{"id":14645,"date":"2020-12-20T12:21:54","date_gmt":"2020-12-20T15:21:54","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14645"},"modified":"2020-12-18T12:23:38","modified_gmt":"2020-12-18T15:23:38","slug":"por-uma-teoria-economica-alem-do-antropocentrismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/12\/20\/por-uma-teoria-economica-alem-do-antropocentrismo\/","title":{"rendered":"Por uma teoria econ\u00f4mica al\u00e9m do antropocentrismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jason W. Moore<\/strong> &#8211;\u00a0Soci\u00f3logo sugere nova interpreta\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre capitalismo e natureza. \u00c9 preciso enxergar o \u201cmetabolismo singular\u201d do sistema, diz ele, para vencer a apropria\u00e7\u00e3o do trabalho de florestas, oceanos, solos e seres humanos.<\/p>\n<p>Em o\u00a0<em>Capitalismo na teia da vida<\/em>, Jason W. Moore sustenta a necessidade imperativa de fazer uma s\u00edntese e uma reformula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica completa dos pensamentos marxista, ambiental e feminista. Eis que o que afirma: \u201cAcho que muitos de n\u00f3s entendemos intuitivamente \u2013 mesmo se os nossos quadros anal\u00edticos estejam defasados \u2013 que o capitalismo \u00e9 mais do que um sistema \u2018econ\u00f4mico\u2019 e mesmo mais do que um sistema social.\u00a0O capitalismo \u00e9 uma forma de organizar a natureza.\u201d<\/p>\n<p>O jornalista Kamil Ahsan\u00a0conversou com Moore sobre seu livro\u00a0<em>Capitalismo na Teia da Vida<\/em>\u00a0(Verso), lan\u00e7ado em agosto de 2015, o qual busca enfrentar os novos desafios que se levantam diante das velhas maneiras de compreender o nosso mundo.<\/p>\n<p><strong>Qual foi a motiva\u00e7\u00e3o para escrever\u00a0<em>Capitalismo na Teia da Vida<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p>Eu queria apresentar um arcabou\u00e7o que nos permitisse entender a hist\u00f3ria dos \u00faltimos cinco s\u00e9culos de uma forma que fosse adequada \u00e0 crise que enfrentamos hoje.\u00a0Nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, adotamos uma abordagem para a crise que pode ser denominada de \u201caritm\u00e9tica verde\u201d.\u00a0Quando temos uma crise econ\u00f4mica ou social, ela vai para uma caixa.\u00a0Quando temos uma crise ecol\u00f3gica \u2013 relacionada \u00e0 \u00e1gua, energia ou clima \u2013 ela vai para outra caixa.<\/p>\n<p>Assim, nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, ambientalistas e outros radicais t\u00eam alertado sobre essas crises, mas nunca descobriram como resolv\u00ea-las.\u00a0Os pensadores ambientais costumam dizer uma coisa e depois fazerem outra \u2013 eles alegam que os humanos s\u00e3o parte da natureza e que tudo no mundo moderno relaciona-se com a biosfera; por\u00e9m, quando come\u00e7am a analisar e a propor, se esquecem da unidade \u201csociedade mais natureza\u201d, como se a rela\u00e7\u00e3o entre ambas n\u00e3o fosse \u00edntima, direta e imediata.<\/p>\n<p><strong>A premissa de seu livro \u00e9 que precisamos quebrar o dualismo \u201cnatureza\/sociedade\u201d que prevaleceu em grande parte dos pensamentos vermelho e verde.\u00a0De onde veio essa ideia e por que ela \u00e9 totalmente artificial?<\/strong><\/p>\n<p>A ideia de que os humanos est\u00e3o fora da natureza tem uma longa hist\u00f3ria.\u00a0Trata-se de uma cria\u00e7\u00e3o do mundo moderno.\u00a0Muitas civiliza\u00e7\u00f5es antes do capitalismo tinham a sensa\u00e7\u00e3o de que os humanos eram algo distinto. Mas nos s\u00e9culos XVI, XVII e XVIII, essa poderosa ideia surgiu \u2013 ela se incorporou \u00e0 viol\u00eancia imperialista e \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o de camponeses; produziu uma s\u00e9rie de reformula\u00e7\u00f5es sobre o que significa ser um humano, particularmente no que se refere \u00e0s divis\u00f5es em torno de ra\u00e7a e g\u00eanero. Passou a existir algo que, nas palavras de Adam Smith, foi chamado \u201csociedade civilizada\u201d, uma sociedade restrita que inclu\u00eda apenas alguns humanos.<\/p>\n<p>Mas a maioria dos humanos foi, ent\u00e3o, colocada na categoria de \u201cnatureza\u201d, a qual era considerada como um mundo que deveria controlado, dominado e posto para trabalhar \u2013 em prol do mundo civilizado.\u00a0Parece muito abstrato, mas o mundo moderno foi realmente baseado nesta ideia de que uma parte dos humanos eram chamados de \u201csociedade\u201d, mas a maioria do resto \u00e9 posta noutra caixa chamada \u201cnatureza\u201d \u2013 com N mai\u00fasculo! Essa formula\u00e7\u00e3o \u00e9 muito poderosa.\u00a0Isso n\u00e3o aconteceu apenas porque havia cientistas, cart\u00f3grafos ou governantes coloniais que decidiram ser esta uma boa ideia, mas por causa de um processo muito amplo que uniu mercados e ind\u00fastria, imp\u00e9rio e novas formas de ver o mundo, assim como uma concep\u00e7\u00e3o ampla da Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Esta ideia de natureza e sociedade est\u00e1 profundamente enraizada em outros dualismos do mundo moderno: o capitalista e o trabalhador, o Ocidente e o resto, homens e mulheres, brancos e negros, civiliza\u00e7\u00e3o e barb\u00e1rie.\u00a0Todos esses outros dualismos realmente encontram suas ra\u00edzes principais no dualismo natureza\/sociedade.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a import\u00e2ncia de quebrar esse dualismo, em especial devido ao fato de que o capitalismo, segundo o seu entendimento, est\u00e1 sendo \u201ccoproduzido\u201d por ambas as naturezas, humana e extra-humana?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 importante entender que o capitalismo \u00e9 coproduzido pelos humanos e pelo resto da natureza; em especial, para entender a crise que se desdobra hoje.\u00a0A maneira usual de pensar sobre os problemas do nosso mundo \u00e9 separar: de um lado, tem-se as crises sociais, econ\u00f4micas e culturais, as quais s\u00e3o postas na rubrica de \u201ccrises sociais\u201d, de outro, tem-se as crises ecol\u00f3gicas, do clima, dos oceanos e assim por diante.\u00a0Hoje, estamos cada vez mais percebendo que n\u00e3o podemos manter essa separa\u00e7\u00e3o; por\u00e9m, apesar disso, ela tem sido mantida ainda o tempo todo.<\/p>\n<p>Precisamos superar esse dualismo para construir nosso conhecimento da crise atual, uma crise singular com muitas express\u00f5es.\u00a0Algumas, como a financeiriza\u00e7\u00e3o, parecem ser puramente sociais; outras, como a potencial sexta extin\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies neste planeta, parecem ser puramente ecol\u00f3gicas.\u00a0Mas, na verdade, esses dois momentos est\u00e3o intimamente ligados de v\u00e1rias maneiras importantes.<\/p>\n<p>Uma vez que entendemos que essas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o centrais, come\u00e7amos a ver como Wall Street \u00e9 uma forma de organizar a natureza.\u00a0Vemos o desdobramento de problemas atuais \u2013 como as turbul\u00eancias nos mercados de a\u00e7\u00f5es da China e dos Estados Unidos \u2013 est\u00e3o tamb\u00e9m relacionados com problemas maiores do clima e da manuten\u00e7\u00e3o da vida neste planeta. Ora, isso tem um impacto na pol\u00edtica que nem mesmo os economistas radicais est\u00e3o dispostos a reconhecer. Estamos vendo hoje movimentos \u2013 como os movimentos de justi\u00e7a alimentar \u2013 dizerem que precisamos entender essa transforma\u00e7\u00e3o e ela tem a ver com o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o no sentido ecol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m no sentido cultural e democr\u00e1tico \u2013 e eles n\u00e3o podem ser separados.<\/p>\n<p>O problema com a \u201caritm\u00e9tica verde\u201d inerente ao bin\u00f4mio \u201csociedade + natureza\u201d est\u00e1 em que faz uma separa\u00e7\u00e3o indevida entre justi\u00e7a ambiental e justi\u00e7a social, sustentabilidade ambiental e sustentabilidade social, imperialismo ecol\u00f3gico e imperialismo regular. Ora, qualquer um que conhe\u00e7a a hist\u00f3ria do imperialismo sabe que se trata sempre de saber \u201co que vai se transformar em valor\u201d e \u201cque grupos da sociedade se tornar\u00e3o agora fonte de valoriza\u00e7\u00e3o de valor\u201d.\u00a0Assim que paramos com essa promiscuidade adjetiva, vemos claro que o imperialismo sempre considerou que o humano e o resto da natureza eram partes de um todo que cabia explorar o mais poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Acho, por isso, que \u00e9 poss\u00edvel e necess\u00e1rio come\u00e7ar a fazer na pr\u00e1tica novas alian\u00e7as entre as diferentes partes dos movimentos sociais mundiais que, por enquanto, est\u00e3o ainda desconectados . \u00c9 preciso ligar os movimentos camponeses com os movimentos de trabalhadores urbanos, os movimentos de mulheres com os movimentos por justi\u00e7a racial.\u00a0Eis que existe uma raiz comum a todos eles.\u00a0A raz\u00e3o para reunir o que chamo de \u201cmetabolismo singular\u201d dos humanos na teia da vida \u00e9 muito crucial \u2013 ele nos permite come\u00e7ar a fazer conex\u00f5es entre momentos sociais e momentos ecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p><strong>Em oposi\u00e7\u00e3o direta ao binarismo natureza\/sociedade, voc\u00ea apresenta uma nova s\u00edntese, o \u201coikos\u201d.\u00a0O que \u00e9 isso e como isso nos leva a uma an\u00e1lise mais profunda do capitalismo?<\/strong><\/p>\n<p>No cerne do pensamento radical dominante h\u00e1 algo que impede que se fa\u00e7a uma conex\u00e3o entre a hist\u00f3ria, as rela\u00e7\u00f5es sociais entre os humanos e a teia da vida.\u00a0O que predominou at\u00e9 agora foi essa ideia central de que a natureza est\u00e1 fora das rela\u00e7\u00f5es humanas, que ela seria primitiva, que ela n\u00e3o tem hist\u00f3ria.\u00a0Essa concep\u00e7\u00e3o produz a ideia de que a natureza est\u00e1 a\u00ed e que, no melhor dos casos, precisamos proteg\u00ea-la, porque se n\u00e3o o fizermos, o apocalipse chegar\u00e1. Isso, em parte, est\u00e1 acontecendo de fato e \u00e9 correto; por outro lado, os radicais sempre foram bons em nomear o sistema de maneira errada.<\/p>\n<p>Os radicais falam sobre a intera\u00e7\u00e3o entre os humanos e o resto da natureza, mas n\u00e3o mencionam a rela\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o da vida que produz o meio ambiente e as esp\u00e9cies.\u00a0A humanidade evolui por meio de uma s\u00e9rie de atividades criadoras de meio ambiente que transformam n\u00e3o apenas as paisagens, mas tamb\u00e9m a biologia humana.\u00a0Por exemplo, o controle do fogo permitiu que os ancestrais humanos desenvolvessem sistemas digestivos mais curtos e tratassem o fogo como uma esp\u00e9cie de est\u00f4mago externo.<\/p>\n<p>Uma das ideias centrais do livro \u00e9 que a natureza tem, sim, em geral, padr\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o relativamente constantes \u2013 a Terra orbita ao redor do Sol de um modo determinado \u2013 mas a natureza tamb\u00e9m evolve historicamente.<\/p>\n<p>Com a ideia de tomar a Terra como um \u201c<em>oikos<\/em>\u201d, passamos a pensar num processo de forma\u00e7\u00e3o de vida; nomeamos esse processo assim porque ele d\u00e1 origem a m\u00faltiplos ecossistemas que incluem humanos.\u00a0Os humanos est\u00e3o sempre refazendo os ambientes em que vivem e, nesse processo, refazem as suas rela\u00e7\u00f5es entre si e com a sua pr\u00f3pria biologia.\u00a0As estruturas de poder e produ\u00e7\u00e3o, principalmente de reprodu\u00e7\u00e3o, s\u00e3o parte da hist\u00f3ria sobre como recriamos as paisagens e os ambientes; mas tamb\u00e9m, como essas paisagens e esses ambientes, ao mesmo tempo, est\u00e3o nos criando.\u00a0No entanto, nosso vocabul\u00e1rio e conceitos est\u00e3o aprisionados nesse dualismo.\u00a0Precisamos quebrar esse dualismo, oferecendo alguns novos conceitos.<\/p>\n<p><strong>Bem no in\u00edcio do livro, voc\u00ea cita a observa\u00e7\u00e3o de Marx de que a industrializa\u00e7\u00e3o transformava \u201csangue em capital\u201d.\u00a0Voc\u00ea fala tamb\u00e9m sobre essa terr\u00edvel transforma\u00e7\u00e3o do trabalho, assim como de todas as formas da natureza, em valor.\u00a0Que formas de natureza o capitalismo historicamente se apropriou? Qual \u00e9 a tend\u00eancia do capitalismo em rela\u00e7\u00e3o aos espa\u00e7os at\u00e9 ent\u00e3o inexplorados?<\/strong><\/p>\n<p>O capitalismo \u00e9 um sistema de estranhamento; eis que ele n\u00e3o \u00e9 realmente antropoc\u00eantrico da maneira que os verdes costumam enxerg\u00e1-lo. \u00c9 antropoc\u00eantrico de uma forma estreita j\u00e1 que imp\u00f5e aos humanos trabalharem dentro do sistema de mercadorias, que \u00e9 baseado na explora\u00e7\u00e3o: o trabalhador trabalha quatro horas para cobrir seu pr\u00f3prio sal\u00e1rio e outras quatro ou mais horas para o capitalista.\u00a0Essa \u00e9 uma dimens\u00e3o em que Marx se concentrou.\u00a0Mas ele estava ciente de um conjunto mais amplo de dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>O capitalismo trata uma parte da humanidade como social \u2013 aquela parte que est\u00e1 dentro do nexo monet\u00e1rio e \u00e9 reproduzida dentro do nexo monet\u00e1rio.\u00a0Mas \u2013 e isto \u00e9 bem contraintuitivo \u2013 ele consiste de uma ilha de produ\u00e7\u00e3o e troca de mercadorias dentro de um oceano muito maior. \u00c9 a\u00ed que se d\u00e3o as apropria\u00e7\u00f5es de trabalho\/energia n\u00e3o remuneradas.\u00a0Cada processo de trabalho, digamos, cada trabalhador em Shenzhen, na China, ou em Detroit, 70 anos atr\u00e1s, depende da apropria\u00e7\u00e3o do trabalho\/energia n\u00e3o remunerados do resto da natureza.\u00a0O capitalismo \u00e9, antes de tudo, um magn\u00edfico sistema de destrui\u00e7\u00e3o e de \u201capropria\u00e7\u00e3o das mulheres, da natureza e das col\u00f4nias\u201d, para usar uma frase importante de Maria Mies.<\/p>\n<p>O problema do capitalismo hoje \u00e9 que as oportunidades de se apropriar do trabalho gratuitamente \u2013 de florestas, oceanos, clima, solos e seres humanos \u2014 est\u00e3o diminuindo dramaticamente.\u00a0Enquanto isso, a massa de capital circulando pelo mundo em busca de algo em que investir est\u00e1 crescendo cada vez mais. A vis\u00e3o do capitalismo que est\u00e1 no livro fala sobre um dinamismo atual que ir\u00e1 alimentar uma situa\u00e7\u00e3o cada vez mais inst\u00e1vel nas pr\u00f3ximas uma ou duas d\u00e9cadas.\u00a0Temos uma enorme massa de capital procurando ser investida e uma enorme contra\u00e7\u00e3o de oportunidades para conseguir trabalho de gra\u00e7a.\u00a0Isso significa que o capitalismo precisa come\u00e7ar a pagar seus pr\u00f3prios custos que incorrem ao fazer neg\u00f3cios, o que significa que as oportunidades de investir capital est\u00e3o diminuindo.\u00a0H\u00e1 montanhas de dinheiro e ningu\u00e9m tem ideia do que fazer com ele sen\u00e3o aument\u00e1-lo nominalmente.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica radical atual corre segundo duas linhas paralelas.\u00a0Para uma delas, o mundo est\u00e1 chegando ao fim; essa \u00e9 a vis\u00e3o do apocalipse planet\u00e1rio de John Bellamy Foster.\u00a0Para a outra, o capitalismo tem apenas um problema de subconsumo ou de desigualdade.\u00a0Contudo, cada uma delas \u00e9 incompleta sem a outra; elas precisam ser colocadas juntas.\u00a0Quando se introduz o ecol\u00f3gico na teoria da crise econ\u00f4mica ou na an\u00e1lise da desigualdade social, o modo de entender o boom e a crise econ\u00f4mica, assim como a desigualdade, come\u00e7a a mudar. Parte disso vem do fato de que as quest\u00f5es centrais da desigualdade social, ao longo das linhas de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero, t\u00eam tudo a ver com como o capitalismo funciona na teia da vida.<\/p>\n<p><strong>Vamos nos voltar para o processo de trabalho, a pedra angular da explora\u00e7\u00e3o capitalista no pensamento marxista cl\u00e1ssico.\u00a0Voc\u00ea argumenta que Marx sabia que n\u00e3o apenas o trabalho assalariado, mas tamb\u00e9m o trabalho n\u00e3o remunerado \u2013 isto \u00e9, as energias humanas em geral, especialmente das mulheres, assim como o \u201ctrabalho\u201d da natureza extra-humana \u2013 eram centrais para o capitalismo.\u00a0E voc\u00ea tamb\u00e9m nota que vivemos em um mundo onde, cada vez mais, op\u00f5em-se sal\u00e1rios e empregos\u00a0ao clima, o que \u00e9 uma falsa dicotomia.\u00a0Como podemos nos afastar desse binarismo, dessa dicotomia que voc\u00ea est\u00e1 tentando quebrar?<\/strong><\/p>\n<p>Procurei ir ao cerne do pensamento marxista para descobrir uma nova interpreta\u00e7\u00e3o que fosse consistente com a forma como Marx pensava.\u00a0Valor \u00e9 uma das coisas mais chatas sobre a qual os marxistas costumam se pronunciar \u2013 falar da \u201clei do valor\u201d deixa certamente meus olhos vidrados.\u00a0Pois, todas as civiliza\u00e7\u00f5es t\u00eam uma forma de valorizar a vida.\u00a0Isso n\u00e3o \u00e9 exclusivo do capitalismo.\u00a0O que o capitalismo faz \u00e9 o seguinte: bem, para mim, a produtividade do trabalho dentro do nexo do dinheiro \u00e9 o que conta; logo \u00e9 preciso desvalorizar o trabalho das mulheres, da natureza e das col\u00f4nias.\u00a0Note-se, agora, que isso vira do avesso o argumento marxista usual.\u00a0Existe um tipo de lei do valor no capitalismo que consiste em ser tamb\u00e9m uma lei da \u201cnatureza barata\u201d ou mesmo uma lei que desvaloriza o trabalho dos humanos n\u00e3o remunerados em dinheiro junto com o resto da natureza.<\/p>\n<p>Eu cresci num mundo em que esse tipo de pol\u00edtica estava se propagando.\u00a0De um lado, havia os conservacionistas que, com raz\u00e3o, queriam proteger as florestas antigas.\u00a0E, do outro lado, havia a burguesia, mas tamb\u00e9m os sindicatos, que diziam: bem, precisamos de empregos.<\/p>\n<p>Isso est\u00e1 mudando.\u00a0Est\u00e1 ficando claro, mesmo para muitas grandes empresas, que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica ir\u00e1 alterar fundamentalmente as condi\u00e7\u00f5es de obten\u00e7\u00e3o de lucro.\u00a0Podemos ver isso na produ\u00e7\u00e3o de comida.\u00a0O mundo moderno funciona com base em alimentos baratos, que podem ser obtidos com um clima muito regular, muito solo, m\u00e3o de obra barata \u2013 \u00e9 assim que se obt\u00eam calorias de modo relativamente barato.\u00a0Mas agora aparece o movimento pela soberania alimentar. Ele diz que n\u00e3o se pode obter empregos de qualquer maneira, que n\u00e3o h\u00e1 maneira de fazer a natureza trabalhar de gra\u00e7a como tem sido. Na verdade, estamos vendo agora a conta chegar devido ao tratamento da atmosfera global como dep\u00f3sito de polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vemos a situa\u00e7\u00e3o na Calif\u00f3rnia, por exemplo, onde a seca se tornou t\u00e3o severa \u2013 a pior em 1200 anos, segundo dizem os estudos \u2013 que o centro em que prospera a agricultura comercial norte-americana pode simplesmente desaparecer nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.\u00a0Portanto, de v\u00e1rias maneiras, a acelera\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a hist\u00f3rica est\u00e1 tornando o discurso \u201cempregos versus meio ambiente\u201d obsoleto.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea fala muito sobre a apropria\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o remunerado, mas socialmente necess\u00e1rio, como o\u00a0<em>modus operandi<\/em>\u00a0do capitalismo. Entretanto, os pensamentos verde e vermelho tendem geralmente a ignorar esse ponto. Voc\u00ea poderia fornecer alguns exemplos?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira coisa que precisamos saber \u00e9 que o mito organizador mais poderoso do pensamento verde e do ativismo ambiental nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas foi a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial \u2013 este \u00e9 o argumento central atualmente encontrado na tese do \u201cAntropoceno\u201d. Ele diz que todo o mal na mudan\u00e7a ambiental remonta \u00e0 Inglaterra por volta de 1800, com a m\u00e1quina a vapor e o carv\u00e3o.\u00a0Isso n\u00e3o \u00e9 verdade, mas essa ideia est\u00e1 arraigada na compreens\u00e3o do mundo moderno e, especial, no modo de pensar a crise ambiental.<\/p>\n<p>Na verdade, a ascens\u00e3o do capitalismo pode ser vista muito claramente nos s\u00e9culos XV, XVI e XVII, ao percebermos as transforma\u00e7\u00f5es nas paisagens de ent\u00e3o e nos seres humanos que a\u00ed viviam.\u00a0Uma revolu\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o do ambiente sem precedentes em velocidade e em escopo ocorreu entre 1450 e 1750.<\/p>\n<p>A express\u00e3o mais dram\u00e1tica dessa mudan\u00e7a foi a conquista das Am\u00e9ricas. Ela extrapolou em muito o estatuto de uma mera conquista militar e genoc\u00eddio, embora tenha sido, sim, em grande parte, isso mesmo.\u00a0O Novo Mundo tornou-se um campo de provas para o capitalismo industrial em todos os sentidos.\u00a0As origens podem ser vistas nas planta\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar.\u00a0Um segundo lugar foi a minera\u00e7\u00e3o de prata em Potosi, na Bol\u00edvia.\u00a0Havia opera\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o muito grandes, muitas m\u00e1quinas, dinheiro entrando, trabalhadores que eram arregimentados por tempo e por tarefa \u2013 tudo tinha como premissa se apropriar do trabalho da natureza, gr\u00e1tis ou de custo muito baixo, para transform\u00e1-lo em algo que poderia ser comprado e vendido.<\/p>\n<p>Isso destruiu os solos e as zonas montanhosas dos Andes, por exemplo, que estavam completamente despojadas de \u00e1rvores, causando uma terr\u00edvel eros\u00e3o do solo.\u00a0Mas tamb\u00e9m foi devastador para os humanos incorporados nesse processo.\u00a0No vice-reinado do Peru, nos s\u00e9culos XVI e XVII, os castelhanos, os espanh\u00f3is, por exemplo, tinham uma palavra especial para designar os povos ind\u00edgenas: \u201c<em>naturales<\/em>\u201d.\u00a0Esses ind\u00edgenas feitos trabalhadores eram considerados parte da natureza.<\/p>\n<p>O mesmo tipo conceitua\u00e7\u00e3o ocorreu em torno da escravid\u00e3o africana.\u00a0O tr\u00e1fico de escravos africanos era uma realidade que se juntava \u00e0s planta\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar; ora, isso diz algo importante \u2013 n\u00e3o apenas os solos do Novo Mundo foram apropriados e exauridos, as suas florestas desmatadas, mas tamb\u00e9m os escravos africanos foram tratados n\u00e3o como humanos ou n\u00e3o fazendo parte da sociedade, mas como parte da natureza.\u00a0O trabalho dos africanos foi apropriado e o trabalho dos solos e das florestas foram apropriados sem d\u00f3 nem piedade. Foi a partir da\u00ed que come\u00e7ou a surgir uma nova rela\u00e7\u00e3o com a natureza e ela tinha a ver com a economia.<\/p>\n<p>Cada vez que surgiam novos imp\u00e9rios \u2013 o portugu\u00eas, o espanhol, o holand\u00eas \u2013 no Novo Mundo e no Oceano \u00cdndico, a primeira coisa que faziam era come\u00e7ar a recolher todas as manifesta\u00e7\u00f5es da natureza que pudessem encontrar, incluindo os humanos, para codific\u00e1-las, para torn\u00e1-las objeto da raz\u00e3o instrumental.\u00a0Finalmente, houve processos extraordin\u00e1rios de mobiliza\u00e7\u00e3o de trabalho n\u00e3o remunerado a servi\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o e troca de mercadorias.\u00a0A primeira coisa que qualquer capitalista queria, ou qualquer pot\u00eancia colonial queria, era colocar um pouco de dinheiro e obter muita energia \u00fatil de volta, na forma de prata, a\u00e7\u00facar e, posteriormente, tabaco e algod\u00e3o com o advento da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.\u00a0Era o mesmo processo visto em qualquer avan\u00e7o tecnol\u00f3gico \u2013 seja a m\u00e1quina a vapor ou antes dela as inova\u00e7\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o naval. Isso sempre teve como premissa fazer com que formas da natureza funcionassem de gra\u00e7a ou a baixo custo em escala massiva.<\/p>\n<p><strong>Em que consiste a sua cr\u00edtica do Antropoceno? Como voc\u00ea acha que esse conceito encobre a an\u00e1lise hist\u00f3rica real do capitalismo?<\/strong><\/p>\n<p>Precisamos distinguir entre dois usos do termo.\u00a0Um \u00e9 o Antropoceno enquanto no\u00e7\u00e3o cultural, que medra nas conversas entre amigos durante o jantar ou no bar. Nesse sentido, o termo antropoceno tem a virtude de colocar uma quest\u00e3o importante: como os humanos se inserem na teia da vida?\u00a0Mas a no\u00e7\u00e3o de Antropoceno n\u00e3o pode responder \u00e0 sua pergunta, porque ela \u00e9 inerentemente dual\u00edstica. Veja-se o t\u00edtulo de um famoso artigo\u00a0<em>\u201cO\u00a0<\/em><em>An<\/em><em>tropoceno: os humanos est\u00e3o agora dominando as grandes for\u00e7as da natureza?\u201d<\/em>\u00a0Essa se transfigura numa boa quest\u00e3o quando se acredita que os humanos fazem parte da natureza.<\/p>\n<p>O argumento do Antropoceno em sua forma dominante, por outro lado, est\u00e1 baseado num modelo hist\u00f3rico absurdo.\u00a0Diz mais ou menos que tudo come\u00e7ou na Inglaterra, em 1800, com motores a vapor e com o uso do carv\u00e3o mineral.\u00a0H\u00e1 v\u00e1rios problemas hist\u00f3ricos nessa formula\u00e7\u00e3o. Muito antes da m\u00e1quina \u00e0 vapor, houve um aumento de ordem de magnitude na capacidade do capitalismo de transformar o meio ambiente, em termos de escala, velocidade e escopo.<\/p>\n<p>Sou uma pessoa muito preocupada com o fato de que a no\u00e7\u00e3o de Antropoceno permite fazer esse velho truque burgu\u00eas que diz que os problemas criados pelos capitalistas s\u00e3o de responsabilidade de toda a humanidade.\u00a0Essa \u00e9 uma vis\u00e3o profundamente racista, euroc\u00eantrica e patriarcal que apresenta uma s\u00e9rie de problemas muito reais. N\u00e3o se pode responsabilizar a humanidade como um todo.\u00a0Em um n\u00edvel filos\u00f3fico profundo, somos todos iguais aos olhos do Antropoceno.\u00a0Em um sentido hist\u00f3rico, essa \u00e9 uma das piores viol\u00eancias conceituais que se pode impor.\u00a0Seria como dizer que a ra\u00e7a n\u00e3o importa na Am\u00e9rica atual \u2013 qualquer pessoa que afirmasse isso seria ridicularizada no ato. \u00a0A fuga permitida pela ideia de Antropoceno vem do dualismo natureza\/sociedade.<\/p>\n<p><strong>O capitalismo hoje, em \u00faltima an\u00e1lise, est\u00e1 passando por uma crise evolutiva. Que progn\u00f3stico essa nova an\u00e1lise hist\u00f3rica fornece sobre essa crise?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo depende de como se pensa o capitalismo.\u00a0Se se tem uma defini\u00e7\u00e3o padr\u00e3o de capitalismo como um sistema comprometido com o crescimento econ\u00f4mico sem fim e com a maximiza\u00e7\u00e3o da lucratividade, \u00e9 poss\u00edvel pensar na capacidade do capitalismo de sobreviver.\u00a0Mas se se julga que o capitalismo depende da apropria\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o remunerado dos humanos e do resto da natureza\u2026 ent\u00e3o se come\u00e7a a ter uma vis\u00e3o diferente dos seus limites.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o central da economia pol\u00edtica \u00e9: como os grandes\u00a0<em>booms<\/em>\u00a0de investimento e de acumula\u00e7\u00e3o capitalistas ocorrem no mundo moderno? Quais s\u00e3o os seus limites?<\/p>\n<p>Mesmo se as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o estivessem acontecendo, esses limites j\u00e1 seriam formid\u00e1veis. Os capitalistas sempre encontraram sa\u00eddas para as crises e isto \u00e9 algo com que os radicais e os conservadores concordam.\u00a0Ambos dizem a mesma coisa porque s\u00e3o cegos \u00e0 natureza.\u00a0O capitalismo \u00e9, acima de tudo, um sistema de natureza barata, consistindo em quatro elementos: for\u00e7a de trabalho, energia, alimentos e mat\u00e9rias-primas.\u00a0O capitalismo restaura o baixo custo desses produtos da natureza, encontrando novas partes da natureza que n\u00e3o foram mercantilizadas ou trazidas para o nexo monet\u00e1rio. No s\u00e9culo XIX, foram o sul e o leste da \u00c1sia.\u00a0Nos \u00faltimos 30 anos, o neoliberalismo trouxe a China, a \u00cdndia, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o Brasil para o seu \u00e2mbito.<\/p>\n<p>Ora, em termos de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, esse processo retroalimenta ainda, de uma forma retardada, a apropria\u00e7\u00e3o da \u201cnatureza barata\u201d que ainda sobrou. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 o maior vetor individual de aumento dos custos dos neg\u00f3cios normais.\u00a0Isso vai minar a base de todo o relacionamento do capitalismo com a natureza, minando radicalmente a estrat\u00e9gia de apropria\u00e7\u00e3o da natureza barata em que ele se baseou para se desenvolver.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea menciona que os movimentos ambientais e sociais est\u00e3o lentamente chegando \u00e0 conclus\u00e3o de que o binarismo natureza\/sociedade \u00e9 falso, possivelmente por causa das amea\u00e7as reais \u00e0 natureza e \u00e0 sociedade e mesmo ao pr\u00f3prio capitalismo, particularmente com projetos de perfura\u00e7\u00e3o extrativa em grande escala que est\u00e3o invadindo uma natureza da qual os humanos fazem parte.<\/strong><\/p>\n<p>Acho que alguns movimentos est\u00e3o come\u00e7ando a ver a natureza e a sociedade como sendo inextricavelmente ligadas.\u00a0Acho que o pr\u00f3ximo passo \u00e9 entrar no \u00e2mago das quest\u00f5es de ra\u00e7a, g\u00eanero e desigualdade para apontar como essas quest\u00f5es s\u00e3o intimamente conectadas \u00e0 natureza e \u00e0 sociedade tal como s\u00e3o imaginadas no mundo moderno.\u00a0Ao se fazer algumas perguntas simples: por exemplo, por que algumas vidas humanas s\u00e3o mais importantes do que outras \u2013 pensando na import\u00e2ncia de vidas negras? \u2013 ou por que alguns genoc\u00eddios s\u00e3o mais importantes do que outros?, come\u00e7a-se a ver que existem pressuposi\u00e7\u00f5es muito poderosas sobre essas no\u00e7\u00f5es de natureza e sociedade.<\/p>\n<p>Acho que os movimentos em torno da extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo por\u00a0<em>fracking\u00a0<\/em>ou do oleoduto Keystone, nos Estados Unidos se apresentam com um tipo de organiza\u00e7\u00e3o social que se encaixa muito bem com os argumentos do livro.\u00a0Os movimentos por justi\u00e7a n\u00e3o podem mais ser aplacados por meio de uma nova distribui\u00e7\u00e3o de recompensas, em parte porque o capitalismo n\u00e3o tem o excedente que costumava ter.\u00a0V\u00ea-se isso especialmente nas discuss\u00f5es em torno de projetos de energia, fraturamento hidr\u00e1ulico, petr\u00f3leo e extrativismo na Am\u00e9rica Latina.\u00a0E \u00e9 claro que para come\u00e7ar, nessa regi\u00e3o, muitos grupos ind\u00edgenas nunca acreditaram nesse dualismo. \u00c9 por isso que eles estavam \u00e0 frente nesse ponto at\u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia moderna.<\/p>\n<p>Mas ainda h\u00e1 muitas pessoas na esquerda, especialmente na Am\u00e9rica do Norte, que veem a natureza como algo externo, como uma vari\u00e1vel ou um contexto, que ser\u00e1 um beco sem sa\u00edda pol\u00edtico completo.\u00a0Precisamos trazer a natureza para dentro do capitalismo e entender o capitalismo como parte da natureza.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/para-superar-o-antropocentrismo-da-teoria-economica\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jason W. 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