{"id":1464,"date":"2016-08-08T12:05:52","date_gmt":"2016-08-08T15:05:52","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1464"},"modified":"2016-07-30T12:09:34","modified_gmt":"2016-07-30T15:09:34","slug":"argentina-depois-de-macri-a-marcha-apressada-do-capitalismo-mafioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/08\/08\/argentina-depois-de-macri-a-marcha-apressada-do-capitalismo-mafioso\/","title":{"rendered":"Argentina depois de Macri: a marcha apressada do capitalismo mafioso"},"content":{"rendered":"<p><strong>JORGE BENSTEIN<\/strong> &#8211;\u00a0Na Argentina, come\u00e7ou a conformar-se um regime autorit\u00e1rio com apar\u00eancia constitucional. Uma converg\u00eancia mafiosa de setores empresariais, judiciais e midi\u00e1ticos monitorados pelo aparato de intelig\u00eancia dos Estados Unidos. Mas o que demonstram os primeiros meses do processo \u00e9 que a grande tentativa trope\u00e7a em numerosas dificuldades, que amea\u00e7am transform\u00e1-la em uma gigantesca crise de governabilidade. O contexto de seu desenvolvimento \u00e9 uma recess\u00e3o econ\u00f4mica que vai se aprofundando na dire\u00e7\u00e3o da depress\u00e3o, de um funcionamento econ\u00f4mico de baixa intensidade, com altas taxas de desemprego, sal\u00e1rios reais muito reduzidos e baratos em d\u00f3lares.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata do retorno do velho neoliberalismo dos anos 90, muito menos de uma imita\u00e7\u00e3o do regime olig\u00e1rquico dos finais do s\u00e9culo 19, mas a tentativa de instaura\u00e7\u00e3o de um sistema mafioso, que parasita sobre uma popula\u00e7\u00e3o desarticulada, alberga grandes espa\u00e7os de marginalidade e superexplora\u00e7\u00e3o laboral, realizando um saque sem precedentes de recursos naturais.<\/p>\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, v\u00e3o sendo impostos os instrumentos essenciais do regime ditatorial: controle completo dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, reconvers\u00e3o integral do sistema de seguran\u00e7a como ap\u00eandice dos Estados Unidos (1), implanta\u00e7\u00e3o de mecanismos de destrui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social de grande escala e desdobramentos midi\u00e1tico-judiciais que tendem a extirpar as oposi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se subordinem ao novo regime.<\/p>\n<p><strong>Submiss\u00e3o colonial e decad\u00eancia perif\u00e9rica<\/strong><\/p>\n<p>O tempos mudaram, a \u201cdoutrina da seguran\u00e7a nacional\u201d vigente na \u00e9poca de Videla e Pinochet coincidia com a vis\u00e3o militar-profissional do Imp\u00e9rio, se tratava do controle milim\u00e9trico da sociedade colonizada, administrada como um quartel, que coincidiu historicamente com a \u00faltima etapa do predom\u00ednio dos Estados Unidos do \u201ccomplexo militar-industrial\u201d tradicional \u2013 a alian\u00e7a entre a grande ind\u00fastria armamentista e os altos comandos militares, subordinados \u00e0s elites pol\u00edticas. Resultado do keynesianismo militar que marcou a superpot\u00eancia desde a Segunda Guerra Mundial e entrou em decl\u00ednio nos anos 80 (2).<\/p>\n<p>Mais adiante, o \u201cConsenso de Washington\u201d reinou durante a era de Carlos Menem na Argentina e de Collor e FHC no Brasil, sinalizando o auge da financeiriza\u00e7\u00e3o da economia e da pol\u00edtica dos Estados Unidos e do conjunto de pot\u00eancias dominantes, sem deixar de lado o componente militar que come\u00e7ou a transformar-se.<\/p>\n<p>Esses dois momentos tr\u00e1gicos expressaram a afirma\u00e7\u00e3o da submiss\u00e3o colonial da Argentina. Primeiro com formato militar-ditatorial. Em segundo lugar, com rosto civil-constitucional, que se corresponde com diferentes configura\u00e7\u00f5es imperialistas: no primeiro caso com um imperialismo norte americano industrial ascendente, disputando a Guerra Fria, e em segundo lugar com a presen\u00e7a da \u00fanica superpot\u00eancia global, que vinha de ganhar essa guerra e se prestava a exercer a hegemonia planet\u00e1ria. Ainda ao mesmo tempo, financeirizavan-se as economias; o parasitismo come\u00e7ava a corroer o sistema e a degradar seus pilares produtivos, instalando a cultura do consumismo desenfreado. Tal prosperidade insana contagiou as elites perif\u00e9ricas e nos Estados Unidos a festa se converteu em uma onda militarista a partir de 2001. A megabolha financeira explodiu em 2008 e na Argentina o show desembocou em recess\u00e3o, que por sua vez culminou com um grande desastre econ\u00f4mico, social e institucional ainda em 2001.<\/p>\n<p>A atual submiss\u00e3o Argentina aos Estados Unidos n\u00e3o se corresponde com um tipo de auge do Imp\u00e9rio, mas com sua decad\u00eancia, sua degrada\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social e seu retrocesso geopol\u00edtico internacional, que busca ser compensado mediante o controle total de seu quintal latino-americano, a fim de assegurar a superexplora\u00e7\u00e3o de recursos naturais decisivos, mas tamb\u00e9m para introduzir a regi\u00e3o como pe\u00e7a pr\u00f3pria de seu jogo global. Como sinal para seus s\u00f3cios europeus na OTAN ou como retaguarda segura na arma\u00e7\u00e3o do \u201cAcordo Transpac\u00edfico\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 um imp\u00e9rio comandado por uma lumpenburguesia financeira, sobrevivendo com baixas taxas de crescimento produtivo, parasitando sobre o resto do mundo, que n\u00e3o busca instaurar uma hierarquia mundial est\u00e1vel reproduzindo-se em longo prazo, mas apenas depredar recursos naturais, degradar ou eliminar Estados e destruir defesas sociais perif\u00e9ricas, estendendo ofensivas desestruturantes e desintegradoras de identidades nacionais e culturais. Seu instrumento de interven\u00e7\u00e3o militar \u00e9 agora uma constela\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es guiadas pela doutrina da Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o (3): emprega de maneira intensiva mercen\u00e1rios, com opera\u00e7\u00f5es clandestinas de sua estrutura profissional, redes mafiosas, manipula\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas e outras atividades destinadas a trazer o caos e destruir espa\u00e7os perif\u00e9ricos com o fim de saque\u00e1-los.<\/p>\n<p>Em correspond\u00eancia ao fen\u00f4meno, as burguesias latino-americanas foram mudando at\u00e9 a chegarem \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual, onde grupos empresariais, financeiros ou do agroneg\u00f3cio combinam seus investimentos tradicionais com outros mais rent\u00e1veis, por\u00e9m, mais vol\u00e1teis: aventuras especulativas, neg\u00f3cios ilegais de todo tipo (desde o narcotr\u00e1fico at\u00e9 opera\u00e7\u00f5es imobili\u00e1rias opacas, passando por fraudes comerciais, fiscais e outros empreendimentos turvos), transnacionalizando-se e convergindo em \u201cinvestimentos\u201d saqueadores provenientes do exterior. No caso argentino, poder\u00edamos encontrar antecedentes no reinado da \u201cp\u00e1tria financeira\u201d durante a \u00faltima ditadura militar, que por sua vez tem de ser visto como resultado do fim da era industrial.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, a configura\u00e7\u00e3o l\u00fampen-imperialista imp\u00f5e din\u00e2micas decadentes na periferia do mundo. Na Am\u00e9rica Latina, chegou a hora do \u201clumpencapitalismo\u201d, dire\u00e7\u00e3o para a qual as elites argentinas j\u00e1 vinham avan\u00e7ando. A chegada de Macri \u00e0 presid\u00eancia expressa um enorme salto qualitativo, o pa\u00eds em seu conjunto acaba de ingressar de maneira recarregada e brusca nesse processo.<\/p>\n<p><strong>Recess\u00e3o, depress\u00e3o e economia de baixa intensidade<\/strong><\/p>\n<p>Recentemente, o FMI prognosticou para a Argentina um crescimento econ\u00f4mico real negativo em 2016, da ordem de 1%. Quando observamos as quedas j\u00e1 produzidas em indicadores decisivos desde dezembro de 2015 \u00e9 poss\u00edvel diminuir ainda mais essa cifra, at\u00e9 3% negativos, ou ainda pior.<\/p>\n<p>Foi produzida em muito pouco tempo uma forte redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios reais, causada entre outros fatores pela mega-avalia\u00e7\u00e3o, aumentos de pre\u00e7os dos combust\u00edveis e das tarifas de eletricidade, g\u00e1s e transportes, elimina\u00e7\u00e3o ou redu\u00e7\u00e3o de reten\u00e7\u00f5es e seus impactos inflacion\u00e1rios, ao que se agrega a subida das taxas de interesse e das demiss\u00f5es em massa na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica (que come\u00e7am a ser seguidas pelo setor privado), com os quais temos um panorama recessivo provocado pelo governo, cujo objetivo principal \u00e9 reduzir sal\u00e1rios reais e seu valor em d\u00f3lares.<\/p>\n<p>A avalanche de mudan\u00e7as desatou em alguns c\u00edrculos o debate em torno do suposto \u201cmodelo de desenvolvimento\u201d que a direita estaria tentando impor. Decretos, endividamentos, altas de pre\u00e7os e demiss\u00f5es se sucederam de maneira vertiginosa; buscar-lhe coer\u00eancia estrat\u00e9gica a essa conjunto \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua que a cada passo imp\u00f5e mais contradi\u00e7\u00f5es, que obrigam a descartar hip\u00f3teses sem que se possa chegar a uma conclus\u00e3o minimamente rigorosa.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a contradi\u00e7\u00e3o se encontra entre medidas que destroem o mercado interno para favorecer uma suposta onda exportadora, evidentemente invi\u00e1vel diante do recolhimento da economia global. Outra \u00e9 o aumento das taxas de juros que comprimem o consumo e os investimentos \u00e0 espera da chegada de fundos provenientes de um sistema financeiro internacional em crise, no qual quase a \u00fanica coisa a brindar \u00e9 a arma\u00e7\u00e3o de manobras especulativas.<\/p>\n<p>Alguns optaram por resolver o tema adotando defini\u00e7\u00f5es abstratas t\u00e3o gerais quanto pouco operativas (\u201cmodelo favor\u00e1vel ao grande capital\u201d, \u201crestaura\u00e7\u00e3o neoliberal\u201d etc.), outros decidiram seguir o estudo, mas cada vez que chegam a uma conclus\u00e3o satisfat\u00f3ria aparece um novo feito que os joga da janela do edif\u00edcio intelectual constru\u00eddo. Finalmente, uns poucos, entre os quais me encontro, temos chegado \u00e0 conclus\u00e3o de que buscar essa coer\u00eancia estrat\u00e9gica constitui uma tarefa imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>A chegada da direita ao governo n\u00e3o significa a substitui\u00e7\u00e3o do modelo anterior (desenvolvimentista, neokeynesiano ou como queira ser qualificado) por um novo modelo (olig\u00e1rquico) de desenvolvimento, mas simplesmente o desenrolar de um gigantesco saque protagonizado por for\u00e7as entr\u00f3picas altamente destrutivas que convertem o pa\u00eds burgu\u00eas em uma rep\u00fablica de bandidos.<\/p>\n<p>Isto deveria nos levar a uma reflex\u00e3o sobre o significado do fim da era kirchnerista, visualizado por alguns como um trope\u00e7o, resultado de uma derrota eleitoral por escassa margem e por outros como produto de uma manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica prolongada, combinada com opera\u00e7\u00f5es da m\u00e1fia judicial, de grupos econ\u00f4micos concentrados e do aparato de intelig\u00eancia dos Estados Unidos. Esta \u00faltima avalia\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais pr\u00f3xima da realidade, por\u00e9m, ainda \u00e9 insuficiente. O \u201cgolpe branco\u201d existiu (o que pulveriza a presun\u00e7\u00e3o de legitimidade democr\u00e1tica do governo atual), mas ainda falta explicar porque foi exitoso.<\/p>\n<p><strong>Raz\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Se nos limitarmos a certos aspectos econ\u00f4micos do tema, podemos observar que o \u201cmotor externo\u201d come\u00e7ou a esfriar desde 2012, depois da breve recupera\u00e7\u00e3o da recess\u00e3o global de 2009. A situa\u00e7\u00e3o se agravou desde a metade de 2014, quando os pre\u00e7os das commodities ca\u00edram e a economia passou a uma etapa de crescimentos an\u00eamicos sustentados pelo mercado interno. Os grandes exportadores aumentaram a press\u00e3o destinada a obter, na economia nacional, benef\u00edcios que lhes permitissem compensar as menores taxas externas, convergindo com interesses financeiros e agrupando o conjunto da direita midi\u00e1tica, judicial e pol\u00edtica. Tratou-se de uma corja que foi tornando-se cada vez mais v\u00e1lida, na medida em que seu inimigo perdia espa\u00e7o econ\u00f4mico e se acentuava a crise global.<\/p>\n<p>Os equil\u00edbrios do governo foram cada vez mais inst\u00e1veis, as comportas neokeynesianas que bloqueavam a mar\u00e9 come\u00e7aram a sofrer fissuras para finalmente desmoronarem. A candidatura presidencial de Daniel Scioli foi uma op\u00e7\u00e3o defensiva e d\u00e9bil, que n\u00e3o p\u00f4de evitar a queda. Assim, foi desatada a recess\u00e3o e diversos sinais nacionais e internacionais nos indicam que ela veio para ficar. Encontramo-nos diante do in\u00edcio de uma depress\u00e3o econ\u00f4mica resultado da reprodu\u00e7\u00e3o de um sistema que ingressou em uma fase de contra\u00e7\u00e3o desordenada.<\/p>\n<p>Uma refer\u00eancia importante \u00e9 a da sa\u00edda da recess\u00e3o produzida desde 2003. Nesse per\u00edodo convergiram dois fatores principais: o aumento do pre\u00e7o internacional das commodities e a reanima\u00e7\u00e3o do mercado interno.<\/p>\n<p>O \u201cmotor externo\u201d foi impulsionado pelo auge de mercados emergentes, como os da China ou Brasil, entre outros, o que permitiu uma melhora substancial das contas externas da Argentina. Os pre\u00e7os das commodities experimentaram subidas not\u00e1veis nesses anos, impulsionadas n\u00e3o s\u00f3 pela expans\u00e3o da demanda internacional, mas tamb\u00e9m pelo crescimento da especula\u00e7\u00e3o financeira. As opera\u00e7\u00f5es globais com produtos financeiros derivados e baseados em commodities chegavam, em dezembro de 2003, a 1,4 bilh\u00e3o de d\u00f3lares; em dezembro de 2005 alcan\u00e7avam os 5,4 bilh\u00f5es e em junho de 2008 os 13,1 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (4).<\/p>\n<p>Por sua vez, o \u201cmotor interno\u201d funcionou empurrado pela ascens\u00e3o do pleno emprego, dos sal\u00e1rios reais e da renda das classes m\u00e9dias. Como consequ\u00eancia, expandiram-se a demanda interna e o tecido industrial, a economia argentina se recuperou e cresceu a taxas excepcionais. Como \u00e9 sabido, o sal\u00e1rio real m\u00e9dio experimenta na Argentina uma tend\u00eancia decrescente de longo prazo (desde meados dos anos 70), sofreu uma queda descomunal durante a crise dos anos 2001-2002, depois se recuperou par os n\u00edveis dos anos 90, mas sem alcan\u00e7ar nunca os dos anos 70, nem sequer os dos anos 80 (5). Poder\u00edamos resumir o sucedido assinalando que a reanima\u00e7\u00e3o do mercado interno se apoiou em um forte crescimento do emprego e em uma recupera\u00e7\u00e3o salarial limitada.<\/p>\n<p>Se o crescimento an\u00eamico dos \u00faltimos anos do governo anterior incentivou a vontade de rapina dos grupos econ\u00f4micos concentrados, \u00e9 altamente prov\u00e1vel que a recess\u00e3o atual a acentue mais. Ao apequenar-se a economia, como resultado dos ajustes e transfer\u00eancias de investimentos, esses grupos tentaram ao menos sustentar seu volume real de lucro, apropriando-se de uma por\u00e7\u00e3o crescente do PIB. Ainda empurrados por sua pr\u00f3pria din\u00e2mica e pelo exerc\u00edcio da totalidade do poder, \u00e9 quase certo que buscar\u00e3o absorver um volume real maior.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as medidas que buscam reequilibrar os desequil\u00edbrios provocados pelas pr\u00f3prias medidas econ\u00f4micas do governo causam maior instabilidade e empobrecimento do grosso da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso da tentativa de desacelerar a alta da cota\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar subindo as taxas de juros, com o que, \u00e0s vezes, consegue-se frear, mas por pouco tempo, essa tend\u00eancia \u2013 e \u00e0s custas do agravamento da recess\u00e3o. Ou quando se pretende apequenar o d\u00e9ficit fiscal reduzindo o gasto p\u00fablico (despedindo empregados, fechando programas, etc.), o que agrava a recess\u00e3o e em consequ\u00eancia reduz as receitas fiscais e aumenta o d\u00e9ficit. Em suma, nos encontramos diante de um c\u00edrculo vicioso de concentra\u00e7\u00e3o de riqueza, apequenamento do Estado e fundi\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A queda do sal\u00e1rio real n\u00e3o atrair\u00e1 mais investimentos internos ou externos por causa da queda dos mercados, nacional e global (n\u00e3o h\u00e1 alternativa exportadora). Enquanto isso, o governo aparenta apegar-se ao que seria uma t\u00e1bua da salva\u00e7\u00e3o da economia: o endividamento externo que teoricamente o permita realizar investimentos reativo. Mas o clima rarefeito do mercado financeiro internacional comprime o espa\u00e7o dos potenciais credores, cada vez mais duros diante de uma economia nacional deprimida. Na realidade, a ansiedade em se endividar n\u00e3o responde a uma paix\u00e3o desenvolvimentista, mas \u00e0 press\u00e3o dos grupos de neg\u00f3cios que acumularam superlucros nestes \u00faltimos meses (exportadores, bancos etc.) e necessitam transform\u00e1-los em d\u00f3lares. \u00c9 essa evas\u00e3o de capitais, e n\u00e3o o investimento na produ\u00e7\u00e3o, a marca dos que defendem o endividamento.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Os dois motores de sa\u00edda da recess\u00e3o na d\u00e9cada passada deixaram de funcionar, as pol\u00edticas que buscavam compensar o ciclo recessivo global foram eliminadas pelas classes dominantes, sendo que antes haviam sido \u00fateis para restabelecer a governabilidade e acumular lucros. Agora, foram destru\u00eddas pelo fato de frearem sua voracidade.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel elaborar um modelo excessivamente abstrato de estabiliza\u00e7\u00e3o do processo depressivo argentino sob a forma de \u201ceconomia de baixa intensidade\u201d ou de \u201cpen\u00faria\u201d, ou seja, uma estrutura econ\u00f4mica dual com um setor popular contra\u00eddo e uma elite parasitando sobre o primeiro (superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e outros saques \u00e0s classes m\u00e9dias e baixas). Isto permitiria manter relativamente baixos os n\u00edveis de importa\u00e7\u00f5es que assegurariam (n\u00e3o sempre) saldos positivos na balan\u00e7a comercial destinados a pagar d\u00edvidas externas. Estas \u00faltimas, ademais de encher as arcas das redes financeiras, podiam ainda ser utilizadas para bloquear perigos de implos\u00e3o e de revolta social, operando como uma esp\u00e9cie de droga dosificada destinada a preservar a reprodu\u00e7\u00e3o do sistema.<\/p>\n<p>Esse modelo econ\u00f4mico sinistro necessitaria de maneira inevit\u00e1vel do apoio de um consentido mecanismo de repress\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o das classes inferiores. Tratar-se-ia da instala\u00e7\u00e3o de um regime neofascista como prev\u00ea a doutrina da Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o (restringindo-nos \u00e0 realidade da Am\u00e9rica Latina, n\u00e3o estamos longe para observar o que ocorre no M\u00e9xico ou em pa\u00edses da Am\u00e9rica Central). Requereria, al\u00e9m de muita estabilidade no interior da articula\u00e7\u00e3o mafiosa, a atenua\u00e7\u00e3o das disputas internas diante de um esp\u00f3lio vari\u00e1vel, sujeito a numerosos fatores de instabilidade, locais e internacionais. Trata-se de um cen\u00e1rio de dif\u00edcil (mas n\u00e3o imposs\u00edvel) realiza\u00e7\u00e3o, com tend\u00eancias depressivas acompanhadas pelo aumento da volatilidade em mercados decisivos, a prolifera\u00e7\u00e3o de guerras, decad\u00eancias institucionais dos Estados centrais, derrubadas e crises graves de Estados perif\u00e9ricos e outros sintomas claros que descrevem um planeta que se encaminha para horizontes de alta turbul\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>O fantasma de 2001<\/strong><\/p>\n<p>O governo macrista se comporta como o que se chama de \u201csistemas ca\u00f3ticos\u201d. A diferen\u00e7a dos \u201cinst\u00e1veis\u201d (em desordem permanente) e dos \u201cest\u00e1veis\u201d (que tendem de maneira irresist\u00edvel \u00e0 ordem), oscilam entre um ordenador (atrativo neofascista) e for\u00e7as que o desordenam e o conduzam a crises de governabilidade.<\/p>\n<p>O caminho para uma ditadura mafiosa est\u00e1 apontado por tr\u00eas estrat\u00e9gias convergentes: a corrup\u00e7\u00e3o de dirigentes, a repress\u00e3o aos protestos sociais e pol\u00edticos e o bombardeio midi\u00e1tico. S\u00e3o opera\u00e7\u00f5es de efic\u00e1cia incerta, circulando em meio \u00e0 debacle econ\u00f4mica e \u00e0 sanha dos interesses de grupos dominantes, que se apoiam em uma base social reacion\u00e1ria, cujo n\u00facleo duro impulsionado por uma euforia neofascista est\u00e1 incrustado nas classes m\u00e9dias e altas.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o de dirigentes pol\u00edticos e sindicais pode ser \u00fatil a curto prazo, para impor decis\u00f5es impopulares ou frear protestos, mas desgasta os pr\u00f3prios corruptos. Promove a eros\u00e3o das suas posi\u00e7\u00f5es de poder, reduz sua capacidade operativa em pouco tempo e deixa-a cada vez mais vulner\u00e1vel aos descontentamentos populares. \u00c9 o que se percebe nos primeiros meses do governo macrista no que se refere \u00e0 compra de sindicalistas, deputados, senadores e governadores.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o avan\u00e7a e funciona um Minist\u00e9rio da Seguran\u00e7a subordinado ao aparato de intelig\u00eancia dos Estados Unidos, regressaram as \u201cpol\u00edcias bravas\u201d e foi ditado um \u201cprotocolo\u201d de repress\u00e3o de protestos populares. Aparecem as primeiras express\u00f5es, aparentemente negligentes, de repress\u00e3o ilegal. Mas n\u00e3o \u00e9 certo que essa estrat\u00e9gia de amedrontamento tenha \u00eaxito, \u00e9 poss\u00edvel que seu efeito termine sendo o oposto do que o governo busca. Existe na Argentina uma enraizada cultura de enfrentamento contra a brutalidade estatal que pode resultar em um catalisador de transbordamento opositor.<\/p>\n<p>O bombardeio midi\u00e1tico foi um instrumento decisivo da chegada de Macri \u00e0 presid\u00eancia. Teve uma elevada efic\u00e1cia, atacando o governo anterior e ampliando um vazio pol\u00edtico que podia ser ocupado por opositores de direita que se limitavam a denunciar o oficialismo, contrapondo promessas vagas de felicidade futura. Agora esses meios de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam de se encarregar da completa tarefa de defender um regime claramente antipopular. Neste novo cen\u00e1rio, sua efic\u00e1cia \u00e9 decrescente e a tentativa de compensar essa queda aumenta a press\u00e3o midi\u00e1tica (por si s\u00f3 digna de nota), produzindo efeitos de satura\u00e7\u00e3o e descr\u00e9dito das ditas intoxica\u00e7\u00f5es, at\u00e9 gerar rejei\u00e7\u00f5es cada vez mais fortes.<\/p>\n<p>Finalmente, a base social neofascista pode ser fanatizada ao extremo pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 quase imposs\u00edvel impedir que sua \u00e1rea de influ\u00eancia, sobretudo nas classes m\u00e9dias, se reduza \u00e0 medida que se prolonga a depress\u00e3o econ\u00f4mica. O que terminar\u00e1 por deteriorar esse setor reacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, o sistema disp\u00f5e de instrumentos e apoios sociais crescentemente vulner\u00e1veis, sua for\u00e7a depende em \u00faltima inst\u00e2ncia do grau de debilidade de seu advers\u00e1rio: o espa\u00e7o popular se p\u00f5e em marcha fortalecendo-se em luta. O instrumental autorit\u00e1rio poder\u00e1 sofrer fissuras, desgarros cada vez mais importantes e seu inevit\u00e1vel centralismo operativo acabar acossado por uma mar\u00e9 ascendente de ataques, resist\u00eancias e rep\u00fadios. Com isso, iria perdendo vitalidade e acentuando suas contradi\u00e7\u00f5es internas. O contexto turbulento deveria contribuir com o processo.<\/p>\n<p>Cedo ou tarde a resist\u00eancia popular pode chegar a transformar-se em ofensiva generalizada contra o sistema. A acumula\u00e7\u00e3o de desdobramentos nas elites dominantes terminaria por gerar um salto qualitativo de grandes dimens\u00f5es, n\u00e3o seria a primeira vez que ocorre este fen\u00f4meno na Argentina, ainda que seu aspecto e conte\u00fado possa chegar a incluir muitas novidades.<\/p>\n<p>Obviamente, a grave deteriora\u00e7\u00e3o do governo macrista pode levar a uma remodela\u00e7\u00e3o do equipamento presidencial (um tipo de \u201cgoverno de unidade nacional\u201d) ou a uma mudan\u00e7a institucional de governo, destinada a estabilizar a situa\u00e7\u00e3o e ainda introduzindo medidas \u201csociais\u201d mais ou menos audazes. Enfrentariam uma crise sist\u00eamica espantosa, muito mais grave que em 2001, em um contexto global depressivo. Uma conjuntura deste tipo dificilmente poderia ser superada com aspirinas rosas \u2013 ou de outra cor.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 presid\u00eancia, Macri lan\u00e7ou em alta velocidade uma s\u00e9rie de decretos arbitr\u00e1rios, empregou de imediato uma ofensiva para assegurar o controle direitista dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, comprou (ou extorquiu) dirigentes pol\u00edticos e sindicais, reduziu o poder aquisitivo dos sal\u00e1rios e aposentadorias, lan\u00e7ou uma onda de demiss\u00f5es de funcion\u00e1rios p\u00fablicos e concretizou enormes transfer\u00eancias de recursos para as elites dominantes. Em suma: promoveu uma verdadeira \u201cblitzkrieg\u201d destinada a eludir as resist\u00eancias poss\u00edveis antes que estas se organizassem. De todos os modos, n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de impor o gigantesco saque realizado mediante um sistema de negocia\u00e7\u00f5es. Mas o n\u00edvel de destrui\u00e7\u00e3o atingido em t\u00e3o pouco tempo provavelmente o haja convencido de seu \u00eaxito, incitando-o a seguir avan\u00e7ando.<\/p>\n<p>A irrup\u00e7\u00e3o devastadora das elites dominantes podia ser similar a de um ex\u00e9rcito penetrando em um vasto territ\u00f3rio. Logo no come\u00e7o, a ofensiva \u00e9 exitosa, o efeito surpresa, a explora\u00e7\u00e3o de debilidades locais, a contund\u00eancia da opera\u00e7\u00e3o etc. permitem avan\u00e7os r\u00e1pidos aparentemente irrevers\u00edveis. Mas pouco a pouco as v\u00edtimas come\u00e7am a reagir, acossando o invasor e o espa\u00e7o, simplificado por mapas e informa\u00e7\u00f5es de especialistas, transformando-se em um sistema complexo e crescentemente incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p>A velocidade inicial da sucess\u00e3o de vit\u00f3rias que, em um princ\u00edpio, aparentavam ser a chave do sucesso come\u00e7a a ser percebida pelo invasor como a principal causa de suas dificuldades. A rapidez operacional gera fen\u00f4menos de n\u00e3o adapta\u00e7\u00e3o, de sobre-extens\u00e3o estrat\u00e9gica que aumentam sua vulnerabilidade, levando finalmente \u00e0 derrota, devastada por uma avalanche humana imposs\u00edvel de ser contida (recordemos o que aconteceu com a invas\u00e3o de Napole\u00e3o sobre a R\u00fassia).<\/p>\n<p>Macri pode acabar descobrindo que a realidade social argentina \u00e9 muito mais complexa do que detectou sua vis\u00e3o mafiosa, que a cultura popular existe e se reproduz (maltratada e golpeada, mas existe). E que os sal\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o como ele disse uma vez, \u201cum custo a mais\u201d, que pode e deve ser comprimido ao m\u00e1ximo como qualquer outro insumo, mas o pagamento a seres humanos que trabalham, pensam e se defendem. E, finalmente, descobrir que para um bandido n\u00e3o h\u00e1 nada pior que outro bandido (os s\u00f3cios de hoje podem ser os canibais de amanh\u00e3).<\/p>\n<p><strong>Notas do autor:<\/strong><\/p>\n<p>(1) Hor\u00e1cio Verbitsky, \u201cA transpar\u00eancia do sigilo\u201d, P\u00e1gina 12, Buenos Aires, 27 de mar\u00e7o de 2016.<\/p>\n<p>(2) Jorge Benstein, \u201cA ilus\u00e3o do metacontrole imperial do caos. A muta\u00e7\u00e3o do sistema de interven\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos e suas consequ\u00eancias para a Am\u00e9rica Latina\u201d, Semin\u00e1rio \u201cNossa Am\u00e9rica Latina e os Estados Unidos: desafios do s\u00e9culo XXI\u201d. Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da Universidade Central do Equador, Quito, 30 e 31 de janeiro de 2013. http:\/\/beinstein.lahaine.org\/?p=516<\/p>\n<p>(3) Jorge Benstein, art. Cit.<\/p>\n<p>(4) Fonte: \u201cSemiannual OTC derivatives statistics\u201d, Bank for International Settlements (BIS).<\/p>\n<p>(5) Eduardo M. Basualdo, \u201cA distribui\u00e7\u00e3o do acesso na Argentina e suas condicionantes estruturais\u201d, Mem\u00f3ria Anual de 2008, do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), Argentina.<\/p>\n<p>http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&#038;view=article&#038;id=11857:argentina-depois-de-macri-a-marcha-apressada-do-capitalismo-mafioso&#038;catid=72:imagens-rolantes<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JORGE BENSTEIN &#8211;\u00a0Na Argentina, come\u00e7ou a conformar-se um regime autorit\u00e1rio com apar\u00eancia constitucional. Uma converg\u00eancia mafiosa de setores empresariais, judiciais e midi\u00e1ticos monitorados pelo aparato de intelig\u00eancia dos Estados Unidos. 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