{"id":14551,"date":"2020-11-28T17:27:22","date_gmt":"2020-11-28T20:27:22","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14551"},"modified":"2020-11-27T17:33:41","modified_gmt":"2020-11-27T20:33:41","slug":"a-morte-e-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/11\/28\/a-morte-e-a-morte\/","title":{"rendered":"A MORTE E A MORTE"},"content":{"rendered":"<p><strong>JO\u00c3O MOREIRA SALLES<\/strong> &#8211; Jair Bolsonaro entre o gozo e o t\u00e9dio.<\/p>\n<p>Quando as v\u00edtimas da pandemia passaram de 5 mil, no dia 28 de abril de 2020, Jair Bolsonaro foi a um estande de tiro. No dia em que chegamos aos 10 mil mortos, ele passeou de jet ski no Lago Parano\u00e1. Na cerim\u00f4nia em que concedeu a Ordem do M\u00e9rito Naval a Abraham Weintraub e Augusto Aras, o pa\u00eds havia superado os 25 mil \u00f3bitos. Dois dias depois ele andou a cavalo no meio de seus apoiadores. Dali a poucas horas, quase 30 mil brasileiros j\u00e1 n\u00e3o estariam vivos por causa da doen\u00e7a. O presidente desconfiou dos hospitais quando os registros contabilizaram 40 mil mortos: \u201cArranja uma maneira de entrar e filmar\u201d, comandou. E no fim de semana em que a conta da nossa trag\u00e9dia chegou a 50 mil vidas perdidas, ele ajudou Weintraub a enganar a imigra\u00e7\u00e3o americana.<\/p>\n<p>Varia\u00e7\u00f5es do par\u00e1grafo acima v\u00eam sendo publicadas a toda hora na imprensa. Seria imposs\u00edvel n\u00e3o reparar no \u00f3bvio: em nenhum momento da trag\u00e9dia o presidente articulou uma frase de pesar verdadeiro. N\u00e3o houve nem esfor\u00e7o de marketing pol\u00edtico para demonstrar que se compadecia dos que estavam sofrendo. O presidente \u00e9 honesto. Uma das frases mais sinceras da hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira \u00e9 a breve: \u201cE da\u00ed?\u201d H\u00e1 muitas outras \u2013 \u201cEu n\u00e3o sou coveiro\u201d, \u201cQuer que eu fa\u00e7a o qu\u00ea?\u201d, \u201c\u00c9 o destino de cada um\u201d \u2013, mas nenhuma tem a concis\u00e3o afor\u00edstica de \u201cE da\u00ed?\u201d. Nenhum substantivo, nenhum adjetivo, nenhum verbo. Os mortos, os doentes, os que perderam pais, m\u00e3es, filhos e amigos, os que diariamente v\u00e3o para a linha de frente salvar vidas \u2013 uma locu\u00e7\u00e3o adverbial de quatro letras d\u00e1 conta de tudo que o presidente tem a lhes dizer.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de junho, uma apoiadora de Bolsonaro que o esperava na sa\u00edda do Pal\u00e1cio da Alvorada mencionou a cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria e pediu \u201cuma palavra de conforto nesse momento\u201d. O presidente voltou a ser honesto. \u201cPode ter f\u00e9 e acreditar que a gente vai mudar o Brasil\u201d, respondeu, infenso \u00e0 compaix\u00e3o. A apoiadora insistiu: \u201cE para os enlutados, que s\u00e3o in\u00fameros, o que o senhor diria?\u201d N\u00e3o disse absolutamente nada, ou ao menos nada que pudesse trazer algum conforto a quem sofria. Lamentava as mortes, mas todos morrem.<\/p>\n<p>Seria o caso de lembrar que, dessa doen\u00e7a, estamos morrendo bem mais do que dever\u00edamos. Mais do que chineses, indianos, indon\u00e9sios, italianos, tailandeses, espanh\u00f3is, japoneses, paraguaios, australianos, argentinos. Possivelmente morreremos mais do que em qualquer outra parte do mundo.<\/p>\n<p>E era assim que est\u00e1vamos, pelo menos at\u00e9 meados de junho: nenhuma fala sentida \u00e0 na\u00e7\u00e3o; nenhum gesto de solidariedade com as v\u00edtimas; nenhuma cerim\u00f4nia em mem\u00f3ria dos mortos. As bandeiras chegaram a ser hasteadas a meio pau, mas em menos de duas horas o governo voltou atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o haveria dificuldade em encontrar fotografias de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.google.com\/search?q=bolsonaro+e+apoiadores&amp;client=firefox-b-d&amp;sxsrf=ALeKk02VD4YunWnE3z3pHFBwdihXLzCKVQ:1591644318693&amp;source=lnms&amp;tbm=isch&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjbr-WR-fLpAhU_K7kGHRCaAu0Q_AUoAXoECAsQAw&amp;biw=1536&amp;bih=694#imgrc=PyF9byILUrAz9M\">Bolsonaro<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/republica\/breves\/datafolha-bolsonaro-renuncia\/\">sorrindo<\/a>, ou mesmo dando\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/video-quem-e-de-direita-toma-cloroquina-quem-e-de-esquerda-toma-tubaina-diz-bolsonaro\/\">risada<\/a>, nesses meses da nossa agonia. O luto lhe \u00e9 estranho. Publicamente, sua rea\u00e7\u00e3o ao sofrimento alheio assume apenas duas formas: j\u00fabilo ou indiferen\u00e7a. \u00c9 preciso reparar nisso para compreend\u00ea-lo.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">\u201cA <\/span>indiferen\u00e7a do presidente ao luto coletivo vai de par com um movimento pol\u00edtico que nega nossos la\u00e7os coletivos, assim como as obriga\u00e7\u00f5es que temos com o outro. Ele lidera uma coaliz\u00e3o que recha\u00e7a a a\u00e7\u00e3o coletiva e nega nossas responsabilidades m\u00fatuas como membros de uma mesma entidade pol\u00edtica.\u201d Feita em rela\u00e7\u00e3o a Donald Trump, a observa\u00e7\u00e3o de autoria do articulista americano Jamelle Bouie \u00e9 v\u00e1lida tamb\u00e9m para o presidente do Brasil.<\/p>\n<p>O trauma nacional tem a capacidade de unir, escreve Bouie. Quando choramos juntos os nossos mortos, expomos a fragilidade da nossa condi\u00e7\u00e3o e explicitamos nosso destino comum, o que p\u00f5e em relevo um sentimento coletivo que \u00e9 o contr\u00e1rio do ego\u00edsmo. N\u00e3o h\u00e1 mais indiv\u00edduo irremediavelmente s\u00f3. Todos nos vemos implicados na pol\u00edtica, porque n\u00e3o existe solu\u00e7\u00e3o fora do contrato social e da vida em comum. Ainda que cada dor seja intransfer\u00edvel, essa comunh\u00e3o em torno do sofrimento \u201cproporciona um alicerce para a solidariedade e a a\u00e7\u00e3o coletiva\u201d.<\/p>\n<p>Vimos isso acontecer em pa\u00edses como Espanha, Portugal, Nova Zel\u00e2ndia, Austr\u00e1lia, It\u00e1lia e Alemanha, e n\u00e3o espanta que nada parecido tenha se dado nos Estados Unidos ou no Brasil. L\u00e1 como aqui, a no\u00e7\u00e3o de uma coletividade se esfacelou. Trump e Bolsonaro substitu\u00edram os norte-americanos e os brasileiros por\u00a0<em>meus<\/em>\u00a0americanos e\u00a0<em>meus<\/em>\u00a0brasileiros. Convocar os cidad\u00e3os a compartilhar a dor de tantas mortes seria afirmar que todas t\u00eam o mesmo valor. Al\u00e9m disso, ainda que os dois fossem capazes de compaix\u00e3o, seria desvantajoso demonstr\u00e1-la, pois chamariam nossa aten\u00e7\u00e3o para o enorme custo humano gerado pela incompet\u00eancia e pelo descaso com que gerenciaram a crise.<\/p>\n<p>Trump, aqui, n\u00e3o interessa. Entrou na hist\u00f3ria por ser o modelo de que Bolsonaro se pretende imitador. Gripezinha, v\u00edrus chin\u00eas, cloroquina \u2013 o presidente brasileiro n\u00e3o foi capaz sequer de inventar as pr\u00f3prias f\u00e1bulas. A coisa \u00e9 trazida de Washington e aqui piora um pouco mais, como a m\u00e1 tradu\u00e7\u00e3o de um livro ruim. O que n\u00e3o significa que Bolsonaro seja apenas uma vers\u00e3o abastardada de Trump. Uma das diferen\u00e7as entre os dois \u00e9 que a aus\u00eancia de empatia no norte-americano est\u00e1 associada ao solipsismo radical de seu narcisismo, ao passo que em Bolsonaro ela tem uma origem mais perigosa. \u00c9 algo anterior a toda conven\u00e7\u00e3o, um impulso que corre por baixo, mais primitivo, mais perturbador, e que no entanto, quando se manifesta, parece l\u00f3gico: a morte o excita.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">M<\/span>ais precisamente: certas formas de morrer o excitam, enquanto outras o deixam frio. Qualquer antologia das frases que notabilizaram Bolsonaro ter\u00e1 cheiro de sangue e morte. <em>Estupro<\/em>,\u00a0<em>tortura<\/em>,\u00a0<em>fuzil<\/em>,\u00a0<em>exterminou,<\/em>\u00a0<em>morra<\/em>,\u00a0<em>morrido<\/em>,\u00a0<em>matando<\/em>,\u00a0<em>pavor<\/em>,\u00a0<em>Ustra<\/em>. Essas s\u00e3o algumas palavras-chave que d\u00e3o sentido \u00e0s cita\u00e7\u00f5es mais conhecidas do presidente. Sem elas, as frases se desfariam. \u00c9 o sofrimento do outro que as organiza.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, pode causar espanto a indiferen\u00e7a de Bolsonaro pelos mortos da pandemia, por brasileiros que, em boa parte, morreram em decorr\u00eancia da forma catastr\u00f3fica com que ele escolheu enfrentar a crise. Fez v\u00edtimas, portanto. A frieza se torna mais compreens\u00edvel quando se observa o que lhe acelera o cora\u00e7\u00e3o. Bolsonaro n\u00e3o se comove com a natureza, a arte lhe \u00e9 estranha, a religi\u00e3o n\u00e3o passa de um adere\u00e7o pol\u00edtico, a ci\u00eancia o ofende. At\u00e9 o luxo parece deix\u00e1-lo indiferente. A viol\u00eancia, n\u00e3o. \u00c9 quando fala nela que parece mais vivo e potente.<\/p>\n<p>Tome-se uma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rRpR0ay3n2k\">imagem<\/a>\u00a0de 2018, captada durante um com\u00edcio da campanha presidencial. Bolsonaro pega um trip\u00e9 \u00e0 sua frente, ergue-o a meia altura, aponta para o alto e simula os disparos com os quais promete \u201cfuzilar a petralhada\u201d. Durante dois segundos \u2013 precisamente a dura\u00e7\u00e3o dos coices da simula\u00e7\u00e3o, dos avan\u00e7os e recuos violentos da arma f\u00e1lica \u2013 sua express\u00e3o muda por completo. O rosto se crispa num ricto de \u00eaxtase. \u00c9 obsceno e incomodamente familiar: \u00e9 a cena de um filme pornogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Essa vol\u00fapia distingue os seguidores de Bolsonaro de outros grupos da direita mais extremada, a exemplo do Movimento Brasil Livre (MBL). \u00c9 um tra\u00e7o que separa seus seguidores de pol\u00edticos como Kim Kataguiri ou Janaina Paschoal.<\/p>\n<p>No dia 31 de maio, o primeiro domingo de manifesta\u00e7\u00f5es em defesa da democracia, o deputado federal Daniel Silveira, do PSL do Rio de Janeiro, foi para a Avenida Atl\u00e2ntica ficar ao lado dos policiais. Protegido pela tropa, gritava para o outro lado da rua: \u201cVem um s\u00f3 aqui, seus filhos da puta. Eu quero um de voc\u00eas s\u00f3.\u201d Mais tarde, gravou um v\u00eddeo em que advertia: \u201cVoc\u00eas v\u00e3o pegar um pol\u00edcia zangado no meio da multid\u00e3o, v\u00e3o tomar um no meio da caixa do peito e v\u00e3o chamar a gente de truculento. Eu t\u00f4 torcendo pra isso. Quem sabe n\u00e3o seja eu o sortudo. Voc\u00eas me peguem na rua num dia muito ruim e eu descarregue [<em>sic<\/em>] a minha arma em cima de um filho da puta comunista que tentar me\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2020\/05\/31\/em-video-deputado-bolsonarista-ameaca-atirar-em-manifestantes-antigoverno.htm\">agredir<\/a>.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o existe bolsonarista sem puls\u00e3o de morte. Rodrigo Amorim, o ent\u00e3o candidato a deputado estadual que partiu a placa de Marielle Franco no alto de um palanque, \u00e9 bolsonarista por causa da placa, n\u00e3o por causa de suas teses sobre a organiza\u00e7\u00e3o do Estado. Ou por outra: a viol\u00eancia contra a placa\u00a0<em>\u00e9<\/em>\u00a0propriamente a sua ideia, exibida em p\u00fablico como programa pol\u00edtico. A seu lado, Wilson Witzel, candidato ao governo estadual, mostrou as credenciais bolsonaristas ao comemorar o gesto; pouco tempo depois, j\u00e1 eleito, reiterou a filia\u00e7\u00e3o ao festejar na ponte Rio-Niter\u00f3i a morte de um bandido. Desde que rompeu com o presidente, o governador n\u00e3o tem dado sinais de se excitar com a dor dos outros. O que significa que era apenas um oportunista, n\u00e3o um bolsonarista raiz.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O <\/span>repert\u00f3rio da trucul\u00eancia \u00e9 bastante limitado. Diz uma coisa s\u00f3, repetidamente e sempre no volume m\u00e1ximo. Da\u00ed a monotonia acachapante dos bolsonaristas. A amea\u00e7a e o perigo n\u00e3o s\u00e3o interessantes, s\u00e3o apenas assustadores.<\/p>\n<p>A fala do deputado Daniel Silveira no v\u00eddeo aos manifestantes \u00e9 pedag\u00f3gica. Com um punhado de frases mal articuladas \u2013 e isso tamb\u00e9m importa \u2013, aprende-se quase tudo sobre o movimento do qual ele \u00e9 um representante exemplar. O elemento mais caracter\u00edstico \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do oponente em inimigo, mecanismo cl\u00e1ssico de toda milit\u00e2ncia antidemocr\u00e1tica, t\u00e3o banalizado que j\u00e1 nem merece muita aten\u00e7\u00e3o. Mais digno de nota \u00e9 o aspecto da degrada\u00e7\u00e3o da linguagem. Creio que tem valor funcional, servindo como \u00edndice da degrada\u00e7\u00e3o das normas.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o ministerial de 22 de abril, por exemplo, impressiona igualmente pelo conte\u00fado e pela forma. T\u00e3o importante quanto o que foi dito \u00e9\u00a0<em>como<\/em>\u00a0se disse. As concord\u00e2ncias capengas, as reg\u00eancias erradas, os neologismos cafajestes e a profus\u00e3o de palavr\u00f5es s\u00e3o ind\u00edcios poderosos de que alguma coisa est\u00e1 sendo arrasada. Chame-se de civilidade, de respeito \u00e0s liturgias democr\u00e1ticas ou simplesmente de compostura, o fato \u00e9 que a linguagem empregada ali, como lixo, conspurca o entorno \u2013 e o entorno \u00e9 a pr\u00f3pria Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>A maioria dos que tomam a palavra \u00e9 branca e de classe m\u00e9dia, brasileiros que tiveram acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal. Quem diria. Quantos ali n\u00e3o fizeram gra\u00e7a com algum plural claudicante na fala de quem, antes deles, chegou ao poder vindo de um Brasil mais injusto? Era uma pr\u00e1tica comum entre certa gente orgulhosa de seus preconceitos de classe.<\/p>\n<p>Bolsonaristas tratam o idioma como tratam o meio ambiente, o que n\u00e3o \u00e9 fortuito. O ex-ministro Abraham Weintraub e Ricardo Salles, nesse sentido, s\u00e3o almas g\u00eameas, dois tarefeiros diligentes que executam a miss\u00e3o de destruir valores civilizat\u00f3rios caros aos inimigos: o letramento; a cultura; a floresta e todas as suas criaturas. Mas eles v\u00e3o al\u00e9m: a cada \u201cinsitaria a viol\u00eancia\u201d, a cada \u201chaviam emendas parlamentares\u201d, a cada imagem da floresta em chamas a milit\u00e2ncia se alvoro\u00e7a, se assanha.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, o aforismo mais memor\u00e1vel do\u00a0<em>corpus<\/em>\u00a0de Olavo de Carvalho, ide\u00f3logo de todos eles, \u00e9 \u201cEnfia isso no cu\u201d. Existe um componente er\u00f3tico nessa ru\u00edna. \u201cVem um s\u00f3 aqui, seus filhos da puta. Eu quero um de voc\u00eas s\u00f3\u201d, implora Daniel Silveira. Isso \u00e9 a linguagem do gozo. Silveira quer ejacular, e n\u00e3o duvido de que chegar\u00e1 ao paroxismo quando algu\u00e9m \u201ctomar um no meio da caixa do peito\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o componente verdadeiramente monstruoso. Se parece quase inevit\u00e1vel que a viol\u00eancia venha, n\u00e3o \u00e9 apenas por ela se constituir como instrumento de tomada de poder, mas por ser desej\u00e1vel e prazerosa. \u201cPara mim, para o senhor e para os nossos pares, a paz \u00e9 hoje uma desgra\u00e7a\u201d, disse um l\u00edder fascista na It\u00e1lia de Mussolini. Para bolsonaristas, \u00e9 pior do que isso: a paz \u00e9 assexuada. Quando Silveira finalmente estiver liberado para bater, avan\u00e7ar\u00e1 para dentro do inimigo e, amparado pelo poder, por sua arma e pelos policiais, ficar\u00e1 maravilhado com a facilidade com que espanca. A amoralidade \u00e9 libertadora.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos doze meses, foram registradas 72 mil novas armas no pa\u00eds. Cada companheiro de Daniel Silveira que comprou a sua poder\u00e1 adquirir 550 muni\u00e7\u00f5es por m\u00eas. Segundo O\u00a0<em>Globo<\/em>, s\u00f3 em maio foram vendidos mais de 2 mil cartuchos por hora. \u201cEu quero todo mundo armado\u201d,\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/brasil\/eu-quero-todo-mundo-armado-disse-bolsonaro-em-cobranca-sergio-moro-24441599\">exigiu<\/a>\u00a0Bolsonaro em 22 de abril. No ano passado, ensinou aos caminhoneiros que \u201cse tiver arma de fogo, \u00e9 para usar\u201d. Ao Ex\u00e9rcito, determinou a\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2020\/04\/17\/bolsonaro-revoga-rastreamento-identificacao-e-marcacao-de-armas.htm\">revoga\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0de portarias sobre rastreamento e identifica\u00e7\u00e3o de armas e muni\u00e7\u00f5es. No in\u00edcio de junho,\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/brasil\/bolsonaro-promete-isencao-de-importacao-de-armas-para-policiais-militares-2-24464438\">prometeu<\/a>\u00a0isentar policiais e membros das For\u00e7as Armadas do imposto de importa\u00e7\u00e3o de armas. Gra\u00e7as ao presidente (e tamb\u00e9m ao ex-ministro da Justi\u00e7a Sergio Moro), hoje somos versados em conceitos jur\u00eddicos como \u201cexcludente de ilicitude\u201d.<\/p>\n<p>Bolsonaro sempre sorri quando transforma as m\u00e3os em arma. Aquelas pistolas imagin\u00e1rias, s\u00edmbolo de sua campanha, est\u00e3o ali para mostrar o que lhe d\u00e1 prazer. A viol\u00eancia \u00e9 o componente essencial. O que provoca regozijo \u00e9 o corpo baleado no ch\u00e3o, o traficante executado, o homossexual espancado, a mo\u00e7a trans agredida, o esquerdista desacordado, o ind\u00edgena ferido. J\u00e1 as v\u00edtimas da pandemia morrem sem espet\u00e1culo, numa agonia que n\u00e3o \u00e9 p\u00fablica. Sendo invis\u00edveis, suscitam no presidente apenas desinteresse, enfado, \u201co puro t\u00e9dio da morte\u201d, como escreveu Nelson Rodrigues sobre a rea\u00e7\u00e3o de alguns ao horror da gripe espanhola.<\/p>\n<p><strong><span class=\"capitalize\">N<\/span>\u00e3o existe bolsonarismo, apenas bolsonaristas.<\/strong><\/p>\n<p>Bolsonarismo implicaria um conjunto coerente de ideias e uma vis\u00e3o de mundo articulada, elementos que faltam \u00e0 prega\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Bolsonaro. Chega a ser desconcertante, mas conceitualmente o presidente \u00e9 uma degrada\u00e7\u00e3o do regime militar que ele gostaria de reimpor aos brasileiros. Os generais que tomaram o poder em 1964 tinham uma proposta para o pa\u00eds. \u00c0 sua maneira, queriam moderniz\u00e1-lo para superar o subdesenvolvimento e sabiam o que p\u00f4r no lugar do que estavam destruindo.<\/p>\n<p>Bolsonaro investe mais em atos de destrui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o em vis\u00f5es de futuro. No campo propositivo, todas as suas ideias s\u00e3o tomadas de empr\u00e9stimo. O liberalismo econ\u00f4mico foi o cavalo que passou selado num momento em que as elites econ\u00f4micas desembarcavam da sociedade com o petismo. O lavajatismo serviu para fisgar o velho udenismo das classes m\u00e9dias locais. Os pobres estavam com os evang\u00e9licos, e Bolsonaro logo se fez\u00a0<a href=\"https:\/\/extra.globo.com\/noticias\/brasil\/enquanto-votacao-do-impeachment-acontecia-bolsonaro-era-batizado-em-israel-19287802.html\">batizar<\/a>\u00a0no Rio Jord\u00e3o. Esse \u00e9 o liberalismo de um nost\u00e1lgico do intervencionismo da ditadura; o moralismo de quem declara afinidade com milicianos que vivem de extors\u00e3o e arreglos com o crime; o conservadorismo crist\u00e3o do homem de 52 anos que no terceiro casamento esposa a mo\u00e7a de 25.<\/p>\n<p>O cientista pol\u00edtico Marcos Nobre alerta para o risco de tomar Bolsonaro por um pol\u00edtico limitado; negar ao presidente a capacidade de levar a cabo seu projeto de poder \u00e9 uma reconfortante e perigosa ilus\u00e3o. A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel, e n\u00e3o creio que seja incompat\u00edvel com esta afirma\u00e7\u00e3o: projetar uma vis\u00e3o de mundo acabada exige recursos intelectuais e de imagina\u00e7\u00e3o dos quais Bolsonaro d\u00e1 provas sucessivas de n\u00e3o dispor. Contudo, se a constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 ao seu alcance, a destrui\u00e7\u00e3o, sim. \u00c9 o seu talento luminoso. Em menos de dois anos, Bolsonaro degradou a cultura, a educa\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica ambiental, a Pol\u00edcia Federal, o Ibama, o Itamaraty, a Funai, a Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica, o Iphan, a Funarte, a Ancine, a Casa de Rui Barbosa, a Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, a Biblioteca Nacional, a Cinemateca Brasileira, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, as For\u00e7as Armadas. N\u00e3o \u00e9 obra de engenharia. \u00c9 demoli\u00e7\u00e3o. \u201cO Brasil n\u00e3o \u00e9 um terreno aberto onde n\u00f3s pretendemos construir coisas para o nosso povo\u201d, afirmou ele em Washington, na presen\u00e7a de representantes do conservadorismo e da extrema direita norte-americana. \u201cN\u00f3s temos \u00e9 que desconstruir muita coisa, desfazer muita coisa. Depois, podemos come\u00e7ar a fazer.\u201d A parte do refazimento n\u00e3o ser\u00e1 com ele. Os capatazes vir\u00e3o depois. Os militares sup\u00f5em t\u00ea-los em seus quadros.<\/p>\n<p>A sa\u00fade da nossa vida c\u00edvica, sempre fr\u00e1gil, agora se esvai: \u201cA aud\u00e1cia irracional \u00e9 considerada lealdade corajosa [\u2026]; a modera\u00e7\u00e3o passa a ser uma m\u00e1scara para a fraqueza covarde [\u2026]. O homem irasc\u00edvel sempre merece confian\u00e7a, e seu oposto se torna suspeito. O conspirador bem-sucedido \u00e9 inteligente, e ainda mais aquele que o descobre, mas quem n\u00e3o aprova esses procedimentos \u00e9 tido como traidor do partido e um covarde diante dos advers\u00e1rios. [\u2026] Vingar-se de uma ofensa \u00e9 mais apreciado que n\u00e3o haver sido ofendido [\u2026] e aqueles capazes de levar a bom termo um plano odioso sob o manto de palavras enganosas s\u00e3o considerados os melhores.\u201d A \u00faltima frase poderia ser um coment\u00e1rio a Ricardo Salles e sua boiada, mas n\u00e3o. O texto \u00e9 mais antigo. \u00c9 de autoria do historiador grego Tuc\u00eddides, nascido no s\u00e9culo V a.C., e descreve uma guerra civil. \u00c9 assim que uma sociedade se entredevora.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">E<\/span>m\u00a0<em>A Ordem do Dia<\/em>, um breve romance de \u00e9poca lan\u00e7ado em 2017, o franc\u00eas \u00c9ric Vuillard narra como um pa\u00eds capitula ante a viol\u00eancia e a demagogia. \u201cO sol \u00e9 um astro frio\u201d, diz a primeira frase do livro, uma afirma\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica \u2013 \u00e9 fevereiro em Berlim \u2013 e pol\u00edtica \u2013 o ano \u00e9 1933. Dali a alguns par\u00e1grafos, 24 industriais da Alemanha se alinhar\u00e3o ao regime, embora considerem seus l\u00edderes vulgares e med\u00edocres. Cinco anos depois, a \u00c1ustria se encolher\u00e1 e, de concess\u00e3o em concess\u00e3o, perder\u00e1 sua alma \u2013 morre de vez ao ser anexada ao Reich. O narrador escreve: \u201c[<em>Mas nada aqui tem<\/em>] a magnific\u00eancia do terror. S\u00f3 o aspecto pegajoso dos conchavos e da impostura. Nenhuma exalta\u00e7\u00e3o violenta, nada de falas terr\u00edveis e desumanas. Apenas a amea\u00e7a brutal, a propaganda, repetitiva e vulgar.\u201d<\/p>\n<p>Se o paralelo hist\u00f3rico n\u00e3o procede, a descri\u00e7\u00e3o do rebaixamento geral nos fala de perto. Tamb\u00e9m aqui \u00e9 tudo rasteiro: o presidente, seus filhos, os ministros, os seguidores, o que dizem, o que prop\u00f5em. Existe apenas entropia.<\/p>\n<p>A pura negatividade n\u00e3o chega a ser uma ideologia. \u00c9 sobretudo um modo de existir. Dos muitos canteiros de obra onde trabalham as turmas bolsonaristas de demoli\u00e7\u00e3o, nenhum \u00e9 mais espetacular do que a Amaz\u00f4nia. Ali se destr\u00f3i sem p\u00f4r nada no lugar, em troca de nada \u2013 \u00e9 o verdadeiro manifesto pol\u00edtico do movimento. Que ningu\u00e9m se engane: \u00e9 falsa a ideia de que o desmatamento d\u00e1 lugar \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. Hoje, quem destr\u00f3i a Amaz\u00f4nia \u00e9 essencialmente um especulador imobili\u00e1rio. Rouba terra p\u00fablica \u00e0 espera de que valorize. Na l\u00f3gica do ladr\u00e3o, ele ser\u00e1 anistiado pelo governo e ficar\u00e1 rico. O pa\u00eds, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, ecol\u00f3gico, geopol\u00edtico, moral, n\u00e3o se justifica. Na l\u00f3gica bolsonarista, \u00e9 miss\u00e3o cumprida. Claro, h\u00e1 interesses em jogo e gente que se beneficia do desmatamento, mas n\u00e3o s\u00e3o inimigos poderosos. O Estado n\u00e3o teria dificuldade em reprimi-los se quisesse, como, ali\u00e1s, j\u00e1 fez no passado. Que n\u00e3o queira \u2013 e mais: que esteja efetivamente incentivando o desmate ao demonizar quem tenta coibi-lo \u2013 representa um contrassenso em rela\u00e7\u00e3o aos interesses n\u00e3o s\u00f3 do pa\u00eds, mas tamb\u00e9m do agroneg\u00f3cio, base s\u00f3lida de apoio a Bolsonaro. O setor hoje se v\u00ea amea\u00e7ado pela perspectiva de um boicote internacional a seus produtos. Se nem a necessidade de zelar pelos neg\u00f3cios refreia o \u00edmpeto governamental de facilitar a derrubada met\u00f3dica da floresta, pode-se inferir, ent\u00e3o, o que de fato move o governo. Mais do que interesses, s\u00e3o paix\u00f5es. A destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 efeito colateral. \u00c9 prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>O cart\u00e3o-postal da vis\u00e3o de mundo bolsonarista \u00e9 o garimpo, no qual todas as dimens\u00f5es da exist\u00eancia est\u00e3o aviltadas: sa\u00fade, meio ambiente, rela\u00e7\u00f5es de trabalho, norma jur\u00eddica. N\u00e3o por acaso, nas raras vezes em que esbo\u00e7ou uma perspectiva de futuro para a Amaz\u00f4nia, Bolsonaro lhe atribuiu um papel central. Ao\u00a0<em>Globo<\/em>, declarou que pretendia criar \u201cpequenas Serras Peladas\u201d Brasil afora. Em abril, o governo afastou dois chefes de fiscaliza\u00e7\u00e3o do Ibama que comandaram uma opera\u00e7\u00e3o no Par\u00e1 contra garimpeiros que tinham invadido terras ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>A terra devastada que o garimpo deixa para tr\u00e1s \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica bolsonarista e do que seus adeptos apreciam: destrui\u00e7\u00e3o, ru\u00edna, bruteza. Os garimpeiros que escalavram a ribanceira dos rios seguram as mangueiras de press\u00e3o da mesma forma que Bolsonaro empunha sua metralhadora, a meia altura e com as duas m\u00e3os, produzindo os mesmos arrancos e recuos. A viol\u00eancia \u00e9 semelhante. N\u00e3o duvido de que para o presidente ambos os gestos estejam encharcados de erotismo.<\/p>\n<p>Na capa da piau\u00ed de maio deste ano, Bolsonaro beijava a Morte. Era uma alegoria e um diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A <\/span>for\u00e7a negativa caracter\u00edstica de toda a\u00e7\u00e3o bolsonarista faria pensar numa variante tropical do niilismo, mas a hip\u00f3tese ofende a filosofia e uma vener\u00e1vel tradi\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria das ideias. Bolsonaristas est\u00e3o para o niilismo assim como o bispo Edir Macedo est\u00e1 para S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, Olavo de Carvalho para Hegel ou, me permitam mais essa, Ernesto Ara\u00fajo para Bismarck. No campo bolsonarista n\u00e3o se trata nunca de esgrima, \u00e9 sempre porrada. Tudo se p\u00f5e \u00e0 altura do ralo porque a baixeza \u00e9 parte da agenda. Todos n\u00f3s somos diminu\u00eddos.<\/p>\n<p>Num ensaio de 2019, a pensadora h\u00fangara Agnes Heller fez uma distin\u00e7\u00e3o interessante a prop\u00f3sito da deriva autorit\u00e1ria em seu pa\u00eds: \u201cAs ideologias podem ser positivas. Com esse adjetivo, n\u00e3o fa\u00e7o ju\u00edzo de valor [\u2026]. Ideologias positivas s\u00e3o simplesmente as que prometem algo para o futuro: mudan\u00e7as radicais, sociedade sem classes, planeta despolu\u00eddo, dom\u00ednio do mundo, Estado de bem-estar social, a felicidade de todos. As ideologias positivas \u2013 as benignas como as perigosas \u2013 t\u00eam seus pr\u00f3prios intelectuais ide\u00f3logos; podem ser apoiadas por cientistas, poetas, fil\u00f3sofos, por uma esp\u00e9cie de elite cultural. J\u00e1 as ideologias das tiranias modernas s\u00e3o negativas \u2013 operam contra ou em oposi\u00e7\u00e3o a algo, n\u00e3o trabalham para alcan\u00e7ar nada; n\u00e3o contam com o apoio da cultura intelectual.\u201d<\/p>\n<p>Curiosamente, a observa\u00e7\u00e3o vale mais para o Brasil do que para a Hungria. Sim, Viktor Orb\u00e1n consolidou seu poder manipulando habilmente o \u00f3dio a inimigos compartilhados \u2013 imigrantes, cabalas judaicas fantasiosas, social-democracia liberal, Uni\u00e3o Europeia. Contudo, onde o exemplo de Heller parece trope\u00e7ar \u00e9 no fato de que a ideologia orbanista n\u00e3o se contenta em subtrair. Ao pa\u00eds, Orb\u00e1n oferece o projeto de uma na\u00e7\u00e3o definida por sua etnicidade espec\u00edfica e fundada nos princ\u00edpios do Sangue e do Solo. Essa utopia reacion\u00e1ria de matriz biologista, antiliberal e nacionalista \u00e9 um constructo poderoso, de longa tradi\u00e7\u00e3o naquela parte do mundo. Orb\u00e1n \u00e9 seu ide\u00f3logo mais talentoso e competente, dois adjetivos que, no terreno das ideias, ficariam t\u00e3o \u00e0 vontade na companhia de Jair Bolsonaro quanto Ricardo Salles numa conven\u00e7\u00e3o do Greenpeace.<\/p>\n<p>A atual crise da democracia \u00e9 liderada por autocratas capazes de projetar sonhos alternativos de na\u00e7\u00e3o. \u00c9 Xi Jinping na China, \u00e0 frente de um bem-sucedido capitalismo de Estado sem direitos pol\u00edticos. Ou Jaros\u0142aw Kaczy\u0144ski e Andrzej Duda na Pol\u00f4nia, atualizando um nacionalismo cat\u00f3lico que nem o comunismo p\u00f4de extinguir. Ou Recep Tayyip Erdo\u011fan, minando o secularismo republicano da Turquia moderna com sua nostalgia do Imp\u00e9rio Otomano. Na \u00cdndia, Narendra Modi p\u00f5e sua efici\u00eancia administrativa a servi\u00e7o do nacionalismo hindu. E, por fim, o pioneiro Vladimir Putin,\u00a0<em>primus inter pares<\/em>, projetando para os russos o espet\u00e1culo da for\u00e7a, narc\u00f3tico para a humilha\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds que perdeu o posto de superpot\u00eancia global.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o os autocratas que inspiram teses acad\u00eamicas e livros sobre como as democracias morrem. S\u00f3 eles t\u00eam relev\u00e2ncia geopol\u00edtica. S\u00e3o homens de ferro que exercem uma lideran\u00e7a imperial e costumam ser competentes na administra\u00e7\u00e3o do Estado. N\u00e3o por acaso, muitos se destacaram no enfrentamento da crise sanit\u00e1ria. Bolsonaro raramente \u00e9 visto em companhia deles nos par\u00e1grafos da imprensa internacional. Ele \u00e9 a vers\u00e3o degradada que abre o par\u00e1grafo seguinte, o autorit\u00e1rio ex\u00f3tico, papel que no passado foi do ugand\u00eas Idi Amin Dada e que mais recentemente se tornou apan\u00e1gio de ditadores da Coreia do Norte e de tiranos centro-asi\u00e1ticos que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2008\/apr\/25\/1\">renomeiam<\/a>\u00a0o calend\u00e1rio para dar o nome da pr\u00f3pria m\u00e3e ao m\u00eas de abril.<\/p>\n<p>A \u00fanica figura a que Bolsonaro geralmente \u00e9 comparado \u2013 Donald Trump \u2013 marca presen\u00e7a como o membro mais caricato da coorte de l\u00edderes autorit\u00e1rios em cena. H\u00e1 quem chame o capit\u00e3o reformado de \u201cTrump tropical\u201d, ep\u00edteto que certamente o envaidece. Que seja cego \u00e0 profunda indiferen\u00e7a do norte-americano por ele e pelo Brasil, que tenha a ilus\u00e3o de ocupar um lugar especial no cora\u00e7\u00e3o de seu modelo, isso \u00e9 apenas mais um indicador da inclina\u00e7\u00e3o servil de seu temperamento diante de poderes maiores que o seu.<\/p>\n<p>Toda vez que Trump esteve nas cordas por causa do modo desastroso como combateu (ele tamb\u00e9m) a pandemia, n\u00e3o perdeu a oportunidade de se reerguer \u00e0 custa da desdita do Brasil. Da primeira vez, sem dar uma pista ao amigo, anunciou que decidira proibir brasileiros de entrar nos Estados Unidos. Da segunda, antecipou a data da proibi\u00e7\u00e3o. Da terceira, afirmou que se tivesse adotado estrat\u00e9gia semelhante \u00e0 brasileira talvez 2 milh\u00f5es de norte-americanos estivessem mortos. A incompet\u00eancia de Bolsonaro tem serventia para Trump. Serve ao menos para que ele tenha algu\u00e9m com quem se comparar favoravelmente.<\/p>\n<p>Ser atirado assim na fogueira n\u00e3o afrouxa o entusiasmo pelego de Bolsonaro: \u201c\u00c9 meu amigo, \u00e9 meu irm\u00e3o. Falei com ele essa semana. Tivemos uma conversa maravilhosa. Um abra\u00e7o, Trump\u201d \u2013 foi essa a sua resposta quando lhe pediram um coment\u00e1rio sobre os 2 milh\u00f5es de pessoas que Trump livrou da morte ao ter o bom senso de n\u00e3o nos imitar.<\/p>\n<p>Tudo isso pode parecer uma queixa estranha: nosso autocrata \u00e9 pior que o deles. N\u00e3o seria motivo de comemora\u00e7\u00e3o? De fato, como bem mostraram Daniela Campello e Cesar Zucco na edi\u00e7\u00e3o anterior desta revista,\u00a0<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/o-jogo-dos-dois-erros\/\">Bolsonaro tem errado sistematicamente<\/a>. Seu mais grave equ\u00edvoco pol\u00edtico foi n\u00e3o ter lido corretamente a pandemia. No fim das contas, sorte nossa, talvez, que ele tenha sido testado em condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o desfavor\u00e1veis. Suas car\u00eancias, agora expostas a toda a na\u00e7\u00e3o, podem ser um obst\u00e1culo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um projeto duradouro de poder. Em todo caso \u2013 noves fora a ferida narc\u00edsica provocada pela sensa\u00e7\u00e3o (perversa) de n\u00e3o conseguirmos produzir nem d\u00e9spotas com alguma dimens\u00e3o hist\u00f3rica \u2013, o verdadeiro temor \u00e9 outro. Embora um Reich de Mil Anos n\u00e3o esteja ao alcance de Bolsonaro, o caos de uma semana, um m\u00eas, um ano, est\u00e1. Refiro-me a uma anarquia miliciana e policial, a um espet\u00e1culo estarrecedor de viol\u00eancia e f\u00faria: \u201cEu quero um de voc\u00eas s\u00f3.\u201d Ou dois. Ou dez. Ou mil.<\/p>\n<p>Obtusidade n\u00e3o significa falta de estrat\u00e9gia. Bolsonaro sabe o que quer. Ou melhor, sabe do que gosta. Seus seguidores tamb\u00e9m. Querem aquilo de que gostam.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">U<\/span>m velho general da aristocracia prussiana, um homem direito que, no s\u00e9culo passado, resistiu a colaborar com regimes de for\u00e7a, classificava os militares em quatro tipos: \u201cH\u00e1 oficiais inteligentes, aplicados, burros e pregui\u00e7osos. Em geral, essas qualidades v\u00eam aos pares. H\u00e1 os inteligentes e aplicados, que devem ir para o Estado-Maior. Depois v\u00eam os burros e pregui\u00e7osos; esses s\u00e3o 90% de qualquer Ex\u00e9rcito e s\u00e3o pr\u00f3prios para tarefas de rotina. Os inteligentes pregui\u00e7osos disp\u00f5em do que \u00e9 preciso para tarefas mais altas de lideran\u00e7a, pois t\u00eam clareza mental e firmeza dos nervos na hora de decis\u00f5es dif\u00edceis. Mas \u00e9 preciso tomar cuidado com os burros e aplicados; n\u00e3o podem receber nenhuma responsabilidade, pois s\u00f3 sabem causar desgra\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Temo que a desgra\u00e7a j\u00e1 esteja contratada. Ser\u00e1 motivada por aquela forma espec\u00edfica de desintelig\u00eancia descrita por Tuc\u00eddides, caracterizada por insensatez, irreflex\u00e3o e inclem\u00eancia. Pelo estado de aviltamento em que pequenos se tornam grandes e grandes perdem for\u00e7a. Temo o momento em que, nas pr\u00f3ximas semanas, daqui a uns meses, no ano que vem ou pouco antes da elei\u00e7\u00e3o de 2022, ao lermos o alerta que ter\u00e1 surgido em uma das nossas telas, sussurraremos: \u201cCome\u00e7ou.\u201d<\/p>\n<p>Em 1981 o escritor italiano Claudio Magris visitou a Pol\u00f4nia. As greves do Solidariedade punham em xeque o regime tutelado pelos sovi\u00e9ticos. Em meio a \u201cviventes mais amea\u00e7ados de morte\u201d do que ele, Magris refletiu: \u201cNa Pol\u00f4nia se sente a trag\u00e9dia, n\u00e3o o pesadelo; e a trag\u00e9dia implica uma dimens\u00e3o humana de grandeza e de for\u00e7a, um senso \u00edntegro e pleno da vida que foi agredida ou destru\u00edda, a intui\u00e7\u00e3o de um destino e de um significado. A queda tr\u00e1gica n\u00e3o apequena o indiv\u00edduo; ela o derruba do carro de combate como a um guerreiro hom\u00e9rico golpeado na batalha, n\u00e3o o dilacera e n\u00e3o o dissolve no nada, como acontece a quem foi tragado pelos meandros irreais do pesadelo.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 isso. Em 1964, o poder foi tomado \u00e0 for\u00e7a. Em 2018, 57,7 milh\u00f5es de brasileiros sufragaram a vers\u00e3o piorada de um regime odioso. Outros 11 milh\u00f5es anularam ou votaram em branco. No fim das contas, talvez fosse inevit\u00e1vel chegarmos a isso. Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 diferente do pa\u00eds que o elegeu. N\u00e3o todo o Brasil, nem mesmo a maioria do Brasil (uma esperan\u00e7a), mas um peda\u00e7o significativo do Brasil \u00e9 como Bolsonaro. Violento, racista, mis\u00f3gino, homof\u00f3bico, inculto, indiferente. Perverso.<\/p>\n<p>E foi assim que terminamos n\u00e3o na trag\u00e9dia, mas no pesadelo.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/a-morte-no-governo-bolsonaro\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JO\u00c3O MOREIRA SALLES &#8211; Jair Bolsonaro entre o gozo e o t\u00e9dio. Quando as v\u00edtimas da pandemia passaram de 5 mil, no dia 28 de abril de 2020, Jair Bolsonaro foi a um estande de tiro. No dia em que chegamos aos 10 mil mortos, ele passeou de jet ski no Lago Parano\u00e1. 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