{"id":14531,"date":"2020-11-24T19:12:09","date_gmt":"2020-11-24T22:12:09","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14531"},"modified":"2020-11-22T19:17:03","modified_gmt":"2020-11-22T22:17:03","slug":"tempestade-a-vista-no-mundo-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/11\/24\/tempestade-a-vista-no-mundo-do-trabalho\/","title":{"rendered":"Tempestade \u00e0 vista no mundo do Trabalho"},"content":{"rendered":"<p><strong>Antonio Martins<\/strong> &#8211;\u00a0A atitude desastrosa do governo diante da pandemia est\u00e1 gestando um oceano de desocupa\u00e7\u00e3o e precariedade \u2013 que emergir\u00e1 em breve. A resposta de Paulo Guedes \u00e9 devastar direitos e desestruturar Trabalho e Previd\u00eancia. \u00c9 preciso enfrent\u00e1-la.<\/p>\n<p><strong>I.<\/strong><\/p>\n<p><em>Ou a vida ou a Economia<\/em>. Em mar\u00e7o, quando a covid-19 come\u00e7ava a se alastrar, Jair Bolsonaro estabeleceu esta disjuntiva absurda \u2013 e optou pelo segundo termo. Numa l\u00f3gica quase-nazista, a popula\u00e7\u00e3o deveria se sacrificar, para que os neg\u00f3cios prosperassem. O governo recusou-se a adotar medidas de distanciamento social e sabotou, legal e simbolicamente, as t\u00edmidas a\u00e7\u00f5es de estados e munic\u00edpios neste rumo. As consequ\u00eancias come\u00e7am a surgir. Sanitariamente, o Brasil rivaliza apenas com os Estados Unidos, como campe\u00e3o funesto de mortes e cont\u00e1gios. Temos apenas 2,7% da popula\u00e7\u00e3o do mundo, mas 12,9% dos \u00f3bitos por coronav\u00edrus \u2013 e a conta n\u00e3o para de crescer.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, na Economia e no Trabalho, que o ex-capit\u00e3o prometeu defender, arma-se outro resultado tenebroso. Temporariamente ocultas, devido a min\u00facias estat\u00edsticas, as taxas de desocupa\u00e7\u00e3o ir\u00e3o disparar em breve, t\u00e3o logo termine o aux\u00edlio emergencial votado pelo Congresso. O desastre maior n\u00e3o estar\u00e1 nos n\u00fameros, mas na vida real \u2013 como veremos ao longo do texto. Um ex\u00e9rcito de sem-emprego ser\u00e1 for\u00e7ado a buscar ocupa\u00e7\u00f5es a qualquer custo. Encontrar\u00e1 empresas fechadas ou financeiramente comprometidas \u2013 e consumidores sem \u00e2nimo para gastar. O ministro Paulo Guedes j\u00e1 farejou o desastre, mas prepara a pior resposta poss\u00edvel, que j\u00e1 exp\u00f4s em bal\u00f5es de ensaio. H\u00e1 alternativas reais. Exigem romper tr\u00eas padr\u00f5es: a concentra\u00e7\u00e3o de riquezas, a financeiriza\u00e7\u00e3o e a reprimariza\u00e7\u00e3o produtiva, que marcam o Brasil h\u00e1 d\u00e9cadas. Por isso, \u00e9 preciso come\u00e7ar a debat\u00ea-las desde j\u00e1.<\/p>\n<p><strong>II.<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista estat\u00edstico, o vasto tsunami de desocupa\u00e7\u00e3o que se aproxima veloz ainda n\u00e3o chegou \u00e0 praia devido a um crit\u00e9rio conceitual da Sociologia (e \u00e0 desaten\u00e7\u00e3o do Jornalismo\u2026). Os \u00edndices de desemprego subiram relativamente pouco e n\u00e3o ganharam manchetes.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2020\/04\/30\/O-que-diz-o-primeiro-dado-de-desemprego-na-pandemia\">Est\u00e1vamos\u00a0<\/a><a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2020\/04\/30\/O-que-diz-o-primeiro-dado-de-desemprego-na-pandemia\">em 1<\/a><a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2020\/04\/30\/O-que-diz-o-primeiro-dado-de-desemprego-na-pandemia\">0<\/a><a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2020\/04\/30\/O-que-diz-o-primeiro-dado-de-desemprego-na-pandemia\">,6%<\/a><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/tempestade-a-vista-no-mundo-do-trabalho\/#sdendnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>, em fevereiro deste ano; no final de junho,\u00a0<a href=\"https:\/\/economia.estadao.com.br\/noticias\/geral,desemprego-sobe-para-13-1-e-atinge-12-4-milhoes-de-brasileiros,70003367101\">passamos a 13,1%<\/a>. Em quatro meses de crise, cerca de 1,4 milh\u00e3o de pessoas perderam o posto de trabalho.<\/p>\n<p>Mas esta onda modesta oculta outra, oito vezes maior. Ap\u00f3s o in\u00edcio da pandemia, 11,5 milh\u00f5es de brasileiros\u00a0<em>deixaram de fazer parte da Popula\u00e7\u00e3o Economicamente Ativa \u2013 a PEA.<\/em>\u00a0N\u00e3o s\u00e3o sequer classificados como desempregados, porque simplesmente deixaram de procurar trabalho. A grande maioria destas perdas deu-se na chamada \u201ceconomia informal\u201d, onde a PEA encolheu, em poucos meses, 15,1%. S\u00e3o, por exemplo, a empregada dom\u00e9stica sem registro, mandada para casa sem remunera\u00e7\u00e3o; ou o pedreiro que faz bicos, tamb\u00e9m n\u00e3o registrados, para um pequeno empreiteiro, que perdeu os clientes. No universo dos formalizados, a redu\u00e7\u00e3o da PEA foi menor: 6,7%. \u00c9 que o governo ofereceu aos empregadores a oportunidade de licenciar ou reduzir a jornada de seus empregados \u2013 e subsidiou os sal\u00e1rios dos atingidos. Nos dois casos, o gr\u00e1fico abaixo permite enxergar o tombo produzido pela inc\u00faria das pol\u00edticas de Bolsonaro.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3030883\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/%C3%ADndice-2.jpg?w=640&#038;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 722px) 100vw, 722px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/\u00edndice-2.jpg 722w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/\u00edndice-2-300x168.jpg 300w\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>O exame dos conceitos tamb\u00e9m \u00e9 \u00fatil para examinar a devasta\u00e7\u00e3o produzida, no mundo do trabalho, por v\u00e1rias d\u00e9cadas de financeiriza\u00e7\u00e3o e reprimariza\u00e7\u00e3o da economia brasileira. Da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, que beira os 210 milh\u00f5es de habitantes, 169 milh\u00f5es t\u00eam a partir de 14 anos \u2013 e s\u00e3o classificados como Popula\u00e7\u00e3o em Idade Ativa (a\u00a0<strong>PIA<\/strong>). Destes, eram considerados\u00a0<em>economicamente ativos<\/em>\u00a0\u2013 ou parte da\u00a0<strong>PEA<\/strong>\u00a0\u2013 , em maio, apenas 55%. Como 13,1% da PEA est\u00e3o\u00a0<strong>desempregados,<\/strong>\u00a0restam apenas 47,8% efetivamente trabalhando. E, mesmo neste universo, de cerca de 81 milh\u00f5es de trabalhadores, 30,4 milh\u00f5es est\u00e3o, sempre segundo o IBGE,\u00a0<strong>subutilizados.\u00a0<\/strong>Restam, portanto, na condi\u00e7\u00e3o de plenamente ocupados, pouco mais de 50 milh\u00f5es \u2013\u00a0<em>menos de 30%<\/em>\u00a0da\u00a0<strong>PIA.<\/strong><\/p>\n<p><strong>III.<\/strong><\/p>\n<p>Mais graves que os n\u00fameros \u00e9 a realidade social que os conforma \u2013 e, em especial, o que ela poder\u00e1 produzir nos pr\u00f3ximos meses. Por serem parciais e ca\u00f3ticas, e por sofrerem sabotagem constante da presid\u00eancia da Rep\u00fablica, as medidas de afastamento social no Brasil prolongam-se a perder de vista. Na China, um\u00a0<em>lockdown\u00a0<\/em>severo em Wuhan durou 76 dias, mas reduziu a pandemia a quase zero. Desde mar\u00e7o, os pouqu\u00edssimos casos que eclodem prov\u00eam quase sempre do exterior. Aqui, as primeiras restri\u00e7\u00f5es \u00e0s atividades produtivas come\u00e7aram em meados de mar\u00e7o. Passaram-se 120 dias, mas o n\u00famero de cont\u00e1gios di\u00e1rios\u00a0<em>quintuplicou\u00a0<\/em>e \u00e9 imposs\u00edvel saber quando a curva come\u00e7ar\u00e1 a declinar. Os danos \u00e0 sociedade e \u00e0 pr\u00f3pria economia s\u00e3o, por isso, incomparavelmente maiores.<\/p>\n<p>Dezenas de milh\u00f5es de pessoas, que perderam o trabalho, viram-se como podem. Sobrevivem com os R$ 600 do Aux\u00edlio Emergencial, complementados com o apoio de parentes empregados e a\u00e7\u00f5es de solidariedade. Por terem deixado a PEA, n\u00e3o pressionam o mercado de trabalho. N\u00e3o funcionam como o chamado \u201cex\u00e9rcito de reserva\u201d, que faz concorr\u00eancia aos assalariados ocupados e \u00e9 usado pelos empregadores para rebaixar sal\u00e1rios e direitos laborais.<\/p>\n<p>Tudo isso mudar\u00e1, a partir de setembro \u2013 m\u00eas em que ser\u00e1 paga, gradualmente, a quinta e \u00faltima parcela dos R$ 600. Sem o aux\u00edlio, milh\u00f5es de informais ser\u00e3o obrigados a sair \u00e0s ruas \u00e0 procura de trabalho. Algo semelhante poder\u00e1 ocorrer com os trabalhadores formalizados que foram licenciados ou tiveram jornada reduzida, quando terminar o subs\u00eddio estatal a seus sal\u00e1rios. Uns e outros encontrar\u00e3o uma economia agonizante. A mesma PNAD-Covid do IBGE registrava, que, j\u00e1 em meados de junho, apenas 67,4% das empresas estava funcionando normalmente. Outras 15% estava temporariamente paradas pela covid-19 e 17,6% haviam encerrado as atividades em definitivo.<\/p>\n<p>Das que sobreviverem, boa parte estar\u00e1 \u00e0s voltas com d\u00edvidas banc\u00e1rias, queda abrupta de receitas (nos shoppings que reabriram, por exemplo, a maior parte dos lojistas relata\u00a0<a href=\"https:\/\/economia.estadao.com.br\/noticias\/geral,com-shoppings-vazios-comerciantes-abrem-lojas-para-faturar-r-50-por-dia,70003361287\">redu\u00e7\u00e3o de 90%<\/a>\u00a0no volume de vendas), impostos, alugu\u00e9is e contas atrasadas. As dificuldades ser\u00e3o ainda mais intensas nas pequenas e m\u00e9dias empresas \u2013 as que mais empregam. O quadro desolador inibir\u00e1 os gastos das fam\u00edlias, o que repercutir\u00e1 sobre o com\u00e9rcio e a produ\u00e7\u00e3o. Estar\u00e1 armada a tempestade perfeita, a espiral descendente t\u00edpica das depress\u00f5es econ\u00f4micas, que se retroalimentam em c\u00edrculos regressivos. O Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, prev\u00ea que a produ\u00e7\u00e3o industrial\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/06\/pais-ja-vive-primeira-onda-de-encerramento-de-fabricas-em-meio-a-pandemia.shtml\">recuar\u00e1 11,5%<\/a>, em 2020. Ouvidos pela jornalista Tha\u00eds Carran\u00e7a, da\u00a0<em>Folha de S.Paulo,\u00a0<\/em>a economista Solange Srour, da ARX investimentos, previu que, ao final do ano, o desemprego bater\u00e1 todos os recordes, e\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/07\/fim-do-auxilio-emergencial-vai-pressionar-taxa-de-desemprego.shtml\">chegar\u00e1 aos 20%<\/a>. Segundo ela, ser\u00e3o mais intensamente afetados os trabalhadores mais pobres e menos qualificados. Em certos setores (pense nos bancos), automa\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia artificial eliminar\u00e3o postos de trabalho em massa. Em outros (imagine o com\u00e9rcio), a concentra\u00e7\u00e3o empresarial e as vendas eletr\u00f4nicas far\u00e3o o mesmo.<\/p>\n<p><strong>IV.<\/strong><\/p>\n<p>O terremoto que pode advir, ap\u00f3s o fim do auxilio emergencial, tira o sono de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Ambos hesitaram por semanas, e chegaram a dar\u00a0<a href=\"https:\/\/economia.uol.com.br\/colunas\/carla-araujo\/2020\/06\/30\/auxilio-emergencial-governo-faz-confusao-em-anuncio-de-extensao.htm\">declara\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias e confusas<\/a>, sobre o que fazer ap\u00f3s setembro. Por um lado, a defesa ideol\u00f3gica da ortodoxia econ\u00f4mica, e o\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/videos\/eles-sustentam-bolsonaro-no-poder\/\">apoio crucial<\/a>\u00a0que recebem da\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/videos\/eles-sustentam-bolsonaro-no-poder\/\">oligarquia financeira<\/a>\u00a0os impede de enfrentar a concentra\u00e7\u00e3o de riquezas, mesmo que com a\u00e7\u00f5es modestas. Diversos integrantes da equipe econ\u00f4mica t\u00eam avisado que o objetivo do ministro \u00e9 retornar, t\u00e3o logo que poss\u00edvel, \u00e0 \u201cagenda de reformas\u201d. Por outro lado, o banqueiro e seu capit\u00e3o sabem que terminar a seco com os R$ 600\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/os-r-600-que-podem-mudar-a-face-do-brasil\/\">pode ser desastroso<\/a>. O governo perder\u00e1 o apoio, parcial e inst\u00e1vel, que conquistou, nos \u00faltimos meses, entre os mais pobres. E o ambiente pol\u00edtico que advir\u00e1 de um desemprego na casa dos 20% \u00e9 imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>Pressionado por dois fogos, Paulo Guedes manteve-se discreto, ao longo de semanas. Cozinhou, neste per\u00edodo, uma receita exc\u00eantrica, cujos primeiros ingredientes\u00a0<a href=\"https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/redacao\/2020\/07\/15\/trabalho-hora-capitalizacao-imposto-digital-paulo-guedes-plano.htm\">a\u00a0<em>Folha de S.Paulo\u00a0<\/em>revelou<\/a>\u00a0\u2013 em mat\u00e9ria certamente informada pelo ministro \u2013 na \u00faltima quarta-feira. Guedes quer manter, ainda que residualmente, o aux\u00edlio emergencial. Planeja rebatiz\u00e1-lo de Renda Brasil, um programa que surgiria em substitui\u00e7\u00e3o ao Bolsa Fam\u00edlia (com claro ganho pol\u00edtico colateral, para o bolsonarismo). Teria valor menor e beneficiaria apenas uma parcela dos que recebem os R$ 600.<\/p>\n<p>Em contrapartida, sempre segundo os planos de Guedes, o governo propor\u00e1, a um Congresso de maioria olig\u00e1rquica e neoliberal, duas bombas nucleares. Uma contra a Seguridade Social; outra, contra os direitos trabalhistas.<\/p>\n<p>A Renda Brasil, segundo a\u00a0<em>Folha,\u00a0<\/em>vir\u00e1 acompanhada de uma nova tentativa de instituir a\u00a0<em>capitaliza\u00e7\u00e3o individual,\u00a0<\/em>como novo regime da Previd\u00eancia. Cada trabalhador ser\u00e1 o \u00fanico respons\u00e1vel por garantir sua pr\u00f3pria aposentadoria. Tanto os empregadores quanto o Estado, que hoje contribuem para o sistema, ser\u00e3o \u201cliberados\u201d. A consequ\u00eancia ser\u00e1, obviamente, a quebra financeira do INSS. Na nova configura\u00e7\u00e3o, os benef\u00edcios ser\u00e3o muito menores. Tanto que o Estado atuar\u00e1 apenas para \u201cgarantir uma complementa\u00e7\u00e3o para quem n\u00e3o conseguir atingir o sal\u00e1rio m\u00ednimo como valor da aposentadoria\u201d. O que hoje \u00e9 o\u00a0<em>piso\u00a0<\/em>dos benef\u00edcios passar\u00e1 a ser o\u00a0<em>teto.<\/em><\/p>\n<p>A segunda explos\u00e3o at\u00f4mica pretendida pelo ministro atingir\u00e1 as rela\u00e7\u00f5es de trabalho. H\u00e1 tempos, Guedes defende a \u201ccarteira verde e amarela\u201d, que reduz direitos laborais. Agora, ele radicalizou: passou a defender contrata\u00e7\u00e3o\u00a0<em>por hora,\u00a0<\/em>e n\u00e3o mais\u00a0<em>por m\u00eas.\u00a0<\/em>Ao inv\u00e9s de se comprometerem a pagar um sal\u00e1rio mensal, os empregadores poder\u00e3o, na vis\u00e3o do ministro, contratar os trabalhadores apenas nos per\u00edodos em que forem estritamente necess\u00e1rios. Imagine a devasta\u00e7\u00e3o que isso produzir\u00e1, nos sal\u00e1rios e nos direitos, num per\u00edodo em que haver\u00e1 um gigantesco ex\u00e9rcito de m\u00e3o de obra.<\/p>\n<p><em>Contratam-se balconistas, por uma semana. Enviar curr\u00edculo e proposta salarial. Os valores pretendidos ser\u00e3o\u00a0<\/em><em>decisivos na sele\u00e7\u00e3o d<\/em><em>o<\/em><em>s candidat<\/em><em>o<\/em><em>s.<\/em><\/p>\n<p><em>Centro cultural de renome procura animadorx cultural com experi\u00eancia em curadoria, adrenalina na veia e disposi\u00e7\u00e3o de ralar como produtxr. Flu\u00eancia obrigat\u00f3ria em ingl\u00eas e preferencialmente outros idiomas. Desej\u00e1vel disposi\u00e7\u00e3o para brilhar nas redes sociais. Dura\u00e7\u00e3o prevista da tarefa: dois meses. Enviar projeto de a\u00e7\u00e3o detalhado. Xs candidatxs que se adequem ser\u00e3o selecionadxs segundo a proposta de remunera\u00e7\u00e3o apresentada.<\/em><\/p>\n<p><strong>V.<\/strong><\/p>\n<p>Em que pesem o cinismo como marca do car\u00e1ter, a sociopatia que aflora com frequ\u00eancia e o apego irrefre\u00e1vel ao dinheiro e ao poder, um m\u00e9rito deve ser reconhecido aos neoliberais: a aud\u00e1cia intelectual. Desde os anos 1940, quando criaram a Sociedade Mont Pelerin, Fredrich Hayek, Ludwig von Mises e outros economistas n\u00e3o se acanharam por contrariar as ideias hegem\u00f4nicas de seu tempo. Tiveram, \u00e9 certo, o aux\u00edio luxuoso dos banqueiros. Numa \u00e9poca em que o capitalismo cedia os an\u00e9is, e flertava com a democracia, era c\u00f4modo ser<em>\u00a0outsider\u00a0<\/em>e aninhar-se no rega\u00e7o de uma oligarquia temporariamente\u00a0<em>demod\u00e9e.<\/em><\/p>\n<p>Mas a mesma disposi\u00e7\u00e3o de contrariar o esp\u00edrito da \u00e9poca, que eles sustentaram, precisa animar, agora, os que lutam contra a ortodoxia neoliberal. N\u00e3o importa que, na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as atual, certas propostas n\u00e3o possam prevalecer. Eles devem ser apresentadas e desenvolvidas para que, aos poucos, tomem corpo, disputem a consci\u00eancia social e mostrem sua adequa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se contrap\u00f5em, \u00e9 claro, a\u00a0<em>resistencia.\u00a0<\/em>Ser\u00e1 preciso, antes de tudo,\u00a0<em>derrotar,<\/em>\u00a0uma nova proposta regressiva de Bolsonaro &amp; Guedes \u2014 e a proximidade das elei\u00e7\u00f5es municipais ser\u00e1 um ponto de apoio essencial. Mas ser\u00e1 preciso ir al\u00e9m e lan\u00e7ar pontos de uma agenda propositiva.<\/p>\n<p>Em oposi\u00e7\u00e3o aos retrocessos tramados pelo governo, uma primeira provid\u00eancia \u00e9 propor que o Aux\u00edlio Emergencial seja convertido numa\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/a-renda-cidada-de-emergencia-e-a-reinvencao-do-dinheiro\/\">Renda B\u00e1sica\u00a0<\/a><\/strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/a-renda-cidada-de-emergencia-e-a-reinvencao-do-dinheiro\/\">real<\/a>. Isso implica ter valor maior (ao menos um sal\u00e1rio m\u00ednimo) e ser pago incondicionalmente, a todas as pessoas a partir dos 14 anos. Numa \u00e9poca de grandes transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e de amea\u00e7a constante de regress\u00e3o social, a Renda B\u00e1sica precisa ser a grande bandeira civilizat\u00f3ria das maiorias, o equivalente ao que foi a Jornada de 8 Horas na virada para o s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds como o Brasil, que j\u00e1 vive quatro d\u00e9cadas de financeiriza\u00e7\u00e3o e reprimariza\u00e7\u00e3o da Economia, a Renda B\u00e1sica expressa um\u00a0<em>choque de igualdade.\u00a0<\/em>Significa que, para ter direito a uma exist\u00eancia digna, a popula\u00e7\u00e3o\u00a0<em>n\u00e3o precisar\u00e1\u00a0<\/em>se submeter ao trabalho nas condi\u00e7\u00f5es regredidas que s\u00e3o hoje oferecidas. A renda para tanto vir\u00e1 da\u00a0<em>reparti\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/em>H\u00e1 recursos para isso. Como argumenta Ladislau Dowbor, o trabalho dos brasileiros, se dividido igualitariamente, asseguraria a cada pessoa aproximadamente R$ 3 mil mensais. Ainda que, por constrangimentos pol\u00edticos, a Renda B\u00e1sica n\u00e3o possa chegar a tanto, cri\u00e1-la, em valores e condi\u00e7\u00f5es que signifiquem o in\u00edcio de uma mudan\u00e7a social profunda, precisa ser uma bandeira central dos que n\u00e3o se conformam com a degrada\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o basta repartir as riquezas monet\u00e1rias atuais, para um pa\u00eds melhor. \u00c9 preciso criar trabalho novo, ligado a uma<strong>\u00a0Virada Socioambiental\u00a0<\/strong>\u2013 e n\u00e3o \u00e0s l\u00f3gicas \u201cde mercado\u201d. H\u00e1 d\u00e9cadas n\u00e3o h\u00e1 um projeto nacional. Acumulam-se necessidades nunca enfrentadas. A revolu\u00e7\u00e3o urban\u00edstica das periferias, as cidades livres da ditadura dos autom\u00f3veis, as redes de ferrovias e metr\u00f4s, a transi\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio para a agroecologia, a despolui\u00e7\u00e3o dos rios, as energias limpas, o saneamento para todos etc etc etc. A oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s regress\u00f5es neoliberais precisa suscitar a imagina\u00e7\u00e3o transformadora e a reflex\u00e3o democr\u00e1tica sobre que sociedade queremos.<\/p>\n<p>Na pandemia, o SUS mostrou seu valor. Sem ele, as maiorias n\u00e3o teriam socorro; a pesquisa em Sa\u00fade, realizada em centros como a Fiocruz e o Instituto Butant\u00e3, n\u00e3o existiria. Sob o impulso deste reconhecimento, \u00e9 preciso propor uma<strong>\u00a0Revolu\u00e7\u00e3o dos Comuns.<\/strong>\u00a0Sa\u00fade, Educa\u00e7\u00e3o, \u00c1gua, Saneamento, Energia, Habita\u00e7\u00e3o, Urbaniza\u00e7\u00e3o, Transportes P\u00fablicos \u2013 tudo isso precisa ser gerido como se cuida da casa, n\u00e3o sob a l\u00f3gica da busca de vantagens. E precisa ser da melhor qualidade poss\u00edvel para todos, n\u00e3o apenas para quem possa pagar. Quem deseja sacudir o pa\u00eds e questionar suas estruturas de segrega\u00e7\u00e3o secular, precisa tamb\u00e9m vislumbrar mecanismos de reparti\u00e7\u00e3o de riquezas que n\u00e3o limitem o ac\u00famulo pessoal, familiar ou corporativo, e re\u00fanam recursos para construir o que \u00e9 de todos.<\/p>\n<p>Tanto a Virada Socioambiental quanto a Revolu\u00e7\u00e3o dos Comuns exigir\u00e3o enorme esfor\u00e7o humano. O mundo trabalho n\u00e3o pode ser gerido apenas como um mercado privado, em que empregadores e assalariados se encontram, como se n\u00e3o houvesse necessidades coletivas a cumprir. A sociedade precisa intervir, oferecendo a\u00a0<strong>Garantia de Emprego Digno\u00a0<\/strong>para os que o desejem. Milh\u00f5es de ocupa\u00e7\u00f5es, em m\u00faltiplas atividades e de capacita\u00e7\u00f5es diversas. Dx engenheirx ambiental ax encanadorx; dx planejadorx urbano ax assentadorx de trilhos ou ax eletricista do metr\u00f4. Remuneradas com dignidade e executadas em ritmos serenos \u2013 que permitam o lazer, a (re)qualifica\u00e7\u00e3o profissional permanente e a reflex\u00e3o. Todos os benef\u00edcios de abund\u00e2ncia que a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica oferece \u2013 por\u00e9m distribu\u00eddos entre muitos, e n\u00e3o concentrados numa oligarquia com padr\u00f5es de consumo devastadores e deprimentes.<\/p>\n<p>Para financiar este feixe de transforma\u00e7\u00f5es, uma vasta\u00a0<strong>Reforma Tribut\u00e1ria\u00a0<\/strong>e o uso, em favor das maiorias, da\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/a-teoria-monetaria-moderna-contra-a-ditadura-financeira\/\">Moeda como Instrumento de Redistribui\u00e7\u00e3o de Riquezas.<\/a>\u00a0<\/strong>Imprimir dinheiro para pagar a Renda B\u00e1sica e para financiar a Revolu\u00e7\u00e3o dos Comuns, a Virada Socioambiental e a Garantia do Emprego Digno. Inverter as pol\u00edticas de \u201cquantative easing\u201d, que despejam, desde a crise de 2008,\u00a0<em>dezenas de trilh\u00f5es<\/em>\u00a0<em>de d\u00f3lares\u00a0<\/em>nas m\u00e3os da oligarquia financeira.<\/p>\n<p>Numa sociedade politicamente deprimida, como a brasileira, n\u00e3o basta enfrentar os donos do poder e do dinheiro constestando parcialmente seus projetos de morte. \u00c9 preciso repropor a vida. Uma boa oportunidade \u00e9 mirar setembro, m\u00eas da primavera.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/tempestade-a-vista-no-mundo-do-trabalho\/#sdendnote1anc\">1<\/a>Os percentuais variam ligeiramente, de acordo com a pesquisa. O pr\u00f3prio IBGE produzia, at\u00e9 a pandemia a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edios (PNAD) Cont\u00ednua, com entrevistas presenciais. Ap\u00f3s a covid-19, passou a produzir, por telefone, a PNAD-Covid, ainda experimental. O primeiro \u00edndice de desemprego da PNAD- Covid, relativo a maio, apontava 10,5%. Optamos por usar o valor de fevereiro da PNAD Cont\u00ednua, por ser mais preciso.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/tempestade-a-vista-no-mundo-do-trabalho\/)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Martins &#8211;\u00a0A atitude desastrosa do governo diante da pandemia est\u00e1 gestando um oceano de desocupa\u00e7\u00e3o e precariedade \u2013 que emergir\u00e1 em breve. A resposta de Paulo Guedes \u00e9 devastar direitos e desestruturar Trabalho e Previd\u00eancia. \u00c9 preciso enfrent\u00e1-la. I. Ou a vida ou a Economia. 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