{"id":14592,"date":"2020-12-09T12:53:24","date_gmt":"2020-12-09T15:53:24","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14592"},"modified":"2020-12-07T12:56:45","modified_gmt":"2020-12-07T15:56:45","slug":"para-superacao-das-crises-brasil-precisa-abandonar-o-liberalismo-economico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/12\/09\/para-superacao-das-crises-brasil-precisa-abandonar-o-liberalismo-economico\/","title":{"rendered":"Para supera\u00e7\u00e3o das crises, Brasil precisa abandonar o liberalismo econ\u00f4mico"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o Vitor Santos<\/strong> &#8211; Entrevista especial com Luiz Carlos Bresser-Pereira.<\/p>\n<blockquote><p>Para economista, com pensamento liberal n\u00e3o pode haver crescimento. Por isso, reedita sua tese novo-desenvolvimentista e assegura que imprimir moeda n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de infla\u00e7\u00e3o descontrolada.<\/p><\/blockquote>\n<section>A\u00a0crise econ\u00f4mica\u00a0que temos vivido em decorr\u00eancia da\u00a0pandemia de covid-19\u00a0parece ter pego o\u00a0Brasil\u00a0de cheio. Segundo o economista\u00a0Luiz Carlos Bresser-Pereira, \u00e9 preciso compreender que essa crise \u00e9 nova, mas que vem no bojo de grandes crises nunca realmente superadas e que t\u00eam origem no\u00a0projeto liberal.\u00a0Bresser\u00a0defende que o Estado n\u00e3o pode se retirar do jogo. \u201cO\u00a0mercado\u00a0\u00e9 uma maravilhosa institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mecanismo e nem \u2018ente\u2019, \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o, um sistema de normas que coordena de maneira \u00f3tima uma economia, mas apenas na sua parte competitiva\u201d, alerta. E, por isso, \u201cos outros setores n\u00e3o competitivos, mais a\u00a0macroeconomia, a\u00a0distribui\u00e7\u00e3o de renda\u00a0e ainda a\u00a0prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente, tudo isso depende da\u00a0interven\u00e7\u00e3o do Estado\u201d. \u201cCoisa que o\u00a0neoliberalismo\u00a0esquece e n\u00f3s esquecemos tamb\u00e9m, desde 1990, quando o presidente\u00a0Fernando Collor de Mello\u00a0fez a abertura comercial\u201d, dispara.Na entrevista a seguir, concedida por telefone \u00e0\u00a0IHU On-Line, o economista recupera a tese de que o\u00a0Brasil\u00a0vem sofrendo um\u00a0processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o. Sem confian\u00e7a para investir, as ind\u00fastrias s\u00e3o sucateadas ou v\u00e3o embora enquanto a \u2018poupan\u00e7a p\u00fablica\u2019 m\u00edngua. \u00c9 a\u00ed que entra sua\u00a0Teoria do Novo-Desenvolvimentismo. Mas, como investir em desenvolvimento no meio da crise? Para ele, o governo precisa criar condi\u00e7\u00f5es, especialmente manter o\u00a0c\u00e2mbio mais depreciado\u00a0e a\u00a0taxa de juros baixa. \u201cTem que mudar o regime de pol\u00edtica econ\u00f4mica, tem que abandonar o\u00a0liberalismo econ\u00f4mico\u00a0e voltar a ser\u00a0desenvolvimentista. \u00c9 preciso voltar a acreditar que deve haver uma interven\u00e7\u00e3o moderada do Estado na economia e que \u00e9 preciso ser\u00a0nacionalista econ\u00f4mico\u201d, aponta.<\/p>\n<p>E uma das vertentes dessa\u00a0interven\u00e7\u00e3o estatal\u00a0moderada, para ele, \u00e9 a emiss\u00e3o de moeda. \u201c\u00c9 preciso pensar que a moeda \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u00f3leo lubrificante que permite que as transa\u00e7\u00f5es aconte\u00e7am. E o\u00a0sistema econ\u00f4mico\u00a0precisa de um certo grau de liquidez\u201d, endossa. Sua defesa est\u00e1 na experi\u00eancia de outros pa\u00edses que fizeram a manobra para conter, por exemplo, a\u00a0crise de 2008. Al\u00e9m disso,\u00a0Bresser\u00a0destaca que essa opera\u00e7\u00e3o tem sido retomada por muitos justamente para custear os\u00a0gastos decorrentes da pandemia. \u201cS\u00e3o despesas de subs\u00eddios \u00e0s pessoas para as manter vivas, de subs\u00eddios \u00e0s empresas para evitar que quebrem etc. Foram enormes gastos e grande parte est\u00e1 sendo financiada dessa maneira\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>No fim da entrevista, o economista ainda avalia as\u00a0pol\u00edticas econ\u00f4micas do atual governo, que define como \u201co pior governo que j\u00e1 vi em toda hist\u00f3ria de minha vida, de longe\u201d. E conta \u2018um causo\u2019: elementos da\u00a0teoria novo-desenvolvimentista\u00a0foram apresentados \u2013 e muito bem aceitos \u2013 pessoalmente por ele a\u00a0Ciro Gomes\u00a0e\u00a0Fernando Haddad, nomes que considera muito preparados para assumir a Presid\u00eancia em\u00a02022. Al\u00e9m disso, olha para a\u00a0experi\u00eancia chinesa\u00a0e destaca que o pa\u00eds resolveu seus problemas desde a realidade local, sem se abra\u00e7ar a c\u00e2nones do pensamento econ\u00f4mico. \u201cExistem solu\u00e7\u00f5es para o problema brasileiro, mas \u00e9 preciso que n\u00e3o se pense de acordo com os livros-textos escritos pelos americanos e ingleses. \u00c9 preciso que tenhamos capacidade de ver nossos problemas por nossa conta\u201d, resume.<\/p>\n<div>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/12\/07_12_bresser_pereira_fotosjoaovitorsantos_ihu.jpg?w=640\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><em>Bresser-Pereira em evento no IHU<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Luiz Carlos Bresser-Pereira\u00a0\u00e9 professor em\u00e9rito da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, atuou como professor visitante de desenvolvimento econ\u00f4mico na Universidade de Paris I (1978), de teoria da democracia no Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade de S\u00e3o Paulo &#8211; USP (2002\/03), e de Novo-Desenvolvimentismo na \u00c9cole d\u2019Hautes \u00c9tudes en Sciences Sociales, em Paris, entre outras universidades pelo mundo. Tamb\u00e9m foi ministro da Fazenda, da Administra\u00e7\u00e3o Federal e Reforma do Estado, e da Ci\u00eancia e Tecnologia no governo Fernando Henrique Cardoso. Bacharel em Direito pela USP, \u00e9 mestre em Administra\u00e7\u00e3o de Empresas pela Michigan State University, doutor e livre docente em Economia pela USP. Entre os livros publicados destacamos\u00a0A constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil: Sociedade, economia e Estado desde a Independ\u00eancia\u00a0(S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2016),\u00a0Desenvolvimento e Crise no Brasil\u00a0(1968\/2003),\u00a0Construindo o Estado Republicano\u00a0(2004),\u00a0Macroeconomia da Estagna\u00e7\u00e3o\u00a0(S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2007) e\u00a0Globaliza\u00e7\u00e3o e Competi\u00e7\u00e3o\u00a0(Rio de Janeiro: Elsevier-Campus, 2009).<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O senhor defende que \u00e9 preciso abandonar a ortodoxia econ\u00f4mica. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz Carlos Bresser-Pereira \u2013<\/strong>\u00a0Sou um cr\u00edtico da\u00a0<strong>Teoria Econ\u00f4mica Neocl\u00e1ssica ou Ortodoxa<\/strong>, que \u00e9 a Teoria ensinada principalmente nas universidades americanas e inglesas. Entendo que essa teoria \u00e9 essencialmente errada porque ela utiliza o m\u00e9todo hipot\u00e9tico dedutivo ao inv\u00e9s de adotar um m\u00e9todo emp\u00edrico, hist\u00f3rico. Ao inv\u00e9s de ela observar a realidade e tentar generalizar a partir dessa realidade, o que os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/581087-quando-economistas-ortodoxos-se-inspiram-em-goebbels\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">economistas neocl\u00e1ssicos ortodoxos<\/a>\u00a0fazem \u00e9 partir de dois axiomas, como se faz em Matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00c9 o axioma do\u00a0<strong>homem econ\u00f4mico<\/strong>, sempre racional e portanto seu comportamento \u00e9 totalmente previs\u00edvel, e a ideia das expectativas passionais, pois os agentes econ\u00f4micos al\u00e9m de serem racionais e oniscientes, conhecem os modelos certos de economia e se comportam de acordo com isso. \u00c9 um absurdo que resultou na\u00a0<strong>crise de 1929<\/strong>, pois essa teoria foi dominante no mundo desde o final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 1929. Mas que teoria \u00e9 essa? \u00c9 o\u00a0<strong>liberalismo radical<\/strong>\u00a0que voltou a ser dominante no mundo rico a partir de 1980 com a\u00a0<strong>virada neoliberal de Thatcher e Reagan<\/strong>, e agora desde\u00a0<strong>2008<\/strong>, quando houve novamente uma grande crise provocada por essas ideias, chegando at\u00e9 o momento atual, em que estamos em profunda crise.<\/p>\n<p>Sou um\u00a0<strong>economista heterodoxo<\/strong>\u00a0e, entre os economistas ortodoxos, venho desenvolvendo desde 2001 uma teoria chamada de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/555367-o-novo-desenvolvimentismo-uma-proposta-para-a-crise-economica-brasileira-entrevista-especial-com-luiz-carlos-bresser-pereira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Novo-Desenvolvimentismo<\/a>. Essa\u00a0<strong>teoria novo-desenvolvimentista<\/strong>\u00a0tem origem em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/276\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Keynes<\/a>\u00a0e nos desenvolvimentistas estruturalistas como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/317\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Celso Furtado<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/519544\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Raul Prebisch<\/a>.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>Ao inv\u00e9s de observar a realidade e tentar generalizar a partir dessa realidade, o que os economistas neocl\u00e1ssicos ortodoxos fazem \u00e9 partir de dois axiomas \u2013 Luiz Carlos Bresser-Pereira<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Que respostas o Novo-Desenvolvimentismo pode trazer a essa crise que vivemos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz Carlos Bresser-Pereira \u2013<\/strong>\u00a0O\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0vive uma\u00a0<strong>crise econ\u00f4mica<\/strong>\u00a0muito grande desde 2014, que foi agravada por um\u00a0<strong>impeachment<\/strong>\u00a0em 2016 e agora ainda mais por uma pandemia terr\u00edvel. Diante disso, o governo precisa reagir e as medidas que defende s\u00e3o de\u00a0<strong>austeridade<\/strong>, ou seja, de reduzir o gasto p\u00fablico em toda parte e de manter a taxa de c\u00e2mbio elevada (com elevada quero dizer n\u00e3o competitiva). E isso, evidentemente, \u00e9 incorreto.<\/p>\n<p>A tese de que nos momentos de crise o\u00a0<strong>Estado<\/strong>\u00a0precisa aumentar sua despesa contraciclicamente \u00e9 uma coisa que foi originalmente desenvolvida por\u00a0<strong>Keynes<\/strong>\u00a0nos anos 30 do s\u00e9culo XX e est\u00e1 mais que comprovado que \u00e9 a forma correta de se fazer a\u00a0<strong>pol\u00edtica macroecon\u00f4mica<\/strong>. Uma coisa curiosa \u00e9 que, embora o governo seja contra esse tipo de pol\u00edtica, ele, pressionado pelo\u00a0<strong>Congresso<\/strong>, criou um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/600152-os-r-600-que-podem-mudar-a-face-do-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aux\u00edlio emergencial<\/a>\u00a0muito grande. Foi voltado mais para os pobres, mas que, de alguma forma, sustentou a demanda neste ano e impediu que a crise econ\u00f4mica fosse mais forte ainda. Estava se prevendo uma\u00a0<strong>queda no PIB<\/strong>\u00a0de 9% e hoje a queda esperada \u00e9 de 5%.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pFN6eeiyOd4\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Ent\u00e3o, o senhor considera j\u00e1 termos a\u00ed uma prova de que o Estado tem de gastar mais em situa\u00e7\u00f5es de crise?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz Carlos Bresser-Pereira \u2013<\/strong>\u00a0A prova disso existe em toda parte, em mil casos. Em\u00a0<strong>2008<\/strong>\u00a0n\u00f3s s\u00f3 n\u00e3o tivemos uma crise monumental porque todos os governos, tanto americano quanto chin\u00eas, tamb\u00e9m o brasileiro e os europeus, imediatamente fizeram\u00a0<strong>elevad\u00edssimos gastos fiscais<\/strong>. Al\u00e9m de irem correndo\u00a0<strong>salvar os bancos<\/strong>\u00a0que tinham quebrado. E isso deu certo, caso contr\u00e1rio a crise teria sido t\u00e3o grave quanto foi a\u00a0<strong>crise de 1929<\/strong>\u00a0e a grande\u00a0<strong>depress\u00e3o nos anos 1930<\/strong>. Assim, reitero, isso est\u00e1 mais do que claro.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, al\u00e9m de termos de enfrentar essa\u00a0<strong>crise de curto prazo<\/strong>, n\u00f3s precisamos pensar que o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0vive um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/591455-baixo-investimento-e-alto-desemprego-as-armadilhas-da-estagnacao-economica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">regime de quase estagna\u00e7\u00e3o h\u00e1 40 anos<\/a>. Isso \u00e9 muito s\u00e9rio. O\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, entre 1950 e 1980, crescia a uma taxa per capita de 4,5% ao ano. Era uma taxa muito elevada, a segunda maior do mundo; s\u00f3 o\u00a0<strong>Jap\u00e3o<\/strong>\u00a0tinha uma taxa um pouco maior do que a do Brasil. Desde 1980 e, principalmente, desde 1990, quando o Brasil resolveu adotar o regime de\u00a0<strong>pol\u00edtica econ\u00f4mica liberal ortodoxa<\/strong>\u00a0ao inv\u00e9s de\u00a0<strong>desenvolvimentista<\/strong>, a taxa de desenvolvimento do pa\u00eds tem sido de 0,8% ao ano. Veja: de 4,5% para 0,8% \u00e9 uma diferen\u00e7a brutal.<\/p>\n<p>E se nesse mesmo per\u00edodo compararmos esses 0,8% do\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0com os\u00a0<strong>pa\u00edses ricos<\/strong>, que n\u00f3s dever\u00edamos estar alcan\u00e7ando, veremos que eles cresceram 1,5% ao ano, ou seja, o dobro do\u00a0<strong>Brasil<\/strong>. E os demais\u00a0<strong>pa\u00edses em desenvolvimento<\/strong>\u00a0cresceram 3% ao ano, quatro vezes mais do que n\u00f3s. O Brasil est\u00e1 quase estagnado desde 1980 e nada \u00e9 feito sobre isso. Nada \u00e9 feito tanto pela\u00a0<strong>direita<\/strong>, que est\u00e1 hoje no governo \u2013 ali\u00e1s, desde 2016 \u2013, quanto pela\u00a0<strong>esquerda<\/strong>, que no\u00a0<strong>Governo Lula<\/strong>\u00a0tentou fazer alguma coisa, mas infelizmente no\u00a0<strong>Governo Dilma<\/strong>\u00a0tudo desmoronou. E uma das causas que se desencadeou em\u00a0<strong>2014<\/strong>\u00a0para a queda do governo, n\u00e3o foi a principal, mas uma delas, foi a\u00a0<strong>m\u00e1 gest\u00e3o econ\u00f4mica da Dilma<\/strong>.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>O mercado \u00e9 uma maravilhosa institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mecanismo e nem \u2018ente\u2019, \u00e9 um sistema de normas que coordena de maneira \u00f3tima uma economia, mas apenas na sua parte competitiva \u2013 Luiz Carlos Bresser-Pereira<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Gostaria que recuperasse seus argumentos para a \u2018semiestagna\u00e7\u00e3o\u2019 que o senhor coloca.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz Carlos Bresser-Pereira \u2013<\/strong>\u00a0Para isso \u00e9 importante lembrarmos que o\u00a0<strong>desenvolvimento econ\u00f4mico<\/strong>\u00a0depende fundamentalmente da taxa de investimento do pa\u00eds. Quanto maior for a rela\u00e7\u00e3o do investimento em capital e o\u00a0<strong>PIB<\/strong>, mais alta tende a ser a taxa de crescimento. Os pa\u00edses do<strong>\u00a0Leste asi\u00e1tico<\/strong>\u00a0tinham, normalmente, 35% de taxa de investimento. A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/588888-a-maior-transformacao-economica-dos-ultimos-250-anos-china-tende-a-assumir-a-hegemonia-mundial-e-a-lideranca-do-comercio-de-tecnologia-entrevista-especial-com-jose-eustaquio-alves\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">China<\/a>, que nos \u00faltimos 40 anos apresentou o mais extraordin\u00e1rio crescimento \u2013 na hist\u00f3ria do mundo nunca houve nada semelhante \u2013, cresceu durante esse tempo cerca de 7,5% ao ano.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>estrat\u00e9gia de desenvolvimento<\/strong>\u00a0usada pela\u00a0<strong>China<\/strong>\u00a0sempre foi\u00a0<strong>desenvolvimentista<\/strong>\u00a0e n\u00e3o\u00a0<strong>liberal<\/strong>. Enquanto isso, em 1980 o mundo fazia uma\u00a0<strong>virada neoliberal<\/strong>. \u00c9 uma virada de um regime de pol\u00edtica econ\u00f4mica desenvolvimentista \u2013 que pressup\u00f5e uma\u00a0<strong>interven\u00e7\u00e3o moderada do Estado na economia<\/strong>, com exce\u00e7\u00e3o dos setores n\u00e3o competitivos, com uma perspectiva de na\u00e7\u00e3o, em defesa do interesse nacional \u2013 para uma\u00a0<strong>virada neoliberal<\/strong>\u00a0com\u00a0<strong>Thatcher e Reagan<\/strong>, na qual se espera que o mercado seja um ente ou um mecanismo milagroso capaz de coordenar tudo. Ora, isso \u00e9 algo profundamente equivocado. O\u00a0<strong>mercado<\/strong>\u00a0\u00e9 uma maravilhosa institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mecanismo e nem \u2018ente\u2019, \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o, um sistema de normas que coordena de maneira \u00f3tima uma economia, mas apenas na sua parte competitiva. Ali\u00e1s, o mercado funciona bem com competi\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o, n\u00e3o existe mercado.<\/p>\n<p>Os outros setores n\u00e3o competitivos, mais a\u00a0<strong>macroeconomia<\/strong>, a\u00a0<strong>distribui\u00e7\u00e3o de renda<\/strong>\u00a0e ainda a\u00a0<strong>prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente<\/strong>\u00a0(mecanismos para frear aquecimento global etc.), tudo isso depende da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/557367-o-papel-do-estado-na-economia-critica-a-escola-austriaca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">interven\u00e7\u00e3o do Estado<\/a>. Coisa que o\u00a0<strong>neoliberalismo<\/strong>\u00a0esquece e n\u00f3s esquecemos tamb\u00e9m, desde 1990, quando o presidente\u00a0<strong>Fernando Collor de Mello<\/strong>\u00a0fez a abertura comercial. Abertura essa que fez com que as tarifas aduaneiras ca\u00edssem de 45% para 12%, al\u00e9m da elimina\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de manufaturados que eram tamb\u00e9m de 45% e foram zerados.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a\u00a0<strong>economia brasileira<\/strong>\u00a0cresce muito pouco, porque a\u00a0<strong>taxa de investimento<\/strong>\u00a0\u00e9 muito baixa. Isso ocorre porque, devido a essa mudan\u00e7a de regime para o\u00a0<strong>modelo liberal<\/strong>, os investidores foram desestimulados a investir. O\u00a0<strong>investimento<\/strong>\u00a0acontece quando o empres\u00e1rio tem uma boa expectativa de lucro e sua taxa de juros, o seu custo do capital, \u00e9 baixo. \u00c9 uma lei geral e \u00f3bvia, ningu\u00e9m vai investir sem esperar lucro e esse lucro tem que ser maior do que a\u00a0<strong>taxa de juros<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Perda de competitividade<\/strong><\/p>\n<p>O que houve foi que as pol\u00edticas adotadas pelo\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, a come\u00e7ar pela\u00a0<strong>liberaliza\u00e7\u00e3o comercial<\/strong>\u00a0e em seguida\u00a0<strong>financeira<\/strong>, que foram adotadas ainda no\u00a0<strong>Governo Collor<\/strong>\u00a0e depois mantidas e aprofundadas no\u00a0<strong>Governo Fernando Henrique<\/strong>, tonaram as ind\u00fastrias brasileiras n\u00e3o competitivas. Mesmo as muito bem geridas que usavam a melhor tecnologia do mundo passaram a ter uma enorme desvantagem competitiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas do resto do mundo. N\u00e3o apenas as empresas nacionais, mas tamb\u00e9m as multinacionais. E isso fez com que muita empresa falisse e tamb\u00e9m levou muitas multinacionais a irem embora.<\/p>\n<p>Quando se tem uma\u00a0<strong>taxa de c\u00e2mbio<\/strong>\u00a0apreciada no longo prazo e uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/551877-a-taxa-de-juros-bailando-entre-a-ignorancia-e-a-ganancia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">taxa de juros<\/a>\u00a0muito alta, se \u00e9 completamente desestimulado a investir. E isso aconteceu desde 1990 at\u00e9 recentemente, porque veio a\u00a0<strong>crise de 2014<\/strong>\u00a0em cima dessa semiestagna\u00e7\u00e3o. Essa crise foi desencadeada pelo pre\u00e7o da\u00a0<strong>queda das commodities<\/strong>. Na medida em que o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0passou a ter uma taxa de c\u00e2mbio muito apreciada, entrou num processo de violenta desindustrializa\u00e7\u00e3o, justamente pela aprecia\u00e7\u00e3o da taxa de c\u00e2mbio e porque a \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/169-noticias\/noticias-2015\/547650-bresser-pereira-e-os-riscos-da-doenca-holandesa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">doen\u00e7a holandesa<\/a>\u201d que existe no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0deixou de ser neutralizada \u2013 a doen\u00e7a holandesa \u00e9 uma aprecia\u00e7\u00e3o de longo prazo da taxa de c\u00e2mbio de um pa\u00eds que exporta commodities, pois essa taxa \u00e9 determinada pelas commodities. Essa taxa de c\u00e2mbio deve cobrir o custo com lucro satisfat\u00f3rio das empresas produtoras de commodities, que s\u00e3o as dominantes. E quando h\u00e1 a doen\u00e7a holandesa, a taxa de c\u00e2mbio corrente \u00e9 substancialmente mais apreciada do que a taxa de c\u00e2mbio das empresas industriais do pa\u00eds. Eu chamo isso de\u00a0<strong>equil\u00edbrio industrial<\/strong>, ou seja, tem o equil\u00edbrio corrente dado pelas commodities que equilibra a conta corrente do pa\u00eds, que \u00e9 conta comercial mais os servi\u00e7os. A diferen\u00e7a entre o equil\u00edbrio da taxa corrente e essas que as empresas industriais precisam para serem competitivas \u00e9 a\u00a0<strong>doen\u00e7a holandesa<\/strong>.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>Quando voc\u00ea aprecia o c\u00e2mbio, resolve crescer com endividamento externo, entra-se em d\u00e9ficit em conta corrente e quando entra nesse d\u00e9ficit precisam entrar capitais no Brasil mais do que saem \u2013 Luiz Carlos Bresser-Pereira<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p><strong>Desindustrializa\u00e7\u00e3o e os efeitos do c\u00e2mbio<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0<strong>doen\u00e7a holandesa<\/strong>\u00a0era neutralizada at\u00e9 1990 com\u00a0<strong>tarifas aduaneiras<\/strong>\u00a0muito altas, aqueles 45% que referi anteriormente. E, desde 1967, tamb\u00e9m por subs\u00eddios elevados \u00e0\u00a0<strong>exporta\u00e7\u00e3o de manufaturados<\/strong>. Tudo isso foi desmontado em 1990 de acordo com a\u00a0<strong>l\u00f3gica neoliberal<\/strong>\u00a0e foi um desastre. A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/591964-desindustrializacao-no-brasil-e-acelerada-e-prematura\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desindustrializa\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0foi brutal e a<strong>\u00a0taxa de crescimento<\/strong>\u00a0tamb\u00e9m caiu brutalmente. Para se ter ideia, o\u00a0<strong>investimento no Brasil<\/strong>\u00a0representava 26% do\u00a0<strong>PIB<\/strong>\u00a0nos anos 1980, em m\u00e9dia, e hoje representa 10%.<\/p>\n<p>Isso aconteceu por causa da\u00a0<strong>taxa de c\u00e2mbio<\/strong>\u00a0muito apreciada e por causa dos\u00a0<strong>juros muito altos<\/strong>\u00a0que atra\u00edam capitais. Ou seja, havia duas causas para essa aprecia\u00e7\u00e3o de longo prazo da taxa de c\u00e2mbio que tornava as boas empresas n\u00e3o competitivas. Uma causa era a\u00a0<strong>doen\u00e7a holandesa<\/strong>\u00a0n\u00e3o neutralizada e a outra era a inten\u00e7\u00e3o de crescer n\u00e3o com endividamento externo, o que significaria que se est\u00e1 importando pouco de outros pa\u00edses e aumentando a sua capacidade de investimento. Isso \u00e9 um enorme equ\u00edvoco que a\u00a0<strong>teoria novo-desenvolvimentista<\/strong>\u00a0critica de maneira muito firme. Os brasileiros, n\u00e3o s\u00f3 os\u00a0<strong>economistas ortodoxos neocl\u00e1ssicos<\/strong>, mas tamb\u00e9m os demais\u00a0<strong>desenvolvimentistas<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>p\u00f3s-keynesianos<\/strong>, acreditam que se o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0tiver um<strong>\u00a0d\u00e9ficit de conta corrente<\/strong>\u00a0de cerca de 3% do PIB e se esse d\u00e9ficit for principalmente financiado por empresas multinacionais, ent\u00e3o estamos nos melhores dos mundos poss\u00edveis. Estaremos aumentando nossa capacidade de investimento, porque esse dinheiro que vem de fora trazido pelas multinacionais vai aumentar a\u00a0<strong>taxa de investimento<\/strong>\u00a0e em seguida a\u00a0<strong>taxa de crescimento<\/strong>\u00a0do pa\u00eds.<\/p>\n<p>S\u00f3 que isso \u00e9 completamente falso. Na verdade, quando se aprecia o\u00a0<strong>c\u00e2mbio<\/strong>, se resolve crescer com endividamento externo, entra-se em\u00a0<strong>d\u00e9ficit em conta corrente<\/strong>, e quando entra nesse d\u00e9ficit \u00e9 preciso que haja ainda mais\u00a0<strong>entrada de capitais<\/strong>\u00a0no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>. Devido a isso, a\u00a0<strong>taxa de c\u00e2mbio<\/strong>\u00a0se aprecia, pois tamb\u00e9m \u00e9 determinada pela oferta e procura de moeda estrangeira. E quando isso ocorre, o poder aquisitivo n\u00e3o apenas dos\u00a0<strong>trabalhadores<\/strong>, mas tamb\u00e9m as\u00a0<strong>rendas dos rentistas<\/strong>\u00a0(os juros, os dividendos e os alugu\u00e9is que recebem) aumentam, de forma que todo mundo fica feliz.<\/p>\n<p><strong>Mais consumo e menos investimento<\/strong><\/p>\n<p>E o que fazem com esse dinheiro? Consomem mais. N\u00e3o investem porque na hora em que se tornou a\u00a0<strong>taxa de c\u00e2mbio<\/strong>\u00a0apreciada, as boas empresas perderam competitividade, tornando-se mais barato importar aqueles produtos que antes se produzia localmente. Assim, evidentemente elas n\u00e3o investem, s\u00e3o desencorajadas a investir. Tudo isso explica uma parte fundamental dessa quase\u00a0<strong>estagna\u00e7\u00e3o da economia brasileira<\/strong>\u00a0desde 1990 at\u00e9 hoje.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>Desde os anos 1980 a poupan\u00e7a p\u00fablica se tornou negativa e os investimentos p\u00fablicos ca\u00edram fortemente \u2013 Luiz Carlos Bresser-Pereira<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p><strong>Poupan\u00e7a p\u00fablica<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, uma segunda causa para a\u00a0<strong>semiestagna\u00e7\u00e3o<\/strong>, que est\u00e1 relacionada \u00e0\u00a0<strong>poupan\u00e7a p\u00fablica<\/strong>. A poupan\u00e7a p\u00fablica (toda a receita do Estado menos a despesa corrente ou de consumo) deve existir para financiar os\u00a0<strong>investimentos p\u00fablicos<\/strong>, que s\u00e3o sempre muito importantes. Uma economia que cresce bastante geralmente tem uma\u00a0<strong>taxa de investimentos p\u00fablicos<\/strong>\u00a0de 20 a 25% do\u00a0<strong>PIB<\/strong>.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>poupan\u00e7a p\u00fablica brasileira<\/strong>\u00a0era, na \u00faltima d\u00e9cada em que o Brasil\u00a0<strong>cresceu<\/strong>\u00a0fortemente, nos anos 1970, de cerca de 4 a 5% do PIB. Isso fazia com que o\u00a0<strong>investimento p\u00fablico<\/strong>\u00a0fosse perto de 7% do PIB, porque o governo tamb\u00e9m usava um pouco de\u00a0<strong>endividamento p\u00fablico<\/strong>. Mas desde os anos 1980 a poupan\u00e7a p\u00fablica se tornou negativa e os investimentos p\u00fablicos ca\u00edram fortemente, passando de 7% para 2% mais ou menos. Isso \u00e9 uma segunda causa dessa quase estagna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que muda com a crise de 2014 e com o cen\u00e1rio que ela traz?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz Carlos Bresser-Pereira \u2013<\/strong>\u00a0Isso que destaquei acima vinha acontecendo no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0at\u00e9 2014. No ano de 2014 veio essa grande crise, semelhante \u00e0 ocorrida durante o governo de\u00a0<strong>Fernando Henrique Cardoso<\/strong>\u00a0entre 1998 e 2002.<\/p>\n<p>Agora, \u00e9 importante perceber que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/546143-o-que-pode-estar-escondido-sob-a-crise-economica-do-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">crise de 2014<\/a>\u00a0come\u00e7a ainda no governo do\u00a0<strong>PT<\/strong>, de\u00a0<strong>Dilma<\/strong>, e depois continua em tempos de\u00a0<strong>Bolsonaro<\/strong>, at\u00e9 agora quando temos uma\u00a0<strong>crise econ\u00f4mica nova<\/strong>. Essa crise nova teve uma consequ\u00eancia interessante: a\u00a0<strong>taxa de juros<\/strong>\u00a0caiu fortemente pela primeira vez. Eu venho criticando a taxa de juros muito alta desde 2001 e sempre dizendo que \u00e9 absurda, a mais alta do mundo e, na verdade, essa\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/530011-qa-taxa-selic-e-o-veneno-da-economiaq-entrevista-especial-com-amir-khair\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">taxa de juros era uma captura do patrim\u00f4nio p\u00fablico pelos rentistas e financistas<\/a>, que assumiram muito poder no governo desde 1990, enquanto os empres\u00e1rios industriais perdiam poder.<\/p>\n<p>Essa\u00a0<strong>taxa de juros<\/strong>\u00a0t\u00e3o alta vinha caindo aos poucos, tendo j\u00e1 estado muito alta em 1992, quando houve a\u00a0<strong>abertura financeira<\/strong>, mas em 2014, com a enorme recess\u00e3o, a taxa de juros teve realmente uma queda. O\u00a0<strong>Banco Central<\/strong>\u00a0foi obrigado a baixar a taxa porque a infla\u00e7\u00e3o quase desapareceu, havia falta de demanda, e a justificativa que o Banco Central usava para manter aquelas\u00a0<strong>taxas de juros alt\u00edssimas<\/strong>\u00a0(que era de combater a infla\u00e7\u00e3o) j\u00e1 n\u00e3o se sustentava mais. Na verdade, a taxa de juros vinha alta para atrair os capitais e levar adiante aquela perspectiva de crescimento com endividamento externo.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia dessa\u00a0<strong>queda da taxa de juros<\/strong>, mais a\u00a0<strong>crise<\/strong>\u00a0que o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0vive hoje e a perda de confian\u00e7a dos credores l\u00e1 fora, foi uma\u00a0<strong>deprecia\u00e7\u00e3o da taxa de c\u00e2mbio<\/strong>. Acredito que uma taxa de c\u00e2mbio competitiva no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0hoje deve estar em torno de 4,80 Reais por d\u00f3lar. E a taxa de c\u00e2mbio est\u00e1 a 5,50 Reais, ou seja, est\u00e1 depreciada. Ent\u00e3o, \u00f3timo. A\u00a0<strong>economia brasileira<\/strong>\u00a0estava numa armadilha de juros altos e c\u00e2mbio apreci\u00e1vel. Essa armadilha n\u00e3o existe mais neste momento.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>Para voltar a crescer n\u00e3o basta sair da armadilha da taxa de juros, \u00e9 preciso que o governo tamb\u00e9m volte a investir \u2013 Luiz Carlos Bresser-Pereira<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Mas o crescimento n\u00e3o veio. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz Carlos Bresser-Pereira \u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o veio porque continuamos em crise. Quando se est\u00e1 em crise, quer dizer que n\u00e3o se tem confian\u00e7a de que a demanda ser\u00e1 mantida \u2013 como a demanda criada agora pelo\u00a0<strong>aux\u00edlio emergencial<\/strong>\u00a0\u2013, que a\u00a0<strong>taxa de juros<\/strong>\u00a0ser\u00e1 mantida baixa e que a taxa de c\u00e2mbio continuar\u00e1 competitiva. Vendo como reagem as\u00a0<strong>elites brasileiras<\/strong>\u00a0e seus economistas, vai-se achar que isso n\u00e3o dura. E, ainda, a\u00a0<strong>confian\u00e7a dos mercados financeiros internacionais<\/strong>\u00a0no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0hoje est\u00e1 baix\u00edssima. O resultado \u00e9 que come\u00e7a a entrar\u00a0<strong>capital financeiro\u00a0<\/strong>no Brasil, que novamente vai fazer com que a\u00a0<strong>taxa de c\u00e2mbio<\/strong>\u00a0volte a se apreciar. Os empres\u00e1rios n\u00e3o investem por isso, porque n\u00e3o t\u00eam confian\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que fazer para reverter esse quadro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz Carlos Bresser-Pereira \u2013<\/strong>\u00a0O que o governo deveria fazer \u00e9 n\u00e3o apenas ter uma\u00a0<strong>meta de infla\u00e7\u00e3o<\/strong>, mas al\u00e9m disso deveria assegurar que a\u00a0<strong>taxa de c\u00e2mbio<\/strong>\u00a0ser\u00e1 mantida basicamente nesse n\u00edvel. Em segundo lugar, assegurar que a\u00a0<strong>taxa de juros<\/strong>\u00a0permanecer\u00e1 baixa. Pode ser aumentada quando houver um pouco de infla\u00e7\u00e3o, mas o n\u00edvel da taxa de juros ser\u00e1 civilizado, semelhante \u00e0 taxa de outros pa\u00edses do mundo. Se o governo desse essas garantias para os empres\u00e1rios e se recuperasse a sua capacidade de poupan\u00e7a, ent\u00e3o n\u00f3s poder\u00edamos voltar a crescer. Agora, para voltar a crescer n\u00e3o basta sair da armadilha da<strong>\u00a0taxa de juros<\/strong>, \u00e9 preciso que o governo tamb\u00e9m volte a investir.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>A austeridade \u00e9 um desastre. Porque austeridade quer dizer reduzir a demanda, causar desemprego, diminuir sal\u00e1rio e isso n\u00e3o resolve o nosso problema \u2013 Luiz Carlos Bresser-Pereira&lt;<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Qual a solu\u00e7\u00e3o para isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz Carlos Bresser-Pereira \u2013<\/strong>\u00a0A mais \u00f3bvia \u00e9 a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/583852-austeridade-um-fermento-que-faz-crescer-a-crise-entrevista-especial-com-fernando-maccari-lara\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">austeridade<\/a>. Mas, ora, a austeridade \u00e9 um desastre. Porque austeridade quer dizer reduzir a demanda, causar desemprego, diminuir sal\u00e1rio e isso n\u00e3o resolve o nosso problema de jeito nenhum. \u00c9 preciso recuperar as finan\u00e7as p\u00fablicas e voltar a ter uma poupan\u00e7a p\u00fablica, mas isso s\u00f3 pode ser feito gradualmente, com muito cuidado e muita firmeza.<\/p>\n<p>Agora, h\u00e1 uma coisa nova que surgiu no mundo e que promoveu uma revolu\u00e7\u00e3o completa na\u00a0<strong>macroeconomia mundial<\/strong>: a\u00a0<strong>emiss\u00e3o de moeda<\/strong>\u00a0pelos\u00a0<strong>Bancos Centrais<\/strong>\u00a0e os\u00a0<strong>Tesouros Nacionais<\/strong>. A emiss\u00e3o de moeda foi sempre considerada o pecado m\u00e1ximo. Aqui no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0se explicava a infla\u00e7\u00e3o com emiss\u00e3o de moeda; no exterior os monetaristas explicavam a infla\u00e7\u00e3o com aumento de moeda.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Justamente, e como responder a esses economistas sobre essa perspectiva de emiss\u00e3o de moeda ser sin\u00f4nimo de infla\u00e7\u00e3o descontrolada?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz Carlos Bresser-Pereira \u2013<\/strong>\u00a0No come\u00e7o dos anos 1980, eu e [<strong>Yoshiaki<\/strong>]\u00a0<strong>Nakano<\/strong>\u00a0desenvolvemos toda uma\u00a0<strong>teoria de infla\u00e7\u00e3o inercial<\/strong>, o livro principal \u00e9 \u201c<strong>Infla\u00e7\u00e3o e Recess\u00e3o<\/strong>\u201d (S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1984) [<a href=\"http:\/\/www.bresserpereira.org.br\/view.asp?cod=4822\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a vers\u00e3o PDF da obra pode ser acessada aqui<\/a>], e nesse livro demonstramos com muita clareza que o aumento de moeda n\u00e3o causava infla\u00e7\u00e3o. J\u00e1 num artigo de 1983, intitulado \u201c<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/303058952_Fatores_aceleradores_mantenedores_e_sancionadores_da_Inflacao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fatores aceleradores, mantenedores e sancionadores da infla\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d, diz\u00edamos que o fator acelerador da infla\u00e7\u00e3o \u2013 por exemplo, uma infla\u00e7\u00e3o de 1% ao ano subir para 2% \u2013 \u00e9 o excesso de demanda, segundo explica\u00e7\u00e3o keynesiana.<\/p>\n<p>O fator que mant\u00e9m a\u00a0<strong>taxa de c\u00e2mbio<\/strong>\u00a0num valor elevado, o fator inercial, \u00e9 a indexa\u00e7\u00e3o. O que mant\u00e9m a\u00a0<strong>infla\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0mesmo quando h\u00e1 recess\u00e3o \u00e9 o fato de que os agentes econ\u00f4micos no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, especialmente na \u00e9poca da alta infla\u00e7\u00e3o, indexavam formal (com base na lei) ou informalmente (segundo o costume) todos os pre\u00e7os de modo que a infla\u00e7\u00e3o s\u00f3 subia e n\u00e3o ca\u00eda.<\/p>\n<p>Em terceiro vem o fator sancionador, ou validador, que era o\u00a0<strong>dinheiro<\/strong>. O dinheiro \u00e9 consequ\u00eancia, end\u00f3gena, do processo de crescimento. O dinheiro aumenta ou diminui numa economia na medida em que o cr\u00e9dito e as despesas do governo aumentam ou diminuem. Se tivesse uma\u00a0<strong>infla\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0muito alta \u2013 durante anos a nossa infla\u00e7\u00e3o foi mais de 1.000% ao ano, mas vamos considerar uma infla\u00e7\u00e3o de 100% ao ano \u2013, se o governo conseguisse impedir que a quantidade de moeda, que nasce do mercado, n\u00e3o aumentasse em nada, ficasse nominalmente exatamente igual ao come\u00e7o do ano, tendo havido uma infla\u00e7\u00e3o de 100% nesse ano, isso causaria uma crise enorme, uma\u00a0<strong>crise de liquidez<\/strong>.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso pensar que a\u00a0<strong>moeda<\/strong>\u00a0\u00e9 uma esp\u00e9cie de \u00f3leo lubrificante que permite que as transa\u00e7\u00f5es aconte\u00e7am. E o\u00a0<strong>sistema econ\u00f4mico<\/strong>\u00a0precisa de um certo grau de liquidez. Isso estava l\u00e1 em nossa teoria, que n\u00e3o era s\u00f3 nossa porque havia alguns economistas que afirmavam coisas semelhantes, mas o grosso dos economistas ignorava isso, tanto alguns ortodoxos quanto heterodoxos. A\u00ed veio a\u00a0<strong>crise de 2008 no Norte<\/strong>\u00a0e primeiro houve uma rea\u00e7\u00e3o muito correta, que j\u00e1 citei,\u00a0<strong>keynesiana<\/strong>, e\u00a0<strong>grandes aumentos de gastos<\/strong>. Mas isso foi em 2009.<\/p>\n<p>Quando chegou em meados de 2010, definiram que deveriam voltar \u00e0\u00a0<strong>austeridade<\/strong>. E de fato voltaram para a austeridade fiscal, mas os bancos centrais ignoraram esse fato e, vendo que a economia n\u00e3o se recuperava, come\u00e7aram a fazer as\u00a0<strong>pol\u00edticas de afrouxamento quantitativo<\/strong>. Isso consiste em o banco central do pa\u00eds comprar t\u00edtulos do governo ou das empresas em grande quantidade e, ao fazer isso, acelerar o processo end\u00f3geno de cria\u00e7\u00e3o de moeda. Isso foi feito em volumes absolutamente extraordin\u00e1rios, principalmente no\u00a0<strong>Jap\u00e3o<\/strong>, tamb\u00e9m nos\u00a0<strong>Estados Unidos<\/strong>, na\u00a0<strong>Gr\u00e3-Bretanha<\/strong>\u00a0e em pa\u00edses menores como a\u00a0<strong>Holanda<\/strong>. S\u00f3 n\u00e3o aconteceu nos pa\u00edses das\u00a0<strong>zonas do Euro<\/strong>\u00a0porque eles n\u00e3o t\u00eam um banco central para cada pa\u00eds para que seja feito o processo.<\/p>\n<div>\n<p>Neste ano de 2020, o ano da pandemia, esses mesmos pa\u00edses que t\u00eam seus bancos centrais e s\u00e3o ricos voltaram a emitir dinheiro enormemente.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/605293-para-superacao-das-crises-brasil-precisa-abandonar-liberalismo-e-emitir-moeda-entrevista-especial-com-luiz-carlos-bresser-pereira<\/p>\n<\/div>\n<\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Vitor Santos &#8211; Entrevista especial com Luiz Carlos Bresser-Pereira. Para economista, com pensamento liberal n\u00e3o pode haver crescimento. Por isso, reedita sua tese novo-desenvolvimentista e assegura que imprimir moeda n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de infla\u00e7\u00e3o descontrolada. 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