mundo.\u201d<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o montada por Santos n\u00e3o foi uma loucura qualquer. O historiador Petr\u00f4nio Domingues afirma que \u201co patrianovismo foi talvez o movimento pol\u00edtico de ultradireita mais expressivo no Brasil antes da funda\u00e7\u00e3o da A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira (AIB), em 1932\u201d.\u00a0<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/a-direita-negra\/?utm_campaign=a_semana_na_piaui_36&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0A A\u00e7\u00e3o Imperial \u2013 que, a pretexto de se defender dos comunistas, chegou a constituir um grupo paramilitar, a Guarda Imperial Patrianovista \u2013 estendeu-se por cerca de quinze estados e agregou milhares de seguidores, at\u00e9 ser colocada na ilegalidade, depois do Golpe de 1937.<\/p>\n<p>Quando deixou o patrianovismo, Santos buscou reproduzir a ideologia desse movimento na Frente Negra Brasileira (FNB), que ele criou em 1931 para promover a inclus\u00e3o dos negros na vida social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica. \u00c9 curioso ver como Santos, apesar de simpatizante do nazifascismo, reage \u00e0 ideologia racial de Hitler e atribui protagonismo aos negros na constru\u00e7\u00e3o da nacionalidade brasileira: \u201cQue nos importa que Hitler n\u00e3o queira, na sua terra, o sangue negro? Isso mostra unicamente que a Alemanha Nova se orgulha da sua ra\u00e7a. N\u00f3s tamb\u00e9m, n\u00f3s Brasileiros, temos ra\u00e7a. N\u00e3o queremos saber de ariano. queremos o brasileiro negro e mesti\u00e7o que nunca traiu nem trair\u00e1 a Na\u00e7\u00e3o. N\u00f3s somos contra a importa\u00e7\u00e3o do sangue estrangeiro que vem somente atrapalhar a vida do Brasil, a unidade da nossa p\u00e1tria, da nossa ra\u00e7a e da nossa l\u00edngua. Hitler afirma a ra\u00e7a alem\u00e3. N\u00f3s afirmamos a Ra\u00e7a Brasileira, sobretudo no seu elemento mais forte: o negro brasileiro.\u201d<\/p>\n<p>O artigo, publicado em 1933, tem este extenso t\u00edtulo:\u00a0<em>Resposta a um Boletim Lan\u00e7ado pela Canalha Anarquista-Comunista-Socialista, que Obedece aos Patr\u00f5es Judeus e Estrangeiros. Frentenegrinos! Negros em Geral! A Postos Contra a Onda Estrangeira, que, Al\u00e9m de Vir Tomar o Nosso Trabalho, Ainda Quer Domi<\/em><em>nar, por um Regime In\u00edquo e Bandalho,<\/em><em>\u00a0o Brasil dos Nossos Av\u00f3s<\/em>. A \u201ccanalha\u201d a que ele se refere s\u00e3o os trabalhadores imigrantes. Para Santos, o fim da monarquia fora urdido por escravistas inconformados com a Aboli\u00e7\u00e3o e que, na Rep\u00fablica, recorreram aos imigrantes para marginalizar os negros e desvalorizar a \u201cra\u00e7a brasileira\u201d, fruto da mesti\u00e7agem. Em diferentes circunst\u00e2ncias, Santos manifesta uma forte xenofobia contra os rec\u00e9m-chegados ao Brasil, que passaram a gozar da prefer\u00eancia dos empregadores, em detrimento dos negros.<\/p>\n<p>A FNB acabou se popularizando entre os negros gra\u00e7as a iniciativas sociais, como a cria\u00e7\u00e3o de uma escola a eles destinada e o esfor\u00e7o feito para inseri-los no mercado de trabalho e na pol\u00edcia. Chegou a ter entre 8 mil e 50 mil membros (n\u00e3o h\u00e1 consenso sobre o n\u00famero exato) e n\u00e3o escondia o alinhamento com o integralismo, fazendo seu o lema deste movimento de extrema direita, com o acr\u00e9scimo da palavra \u201cra\u00e7a\u201d: \u201cDeus, P\u00e1tria, Ra\u00e7a e Fam\u00edlia.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 grande a lista de nomes influentes que passaram pelas fileiras integralistas. Incluiu H\u00e9lder C\u00e2mara, futuro arcebispo em\u00e9rito de Olinda e Recife, o jovem Vin\u00edcius de Moraes, o diplomata San Tiago Dantas e at\u00e9 o escritor Abdias do Nascimento, considerado um dos principais ativistas negros do pa\u00eds. Tendo sido uma organiza\u00e7\u00e3o nacionalista com forte inser\u00e7\u00e3o entre as camadas m\u00e9dias urbanas e os militares, o integralismo tamb\u00e9m conseguiu incorporar simbolicamente uma mensagem para os negros. Pl\u00ednio Salgado e lideran\u00e7as integralistas falavam da necessidade de uma \u201csegunda Aboli\u00e7\u00e3o\u201d, uma vez que a de 1888 n\u00e3o resultara em pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o dos rec\u00e9m-libertos.<\/p>\n<p>O discurso de Santos, formulado poucas d\u00e9cadas ap\u00f3s o fim da escravid\u00e3o, \u00e9 descaradamente fascista, mas n\u00e3o deixa de manifestar, no que concerne \u00e0 quest\u00e3o racial, um esfor\u00e7o para conter a discrimina\u00e7\u00e3o e firmar o negro na vida brasileira. Ele o faz, contudo, pelas vias as mais reativas, assumindo posi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o paradoxalmente as mesmas dos que discriminam os negros, como ressaltou o soci\u00f3logo e historiador Cl\u00f3vis Moura: \u201cSe horizontalmente ele tem uma mensagem \u00e9tnica de protesto, ou de contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do negro no Brasil, verticalmente a sua viv\u00eancia reproduz os padr\u00f5es e valores da civiliza\u00e7\u00e3o, da cultura e dos postulados religiosos, pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos dos brancos. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, tem a personalidade dividida, porque, se de um lado protesta com ela, de outro \u00e9 um dominado subliminarmente pela cultura do dominador.\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/a-direita-negra\/?utm_campaign=a_semana_na_piaui_36&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0\u00c9 o t\u00edpico caso de \u201csubalternidade consentida\u201d, sobre a qual falaremos mais adiante.<\/p>\n<p>O historiador Petr\u00f4nio Domingues se pergunta por que houve tantos negros no in\u00edcio da Rep\u00fablica, como Santos, que se indispuseram contra o novo regime e idealizaram a volta da monarquia, idolatrando a princesa Isabel (imantados pelo \u201cisabelismo\u201d, misto de movimento e culto) e tomando como par\u00e2metros de conduta pol\u00edtica os abolicionistas negros Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio (que chegou a criar uma guarda de negros para proteger a monarquia) e Andr\u00e9 Rebou\u00e7as (que se exilou com a fam\u00edlia real). Para Domingues, essa nostalgia da monarquia ocorreu devido \u00e0 pol\u00edtica de branqueamento adotada na Primeira Rep\u00fablica e \u00e0 limpeza \u00e9tnica por ela promovida nas cidades, com a persegui\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es negras e de suas pr\u00e1ticas culturais e religiosas, sem falar no privil\u00e9gio dado aos imigrantes no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Pouca coisa, ou quase nada, restou da mem\u00f3ria do inflamado e influente l\u00edder negro que foi Arlindo Veiga dos Santos, esquecido tanto pelas direitas quanto pelo movimento negro, que tomou dire\u00e7\u00e3o radicalmente oposta \u00e0 dele. Seu nome n\u00e3o consta sequer da lista de personalidades da Funda\u00e7\u00e3o Palmares, onde Santos tem este disc\u00edpulo fortuito: S\u00e9rgio Camargo. Movido por um autoritarismo similar, Camargo faz t\u00e1bula rasa de toda a trajet\u00f3ria da milit\u00e2ncia negra ao longo do s\u00e9culo XX para voltar ao ponto zero, ao isabelismo, exaltando os pr\u00f3ceres abolicionistas negros, como Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, com cujo nome ele quer batizar o pr\u00e9dio da nova sede da Funda\u00e7\u00e3o Palmares. \u201cRebou\u00e7as foi abolicionista, monarquista e brilhante engenheiro. Orgulho do Brasil!\u201d, escreveu Camargo numa rede social.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">H<\/span>\u00e1 algum tempo, o Movimento Brasil Livre (MBL) colocou \u00e0 venda um dos suvenires do grupo \u2013 uma camiseta estampada com os rostos perfilados de Martin Luther King Jr., do economista norte-americano negro Thomas Sowell e do vereador Fernando Holiday. Logo abaixo se l\u00ea a seguinte mensagem: \u201cTr\u00eas Gera\u00e7\u00f5es. Um Sonho.\u201d O sonho, ao menos da parte de Sowell e Holiday, \u00e9 ver os seus pa\u00edses livres de pol\u00edticas afirmativas e seguindo credos liberais que desconsiderem o racismo como fator de injusti\u00e7a social.<\/p>\n<p>Holiday, que veio de uma fam\u00edlia modesta, militou no MBL, filiou-se ao DEM e, aos 20 anos, tornou-se o vereador mais jovem na hist\u00f3ria da cidade de S\u00e3o Paulo. Hoje, est\u00e1 nas fileiras do partido Patriota e foi reeleito no m\u00eas passado para o seu segundo mandato na C\u00e2mara. Sua pauta pol\u00edtica \u00e9 de inclina\u00e7\u00e3o ultraliberal e questiona a agenda dos movimentos negros contempor\u00e2neos, o que lhe possibilitou obter vota\u00e7\u00e3o expressiva em distritos paulistanos em que o eleitorado \u00e9 majoritariamente branco e das classes m\u00e9dia e alta. \u00c9 ele a personifica\u00e7\u00e3o no Brasil do segundo modelo de direita negra, aquele que busca seu lastro no conservadorismo norte-americano.<\/p>\n<p>O movimento pelos direitos civis, na d\u00e9cada de 1960, centrado na lideran\u00e7a de Martin Luther King Jr., fixou-se como um momento-chave do ativismo negro nos Estados Unidos ao pregar a igualdade das ra\u00e7as perante a lei quando ainda vigoravam em v\u00e1rios estados norte-americanos c\u00f3digos segregacionistas. Luther King foi um democrata radical, mas essa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o o eximiu de se tornar com o tempo um cr\u00edtico de ideias liberais e de um sistema econ\u00f4mico que produzia pobreza e desigualdade tamb\u00e9m por meio da ra\u00e7a. Outra corrente de ativismo, por\u00e9m, mais antiga e de vi\u00e9s menos pol\u00edtico e contestat\u00f3rio que a de Luther King, articulou a hip\u00f3tese de que o enfrentamento da viol\u00eancia e da desigualdade deveria ser feito por outros meios, como o est\u00edmulo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e ao empreendedorismo dos negros.<\/p>\n<p>Era o que pensava o educador e escritor Booker T. Washington, que, na segunda metade do s\u00e9culo XIX, defendeu que os negros \u2013 ent\u00e3o majoritariamente pobres e pouco alfabetizados \u2013 deveriam ter como prioridade n\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou a luta pelos direitos, mas a educa\u00e7\u00e3o, a profissionaliza\u00e7\u00e3o e a seguran\u00e7a econ\u00f4mica. A riqueza material e a for\u00e7a cultural seriam as qualidades que os fariam ser aceitos pouco a pouco pelos brancos e incorporados igualitariamente \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>Ao colocar em segundo plano a luta pol\u00edtica pela integra\u00e7\u00e3o racial, Washington chamou a aten\u00e7\u00e3o da elite conservadora do Sul, que se interessou por um projeto para os negros que n\u00e3o desafiava os m\u00e9todos de segrega\u00e7\u00e3o. Com apoio de filantropos empenhados em preservar as rela\u00e7\u00f5es hierarquizadas e frear as agendas mais progressistas, o educador emergiu nacionalmente. Seus programas para a forma\u00e7\u00e3o de trabalhadores e empreendedores negros difundiram-se pelo pa\u00eds, contestados fortemente por lideran\u00e7as como a do importante soci\u00f3logo e ativista W. E. B. (William Edward Burghardt) Du Bois (1868-1963), que pensava o oposto de Washington: a \u00fanica forma de obter conquistas sociais e fazer a integra\u00e7\u00e3o do negro na vida norte-americana seria lutando para conquistar poder pol\u00edtico, direitos e igualdade jur\u00eddica.<\/p>\n<p>Em 1900, Washington criou a National Negro Business League (Liga Nacional Negra de Com\u00e9rcio), a primeira c\u00e2mara de com\u00e9rcio de afrodescendentes nos Estados Unidos, refor\u00e7ando a ideia de que o engajamento em atividades econ\u00f4micas seria uma alternativa ao \u201cesfor\u00e7o contraproducente\u201d, como ele certa vez disse, das lutas por uma cidadania negra de primeira classe.<\/p>\n<p>Com a morte do educador em 1915, o jamaicano Marcus Garvey (1887-1940), que migrou para os Estados Unidos estimulado pelo projeto de Washington, tornou-se o mais proeminente opositor da integra\u00e7\u00e3o racial e um incentivador da ideia de uma economia forte como base para o empoderamento negro. Com esse objetivo, implantou a Negro Factories Corporation, que visava construir f\u00e1bricas para trabalhadores negros nos Estados Unidos e em pa\u00edses da Am\u00e9rica Central e da \u00c1frica. Tamb\u00e9m fundou jornais e incentivou o empreendedorismo negro, com a cria\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cios como restaurantes, lojas e hot\u00e9is. Figura pol\u00eamica, Garvey era anticomunista e contra a miscigena\u00e7\u00e3o, o que o levou a ser um dos pioneiros do pan-africanismo, ao preconizar a mudan\u00e7a de negros para os pa\u00edses da \u00c1frica. Na sua concep\u00e7\u00e3o, as na\u00e7\u00f5es africanas deveriam se unir numa \u00fanica e imensa rep\u00fablica, governada por um l\u00edder com autoridade absoluta.<\/p>\n<p>Na metade do s\u00e9culo XX, o escritor e jornalista George Schuyler foi quem mais se aproximou das propostas de Booker T. Washington. Defendeu o car\u00e1ter inclusivo da sociedade norte-americana e a for\u00e7a da economia dos Estados Unidos, que, na sua perspectiva, possibilitava o progresso dos negros sem a necessidade do engajamento pol\u00edtico. Tamb\u00e9m negou com veem\u00eancia que houvesse elementos culturais especificamente negros na cultura do pa\u00eds, rejeitando a ideia de uma literatura negra e afirmando que os afrodescendentes eram mais norte-americanos que muitos brancos rec\u00e9m-imigrados.<\/p>\n<p>Em 1948, Schuyler publicou no jornal\u00a0<em>The Pittsburgh Courier<\/em>\u00a0os seus relatos de viagem pela Am\u00e9rica Latina, inclusive ao Brasil, onde participou de um debate com Abdias do Nascimento. Influenciado pelo ativista brasileiro, Schuyler afirmou em um de seus relatos que no Brasil n\u00e3o existia racismo baseado na ra\u00e7a, mas nas variantes de cor \u2013 os negros menos escuros tinham aqui algumas vantagens simb\u00f3licas que n\u00e3o eram conferidas aos de pele mais escura. Para Schuyler, os Estados Unidos, gra\u00e7as \u00e0 sua pujan\u00e7a econ\u00f4mica e apesar de suas \u201ccastas raciais\u201d, ofereciam um futuro mais promissor aos negros do que o Brasil e outras na\u00e7\u00f5es latino-americanas, onde eles viviam em enorme atraso socioecon\u00f4mico.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1950, Schuyler foi gradualmente se desgarrando do ativismo afro-americano e se aproximando mais da direita. Chegou a ser entusiasta do macarthismo, apoiando a persegui\u00e7\u00e3o a lideran\u00e7as negras envolvidas com organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, como Du Bois e o ator e ativista Paul Robeson (1898-1976). No mesmo per\u00edodo em que a direita avan\u00e7ava sobre o Partido Republicano, redefinindo a identidade pol\u00edtica da legenda, Schuyler atraiu o interesse de conservadores brancos que se impressionaram com sua contund\u00eancia ao criticar o ativismo negro, principalmente o movimento pelos direitos civis.<\/p>\n<p>Em palestras e escritos, Schuyler sempre manifestou o seu desconforto com agendas baseadas na ideia de ra\u00e7a, mesmo que reivindicassem a igualdade de direitos. Para ele, a \u00fanica alternativa era o est\u00edmulo ao empreendedorismo entre os negros e a cria\u00e7\u00e3o de canais de coopera\u00e7\u00e3o com brancos interessados em promover iniciativas junto \u00e0s comunidades negras. Diferentemente de Booker T. Washington, Schuyler n\u00e3o construiu uma agenda capaz de mobilizar os afro-americanos. O jornalista teve o apoio dos conservadores para publicar em seus peri\u00f3dicos, mas a atua\u00e7\u00e3o dele n\u00e3o passou disso.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, uma possibilidade de maior participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica abriu-se para os negros conservadores com a ascens\u00e3o de Ronald Reagan. Uma nova gera\u00e7\u00e3o de intelectuais foi recrutada para ampliar a base do Partido Republicano e desafiar o legado do movimento pelos direitos civis. Nomes como o dos economistas Walter Williams e Thomas Sowell passaram a se destacar nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e no mercado editorial, promovendo a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d de Reagan. O principal objetivo era conquistar o p\u00fablico afro-americano \u2013 entre os quais 24% se autodeclaravam conservadores na \u00e9poca \u2013 para as ideias de\u00a0<em>laissez-faire\u00a0<\/em>econ\u00f4mico e de descolamento do Estado dos programas sociais.<\/p>\n<p>Sowell desenvolveu a tese de que a ra\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o tinha funcionalidade na constru\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais nos Estados Unidos, indicando haver no pa\u00eds, sobretudo, uma cultura da pobreza, compartilhada igualmente por negros e brancos, que impedia a assimila\u00e7\u00e3o dos valores norte-americanos. Um dos livros que popularizaram o economista foi\u00a0<em>A\u00e7\u00e3o Afirmativa ao Redor do Mundo<\/em>, de 2004, em que ele critica os programas de inclus\u00e3o nas universidades. A sua pesquisa tem sido frequentemente citada pelos que se op\u00f5em \u00e0 pol\u00edtica de cotas no Brasil e permanece uma refer\u00eancia para a direita.<\/p>\n<p>O vereador Fernando Holiday deixa expl\u00edcito o ide\u00e1rio conservador e ultraliberal influenciado pela direita norte-americana, ao incluir entre suas bandeiras eleitorais, por exemplo, a luta contra o aborto e a redu\u00e7\u00e3o do tamanho do Estado e do volume de impostos. No ano passado, chegou a propor \u00e0 C\u00e2mara paulistana um projeto de lei revogando as cotas raciais, o que n\u00e3o vingou. Em setembro, comparou o movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter) com a Ku Klux Klan, que ele j\u00e1 havia qualificado, em 2018, de \u201cmovimento de esquerda\u201d, para a estupefa\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de Holiday n\u00e3o o impediu, contudo, de condenar declara\u00e7\u00f5es de S\u00e9rgio Camargo, a quem ele atacou em artigo na\u00a0<em>Folha de S.Paulo<\/em>, em 3 de junho passado, sem meias palavras: \u201cCriamos uma direita que nega o racismo. Um exemplo \u00e9 o presidente da Funda\u00e7\u00e3o Palmares, S\u00e9rgio Camargo, que acredita que s\u00e9culos de escravid\u00e3o foram ben\u00e9ficos aos negros.\u201d Em que pesem as diverg\u00eancias, Holiday compartilha com Camargo da ojeriza por Zumbi e pelo Dia da Consci\u00eancia Negra.<\/p>\n<p>O percurso hist\u00f3rico a respeito dessas correntes de pensamento explicita que nem o conservadorismo \u00e9 um privil\u00e9gio de brancos nem a direita negra forma um bloco coeso e unit\u00e1rio, podendo ter variantes e mesmo rivalidades. Debates antigos ganham formas novas, reatualizados num contexto em que o racismo e a inser\u00e7\u00e3o social do negro s\u00e3o quest\u00f5es ainda muito longe de serem solucionadas.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>o receber o Pr\u00eamio Holberg em 2019, o soci\u00f3logo brit\u00e2nico Paul Gilroy chamou a aten\u00e7\u00e3o em seu discurso para o fato de a ascens\u00e3o da extrema direita, tanto nos Estados Unidos como na Europa, ter claros contornos raciais. Essas for\u00e7as pol\u00edticas emergentes t\u00eam produzido uma cr\u00edtica autorit\u00e1ria e antidemocr\u00e1tica ao multiculturalismo, que na vis\u00e3o delas estaria protegendo e privilegiando minorias, como os negros e imigrantes na Europa, em detrimento da maioria da popula\u00e7\u00e3o de seus pa\u00edses, predominantemente branca. Trata-se de uma reivindica\u00e7\u00e3o nost\u00e1lgica de pureza racial, fundada na primazia dos brancos sobre o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico. E implica na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas anti-imigra\u00e7\u00e3o e avessas \u00e0 integra\u00e7\u00e3o entre as ra\u00e7as, quando n\u00e3o em incentivo ao racismo, como o dos supremacistas norte-americanos, que nos protestos da extrema direita em Charlottesville, em 2017, gritavam palavras de ordem como:\u00a0<em>Jews will not replace us\u00a0<\/em>(Os judeus n\u00e3o v\u00e3o nos substituir).<\/p>\n<p>O lema da campanha de Trump em 2016 \u2013\u00a0<em>Make America Great Again<\/em>\u00a0(Fa\u00e7amos a Am\u00e9rica grande outra vez) \u2013 j\u00e1 sinalizava \u00e0s classes trabalhadoras e m\u00e9dias brancas norte-americanas o retorno a um passado idealizado. O slogan era tamb\u00e9m um apelo a manter a hegemonia dos brancos depois de oito anos de governo de Barack Obama, per\u00edodo que foi o \u00e1pice do que a fil\u00f3sofa Nancy Fraser chamou de \u201cneoliberalismo progressista\u201d sob os ausp\u00edcios de um multiculturalismo de mercado.<\/p>\n<p>No Brasil, os negros s\u00e3o convidados a figurar na \u00f3rbita do governo Bolsonaro em geral para se oporem aos movimentos antirracistas ou para ocuparem pap\u00e9is pol\u00edtico-institucionais subalternos em que sua cor \u00e9 utilizada estrategicamente para esvaziar ou negar a quest\u00e3o da desigualdade racial. A \u201csubalternidade consentida\u201d engendra da parte dessas personalidades negras uma ades\u00e3o aos princ\u00edpios da domina\u00e7\u00e3o, que varia da verborragia reacion\u00e1ria de S\u00e9rgio Camargo ao sil\u00eancio quanto \u00e0 quest\u00e3o racial do deputado federal H\u00e9lio Lopes (PSL-RJ), mais conhecido pelas alcunhas que adotou durante a campanha eleitoral: \u201cH\u00e9lio Bolsonaro\u201d, \u201cNeg\u00e3o de Bolsonaro\u201d ou \u201cH\u00e9lio Neg\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Subtenente do Ex\u00e9rcito na reserva remunerada, Lopes se elegeu em 2018 tomando carona na popularidade de Bolsonaro, de quem \u00e9 amigo de longa data. N\u00e3o tem uma posi\u00e7\u00e3o no governo, mas seu capital simb\u00f3lico como deputado federal mais bem votado no Rio de Janeiro \u00e9 agenciado pelo presidente, que o leva a tiracolo para muitos eventos importantes e viagens oficiais. O deputado funciona, nesse quadro, como uma esp\u00e9cie de \u201ccoringa\u201d, com o objetivo de fazer crer que a popula\u00e7\u00e3o negra est\u00e1 pr\u00f3xima do governo, mas tamb\u00e9m de livrar seus amigos brancos \u2013 como o presidente \u2013 de acusa\u00e7\u00f5es de racismo.<\/p>\n<p>Outra aposta feita pela direita no sentido de agenciar a quest\u00e3o racial como capital pol\u00edtico foi a nomea\u00e7\u00e3o do economista Carlos Decotelli ao cargo de ministro da Educa\u00e7\u00e3o. A decis\u00e3o do governo foi vista com desconfian\u00e7a por setores do movimento negro, mas com euforia por bolsonaristas, ansiosos em viabilizar a narrativa da meritocracia aplicada \u00e0 quest\u00e3o da ra\u00e7a, pois Decotelli, militar reformado e evang\u00e9lico, se configurava como uma figura respeit\u00e1vel, com v\u00e1rios t\u00edtulos acad\u00eamicos e honor\u00edficos. Parecia ser um homem negro que venceu na vida sem ter que lan\u00e7ar m\u00e3o da quest\u00e3o racial. Em quest\u00e3o de dias, contudo, Decotelli teve o seu curr\u00edculo escrutinado e verificou-se, entre outras falsidades, que ele nunca havia recebido o t\u00edtulo de doutor. O economista sequer chegou a tomar posse no minist\u00e9rio \u2013 e mais um negro voltou aos bastidores da direita.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">U<\/span>ma das principais lideran\u00e7as negras contempor\u00e2neas, a pensadora Sueli Carneiro, iluminou de maneira contundente as contradi\u00e7\u00f5es que afetam os negros de direita no Brasil. Em uma entrevista dada \u00e0 revista de esquerda\u00a0<em>Caros Amigos<\/em>, em fevereiro de 2000, ela afirmou, sobre o ent\u00e3o prefeito de S\u00e3o Paulo: \u201cN\u00e3o me consta que o [<em>Celso<\/em>] Pitta n\u00e3o tenha consci\u00eancia de sua condi\u00e7\u00e3o de negro. N\u00e3o se tem not\u00edcia dele como ativista. [\u2026] Somos seres humanos como os demais, com diversas vis\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas. Eu, por exemplo, entre esquerda e direita, continuo sendo preta.\u201d<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o de Carneiro pode ser lida como um alerta ao ativismo negro, ao sugerir que a quest\u00e3o racial deva ser tratada sem colocar \u00e0 frente uma posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica tomada de antem\u00e3o<em>.<\/em>\u00a0Tanto mais que a defesa da pauta racial suscita dificuldades tanto \u00e0 esquerda como \u00e0 direita. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica, a popula\u00e7\u00e3o negra professa op\u00e7\u00f5es t\u00e3o variadas quanto os demais grupos \u00e9tnicos e raciais, o que exime os negros de direita de serem vistos como aberra\u00e7\u00f5es. Por isso mesmo, n\u00e3o dever\u00e1 ser motivo de surpresa se, no futuro, um movimento negro de direita ganhar express\u00e3o no universo pol\u00edtico brasileiro.<\/p>\n<p>Esse movimento, por\u00e9m, ter\u00e1 muito trabalho para se constituir, pois o que existe at\u00e9 agora, como vimos, s\u00e3o lideran\u00e7as negras de direita que atribuem a si mesmas um papel subalterno, negam o car\u00e1ter sist\u00eamico do racismo e n\u00e3o oferecem propostas para a constru\u00e7\u00e3o de subjetividades negras que sirvam de alternativa \u00e0s da esquerda. Al\u00e9m disso, essas lideran\u00e7as vivem desconectadas da popula\u00e7\u00e3o negra, est\u00e3o pouco atentas \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es sociais que ocorrem atualmente nas periferias do pa\u00eds e do mundo, e t\u00eam uma vis\u00e3o limitada das tem\u00e1ticas de g\u00eanero e sexualidade, impregnada muitas vezes de sectarismo religioso. Sua prega\u00e7\u00e3o liberal prim\u00e1ria, ademais, \u00e9 incapaz de pensar um empreendedorismo negro e perif\u00e9rico.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es de novembro passado s\u00e3o prova disso. A renova\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as pol\u00edticas negras ocorreu principalmente na dire\u00e7\u00e3o oposta, com a vit\u00f3ria nas cidades m\u00e9dias e grandes de um n\u00famero expressivo de mulheres e transexuais negros de esquerda, boa parte deles oriunda de movimentos sociais.<\/p>\n<p>Assim, parece que ainda levar\u00e1 tempo at\u00e9 que os aspirantes a formarem uma direita negra no Brasil concebam um programa liberal e antirracista, pragm\u00e1tico e inclusivo, com uma mensagem acolhedora, defendida por lideran\u00e7as carism\u00e1ticas. At\u00e9 o momento, a direita negra que existe \u00e9 apenas a de pessoas como os barbeiros do Niggaz Place.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/a-direita-negra\/?utm_campaign=a_semana_na_piaui_36&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0<em>O \u201cMessias\u201d Negro? Arlindo Veiga dos Santos (1902-1978)<\/em>, publicado na revista\u00a0<em>Varia Historia<\/em>, Belo Horizonte, vol. 22, n. 36, julho\/dezembro 2006. Todas as frases de Santos aqui citadas prov\u00eam desse relevante ensaio.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/a-direita-negra\/?utm_campaign=a_semana_na_piaui_36&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0Em\u00a0<em>Dial\u00e9tica Radical do Brasil Negro<\/em>\u00a0(1994), citado por Petr\u00f4nio Domingues em\u00a0<em>O \u201cMessias\u201d Negro? Arlindo Veiga dos Santos (1902-1978)<\/em>.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/a-direita-negra\/?utm_campaign=a_semana_na_piaui_36&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FLAVIO THALES FRANCISCO E M\u00c1RCIO MACEDO &#8211; Onde os conservadores erram na quest\u00e3o racial Sal\u00f5es de beleza e barbearias ocupam um lugar especial no universo da sociabilidade negra. 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