{"id":1442,"date":"2016-08-06T12:15:11","date_gmt":"2016-08-06T15:15:11","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1442"},"modified":"2016-07-29T12:17:33","modified_gmt":"2016-07-29T15:17:33","slug":"judith-butler-que-mudou-a-maneira-de-ver-o-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/08\/06\/judith-butler-que-mudou-a-maneira-de-ver-o-genero\/","title":{"rendered":"Judith Butler, que mudou a maneira de ver o g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<p><strong>Molly Fischer &#8211;\u00a0<\/strong>Quem \u00e9, e como construiu suas ideias, a fil\u00f3sofa segundo a qual g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 o que \u201csomos\u201d, mas algo que constantemente &#8220;fazemos&#8221;<\/p>\n<p>Em se tratando de uma celebridade\u00a0que represente\u00a0\u201ctudo que supostamente h\u00e1 de esquisito com A Juventude\u201d, at\u00e9 que Jaden Smith n\u00e3o \u00e9 dos piores: tuiteiro sagaz, ocasionalmente anarquista, autointitulado \u201cfuturo da m\u00fasica, da fotografia e do cinema\u201d, com pouco apego pelo binarismo de g\u00eanero. No come\u00e7o desse ano, o filho de 17 anos de Will Smith e Jada Pinkett Smith, irm\u00e3o de Willow, estrelou <a href=\"http:\/\/ladobi.uol.com.br\/2016\/01\/jaden-smith-louis-vuitton\/\" target=\"_blank\">uma campanha de moda feminina da Louis Vuitton<\/a>. Jaden Smith, quasar dos comportamentos contempor\u00e2neos teen, aparece vestindo um casaco com franjas e uma saia preta decorada que bate na altura do joelho.<\/p>\n<p>Mas espere um pouco. Esfregue os olhos, olhe bem, e, falando s\u00e9rio, h\u00e1 mesmo alguma raz\u00e3o real\u00a0por que isso deveria ser esquisito? Ele est\u00e1 bonito. E as normas de g\u00eanero \u2013 elas s\u00e3o bastante arbitr\u00e1rias, n\u00e3o s\u00e3o? Smith usava\u00a0um\u00a0vestido, com um casaco esportivo leve e t\u00eanis, quando acompanhou Amandla Stenberg (da franquia\u00a0<em>Jogos Vorazes<\/em>) para o baile da escola. (Stenberg, ali\u00e1s, recentemente declarou-se bissexual em sua conta do Snapchat, mas tamb\u00e9m j\u00e1 fez pouco caso das pol\u00edticas de identidade convencionais: \u201cEu n\u00e3o enxergo a sexualidade em categorias\u201d, declarou.) A atitude despreocupada quanto ao g\u00eanero n\u00e3o parece ser afeta\u00e7\u00e3o, mas sim ind\u00edcio de um mundo que mudou profundamente nas duas d\u00e9cadas desde que seu pai protagonizou\u00a0<em>Um maluco no peda\u00e7o<\/em>. Ou, por que n\u00e3o, desde que seu pai se recusou a beijar um homem em frente \u00e0s c\u00e2meras, 23 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Quando Caitlyn Jenner anunciou que \u00e9 uma mulher trans no ano passado, o mundo ganhou\u00a0uma li\u00e7\u00e3o digna da fam\u00edlia Kardashian \u2013 oportunidade de ouro para explica\u00e7\u00f5es pacientes em hor\u00e1rio nobre sobre como n\u00e3o se deve considerar que o g\u00eanero \u00e9 algo t\u00e3o r\u00edgido. Mas, al\u00e9m do <a href=\"http:\/\/time.com\/135480\/transgender-tipping-point\/\" target=\"_blank\">\u201cponto de virada do g\u00eanero\u201d<\/a> anunciado pela revista\u00a0<em>Time<\/em>e o despertar mais amplo das pol\u00edticas de identidade, h\u00e1 outra revela\u00e7\u00e3o em curso: uma aceita\u00e7\u00e3o crescente, especialmente entre grande parte das pessoas mais jovens, da f\u00e1cil fluidez e ambiguidade de g\u00eanero. Em 2014, o Facebook deixou de restringir as op\u00e7\u00f5es de g\u00eanero como apenas homem ou mulher, e <a href=\"http:\/\/ladobi.uol.com.br\/2014\/02\/56-opcoes-genero-facebook\/\" target=\"_blank\">come\u00e7ou a oferecer para seus usu\u00e1rios mais de 50 outras op\u00e7\u00f5es<\/a> (dentre elas neutrois, genderqueer e cis). Em 2015, a rede social abandonou definitivamente o menu de op\u00e7\u00f5es pr\u00e9-definidas e passou a simplesmente permitir que seus usu\u00e1rios coloquem at\u00e9 dez termos de sua escolha. Encontramo-nos numa posi\u00e7\u00e3o em que o g\u00eanero tem uma import\u00e2ncia tremenda e, ao mesmo tempo, n\u00e3o tem qualquer import\u00e2ncia.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3903 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ladobi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jaden-smith-689x1024.jpg?resize=458%2C680\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" srcset=\"http:\/\/ladobi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jaden-smith-202x300.jpg 202w, http:\/\/ladobi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jaden-smith-768x1141.jpg 768w, http:\/\/ladobi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jaden-smith-689x1024.jpg 689w, http:\/\/ladobi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jaden-smith.jpg 1010w\" alt=\"jaden-smith\" width=\"458\" height=\"680\" data-lazy=\"load\" data-lazy-src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ladobi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jaden-smith-689x1024.jpg\" data-lazy-srcset=\"http:\/\/ladobi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jaden-smith-202x300.jpg 202w, http:\/\/ladobi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jaden-smith-768x1141.jpg 768w, http:\/\/ladobi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jaden-smith-689x1024.jpg 689w, http:\/\/ladobi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jaden-smith.jpg 1010w\" \/><\/p>\n<p>O impulso de se reexaminar o que se considerava certo\u00a0j\u00e1 gerou\u00a0consequ\u00eancias pr\u00e1ticas \u2013 como moradias estudantis e banheiros escolares\u00a0indiferentes ao g\u00eanero \u2013 e ondas culturais. Escritores como Jill Soloway (criadora de\u00a0<em>Transparent<\/em>) e Maggie Nelson (autora da mem\u00f3ria familiar queer\u00a0<em>The Argonauts<\/em>) descobriram o drama humano na mutabilidade do g\u00eanero humano. Enquanto isso, o site <a href=\"https:\/\/www.buzzfeed.com\/meredithtalusan\/what-people-tell-gender-non-binary-people\" target=\"_blank\">BuzzFeed<\/a>oferece uma lista ilustrada que compara \u201cO que as pessoas dizem para pessoas de g\u00eanero n\u00e3o-bin\u00e1rio vs. o subtexto que escutamos\u201d, e Rookie apresenta a HQ \u201cMy Gender Is Weird\u201d (Meu g\u00eanero \u00e9 esquisito). Veja o que <em>Teen Vogue<\/em> comentou sobre a foto acima, de Jaden Smith usando terno e saia: \u201co saiote emite uma rejei\u00e7\u00e3o mordaz da heteronormatividade\u201d. Que s\u00e1bio poderia prever que\u00a0<em>heteronormatividade<\/em> um dia acabaria no vocabul\u00e1rio de revistas para adolescentes e conte\u00fado online feito para ser compartilhado? Apenas, talvez, a te\u00f3rica queer Judith Butler.<\/p>\n<p>Butler solta uma risada quando eu lhe conto sobre o veredito que\u00a0<em>Teen Vogue<\/em> emitiu sobre Jaden Smith. \u201cAcho que poucos de n\u00f3s seriam capazes de prever isso\u201d, afirma Butler, ponderando sobre o interesse nascente sobre as quest\u00f5es de g\u00eanero na grande cultura. Conversamos pouco depois de o presidente Obama declarar publicamente seu apoio aos direitos das pessoas transg\u00eanero na luta contra as leis sobre o uso de banheiros da Carolina do Norte, e o g\u00eanero \u2013 como algo que requer uma defini\u00e7\u00e3o, como algo potencialmente amb\u00edguo ou complexo \u2013 tornou-se o centro dos debates nacionais. \u201cUm posicionamento como esse vindo de um presidente dos Estados Unidos seria algo imposs\u00edvel na d\u00e9cada de 1990\u201d, afirma Butler.<\/p>\n<p><em>Problemas de g\u00eanero<\/em>, publicado em 1990, tranformou Butler numa estrela: o livro apresentou o conceito de \u201cperformatividade\u201d, a ideia de que o g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 algo que n\u00f3s\u00a0<em>somos<\/em>, mas sim algo que constantemente\u00a0<em>fazemos<\/em>, abrindo as portas para \u201cproliferarem configura\u00e7\u00f5es culturais de sexo e g\u00eanero\u201d, como ela escreve na conclus\u00e3o do livro, \u201cconfundindo o pr\u00f3prio binarismo do sexo, e expondo sua artificialidade fundamental\u201d. N\u00e3o fosse a obra de Butler, \u201cn\u00e3o se teria o tipo de experi\u00eancia genderqueer que temos hoje\u201d, afirma Jack Halberstam, professor de estudos de g\u00eanero na universidade de Columbia. \u201cEla deixou claro que o corpo n\u00e3o \u00e9 uma funda\u00e7\u00e3o est\u00e1vel para a express\u00e3o de g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p>Durante grande parte de sua carreira, Butler era conhecida apenas no interior\u00a0do mundo acad\u00eamico, em parte por causa da dificuldade de sua prosa. E, no entanto, o esfor\u00e7o que Butler exige de seus leitores \u00e9 um esfor\u00e7o que, mais do que nunca, eles est\u00e3o dispostos a fazer \u2013 talvez n\u00e3o lendo, necessariamente, seus textos te\u00f3ricos, mas durante suas viv\u00eancias di\u00e1rias. As pessoas fora do mundo acad\u00eamico est\u00e3o questionando aquilo que antes consideravam certo; elas encaram\u00a0ideias novas e examinam seu pr\u00f3prio desconforto. \u201cN\u00e3o ria\u201d, <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/news\/inspired-life\/wp\/2016\/04\/05\/dont-laugh-i-have-a-serious-reason-for-raising-my-cats-gender-neutral\/\" target=\"_blank\">exibia uma manchete numa edi\u00e7\u00e3o recente do jornal\u00a0<em>The Washington Post<\/em><\/a>. \u201cEu tenho uma raz\u00e3o s\u00e9ria para criar meus gatos no g\u00eanero neutro\u201d. (A raz\u00e3o: para lembrar-se de usar os pronomes corretos para amigues non-bin\u00e1ries). Enquanto isso, o palavr\u00f3rio\u00a0te\u00f3rico se infiltrou no vocabul\u00e1rio civil. <em>Tropo<\/em> e\u00a0<em>problem\u00e1tico<\/em>e\u00a0<em>heteronormativo<\/em>; at\u00e9 mesmo, num sentido nem t\u00e3o similar ao empregado por Butler,\u00a0<em>performativo<\/em> \u2013 o tipo de palavras que permeiam as cr\u00edticas de guerra cultural da teoria queer \u2013 sentem-se em casa em p\u00e1ginas no Tumblr e tu\u00edtes. Numa vers\u00e3o gen\u00e9rica e vastamente simplificada, a compreens\u00e3o de g\u00eanero sugerida por\u00a0<em>Problemas de g\u00eanero<\/em> n\u00e3o apenas \u00e9 reconhec\u00edvel; \u00e9 pop.<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>\u201cOutra noite eu estava assistindo a\u00a0<em>Scandal\u201d<\/em>, conta Butler, \u201ce aconteceu um momento incr\u00edvel em que um personagem negro falou, \u2018Ah, a ra\u00e7a \u00e9 apenas uma constru\u00e7\u00e3o social\u2019.\u201d Ela gosta de observar esse tipo de poliniza\u00e7\u00e3o cultural. \u201cAchei hil\u00e1rio! Foi um momento em que uma discuss\u00e3o acad\u00eamica foi levada \u00e0 cultura popular.\u201d (Butler tamb\u00e9m assiste a\u00a0<em>Transparent<\/em>, que ela considera \u201cincrivelmente divertido\u201d mas \u201cexplora melhor a vida judia que a vida trans. Meio que remete \u00e0 ideia de transg\u00eanero de\u00a0<em>A Gaiola das Loucas<\/em>\u201c.) Esse tipo de coisa acontece agora com certa frequ\u00eancia, e muitas vezes transcende o meramente engra\u00e7ado, como quando Laverne Cox fala sobre Simone de Beauvoir durante entrevistas. \u201cLaverne diz, \u2018foi aquela frase, que uma pessoa n\u00e3o nasce mulher, mas torna-se mulher, que fez com que fosse poss\u00edvel eu pensar que eu poderia me tornar trans\u2019,\u201d recorda-se Butler. \u201cSabe, \u00e9 bem louco que h\u00e1 essa pessoa presente na cultura popular que j\u00e1 leu e confrontou\u00a0essas ideias, e saiu pelo mundo, e\u00a0levou essas ideias consigo a novos p\u00fablicos.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA gera\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e, pessoas com mais de 80 anos, est\u00e1 fazendo grandes debates sobre essas quest\u00f5es\u201d, conta. \u201cEst\u00e1 tudo sobre a mesa. E pode-se falar de tudo.\u201d<\/p>\n<p><em>Problemas de G\u00eanero<\/em> n\u00e3o mudou \u2013 os cap\u00edtulos ainda d\u00e3o a sensa\u00e7\u00e3o de serem maratonas. E, no entanto, completar essa prova de resist\u00eancia, hoje, deixa o leitor moderninho com uma curiosa sensa\u00e7\u00e3o de leveza. A sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a de que a maneira como se encara o mundo ficou de pernas para o ar, mas sim de que ela foi explicada em detalhes. O g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 um fato biol\u00f3gico essencial:\u00a0<em>claro<\/em>. Ele vem a ser por meio de a\u00e7\u00f5es repetidas, ent\u00e3o, assim, eu me torno reconhecida como \u201cmenina\u201d por fazer coisas de menina:\u00a0<em>OK<\/em>. O mundo que conhecemos em geral presume que todos s\u00e3o heterossexuais; as pessoas que n\u00e3o seguem essas regras, de g\u00eanero, de heterossexualidade, pagam um pre\u00e7o; e, apesar de talvez n\u00e3o ser poss\u00edvel escapar disso, podemos encontrar maneira de questionar essa situa\u00e7\u00e3o, e talvez at\u00e9 min\u00e1-la, tornando a vida mais f\u00e1cil para todos:\u00a0<em>\u00e9, faz sentido mesmo.<\/em><\/p>\n<p>Alexandra Kleeman, jovem escritora que explora a feminilidade em toda sua estranheza cuidadosamente elaborada em seu livro <em>You Too Can Have a Body Like Mine\u00a0<\/em>(\u201cVoc\u00ea tamb\u00e9m pode ter um corpo como o meu\u201d), me contou sobre o dia, no come\u00e7o de seu primeiro semestre numa p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Berkeley (onde Butler leciona), quando viu a professora sentada na cal\u00e7ada, falando ao telefone. Butler estava agachada pr\u00f3ximo ao ch\u00e3o; ela parecia t\u00e3o pequena, lembra-se Kleeman, \u201ce no entanto ela continha todas aquelas teorias\u201d. Em conversas, v\u00e1rios admiradores e ex-alunos de Butler com que falei tentaram descrever sua presen\u00e7a comparando-a com celebridades: Bob Dylan, Jon Stewart, Serena Williams. Como acontece com v\u00e1rias pessoas famosas e poucas figuras do mundo acad\u00eamico, \u201cJudith Butler\u201d \u00e9 ao mesmo tempo uma ideia empolgante e uma pessoa real.<\/p>\n<p>Aos 60 anos, Butler tem a eleg\u00e2ncia esbelta e ineg\u00e1vel de uma hero\u00edna de Shakespeare que se disfar\u00e7a de homem \u2013 uma vers\u00e3o da androginia que tem menos a ver com a masculinidade ou feminilidade e mais com o fato de que um par de cal\u00e7as \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para o vestu\u00e1rio. Uma vez um jornal alem\u00e3o a descreveu como algu\u00e9m que se parece com \u201cum jovem italiano\u201d, e ela achou curioso. Ela se veste bastante de cinza e preto. Seu cabelo \u00e9 curto, divido para o lado, e cai um pouco para a frente quando ela fala, o que faz com que ela o puxe para tr\u00e1s com as duas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Butler cresceu em Cleveland, onde seu pai trabalhava como dentista e a fam\u00edlia de sua m\u00e3e era dona de uma rede de cinemas. Quando ela tinha 12 ou 13 anos, foi entrevistada por uma amiga de sua m\u00e3e como parte de um programa de treinamento de professores. Quando questionada sobre qual seria o trabalho de seus sonhos, a Judith pr\u00e9-adolescente afirmou que gostaria de ser fil\u00f3sofa ou palha\u00e7a. Essa resposta soa ou impossivelmente inocente ou impossivelmente precoce; dado que ela era uma aluna de ensino fundamental que importunava seu rabino com perguntas sobre Martin Buber, provavelmente a segunda hip\u00f3tese. Butler era uma leitora intensa e concentrada. Ela tamb\u00e9m era homossexual, ent\u00e3o fazer a matr\u00edcula na faculdade trouxe consigo um conjunto de preocupa\u00e7\u00f5es todas pr\u00f3prias. Butler frequentou Bennington porque \u201cparecia ser um lugar em que eu ficaria bem mesmo sendo uma jovem queer em 1974\u201d, recorda-se. \u201cEu sabia que havia outras pessoas l\u00e1 que eram pelo menos minimamente bissexuais.\u201d (Seus pais, apesar de nem sempre sentirem-se confort\u00e1veis com sua sexualidade, aceitaram-na. Ela lembra-se de que seu pai ficou muito feliz quando ela veio visit\u00e1-los com uma namorada judia.)<\/p>\n<p>Depois de dois anos, ela pediu transfer\u00eancia\u00a0para Yale, para participar de seu programa de filosofia, onde ela permaneceu at\u00e9 o fim de seu doutorado. Butler era um membro ativo dos grupos de mulheres de New Haven e Yale, e seu per\u00edodo no campus coincidiu com a emerg\u00eancia dos estudos femininos como uma disciplina acad\u00eamica. Ela escreveu sua disserta\u00e7\u00e3o sobre Hegel e conquistou um doutorado em filosofia.<\/p>\n<p>Com\u00a0<em>Problemas de G\u00eanero<\/em>, publicado quando ela tinha 33 anos, Butler come\u00e7ou a articular uma teoria de g\u00eanero que se encaixava na tradi\u00e7\u00e3o continental que estudava. O livro bebia de Foucault, Freud, L\u00e9vi-Strauss, Lacan, Irigaray, Wittig, Kristeva, e de Beauvoir. (Hegel, Derrida e Nitzche espreitam por detr\u00e1s). Mas o ponto de partida da an\u00e1lise de Butler \u00e9 reconhecidamente pr\u00e1tico: como se define \u201cser mulher\u201d; de\u00a0que presun\u00e7\u00f5es isso depende? E, se um movimento feminista se define como algo que luta pelos direitos das mulheres,\u00a0tem em mente os direitos de quem?<\/p>\n<p>Halberstam, que fazia p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o (e era\u00a0<em>genderqueer<\/em>) quando\u00a0<em>Problemas de\u00a0<\/em><em>G\u00eanero<\/em> foi publicado, lembra-se que para ela o livro foi uma revela\u00e7\u00e3o, uma fuga do \u201csufocamento\u201d das pol\u00edticas de identidade da era. \u201cO feminismo acad\u00eamico estava repleto\u00a0de problemas naquela \u00e9poca, por causa de frases como\u00a0<em>O pessoal \u00e9 pol\u00edtico<\/em>, que fazia com as pessoas meio que ficasse sentado em roda de m\u00e3os dadas e contando suas vidas uns para os outros\u201d, considera Halberstam. \u201c<em>Problemas de G\u00eanero<\/em> forneceu \u00e0s pessoas uma maneira de pensar criticamente, filosoficamente, abstratamente sobre o que significa estar num conflito pol\u00edtico em que a categoria da feminilidade, ao inv\u00e9s de estar se mantendo unida e coesa, possa na verdade estar se estra\u00e7alhando e se desfazendo.\u201d Ela e seus colegas de teoria\u00a0queer estavam respondendo a for\u00e7as j\u00e1 presentes na cultura, acredita Butler, montando uma estrutura intelectual que desse apoio aos esfor\u00e7os dos ativistas.<\/p>\n<p>No ensaio (que come\u00e7ou como uma palestra que ela fez em Yale em 1989, durante a Confer\u00eancia sobre a Homossexualidade), Butler investigou o que significa se apresentar em sua categoria de identidade em particular \u2013 \u201cteorizar sendo l\u00e9sbica\u201d. Todas categorias como essa, inclusive \u201cl\u00e9sbica\u201d, poderiam ser \u201cinstrumentos de regimes reguladores, sejam como as categorias normalizadoras de estruturas opressivas ou como pontos em comum para uma contesta\u00e7\u00e3o liberadora dessa mesma opress\u00e3o.\u201d N\u00e3o \u00e9 que ela esteja rejeitando esse r\u00f3tulo, continua, mas que gostaria de permanecer \u201cpermanentemente incomodada por categorias de identidade\u201d. Na verdade, continua, \u201cse a categoria deixasse de causar inc\u00f4modo, deixaria de ser do meu interesse: \u00e9 precisamente o\u00a0<em>prazer\u00a0<\/em>produzido pela instabilidade das categorias que mant\u00e9m as diversas pr\u00e1ticas er\u00f3ticas que me tornam uma candidata para a categoria, para in\u00edcio de conversa.\u201d<\/p>\n<p>Butler resiste a tentativas de ser colocada em caixinhas, mas n\u00e3o foi capaz de escapar \u00e0 for\u00e7a massacrante de sua reputa\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio dos anos 1990, uma universit\u00e1ria da Universidade de Iowa publicou um fanzine chamado\u00a0<em>Judy!<\/em>; ela avaliava que Butler \u00e9 \u201cmeio Gap\u201d mas \u201cainda d\u00e1 um caldo\u201d. O reconhecimento para al\u00e9m dos port\u00f5es da academia demorou mais a chegar. N\u00e3o foi at\u00e9 1998 que o\u00a0<em>New York Times<\/em> explicou a ascens\u00e3o da teoria queer a seus leitores, apesar de ter citado Butler juntamente de Cornel West como exemplos de professores superstar\u00a0no m\u00eas anterior. (A primeira apari\u00e7\u00e3o de Butler nessas p\u00e1ginas foi em uma carta ao editor em 1995: ela enfrentou\u00a0os autores de um artigo que criticava as letras de can\u00e7\u00f5es gangsta-rap usando uma refer\u00eancia a Plat\u00e3o que haviam utilizado contra os pr\u00f3prios: \u201cSeja com S\u00f3focles ou Snoop Doggy Dogg, a ang\u00fastia social que eles representam n\u00e3o ser\u00e1 eliminada ao condenar-se essa representa\u00e7\u00e3o\u201d, escreveu.)<\/p>\n<p>Ao final da d\u00e9cada de 1990, Butler havia obtido o tipo de status perene\u00a0que atrai cr\u00edticos. Por v\u00e1rios anos, a revista\u00a0<em>Philosophy and Literature<\/em> promoveu um concurso de \u201cEscrita Ruim\u201d para prosa acad\u00eamica. Butler conquistou essa honraria duvidosa em 1990, com o seguinte par\u00e1grafo:<\/p>\n<blockquote><p>O movimento de uma narrativa estruturalista em que o capital \u00e9 compreendido como algo que estrutura as rela\u00e7\u00f5es sociais em maneiras relativamente hom\u00f3logas para uma vis\u00e3o de hegemonia em que as rela\u00e7\u00f5es de poder est\u00e3o sujeitas a repeti\u00e7\u00e3o, converg\u00eancia e rearticula\u00e7\u00e3o trouxe a quest\u00e3o da temporalidade ao racioc\u00ednio da estrutura, e marcou a mudan\u00e7a de uma forma de teoria althusseriana que trata totalidades estruturais como se fossem objetos teor\u00e9ticos para uma em que a compreens\u00e3o da possibilidade contingente de estrutura inaugura uma concep\u00e7\u00e3o renovada de hegemonia como algo ligado aos lugares contingentes e \u00e0s estrat\u00e9gias de rearticula\u00e7\u00e3o de poder.<\/p><\/blockquote>\n<p>No ano seguinte, a fil\u00f3sofa Martha Nussbaum escreveu uma longa cr\u00edtica sobre Butler para a revista\u00a0<em>The New Republic<\/em>. Nussbaum maldisse\u00a0sua prosa, que descreveu como \u201cexasperadora\u201d; argumentou que ela turvava o racioc\u00ednio derivativo. Mais importante, por\u00e9m, \u00e9 que Nussbaum reprovava o feminismo segundo Butler: em sua opini\u00e3o, Butler ignorava o \u201csofrimento material de mulheres que passam fome, n\u00e3o sabem ler, s\u00e3o estupradas e espancadas\u201d em prol de concentrar-se \u201cnarcisisticamente na auto-apresenta\u00e7\u00e3o pessoal\u201d. A obra de Butler, afirmava, n\u00e3o era mais que \u201cquietismo da moda\u201d ineficaz e passivo; \u201cgays e l\u00e9sbicas n\u00e3o v\u00e3o alcan\u00e7ar a prote\u00e7\u00e3o legal\u201d por meio de atividade intelectual como a de Butler, continuava, quase como um adendo. As reclama\u00e7\u00f5es dos cr\u00edticos de Butler na d\u00e9cada de 1990 e os cr\u00edticos da cultura politicamente correta de campus compartilham o ceticismo sobre o poder das palavras de transformar o mundo.<\/p>\n<p>Ao formular seu conceito de performatividade de g\u00eanero, Butler apoiou-se no trabalho de J. L. Austin, o fil\u00f3sofo da linguagem que criou o conceito de elocu\u00e7\u00f5es perform\u00e1ticas\u201d: atos da fala que n\u00e3o apenas descrevem a realidade mas a transformam, como dizer \u201cAceito\u201d numa cerim\u00f4nia de casamento. Sua sacada foi aplicar essa ideia n\u00e3o s\u00f3 para palavras, mas tamb\u00e9m para a\u00e7\u00f5es. Mas, como Austin apontou, a\u00e7\u00f5es perform\u00e1ticas ainda podem ser \u201cinfelizes\u201d \u2013 dizer \u201caceito\u201d n\u00e3o muda nada se as pessoas que est\u00e3o falando n\u00e3o t\u00eam permiss\u00e3o para se casarem; h\u00e1 sempre o elemento do contexto social, uma necessidade de reconhecimento e reciprocidade. Prestar aten\u00e7\u00e3o em mat\u00e9rias como pronomes \u201creconhece e leva muito, muito a s\u00e9rio a ideia de que a linguagem tem import\u00eancia\u201d, diz Butler.<\/p>\n<p>\u201cEu sempre fico me sentindo mal-educada quando interrompo algu\u00e9m para dizer \u2018n\u00e3o, n\u00e3o me chame assim, eu n\u00e3o gosto\u2019,\u201d Butler confessa. \u201cEu fico com aquela sensa\u00e7\u00e3o,\u00a0<em>credo, eu sou a pol\u00edcia<\/em>, eu fico vigiando a linguagem de todo mundo. Por outro lado, eu n\u00e3o quero viver com refer\u00eancias de g\u00eanero que para mim s\u00e3o muito ofensivas\u201d. Um desses dilemas acontece quando ela \u00e9 chamada de \u201cdama\u201d em restaurantes. \u201cEu penso,\u00a0<em>Deus do c\u00e9u, eu n\u00e3o estou nessa luta h\u00e1 tanto tempo para ficar sendo chamada de \u2018dama\u2019.<\/em> \u00c0s vezes eu estou acompanhada de pessoas, nascidas nos mais diversos g\u00eaneros, que querem ser uma dama. Para essas pessoas, \u00e9 fabuloso ser uma dama. E eu amo as damas; n\u00e3o me compreenda mal\u201d, conta. \u201cEu fico feliz de vivermos num mundo em que h\u00e1 damas.\u201d<\/p>\n<p>Quando est\u00e1 lecionando para uma classe pequena, Butler pergunta para seus alunos qual \u00e9 o pronome que preferem que seja utilizado; \u00e0s vezes eles se importam, \u00e0s vezes n\u00e3o. \u201c\u00c9 a maneira mais imediata e local de se fazer uma interven\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. \u201cMas isso n\u00e3o chega a realmente atacar as funda\u00e7\u00f5es da transfobia ou da homofobia\u201d, continua, numa linha que seria apreciada por Nussbaum. \u201cN\u00e3o acho que podemos entrar no tipo de idealismo lingu\u00edstico que diz \u201cah, basta mudarmos nossa linguagem, e mudaremos o mundo\u201d.<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>Em Berkeley, onde trabalha desde 1993, Butler \u00e9, de v\u00e1rias formas, surpreendentemente acess\u00edvel para uma celebridade acad\u00eamica. Ela d\u00e1 uma quantidade normal de aulas. Isso que dizer que, durante o primeiro semestre de 2016, por exemplo, era poss\u00edvel encontr\u00e1-la duas vezes por semana numa classe com 50 alunos de gradua\u00e7\u00e3o, comandando uma palestra de literatura comparada sobre os \u201cDramas da amizade queer\u201d. Butler tem uma performance tranquila, e incentiva que seus alunos tragam suas cadeiras mais para frente. Quando se v\u00ea a maneira\u00a0como ela se dirige ao p\u00fablico, se percebe como sua escrita \u00e9 animada por sua presen\u00e7a \u2013 se ler sua obra \u00e9 cansativo, pessoalmente quem dispende energia \u00e9 a pr\u00f3pria Butler, n\u00e3o sua plateia.<\/p>\n<p>Butler costumava ter uma sala junto do resto de seus colegas no departamento de literatura comparada, mas o movimento que ela atra\u00eda come\u00e7ou a se tornar opressivo. Agora ela trabalha no meio do departamento de hist\u00f3ria da arte: o cart\u00e3o postal de Van Gogh no lado de fora de sua porta serve de camuflagem. Mesmo assim, eu cruzo com um par de alunos que viram suas cabe\u00e7as para tr\u00e1s. \u201cAquela ali que acabou de passar pela gente era a Judith Butler\u201d, diz um delez, \u201cindo para o banheiro!\u201d.<\/p>\n<p>Butler veio para Berkeley pouco depois de\u00a0<em>Gender Trouble\u00a0<\/em>ganhar sua reputa\u00e7\u00e3o. Parte dos atrativos da ba\u00eda de San Francisco era o prospecto de um lugar confort\u00e1vel para se ter uma fam\u00edlia \u2013 um local em que se pode criar um filho e fazer com que esse filho se sinta em casa. Wendy Brown, a parceira de Butler, \u00e9 professora de ci\u00eancias pol\u00edticas em Berkeley, e o filho delas, Isaac, agora tem 21 anos. \u201cUma vez, quando ele era mais novo, eu disse, \u2018e a\u00ed, como \u00e9 pra voc\u00ea ter m\u00e3es queer?\u2019,\u201d lembra-se Butler. \u201cEle respondeu, \u2018isso n\u00e3o \u00e9 a parte dif\u00edcil. A parte dif\u00edcil \u00e9 ter duas m\u00e3es acad\u00eamicas\u2019.\u201d Isaac tem longos cabelos cacheados, e estuda m\u00fasica em Wesleyan; numa entrevista que ele deu com sua banda no primeiro ano de faculdade, dizia que seu encontro dos sonhos seria com Beyonc\u00e9 ou Grace Kelly.<\/p>\n<p>\u201cO feminismo deles \u00e9 muito mais claro que o meu quando eu tinha a mesma idade\u201d, acredita Butler, comparando-se a seu filho e seus amigos (em sua maioria, heterossexuais). Ela conversou com alguns deles h\u00e1 pouco tempo sobre como tratar o sexo no campus de forma \u00e9tica. \u201cPara eles, n\u00e3o havia a impress\u00e3o de que precisavam agir como policiais, mas sim que eles t\u00eam que comparecer e dar o exemplo de uma forma diferente de cultura, e conversar com outros homens que resistem a isso.\u201d Essas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam que ser sempre uma quest\u00e3o de se vigiar comportamentos, ela aponta, com o idealismo de um acad\u00eamico e o olhar materno que busca sempre o refor\u00e7o positivo. \u201cAssim,\u00a0<em>t\u00e1, eu gosto de me divertir; eu gosto de dan\u00e7ar; eu gosto de fazer sexo! Mas vamos parar para pensar sobre as condi\u00e7\u00f5es sob as quais isso pode funcionar.<\/em> \u00c9 a base da \u00e9tica sexual. Qual \u00e9 o tipo de comunidade que n\u00f3s queremos construir?\u201d<\/p>\n<p>Isaac pertence a uma gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 considera Butler parte de seu c\u00e2none. Hoje, \u00e9 poss\u00edvel entrar na internet e ler <a href=\"http:\/\/www.themarysue.com\/judith-butler-explained-with-cats\/\" target=\"_blank\">a teoria de performatividade de g\u00eanero de Judith Butler explicada por gatinhos<\/a>. H\u00e1 p\u00e1ginas do Facebook como \u201cJudith Butler \u00e9 minha amiga\u201d. Cita\u00e7\u00f5es de\u00a0<em>Problemas de g\u00eanero<\/em> s\u00e3o republicadas constantemente no Tumblr. E no entanto, aponta Maria Trumpler, diretora do Gabinete de Recursos LGBT de Yale e professora de estudos femininos, de g\u00eanero e da sexualidade, para os jovens que ela encontra em Yale hoje, 40 anos depois que Butler fez gradua\u00e7\u00e3o por l\u00e1,\u00a0<em>Problemas de g\u00eanero<\/em> est\u00e1 \u201cbastante defasado\u201d. Em particular nos \u00faltimos quatro anos, afirma Trumpler, surgiu um crescimento gigantesco de interesse por parte dos alunos em identidades \u201cal\u00e9m do bin\u00e1rio\u201d, como ag\u00eanero, big\u00eanero e\u00a0<em>genderqueer<\/em>.<\/p>\n<p>Butler fica felic\u00edssima ao ver o trabalho que vai al\u00e9m do seu. \u201cEu n\u00e3o abordei\u00a0transg\u00eaneros muito bem\u201d, lamenta a respeito de\u00a0<em>Problemas de g\u00eanero<\/em>. O livro n\u00e3o prev\u00ea a viv\u00eancia de g\u00eanero de algu\u00e9m como Caitlyn Jenner, que descreve como sentia que seu c\u00e9rebro era \u201cmuito mais feminino que masculino\u201d, por exemplo. \u201cPortanto, de v\u00e1rias maneiras, esse \u00e9 um livro muito datado\u201d, afirma Butler. \u201cE um que n\u00e3o foi capaz de lucrar com o trabalho acad\u00eamico extraordin\u00e1rio que aconteceu nessa \u00e1rea nos anos seguintes\u201d.<\/p>\n<p>David Halperin foi outro dos primeiros te\u00f3ricos queer; seu livro mais recente \u00e9\u00a0<em>How to be gay<\/em>(\u201cComo ser gay\u201d). Ele leciona na Universidade de Michigan. Hoje em dia, afirma, os alunos aprendem as ideias de Butler \u201cem cursos sobre justi\u00e7a social, em que tudo se transforma num tipo de serm\u00e3o sobre quais s\u00e3o as vis\u00f5es pol\u00edticas apropriadas que se deve ter sobre minorias e igualdade, estigma, multiculturalismo e por a\u00ed vai.\u201d As ideias tornam-se \u201cuma s\u00e9rie de li\u00e7\u00f5es pol\u00edticas\u201d, muitas vezes encontradas em cita\u00e7\u00f5es de segunda ou terceira m\u00e3o feitas em outros textos. Lara Sokoloff, membro dos formandos de 2016 de Yale que defendeu sua tese sobre pol\u00edticas de g\u00eanero, v\u00ea Butler como \u201cuma grande figura maternal nos estudos de g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQuando fizemos isso tudo naquela \u00e9poca, a gente estava tentando encontrar maneiras de dizer e pensar o que nunca havia sido dito ou pensado\u201d, lembra-se Halperin. Essa mudan\u00e7a da marginalidade para o\u00a0<em>mainstream<\/em> pode ser desconcertante para acad\u00eamicos que ganharam fama por serem radicais.<\/p>\n<p>Butler come\u00e7ou a antecipar a liberdade de sua aposentadoria. (\u201cCuidar de si mesma \u00e9 importante, principalmente conforme se envelhece\u201d, afirma; ela faz yoga duas vezes por semana e faz nata\u00e7\u00e3o quase todos os dias.) A aposentadoria \u201cdesinstitucionaliza seu trabalho\u201d, explica. \u201cMas n\u00e3o reduz a quantidade de trabalho.\u201d Apesar da sociedade ter alcan\u00e7ado as quest\u00f5es que ela levantou sobre g\u00eanero, e mesmo se de algumas maneiras at\u00e9 a ultrapassou, ela anseia por outras quest\u00f5es, ainda espinhosas. Nos \u00faltimos anos, Butler vem refletindo sobre como definimos o ser humano. Quais vidas s\u00e3o vistas como valiosas; quais mortes s\u00e3o, portanto, dignas de pesar? Ela j\u00e1 escreveu sobre a ret\u00f3rica da \u201cguerra contra o terror\u201d p\u00f3s 11 de setembro, Guant\u00e1namo, Israel, e brutalidade policial. A dificuldade, para Butler, muitas vezes continua sendo a raz\u00e3o de se escrever. Mas a possibilidade de que essas coisas venham a se tornar um pouco mais f\u00e1ceis \u00e9 um dos encantos desse novo mundo. Um projeto que vem discutindo recentemente com o psic\u00f3logo e escritor Ken Corbett, seu amigo, \u00e9 uma nova vers\u00e3o de\u00a0<em>Problemas de g\u00eanero<\/em> \u2013 ilustrada, para crian\u00e7as entre 8 e 12 anos.<\/p>\n<p>http:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/destaque-outras-midias\/como-judith-butlher-mudou-a-maneira-de-entender-o-genero\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Molly Fischer &#8211;\u00a0Quem \u00e9, e como construiu suas ideias, a fil\u00f3sofa segundo a qual g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 o que \u201csomos\u201d, mas algo que constantemente &#8220;fazemos&#8221; Em se tratando de uma celebridade\u00a0que represente\u00a0\u201ctudo que supostamente h\u00e1 de esquisito com A Juventude\u201d, at\u00e9 que Jaden Smith n\u00e3o \u00e9 dos piores: tuiteiro sagaz, ocasionalmente anarquista, autointitulado \u201cfuturo da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1443,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1442","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 - 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